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29/07/15

Um concurso cruel, um ministério podre

no Público,
29 de Julho de 2015

por Santana Castilho*


Escrevo imediatamente após o encerramento do concurso de colocação de professores, designado por Bolsa de Contratação de Escola, roleta russa absurda que ditou o caos do início do ano escolar transacto, com milhares de alunos sem aulas por mais de um mês.

A evidente subjectividade dos critérios da edição deste ano (onde é possível a formatação de lugares por medida) dará uma cascata de ultrapassagens injustas de uns candidatos por outos, numa autêntica corrida de sobrevivência, marcada pela incompetência de um ministério podre.

Para um exíguo número de vagas, estamos em presença, uma vez mais, de uma lista de critérios imbecis, com que se pretende mascarar o único indicador sensato que poderia trazer um mínimo de seriedade e exequibilidade ao processo: a graduação profissional dos candidatos.

Para um exíguo número de vagas, antecipa-se um monumental número de reclamações, que terão por corolário um previsível atraso na colocação de professores, embora de menor dimensão relativamente ao que se verificou no ano passado.

Num inaceitável prazo de quatro dias úteis (22 a 27 de Julho, com um sábado e domingo de permeio), as escolas foram literalmente inundadas com pedidos de declarações de comprovação de dados, que os candidatos deveriam inserir na plataforma informática, através da qual concorriam.

É impossível conceber um quadro de respostas correctas para os parâmetros com que os candidatos foram confrontados. Quem foi prudente perante a constância das dúvidas (caso, por exemplo, da formação contínua creditada) e não arriscou vir a ser confrontado com “falsas declarações”, prejudicando-se, poderá ser ultrapassado por outros, mais ligeiros na interpretação dos dados.

Como resolver a impossibilidade (real) de comprovação atempada de circunstâncias (cargos e realizações), declaradas de boa-fé, há uma dezena de anos?

O exercício do cargo de director de turma foi ponderado de modo diferente em escolas diferentes.

Face à ausência de um quadro inequívoco de referência, a interpretação do que devia ser considerado “outras formações relevantes”, para cada grupo de recrutamento, tornou-se uma charada.

A desproporcionalidade entre funções exercidas é evidente (vale mais ser “coordenador”, por um dia, de um projecto inserido no Plano Anual de Actividades, que “colaborador” ou “participante” em vários, por toda a vida).

Uma “experiência” em projecto TEIP poderá valer uma colocação em 2015-16.

Este concurso, de complexidade inaudita, foi um escaparate de crueldade burocrática, que sujeitou milhares de cidadãos a processos tresloucados. O surreal esclarecimento prestado pela Direcção-Geral da Administração Escolar, sob a forma de “Aviso”, escassas horas antes do respectivo encerramento, depois de assistir passivamente à confusão instalada, prova-o para a posteridade.

Ao defender a BCE, com as repercussões que ela tem na vida dos professores que não têm influências ou cartão partidário, Nuno Crato devia responder ao que nunca respondeu:

- No contexto presente, com uma procura esmagadoramente superior à oferta, que instrumentos, em sede de BCE, garantem a contratação dos mais habilitados e experientes e a equidade no acesso ao emprego público, que a Constituição protege?

- Que dados concretos, que não impressões subjectivas, que disfuncionalidades objectivas aponta ao sistema, quando se contrataram os professores com base numa lista nacional, ordenada segundo a graduação profissional?

Mas este é tão-só um epifenómeno de uma estratégia política de degradação sócio-económica programada de uma classe profissional, demasiado numerosa e heterogénea para se unir eficazmente, com salários definitivamente reduzidos, progressão na carreira ad eternum suspensa e, agora, sob o cutelo contínuo da “mobilidade especial” e da “municipalização”. Insidiosamente, a conflitualidade e a sobrevivência impuseram-se como modus vivendi predominante nas escolas. O objectivo de muitos, ante a pressão psicológica e emocional a que estão sujeitos (recorde-se, a propósito, um recente estudo de investigadores do Instituto Superior de Psicologia Aplicada, onde é referido que metade dos professores portugueses sofre de stress, ansiedade e exaustão), é manter o salário a troco de subserviência hierárquica pouco digna.

Quando Nuno Crato puxou pela cabeça para ver como implodiria o ministério que sempre criticou, tinha duas soluções: ou motivava os professores, dignificando-os, ou proletarizava-os, balcanizando-os. Escolheu a segunda opção, a mais fácil, a que já vinha de trás. Precarizou-os, fiscalizou-os e limpou-os da última réstia de autoridade, dizendo, cinicamente, que lhes dava autonomia acrescida. Não implodiu a casa que hoje comanda. Apodreceu-a.

* Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt)

16/07/15

os pobres que ficaram ..

no Expresso,
16/07/2015

por Pedro Santos Guerreiro

Os gregos estão desesperados porque a situação é desesperante

O Syriza já está destruído, podemos agora salvar a Grécia?  

Chegará o momento em que tiraremos as mãos das carteiras e as poremos na consciência. Chegará o momento em que já não veremos os ricos que roubaram mas os pobres que ficaram. Em que não quereremos ressarcimento mas reparação. Em que perceberemos que não se pede sequer solidariedade, mas piedade. Em que nem os sádicos se divertirão com a espetáculo degradante dos políticos gregos. A União Europeia foi longe de mais na violência estéril e vingativa. Para destruir o Syriza está a ceifar-se um povo. Já não é indignação, é súplica: SOS Grécia. E se tudo o resto falhar, apele-se à inteligência, que não é de esquerda nem de direita, pois é preciso mudar aquele plano que, além de horrível, é burro, é mau, é pior para todos.

Nos palácios de Bruxelas, nos sofás de Berlim ou mesmo nos bancos de jardim de Lisboa permanece apetecível distribuir culpas e medir ideologicamente o debate. Mas nas ruas de Atenas já passámos essa fase. Sobra o desespero de saber que nada vai valer a pena porque pagar ou não pagar parece indiferente, o tudo ou nada resultará sempre no pouco, no de menos, no insuficiente, porque o plano não funciona. Repito: a Grécia vai ter uma recessão pior do que a que os Estados Unidos viveram na Grande Depressão de 1929. Repito: o plano económico vai falhar porque foi concebido para falhar. Repito: desistimos dos gregos e resistimos a ver o desastre encomendado.

O bloco liderado pela Alemanha ficou tão furioso com o desplante do senhor Alexis Tsipras na marcação do referendo que quis devolver-lhe em dobro a lição de superioridade. Até se percebe a fúria, que segundo os relatos da reunião de domingo do Eurogrupo fez com que o senhor Wolfgang Schäuble berrasse. Alexis Tsipras foi arrogante, marcou um referendo pérfido e achou-se nimbado de invencibilidade com os resultados, como se fosse dar uma tareia moral aos demais estados membros. Mas a Alemanha quis tanto destruir o Syriza, por vingança e por dissuasão a que outros países elejam partidos radicais, que perdeu a noção da força. Mais um pacote recessivo vai destruir mais economia e mais emprego numa economia já exangue.

A vitória sobre Tsipras foi retumbante. Até o perdão da dívida, que o Syriza sempre reivindicou, é agora formalmente admitida pelo FMI, mas de forma a culpar o partido, que não tem nada para mostrar. É ridículo ouvir Alexis Tsipras dizer que assinou um acordo em que descrê. É degradante vê-lo tripudiar o próprio Syriza e ancorar-se nos deputados dos partidos que detesta e que o detestam a ele. É assustador ouvir a presidente do Parlamento (que pertence ao Syriza e se junta aos 40 deputados que se afastaram de Tsipras) falar em genocídio social. Mas a humilhação suprema talvez seja ver Tsipras dizer que não há alternativa. Tsipras, o temível mastim indomável, está amestrado como um caniche. Dá dó. A direita rejubila. Também dá dó. Porque ninguém para, escuta e olha para perceber a loucura que estamos a patrocinar.

A loucura de ver um povo desesperado que, depois de cinco anos de austeridade duríssima, tem prometida nova dose de austeridade duríssima. A loucura de tornar o pagamento da dívida mais insustentável do que nunca, pela destruição económica provocada – se a Grécia sai do euro, os credores podem esquecer, vão receber raspas. A loucura de segregar dentro da União Europeia, cavando um fosso que nos vai apartar sabe-se lá até que lonjuras.

A Grécia só se livra desta sarna se, além do perdão de dívida que de qualquer forma terá, tiver um programa de estímulo económico. O mundo, aliás, só recuperou da Grande Depressão dessa maneira. Percebe-se a pulsão de obrigar o país a adotar as reformas estruturais nunca adotadas, incluindo a de ter um Estado que funcione e que cobre impostos. Mas não é destruindo o espaço político e aniquilando a economia que tal vai ser conseguido. A violência na Praça Syntagma é desenrolada por grupos anarcas ruidosos mas pouco representativos. A miséria que se alastra, não: é de todos.

É preciso mudar o plano. Somar à austeridade um programa de investimento que estimule a economia e que apoie casos sociais de pobreza. Isso é ser inteligente, até porque é a única forma de tentar recuperar parte da dívida. Talvez a linha dura dos alemães queira apenas humilhar o Syriza e tenha feito um plano para que, depois da capitulação de Tsipras, mude o plano para melhor. Até seria bom que isso fosse verdade. Seria maquiavélico mas, ao menos, saberíamos que a loucura iria mudar. E que, portanto, a Grécia haveria de ter saída da crise em vez de uma saída do euro. Para já, o que vemos é o que temos, um país inteiro a afundar-se na desgraça.

Os gregos estão desesperados porque a situação é desesperante. Coloquemo-nos no lugar deles por um minuto: um governo de extrema esquerda ajoelhado depois de cinco anos de tareia, de desemprego e de austeridade, depois de décadas de corrupção e roubo institucionalizado com os governos de centro. E o que lhes dizem que se segue? Pobreza. Talvez a esta hora também estivéssemos na rua.

O “caminho certo”

no Jornal de Notícias 
04.06.2015 

por Rafael Barbosa


Manter Portugal no “caminho certo”

Não é pouco o que o PSD e o CDS têm para oferecer aos portugueses, no caso de estes escolherem a coligação de Direita para mais quatro anos de Governo. Sobretudo porque o elogio ao “caminho certo” inclui o caminho percorrido. E o “caminho certo”, é bom recordar, não resultou apenas das imposições do programa de resgate e da troika. O tom agora adoptado de suave propaganda eleitoral não chega para fazer esquecer a violência do caminho, fosse ele certo (para as elites do PSD e do CDS), ou errado (para os portugueses que tiveram de pagar o preço), e ainda menos que ele foi traçado com gosto e arrogância. 

O “caminho certo”, é bom recordar, implicou que centenas de milhares de portugueses mergulhassem no desemprego, dentro ou fora das estatísticas oficiais, sendo certo que muitos deles não voltarão a trabalhar e que os restantes não conseguirão mais do que empregos mal pagos e precários. 

O “caminho certo”, é bom recordar, implicou e implicará cortar pensões de forma brutal, atingindo milhares de pessoas velhas, cansadas, incapazes de encontrar alternativa. E se o preço a pagar pelos reformados não foi ainda maior, isso ficou apenas a dever-se à intransigência do Tribunal Constitucional, que travou outros e maiores desmandos. 

O “caminho certo”, é bom recordar, foi o de incentivar novos e velhos a “sair da sua zona de conforto” e a emigrarem, o que se concretizou de facto, mais uma vez afectando centenas de milhares de pessoas, as que partiram e as que ficaram. 

O “caminho certo”, é bom lembrar, foi o de provocar uma hecatombe social, com o aumento dos índices de pobreza para níveis nunca vistos, sobretudo entre as crianças e os jovens, com efeitos implacáveis a curto e longo prazo. 

O “caminho certo” foi castigar os que conseguiram manter os seus empregos, com um aumento de impostos nunca visto, fosse através do IVA, fosse através do IRS, com mudanças definitivas e gravosas nos escalões de IRS, ou através da criação da sobretaxa, que mais não significou do que o confisco de parte dos salários. E se o preço a pagar por quem trabalha não foi ainda maior, isso ficou apenas a dever-se à fúria com que foi recebida a proposta de aumentar a taxa social única, que levou às ruas pelo menos um milhão de pessoas. 

O “caminho certo”, é bom lembrar, foi o de acentuar de forma abrupta e brutal a recusa dos jovens portugueses em ter filhos e que conduziu as portuguesas para a mais baixa taxa de fecundidade da Europa e para as consequências letais que daí advirão para a sobrevivência de um pobre país.

fonte: blogue Cadernos de Opinião

15/07/15

"Aprender com a derrota "

no Expresso, 
&conomia à 4ª 
15.07.2015

por Alexandre Abreu

Pior ainda do que sofrer uma derrota é sofrê-la e não aprender nada com isso 
O acordo alcançado no passado fim-de-semana foi, simplesmente, catastrófico. Do ponto de vista económico, significa o aprofundamento da tragédia em que a Grécia se encontra há cinco anos. O acordo alcançado prevê mais três anos de austeridade sem tréguas, com tudo o que isso implica em termos de perspectivas de evolução social e de viabilidade do projecto de desenvolvimento de Grécia. A economia e a sociedade gregas continuarão a sua espiral descendente. A dívida pública grega continuará a sua espiral ascendente por via tanto do numerador (os 86 mil milhões de euros de “ajuda” adicional) como do denominador (a continuação da contracção da economia em resultado da austeridade). O acordo não prevê outra coisa senão mais austeridade como contrapartida para aceder a mais endividamento, e isso é tanto mais dramático quanto este acordo foi alcançado por um governo que mostrara compreender que tanto a primeira como o segundo não constituem parte da solução, mas do problema.

O acordo, e o processo que a ele conduziu, são também catastróficos do ponto de vista da soberania - ou antes, são esclarecedores relativamente aos limites da soberania democrática no contexto da união económica e monetária. Entre a apertada supervisão das finanças públicas gregas por parte das instituições credoras e a constituição de um fundo, destinado à privatização, constituído pelos mais valiosos activos detidos pelo estado grego, o acordo representa a completa transformação da Grécia numa colónia dos credores, administrada pelos credores, no interesse dos credores. Deixa abundantemente claro que não existe verdadeira soberania democrática no interior da zona euro, da mesma forma que não existe qualquer tipo de democracia multilateral – apenas o poder da Alemanha – nas suas esferas de tomada de decisão.

Mas o pior deste acordo é mesmo a sua dimensão política. O governo grego acedeu a ultrapassar todas as linhas vermelhas que tinha estabelecido e a quebrar a vasta maioria dos compromissos que havia estabelecido no programa de Salónica. Fê-lo apesar do enorme apoio popular com que contava em virtude dos resultados das eleições legislativas e do referendo de 5 de Julho, do qual havia saído um claríssimo e muito corajoso mandato popular no sentido do governo garantir um acordo digno e favorável aos gregos ou, na ausência de um tal acordo, rejeitar qualquer outro acordo assumindo as consequências. O governo grego, devo dizê-lo com clareza, foi menos corajoso do que o seu povo e desrespeitou a sua vontade. E o mais trágico é que a única coisa que consegue com isso é desperdiçar uma oportunidade única, com graves repercussões não só para os gregos como para o resto da Europa.

Este desenlace é, para já, uma clamorosa derrota. Mas é-o apenas para já, pois é evidente que não produz um desenlace estável. Na medida em que implica a continuação da subjugação e do empobrecimento, é inevitável que este rumo volte a ser posto em causa mais cedo ou mais tarde. Está já a sê-lo por uma boa parte dos trabalhadores, cidadãos e deputados gregos, podendo redundar em novo volte-face a breve trecho caso estes tenham força para obrigar o governo a alterar a sua posição. Mas mesmo que não seja para já, será para mais tarde: como tive ocasião de escrever há poucas semanas, não há medo do desconhecido nem europeísmo indefectível que sustentem a subjugação eterna. Este acordo seria profundamente nocivo e intrinsecamente instável se tivesse sido assinado por um governo do PASOK ou da Nova Democracia; tendo sido assinado por um governo do Syriza, é igualmente nocivo e instável. O facto de ter sido assinado pelo governo do Syriza apenas acrescenta a dimensão trágica de ter sido desbaratada uma enorme esperança.

Na ressaca deste acordo, e enquanto aguardamos as próximas voltas da roda da história, importa não desperdiçar o aspecto mais positivo de todo este processo: as lições que dele podemos e devemos retirar. É hoje claro para todos, mesmo para quem não o era há alguns meses, que as decisões políticas na Europa não são governadas pela razão ou pela solidariedade, mas pela prossecução pelos mais poderosos dos seus interesses e pelo imperativo de cortar pela raíz qualquer veleidade de emancipação. É hoje claro que a construção de uma Europa democrática e solidária não se fará mudando as estruturas existentes por dentro, pois estas são irreformáveis. E é hoje claro que existe uma incompatibilidade fundamental entre a rejeição da austeridade e o desejo de permanência na moeda única: o apego dos povos da periferia ao euro é como o amor do escravo pela corrente que o aprisiona.

São lições duras, mas até por isso temos obrigação de dar-lhes a devida atenção. Pior do que sofrer uma derrota é sofrê-la e não aprender nada com isso.

"Falemos de rigor e de seriedade "

no Público
15 de julho de 2015

por Santana Castilho *

Uma análise do discurso de Nuno Crato, antes e depois de ser ministro, tropeça profusamente na recorrência com que se encontra o termo “rigor”. Mas o rigor é inatingível sem conhecimento profundo do universo em que se opera e sem seriedade intelectual e política. Em fim de mandato, Nuno Crato não será recordado pelo rigor.

A ignorância a que me refiro, sobre a complexidade de um sistema de ensino, está particularmente patente na escabrosa reforma curricular que Nuno Crato promoveu, marcada por reminiscências doutrinárias do seu debute político. Com efeito, adoptou o clássico princípio do materialismo dialéctico (aumentando a quantidade transformamos a qualidade da realidade) ao desenvolvimento curricular. Aumentou a carga horária das disciplinas a que chamou de estruturantes (desconhecendo que a natureza estruturante ou instrumental das disciplinas se altera em função de contextos e não resulta de simples enunciação mas sim de fundamentação, coisa que nunca fez) e despejou avalanches de exames sobre as escolas, convencido de que, assim, o saber aumentaria. Mas não aumentou nem aumentará, só por isso.

O tempo para aprender é importante. Mas mais importante é o que se faz com esse tempo. Aumentar a carga horária a um aluno que não entende o que lhe dizem é, tão-só, aumentar-lhe o suplício e desenvolver-lhe o ódio à Escola. Manter sentado, durante o mesmo tempo, um infante de 10 anos ou um jovem de 18, um aluno interessado ou um aluno justificadamente desinteressado, dá resultados diferentes.

A revisão curricular de Nuno Crato obedeceu a uma lógica invertida: iniciou-se com a distribuição das horas por cada disciplina, prosseguiu com a definição das metas de aprendizagem e terminou com a aprovação de novos programas. Ou seja: sem se saberem as razões da necessidade de consignar determinado número de horas a determinada disciplina, porque programas e metas ainda estavam para vir, consignou-se. O recém homologado programa de Português para o ensino básico, com as suas quase 1000 metas (leu bem, leitor, mil metas) é um belo paradigma da insanidade pedagógica a que chegámos. O problema é que a inadequação deste e de outros programas aos estudantes a que se destinam é algo impossível de explicar a quem chamou ocultas às ciências da Educação e substituiu a pedagogia pela contabilidade. A quem privilegiou umas ciências em detrimento das outras, que explicam o sentido da vida e a natureza do Homem. A quem, em nome da formação técnica, estreitou a porta de entrada das humanidades, das artes, do desporto e da cidadania completa.

A falta de seriedade intelectual e política supera a ignorância. Colhamos exemplos neste fecho de ano escolar. A subida da média do exame de Matemática A, acabada de conhecer, um dos melhores resultados de sempre, diz o quê? O que se afirmou no editorial do Público de segunda-feira, isto é, que sim, os exames são um instrumento político. Só que o ministro é neste momento o comentador que, em 2008, acusava Maria de Lurdes Rodrigues de fazer o mesmo que agora se verificou. É aquele que vociferava no Plano Inclinado contra a impossibilidade de se fazerem comparações de resultados de um ano para o outro, exactamente como agora, no dizer do presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática, a mesma que era presidida por Nuno Crato em 2008. É aquele que nos toma por tolos, invocando a independência de um IAVE que ele paga, cujos órgãos de direcção, com uma única excepção, são nomeados pelo Governo, sob proposta dele. E que disse o presidente do Conselho Científico do IAVE, o único órgão não nomeado pelo Governo, em Coimbra, em 16 de Maio passado? Que o Ministério da Educação e Ciência condiciona o IAVE, preordenando o resultado dos exames. Como acabamos de verificar.

A diminuição da taxa de reprovações nos anos de exame, tão celebrada pelo Ministério da Educação e Ciência, tem uma razão para quem não se fica pelas letras gordas: é que, em contrapartida, está a aumentar o número daqueles que ficam retidos nos anos intermédios. Penalizadas pelos resultados das classificações (créditos de horas), pressionadas pela febre dos exames, as escolas deixam para trás os que têm dificuldades de aprendizagem e os que pertencem a famílias social e economicamente mais débeis. Circunstância para que contribui, do mesmo passo, a crescente desmotivação dos professores, sobrecarregados de trabalho, sujeitos há anos ao congelamento de carreiras e a cortes salariais, muitos sem projecto de vida e expostos a despedimentos sumários.

Se na próxima legislatura a Educação continuar governada apenas por paradigmas utilitários e econométricos, não conseguiremos compreender socialmente, quanto mais resolver, os grandes problemas que se colocam aos alunos, às famílias, aos professores, numa palavra, ao país.

* Professor do ensino superior

14/07/15

"A cegueira dos vencedores"

retirado do blogue Alegria Breve
13/07/2015 

por  Bruno Carapinha
 
A Oresteia é a única das trilogias de tragédias gregas sobreviventes até aos nossos dias. A obra de Ésquilo narra a história da hybris (o orgulho e arrogância face aos deuses) de Agamémnon, o vencedor da Guerra de Tróia, e a forma como isso desencadeia uma sucessão de vinganças e tormentos sem possibilidade de apaziguamento. A mulher de Agamémnon mata-o, para vingar o sacrifício da filha que este fez por exigência dos deuses – e por ambição; Orestes, o filho de ambos, é dilacerado por ter de matar a mãe para vingar o pai (a sua obrigação moral e social); após o matricídio, as Erínias, deusas cruéis, perseguem e torturam Orestes até que Atena intervém para sujeitar o caso a um tribunal (o primeiro que é criado). Perante um impasse do próprio tribunal, Atena impõe a salvação de Orestes – uma medida para a paz. As Erínias são então transformadas em Euménides, divindades benévolas que velam pela Justiça e já não pela Vingança.

Agamémnon tinha várias faltas, mas só perdeu o apoio dos deuses quando os desafiou. Só os deuses podiam usar tecidos púrpura: os homens, mesmo os poderosos, são inferiores às forças que não conhecem ou dominam. Com sedução e elogios, a mulher convence-o a pisar os tecidos de púrpura. A atitude é arrogante e o rei sabe-o, mas mesmo assim avança, convencido do seu poder. E, quando eu pisar estes tecidos de púrpura, destinados aos deuses, que nenhum olhar de inveja me fira! Pouco depois, o rei morre às mãos da mulher.

Lembrei-me desta história e socorri-me da minha Oresteia rabiscada ao de leve desde as aulas dos Profs. Victor Jabouille e José Pedro Serra da FLUL enquanto seguia o drama desenrolado em Bruxelas à vista de todos os europeus. A trilogia ilustra lições básicas da vida em comunidade: um vencedor não deve usar de desmesura com os vencidos; a destruição dos outros desencadeia as condições para a nossa destruição; só a justiça pode trazer paz duradoura e evitar o ciclo destrutivo da ordem imposta pelos poderosos – que o são sempre apenas de forma provisória.

A Grécia está sitiada. Os bancos estão à beira do colapso. O BCE faz política discriminatória, recusa o financiamento do sistema bancário e precipita a crise no país. O governo da Grécia está a ceder em toda a linha, apesar de saber que os ultimatos dos credores feitos hora a hora trarão ainda maior devastação ao país e não constituem um programa de recuperação económica que viabilize o pagamento da dívida acumulada. A radicalidade da posição alemã e dos cães de fila está a acelerar a crispação no Conselho Europeu, tornando claro que as condições para a manutenção do projecto europeu estão a ser profundamente afectadas. Até os média generalistas dão conta que a Alemanha está a exigir a capitulação completa, incluindo o confisco de activos no valor de 50 mil milhões de euros. O governo grego está também a ser obrigado a implementar medidas legislativas em 3 dias (três!), impondo ao seu Parlamento as reformas que o directório europeu impuser… 

O euro vai acabar, isso não me parece já evitável. As consequências do processo vão atingir-nos seriamente. Mesmo que nos faltasse a solidariedade para com os Gregos, para com os vencidos, o próprio espírito de auto-preservação deveria alertar-nos. Num debate da ATTAC sobre a crise do Euro em 2010, falei do risco de guerra no caso de recusa do pagamento das dívidas. Mas não esperei ver esse cenário tão rapidamente. Esmagar a Grécia não provoca uma guerra entre os dois países; o confisco exigido é já um acto de guerra. E vai alertar outros povos da Europa para a necessidade de uma grande coligação anti-germânica em breve.

É bastante evidente que os chefes de governo apostam num de dois cenários: ou se expulsa a Grécia do Euro, ou se expulsa o Syriza do espectro político. Se correr bem, até se conseguem os dois cenários ao mesmo tempo. Não nos confundamos: o problema não é o primado da economia sobre a política, como nos andam a vender há muito tempo. O que está em cima da mesa é política pura: trata-se de um directório europeu, dominado por um dos países, a fazer um golpe de Estado num Estado soberano, esmagado pela dívida e pela guerra económica. Para a Grécia, só há duas soluções: o caos interno e a fome; a fome e o inevitável caos.

O ultimato e a humilhação nunca foram modo de resolver questões; foram sempre boas formas de criar problemas bem mais graves. Eu sempre achei que havia forças suficientes no continente para resistir e evitar o desastre. Mas o que se está a passar em Bruxelas é tão extremado; o confisco do património grego é tão radical; toda esta cimeira é tão surreal – que os alemães não podem esperar um bom desfecho. Os loucos dos Habsburgos encaminham-se alegres para o precipício – novamente! – e arrastam-nos desta vez com eles.

Chama-se hybris. Os gregos sabem há 3.000 anos que os espíritos temerários e insolentes desencadeiam as forças que os destroem. Os europeus parecem não aprender. Mas eu tenho vergonha, mais do que medo. Eu não quero fazer parte de uma Europa de pirataria e de patifaria.

Exílio



Quando a pátria que temos não a temos 
 .
Perdida por silêncio e por renúncia 
 .
Até a voz do mar se torna exílio 
 .
E a luz que nos rodeia é como grades 


Sophia de Mello Breyner Andresen,
in 'Livro Sexto'

13/07/15

de pastores alemães e rafeiros

do facebook

por Carlos Esperança 

O jogo perigoso na União Europeia 
e o desbloqueador da crise Passos Coelho 


de Botero
O pânico da União Europeia e o desespero da Grécia consentiram um amargo e precário pré-acordo no duelo onde os falcões quiseram esmagar o povo que resistiu à chantagem e ao medo no último referendo, para castigarem o sentido do voto democrático.

A grande vantagem, para além de mitigar a crise humanitária do povo grego, residiu na quebra da unanimidade em torno da Alemanha, com a França e a Itália a deslocarem-se em direção à Grécia, contra a troika, conscientes do perigo que as ameaçava e do risco de implosão da UE. Os próximos tempos constituem uma excelente oportunidade para novos realinhamentos e para que as várias famílias políticas ponderem a UE que querem e, sobretudo, a que recusam, até à próxima crise.

Do lado contrário mantiveram-se os governos de Espanha, Portugal, Eslováquia e outros exíguos satélites alemães, adquiridos pela UE para que a Nato pudesse cercar a Rússia com bases militares, na cegueira de quem teme o autocrata Putin, de um país que devia ser aliado, e despreza a perigosidade do Islão que estarrece a Europa laica e civilizada.

Passos Coelho deixou de ser a insignificância nacional e passou a ser uma irrelevância internacional ao gabar-se de ter sido a representação portuguesa (ele próprio) a sugerir a pouco recomendável instituição ‘independente’ no Luxemburgo para onde o Eurogrupo propôs transferir 50 mil milhões em ativos gregos.

Por ignorância, não por tão baixa subserviência, PPC não sabia que a instituição referida é gerida pelo KfW, banco estatal alemão, administrado por detentores do poder político, sendo “chairman” Wolfgang Schäuble, o ministro das Finanças, e vice-chairman Sigmar Gabriel, o ministro da Economia.

as razões de Varoufakis

Varoufakis abre o livro:
“Você até tem razão, mas vamos esmagar-vos à mesma” 
Na primeira entrevista após deixar o Ministério das Finanças, Varoufakis revela que defendeu a emissão de moeda alternativa como resposta à asfixia dos bancos, fala da “completa falta de escrúpulos democráticos por parte dos supostos defensores da democracia na Europa” e acusa os governos de Portugal e Espanha se serem “os mais enérgicos inimigos do nosso governo”. “Desde o início, esses países [os mais endividados] deixaram bem claro que eram os mais enérgicos inimigos do nosso governo (…). E claro que a razão era que o seu maior pesadelo era o nosso sucesso: se conseguíssemos um acordo melhor para a Grécia, isso iria obliterá-los politicamente, teriam de responder aos seus povos porque não tinham negociado como nós fizemos”, responde Varoufakis na entrevista à New Statesman.
(...........)
Varoufakis fala também pela primeira vez da derrota política que o levou a sair do governo. Segundo a versão do ex-ministro, propôs ao governo um plano com três ações caso o BCE obrigasse ao encerramento dos bancos: 
  • a emissão (ou o anúncio) de uma moeda paralela (uma promessa de dívida conhecida como IOU), 
  • o corte na dívida detida pelo BCE desde 2012 
  • e tomar o controlo do Banco da Grécia. 
“Perdi por seis contra dois”, diz Varoufakis, que voltou a insistir no plano na noite da vitória do OXI. Mas o governo tinha outros planos, segundo Varoufakis, que levaria a “mais concessões ao outro lado: a reunião dos líderes partidários, com o nosso primeiro-ministro a aceitar a premissa de que o que quer que aconteça, o que quer que o outro lado faça, nunca vamos responder de forma desafiante. E basicamente isso significa desistir… deixa-se de negociar”.

-----------------------------------  texto completo aqui


Yanis Varoufakis
‏@yanisvaroufakis

 An account of the past five months of negotiations.

verdades incovenientes ..

retirado do facebook


por Jorge Bateira *

Ontem às 11:35 · 

«A esquerda que ataca a Alemanha, por querer expulsar a Grécia, quer o quê?
Quer manter a Grécia sob a pata da Alemanha?
Quer esperar pela grande vitória do Podemos para mudar a Alemanha, Finlândia, Holanda, países do Báltico, Eslováquia, etc.?

Esta esquerda parece não ter aprendido nada. É contra ela, e sobre os seus escombros, que havemos de construir uma esquerda que não tenha vergonha de assumir o patriotismo e a dignidade nacional que o discurso de Nigel Farage, dirigido a Tsipras, transmitiu. Viu-se, pela linguagem do corpo, que este não encaixou bem. A maioria da direcção do Syriza é internacionalista e não quer sair do euro.

Oxalá a Alemanha - através dos pequenos países satélites que estão dispostos a cumprir a ordem de Schauble - expulse a Grécia contra a vontade do seu governo. Acho que o povo grego já está mais preparado que os seus líderes, infelizmente.»
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 * econiomista; co-Autor do Blogue Ladrões de Bicicletas
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Bom, este Farage será/é um populista de direita, .... mas quem pode não lhe dar razão, nisto que diz? - E isto que abaixo se transcreve é só o final do discurso:
"If you've got the courage, you should leave the Greek people out of the euro zone with your head held high. Get back your democracy, get back control of your country, give your people the leadership and the hope that they crave! Yes, it will be tough for the first few months, but with a devalued currency and with friends of Greece all over the world, you will recover!"

o golpe de estado da cimeira do euro

“O fumo branco da cimeira vem das cinzas da Grécia”

(...)
A turbulência interna no Syriza começou no fim de semana e promete explodir nos próximos dias, com a corrente ligada ao ministro Lafazanis a demarcar-se do acordo subscrito em Bruxelas. Manolis Glezos diz que “o fumo branco da cimeira vem das cinzas da Grécia” e a oposição interna promete lutar contra o “novo memorando de destruição”.

Numa declaração publicada no Iskra, o órgão da corrente Plataforma de Esquerda, lê-se que o novo memorando alarga a escravatura social e faz do país “uma colónia da dívida sob uma Europa tutelada pela Alemanha”. E diz que o “Não” do povo grego está “em conflito com o acordo, o neoliberalismo e a austeridade instituída na União Europeia”.

A dimensão da revolta interna no Syriza será conhecida já esta semana, quando subirem ao parlamento as leis exigidas pelo acordo para iniciar as negociações com o Mecanismo de Estabilidade Europeu. Também Manolis Glezos, o histórico resistente ao nazismo que deixou o Parlamento Europeu na semana passada, veio reagir ao acordo dizendo que o fumo branco das negociações em Bruxelas “vem das cinzas da Grécia”. Glezos defende que o que aconteceu em Bruxelas “foi um golpe”, juntando-se assim ao impressionante movimento que percorreu as redes sociais durante a madrugada, colocando a hashtag #ThisIsACoup no primeiro lugar em 23 países de dois continentes, com centenas de milhares de tweets.
----- fonte

a capitulação de Tsipras

retirado do facebook

por André Lamas Leite

Baralhado, partido e dado, por muito que custe, quando um país está de chapéu estendido na mão, as ideologias contam muito pouco. Quem tem dinheiro para colocar no chapéu - obviamente ganhando com isso - é que manda a que altura devem ficar os joelhos do chão.

Tsipras tem de explicar em casa como passou de um corajoso líder que implodiria o "status quo" europeu para o núncio da capitulação. Tsipras nunca percebeu como funciona - mal - a Europa dos directórios e esse erro saiu-lhe caro. Será um "case study" em Ciência Política, como uma jogada que teve tanto de corajoso como de irresponsável, de concitar uma onda de apoio em referendo, deu nisto. A montanha pariu um rato. Grande e gordo, de austeridade.

O Syriza vai ser o executor da austeridade cuja negação absoluta lhe dera uma democrática vitória. Mas a UE não é democrática. É um directório gerido a partir de Berlim e com alguns acessórios de enfeite, que passam por Paris (certamente pela "finesse"), muito de vez em quando por Roma (talvez pela moda) e por Bruxelas, apenas para não dar muito nas vistas que tudo se joga em terreno germânico. Esta é a realidade, nua e crua. Não deveria ser por certo assim. Mas alguma vez alguém acreditou verdadeiramente na "história da carochinha" da solidariedade europeia? A Europa não é uma espécie de "Estados Unidos da Europa", como desejavam Schuman ou Monet. Creio que nunca será. Os séculos não se apagam por tratado.

Tsipras é ateu ou agnóstico - não sei bem -, mas porventura os deuses da Antiguidade Clássica do seu país agora dessem um jeitaço.

προσεύχομαι, que é como quem diz, rezar, portanto.

Esta Europa, NÃO, NON, OXI, NO e NEIN !!!


Esta Europa dos senhores e dos servos, não a quero!
Rejeito com todas as células do meu corpo este achincalhar assim os mais fracos, esta arrogância intolerável dos abutres Schäuble e Merkel e Juncker e Tusk e Dijsselbloem e Draghi e Lagarde, as suas imposições desumanas, nazis, imperialistas. O ar vitorioso, de dono e de carrasco, com que o fazem.
Não quero ser cúmplice deste afiar de dentes dos paspalhos P. Coelho e C. Silva e M.L. Albuquerque, cãezinhos de fila sem carácter, sem moral e sem vergonha.
Recuso esta nova ordem que se arroga o direito (mas como podem?! Como ousam???!!!) de retirar aos países e aos povos a soberania e a identidade, o pão a saúde a casa a dignidade, nauseantes matadores da vida e da esperança, raptores do futuro, terroristas encartados, serial killers sem direito e sem representação, esclavagistas deste século XXI, podre, podres.

"Um escândalo civilizacional"

retirado do facebook

por António Pinho Vargas

Schäuble, o rosto do imperialismo financeiro alemão

O que se vem passando na Europa começa não apenas a ser indescritível mas mesmo a meter medo sério. Já imaginaram este país a ter de vender a fundos privados os Jerónimos, o Mosteiro da Batalha e o Castelo de Guimarães? É que foi exactamente isto que passou pela cabeça de alguns alemães, lê-se. Colocar o Parthenon em fundos de investimento ou parecido! Lê-se e não se acredita!

Subscrevo inteiramente o artigo de Rui Tavares no Público, "O Sr. Anti-Europa", excepto o título. Schäuble é muito pior do que isso. Representa o pior lado alemão quando uma coisa se lhes mete na cabeça e a junção poder-capital-arrogância se mistura de forma explosiva. O homem é de tal modo sinistro que até outros que têm estado do seu lado nas reuniões da burocracia financeira das "ajudas" - o saque aos dinheiros - estão neste momento a marcar alguma distância. Hollande, tão vilipendiado, surge agora como o que resta de um algum bom senso elementar naquelas bandas. Tenho medo porque é para isso que servem os imperialismos e sua pulsão interna: dominar os fracos, integrá-los no império, submetê-los e explorá-los e, em tempos, reduzi-los à escravidão. Sabe-se que no mundo de hoje existe já muito trabalho escravo. Um escândalo civilizacional sobre o qual o capital assobia como se não fosse nada com ele. Pelo contrário, tem tudo a ver com ele.

A UE assim? É demais. Das duas uma: acabe-se com ela ou, como diz, RT "parem este homem, se não for já demasiado tarde". Julgo que já é tarde e sigo para o resto do dia com a amargura que provoca ver o delírio e o inenarrável do real . Não se acredita! Há limites mas parece não haver limites.
"Não quero ver e no entanto vejo", Manuel Gusmão, n'Os Dias Levantados.

«Viva a Morte!»

retirado do facebook

por Carlos Esperança

Delenda est Syriza 

Destruamos o Syriza, diz o Catão prussiano, acolitado pelos bajuladores do costume, a lembrar, no fanatismo e na deficiência, o tristemente célebre general franquista, Miláns del Bosch, a gritar na Universidade de Salamanca, «Viva a morte»!
Hollande ainda se esforçou por ser Unamuno, sem a grandeza e a coragem do reitor da Universidade de Salamanca, mas os satélites fazem coro com o implacável Schaeuble, sem perceberem que repetem a história do lobo, quanto à credibilidade grega, quando acusam o seu último governo, de cinco meses, da desconfiança que deviam merecer-lhe os anteriores, conservadores e desonestos, dos cinco anos precedentes.
Sem menosprezar o grave problema grego, aliás comum aos que acreditam em milagres em casa, não é apenas a Grécia que está refém dos humores dos falcões, é a democracia e a União Europeia que estão suspensas.
A humilhação de um partido democrático, sufragado em eleições e de novo legitimado pela via referendária, hostilizou um povo e abriu a caixa de Pandora na União Europeia. A moeda única, a paz e a unidade europeia deslizam sobre o fio da navalha, com o Islão e outras metástases a prenunciarem o pior prognóstico ao cancro que corrói a UE.
A Alemanha e os seus aliados iniciaram todas as guerras, sem vencerem nenhuma. Hoje não se adivinham vencedores porque, antecipadamente, já todos foram vencidos.
Os próximos dias serão de pânico e os próximos anos de pavor. O grito «Viva a Morte!» ressoa nos corredores de Bruxelas e nas maratonas do Eurogrupo.

fodeinde-vos!

de F. Botero

O que se passa na Europa, naquelas "negociações", é uma vergonha. 
Fosse eu e já tinha dado um murro na mesa há muiiiito tempo, mandava-os a todos bugiar, saía da zona euro e da própria UE. 
E não percebo tanto rastejar, tanto compactuar, dos gregos e dos outros. 
Na tv, vejo-os chegarem às reuniões e aquilo é só sorrisos e acenos, beijos e abraços ... todos, aparentemente, uns amigalhaços do caraças ... E não percebo ...

12/07/15

"A Europa é governada por loucos?"

de Rodin
do Aventar
(excepto imagem)


por José Gabriel
12/07/2015 

Estou confuso, pronto!

Os jornais não se calam com a famosa proposta elaborada pelo ministro das finanças alemã, o viperino Shäuble, embora omitida, por agora, nas discussões das instituições europeias. Segundo tal documento, o inteligente Wolfgang propõe, para resolver o problema grego, que a Grécia saia do euro por, pelo menos, 5 anos, durante os quais recuperaria a saúde da sua economia e, uma vez superadas as suas dificuldades, poderia regressar.
E é aqui que se me agita o espanto. Então sair do euro permite recuperar a saúde da economia e prosperar?! E se isto é verdade, porque raio havia um país de querer regressar depois? A Europa é governada por loucos?
Os Antigos diziam que a economia tinha, como alicerce fundamental, a ética e a moral. Pois.

da hipocrisia ..

«Os dirigentes europeus e ocidentais criticam a Grécia pela sua incapacidade de cobrar impostos. Ao mesmo tempo, os ocidentais criaram um sistema de evasão fiscal mundial ... e os países avançados tentam contrariar o esforço global para acabar com a evasão fiscal. Não se pode ser mais hipócrita!» - J. Stiglitz

artigo completo, em francês:

#Grèce : Joseph Stiglitz crie au désastre 

12/07 | 19:48 |

09/07/15

"10 estratégias de manipulação"

de Escher

.... abaixo, um texto -  parece-me que erroneamente - atribuído a Noam Chomsky. 

Tudo o que contém faz parte de um documento "top secret", alegadamente descoberto por acaso: 


Ainda assim, bem interessante ...



ver tradução aqui:




texto retirado do Portal Anarquista

As 10 estratégias de manipulação mediática

1. A estratégia da distracção. O elemento primordial do controle social é a estratégia da distracção, que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e económicas, mediante a técnica do dilúvio ou inundação de contínuas distracções e de informações insignificantes. A estratégia da distracção é igualmente indispensável para impedir que o público se interesse pelos conhecimentos essenciais, na área da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética. “Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, presa a temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado; sem nenhum tempo para pensar; de volta à quinta com outros animais (citação do texto “Armas silenciosas para guerras tranquilas”)

2. Criar problemas e depois oferecer soluções. Esse método também é denominado “problema-reacção-solução”. Cria-se um problema, uma “situação” prevista para causar certa reacção no público a fim de que este seja o mandante das medidas que desejam que sejam aceites. Por exemplo: deixar que se desenvolva ou intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que seja o público a pedir leis de segurança e políticas em prejuízo da liberdade. Ou também: criar uma crise económica para forçar a aceitação, como um mal menor, do retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços públicos. 

3. A estratégia da gradualidade. Para fazer com que uma medida inaceitável passe a ser aceite, basta aplicá-la gradualmente, a conta-gotas, por anos consecutivos. Dessa maneira, condições socio-económicas radicalmente novas (neoliberalismo) foram impostas durante as décadas de 1980 e 1990. Estado mínimo, privatizações, precariedade, flexibilidade, desemprego em massa, salários que já não asseguram ingressos decentes, tantas mudanças que teriam provocado uma revolução se tivessem sido aplicadas de uma só vez. 

4. A estratégia do diferimento. Outra maneira de forçar a aceitação de uma decisão impopular é apresentá-la como “dolorosa e desnecessária”, obtendo a aceitação pública, no momento, para uma aplicação futura. É mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrifício imediato. Primeiro, porque o esforço não é empregue imediatamente. Logo, porque o público, a massa, tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que “tudo irá melhorar amanhã” e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Isso dá mais tempo ao público para se acostumar à ideia de mudança e aceitá-la com resignação quando chegue o momento. 

5. Dirigir-se ao público como se fossem menores de idade. A maior parte da publicidade dirigida ao grande público utiliza discursos, argumentos, personagens e entoação particularmente infantis, muitas vezes próximos da debilidade mental, como se o espectador fosse uma pessoa menor de idade ou portador de distúrbios mentais. Quanto mais tentam enganar o espectador, mais tendem a adoptar um tom infantilizante. Porquê? “Se alguém se dirige a uma pessoa como se ela tivesse 12 anos ou menos, considerando factores de sugestão, então, provavelmente, ela terá uma resposta ou reacção também desprovida de um sentido crítico (ver “Armas silenciosas para guerras tranquilas”)”

6. Utilizar o aspecto emocional mais do que a reflexão. Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para causar um curto circuito na análise racional e, em última análise, no sentido crítico dos indivíduos. Por outro lado, a utilização do registo emocional permite abrir a porta de acesso ao inconsciente para implantar ou enxertar ideias, desejos, medos e temores, compulsões ou induzir comportamentos… 

7. Manter o público na ignorância e na mediocridade. Fazer com que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para o seu controle e a sua escravidão. “A qualidade da educação dada às classes sociais menos favorecidas deve ser a mais pobre e medíocre possível, de forma que a distância da ignorância que medeia entre as classes menos favorecidas e as classes mais favorecidas seja e permaneça impossível de alcançar” - (ver “Armas silenciosas para guerras tranquilas”). 

8. Estimular o público a ser complacente com a mediocridade. Levar o público a crer que é moda o facto de ser estúpido, vulgar e inculto. 

9. Reforçar a auto-culpabilidade. Fazer as pessoas acreditarem que são culpadas pela sua própria desgraça, devido à pouca inteligência, por falta de capacidade ou de esforços. Assim, em vez de revoltar-se contra o sistema económico, o indivíduo auto-desvaloriza-se e culpabiliza-se, o que gera um estado depressivo, de que um dos efeitos é a inibição de agir. E sem acção, não há revolução! 

10. Conhecer os indivíduos melhor do que eles mesmos se conhecem. No decurso dos últimos 50 anos, o avanço acelerado da ciência gerou um fosso crescente entre os conhecimentos do público e os possuídos e utilizados pelas elites dominantes. Graças à biologia, à neurobiologia e à psicologia aplicada, o “sistema” tem desfrutado de um conhecimento avançado do ser humano, tanto no aspecto físico quanto no psicológico. O sistema conseguiu conhecer melhor o indivíduo comum do que ele se conhece a si próprio. Isso significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce um controle maior e um grande poder sobre os indivíduos, maior do que o dos indivíduos sobre si mesmos. .
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The esteemed scholar offers his views crisis over Greece's debt problems. 

By Amy Goodman / Democracy Now! 
July 2, 2015 

 vídeo:

08/07/15

"A resistência grega"

foto e texto retirados do Aventar,
08/07/2015 

por João José Cardoso

A resistência grega

“A política na Europa tem de ser sempre de direita para manter a zona euro intacta” – José Gomes Ferreira (ligação para Facebook

Era uma vez um consenso, entre a casta que domina a Europa dita democrática, e que mantendo a designação de socialista ou democrata-cristã bebe toda da mesma fonte, o neoliberalismo. Por esse consenso a escolha eleitoral dos povos estava restringida a eles próprios, excluindo obviamente a esquerda, esses perigosos comunas. Não Há Alternativa, declarou um dia um verme que proclamava não existir essa coisa da sociedade. E estava tudo a correr tão bem, os países mais ricos enriqueciam, os mais pobres enriqueciam alguns dos seus por conta de privatizações e do desvio dos fundos comunitários para negócios improdutivos. A Sul a corrupção alastrava, em toda a parte a alta finança especulava em liberdade. Estava tudo a correr tão bem, as desigualdades em crescendo, a liberdade de expressão presa na imprensa dominada pelos mesmos donos, a mesma casta, tudo assegurava a tranquilidade, a paz, um futuro brilhante.

Era uma vez uma fábula que um dia tropeça num país pobre, de ilhas e pedras. Onde um povo que sabe ter de seu o que conquistou disse que já chegava. Correu com os bandidos mais próximos, os dois ou três partidos que sempre a governaram, e escolheu um governo de esquerda.

Heresia, gritaram em Bruxelas, em Berlim, em Lisboa e Madrid. Os dogmas só sobrevivem quando o engano subsiste. E um grão na engrenagem pode destruir toda a engrenagem.

É onde estamos. A aflição actual resume-se nisto: se cedem ao governo grego perdem as eleições em Espanha, em Portugal e na Irlanda. E têm de abater a dívida com que a Grécia foi cilindrada. Não cedem, expulsam a Grécia do euro, perdem na mesma o celebrado calote (os idiotas quem andam por aí preocupados com o que a Grécia deve a Portugal esquecem que de imediato pelo menos 50% marcham com a desvalorização da nova moeda) e também não ficam em bons lençóis eleitorais, a especulação financeira trata-lhes daquilo a que chamam “recuperação de economia”, uma fantasia que proclama estarmos a recuperar (e estamos, ou melhor, eles estão: a venda de automóveis de luxo tem corrido muito bem em Portugal).

Verdade se diga que o prejuízo é aparente em caso de saída da Grécia: o BCE pode muito bem resolver o problema, uma vez que assumindo o prejuízo só tem de fazer dinheiro para o compensar. Mas isso viola 372 dogmas do neoliberalismo e, coitados, já lhes vai doer que chegue ver como um país com moeda própria e um governo de esquerda consegue recuperar a sua economia.

Claro que há outra opção: ressuscita-se a Wehrmacht e vai-se a Atenas cobrar a dívida. Desconfio é que essa possibilidade, se referendada na Alemanha, levava com um valente oxi. Ou nein?

06/07/15

Se eu fosse Tsipras, filosofava

..... in English at the bottom ......

Afrodite de Cnido
Se eu fosse Tsipras, saía já, já, do euro. Mandava o Banco da Grécia (suponho que exista lá um ..) fazer dinheiro, dracmas sem fim. E emprestava-o depois aos bancos, aos agiotas, com os mesmos juros que eles cobram às pessoas.
E mandava o tal banco fazer mais dinheiro ainda (Pois não é tudo isto uma abstracção? O que se ganha e se perde, em esferas bolsistas, virtuais?) .. E distribuía riquezas pelo povo: a cada um segundo as suas necessidades, basicamente: primeiro os pensionistas, que dele bem devem precisar, depois todos os mal-pagos e explorados trabalhadores, privados ou públicos. Dava emprego a quem goste de trabalhar, aos outros subsidiava-os, filósofos fossem, e humanistas.
Se eu fosse Tsipras, ia ver os "sinais exteriores de riqueza" e taxava os ricos. Cobrava-lhes justamente pelas várias casas, os carros de luxo, os esbanjamentos e as muitas riquezas em offshores. E investia o que lhes retirasse nos sectores-chave do Estado: a Saúde Educação Cultura, a Habitação e os Transportes, o Saneamento básico.
Se eu fosse Tsipras, promovia bem-promovido o sol e a música e as artes, no estrangeiro frio e sisudo. Sim ... o que sabemos nós dos gregos-hoje, afinal? Que escritores conhecemos? Que pintores? Que filósofos?
Se eu fosse Tsipras, vendia este estar assim inteiro, vertical, que muitos mundos demos ao mundo e outros ainda lhe havemos de dar. A todos os homens e às mulheres de boa vontade pediria uma contribuição -- só-a-quem-queira-e-possa. E.. ohhhhh , ensinava-os a dançar, sim, que se eles dançassem ... primeiro os alemães e os franceses, e depois os belgas, holandeses, finlandeses, tanto que parecem precisar!

Se eu fosse Tsipras, cobrava -- com boa cara -- tudo o que os gregos desde a Antiguidade nos ensinaram. Fazia da Europa inteira um de-boa-vontade-ainda-que-obrigado-mecenas, mais abnegados e generosos os que da solidariedade, da dignidade e da coragem tão sem remorso e em consciência se afastaram.
Se eu fosse Tsipras, eu ... filosofava.
...................
Tivesse ganho o NAI/Sim, e o futuro que teríamos todos os espoliados desta Europa-que-se-queria-outra seria um caminhar no escuro ad eternum, um apagar a luz ao fundo do túnel. Um futuro sem túnel, a bem dizer. Seria fazer o que mal-fazemos hoje, os portugueses, enfiar a cabeça na areia e vergar, e aguentar, aguentar. Nobre povo? Nação valente? Deixem-me rir!

Tivesse ganho o Nai do referendo grego, e seria este aceitarmos a canga vil "sem uma rebelião, um mostrar de dentes". Seria admitirmos que já nem voz temos, uma que seja divergente e que grite e que se faça ouvir. Seria este aceitarmo-nos escravos no século XXI, humildes e macambúzios, seria este des-ser que em Portugal se agiganta, único futuro devir, a servidão. Seria dizermos que a emigração é coisa natural, e a fome e o perder a casa, e o trabalho-escravo e o desemprego e as pensões irrisórias dos velhos, quem lhes vale a eles, que já nem força têm para "sacudir as moscas"?
Tivesse ganho o Nai, e seria deixarmos esvaírem-se-nos estes direitos tão duramente adquiridos, como uma fatalidade ou uma canga que pesa e nos afunda mais e mais, o focinho a comer o pó dos dias e do chão, e ainda assim se aceita como inevitável, necessária, o que se deve (mas quem deve e a quem?!) tem de se pagar custe o que custar, OMG!
Tivesse ganho o Nai, e seria renunciarmos todos, os PIIGS e os outros, a sermos gente, nós que da dignidade não percebemos nem já o sentido, da alegria perdidos, pobres sísifos e jós, marionetas de um jogo sujo que nos subjugou, apalermados e macambúzios. -- mas pagamos ao senhor Durão Barroso (132 mil euros por ano!) e não bufamos, achamos .. natural? Um destino?, enquanto nos esganiçamos contra os perdulários dos gregos, uma cabeleireira com reforma meio-antecipada, onde já se viu? (pois ... pensem se gostavam .. , o dia inteiro de pé mais as tintas e os secadores..) Mas porque insistem eles em bater nas mesmas, estafadas teclas?!
Se eu fosse Tsipras, mandava-os a todos bugiar. E mandava o Banco da Grécia fazer o-dinheiro-que-faz-falta. Muito, todo o necessário para calar os bufos de que eu não gosto, passos-e-cavaco-e-rangel-e-outros-da-mesma-laia. Se eu fosse Tsipras ..
Se eu fosse Tsipras, filosofava.

.... e "Mais que isto ", segundo Fernando Pessoa,  " É Jesus Cristo, / Que não sabia nada de finanças / Nem consta que tivesse biblioteca..."

ou, como disse o grande filósofo português, Agostinho da Silva,
"que o homem possa passar à sua verdadeira vida, que é a de contemplar o mundo, ser poeta do mundo, e o mundo poeta para ele, de tal maneira que nunca mais ninguém se preocupe com fazer tal ou tal obra, mas por ser tal ou tal objecto no mundo, a identidade dele, a única."
...............................
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If I were Tsipras I would go out of the euro zone, right, right away. I would command the Bank of Greece (suppose they have one there..) to make money, loads and loads of dracmas. And I’d then lend it to the banks, the loan-sharks, at the same interest rates they use with people. 
And I’d instruct that bank to make still more money – after all, isn’t this all an abstraction? What you win and lose in virtual markets and stock exchanges? And I would distribute wealth among the people: to each one according to his needs, basically: first of all, to pensioners who are most likely to need it, then to all the overworked, underpaid workers, private or public. I’d give a job to whoever would want it, subsidize the rest, yet philosophers they should be, and humanists. 

If I were Tsipras, I’d check all “external signs of richness” and I' d tax the rich. I’d very justly tax them for the extra houses, the luxury cars, the extreme spending and the immense amounts in offshores. And I would invest the taxed wealth in key sectors of society: health, education, culture, housing and public transports, sanitation. 

If I were Tsipras, I would well-promote the sun and the music and the arts within those cold, stern foreign countries. What do we know about today’s Greeks, by the way? Which writers, which painters do we know? Which philosophers? 

If I were Tsipras, I’d sell this being whole that is theirs, this being vertical, 'cause many worlds have we given to the world and many more will we give them. To all the good-willed men and women I’d ask for a contribution – only to those who can and are willing to. And .. ohhh yes, I’d teach them to dance. If only they danced .. first the Germans and the French, then the Belgians, Dutch, Finnish ... and so needy do they appear to be! 

If I were Tsipras, I’d collect – brave-facedly – all that the Greeks since Antiquity have taught us. I’d make the whole Europe a willingly-even-though-forced maecenas, the more consciously and free of remorse driven from these values, the more abnegated and generous . If I were Tsipras, I would ... philosophise. 
................................. 

Had the Nai/Yes won, and the future of all the excluded people in this other-Europe-we’ve-longed-for would be an ad eternum path into the dark, a turning off the light at the end of the tunnel. A future without a tunnel, to put it bluntly. It would be what we, the Portuguese, badly do, to press our necks to the ground and bend and endure and endure. Noble people? Valiant nation? Don’t kid me! 

Had the Nai won in Greece’s referendum, it would mean accepting the vile yoke “without a rebellion, a grin, a bark”. It would be admitting you don’t even have a voice, one that is divergent and yells and is heard. It would mean accepting we are XXI century slaves, humble and mourning, it would mean this giant perception of not-being that we have in Portugal, servitude being our only future. It would mean that emigration is a natural thing, and so are hunger and losing your home and slave-work and unemployment and the derisory pensions -and who will help them, poor old chaps who lack the strength to even “brush off the flies”? 

Had the Nai won, and it would mean having these rights we've so painfully acquired fade away, as a fatality or a yoke that weighs and sinks us more and more, our maul eating the dust of days and ground and still accepting it as inevitable, necessary, what you owe (but who owes what to whom?!) must be paid back at any cost, OMG! 

Had the Nai won, and it would mean that we all (PIIGS and others) would renounce to be people, all lost from dignity and joy, silly and sad puppets on a vicious string we would be, poor sisyphuses and jobs. – We, who pay mr. Durão Barroso 132.000 euros a year and find it ... natural? A fate?, while we screech over the extravagant Greeks, a hairdresser with an early retirement, fancy that! (well, just try standing all day, all the stinking dies and the noisy driers..) But why on earth do they insist on the same, tired arguments? 

If I were Tsipras, I’d tell them all to bugger off. And I’d instruct the Bank of Greece to make all the necessary money. A lot of it, surely enough to shut up the snitches I don’t like, passos-e-cavaco-e-rangel-and-alike. If I were Tsipras .. 
If I were Tsipras, I would philosophise.

a paixão grega

de Herberto Helder

li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,
Vitória de Samotrácia, m. Louvre

quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem,
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trémulos objectos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos do mundo
¿e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que fôlego,
que alguém perguntasse: tinha paixão?
afastem de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu dance,
fluido, infindável,
apanhado por toda a luz antiga e moderna,
os cegos, os temperados, ah não, que ao menos me encontrasse a
paixão e eu me perdesse nela,
a paixão grega

 
de A Faca não Corta o Fogo (Escolha de António Guerreiro)

"A nossa dívida à Grécia"

Público3
06/07/2015

Texto de João Camargo *

As lideranças europeias mostraram a sua mesquinhez em todo o esplendor neste momento histórico
Clístenes, o pai da democracia

Só se o cinismo for a nossa principal característica é que olhando para o resultado do referendo de ontem da Grécia se pode achar que o mesmo é algo senão a maior expressão da democracia, dignidade e liberdade que vimos nos últimos anos. 

A Grécia viu o seu PIB cair mais de 25 por cento nos últimos cinco anos de políticas de austeridade, mais de um quarto das pessoas estão oficialmente desempregadas, incluindo mais de 60 por cento dos jovens. Na semana passada, o país sofreu um ataque sem precedentes por parte da comunicação social e uma restrição bancária severa, com o BCE a proibir os levantamentos acima dos 60 euros. Isto, apenas torna mais admirável a coragem do povo grego. Face à humilhação internacional de pagarem a crise da dívida soberana (i.e., a transferência das dívidas da banca internacional para os orçamentos de Estado), com a mais selvagem austeridade, disseram contundentemente "Não". 

O cinismo não aceita coragem, bondade, solidariedade ou dignidade como motivações para tomar atitudes. O primeiro-ministro espanhol Mariano Rajoy explica melhor, dizendo sobre a Grécia: “Uma coisa é ser solidário e outra é ser solidário em troca de nada”. As lideranças europeias mostraram a sua mesquinhez em todo o esplendor neste momento histórico. 

Desde o presidente do Parlamento Europeu que, no próprio dia do referendo, veio dizer que a Grécia teria de sair do euro se o "Não" ganhasse, até ao presidente do Eurogrupo, o Miguel Relvas da Holanda, que disse que o resultado do referendo é “muito lamentável”, passando por Cavaco Silva, o herói da aritmética do 19-1=18, todos tiveram a possibilidade de participar no triste espectáculo dado pela pseudo-elite europeia, que demonstra a deformação de carácter de conservadores, liberais, social-democratas e socialistas por essa Europa fora. 

Mais do que isso, demonstra medo. Medo não só da decisão do povo grego, mas do que possam decidir os povos de Portugal, Espanha, Itália, dessa Europa fora. O referendo assusta-os, porque a democracia não redistribui só riqueza, redistribui poder. 

Tecnocratas, técnicos e comentadores, os “neutros” cujas doutrinas são fabricadas para garantir a manutenção do "status quo", dirão que o povo grego tomou uma posição arriscada: arriscou-se a sair do euro, a sair da União Europeia. Para o mundo, para os povos que assistiram à coragem do povo grego, arriscou-se a voltar a ser humano, a não ter o medo como motivação de vida, a decidir mandar eles mesmos. 

Há momentos em que é preciso dizer não, porque é esse não que quebra. É particularmente importante dizer não quando se sabe que o percurso leva apenas à miséria, à precariedade, ao desemprego, à submissão. Foi isso que o povo grego fez. E fê-lo não só por si, fê-lo por nós, que temos de fazê-lo também por nós próprios. Tal como dizia na Praça Syntagma um desempregado de 35 anos, Thodoros: “Digam aos portugueses que, na Grécia, lutamos também por vocês”. Obrigado. Sabemos que os nossos governantes não entendem estas palavras. Elas são destinadas a ser trocadas entre os povos. 

Essa é a nossa dívida para com o povo grego. Devemos-lhes a esperança. E não é para renegociar: é para usar! 

* engenheiro do ambiente, trabalhador a “part-time” e activista dos Precários Inflexíveis