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01/11/15

Pacheco Pereira em entrevista

entrevista de  
Nuno Ramos de Almeida
a Pacheco Pereira

no i online,


31/10/2015

- excerto:
(...)
P.P.: «Sou a favor da reestruturação da dívida, mas sou também favorável a que se tenha em conta que temos uma elevada dívida. Sempre achei que o dilema austeridade versus não austeridade é um falso dilema. Depende de como se faz a austeridade. Sou contra ela ser utilizada para fazer engenharia social: que sejam sempre os mais pobres e a classe média a pagar, e se destrua o equilíbrio nas relações laborais entre patrões e trabalhadores. O que se viu nestes últimos anos foi a destruição das classes médias. A classe média, um importante factor de modernização depois do 25 de Abril, foi destruída por uma política radical. E vivemos uma situação política extremada porque a classe média foi radicalizada: uma parte para a direita outra para esquerda. Porque é que há uma passagem de votos do PSD para o BE? E só não há para o PS porque ele se dirigiu para o lado errado: o PS fez uma campanha eleitoral para um centro que não existia. O PS dirigiu-se a um eleitorado que acha sempre que o PAF é o melhor para defender os seus interesses.» 
Está a falar do chamado programa Centeno? 
«O documento Centeno foi uma armadilha em que o PS se meteu. E quando quis corrigir pareceu muito mais radical do que era. O PS devia dirigir-se às pessoas que perderam a sua dignidade e as suas condições de vida. Devia dirigir-se às pessoas que nos últimos anos foram tratadas abaixo de cão. Dou sempre um exemplo, que não é muito popular, que é o caso dos trabalhadores reformados do metro. O que se lhes fez não é um mero problema de austeridade, o que se fez foi empurrar centenas de trabalhadores do metro para uma reforma antecipada porque isso interessava à empresa, e um ano depois retiraram aquilo que tinha sido livremente pactuado com esses trabalhadores. Isto para mim é um bom exemplo do que aconteceu nestes quatro anos: a perda da noção da boa-fé nos contratos de Estado. A perda de noção de que os contratos são para cumprir. O que aconteceu foi que os contratos com os mais fortes foram cumpridos e com os mais fracos foram violados à cabeça. O que aconteceu nos últimos quatro anos não foi apenas uma política económica, foi a aplicação, a partir de de 2012, de um projecto de engenharia social que faz com que no PAF e à volta da coligação haja uma fusão com interesses económicos como nunca houve na democracia portuguesa. Os mesmos empresários que andavam em cortejo com Sócrates, com Durão Barroso e com Cavaco têm hoje muito mais que um cortejo: têm uma fusão de interesses com Passos Coelho, Portas e Pires Lima, que lhes deram aquilo que eles nunca tinham conseguido.»
O Pacheco Pereira é militante do partido que faz essa fusão. 
«A pergunta que quer fazer é porque ainda estou no PSD, com quotas pagas e plenos direitos? Repondo-lhe: ainda tenho uma vaga, insisto na palavra “vaga”, esperança de que mude.» 
Não é apenas para os chatear? 
«Não. Contrariamente ao que se pensa, paga-se muito por ter uma posição como a minha, mesmo as companhias são conjunturais. Tenho um certo tipo de popularidade à esquerda, mas tenho a plena consciência de que isso é efémero, que se deve a eu dizer algumas coisas com alguma liberdade. Porque é que ainda estou no PSD? Porque acho que esse partido é importante na sociedade portuguesa, sou defensor de haver partidos com uma componente de centro, só que em 2015 não há centro. Não há neste momento um centro, a coligação é de direita. E não há esse centro e as vozes que podiam personificar esse centro, uma certa ala social-democrata no PSD, está dependurada no vazio, como Ferreira Leite, Bagão Félix e eu, aquilo a que chamo os “estranhos companheiros de cama”, usando a metáfora shakespeariana. Estas coisas têm de se equilibrar a prazo: temos de ter um centro político, mais soberanista e menos falsamente “europeísta”, que corresponda aos objectivos pelos quais o PSD foi criado.» 
Mas esses companheiros de cama divergem na avaliação de um possível governo de esquerda.
«As pessoas têm percursos de vida diferentes. É natural que reajam de forma diferente, mas os últimos comentários já são mais moderados.»
Nestas eleições sublinhou a importância da ligação do PCP a uma certa realidade social e de certa forma analisou o BE como um fenómeno mais virtual. Mas quem nestas eleições subiu para o dobro foi este último. Como analisa? 
«O Bloco de Esquerda subiu porque beneficiou da radicalização da classe média. É mais natural que essa radicalização torne mais fácil votar no BE que nos comunistas. O PCP é um partido de identidade forte, e com uma relação muito próxima com determinados sectores da sociedade. Mas ao mesmo tempo com fronteiras muito limitadas: as fronteiras do PCP são desenhadas a ferro e fogo, pela história, pela ideologia, pela linguagem. Eu, por exemplo, acho que o PCP se diminui a si próprio por usar uma linguagem muito estandardizada, como quando chamam “pacto de agressão” ao Memorando da troika. Esta linguagem pode ser importante para manter uma certa identidade em alguns sectores da sociedade portuguesa, mas não é boa para crescer. E num período de dissolução dos costumes, como é o que estamos a viver, é mais natural o voto no BE, é uma coisa mais moderna – com as “meninas”, como disse o Fernando Rosas, que parece que provocou alguma fúria nas feministas do Bloco –, dá uma dimensão mais aceitável. E tem um efeito poderoso na comunicação social do PCP. Os comunistas podem pôr 100 mil pessoas ou 200 mil pessoas na rua que só têm direito a uma pequena notícia de circunstância, porque ninguém quer saber dessas 200 mil pessoas: essa é a força do PCP e a sua fraqueza. A sua força é que quem está ali está para lavar e durar; a sua fragilidade é essa fronteira que o PCP não consegue ultrapassar e que é em grande parte criada pela comunicação social.»
(...)

- texto completo aqui

22/09/15

"O dia seguinte"

in Revista Sábado, 
18/09/2015

por  José Pacheco Pereira

Sejam quais forem os resultados, a política portuguesa muda muito no dia seguinte às eleições. 

Se o PAF ganhar, haverá pela primeira vez em Portugal um forte reforço da direita política e ideológica, cimentada por uma poderosa coligação de interesses económicos. Na verdade, esse reforço já existe, mas devido à forma como correu a campanha de 2011, a sua legitimidade e liberdade de acção estavam coagidas. Pode não conseguir cumprir o seu programa não escrito e a sua agenda escondida, mas uma onda de arrogância política abrirá caminho para muitos ajustes de contas. 

Os alvos serão os sociais-democratas do PSD, os democratas-cristãos do CDS, os socialistas de esquerda, os sindicatos, os reformados e pensionistas, os trabalhadores da função pública, os municípios que não sejam do PSD, os trabalhadores com direitos, os desempregados de longa duração, etc. 

O centro político será varrido do mapa, e a sua principal consequência é o toque de finados pelo PSD como partido do centro, centro-esquerda e centro-direita. O Tribunal Constitucional estará também no ápex da conflitualidade política. Isto, no pressuposto de que a coligação encontra forma de governar em minoria, o que, caso ganhe e haja um tumulto no PS, não é de todo impossível com um PS mais “amigo”. 

É por isso que esta eleição é muito importante para Passos, Portas e para o núcleo político e económico que se juntou ao actual Governo, desde think tanks conservadores (que já existiam, mas não tinham a agressividade, nem a capacidade de colocar pessoas e ideias nos sítios certos), a sectores empresariais que beneficiaram das políticas governamentais não só em apoios directos, como em legislação orientada para os seus interesses como aconteceu com toda a legislação laboral. Como se vê pela campanha do PAF, que transpira riqueza por todo o lado, e por alguns investimentos estratégicos feitos com antecedência (como o Observador), não lhe faltam nem vão faltar meios. 

O dia seguinte (2) 

Isto acontece mesmo que a coligação ganhe em minoria e se abra um período de instabilidade política. Mais: se a coligação ganhar e ficar em minoria, o seu derrube com novas eleições ser-lhe-á muito favorável. Um governo minoritário do PAF, será sempre mais difícil de derrubar sem custos eleitorais para quem o faça, do que um governo do PS. O derrube de um governo do PS pode ter o efeito contrário, favorecer o discurso da “estabilidade” do PAF. É também por isso que a maioria absoluta é mais importante para o PS do que para o PSD e CDS. O PS tem um tiro, o PAF tem dois. 

O dia seguinte (3) 

Se Costa perder será varrido da liderança do PS num ápice. O ticket eleitoral dos seus opositores será dar ao Governo o PS como aliado, ou melhor, “dar ao País estabilidade”, propor um bloco central. Não é impossível que haja uma reacção dos militantes do PS, “à Corbyn”, ou seja uma viragem à esquerda, mas na actualidade são as hostes de Seguro e de Maria de Belém que estão à espera. 

O peditório 

A palavra que sempre se usou, mas agora parece haver pudor em usar, para aquilo que Passos propôs aos lesados do BES era “peditório”. Passos propôs um peditório para arranjar dinheiro para pagar os processos contra o Novo Banco, o Banco de Portugal e o Governo por parte dos lesados. Para além da visão de que estes problemas se resolvem com caridade, num país em que o acesso ao direito é constitucional, Passos deu involuntariamente a razão aos lesados considerando-os “lesados” ou seja, vítimas de uma prepotência ou abuso do Poder. Ao dizer que daria algum do seu dinheiro para o peditório é porque reconhece mérito nas queixas dos lesados do BES. Contra quem? Ele próprio, o Estado, o seu amigo no Banco de Portugal, o Ministério das Finanças e o Novo Banco. 

Assim, não admira que ninguém queira comprar a “coisa” sem ter garantias quanto à litigância. Ou sobra para o contribuinte? Vai ser preciso, nesse caso, um gigantesco peditório, para evitar o défice, o procedimento por défice excessivo, e as perdas do “dinheiro dos contribuintes”, quer através da Caixa Geral de Depósitos, de que se fala muito, quer da parte de dinheiro que também é nosso, público, das contribuições dos bancos, de que se fala menos. Como aliás diz com clareza o Tribunal de Contas, mas que convém varrer para baixo do tapete até às eleições. Tanta coisa que já lá está!

retirado daqui

23/06/15

"Demasiado lampeiros para serem sérios"

no Público,
20/06/2015 

por José Pacheco Pereira 

de Leonora Carrington
Então como é? O país está mal ou não está? Está. Então deixem-se de salamaleques politicamente correctos. 

Depois há a Grécia. “Não queremos a Grécia fora do euro” significa, por esta ordem, “queremos derrubar o governo do Syriza”, “queremos o Syriza humilhado a morder o pó das suas promessas eleitorais”, “queremos os gregos a sofrerem mais porque votaram errado e têm que ter consequências”, “queremos a Grécia fora do euro”. O que é que disse pela voz do Presidente? Na Europa “não há excepções”. Há, e muitas. A França por exemplo, que violou o Pacto de Estabilidade. A Alemanha que fez o mesmo. 23 dos 27 países violaram as regras. Consequências? Nenhumas: foi-lhes dado mais tempo para controlar as suas finanças públicas. Mas ninguém tenha dúvidas: nunca nos passou pela cabeça empurrar a Grécia para fora do euro, até porque na Europa “não há excepções”. Lampeiros é o que eles são. Lampeiros.

Este tipo de campanha eleitoral é insuportável, e suspeito que vamos ver a coligação a “bombar” este tipo de invenções sem descanso até à boca das urnas. O PS ainda não percebeu em que filme é que está metido. Continuem com falinhas mansas, a fazer vénias para a Europa ver, a chamar “tontos” ao Syriza, a pedir quase por favor um atestado de respeitabilidade aos amigos do governo, a andar a ver fábricas “inovadoras”, feiras de ovelhas e de fumeiro, a pedir certificados de bom comportamento a Marcelo e Marques Mendes, a fazer cartazes sem conteúdo – não tem melhor em que gastar dinheiro? – e vão longe.

Será que não percebem o que se está a passar? Enquanto ninguém disser na cara do senhor Primeiro-ministro ou do homem “irrevogável” dos sete chapéus, ou das outras personagens menores, esta tão simples coisa: “o senhor está a mentir”, e aguentar-se à bronca, a oposição não vai a lado nenhum. Por uma razão muito simples, é que ele está mesmo a mentir e quem não se sente não é filho de boa gente. Mas para isso é preciso mandar pela borda fora os consultores de imagem e de marketing, os assessores, os conselheiros, a corte pomposa dos fiéis e deixar entrar uma lufada de ar fresco de indignação.

Então como é? O país está mal ou não está? Está. Então deixem-se de rituais estandardizados da política de salão e conferência de imprensa, deixem-se de salamaleques politicamente correctos, mostrem que não querem pactuar com o mal que dizem existir e experimentem esse franc parler que tanta falta faz à política portuguesa.

Mas, para isso é preciso aquilo que falta no PS (e não só), que é uma genuína indignação com o que se está a passar. Falta a zanga, a fúria de ver Portugal como está e como pode continuar a estar. Falta a indignação que não é de falsete nem de circunstância, mas que vem do fundo e que, essa sim, arrasta multidões e dá representação aos milhões de portugueses que não se sentem representados no sistema político. Eles são apáticos ou estão apáticos? Não é bem verdade, mas se o fosse, como poderia ser de outra maneira se eles olham para os salões onde se move a política da oposição, e vêm gente acomodada com o que se passa, com medo de parecer “radical”, a debitar frases de circunstância, e que não aprenderam nada e não mudaram nada, nem estão incomodados por dentro, como é que se espera que alguém se mobilize com as sombras das sombras das sombras?

Enquanto isto não for varrido pelo bom vento fresco do mar alto, os lampeiros vão sempre ganhar. As sondagens não me admiram, a dureza e o mal são sempre mais eficazes do que o bem e muito mais eficazes do que os moles e os bonzinhos.

31/01/15

«O espectro que assola a Europa»

texto e foto retirados daqui

por Pacheco Pereira
31/1/2015,
no Público
Pablo Iglésias, num comício do PODEMOS em Valência no fds passado


Passou uma semana desde que o Syriza ganhou as eleições na Grécia, quase com maioria absoluta, com um programa anti-troika e anti-austeritário, logo a seguir aliou-se com outro partido nacionalista e anti-troika, e no dia seguinte o seu líder visitou um memorial dos fuzilados na guerra contra a ocupação alemã, negociou com o Arcebispo Ieronymos de Atenas uma dupla cerimónia de juramento do governo grego, uma laica para os ministros ateus ou agnósticos e outra religiosa para os ministros cristãos, e ainda não pôs gravata. E começou a tempestade europeia, abrindo caminho a políticas distintas das dos últimos anos impostas pela Alemanha. Espero que tudo termine em bem para os gregos e que isso ajude a mudar a Europa que bem precisa. Para que haja contágio.

Se eu quiser descrever o que se passou de outra forma posso fazê-lo. Passou uma semana desde que um partido radical da extrema-esquerda ganhou as eleições na Grécia, mas não conseguiu a maioria absoluta, com um programa que quer a Grécia a mandriar e os gregos na boa vida, e os outros países da Europa a pagar a factura, logo a seguir aliou-se com um partido de extrema-direita, à direita do CDS, foi homenagear os guerrilheiros comunistas, e rompeu as obrigações que tinha com a Constituição grega, que definem a Grécia como tendo uma religião de estado, e com um primeiro-ministro que é mal-educado e não sabe vestir a roupa própria para cerimónias protocolares. E começou a tempestade grega, com os gregos a irem provar o fel de terem escolhido uns energúmenos demagogos para se governarem. Desejo que tudo se faça para que a “minha” política alemã “inevitável”, “sem alternativa”, não venha a ser posta em causa e que os gregos paguem duramente o preço da sua aventura, para que tudo continue na mesma. Para que haja vacina.

Basta comparar estas duas versões, para se perceber o grau de radicalização que hoje implica mudar, na Europa, como se as relações de poder tivessem ficado congeladas num momento da história recente e ninguém quisesse partir essa redoma de gelo. E foi mesmo isso que aconteceu. De há uns anos para cá, ou melhor desde que a Alemanha abriu a crise das dívidas soberanas, que é uma “construção” política artificial, escolhida, desejada e desencadeada, lançada às feras dos mercados, de natureza muito diferente da crise bancária suscitada pelos activos tóxicos e pela derrocada do Lehman Brothers, que a mudança parecia impossível. Num pequeno espaço de tempo, a União Europeia ensaiou uma resposta keynesiana, de injectar dinheiro nas economias para impedir que a crise bancária fizesse estragos consideráveis numa Europa sob assalto tóxico, seguida de imediato de um travão a fundo e do prosseguimento de duras políticas austeritárias, escolhendo uma linguagem punitiva para apontar os alvos. Começou pela Grécia e depois foi Portugal, esteve para ser a Espanha e a Itália.

Estava tudo bem nesses países? Não, não estava nada bem, mas a abertura artificial da “crise das dívidas soberanas” tornou tudo pior, porque impediu de imediato que esses países acedessem aos mercados e tornou-nos dependentes das políticas que levaram à troika. A relação de causa efeito não é entre os descalabros orçamentais e as dívidas cada vez mais altas desses países e os “resgates”, mas entre a criação de um novo tipo de crise com as dívidas soberanas dos estados, que infectaram os mercados e deram origem aos resgates. Nesse processo, acabou o directório, que já era uma perversão do funcionamento da União Europeia e passou-se ao exercício do poder único da Alemanha, que mudou de aliados na Europa. Deixou a França apagar-se cada vez mais e ligou-se aos países pequenos da linha dura anti-PIGs, como a Finlândia ou a Holanda.

Ou seja, a crise das dívidas soberanas permitiu a hegemonia alemã, que a Alemanha usou para impor um Tratado Orçamental que tornava rígida a sua política em toda a União Europeia, impediu o Banco Central Europeu de avançar com qualquer outra solução alternativa para conter a crise, e fez tudo para bloquear qualquer esboço de resistência à sua política. O Reino Unido isolou-se ainda mais, a França enfraqueceu-se, a Espanha conseguiu in extremis não seguir os PIGs, a Itália permaneceu na corda bamba, a Irlanda, Portugal e Grécia subjugaram-se em desespero de causa. Os socialistas traíram um pouco por todo o lado, assinando o Tratado Orçamental, aliando-se como parceiros menores aos vários governos alemães, e, quando tinham sido eles a estarem no poder no momento dos resgates, ou foram reduzidos a partidos menores ou desapareceram do mapa dos grandes partidos, como aconteceu com o PASOK. Não havia “alternativa”, embora desde o início essas alternativas surgissem mas foram descartadas como exercícios de irrealismo político quase subversivo. Uma política genuinamente radical, como a que foi seguida por vários países europeus, como é o caso do governo português, passou a ocupar o “centro político”, o “arco da governação”. Eles é que eram radicais, mas chamavam radicais a todos os que lhe contestavam a “inevitabilidade”. No intervalo, países que seguiram outras receitas para combater a crise, passaram quase a bolchevistas, como era o caso dos EUA.

Era só uma questão de tempo até que outros verdadeiros radicais acabassem por vir tomar o lugar dos partidos social-democratas, democratas-cristãos, centristas, que cederam aos diktats alemães. Cresceram os partidos democráticos, conservadores e eurocépticos, como UKIP, que, como contestava a ortodoxia europeia, passou também a ser considerado radical. Mas cresceram os partidos de direita mais extrema, como a Frente Nacional e partidos neo-nazis, que deixam Marine Le Pen num altar de moderação, como é o caso da Aurora Dourada na Grécia. E cresceu o Syriza e o Podemos. Mas, mais significativo do que tudo isso, todos traduziram as tendências crescentes do eleitorado de muitos países de recusar a deriva anti-democrática da União Europeia, e a hegemonia das políticas alemãs de austeridade punitiva. Se hoje a União, como está, fosse a votos, na maioria dos países, não passava no eleitorado.

As pessoas sabem disso, os governantes que estão irresponsavelmente a destruir a União como ela existia, também sabem. A União Europeia não sobrevive à substituição de uma política de coesão e de interesse mútuo pela pergunta pavloviana dos novos mestres: “quem é que paga?”. É que antes também só alguns pagavam, mas percebiam que a construção da Europa era uma vantagem política para todos, e que o preço era pequeno. Pagavam desmandos? Pagavam e sabiam que pagavam, quer fosse a falcatrua das contas gregas quer fossem os privilégios dos agricultores franceses. Hoje quem pergunta “quem paga?”, para depois dizer que não quer pagar para esses preguiçosos do sul, está a usufruir das vantagens da União, a garantir que o euro é uma nova versão do seu marco, ou que os mercados a leste lhes estão abertos como nunca estiveram desde o tempo nefasto do Generalgouvernement, ou que puderam beneficiar do fim da guerra fria sem grandes turbulências à porta. Desequilibrem a Europa e depois admirem-se de Putin estabilizar as suas conquistas a Leste; dividam a Europa entre os amigos da austeridade e os seus inimigos e depois queixem-se de muitos segundos ou terceiros partidos serem extremos, anti-europeus, populistas, radicais; aticem os mercados contra os “que se portam mal” e depois queixem-se de haver saídas do euro, e queixem-se ainda mais se elas se revelarem vantajosas a prazo.

Ninguém pode garantir que o Syriza tenha sucesso, e também não é fácil definir qual o grau de cumprimento das suas intenções que possa ser considerado pelos gregos um sucesso, mas os gregos que votaram no Syriza prestaram um enorme serviço à Europa, desbloquearam-na, abriram novas possibilidades, umas boas e outras más. Os gregos fizeram história, no sentido de que quem conhece a história sabe que ela é sempre surpresa. É por isso que, como na célebre frase de 1848, um espectro assola a Europa: o do Syriza.»

 – Pacheco Pereira, no Público.

21/07/14

Voltamos à moralidade ou à falta dela

no Público,
19 de Julho de 2014

por José Pacheco Pereira  

Não é para melhorar as escolas, é para mostrar quem manda. O resultado é que, se houver sarilhos, é porque andaram a pedi-los. 

Voltar a falar de moralidade é algo que só faço com imensa relutância. A palavra e a coisa são tão ambíguas e prestam-se a tantas manipulações, que a probabilidade de sair asneira ao usá-la é grande. Por regra, entre o moralismo hipócrita, tão comum no mundo católico apostólico romano, e o cinismo, eu acho que o cinismo faz menos estragos em democracia.

O ponto de vista realista, ou, se se quiser, cínico, pode ser pedagógico em política, quando esta está cheia de falsos moralismos, densa de presunção moral. Já houve alturas em que foi assim e ocasionalmente, nalguns momentos e eventos, é assim. Nessas alturas faz bem lembrar que a natureza humana é como é, e pode-se ser um carácter duvidoso a título pessoal e ser-se um bom político, que sirva a comunidade e o bem comum. Churchill serve de exemplo, ou Lincoln. Parece chocante, mas a moralidade pessoal é um terreno pantanoso em que é mais fácil entrar do que sair e o julgamento da moralidade alheia, quase sempre hipócrita, tem a notável tendência de funcionar como boomerang. É por isso que só com pinças.

Mas no tempo em que vivemos não é o moralismo o risco, dada a natureza dos nossos governantes que cresceram numa cultura amoral e de “eficácia”. Por isso é preciso o contrário, chamar a moralidade para a praça pública, porque há coisas que são inaceitáveis numa democracia que desejamos minimamente decente. Já não digo sequer decente, mas minimamente decente. E têm a ver com a moral porque atingem a verdade, a recta intenção, o objectivo do bem comum, o respeito pela dignidade das pessoas e são actos de maldade, de mau carácter, muitas vezes disfarçados de espertezas e habilidades.

O exercício desta imoralidade activa na governação impregna toda a vida pública de maus exemplos, de salve-se quem puder, de apatia ou revolta, de depressão ou violência. Torna Portugal um país doente e um país pior, promove os habilidosos sem escrúpulos e afronta os homens comuns, insisto, minimamente decentes, que não querem o mal para ninguém, desde que os deixem sossegados e sem afronta. É isso que provoca a institucionalização do dolo, do engano, a construção de políticas destinadas a tramar portugueses, umas vezes muitos e outras vezes poucos, sem qualquer vergonha por parte dos seus executantes. E aí eu nasço redivivo como um moralista agressivo, e falo cem vezes do mesmo, sem descanso. Não gosto, mas falo.

A história mais recente e que me fez escrever este artigo foi a desfaçatez do truque que o Ministério da Educação usou para marcar os exames aos professores com três dias úteis de pré-aviso, caindo do céu da surpresa no fim de Julho, com grande estrondo. Na verdade, são teoricamente cinco dias, o mínimo exigido por lei, mas só teoricamente. O truque foi pré-assinar um despacho em segredo, no quinto dia divulgá-lo no Diário da República a contar do dia da sua assinatura, para que na prática faltassem, após o anúncio ser conhecido, apenas três dias úteis até ao exame, 17, 18, e 21 de Julho. Professores que já estavam a receber o subsídio de desemprego, que já estavam de férias, e que não sabiam que iam ter um exame para que é suposto prepararem-se, cai-lhes em cima uma data que é já praticamente amanhã. Nem o gado é suposto ser tratado assim, mesmo quando vai para o abate.

Porquê esta rapidez? A resposta é muito simples: para evitar que os sindicatos pudessem apresentar um pré-aviso de greve no prazo exigido pela lei – ou seja, o Governo faz um truque descarado e sem vergonha para contornar uma lei da República, que permite o exercício de um direito.

Pode-se ter o ponto de vista que se quiser sobre os exames exigidos a professores que já tinham as qualificações necessárias para ensinar e, nalguns casos, já ensinavam há vários anos. Esta é outra questão e sobre ela não me pronuncio. O Governo pode até ter razão em querer os exames e os professores não ter ao recusá-los. Aqui posso ser agnóstico sobre essa matéria. Não é sobre isto que escrevo, mas sobre o pequeno truque, habilidade, esperteza e os seus efeitos de dissolução social como norma de governação.

Vai haver quem encolha os ombros e ache muito bem que se pregue uma partida a Mário Nogueira e aos seus sindicalistas da Fenprof. (No entanto, todos os sindicato, mesmo os da UGT, dirigidos por membros e simpatizantes do PSD, estão de acordo em recusar o truque do Governo.) Mas, como a sociedade portuguesa está em modo de “luta de classes”, há aí muita gente agressiva a querer vingança no tempo útil que sobra até o Governo cair. A mó já é a mó de baixo e daí muita raiva pouco contida, que serve de base à indecência.

Sim, porque o que é inaceitável neste acto é que o Governo apresente face aos cidadãos um Estado cuja face é o logro e a habilidade grosseira, sem se preocupar um átomo em humilhar as pessoas, poucas que sejam, que precisam de um emprego, numa altura em que ele escasseia. É isto que é a maldade social. Não é que seja obrigatório fazer um exame, que é uma medida de política que pode ser contestada legalmente, inclusive pela greve.

O objectivo principal, sabemos nós, é impedir a greve, o que já é em si mesmo grave. Mas, para isso, usa-se discricionariamente as pessoas, atirando-as a seu bel-prazer de um lado para o outro, sem qualquer vantagem social, profissional, pedagógica. O Governo, mais do que testar os conhecimentos dos professores, o que já abandonou pelo caminho, quer discipliná-los, obrigando-os a obedecer, para poder mostrar autoridade. E, como podiam ter a vontade de fazer greve, tira-lhes essa possibilidade legal com um truque.

Não é para melhorar as escolas, é para mostrar quem manda. O resultado é que, se houver sarilhos, é porque andaram a pedi-los. Ao tratar-se as pessoas como cães, não admira que elas possam vir a morder.
fonte

16/03/14

A raiva que o manifesto dos 70 provocou

no Público,
15/03/2014

por José Pacheco Pereira


Este surto de raiva, com laivos claramente censórios, não me surpreende. Estava à espera dele

É difícil imaginar tanta raiva, tanta vontade de calar, tanto desejo de pura exterminação do outro, como aquele que se abateu sobre o manifesto dos 70 signatários a pretexto da reestruturação da dívida, uma posição expressa em termos prudentes e moderados por um vasto grupo de pessoas qualificadas, quase todas também prudentes e moderadas.
Nem isso poupou os seus signatários a uma série de insultos, acusações ad hominem, insinuações e o que mais adiante se verá. Sobre eles caiu a excomunhão que retira os seus nomes do círculo de ferro da confiança do poder.

Pelo contrário, alguns dos que os atacam ganharam o direito de lá entrar, e os que já estão lá dentro viram reforçada a confiança que lhes permite uma vida almofadada dos custos da crise. São os "responsáveis", discordam às vezes no secundário, mas portam-se bem. Os 70, pelo contrário, portaram-se muito mal. Num mundo cada vez mais dos "nossos" e dos "deles", bastante parecido com o paradigma marxista da luta de classes, os signatários cometeram vários pecados mortais, e ficaram do "lado errado". É com eles que estou e é com eles que quero estar, não tendo assinado o manifesto apenas por incúria minha em responder a tempo ao convite que me foi feito. Mas é como se o tivesse assinado, por isso incluam-me na lista dos insultos, que já estou habituado.

Veio ao de cima tudo, a começar pelo primeiro-ministro, que os tratou de essa "gente", ou porque tinham uma "agenda política" ou porque eram "cépticos" por natureza, inúteis para o glorioso esforço nacional de empobrecer como programa de vida. O manifesto era "antipatriótico", com um timing inaceitável, a dois meses da "libertação" de 1640, feito pelos "culpados" do esbanjamento, pelos "velhos" a defenderem os seus privilégios, pelos defensores do statu quo dos interesses instalados, pelos "jarretas", pela "geração errada". O seu objectivo escondido, ao assinarem o manifesto, é outro, é "manter o modelo de negócio que temos, o Estado que temos, e atirar a dívida para trás das costas", escreve António Costa em editorial do Diário Económico. José Gomes Ferreira é mais claro: "Estará a vossa iniciativa relacionada com alguns cortes nas vossas generosas pensões?"

Os argumentos ad hominem abundam. Alguns dos signatários que são de direita, um bom exemplo é Adriano Moreira, passaram a ter que ser de esquerda, o que é um modo muito interessante de lhes recusar a identidade, esvaziá-los do que foram toda a vida, para substituir essa identidade por aquilo que é, na sua pena, um anátema: "Já cá faltava um manifesto, de espectro partidário amplo, mas com uma ideologia única, de Esquerda", diz, de novo, um editorial de António Costa no Diário Económico.
Cada vez mais se generaliza em Portugal a idade como insulto, diminuição, culpa, e todos são "velhos" por associação. Falta-lhes a desenvoltura dos "jovens". José Gomes Ferreira pergunta: "Que tal deixarem para a geração seguinte a tarefa de resolver os problemas gravíssimos que vocês lhes deixaram? É que as vossas propostas já não resolvem, só agravam os problemas. Que tal darem lugar aos mais novos?" De facto, troquem Manuela Ferreira Leite, Bagão Félix, Vítor Martins, Sevinate Pinto, o presidente da CIP, Capucho, Sampaio da Nóvoa, Braga da Cruz, Gomes Canotilho, Manuel Porto, Teresa Beleza, e tantos outros, pelos "mais novos", Relvas, Arnault, Marco António, Passos, pelos yuppies das consultoras financeiras que antes vendiam os swaps, e agora iam negociá-los para o Governo, pelos jovens lobos dos escritórios de advogados que fazem todos os negócios do Estado e vice-versa, sob a batuta de alguns velhos "que estão lá sempre", pelo jovem que era para ser propagandista do Impulso Jovem, pelos gestores desempoeirados que usam o Twitter todas as horas e que circulam de cargos políticos para a Caixa, para a RTP, para Angola, dos ministérios para as empresas do PSI-20, ou aqueles que os chineses empregam para manter um link, útil, mesmo que caro. Manuela Ferreira Leite é "velha", Catroga é novo. "Que tal darem lugar aos mais novos?"

Nos comentários dos blogues pró-governamentais, ou seja, no fim da cadeia alimentar, espuma-se de ódio junto com erros de ortografia, alguns dos quais eu corrijo para se perceber, outros ficaram: "Este tipo de "notáveis" (...) sinceramente mentem nojo. Concordo em pleno com o nosso primeiro-ministro com o facto de hoje em dia já nem sequer consegue responder a este tipo de escumalha que hoje em dia aparece na comunicação social, parlamento em fim....por todo lado"; "foi uma ideia idiota que passou pela cabeça de alguns"; "infelizmente estamos já habituados a que figuras da direita se mudem para a ideologia da esquerda irresponsável vá-se lá saber a troco de quê, ou talvez fácilmente se saiba...(...) São gente golpista, que facilmente vende a alma e a dignidade." E estes são alguns comentários reproduzíveis, a maioria é puro insulto soez.

A imprensa económica teve nesta fronda contra o manifesto um papel central, enfileirou editoriais furiosos e notícias com títulos críticos sobre como o manifesto de nada valia e como felizmente ninguém ouvia estes "irresponsáveis", repetindo os argumentos do antipatriotismo, do "timing errado" que sairia "caro" ao país, caso alguém "ligasse" ao manifesto, que deitaria abaixo o adquirido pelos "sacrifícios" dos portugueses, como disse o primeiro-ministro e eles glosam. José Gomes Ferreira vai mais longe - se as coisas correrem mal, a culpa é vossa: "Mesmo sendo uma proposta feita por cidadãos livres e independentes, pela sua projecção social poderá ter impacto externo e levar a uma degradação da percepção dos investidores, pela qual vos devemos responsabilizar desde já. Se isso acontecer, digo-vos que como cidadão contribuinte vou exigir publicamente que reparem o dano causado ao Estado." A mensagem essencial é "saiam da frente", a mesma que está na capa e no título de um livro de Camilo Lourenço, que achava bem que houvesse um novo resgate porque isso "disciplinaria" os preguiçosos dos portugueses.

O que é que tocou esta corda hipersensível de governantes, jornalistas da imprensa económica, homens da banca, alguns empresários e os seus agentes na ideologia "orgânica" do "ajustamento"? Primeiro, voltar ao bom senso e deixar os revolucionarismos de "mudar Portugal", mostrar que há uma política alternativa, que pode ser difícil, mas é muito mais realista do que a política actual, ou seja, que há alternativas. E, pelo caminho, revelar a grande hipocrisia em que assenta a política governamental, e em nome da qual os portugueses têm vindo a ter a vida estragada: é que para se pagar a dívida, tem que haver folga para o crescimento económico e qualquer outra solução é pura e simplesmente irrealista. A questão é que daqui a uns anos, quando tudo isto desabar, nenhum destes corifeus políticos dos "mercados" vai estar por cá, mas a sua herança estará.

Segundo, que essa alternativa implica uma nova forma de estar na Europa, ou seja, responsabiliza-nos pela acção e não pela submissão. É como num velho ditado gaullista sobre os comunistas: "Só fazem aquilo que lhes permitimos que façam." E como nós permitimos tudo, fazem tudo. Na Europa é-se mais realista, incluindo nos "mercados", do que se pensa e seja porque nós actuamos, ou seja a reboque do que pode acontecer na França, Itália ou Espanha, a política vai mudar. Só que, quando mais tarde Portugal o reclamar como membro de parte inteira da União, mais estragado estará o país, maior será o preço.
Terceiro, o manifesto revela que o único consenso transversal existente hoje na vida pública portuguesa, é exactamente aquele que põe em causa a actual política do Governo e dos seus apoiantes. O outro "consenso" assenta num rotativismo entre PS e PSD, obrigados a um pacto que impõe uma política "única" e a aceitação e institucionalização de um colaboracionismo face a uma Europa que pode aceitar "manter-nos", mas com rédea curta e disciplinados. É apenas a blindagem da actual política em eleições, para que, quer se vote no PSD ou no PS, tudo continue na mesma. Esse seria um enorme risco para a democracia.

Este surto de raiva, com laivos claramente censórios, não me surpreende. Estava à espera dele, na sua magnitude e violência. E não vai acabar, vai-se tornar endémico. Ele é o efeito a curto prazo de uma política que se assume para vinte ou trinta anos de empobrecimento, centrados num único eixo: pagar aos credores, obedecer aos mercados. Essa política não pode ser conduzida em democracia, só pode existir com base num regime autoritário.

fonte

29/05/13

retirado daqui 
por António Pinho Vargas

As palavras que Pacheco Pereira raramente usa. 

Julgo que José Pacheco Pereira será talvez dos políticos/comentadores aquele que faz as melhores e mais certeiras análises da situação política portuguesa. Mas penso igualmente que, apesar da sua perspectiva muito crítica sobre este governo de radicais neoliberais ser correcta de vários pontos de vista, lhe falta, quase sempre, o uso de algumas palavras, de alguns conceitos, sem os quais fica por perceber a crise na sua total dimensão europeia e global.

Palavras que lhe faltam quase sempre: o capitalismo actual , a ideologia neoliberal, a desregulação catastrófica dos mercados no Consenso de Washington em 1983, Maastricht como institucionalização do triunfo da visão neoliberal na Europa e finalmente uma análise das dívidas como aspecto essencial do triunfo do capitalismo financeiro. Este projecto inicial consistiu em transformar as populações em consumidores compulsivos com dinheiro virtual: Compre agora! 0% de juros. 

Depois da crise de 2008, o outro lado da moeda neoliberal: dinheiro virtual afinal inexistente, bancos em crise, recapitalização do sistema financeiro à custa dos impostos dos Estados e plano na Europa neoliberal para fazer baixar os salários de grandes camadas da população do Sul. 

Sem isto fica difícil perceber por que é que não é apenas Portugal que sofre este tipo de ataques, que sucumbe debaixo da troika global, que outros países com vidas políticas internas muito diferentes e sem a peculiar ignorância e incompetência do governo terrorista social que temos, apesar disso, defrontam igualmente programas de austeridade e problemas muito similares. 

Cada país tem de travar as suas lutas próprias, é certo, mas num momento como este é forçoso compreender o carácter sistémico do projecto dos países do Norte, da Alemanha em particular: o empobrecimento das populações do Sul da Europa e, sobretudo, é preciso dizê-lo bem alto. Caso contrário, ainda caímos na asneira de pensar que é tudo "culpa de Gaspar". Não é, tal como antes não foi tudo "culpa de Sócrates". Pensar com bodes espiatórios é uma tentação. Mas, se assim fosse, teríamos de lhes atribuir poderes deveras extraordinários: estes dois culpados em Portugal, mas também na Grécia, na Espanha, na Itália, na Irlanda, em Chipre, mesmo em França e na Inglaterra? Não me parece que isso tenha sentido. Eles têm responsabilidades locais. Gaspar é mão (radical e cega) que executa o plano europeu mais vasto que põe em perigo o estado social e a democracia, não apenas aqui, mas em todo o lado. 

Se a Europa está a mudar, como dizem alguns, então que mude de forma que se veja, que se sinta, e mais depressa. Só conversa não chega. Por isso, como desconfio de anúncios mil vezes repetidos, só vendo. Antes de ver, prefiro não acreditar já. Para terminar é raro - pelo menos para mim - ouvir Pacheco Pereira referir estes aspectos cruciais. É uma pena porque é o capitalismo e o seu estado actual de guerra que permite explicar a maior parte das coisas que se passam (parece-me). 

António Pinho Vargas