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31/10/15

"sem perdão"

retirado do fb
30/10/2015

por António Pinho Vargas 

de Helena Almeida, "negro agudo"
O que é que mais detesto em Cavaco? Nem sequer é propriamente o político, em sentido estrito. Mas antes o facto de sermos todos, sobretudo os nascidos nos seus consulados de 80 e 90, "filhos de Cavaco". 
Entendam-me, por favor.
Que valores transmitiu?
Que formas insidiosas conseguiu fazer penetrar nas nossas formas de vida?
Que estragos provocou?

O mais feroz individualismo, a ideia fixa de conseguir sucesso a qualquer preço, a corrosão do carácter, a razão profunda que conduziu muitos às maiores vigarices, aos maiores assaltos aos bancos e ao enriquecimento acima de tudo o resto, a incultura colossal, a ausência de qualquer pensamento de amizade, de amor, de solidariedade, de respeito pelo outro, sempre pronto a ser reduzido a nada à cotovelada, a cedência aos interesses mais mesquinhos como regra, tudo isto se espalhou na nossa sociedade como um vírus, como uma doença mortal, como uma desgraça colectiva, da qual apenas sobrevivem e mal aqueles que tiveram por trás de si, ou dentro de si, uma força quase impossível de passar à prática perante uma tal intoxicação semi-voluntária, semi-imposta sem nos darmos conta.
Em suma, uma profunda crise moral, que, concedo, surgiu em muitos lugares do mundo a par com o triunfo do neoliberalismo, ideologia que apenas deixa livre a possibilidade de querer vencer, enriquecer, humilhar e ignorar tudo o resto e todos os vencidos.

É uma ideologia nefasta de todos os pontos de vista - nem na economia funcionou dada a sua ligação intrínseca à crise de 2008, a crise mundial do dinheiro virtual, do crédito a 0%, do endividamento tresloucado com o qual só alguns lucraram, crédito que, antes e depois de ser considerado mal-parado, provocou em 3 ou 4 décadas o aumento brutal das desigualdades no mundo.

Não a inventou mas em Portugal foi o seu introdutor e principal instigador até hoje. Desta herança nunca poderá ter nenhuma espécie de desculpa ou de atenuante.
Sem perdão.

13/07/15

"Um escândalo civilizacional"

retirado do facebook

por António Pinho Vargas

Schäuble, o rosto do imperialismo financeiro alemão

O que se vem passando na Europa começa não apenas a ser indescritível mas mesmo a meter medo sério. Já imaginaram este país a ter de vender a fundos privados os Jerónimos, o Mosteiro da Batalha e o Castelo de Guimarães? É que foi exactamente isto que passou pela cabeça de alguns alemães, lê-se. Colocar o Parthenon em fundos de investimento ou parecido! Lê-se e não se acredita!

Subscrevo inteiramente o artigo de Rui Tavares no Público, "O Sr. Anti-Europa", excepto o título. Schäuble é muito pior do que isso. Representa o pior lado alemão quando uma coisa se lhes mete na cabeça e a junção poder-capital-arrogância se mistura de forma explosiva. O homem é de tal modo sinistro que até outros que têm estado do seu lado nas reuniões da burocracia financeira das "ajudas" - o saque aos dinheiros - estão neste momento a marcar alguma distância. Hollande, tão vilipendiado, surge agora como o que resta de um algum bom senso elementar naquelas bandas. Tenho medo porque é para isso que servem os imperialismos e sua pulsão interna: dominar os fracos, integrá-los no império, submetê-los e explorá-los e, em tempos, reduzi-los à escravidão. Sabe-se que no mundo de hoje existe já muito trabalho escravo. Um escândalo civilizacional sobre o qual o capital assobia como se não fosse nada com ele. Pelo contrário, tem tudo a ver com ele.

A UE assim? É demais. Das duas uma: acabe-se com ela ou, como diz, RT "parem este homem, se não for já demasiado tarde". Julgo que já é tarde e sigo para o resto do dia com a amargura que provoca ver o delírio e o inenarrável do real . Não se acredita! Há limites mas parece não haver limites.
"Não quero ver e no entanto vejo", Manuel Gusmão, n'Os Dias Levantados.

21/03/15

"As máximas vergonhas de Portugal. ..."

retirado do fb
20/3/2015

por António Pinho Vargas

As máximas vergonhas de Portugal. A moral da UE. A desgraça do estar-vivo nisto. 
Portugal podia ter tido a crise-pretexto para sacar dinheiro às populações, podia ter o governo mais à direita que existiu, podia ter desempregados na desgraça e velhos maltratados e jovens emigrantes em grande quantidade, podia ter o mais ridículo presidente, podia até não ter Syrisas nem Podemos, nem nada. Podia mas não devia. Mas, ainda por cima, ter toda esta pouca vergonha que se sucede, caso após caso, episódio após episódio, que nos faz desconfiar de que nos antros do poder, de todos os poderes financeiros, políticos e judiciais, circula uma enormíssima quantidade de vigaristas, de esquecidos das próprias vigarices, de irrevogáveis e quejandos, de inúmeros casos de tráfico de dinheiro em direcção aos próprios bolsos, que nos faz ver claramente visto que "as reformas" dos discursos eram apenas conversa fiada para justificar tudo o que foi feito quando, afinal, a reforma que devia ter sido feita era varrer toda esta gente que se tem em alta consideração - mesmo quando mente descaradamente - e ela, essa gente, é que era o problema principal do país: as elites financeiras, políticas e económicas, com umas pouquíssimas excepções. Ninguém tem vergonha de nada, e por isso, tudo junto, um e outro dia, sem parar, torna-se verdadeiramente insuportável.

Ninguém se pode admirar que eu vá sabendo das coisas pelos jornais - chega perfeitamente - e não veja televisão. Não quero ver o espectáculo desta miséria, nem a miséria deste espectáculo, que mais parece um polvo, no sentido mafioso do termo, a falar por múltiplas bocas. Mas até uma máfia deve mostrar alguma competência; se não mostra nenhuma deixa de ser digna do seu nome: máfia.
Nem isso conseguem ser: é uma "coisa" mais desorganizada, mais incompetente, mais idiota, mais inculta - mas quão inculta nos seus fatos de bom corte e cabeças ocas e vazias - do que os famosos italianos.

Como foi possível que o enorme dinheiro que veio da Europa para Cavaco parecer competente e que foi parar aos primordiais bolsos corruptos e hoje apenas se possa contemplar quando vemos umas auto-estradas? Todo o resto foi mal gasto, mal aplicado, gasto em boas roupas enquanto houve dinheiro para ir ao bar pós-moderno da moda ou, provavelmente em mais casos, desapareceu talvez nas Ilhas Caimão, ou em Cabo Verde ou nos milhares de offshores do, mais que alguma vez foi, imoral capitalismo actual.

Não há ponta por onde se pegue. Perante as medidas do governo grego, justas e urgentes para muitos dos que lá vivem, a Europa, ou melhor dizendo, aquela associação de malfeitores conhecida pelo nome de "credores" tremem: ai que o nosso dinheirinho que tão generosamente lhes oferecemos, para ser gasto em aviões, submarinos e privatizações futuras, vai servir para pagar a electricidade de quem não tem dinheiro para a pagar. Bandidos! Comunistas! O dinheiro é nosso e das nossas ilustres instituições financeiras.
Enquanto levámos estes países para a desgraça colectiva dizíamos: "estão no bom caminho", "as reformas vão no bom caminho". Agora, dinheiro tão ilustre, tão fino, tão puro na sua original sujidade intrínseca, nas mãos de umas velhotas gregas na desgraça? Pode lá ser!. É esta a "moral" da UE.

APV

04/11/14

podemos? .. não podemos? ..

retirado do facebook,

por António Pinho Vargas

O que é que o Podemos pode e nós não podemos? (a hierarquia de medos) 
Têm sido publicadas análises várias da sondagem de Espanha e da situação política de países do resto da Europa, comparando-as com a fixidez do sistema partidário português. Importantes as de André Freire e, hoje no i, de Nuno Ramos de Almeida, "Há razões para não podermos?". Julgo que sim, que há razões.

Há algum tempo - há anos - fui escrevendo aqui da necessidade de uma aliança das esquerdas. O resultado foi um desastre e nenhuma aliança nas Europeias.

Posso apontar o que me parece sobre as razões da especificidade: 
1. O "salazarismo está vivo nos nossos corações": hoje mesmo leio que o director obscuro da Faculdade de Direito de Coimbra, António Santos Justo, proibiu um debate entre Rui Tavares e Pedro Mexia porque "não quer ideologia na Faculdade". Leio e não acredito. O discurso-tipo de Cavaco - o político não-político que dissemina o discurso anti-políticos - dá os seus funestos resultados. Cavaco com esse discurso vai ao encontro dos piores resquícios do tempo do regime da ditadura. "Discutir política é proibido" como se isso mesmo não fosse uma posição política de extrema direita. Discutir política é coisa de comunistas; governar é "a bem da Nação", "não é política". Uma vergonha sem nome. 
2. A existência do Partido Comunista; enquanto que nos outros países da Europa os PCs desapareceram, pura e simplesmente, o PCP mantém-se forte. Deste modo a clivagem Salazar-Cunhal, que marcou o século XX em Portugal prossegue. O Bloco - com todos os meus amigos lá - recupera aspectos idênticos da situação de 1968-75. Daqui resultou o imobilismo que algumas movimentações noutras esquerdas poderão romper nas próximas eleições. Julgo que a força do PC na sociedade e nos sindicatos foi, em Portugal, um obstáculo ao aparecimento de Siryzas e de Podemos. Quando se existe ocupa-se um espaço. 
3. As elites culturais não são elites nem são cultas e mantêm o quadro que marcou o regime fascista após 1945: a divisão entre "a situação" e "a oposição" para além de largas camadas de apolíticos secretos (de direita). O medo bipartido do antigo regime. Quem rompeu este bloqueio social e político foram os militares em 1974, convém lembrar. Depois de 1980 recreou-se uma nova hierarquia de medos que atravessa a sociedade de alto a baixo, nas empresas, nas escolas, nos hospitais, nos partidos. "Eles - sempre eles - é que mandam". 
4. A justiça. O número de presos e arguidos por corrupção em Espanha é enorme desde a filha do rei e o seu elegante marido, até muitos autarcas e financiadores ilegais de partidos. Em Portugal contam-se pelos dedos e todos os banqueiros envolvidos em escândalos, estão à espera das previsíveis prescrições, bem instalados em suas casas. A justiça não funciona em Portugal e esse facto favorece a hierarquia de medos e a prática da corrupção. Claro que deve existir "a presunçao de inocência", mas devia igualmente existir a presunção de condenação uma vez terminados os julgamentos. 
5. Nos próprios textos de André Freire e Nuno Ramos de Almeida - prezo os dois - se mostra a divisão que paralisa. O primeiro defende que "a esquerda radical deve deixar claro que quer governar". O segundo afirma que "o que as pessoas exigem é uma ruptura com aquilo que existe, não que se proponham comer à mesa do sistema". Ramos de Almeida admite adiante que "quem se opõe a este estado de coisas deve ter a ambição de governar e ocupar o lugar do poder para o tornar o lugar de todos" e antes escrevera "o problema dos partidos como o Bloco e o PC […] é terem sido incapazes de transformar uma maioria social numa maioria política" elogiando o Podemos por ter vontade de vencer, tendo uma "forte hegemonia na maioria da população". Veremos se sim ou não nas próximas eleições em Espanha. 
6. Mas a divergência anterior - governar com os partidos do sistema, leia-se o PS - ou governar contra ele - é justamente a causa que impede acordo, que paralisa e que impede o aparecimento da maioria política idêntica à maioria social. 
7. Finalmente uma sociologia empírica do olhar: julgo que as camadas mais pobres da população portuguesa, as mais atingidas pela crise, especialmente no norte do nosso país, tem uma ligação afectiva e política ao PS. Julgo que em Lisboa e arredores este facto é virtualmente invisível e incompreensível. Enquanto o PC tem primazia sindical histórica o PS, por razões certamente complexas, não sofreu, ao contrário de outros partidos similares europeus, o mesmo tipo de desmantelamento, e de desastre eleitoral. Mantém-se. Tomá-lo como "partido do sistema" é, por um lado, verdadeiro mas, por outro, continua a ser visto por muitos da camada mais frágil da população como o seu partido, como o único que os defende na prática nos momentos difíceis. Aqui reside outra particularidade deste país. Nesse sentido, o PS terá no próximo governo a sua última oportunidade de lhes dar uma resposta. 
8. Ao longe a triste União Europeia dos burocratas e dos neoliberais comandados pela Alemanha. O que conta muito.
António Pinho Vargas
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Ver:
Sondagem coloca Podemos à frente das intenções de voto em Espanha 
PÚBLICO 02/11/2014

15/05/14

Uma ideia de sociedade não solidária

retirado do fb,

por António Pinho Vargas

Hoje o Público inclui um artigo de Vanessa Rato sobre Cultura e o Estado (p.38-9)

Dentre os vários aspectos abordados - importantes - ressaltou-me uma intervenção no Parlamento de Catarina Martins (BE), de 3 minutos, sobre a qual se refere que "no breve tempo que demorariam as suas palavras Portugal teria gasto mais em juros da dívida pública do que aquilo que investe em criação artística em todo um ano".
Não deixa de ser impressionante. Algumas conclusões se podem tirar. 
  1. As instituições financeiras que regulam a dita ajuda não brincam em serviço. "Ajuda" e "ajustamento" no discurso; paguem os juros, se faz favor, na realidade. 
  2. O seu projecto de transferência de dinheiro dos pobres para os ricos - acolhido e celebrado por este governo e já levado a cabo - concretiza-se em muitas áreas: emprego/desemprego, pensões de reforma/cortes, impostos cada vez maiores, diminuição de apoios à actividade e à criação cultural até atingir os valores mais baixos de uma década. 
  3. Uma ideia de sociedade não solidária - incentivos discursivos às querela intergenacionais, novos contra velhos, pensionistas contra empregados, funcionários púbicos contra privados, etc - ciências de aplicação imediata - economia e gestão contra todas as chamadas Humanidades, História, Filosofia, Artes, etc, aspectos, aliás, em que grassa no próprio governo e em grande parte dos economistas e gestores, uma enorme ignorância. 
  4. Bem pode o governo vir agora com um discurso próximo do patético-eleitoral anunciar o "sucesso" e baixas putativas de impostos, ao mesmo tempo que se sabe, ou se pode prever que, como diz quem manda (a troika) que a austeridade é para continuar. Será preciso ser muito estúpido para acreditar neste discurso enganoso. Como bem disse a mesma Catarina Martins "a palavra do primeiro ministro não vale nada". 
  5. Da mesma CM a intervenção resume a importância da criação: "a criação é uma forma de conhecimento, uma forma de qualificação e uma forma de soberania, porque é uma forma de pensarmos sobre nós, de nos projectarmos e termos um lugar no mndo. Os cortes põem em causa a capacidade de o nosso país se pensar". 
  6. Não posso estar mais de acordo. Nem tudo deriva ou depende do apoio do Estado, nem todos os problemas estariam resolvidos com esse apoio - as suas formas podem e devem ser melhoradas e escrutinadas - mas a sua actual ridícula dimensão é o outro lado do espelho que favorece a infantilização da população - o titytainmnent - esse sim, o programa cultural do governo e em geral do capitalismo. Favorecer a autoridade, favorecer a passividade e a depressão perante as várias formas de poder do estado, das chefias das grandes empresas, das chefias dos bancos, de todas as formas de poder disseminado. A minha impotência face às dificuldades de colocar os CDs recentes simplesmente à venda (!) é apenas um mero grão de areia neste quadro geral muito mais vasto. 
  7. O voto nas próximas eleições apresenta, para mim, 4 possibilidades plausíveis de oposição de diversos graus e matizes: PS, PC, BE e Livre. Decidirei conforme decidir. 

Na Grécia há o Syrisa em disputa pelo primeiro lugar nas sondagens. Honra à lucidez e capacidade das esquerdas gregas. 

APV,
compositor; Professor na Escola Superior de Música de Lisboa

29/05/13

retirado daqui 
por António Pinho Vargas

As palavras que Pacheco Pereira raramente usa. 

Julgo que José Pacheco Pereira será talvez dos políticos/comentadores aquele que faz as melhores e mais certeiras análises da situação política portuguesa. Mas penso igualmente que, apesar da sua perspectiva muito crítica sobre este governo de radicais neoliberais ser correcta de vários pontos de vista, lhe falta, quase sempre, o uso de algumas palavras, de alguns conceitos, sem os quais fica por perceber a crise na sua total dimensão europeia e global.

Palavras que lhe faltam quase sempre: o capitalismo actual , a ideologia neoliberal, a desregulação catastrófica dos mercados no Consenso de Washington em 1983, Maastricht como institucionalização do triunfo da visão neoliberal na Europa e finalmente uma análise das dívidas como aspecto essencial do triunfo do capitalismo financeiro. Este projecto inicial consistiu em transformar as populações em consumidores compulsivos com dinheiro virtual: Compre agora! 0% de juros. 

Depois da crise de 2008, o outro lado da moeda neoliberal: dinheiro virtual afinal inexistente, bancos em crise, recapitalização do sistema financeiro à custa dos impostos dos Estados e plano na Europa neoliberal para fazer baixar os salários de grandes camadas da população do Sul. 

Sem isto fica difícil perceber por que é que não é apenas Portugal que sofre este tipo de ataques, que sucumbe debaixo da troika global, que outros países com vidas políticas internas muito diferentes e sem a peculiar ignorância e incompetência do governo terrorista social que temos, apesar disso, defrontam igualmente programas de austeridade e problemas muito similares. 

Cada país tem de travar as suas lutas próprias, é certo, mas num momento como este é forçoso compreender o carácter sistémico do projecto dos países do Norte, da Alemanha em particular: o empobrecimento das populações do Sul da Europa e, sobretudo, é preciso dizê-lo bem alto. Caso contrário, ainda caímos na asneira de pensar que é tudo "culpa de Gaspar". Não é, tal como antes não foi tudo "culpa de Sócrates". Pensar com bodes espiatórios é uma tentação. Mas, se assim fosse, teríamos de lhes atribuir poderes deveras extraordinários: estes dois culpados em Portugal, mas também na Grécia, na Espanha, na Itália, na Irlanda, em Chipre, mesmo em França e na Inglaterra? Não me parece que isso tenha sentido. Eles têm responsabilidades locais. Gaspar é mão (radical e cega) que executa o plano europeu mais vasto que põe em perigo o estado social e a democracia, não apenas aqui, mas em todo o lado. 

Se a Europa está a mudar, como dizem alguns, então que mude de forma que se veja, que se sinta, e mais depressa. Só conversa não chega. Por isso, como desconfio de anúncios mil vezes repetidos, só vendo. Antes de ver, prefiro não acreditar já. Para terminar é raro - pelo menos para mim - ouvir Pacheco Pereira referir estes aspectos cruciais. É uma pena porque é o capitalismo e o seu estado actual de guerra que permite explicar a maior parte das coisas que se passam (parece-me). 

António Pinho Vargas

28/03/13

da 'sustentabilidade' ..

..
por António Pinho Vargas *
aqui

Não usei nunca na vida a palavra "sustentatibilidade". No entanto sou obrigado a ouvi-la e a lê-la quase todos os dias nos últimos anos. Quando uma palavra nova se dissemina desta forma, normalmente isso quer dizer que o novo conceito corresponde a uma nova política, como é o caso. De súbito, no contexto da crise, tudo passou a ser visto como necessariamente "sustentável" ou o seu contrário. O que esse conceito significa é que tudo se deve pagar a si próprio e, portanto, algumas coisas a que se destinavam os impostos no passado passaram a ser vistas de outro modo. Queres saúde pública? Queres educação pública? Então terás de pagar. Quero lançar um ataque de significação massiva a esta leitura dominante. 

Muitas outras coisas poderiam ser objecto do neologismo. Por exemplo: alguma vez a execução de uma sinfonia de Mahler ou de Bruckner poderá ser "sustentável"? Nunca. Para isso acontecer o bilhete teria de custar talvez mil euros por pessoa. Todas as orquestras sinfónicas do mundo, todos os teatros de ópera do mundo são insustentáveis por definição. Não tentem disfarçar. Podemos esperar que, mais tarde ou mais cedo, um qualquer mentecapto neoliberal irá aparecer com esta conversa. Mais valia que o fizesse já para se perceber nos meios culturais o seu significado pleno, para além do seu uso demagógico quotidiano. 

Mas há muito mais coisas insustentáveis e este é o aspecto fundamental do lance ideológico oculto de direita. 

Por exemplo, o salário de 40 mil por mês de Catroga, os salários em geral dos gestores das grandes empresas, dos banqueiros, etc. Todos são insustentáveis face à decência, face a qualquer noção de bem comum ou de redistribuição justa da riqueza, de uma ideia de um mundo comum e plural. Mas nunca é para estes casos que a palavra é usada. Os políticos do capitalismo - que é que eles são? - partem do princípio que nisto não se mexe, que não é daqui que resulta a tremenda e realmente "insustentável" desigualdade que o mundo aprofunda e aumenta a cada dia que passa. Total hipocrisia. Para eles isso está tudo bem. É, portanto, sustentável. 

O que não é, é a segurança social (de que eles não precisam) e todas as coisas do mesmo tipo, as antigas funções do estado regulador. Por isso vivemos numa sociedade cada vez mais classista. De cada vez que ouvimos essa palavra - e por isso ficamos a um pequeno passo de nós próprios passarmos a usá-la - estamos a ouvir um conceito que traduz um visão política classista, injusta, opressiva, desigual, falsa, porque oculta todas as zonas onde os políticos neoliberais não querem mexer: os seus rendimentos e os rendimentos dos seus amigos, financiadores e apoiantes lucrativos. 

O uso cada vez maior da palavra, que começou por ser usada apenas por economistas neoliberais, passou para comentadores neoliberais ou socialistas seduzidos por essa visão do mundo e os proventos futuros que lhe estão associados, passou para o discurso das próprias perguntas dos jornalistas, para os artigos dos jornais, até invadir todas as esferas da vida. Estar vivo será sustentável? Ou é um incómodo para a economia que é necessário resolver com a máxima rapidez: velhos a mais, doentes a mais, deficientes a mais, artistas inúteis a mais, em suma, gente a mais. 

Peço a maior atenção para as novas palavras que se espalham como doenças virais. Trazem consigo tudo, menos inocência. No mundo de hoje não há nada que seja inocente. Já agora que se leve até ao fim este oculto (de resto já muito ligeiro). 

* Professor, compositor