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02/12/15

"Quando se confunde a obra-prima do mestre com a prima do mestre-de-obras "

no Público
2 de Dezembro de 2015

por Santana Castilho*

1. Enquanto se discutiu o problema da legitimidade constitucional e política para governar, o desemprego voltou a subir, a emigração não parou, o investimento não cresceu, o débil crescimento económico estagnou e os casos TAP e Novo Banco agigantaram-se (na TAP vendem-se terrenos e prédios para pagar a factura da compra e no banco há que injectar 1400 milhões até ao fim do ano).

Enquanto se discutiu o problema da legitimidade constitucional e política para governar, António Costa foi dizendo, cá, que havia chegado o novo tempo: o da recuperação de salários e pensões, da descida de impostos, do investimento na Saúde, na Educação, na Ciência e na Cultura, do fim da austeridade. E foi dizendo, lá, em Bruxelas, que cumpriria as regras orçamentais acordadas, baixando défice e dívida.

Subida a ladeira do poder, também aqui o tempo é novo: o de cumprir, fazendo.

2. Enquanto se discutiu o problema da legitimidade constitucional e política para governar, vieram a público dois importantes relatórios em que se analisa a Educação nacional. Refiro-me ao Estado da Educação 2015, do Conselho Nacional de Educação, e ao Education at a Glance 2015, da OCDE. Pelo primeiro, ficámos a saber que o insucesso escolar aumentou nos últimos três anos, em todos os anos da escolaridade, enquanto diminuiu, pela primeira vez em 41 anos de democracia, a taxa de cobertura do pré-escolar. Com o segundo, verificamos que a diferença entre gerações, no que a qualificações respeita, é a maior de todos os países que integram a OCDE e que o esforço das famílias para financiar os estudos superiores é o maior da União Europeia. A um e a outro registo não é alheia a natureza da ideologia que pontificou na última legislatura, durante a qual todas as políticas públicas foram marcadas por uma “economização” bruta, que as redefiniu e geriu como se de simples mercadorias se tratasse, propalando-se mesmo a ideia segundo a qual os direitos humanos fundamentais, as dimensões básicas da vida, em que a Educação se inclui, dependem da conjuntura económica por que se passa.

3. Se relativamente ao tópico 1 aguardo para ver, relativamente ao 2 já vi, de António Costa, que chegue.

Vi disparates de quem não sabe do que fala em matéria de concursos de professores e banalidades no mais, quando apresentou 55 propostas de intervenção, a que chamou “o primeiro capítulo do programa de Governo”. Referi-o nesta coluna em 6 de Maio transacto.

Vi generalidades, recuperação de tristes conceitos de Maria de Lurdes Rodrigues, propostas ocas e ideias implícitas de pouca consideração pelos professores portugueses, em sede de programa eleitoral. Tratei-o em artigos de 12 de Agosto e de 9 de Setembro.

E vi, por fim, o epílogo de um percurso, que desvaloriza a complexidade dos problemas do sistema de ensino, quando nomeia para a pasta um jovem cientista de 38 anos, de mérito reconhecido internacionalmente na sua área, mas que saiu do país aos 23, viveu os últimos 15 no estrangeiro e de quem não se conhece uma linha escrita sobre Educação, ou um pensamento expresso sobre o tema. A naturalidade e a candura com que Tiago Brandão Rodrigues fala das coisas que viveu geram empatia imediata e genuína. Isto, que é muito para uma primeira impressão, é pouco mais que nada para fazer rápido o que é urgente, em matéria de Educação.

Que se seguirá? O Parlamento a governar e Tiago Rodrigues na lapela de Costa, a ver?

O fim dos exames nacionais de Matemática e Português do 1º ciclo do ensino básico, que sempre defendi, merecia um processo diferente daquele que igualmente sempre critiquei: a mesma lógica impositiva que os criou foi usada para os abolir.

Estes exames, de que sempre discordei, repito, são um epifenómeno menor de uma questão maior, qual seja a de conferir coerência à avaliação educacional, dando instrumentos e meios para tornar eficaz a sua vertente mais nobre, a formativa, a única que pode resolver o insucesso e o abandono. Gostaria de ter visto serenidade onde se pode apontar ímpeto revanchista. Gostaria de ter visto um normativo global do Governo em vez de uma intervenção casuística da Assembleia. Gostaria de ter visto preocupação democrática para obter compromissos de prazo suficiente, que parassem o faz/desfaz em que vivemos há 41 anos, perdendo recursos e tempo, sem audição dos que estudam e investigam, sem respeito pelos alunos, pelos pais e pelos professores. Gostaria de ter visto uma Esquerda superior, preocupada com o que a Direita sempre desprezou.

Oxalá me engane e a breve trecho o jovem ministro da Educação me tenha aqui a retractar-me do que hoje escrevo. Mas a convicção de momento é que perdemos um cientista de gabarito sem ganharmos um ministro capaz, porque António Costa confundiu a obra-prima do mestre com a prima do mestre-de-obras.

* Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt)

01/12/15

"Um Governo sem tempo para errar "

no Público
01/12/2015

por José Vítor Malheiros 

Os últimos dias deram muitas razões de alegria aos democratas. Não, não digo às pessoas de esquerda. Digo aos democratas. Àquelas pessoas que acreditam que a soberania reside no povo e que todos os cidadãos, todos sem excepção, são iguais em direitos e devem ser livres para exercer esses direitos e para beneficiar dos seus frutos. Àquelas pessoas que acreditam que a liberdade é um valor universal e que pertence a todos por igual e não apenas aos que têm mais rendimentos, um nome de família mais ilustre, mais instrução ou mais qualquer outra coisa.

Depois de um Governo onde a desigualdade foi transformada em valor supremo, onde nos tentaram convencer de que a educação devia ser distribuída conforme a origem de classe dos estudantes, que a cultura apenas devia servir para benefício dos ricos, que o desenvolvimento do país exigia que se aumentassem as desigualdades salariais porque aí estava o segredo da competitividade, que a posição de Portugal na União Europeia devia ser a de um subalterno dos países mais poderosos, que a segurança no desemprego, na doença e na velhice dos cidadãos apenas podia ser garantida a quem tivesse um pé-de-meia considerável no banco, pôr um ponto final nessa iniquidade não pode ser visto senão como um sinal de esperança pelos democratas.

O grande motivo de alegria é pois o fim de um Governo de patriotas de lapela e colaboracionistas no coração que se dispunha a destruir alegremente o país, pilhando o património que pudessem, destruindo o Estado e humilhando os trabalhadores, aumentando a dívida pública e recusando-se a defender o país nos organismos internacionais para não indispor os poderes.

Outro motivo de alegria é o programa do Governo do Partido Socialista, onde o combate ao empobrecimento, ao desemprego, a defesa dos serviços públicos e a aposta na educação, na investigação e na inovação ocupam um papel central. É curioso que os senhores antiliberais que se chamam a si mesmo “liberais” para fingir que prezam a liberdade, mas que apenas defendem a liberdade dos poderosos explorarem os mais frágeis, nunca vieram a terreiro dizer que a pobreza e o desemprego eram intoleráveis porque reduziam a nada a liberdade de escolha dos cidadãos.

Outro motivo de alegria - aqui, principalmente para os cidadãos de esquerda - são os acordos de incidência parlamentar celebrados entre os PS e os partidos à sua esquerda para viabilizar o Governo, o programa e a governação socialista.

Estes acordos não deveriam ser apenas motivo de satisfação para as pessoas de esquerda porque eles significam algo que todos os democratas deveriam prezar: o fim do famigerado conceito antidemocrático de “arco da governação”, que defendia e pretendia incutir no espírito dos cidadãos a ideia segundo a qual alguns partidos possuíam um direito divino a exercer a governação e que outros deveriam para sempre ficar relegados à oposição, numa espécie de coro sem poder; e o fim de uma tradição de acção política por parte dos partidos à esquerda do PS baseada na crítica e no protesto mas que só raramente era submetida à prova da realidade. A entrada do BE, do PCP e do PEV para o clube dos partidos que podem participar na governação - como manda o direito, a democracia e a decência em relação a todos os partidos com assento parlamentar - significa que, pela primeira vez na história da democracia, a reserva de ideias onde mergulham as raízes da governação é mais rica do que antes e permite, por isso, encontrar melhores soluções.

Agora que o Governo está em funções e que tivemos uns dias para celebrar, entramos na fase mais séria da acção política. Sabemos todos que os riscos são imensos: a nossa economia está tão frágil como antes do XIX Governo de Passos Coelho; as nossas finanças estão ainda mais frágeis (apesar da propaganda); as reformas estruturais necessárias (justiça, administração pública, energia, inovação, formação profissional, etc.) não foram feitas e apenas se procedeu, com esse nome, à redução dos salários e à precarização do trabalho; a fragilidade dos bancos é maior; a situação económica e financeira da Europa está mais frágil; o ambiente internacional mais agitado. O que nos espera é difícil e será provavelmente duro. Como cidadãos, o que nos cabe é exercer o dever da maior exigência cívica que este país já viu em relação ao Governo de António Costa. A nossa responsabilidade é - ao contrário da deselegante descarga de fel de Cavaco Silva e da irresponsável oposição sistemática prometida pelo PSD e pelo CDS - garantir ao novo Governo toda a lealdade e toda a cooperação mas nenhuma condescendência, nenhuma complacência. Não temos tempo. Este Governo vai ter de governar bem em tempos difíceis e isso também depende de nós, da exigência que demonstrarmos, da vigilância que exercermos, das críticas que fizermos, dos debates que promovermos.

Uma das circunstâncias que me dão maior confiança neste Governo é, curiosamente, uma que preocupa alguns comentadores: a sua dependência parlamentar do BE e do PCP. A mim, essa vigilância dá-me confiança e espero que, com ela, o PS possa mostrar o melhor de si. 

 jvmalheiros@gmail.com

26/11/15

"Não lhes perdoo! "

no dia do enterro dos PàFs, o resumo de 4 anos de malfeitorias ..

por Francisco Seixas da Costa *
quinta-feira, 26 de novembro de 2015 
retirado daqui 

Não lhes perdoo! 

Acaba hoje aquela que constitui a mais penosa experiência política a que me foi dado assistir na minha vida adulta em democracia. Salvaguardadas as exceções que sempre existem, quero dizer que nunca me senti tão distante de uma governação como daquela a que este país sofreu desde 2011. 

Não duvido que alguns dos governantes que hoje transitam para o passado tentaram fazer o seu melhor ao longo destes cerca de quatro anos e meio. Em alguns deles detetei mesmo competência técnica e profissional, fidelidade a uma linha de orientação que consideraram ser a melhor para o país que lhes calhou governarem. Mas há coisas que, na globalidade do governo a que pertenceram, nunca lhes perdoarei. 

Desde logo, a mentira, a descarada mentira com que conquistaram os votos crédulos dos portugueses em 2011, para, poucas semanas depois, virem a pôr em prática uma governação em que viriam a fazer precisamente o contrário daquilo que haviam prometido. As palavras fortes existem para serem usadas e a isso chama-se desonestidade política. 

Depois, a insensibilidade social. Assistimos no governo que agora se vai, sempre com cobertura ao nível mais elevado, a uma obscena política de agravamento das clivagens sociais, destruidora do tecido de solidariedade que faz parte da nossa matriz como país, como que insultando e tratando com desprezo as pessoas idosas e mais frágeis, desenvolvendo uma doutrina que teve o seu expoente na frase de um anormal que jocosamente falou, sem reação de ninguém com responsabilidade, de "peste grisalha". Vimos surgir, escudado na cumplicidade objetiva do primeiro-ministro, um discurso "jeuniste" que chegou mesmo a procurar filosofar sobre a legitimidade da quebra da solidariedade inter-geracional. 

Um dia, ouvi da boca de um dos "golden boys" desta governação, a enormidade de assumir que considerava "legítimo que os reformados e pensionistas fossem os mais sacrificados nos cortes, pela fatia que isso representava nas despesas do Estado mas, igualmente, pela circunstância da sua capacidade reivindicativa de reação ser muito menor dos que os trabalhadores no ativo", o que suscitava menos problemas políticos na execução das medidas. Essa personagem foi ao ponto de sugerir a necessidade de medidas que estimulassem, presumo que de forma não constrangente, o regresso dos velhos reformados e pensionistas, residentes nas grandes cidades, "à provincia de onde tinham saído", onde uma vida mais barata poderia ser mais compatível com a redução dos seus meios de subsistência. 

Fui testemunha de atos de desprezo por interesses económicos geoestratégicos do país, pela assunção, por mera opção ideológica, por sectarismo político nunca antes visto, de um desmantelar do papel do Estado na economia, que chegou a limites quase criminosos. Assisti a um governante, que hoje sai do poder feito ministro, dizer um dia, com ar orgulhosamente convicto, perante investidores estrangeiros, que "depois deste processo de privatizações, o Estado não ficará na sua posse com nada que dê lucro". 

Ouvi da boca de outro alto responsável, a propósito do processo de privatizações, que "o encaixe de capital está longe de ser a nossa principal preocupação. O que queremos mostrar com a aceleração desse processo, bem como com o fim das "golden shares" e pela anulação de todos os mecanismos de intervenção e controlo do Estado na economia, é que Portugal passa a ser a sociedade mais liberal da Europa, onde o investimento encontra um terreno sem o menor obstáculo, com a menor regulação possível, ao nível dos países mais "business-friendly" do mundo". 

Assisti a isto e a muito mais. Fui testemunha do desprezo profundo com que a nossa Administração Públuca foi tratada, pela fabricação artificial da clivagem público-privado, fruto da acaparação da máquina do Estado por um grupo organizado que verdadeiramente o odiava, que o tentou destruir, que arruinou serviços públicos, procurando que o cidadão-utente, ao corporizar o seu mal-estar na entidade Estado, acabasse por se sentir solidário com as políticas que aviltavam a máquina pública. 

No Ministério dos Negócios Estrangeiros, assisti a uma operação de desmantelamento criterioso das estruturas que serviam os cidadãos expatriados e garantiam a capacidade mínima para dar a Portugal meios para sustentar a sua projeção e a possibilidade da máquina diplomática e consular defender os interesses nacionais na ordem externa. Assisti ao encerramento cego de estruturas consulares e diplomáticas (e à alegre reversão de algumas destas medidas, quando conveio), à retirada de meios financeiros e humanos um pouco por todo o lado, à delapidação de património adquirido com esforço pelo país durante décadas, cuja alienação se fez com uma irresponsável leveza de decisão. 

Nunca lhes perdoarei o que fizeram a este país ao longo dos últimos anos. E, muito em especial, não esquecerei que a atuação dessas pessoas, à frente de um Estado que tinham por jurado inimigo e no seio do qual foram uma assumida "quinta coluna", conseguiu criar em mim, pela primeira vez em mais de quatro décadas de dedicação ao serviço público - em que cultivei um orgulho de ser servidor do Estado, que aprendi com os exemplos do meu avô e do meu pai -, um sentimento de desgostosa dessolidarização com o Estado que tristemente lhes coube titular durante este triste quadriénio. 

Por essa razão, neste dia em que, com imensa alegria, os vejo partir, não podia calar este meu sentimento profundo. Há dúvidas quanto ao futuro que aí vem? Pode haver, mas todas as dúvidas serão sempre mais promissoras que este passado recente que nos fizeram atravessar. Fosse eu católico e dir-lhes-ia: vão com deus. Como não sou, deixo-lhe apenas o meu silêncio. 

http://duas-ou-tres.blogspot.pt/2015/11/nao-lhes-perdoo.html 

* Francisco Manuel Seixas da Costa foi diplomata português. É hoje docente universitário, administrador de empresas e consultor. Na carreira diplomática entre 1975 e 2013, exerceu também funções políticas como Secretário de Estado dos Assuntos Europeus, entre 1995 e 2001.

09/11/15

"depois do acordo..."

retirado daqui

por Francisco Louçã
9/11/2015

O que vem depois do acordo deste fim de semana entre o PS, o Bloco e o PCP? 

Durante o fim de semana foi concluído o acordo entre o PS e o PCP, depois de ter sido estabelecido entre o BE e o PS. Há assim uma maioria no parlamento para derrotar o governo mais breve da história da democracia e para interromper a saga de Passos Coelho e de Portas. O resultado é fundamental e é histórico: depois da sangria da austeridade, começa-se a virar a página. 

Nas últimas semanas, critiquei tanto a demora em fechar este acordo quanto a pouca ousadia na sua conclusão, porque só por falta de escolha de uma afirmação forte é que pode aceitar que haja dois acordos separados – dizendo aliás o mesmo – ou até três moções de rejeição distintas. Mas agora há acordo, ele é público e por isso os temas mais importantes passam a ser o seu conteúdo e a sua durabilidade, que discuto a partir do único ponto de vista que (me) interessa, o das respostas para a crise social agravada pelo tormento da austeridade. 

Começo pelo conteúdo do acordo. 

As três condições de Catarina no debate com Costa, o abandono pelo PS da redução da TSU patronal e da TSU dos trabalhadores com diminuição da pensão, o arquivamento do despedimento conciliatório e o fim do congelamento de pensões, foram, ainda antes da campanha eleitoral, o ponto de partida do acordo deste fim de semana. Perante os resultados eleitorais em que a direita perdeu a maioria, o PS aceitou estas condições. Muitos socialistas respiraram de alívio, porque não concordavam com estas três ideias do seu partido.

Mas os acordos agora revelados e incluídos no programa para o novo governo vão mais longe, até muito mais longe. Criam uma resposta de urgência com medidas de urgência mas vão mais além, com respostas duradouras na alternativa à austeridade se houver determinação para tanto.

Determinam o fim das privatizações. Não haverá mais privatizações. Incluem ainda a reversão dos recentes processos de concessão dos transportes urbanos de Lisboa e Porto. Protegem a água como bem público essencial.

Quanto aos rendimentos do trabalho, beneficiam milhões de trabalhadores. Os salários função pública são repostos (a restituição é concluída já em 2016) e todos os salários do sector privado são beneficiados (acima de 600 euros pela redução da sobretaxa, que é extinta em 2017, abaixo de 600 euros pelo abatimento da dedução para a segurança social, sem efeito nas pensões futuras e sem reduzir o financiamento do sistema previdencial). São repostos os quatro feriados, cuja perda significava mais horário de trabalho com o mesmo salário. Todos os trabalhadores são beneficiados, são 4,5 milhões.

Todas as pensões são beneficiadas (abaixo de 600 euros pelo descongelamento e pequena recuperação, acima dos 600 euros pelo fim da sobretaxa em IRS), são dois milhões de pessoas. Em contrapartida, a direita propunha-se cortar 4000 milhões de euros na segurança social (1600 milhões por via do congelamento das pensões, 2400 por abatimento de prestações anuais de 600 milhões prometidos a Bruxelas). A diferença é gigantesca.

São estabelecidas novas normas fiscais: repor a progressividade com mais escalões no IRS, o fim do quociente familiar que favorecia as famílias mais ricas e a sua substituição por uma dedução em IRS em valor igual por cada criança, uma cláusula barreira nos aumentos do IMI, que não poderão ultrapassar 75 euros num ano, a interrupção da redução de IRC, a redução do prazo para reporte de prejuízos das empresas para cinco e não doze anos e ainda a alteração às regras de modo a reduzir os benefícios fiscais de dividendos. Finalmente, reduz-se o IVA da restauração para 13%.

Na resposta à pobreza, é aumentado o Salário Mínimo para 557 euros já em 1 de janeiro de 2017 e para 600 euros até ao fim da legislatura, e é reduzida a tarifa da electricidade para as famílias mais pobres. Um milhão de pessoas beneficia destas medidas. São tomadas medidas para que os falsos recibos verdes passem a contratos efectivos e é relançada a contratação colectiva. Termina o regime de mobilidade especial na função pública, que conduzia ao despedimento.

É proibida a penhora de habitação própria por dívidas ao Estado e, quando se trata de dívida hipotecárias ao banco, a entrega da casa liquida a dívida, quando não houver outra alternativa de alteração de prazos e juros.

Foi apresentada uma lista de medidas na saúde e educação, da redução das taxas moderadoras até à reutilização dos manuais escolares.

O PS retirou ainda a sua proposta de nova lei eleitoral com círculos uninominais.

Finalmente, fica assente um procedimento de cooperação parlamentar e de consultas mútuas, incluindo a criação de comissões sobre a sustentabilidade da dívida externa e sobre o futuro da segurança social, que devem apresentar relatórios trimestrais.

O que se consegue deste modo é estabilidade na vida das pessoas, alívio para os pensionistas, recuperação de salário, protecção do emprego e mais justiça fiscal. Por outro lado, com este aumento da procura agregada, a economia vai reagir positivamente de imediato. 

O que falta então? 

Faltam ainda respostas estruturais para o investimento, para gerir a conta externa e para melhorar a balança de rendimentos, o que só se fará com uma reestruturação da dívida. E, sem ela, não se vê como possa haver suficiente margem de manobra para resistir a pressões externas e para relançar o emprego. É preciso investimento e criação de capacidade produtiva e o Estado tem que ter um papel estratégico na resposta à prolongada recessão que temos vivido.

Além disso, não se pode ainda antecipar o que serão as condições de Bruxelas e de Berlim, do BCE ou das agências de rating, mas não serão favoráveis. É de recordar que a Comissão Europeia publicou um comunicado dois dias depois das eleições exigindo novas medidas para a segurança social e que o tema continuará a ser um terreno de disputa, ou que as agências de rating têm vindo a ameaçar a República Portuguesa. Finalmente, o dossier do Novo Banco vai explodir antes do Verão, com perdas importantes para o saldo orçamental ou com exigências de recapitalização, ou de um processo de resolução bancária feito segundo exigências técnicas que protejam o bem público e abatam a dívida externa.

Estes são os problemas que nos vão bater à porta nos próximos meses e anos. A nova maioria sabe que assim é, porque assina uma cláusula de salvaguarda que garante que, perante imprevistos orçamentais ou novas situações, a resposta nunca será o aumento de impostos sobre o trabalho ou a redução de salários e pensões. Convém então que comece já a preparar o que vai ser essa resposta porque os imprevistos chegarão mais depressa do que o novo Orçamento.

03/11/15

"Como numa democracia!"

no Público
03/11/2015

por José Vítor Malheiros

Nove razões por que será bom ter um governo de esquerda  

A primeira razão é mesmo aquela que o PSD e o CDS já adivinharam e vieram denunciar nos debates televisivos em tom inflamado, como se fosse razão para uma pessoa honesta ter vergonha. A primeira razão por que será bom ter um governo de esquerda é mesmo (confesso, confesso) não ter de continuar a ver e ouvir Pedro Passos Coelho nove vezes em cada noticiário, primeiro como primeiro-ministro, depois como presidente do PSD, depois como candidato às eleições, depois como representante de Portugal (vá-se lá saber porquê) num Conselho Europeu, depois como conferencista numa conferência, depois como entrante numa feira agrícola, depois como sainte de uma audiência com Cavaco, depois como visitante daquilo e comentador da outra coisa. Isso, só por si, é um alívio. Não é que seja pessoal, que não é. Não é só porque os seus lábios eternamente crispados e a escassez do seu léxico me arrepelam a vesícula. Não é só porque a sua cerviz curvada e as suas mãos postas frente a Angela Merkel me encanzinam. É mais político. Mas pôr fim à sua ubiquidade será uma bênção.

A segunda, mais séria, é porque poderemos ter um governo que, para equilibrar as contas, vai recorrer a outras medidas que não sejam rapar os rendimentos do trabalho, confiscar subsídios, aumentar o IRS, criar prestações extraordinárias sobre os salários, cortar pensões, reduzir prestações sociais, cortar serviços públicos, vender empresas públicas estratégicas fundamentais para a economia e vai (espero) encontrar meios de aumentar a receita fiscal olhando também para o património e para os rendimentos do capital e, principalmente, reduzindo a “fuga legal” aos impostos das grandes empresas e das grandes fortunas. Poderemos ter um governo que não acha que os trabalhadores são mimados, que os desempregados são preguiçosos, que os beneficiários de subsídios são parasitas, que os emigrantes são piegas. Poderemos ter um governo que olha para nós não como contribuintes mas como pessoas e cidadãos.

A terceira razão é porque o novo governo vai (espero) defender os interesses nacionais em Bruxelas e noutros fóruns internacionais, o que é uma novidade bem-vinda (quase que nos esquecemos como é que é, mas é possível) e discutir com os parceiros da União Europeia como se fossem parceiros em vez de sermos empregados deles apanhados em falta.

A quarta razão é porque o novo governo vai tentar fazer crescer a economia, o investimento, o emprego e o rendimento disponível dos portugueses, apostando na educação, que garante o reforço das competências; na investigação, que produz o conhecimento que é a matéria-prima mais importante que há; na inovação, que transforma o conhecimento em riqueza; na sustentabilidade social e ambiental, que garante que as próximas gerações não encontrarão um país delapidado e que criará novos mercados; no financiamento das PME, que representam a maioria da economia nacional.

A quinta razão é porque acabou o ilegal, ilegítimo, inconstitucional, imoral e estúpido cordão sanitário que impedia que os partidos à esquerda do PS se aproximassem do poder (veja-se como Cavaco reage à ideia de PCP e BE possam apoiar o futuro governo!) e que desperdiçava assim uma imensa quantidade de ideias e de capacidade de intervenção e afastava milhões da política ao certificá-la como um jogo viciado à partida, onde só a direita e a esquerda light podiam actuar.

A sexta razão é porque vamos enfim ter bancadas parlamentares que apoiarão o governo mas que não serão apenas a voz do dono, exemplos vergonhosos de submissão, de obediência e de subserviência mas que farão o seu dever como representantes do povo, apoiando quando necessário mas também discutindo e propondo alterações.

A sétima razão é porque teremos um governo que não confunde o Estado Social com a sopa dos pobres - como a pobre, pobre Isabel Jonet - e que sabe que o Estado Social é de todos para todos porque só assim se garante a justiça e a equidade e só assim se garante a qualidade e a sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde, da escola pública, da Segurança Social, dos programas sociais.

A oitava razão é porque vamos ter um governo que sabe o que é a Cultura e que não a confunde com a decoração de interiores, que sabe que a cultura é um factor de progresso social e individual, de bem-estar social e individual, algo essencial para a vida intelectual de cada um de nós e, por isso, para a nossa vida em sociedade, para o estímulo da conhecimento, da criatividade, do prazer da fruição, do sentido crítico e do sentido de humor sem os quais não se consegue inventar uma sociedade onde seja bom viver.

A nona razão é porque poderemos ter enfim uma governação e uma acção política que não é apenas obediência (à Comissão Europeia, ao Banco Central Europeu, ao FMI, ao Eurogrupo, à Alemanha, aos mercados, à Goldman Sachs, aos tratados existentes e a existir, aos poderes estrangeiros em geral) mas que pode ser invenção, imaginação, participação, debate e criação. A nossa invenção. Como numa democracia!

 jvmalheiros@gmail.com

01/11/15

Pacheco Pereira em entrevista

entrevista de  
Nuno Ramos de Almeida
a Pacheco Pereira

no i online,


31/10/2015

- excerto:
(...)
P.P.: «Sou a favor da reestruturação da dívida, mas sou também favorável a que se tenha em conta que temos uma elevada dívida. Sempre achei que o dilema austeridade versus não austeridade é um falso dilema. Depende de como se faz a austeridade. Sou contra ela ser utilizada para fazer engenharia social: que sejam sempre os mais pobres e a classe média a pagar, e se destrua o equilíbrio nas relações laborais entre patrões e trabalhadores. O que se viu nestes últimos anos foi a destruição das classes médias. A classe média, um importante factor de modernização depois do 25 de Abril, foi destruída por uma política radical. E vivemos uma situação política extremada porque a classe média foi radicalizada: uma parte para a direita outra para esquerda. Porque é que há uma passagem de votos do PSD para o BE? E só não há para o PS porque ele se dirigiu para o lado errado: o PS fez uma campanha eleitoral para um centro que não existia. O PS dirigiu-se a um eleitorado que acha sempre que o PAF é o melhor para defender os seus interesses.» 
Está a falar do chamado programa Centeno? 
«O documento Centeno foi uma armadilha em que o PS se meteu. E quando quis corrigir pareceu muito mais radical do que era. O PS devia dirigir-se às pessoas que perderam a sua dignidade e as suas condições de vida. Devia dirigir-se às pessoas que nos últimos anos foram tratadas abaixo de cão. Dou sempre um exemplo, que não é muito popular, que é o caso dos trabalhadores reformados do metro. O que se lhes fez não é um mero problema de austeridade, o que se fez foi empurrar centenas de trabalhadores do metro para uma reforma antecipada porque isso interessava à empresa, e um ano depois retiraram aquilo que tinha sido livremente pactuado com esses trabalhadores. Isto para mim é um bom exemplo do que aconteceu nestes quatro anos: a perda da noção da boa-fé nos contratos de Estado. A perda de noção de que os contratos são para cumprir. O que aconteceu foi que os contratos com os mais fortes foram cumpridos e com os mais fracos foram violados à cabeça. O que aconteceu nos últimos quatro anos não foi apenas uma política económica, foi a aplicação, a partir de de 2012, de um projecto de engenharia social que faz com que no PAF e à volta da coligação haja uma fusão com interesses económicos como nunca houve na democracia portuguesa. Os mesmos empresários que andavam em cortejo com Sócrates, com Durão Barroso e com Cavaco têm hoje muito mais que um cortejo: têm uma fusão de interesses com Passos Coelho, Portas e Pires Lima, que lhes deram aquilo que eles nunca tinham conseguido.»
O Pacheco Pereira é militante do partido que faz essa fusão. 
«A pergunta que quer fazer é porque ainda estou no PSD, com quotas pagas e plenos direitos? Repondo-lhe: ainda tenho uma vaga, insisto na palavra “vaga”, esperança de que mude.» 
Não é apenas para os chatear? 
«Não. Contrariamente ao que se pensa, paga-se muito por ter uma posição como a minha, mesmo as companhias são conjunturais. Tenho um certo tipo de popularidade à esquerda, mas tenho a plena consciência de que isso é efémero, que se deve a eu dizer algumas coisas com alguma liberdade. Porque é que ainda estou no PSD? Porque acho que esse partido é importante na sociedade portuguesa, sou defensor de haver partidos com uma componente de centro, só que em 2015 não há centro. Não há neste momento um centro, a coligação é de direita. E não há esse centro e as vozes que podiam personificar esse centro, uma certa ala social-democrata no PSD, está dependurada no vazio, como Ferreira Leite, Bagão Félix e eu, aquilo a que chamo os “estranhos companheiros de cama”, usando a metáfora shakespeariana. Estas coisas têm de se equilibrar a prazo: temos de ter um centro político, mais soberanista e menos falsamente “europeísta”, que corresponda aos objectivos pelos quais o PSD foi criado.» 
Mas esses companheiros de cama divergem na avaliação de um possível governo de esquerda.
«As pessoas têm percursos de vida diferentes. É natural que reajam de forma diferente, mas os últimos comentários já são mais moderados.»
Nestas eleições sublinhou a importância da ligação do PCP a uma certa realidade social e de certa forma analisou o BE como um fenómeno mais virtual. Mas quem nestas eleições subiu para o dobro foi este último. Como analisa? 
«O Bloco de Esquerda subiu porque beneficiou da radicalização da classe média. É mais natural que essa radicalização torne mais fácil votar no BE que nos comunistas. O PCP é um partido de identidade forte, e com uma relação muito próxima com determinados sectores da sociedade. Mas ao mesmo tempo com fronteiras muito limitadas: as fronteiras do PCP são desenhadas a ferro e fogo, pela história, pela ideologia, pela linguagem. Eu, por exemplo, acho que o PCP se diminui a si próprio por usar uma linguagem muito estandardizada, como quando chamam “pacto de agressão” ao Memorando da troika. Esta linguagem pode ser importante para manter uma certa identidade em alguns sectores da sociedade portuguesa, mas não é boa para crescer. E num período de dissolução dos costumes, como é o que estamos a viver, é mais natural o voto no BE, é uma coisa mais moderna – com as “meninas”, como disse o Fernando Rosas, que parece que provocou alguma fúria nas feministas do Bloco –, dá uma dimensão mais aceitável. E tem um efeito poderoso na comunicação social do PCP. Os comunistas podem pôr 100 mil pessoas ou 200 mil pessoas na rua que só têm direito a uma pequena notícia de circunstância, porque ninguém quer saber dessas 200 mil pessoas: essa é a força do PCP e a sua fraqueza. A sua força é que quem está ali está para lavar e durar; a sua fragilidade é essa fronteira que o PCP não consegue ultrapassar e que é em grande parte criada pela comunicação social.»
(...)

- texto completo aqui

31/10/15

"sem perdão"

retirado do fb
30/10/2015

por António Pinho Vargas 

de Helena Almeida, "negro agudo"
O que é que mais detesto em Cavaco? Nem sequer é propriamente o político, em sentido estrito. Mas antes o facto de sermos todos, sobretudo os nascidos nos seus consulados de 80 e 90, "filhos de Cavaco". 
Entendam-me, por favor.
Que valores transmitiu?
Que formas insidiosas conseguiu fazer penetrar nas nossas formas de vida?
Que estragos provocou?

O mais feroz individualismo, a ideia fixa de conseguir sucesso a qualquer preço, a corrosão do carácter, a razão profunda que conduziu muitos às maiores vigarices, aos maiores assaltos aos bancos e ao enriquecimento acima de tudo o resto, a incultura colossal, a ausência de qualquer pensamento de amizade, de amor, de solidariedade, de respeito pelo outro, sempre pronto a ser reduzido a nada à cotovelada, a cedência aos interesses mais mesquinhos como regra, tudo isto se espalhou na nossa sociedade como um vírus, como uma doença mortal, como uma desgraça colectiva, da qual apenas sobrevivem e mal aqueles que tiveram por trás de si, ou dentro de si, uma força quase impossível de passar à prática perante uma tal intoxicação semi-voluntária, semi-imposta sem nos darmos conta.
Em suma, uma profunda crise moral, que, concedo, surgiu em muitos lugares do mundo a par com o triunfo do neoliberalismo, ideologia que apenas deixa livre a possibilidade de querer vencer, enriquecer, humilhar e ignorar tudo o resto e todos os vencidos.

É uma ideologia nefasta de todos os pontos de vista - nem na economia funcionou dada a sua ligação intrínseca à crise de 2008, a crise mundial do dinheiro virtual, do crédito a 0%, do endividamento tresloucado com o qual só alguns lucraram, crédito que, antes e depois de ser considerado mal-parado, provocou em 3 ou 4 décadas o aumento brutal das desigualdades no mundo.

Não a inventou mas em Portugal foi o seu introdutor e principal instigador até hoje. Desta herança nunca poderá ter nenhuma espécie de desculpa ou de atenuante.
Sem perdão.

13/10/15

A Esquerda pode esperar?

retirado daqui
13.10.2015 

por Miguel Guedes *

O velocímetro da política, de tanto acelerar, quase bate nos limites máximos do PREC. E não bate num limite vermelho ou num cordão sanitário. Por muito que custe a alguns, é apenas a democracia a funcionar com todo o espectro político em jogo. O que muitos parecem temer. Nos últimos dias, para uma boa parte dos responsáveis partidários e grande parte dos comentadores e analistas político-económicos, passamos de um país sentado bem no centro do novo oásis da retoma para um país no limite do abismo. Perante a hipótese do lobo mau rumar em viagem de negócios com o capuchinho vermelho, agitam-se as bandeiras da demagogia e do papão, do golpe de Estado e da tomada do poder, os vales para entradas súbitas no campo pequeno e equaciona-se o menu de degustação dos comunistas ao pequeno-almoço. Marques Mendes (também ele?) tem a ousadia de comparar resultados eleitorais com classificações de futebol. Aos inspiradores do medo, talvez servisse rasgar a Constituição contra a qual governaram durante 4 anos. Mas a Constituição democrática é esta e as legislativas não são uma corrida para primeiro-ministro. Em qualquer país com semelhante regime, nada haveria a discutir. Dinamarca, Bélgica, Luxemburgo, Letónia, quatro países da UE onde quem formou Governo não foi quem obteve mais votos ou ganhou as eleições. Mas em Portugal, o défice de democracia corre em paralelo com o défice de politização e de entendimento sobre o que é o nosso regime democrático. Sim, a maioria é de Esquerda e - pasme-se - parece entender-se. E agora? Venha de lá esse medo ou "isto é só fumaça"? Exercitem a calma, "o povo é sereno". 

Este pode ser o grande acto único da Esquerda em Portugal. Não há memória de algo assim e para um exemplo de proximidade é necessário recuar ao apoio de Álvaro Cunhal a Mário Soares na segunda volta das Presidenciais de 86. A capacidade de reacção deste PCP ao resultado eleitoral foi extraordinária. Em poucos dias, Jerónimo de Sousa, envolto num resultado seguro mas algo ambíguo devido à ultrapassagem do BE, afasta o cenário da sucessão nomeando o ex-padre Edgar Silva para futuro desistente nas próximas presidenciais, disponibiliza-se para um inédito entendimento de governo com o PS de António Costa (admite-se até que António Filipe tenha sido aventado para o Ministério da Justiça) e enche um comício em Lisboa. Pressionado ou não pelo seu poder autárquico, o PCP posiciona-se para dar a volta ao seu mundo, dando um passo para novas construções. Catarina Martins foi a vencedora mais inequívoca destas eleições e sabe-o. Já na campanha eleitoral estabeleceu pontes para o PS. Quando declara, após o encontro com Costa, que pelo BE "o Governo de Coelho e Portas acabou hoje", não nos fala pelo lado do seu optimismo. A declaração política é notável e pressiona o PS a assumir a sua inteira culpa se não quiser governar à esquerda em Portugal. 

A possibilidade de entendimento existe e é confirmada por movimentos contrários: as declarações de António Arnault e a demissão de Sérgio Sousa Pinto. Resta saber se o PS é capaz de enfrentar as suas próprias clivagens, ultrapassar a pressão dos seus pares europeus e pensar em dois planos: se e quando. António Costa quer avançar já que não pode chegar ao Congresso do PS com duas derrotas eleitorais no bolso. Por outras palavras, só continuará líder se for primeiro-ministro. Já "quando" é uma palavra incerta. Pode votar, desde já, com a anunciada moção de rejeição do BE e PCP ou esperar pelo Orçamento do novo Governo. Esperar pelo Orçamento, caso o PS consiga resistir a dois meses de pressão internacional para se desligar de entendimentos com BE e PCP, poderia ser o melhor movimento táctico da Esquerda. A Esquerda, recusando o Orçamento de Direita, ganharia tempo, massa crítica, compreensão do fenómeno e saberia dizer, com toda a propriedade, que - mesmo viabilizados - Passos e Portas nada perceberam do que lhes foi dito. E, já agora, poderia ter acesso à execução orçamental das contas do país que a Direita teima em não querer apresentar (quais os reais números do défice e da segurança social?). 

Solitário, Cavaco Silva teima em fazer a rodagem a um veículo que já foi para abate. Como se ainda conduzisse o seu Citroën BX pela Figueira da Foz em 85, desiste do seu 5 de Outubro para pensar em todas-as-hipóteses-do-seu-único-cenário e pode ser obrigado a não ter alternativa senão a de assistir ao BE e PCP a dar entrada no arco da governação durante o seu mandato. Em nome da estabilidade que tanto pediu... Esta coisa da democracia é lixada. 

* músico e advogado

07/10/15

Sem memória, o povo falou

no Público,
7/10/2015

por Santana Castilho*

Temos que aceitar a democracia, particularmente quando ela nos contraria. Mas é natural que fiquemos desapontados e legítimo que, respeitando-os, analisemos os resultados. Os eleitores romperam o ciclo dos últimos quatro anos, retirando 28 deputados (falta apurar quatro) e cerca de 750 mil votos à coligação. Mas, na realidade, preferiram a continuidade à mudança. O povo português é hoje o único na Europa a premiar com uma vitória eleitoral os responsáveis por quatro anos de austeridade desumana. Por falta de memória? Por medo? Seja por que for, há que respeitar a escolha.
Os portugueses escolheram perdoar à coligação, como se de nada relevante se tratasse, 19 violações da Constituição da República Portuguesa, decretadas pelo Tribunal Constitucional (entre elas, as relativas aos orçamentos de Estado de 2012, 2013 e 2014, Código do Trabalho, Código de Processo Penal, Código de Processo Civil, Rendimento Social de Inserção, requalificação dos funcionários públicos, despedimentos sem justa causa, cortes salariais na função pública e enriquecimento ilícito, por duas vezes).

Os portugueses escolheram passar uma esponja sobre um Governo que promoveu o empobrecimento generalizado e o agravamento das desigualdades sociais, presidido por um cidadão que incumpriu o que prometeu para lá chegar, mentindo repetidamente ao povo. 

Os portugueses escolheram permitir a continuidade em funções de um Governo que incentivou a emigração de quase meio milhão de concidadãos em quatro anos, que vendeu os activos portugueses mais rentáveis, que paralisou a Justiça, que promoveu o declínio da escola pública e do Sistema Nacional de Saúde.

Os portugueses escolheram aceitar que os salários e as pensões continuem a ser cortados e as crises bancárias continuem a ser pagas com os impostos de todos. É certa a necessidade de recapitalizar o Novo Banco. Dizem os responsáveis, que os portugueses reelegeram, que o dinheiro virá do Fundo de Resolução. Digo eu que virá dos contribuintes e já disse a Comissão Europeia, há dias, que os impostos podem aumentar. A seguir virá o orçamento de 2016, altura para aparecer o corte de 600 milhões nas pensões, prometido à UE. E se a meta do défice não for cumprida em 2015, o que é provável, o reforço da austeridade em 2016 é óbvio. Assim votaram os portugueses, que não terão de que se queixar.

Os portugueses escolheram as propostas da coligação sobre o decantado plafonamento, significando isso a descapitalização do sistema público, com o consequente corte de pensões e subsídios, a bem da sustentabilidade.

Vale aos portugueses, por ora, que a incompreensível escolha que fizeram não chegou à maioria absoluta.

A coligação PSD/CDS venceu as eleições, mas tem à sua frente uma maioria absoluta de deputados que se lhe opõem. O PS sofreu uma derrota pesada e António Costa começou uma existência difícil, legitimamente questionado dentro do partido. Belo pântano que estas eleições deixaram à Nação!

Diz a imprensa que Cavaco receberá hoje (escrevo a 6 de Outubro) Passos Coelho. Não será, ainda, para o convidar a formar Governo. Mas isso irá acontecer, sendo para já adquirido que António Costa não se demite, porque rejeita aplicar a si próprio o veredicto que aplicou a Seguro.

Passos já afirmou publicamente querer negociar com o PS. E negociar o quê? Só pode ser uma de duas coisas: constituição de um Governo de que o PS faça parte, ou um acordo de incidência parlamentar. Se conseguir uma ou outra coisa, terá um mínimo de estabilidade para começar a governar e ficará adiado o provável cenário futuro de eleições antecipadas. Mas se o PS aceitasse participar num Governo de bloco central, para mais em posição de menoridade, entraria em modo de suicídio político garantido. Admito que, não dando esse passo e em nome do que assume ser o interesse nacional (engolindo Costa o que disse em campanha), viabilize o orçamento de Estado a apresentar pela coligação, que lhe fará algumas cedências. Teremos, assim, a continuação da austeridade (que Wolfgang Schaeuble já saudou, sem decoro) e tempo ganho pelo PS para se entender internamente, de modo a não repetir, em situação de eleições antecipadas que se seguirão, os ziguezagues e os erros graves que cometeu nestas.

O PIB recuou para os valores de há 4 anos. A dívida pública, de que se fala muito, e a dívida privada, de que se fala pouco, esmagam os particulares e o Estado. O futuro de Portugal é função destas duas variáveis, que nos tornam dependentes do que a Europa (leia-se Alemanha) decidir corrigir em sede de Tratado Orçamental. Com o resultado destas eleições, não teremos um Governo que pugne por uma verdadeira união monetária, alicerçada na indispensável integração fiscal e orçamental, sem a qual a crise das dívidas soberanas continuará a impedir o investimento, o consumo e o emprego. Foi isto que os eleitores, que deram a vitória à coligação, desprezaram.

* Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt)

06/10/15

de um partido que é uma imponderabilidade ..

retirado do fb,

por José Vítor Malheiros

"A principal conclusão destas eleições é esta: não há voto mais inútil do que o “voto útil” porque ele irá trair a vontade dos eleitores na primeira oportunidade."
--- artigo do Público de hoje, aqui
e
por José Luiz Sarmento Ferreira

«Já era verdade há quatro anos que a linha divisória entre a direita e a esquerda passava pela posição quanto ao Tratado Orçamental e ao euro. Era verdade, mas talvez não fosse óbvio: a linha traçada no chão estava obscurecida por demasiado lixo, demasiadas questões laterais, e pela esperança que a União Europeia "caísse em si" e não reprimisse com brutalidade as aspirações sociais-democráticas de uma grande parte da sua população.

Hoje continua a ser verdade; mas além disso é óbvio. As questões laterais foram varridas, uma punição brutal foi perpetrada contra o povo grego, e já só não vê a natureza da besta quem não a quer ver. O PS não tropeçou, não teve um acidente de percurso: desceu mais um degrau no seu declínio histórico. Cumpriu o seu papel. Já não é útil à direita porque ao centrão dos interesses basta o PSD, com o CDS como apêndice decorativo; e não é útil à esquerda porque se furta ao combate histórico da esquerda do século XXI. Este combate faz-se, como se tornou hoje claro, pelas soberanias nacionais sem as quais não pode haver soberania popular nem democracia; e faz-se, por conseguinte, contra o neoliberalismo e a ditadura das empresas multinacionais.»

16/07/15

os pobres que ficaram ..

no Expresso,
16/07/2015

por Pedro Santos Guerreiro

Os gregos estão desesperados porque a situação é desesperante

O Syriza já está destruído, podemos agora salvar a Grécia?  

Chegará o momento em que tiraremos as mãos das carteiras e as poremos na consciência. Chegará o momento em que já não veremos os ricos que roubaram mas os pobres que ficaram. Em que não quereremos ressarcimento mas reparação. Em que perceberemos que não se pede sequer solidariedade, mas piedade. Em que nem os sádicos se divertirão com a espetáculo degradante dos políticos gregos. A União Europeia foi longe de mais na violência estéril e vingativa. Para destruir o Syriza está a ceifar-se um povo. Já não é indignação, é súplica: SOS Grécia. E se tudo o resto falhar, apele-se à inteligência, que não é de esquerda nem de direita, pois é preciso mudar aquele plano que, além de horrível, é burro, é mau, é pior para todos.

Nos palácios de Bruxelas, nos sofás de Berlim ou mesmo nos bancos de jardim de Lisboa permanece apetecível distribuir culpas e medir ideologicamente o debate. Mas nas ruas de Atenas já passámos essa fase. Sobra o desespero de saber que nada vai valer a pena porque pagar ou não pagar parece indiferente, o tudo ou nada resultará sempre no pouco, no de menos, no insuficiente, porque o plano não funciona. Repito: a Grécia vai ter uma recessão pior do que a que os Estados Unidos viveram na Grande Depressão de 1929. Repito: o plano económico vai falhar porque foi concebido para falhar. Repito: desistimos dos gregos e resistimos a ver o desastre encomendado.

O bloco liderado pela Alemanha ficou tão furioso com o desplante do senhor Alexis Tsipras na marcação do referendo que quis devolver-lhe em dobro a lição de superioridade. Até se percebe a fúria, que segundo os relatos da reunião de domingo do Eurogrupo fez com que o senhor Wolfgang Schäuble berrasse. Alexis Tsipras foi arrogante, marcou um referendo pérfido e achou-se nimbado de invencibilidade com os resultados, como se fosse dar uma tareia moral aos demais estados membros. Mas a Alemanha quis tanto destruir o Syriza, por vingança e por dissuasão a que outros países elejam partidos radicais, que perdeu a noção da força. Mais um pacote recessivo vai destruir mais economia e mais emprego numa economia já exangue.

A vitória sobre Tsipras foi retumbante. Até o perdão da dívida, que o Syriza sempre reivindicou, é agora formalmente admitida pelo FMI, mas de forma a culpar o partido, que não tem nada para mostrar. É ridículo ouvir Alexis Tsipras dizer que assinou um acordo em que descrê. É degradante vê-lo tripudiar o próprio Syriza e ancorar-se nos deputados dos partidos que detesta e que o detestam a ele. É assustador ouvir a presidente do Parlamento (que pertence ao Syriza e se junta aos 40 deputados que se afastaram de Tsipras) falar em genocídio social. Mas a humilhação suprema talvez seja ver Tsipras dizer que não há alternativa. Tsipras, o temível mastim indomável, está amestrado como um caniche. Dá dó. A direita rejubila. Também dá dó. Porque ninguém para, escuta e olha para perceber a loucura que estamos a patrocinar.

A loucura de ver um povo desesperado que, depois de cinco anos de austeridade duríssima, tem prometida nova dose de austeridade duríssima. A loucura de tornar o pagamento da dívida mais insustentável do que nunca, pela destruição económica provocada – se a Grécia sai do euro, os credores podem esquecer, vão receber raspas. A loucura de segregar dentro da União Europeia, cavando um fosso que nos vai apartar sabe-se lá até que lonjuras.

A Grécia só se livra desta sarna se, além do perdão de dívida que de qualquer forma terá, tiver um programa de estímulo económico. O mundo, aliás, só recuperou da Grande Depressão dessa maneira. Percebe-se a pulsão de obrigar o país a adotar as reformas estruturais nunca adotadas, incluindo a de ter um Estado que funcione e que cobre impostos. Mas não é destruindo o espaço político e aniquilando a economia que tal vai ser conseguido. A violência na Praça Syntagma é desenrolada por grupos anarcas ruidosos mas pouco representativos. A miséria que se alastra, não: é de todos.

É preciso mudar o plano. Somar à austeridade um programa de investimento que estimule a economia e que apoie casos sociais de pobreza. Isso é ser inteligente, até porque é a única forma de tentar recuperar parte da dívida. Talvez a linha dura dos alemães queira apenas humilhar o Syriza e tenha feito um plano para que, depois da capitulação de Tsipras, mude o plano para melhor. Até seria bom que isso fosse verdade. Seria maquiavélico mas, ao menos, saberíamos que a loucura iria mudar. E que, portanto, a Grécia haveria de ter saída da crise em vez de uma saída do euro. Para já, o que vemos é o que temos, um país inteiro a afundar-se na desgraça.

Os gregos estão desesperados porque a situação é desesperante. Coloquemo-nos no lugar deles por um minuto: um governo de extrema esquerda ajoelhado depois de cinco anos de tareia, de desemprego e de austeridade, depois de décadas de corrupção e roubo institucionalizado com os governos de centro. E o que lhes dizem que se segue? Pobreza. Talvez a esta hora também estivéssemos na rua.

O “caminho certo”

no Jornal de Notícias 
04.06.2015 

por Rafael Barbosa


Manter Portugal no “caminho certo”

Não é pouco o que o PSD e o CDS têm para oferecer aos portugueses, no caso de estes escolherem a coligação de Direita para mais quatro anos de Governo. Sobretudo porque o elogio ao “caminho certo” inclui o caminho percorrido. E o “caminho certo”, é bom recordar, não resultou apenas das imposições do programa de resgate e da troika. O tom agora adoptado de suave propaganda eleitoral não chega para fazer esquecer a violência do caminho, fosse ele certo (para as elites do PSD e do CDS), ou errado (para os portugueses que tiveram de pagar o preço), e ainda menos que ele foi traçado com gosto e arrogância. 

O “caminho certo”, é bom recordar, implicou que centenas de milhares de portugueses mergulhassem no desemprego, dentro ou fora das estatísticas oficiais, sendo certo que muitos deles não voltarão a trabalhar e que os restantes não conseguirão mais do que empregos mal pagos e precários. 

O “caminho certo”, é bom recordar, implicou e implicará cortar pensões de forma brutal, atingindo milhares de pessoas velhas, cansadas, incapazes de encontrar alternativa. E se o preço a pagar pelos reformados não foi ainda maior, isso ficou apenas a dever-se à intransigência do Tribunal Constitucional, que travou outros e maiores desmandos. 

O “caminho certo”, é bom recordar, foi o de incentivar novos e velhos a “sair da sua zona de conforto” e a emigrarem, o que se concretizou de facto, mais uma vez afectando centenas de milhares de pessoas, as que partiram e as que ficaram. 

O “caminho certo”, é bom lembrar, foi o de provocar uma hecatombe social, com o aumento dos índices de pobreza para níveis nunca vistos, sobretudo entre as crianças e os jovens, com efeitos implacáveis a curto e longo prazo. 

O “caminho certo” foi castigar os que conseguiram manter os seus empregos, com um aumento de impostos nunca visto, fosse através do IVA, fosse através do IRS, com mudanças definitivas e gravosas nos escalões de IRS, ou através da criação da sobretaxa, que mais não significou do que o confisco de parte dos salários. E se o preço a pagar por quem trabalha não foi ainda maior, isso ficou apenas a dever-se à fúria com que foi recebida a proposta de aumentar a taxa social única, que levou às ruas pelo menos um milhão de pessoas. 

O “caminho certo”, é bom lembrar, foi o de acentuar de forma abrupta e brutal a recusa dos jovens portugueses em ter filhos e que conduziu as portuguesas para a mais baixa taxa de fecundidade da Europa e para as consequências letais que daí advirão para a sobrevivência de um pobre país.

fonte: blogue Cadernos de Opinião

15/07/15

"Aprender com a derrota "

no Expresso, 
&conomia à 4ª 
15.07.2015

por Alexandre Abreu

Pior ainda do que sofrer uma derrota é sofrê-la e não aprender nada com isso 
O acordo alcançado no passado fim-de-semana foi, simplesmente, catastrófico. Do ponto de vista económico, significa o aprofundamento da tragédia em que a Grécia se encontra há cinco anos. O acordo alcançado prevê mais três anos de austeridade sem tréguas, com tudo o que isso implica em termos de perspectivas de evolução social e de viabilidade do projecto de desenvolvimento de Grécia. A economia e a sociedade gregas continuarão a sua espiral descendente. A dívida pública grega continuará a sua espiral ascendente por via tanto do numerador (os 86 mil milhões de euros de “ajuda” adicional) como do denominador (a continuação da contracção da economia em resultado da austeridade). O acordo não prevê outra coisa senão mais austeridade como contrapartida para aceder a mais endividamento, e isso é tanto mais dramático quanto este acordo foi alcançado por um governo que mostrara compreender que tanto a primeira como o segundo não constituem parte da solução, mas do problema.

O acordo, e o processo que a ele conduziu, são também catastróficos do ponto de vista da soberania - ou antes, são esclarecedores relativamente aos limites da soberania democrática no contexto da união económica e monetária. Entre a apertada supervisão das finanças públicas gregas por parte das instituições credoras e a constituição de um fundo, destinado à privatização, constituído pelos mais valiosos activos detidos pelo estado grego, o acordo representa a completa transformação da Grécia numa colónia dos credores, administrada pelos credores, no interesse dos credores. Deixa abundantemente claro que não existe verdadeira soberania democrática no interior da zona euro, da mesma forma que não existe qualquer tipo de democracia multilateral – apenas o poder da Alemanha – nas suas esferas de tomada de decisão.

Mas o pior deste acordo é mesmo a sua dimensão política. O governo grego acedeu a ultrapassar todas as linhas vermelhas que tinha estabelecido e a quebrar a vasta maioria dos compromissos que havia estabelecido no programa de Salónica. Fê-lo apesar do enorme apoio popular com que contava em virtude dos resultados das eleições legislativas e do referendo de 5 de Julho, do qual havia saído um claríssimo e muito corajoso mandato popular no sentido do governo garantir um acordo digno e favorável aos gregos ou, na ausência de um tal acordo, rejeitar qualquer outro acordo assumindo as consequências. O governo grego, devo dizê-lo com clareza, foi menos corajoso do que o seu povo e desrespeitou a sua vontade. E o mais trágico é que a única coisa que consegue com isso é desperdiçar uma oportunidade única, com graves repercussões não só para os gregos como para o resto da Europa.

Este desenlace é, para já, uma clamorosa derrota. Mas é-o apenas para já, pois é evidente que não produz um desenlace estável. Na medida em que implica a continuação da subjugação e do empobrecimento, é inevitável que este rumo volte a ser posto em causa mais cedo ou mais tarde. Está já a sê-lo por uma boa parte dos trabalhadores, cidadãos e deputados gregos, podendo redundar em novo volte-face a breve trecho caso estes tenham força para obrigar o governo a alterar a sua posição. Mas mesmo que não seja para já, será para mais tarde: como tive ocasião de escrever há poucas semanas, não há medo do desconhecido nem europeísmo indefectível que sustentem a subjugação eterna. Este acordo seria profundamente nocivo e intrinsecamente instável se tivesse sido assinado por um governo do PASOK ou da Nova Democracia; tendo sido assinado por um governo do Syriza, é igualmente nocivo e instável. O facto de ter sido assinado pelo governo do Syriza apenas acrescenta a dimensão trágica de ter sido desbaratada uma enorme esperança.

Na ressaca deste acordo, e enquanto aguardamos as próximas voltas da roda da história, importa não desperdiçar o aspecto mais positivo de todo este processo: as lições que dele podemos e devemos retirar. É hoje claro para todos, mesmo para quem não o era há alguns meses, que as decisões políticas na Europa não são governadas pela razão ou pela solidariedade, mas pela prossecução pelos mais poderosos dos seus interesses e pelo imperativo de cortar pela raíz qualquer veleidade de emancipação. É hoje claro que a construção de uma Europa democrática e solidária não se fará mudando as estruturas existentes por dentro, pois estas são irreformáveis. E é hoje claro que existe uma incompatibilidade fundamental entre a rejeição da austeridade e o desejo de permanência na moeda única: o apego dos povos da periferia ao euro é como o amor do escravo pela corrente que o aprisiona.

São lições duras, mas até por isso temos obrigação de dar-lhes a devida atenção. Pior do que sofrer uma derrota é sofrê-la e não aprender nada com isso.

08/07/15

"A resistência grega"

foto e texto retirados do Aventar,
08/07/2015 

por João José Cardoso

A resistência grega

“A política na Europa tem de ser sempre de direita para manter a zona euro intacta” – José Gomes Ferreira (ligação para Facebook

Era uma vez um consenso, entre a casta que domina a Europa dita democrática, e que mantendo a designação de socialista ou democrata-cristã bebe toda da mesma fonte, o neoliberalismo. Por esse consenso a escolha eleitoral dos povos estava restringida a eles próprios, excluindo obviamente a esquerda, esses perigosos comunas. Não Há Alternativa, declarou um dia um verme que proclamava não existir essa coisa da sociedade. E estava tudo a correr tão bem, os países mais ricos enriqueciam, os mais pobres enriqueciam alguns dos seus por conta de privatizações e do desvio dos fundos comunitários para negócios improdutivos. A Sul a corrupção alastrava, em toda a parte a alta finança especulava em liberdade. Estava tudo a correr tão bem, as desigualdades em crescendo, a liberdade de expressão presa na imprensa dominada pelos mesmos donos, a mesma casta, tudo assegurava a tranquilidade, a paz, um futuro brilhante.

Era uma vez uma fábula que um dia tropeça num país pobre, de ilhas e pedras. Onde um povo que sabe ter de seu o que conquistou disse que já chegava. Correu com os bandidos mais próximos, os dois ou três partidos que sempre a governaram, e escolheu um governo de esquerda.

Heresia, gritaram em Bruxelas, em Berlim, em Lisboa e Madrid. Os dogmas só sobrevivem quando o engano subsiste. E um grão na engrenagem pode destruir toda a engrenagem.

É onde estamos. A aflição actual resume-se nisto: se cedem ao governo grego perdem as eleições em Espanha, em Portugal e na Irlanda. E têm de abater a dívida com que a Grécia foi cilindrada. Não cedem, expulsam a Grécia do euro, perdem na mesma o celebrado calote (os idiotas quem andam por aí preocupados com o que a Grécia deve a Portugal esquecem que de imediato pelo menos 50% marcham com a desvalorização da nova moeda) e também não ficam em bons lençóis eleitorais, a especulação financeira trata-lhes daquilo a que chamam “recuperação de economia”, uma fantasia que proclama estarmos a recuperar (e estamos, ou melhor, eles estão: a venda de automóveis de luxo tem corrido muito bem em Portugal).

Verdade se diga que o prejuízo é aparente em caso de saída da Grécia: o BCE pode muito bem resolver o problema, uma vez que assumindo o prejuízo só tem de fazer dinheiro para o compensar. Mas isso viola 372 dogmas do neoliberalismo e, coitados, já lhes vai doer que chegue ver como um país com moeda própria e um governo de esquerda consegue recuperar a sua economia.

Claro que há outra opção: ressuscita-se a Wehrmacht e vai-se a Atenas cobrar a dívida. Desconfio é que essa possibilidade, se referendada na Alemanha, levava com um valente oxi. Ou nein?

01/07/15

"Danos e dolo"

no Público,
1 de Julho de 2015

por Santana Castilho *

Parafraseando José Saramago, há uma regra fundamental que é, simplesmente, não calar. Não calar!

1. O despacho nº 7031 - A/2015 introduz o ensino de mandarim em algumas escolas secundárias públicas no próximo ano-lectivo. Os professores serão chineses e as despesas correm por conta da República Popular da China, mediante um protocolo com o Instituto Confúcio. Este instituto tem por objectivo imediato a promoção da língua e da cultura chinesas. Mas outros vêm a seguir, ou mesmo antes, pese embora tratar-se de matérias a que Confúcio era avesso. Com efeito, logo que a iniciativa foi conhecida, chegaram notícias de experiências idênticas de países ocidentais, que cancelaram acordos similares por ameaça à liberdade académica (vigilância indesejável de estudantes e actos de censura). Dito nada pelo Ministério da Educação sobre este começo menos auspicioso, sobram perguntas, a saber: que diz o ministro à suspeita transnacional (França, Suécia, EUA e Canadá, entre outros) quanto à utilização do Instituto Confúcio como instrumento de promoção da ideologia do governo chinês? Poderemos aceitar que uma disciplina curricular do sistema de ensino nacional seja leccionada por professores estrangeiros, escolhidos pelo governo da China, pagos pelo governo da China e com programas elaborados por uma instituição que obedece ao governo da China? Conhecida que é a complexidade extrema da aprendizagem do mandarim, particularmente no que à escrita respeita, fará sentido iniciá-la … no 11º ano? Terá a iniciativa relevância que a justifique? Pensará o grande timoneiro Nuno Crato substituir o Inglês (cujos exames acabou de entregar a outra instituição estrangeira) pelo mandarim, como língua de negócios? Ou tão-só se apresta, pragmaticamente, a facilitar a vida aos futuros donos disto tudo, numa visão futurista antecipada pela genialidade de Paulo Futre?

A indústria do financiamento alienou por completo a solidez pedagógica das decisões e transformou o currículo escolar numa manta de retalhos de experimentalismos sem coerência.

O ministério de Nuno Crato ficará marcado por um contínuo de soluções aos solavancos, determinadas pela ânsia de responder a um sistema político e económico que exige do ensino resultados com impacto rápido no sistema produtivo. Uma simples lógica de obediência a mecanismos simplistas de mercado, com total desprezo pela vertente personalista da acção educativa e pela necessidade de colher aceitação social para as políticas educativas.

2. Quando, em Novembro de 2013, o Governo aprovou o Estatuto do Ensino Particular e Cooperativo, revendo por decreto o artigo 75º da Constituição da República, porque derrogou por essa via o carácter supletivo do ensino privado nele contido, escrevi que a regulamentação que se seguiria criaria uma engenharia social e económica similar às parcerias público-privadas. Aí está tudo confirmado pela Portaria nº 172-A/2015 e aviso de abertura do concurso subsequente. São 656 turmas dos 5º, 7º e 10º anos, num total superior a 16.400 alunos, que poderão sair do ensino público para o privado, com o financiamento garantido pelo Estado, à razão de 80.500 euros por turma. Estaremos a falar de uma despesa pública que se aproximará dos 150 milhões de euros. Esta despesa é nova, soma-se ao financiamento do mesmo género que o Estado já suporta e, na maior parte dos concelhos em análise, as escolas públicas têm capacidade para receber os respectivos alunos. Querer tornar indiferenciáveis, por via da falsa questão da liberdade de escolha, o sistema de ensino público, sem fins lucrativos, e o sistema de ensino privado, com fins lucrativos, é uma subtileza ardilosamente concebida por este Governo para fazer implodir o princípio da responsabilidade do Estado no que toca ao ensino de todos os portugueses.

O que influencia mais a produtividade das organizações? A qualidade dos que gerem ou a competência dos que trabalham? Quando a organização sob análise é o sistema de ensino, diz-me o conhecimento empírico, longo, e o estudo de anos, muitos, que outras fossem as políticas e outros seriam os resultados. Com os mesmos professores. Com os mesmos alunos.

3. A crise da Grécia é a crise de todos nós. Desistimos dos velhos e vamos desistindo da escola pública e do serviço nacional de saúde. Ao invés de elevar padrões de vida, aceitamos generalizar a pobreza. A cultura europeia cede ao ensino apressado do mandarim, na esperança de suprir uma união económica que falhou. Atarantados, não distinguimos danos de dolo.

Admito que seja ainda exagerado falar-se de fascismo pós-moderno. Mas o crescimento da violência legal aplicada à solução de problemas políticos, sem réstia de democraticidade, mesmo que apenas formal, dará, a breve trecho, se continuarmos assim, total legitimidade ao uso da expressão. É aceitável a penhora da casa de família por dívidas irrisórias? Impor à paulada o desacordo ortográfico? Tomar eleitores por escravos sem pio de eurocratas não eleitos, na paródia sinistra em que a Europa se transformou?

* Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt)

30/06/15

a austeridade na Grécia/em Portugal não “funcionou bem”?


no Público,
28/06/2015

por Mário Vieira de Carvalho *

A tecnocracia e a banalidade do mal

Franz Grassler, Doutor em Direito, foi destacado aos 28 anos para o cargo de adjunto de Heinz Auerswald, também jurista, membro das SS desde 1933, nomeado comissário para o “bairro judaico” (jüdischer Wohnbezirk) de Varsóvia a partir de 15 de Maio de 1941. 

Tratava-se duma zona da cidade previamente esvaziada dos seus habitantes não-judeus para servir como uma espécie de campo de concentração urbano de judeus de várias origens, sobretudo polacos e alemães. Um muro de três metros de altura e dezoito quilómetros de comprimento isolava o gueto do resto da cidade. Quem ousasse sair era punido com a pena de morte. 

De lugar de concentração, o gueto transformou-se a breve trecho em lugar de extermínio e, por fim, de trânsito para as câmaras de gás de Treblinka. No período em que Grassler exerceu as funções de adjunto ou “assessor”, a situação tornou-se extrema: os judeus morriam ao ritmo de cinco mil por mês, as ruas estavam pejadas de cadáveres e havia quem usasse os derradeiros haveres, não para matar a fome, mas sim para assegurar o supremo privilégio de morrer em casa. 

Vale a pena ver a entrevista de Grassler concedida ao jornalista Claude Lanzmann. Mais ainda do que Eichmann, captado por Hanna Arendt, Grassler parece um inofensivo homem comum, que entrou na idade da reforma sem ter feito mal a uma mosca. Em estado de negação do início ao fim da entrevista, não cede um milímetro quanto à aceitação frontal de culpas. Como se não houvesse qualquer trauma que lhe pesasse na consciência (a postura do inimputável), começa por tentar esconder-se atrás da falta de memória, afirmando que, felizmente, as más recordações são apagadas naturalmente pelas boas... E explica a racionalidade da construção do muro: era precisa uma barreira de proteção que evitasse a contaminação da população da cidade pelas epidemias (sobretudo de tifo) que grassavam no gueto. 
Confrontado com as responsabilidades do ocupante alemão na situação criada, alega que nada podia fazer, pois os abastecimentos disponíveis destinados ao gueto eram cada vez mais escassos. No entanto – e esse é o ponto culminante da entrevista! –, reconhece um extraordinário saldo positivo: é que, no gueto, “a autogestão funcionou bem, isso sei eu” (die Selbstverwaltung hat gut funktioniert, das weiss ich...). 
Fica-se estupefacto com este comentário – para mais, vindo de um Doutor em Direito por uma universidade alemã, com o peso de uma brilhante tradição jurídica de séculos! “A autogestão (judaica) funcionou bem...” Mas como? Funcionou bem a organizar a fome e o extermínio por doença e inanição? A desatravancar de cadáveres as ruas, atirando-os para valas comuns? A selecionar os homens, mulheres e crianças que deviam ser carregados em comboios, como gado, com destino a Treblinka? 

Perguntar-se-á quem fala pela voz de Grassler. Um nazi? Não. Isso seria demasiado simples: uma boa desculpa para tranquilidade de certas consciências... Mas não. Não há que demonizar o homem. Limitemo-nos a aceitar aquilo que ele realmente é: um vulgar tecnocrata. Ou melhor: um exemplo paradigmático da racionalidade tecnocrática. Meticuloso, decerto, em aplicar as regras. Por exemplo, as do racionamento: 2310 calorias por pessoa/dia para os alemães, muito menos para o Outro inferior: 634 para os polacos e apenas 184 para os habitantes do gueto. Tão meticuloso, enfim, quanto os tecnocratas que hoje impõem uma barreira de proteção à Grécia, encerrando-a também num gueto que sustenha a todo o custo o perigo de contaminação... 

O mesmo padrão reproduz-se sem cessar. Não está, afinal, “provado”, como já proclamou do alto da sua auctoritas outro abalizado jurista alemão, que a austeridade na Grécia “funcionou bem”?
* Professor catedrático jubilado (FCSH-UNL)

fascistas -- e terroristas!

Delacroix, A Liberdade guiando o Povo (acrescentado..)

29 de Junho de 2015



 – por José Goulão 

Uma primeira informação: o governo grego não decidiu encerrar os bancos durante uma semana porque lhe apeteceu e no âmbito de uma qualquer jogada maquiavélica: foi obrigado a isso devido ao facto de o Banco Central Europeu (BCE), entidade chave de um processo ditatorial instaurado pelos mercados financeiros, ter mantido o programa da troika mas secando a liquidez dos bancos gregos. 

O que o BCE fez, como grupo de assalto ao serviço das várias instituições europeias que mais não são do que paus-mandados dos credores extorsionistas, faz parte de um processo de sabotagem económica para aterrorizar o povo grego de modo a que vote “sim” à continuação da austeridade no referendo do próximo domingo. O que o BCE está a fazer, em nome da União Europeia, é terrorismo, bandidismo puro. 

O que o governo grego fez, em resposta, foi tentar salvaguardar os salários e poupanças dos cidadãos. 

Os portugueses que já têm mais anos e tiveram a sorte de viver o 25 de Abril recordam-se que a sabotagem económica foi um dos processos imediatos de resposta do fascismo para travar a revolução. Da sabotagem económica nasceu, por exemplo, a tentativa de golpe fascista da “maioria silenciosa”, uma maioria que os promotores julgavam aterrorizada, em 28 de Setembro de 1974. 

O BCE/UE/agiotas faz agora exactamente a mesma coisa: aplica uma estratégia fascista e terrorista – sem dúvida em clima de golpe de Estado – para procurar alcançar os objectivos de minorias à custa da miséria, da fome, do descalabro da vida do povo grego. Para os próceres com mentes fascistas que agem em nome da chamada “democracia europeia”, 27 por cento de quebra continuada do PIB grego, uma dívida que não para de crescer devido aos mecanismos impostos para a pagar, um desemprego que atinge mais de um terço da população activa e mais de 55% dos jovens, a razia absoluta nas pensões, nos salários, nos serviços públicos, nos acessos a bens essenciais como água e electricidade ainda não chegam. É preciso vergar mais e mais o povo grego, recorrendo para isso à manobra humilhante de tentar obrigá-lo a pedir de joelhos por favor continuem com a troika, queremos mais austeridade e obrigado por isso. 

É nesta Europa que vivemos hoje. Uma Europa onde as instituições que se proclamam “democráticas” atiçam um bando de tecnocratas não eleitos, o BCE, contra um povo indefeso encafuado num beco em que é obrigado a decidir por um problema entre dois: sair do euro ou pedir por amor de deus a continuação da austeridade. 

Em minha opinião, mas é a minha e não sou grego embora hoje me sinta como tal, a saída do euro seria a resposta digna, porque a Grécia retomaria instrumentos de decisão que agora não lhe pertencem. Mas é apenas uma opinião, cabe aos gregos decidir num contexto de medo e terror que lhes foi imposto em nome daquilo a que, com a cumplicidade de uma comunicação social que não pensa, apenas papagueia, chamam “ajuda”. 

O governo grego fez bem em convocar o referendo. É o recurso à democracia contra mentalidades fascistas. Num duelo desigual de David contra Golias, o mais fraco procura na força da união as energias indispensáveis para enfrentar as armas de terror e liquidação contra as quais é obrigado a combater. 

Aconteça o que acontecer, percebamos uma coisa: o que está a acontecer na Grécia tem tudo a ver connosco. Não tenhamos ilusões, a mafia terrorista que montou esta estratégia contra a Grécia aplicá-la-á contra Portugal, contra qualquer outro país que desafie as suas vontades absolutas. Ao tentarem trucidar a dignidade do povo grego, as instituições europeias, minadas por mentalidades fascistas, estão a enviar um recado sangrento em todas as direcções: se não querem que o mesmo vos aconteça portem-se bem, não deixem nunca de escolher o arco da governação e a troika, não pode haver outro caminho. Pelo que a estratégia de terror imposta aos gregos também nos atinge, e não é de raspão. A escolha não é fácil, mas existe: tempos difíceis e sem dignidade dentro do euro; tempos difíceis, mas com dignidade e capacidade de decisão (o mundo não se esgota, felizmente, na União Europeia) fora do euro.

fonte: Mundo Cão, blogue

je suis Grec

de Max Ernst, Antipope *
Sou grega e sou jovem reformada desempregada sem-abrigo. Sou velha. Sou uma assalariada sem horário de trabalho, mal paga e explorada-e-aguenta-que-tens-sorte!
Tenho vergonha do governo do meu país, do presidente desta república.
Por enquanto ainda há transportes públicos no meu país. Ainda há escolas públicas, hospitais. Por enquanto.
Oiço passar as camionetas do lixo lá em baixo e congratulo-me com esse ruído incómodo, há sítios no mundo em que os detritos se acumulam nos passeios e nas ruas e ninguém aparece para apanhá-los. Só cães que os revolvam, ou vacas. Por enquanto ainda há serviços públicos no meu país. Por enquanto ..
Sou grega, na ilusão que ainda tenho de que as pessoas, os povos todos desses mundo inteiro se levantarão um dia, indignados como só podemos estar todos. Mas quem lhes deu o direito, a esses emproados de merda, a decidir por nós? Quem lhes disse, a eles, que não há Alternativa? Que temos todos de aceitar e vergar e aguentar? Quem lhes disse a eles? E que mães falharam na sua educação? Neste desrespeito por tudo, por todos? Nesta desumanização? Um dia havemos de acordar, sou grega! Um dia havemos de dizer basta!, havemos!, sou grega!
Sou grega e torço pelos gregos que tiveram a ousadia de votar Syriza. Sou grega como já fui charlie. Sou grega naquilo que da esperança encontro em mim. Ainda ... E da dignidade.

29 de Junho, 2015

Krugman apela ao 'Não' no referendo grego

O Prémio Nobel da Economia manifesta o seu apoio ao governo grego e esclarece que votaria 'Não' no referendo de dia 5 de julho. Paul Krugman considera que os governos credores e as instituições europeias têm cometido “um ato de loucura monstruosa” ao empurrarem a Grécia até este ponto.

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O ataque da Europa à democracia grega

Devemos ser claros: quase nenhum do enorme manancial de dinheiro emprestado à Grécia foi verdadeiramente para lá. Foi canalizado para pagar aos credores do setor privado – incluindo bancos alemães e franceses. O que a Grécia obteve foi uma ninharia, mas pagou um elevado preço para preservar os sistemas bancários desses países. Artigo de Joseph Stiglitz, Prémio Nobel da Economia. 
(...) 

Claro, a política económica por detrás do programa que a troika (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional) tem impingido à Grécia há cinco anos tem sido abismal, resultando num declínio de 25% do PIB do país. Não consigo pensar em nenhuma depressão que alguma vez tenha sido tão deliberada e que tenha tido tais consequências catastróficas: a taxa de desemprego entre os jovens da Grécia, por exemplo, já ultrapassa os 60%. É surpreendente que a troika se tenha recusado a aceitar a responsabilidade por alguma coisa destas ou admitir o quão maus tenham sido as suas previsões e modelos. Mas, o que é ainda mais surpreendente é que os líderes europeus não tenham sequer aprendido. A troika ainda exige que a Grécia alcance um excedente orçamental primário (excluindo o pagamento de juros) de 3,5% do PIB em 2018. Economistas de todo o mundo condenaram essa meta como punitiva, porque exigi-la resultará inevitavelmente numa recessão mais profunda. Na verdade, mesmo que a dívida da Grécia seja reestruturada para além de qualquer coisa imaginável, o país permanecerá em depressão se os eleitores se comprometerem com a meta da troika no referendo, a ser realizado sob pressão este fim de semana.

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Antipope: a false claimant of the Holy See in opposition to a pontiff canonically elected
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