- as imagens das colunas laterais têm quase todas links ..
- nas páginas 'autónomas' (abaixo) vou recolhendo posts recuperados do 'vento 1', acrescentando algo novo ..

29/02/12

Passos em falso

in Público, 29/2/2012

a crítica certeira, o rigor da análise, o humor impagável em mais uma crónica de Santana Castilho : absolutamente imperdível!

Passos em falso
1. Pareceria elementar que alunos, famílias e professores pudessem confiar no Estado quanto às regras por que se pautam. Parece de senso mínimo que elas não mudem a meio do ano. Mas mudam. E não é de agora. O que é de agora é a incoerência de Nuno Crato, que faz hoje o que, ontem, impiedosamente criticava. Poderemos teorizar sobre as vantagens e as desvantagens de permitir aos alunos que escolham entre apresentar-se ou não à primeira fase dos exames nacionais. Podemos admitir que apenas os casos excepcionais recorram à segunda. Mas o que não podemos aceitar é que se decida sobre isto a meio do ano e, sobretudo, não se preveja alternativa para um impedimento forte, que escape à vontade do aluno e tenha por consequência a perda de um ano. Tal aberração está contida no despacho nº 1942, de 10 de Fevereiro, da secretária de Estado do Ensino Básico e Secundário. Para que fique mais fácil de entender: um cidadão português, aluno de 18, que não entrou em medicina no ano passado, por insuficiência de média, num país que contrata médicos de 10, estrangeiros, e que tenha passado este ano a estudar para fazer melhoria de nota, se tiver o azar de ser atropelado a caminho do exame da primeira fase, ao qual tem obrigatoriamente que se apresentar, esse cidadão, caros leitores, dizia eu, perde outro ano e volta no próximo. Se não for piegas, ou não emigrar.
2. Na proposta de novas regras para a contratação de docentes, o Governo invoca o “princípio da igualdade” para permitir que os professores das escolas privadas com contrato de associação possam ter acesso à primeira prioridade do respectivo concurso. E sustenta a proposta com a alegação de que aqueles professores prestam serviço público idêntico ao que é prestado pelos professores das escolas públicas. Para que a iniciativa não exalasse cinismo e desonestidade, o Governo deveria tornar definitivos os contratos precários dos milhares de docentes da escola pública, com três anos de contratação. Como acontece aos docentes das escolas privadas. Por uma questão elementar da invocada igualdade.
3. Se os verdadeiros crimes pedagógicos que se têm cometido em Portugal tivessem ocorrido na Islândia, talvez algo tivesse acontecido, responsabilizando civilmente os autores, como Passos Coelho corajosamente defendia, quando era oposição. Uma primeira consequência, mensurável, do disparate dos megas agrupamentos, está aí: o calote feito para transportar crianças das suas aldeias para os depósitos desumanos das cidades cifra-se em 60 milhões de euros e ameaça paralisar o sistema. O país ficaria atónito se mais custos fossem quantificados.
4. O Governo aprovou um tal “Programa de Relançamento do Serviço Público de Emprego”, que prevê pagar a agências que coloquem desempregados. A ideia é que o Instituto de Emprego e Formação Profissional pague ao sector privado para que este faça o que compete àquele. Por outro lado, anuncia-se nova vaga de formação, com cursos de 50 a 300 horas. Era tempo de o Governo aceitar que só há emprego com crescimento económico e que o desemprego não é consequência de falta de formação. Tanto mais que vem aconselhando os mais qualificados a emigrarem e nada fez para cumprir a recomendação da troika no que toca ao ensino profissional. Basta de incoerência e de dinheiro deitado à rua ou investido no progresso de países terceiros.
5. Francisco José Viegas, o escritor e jornalista, faria e diria o que Francisco José Viegas, o secretário de Estado da Cultura, tem feito e dito? Diria ter chegado a “bom porto”, no negócio da venda da Tobis, quando, como candidamente confessou, apenas sabe que a empresa compradora é de “capitais sobretudo angolanos”? O Estado português já vende sem saber a quem? Se, por mera hipótese, um qualquer cartel da droga, a coberto de nome germânico, oferecer bom dinheiro pela TAP, o Estado vende, limitando-se a contar as notas?
6. Os sacrifícios colossais impostos aos portugueses que menos podem reclamam tolerância zero quanto à legitimidade moral das decisões políticas. Infelizmente, essas decisões são cada vez mais opacas e iníquas. O parlamento acaba de inviabilizar uma nova comissão de inquérito ao polvo BPN. Compreendemos porquê. Porque, com raras excepções, assume-se sempre como correia de transmissão da maioria que governa. Porque, neste caso, Passos tende para Sócrates e Gaspar converge com Teixeira dos Santos. Como é possível que uma fraude tão grande só conheça um rosto indiciado, que não condenado? Como é possível que, volvidos 33 meses, não seja pública a trama urdida e não sejam conhecidos os nomes dos que a conceberam, que serão muitos mais que o solitário Oliveira e Costa? À opacidade das condições em que o BPN foi resgatado junta-se agora a falta de transparência das condições em que foi vendido por tuta e meia. Passos como Sócrates, Gaspar como Teixeira dos Santos, actuam como se fossem donos do dinheiro que confiscaram aos contribuintes e acham que não têm que prestar contas públicas sobre o BPN. Por que razão não foi nacionalizada a Sociedade Lusa de Negócios e os seus activos? Qual é, afinal, a quantia total injectada no BPN? Qual era, é, o valor do património imobiliário do BPN?
7. Miguel Relvas decidiu imortalizar o programa de Governo numa edição de luxo para governantes. Foram 100 exemplares a 120 euros cada. No mesmo dia em que a decisão política, imoral, era conhecida, Miguel Relvas exortava na televisão, pedagogicamente, as autarquias a acabarem com as obras de fachada. Aparentemente sem se dar conta que há uma diferença entre um ministro de Estado e um grilo falante.
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28/02/12

AO, até que o banam!


recebio por e-mail

O acordo ortográfico e o futuro da língua portuguesa?

Tem-se falado muito do Acordo Ortográfico e da necessidade de a língua evoluir no sentido da simplificação, eliminando letras desnecessárias e acompanhando a forma como as pessoas realmente falam. Sempre combati o dito Acordo mas, pensando bem, até começo a pensar que este peca por defeito. Acho que toda a escrita deveria ser repensada, tornando-a mais moderna, mais simples, mais fácil de aprender pelos estrangeiros. Comecemos pelas consoantes mudas: deviam ser todas eliminadas. É um fato que não se pronunciam. Se não se pronunciam, porque ão-de escrever-se? O que estão lá a fazer? Aliás, o qe estão lá a fazer? Defendo qe todas as letras qe não se pronunciam devem ser, pura e simplesmente, eliminadas da escrita já qe não existem na oralidade.

Outra complicação decorre da leitura igual qe se faz de letras diferentes e das leituras diferentes qe pode ter a mesma letra. Porqe é qe ?assunção? se escreve com ?ç? e ?ascensão? se escreve com ?s?? Seria muito mais fácil para as nossas crianças atribuír um som único a cada letra até porqe, quando aprendem o alfabeto, lhes atribuem um único nome. Além disso, os teclados portugueses deixariam de ser diferentes se eliminássemos liminarmente o ?ç?. Por isso, proponho qe o próximo acordo ortográfico elimine o ?ç? e o substitua por um simples ?s? o qual passaria a ter um único som. Como consequência, também os ?ss? deixariam de ser nesesários já qe um ?s? se pasará a ler sempre e apenas ?s?. Esta é uma enorme simplificasão com amplas consequências económicas, designadamente ao nível da redusão do número de carateres a uzar. Claro, ?uzar?, é isso mesmo, se o ?s? pasar a ter sempre o som de ?s? o som ?z? pasará a ser sempre reprezentado por um ?z?. Simples não é? se o som é ?s?, escreve-se sempre com s. Se o som é ?z? escreve-se sempre com ?z?. 

Quanto ao ?c? (que se diz ?cê? mas qe, na maior parte dos casos, tem valor de ?q?) pode, com vantagem, ser substituído pelo ?q?. Sou patriota e defendo a língua portugueza, não qonqordo qom a introdusão de letras estrangeiras. Nada de ?k?. Não pensem qe me esqesi do som ?ch?. O som ?ch? pasa a ser reprezentado pela letra ?x?. Alguém dix ?csix? para dezinar o ?x?? Ninguém, pois não? O ?x? xama-se ?xis?. Poix é iso mexmo qe fiqa. Qomo podem ver, já eliminámox o ?c?, o ?h?, o ?p? e o ?u? inúteix, a tripla leitura da letra ?s? e também a tripla leitura da letra ?x?. Reparem qomo, gradualmente, a exqrita se torna menox eqívoca, maix fluida, maix qursiva, maix expontânea, maix simplex. Não, não leiam ?simpléqs?, leiam simplex. O som ?qs? pasa a ser exqrito ?qs? u qe é muito maix qonforme à leitura natural. No entanto, ax mudansax na ortografia podem ainda ir maix longe, melhorar qonsideravelmente. Vejamox o qaso do som ?j?. Umax vezex excrevemox exte som qom ?j? outrax vezex qom ?g?. Para qê qomplicar?!? Se uzarmox sempre o ?j? para o som ?j? não presizamox do ?u? a segir à letra ?g? poix exta terá, sempre, o som ?g? e nunqa o som ?j?. Serto? Maix uma letra muda qe eliminamox. 

É impresionante a quantidade de ambivalênsiax e de letras inuteix qe a língua portugesa tem! Uma língua qe tem pretensõex a ser a qinta língua maix falada do planeta, qomo pode impôr-se qom tantax qompliqasõex? Qomo pode expalhar-se pelo mundo, qomo póde tornar-se realmente impurtante se não aqompanha a evolusão natural da oralidade? Outro problema é o dox asentox. Ox asentox só qompliqam!
Se qada vogal tiver sempre o mexmo som, ox asentox tornam-se dexnesesáriox. A qextão a qoloqar é: á alternativa? Se não ouver alternativa, pasiênsia. É o qazo da letra ?a?. Umax vezex lê-se ?á?, aberto, outrax vezex lê-se ?â?, fexado. Nada a fazer. Max, em outrox qazos, á alternativax. Vejamox o ?o?: umax vezex lê-se ?ó?, outrax vezex lê-se ?u? e outrax, ainda, lê-se ?ô?. Seria tão maix fásil se aqabásemox qom isso! Para qe é qe temux o ?u?? Para u uzar, não? Se u som ?u? pasar a ser sempre reprezentado pela letra ?u? fiqa tudo tão maix fásil! Pur seu lado, u ?o? pasa a suar sempre ?ó?, tornandu até dexnesesáriu u asentu. Já nu qazu da letra ?e?, também pudemux fazer alguma qoiza: quandu soa ?é?, abertu, pudemux usar u ?e?. U mexmu para u som ?ê?. Max quandu u ?e? se lê ?i?, deverá ser subxtituídu pelu ?i?. I naqelex qazux em qe u ?e? se lê ?â? deve ser subxtituidu pelu ?a?. Sempre. Simplex i sem qompliqasõex. Pudemux ainda melhurar maix alguma qoiza: eliminamux u ?til? subxtituindu, nus ditongux, ?ão? pur ?aum?, ?ães? ? ou melhor ?ãix? - pur ?ainx? i ?õix? pur ?oinx?. Ixtu até satixfax aqeles xatux purixtax da língua qe goxtaum tantu de arqaíxmux. Pensu qe ainda puderiamux prupor maix algumax melhuriax max parese-me qe exte breve ezersísiu já e sufisiente para todux perseberem qomu a simplifiqasaum i a aprosimasaum da ortografia à oralidade so pode trazer vantajainx qompetitivax para a língua purtugeza i para a sua aixpansaum nu mundu. Será qe algum dia xegaremux a exta perfaisaum?

(da autoria do blogue ?A Biblioteca de Jacinto?)

-- imagens de Botero  ---

dos desacordos tortográficos

Consoante muda
A voz das consoantes sem voz
Por Rui Tavares
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Salvé, Vasco Graça Moura, insigne auctor que desafiaste o dictame do Governo e reintroduziste a escripta antiga no teu Feudo Cultural de Belém! Povo português, imitai o exemplo deste Aristides Sousa Mendes das consoantes mudas, como lhe chamou o escriptor e traductor Jorge Palinhos. Salvai as sanctas letrinhas ameaçadas pela sanha accordatária.

Mas ficai alerta, portugueses! As consoantes mudas são muitas mais do que julgais! O "c" de actual e o "p" de óptimo são apenas os últimos sobreviventes de um extermínio secular que lhes moveram os medonhos modernizadores da escripta. Há que salvar agora estas pobres victimas, até à septima geração.

Acolhei-as pois a todas, portugueses, recolhei-as agora em vossos escriptos como a inocentes ameaçados por Herodes. Se há uma consoante muda a salvar em factura, há outra em sanctidade, e esta ainda mais sancta do que aquela. O Espírito Sancto tem uma. Maria Magdalena tem outra. E Jesus Cristo? Ora! O fructo do vosso ventre, Maria, já tinha consoante muda mesmo antes de nascer. Não sabíeis? Assim Ele se conformou, e nós nos inconformaremos.

Há quem diga que o accordo ortográfico é um tractado internacional que foi já transcripto para as nossas directivas internas. Dizem que o assumpto morreu.

Balelas! Nada nem ninguém nos obrigará a cumprir obrigações internacionais. Vasco Graça Moura mostra o caminho, e eu - peccador que fui - vejo agora a luz. Depois da summa missão de salvar as consoantes mudas que resistem, e ressusciptar as que foram suppliciadas no passado, há que supplementar este grande desígnio com outras acções.

O conductor da ambulância que leva doentes oncológicos a serem tractados, pode desobedecer ao corte de subsídios de transporte fazendo o serviço gratuitamente. O quê, a austeridade, a troika? Balelas! O memorando não passa de um simples accordo internacional que o Governo quer implementar. Se Graça Moura faz lei, de graça poderão também entrar os passageiros nos transportes públicos. E se o seu chefe for um republicano e patriota daqueles que não se contentam com andar com a bandeira num pinda lapela? Pois decrete que o fim dos feriados não vale lá na repartição. E o paginador do Diário da Repúblicapode rasurar as nomeações partidárias e alguns zeros dos salários de administrador, para dar espaço às consoantes mudas. O Governo entenderá.

Néscio António Mega Ferreira que, apesar da sua gestão impeccável, foi demitido. Nada lhe succederia se, em vez de padecer de "falta de sintonia política", tivesse antes violado um accordo internacional que o Governo decidira fazer entrar em vigor meras semanas antes.

Insensato Pedro Rosa Mendes, que foi censurado por contrariar o Governo de Angola. Se contrariasse a CPLP inteira, ainda tinha crónica, e applauso da imprensa!

Longe vai Diogo Infante, demitido por não ter dinheiro para fazer teatro no Teatro Nacional. Mas João Motta, que o substituiu, pode agora imitar a Nova Estrela de Belém. Mande as restricções às malvas, gaste o que tiver a gastar, desde que mande os actores pronunciar as consoantes que agora já não são mudas mas mártires, e que nunca mais se calarão, e que orgulhosamente transformaremos em oclusivas, fricativas ou até explosivas, se nos der na bolha, numa aKção aFFirmativa e peremPtória!

Está assim lançado um movimento que fará os gregos corar de vergonha e os alemães tremerem das pernas. Vamos dar voz às consoantes sem voz! E depois, quem sabe, aos portugueses sem voz, sem trabalho e sem futuro.

Historiador. Deputado independente ao Parlamento Europeu (http://twitter.com/ruitavares); a pedido do autor, este artigo respeita as normas do Acordo Ortográfico

Público de 6.2.12

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Consoantes mudas ou colunistas surdos?
Por Manuel Villaverde Cabral

Professor universitário
Debate Acordo Ortográfico
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O colunista Rui Tavares decidiu adoptar, na sua crónica de 6 de Fevereiro, um tom pretensamente jocoso para criticar a decisão do novo presidente do CCB, Vasco Graça Moura, de não aplicar o chamado "acordo ortográfico" imposto aos portugueses, apesar da forte mobilização que se registou no país contra ele e do facto de dois dos maiores países de língua oficial portuguesa, Angola e Moçambique, não terem ratificado o respectivo tratado. Fez mal. Quis ser engraçado, mas não teve piada.

O assunto é demasiado sério e não se resolve com ofensas avulsas contra uma pessoa que há mais de uma década se dedicou a rebater os escassos argumentos esgrimidos por alguns raros dicionaristas agindo por conta de interesses políticos mal compreendidos. Tavares apresenta-se como arauto do alinhamento da ortografia do Português europeu pela do Português do Brasil, mas não adianta um único argumento a favor do "acordo".

Mistura alhos com bugalhos e agita todos os episódios da crónica política recente para "gozar" com as justificadas dúvidas de Graça Moura e dezenas de milhares de outros portugueses (e alguns brasileiros) que conseguiram bloquear a primeira tentativa de nos impingir o dito "acordo". Porém, toda a sua jocosa pirotecnia não acrescenta um átomo às débeis falácias dos professores Houaiss e Casteleiro, quando entenderam "fazer política com a língua" em vez de "fazerem verdadeira política da língua", como acontece igualmente com Tavares.

Ora, o "acordo" não é mau para um país abstracto chamado Portugal e para os "conservadores" de quem o colunista se pretende rir. Nem sequer é apenas mau para a ortografia e a fonética do Português europeu; é mau sobretudo para a já de si deficiente aprendizagem do Português. Só para dar um exemplo, as "consoantes mudas" que Tavares pretendeu ridicularizar logo no título da crónica não são tiques de bota-de-elástico. Têm funções fonéticas e etimológicas relevantes que só o esquecimento, para não dizer outra coisa, faz desprezar. Foneticamente, abrem as vogais que se lhe seguem e permitem distinguir, por exemplo, "recessão" de "recepção", já que a tendência do Português europeu falado é, como se sabe, para o chamado "emudecimento" das próprias vogais não sinalizadas.

Além disso, etimologicamente as ditas consoantes "mudas" servem para identificar étimos comuns, não só dentro do próprio Português, como por exemplo em "Egipto" e "egípcio", sendo o "p" alegadamente mudo na primeira palavra e pronunciado na segunda; como também para identificar étimos comuns noutras línguas europeias: "acção" e "activo", por exemplo, pertencem a uma vasta família etimológica presente não só em línguas latinas como o Francês ("action", "actif") mas também no Inglês ("action", "active"). Por outras palavras, a etimologia e a sua representação gráfica ajudam-nos a saber de onde vimos, se é que a história conta alguma coisa para quem se assina como historiador.

A cedência à ortografia brasileira talvez faça vender alguns dicionários mas será altamente prejudicial para a aprendizagem da língua pelas futuras gerações de Portugueses da Europa, que já não precisam de ser desajudados. As profundas alterações introduzidas pelo presente "acordo" na ortografia portuguesa não são equivalentes à substituição do "ph" de "pharmácia" por "f", pois esta alteração não afectou a fonética da palavra, como a supressão do "c" mudo afectará a pronúncia dos compostos do étimo "afecto" se este "acordo" for por diante. Ignora Rui Tavares o que aconteceu ao fonema "güe" na palavra "bilingüe" quando o trema foi suprimido em Portugal (o Brasil não nos acompanhou e fez bem)?

O colunista devia saber que é muito feio tentar desvalorizar os argumentos alheios com piadas de mau gosto. Não foi à toa que a grande maioria dos linguistas portugueses e muitos brasileiros não cedeu a mal compreendidas motivações políticas na defesa da ortografia, da fonética e da etimologia do Português em que nos temos entendido, até agora, neste pequeno rectângulo do Sudoeste europeu. Tanto mais que, como é bem sabido, o Português falado e escrito no Brasil não vai parar a sua fortíssima dinâmica própria lá porque a classe política portuguesa assinou um "acordo" artificial que só prejudica a aprendizagem e o correcto domínio do Português de cá!
Público de 10.2.12

27/02/12

João Black, o fadista anarquista

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sociedade doente e responsabilidade parental

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e vai outro, nos States, hoje :
Five students shot at Ohio high school  - A gunman is captured after opening fire in the cafeteria as students were eating (...)
Police have not yet confirmed if the gunman was a student at the school, but junior Heather Ziska told the Associated Press she recognized the shooter as a fellow student.  (ler mais)
.. e ainda:
(...) The two girls and seven onlookers (as duas raparigas e 7 'espectadores') went to an alley off campus after school on Friday, where they had planned to fight, according to Deputy Chief Robert Luna of the Long Beach Police Department. (...)Police are waiting for autopsy results to determine Ramos' cause of death.  -- (ler mais)


Bom ...  estes, pelo menos, não puseram a 'fight' no FB .. Irrelevante. O tiroteio no bar da escola, a luta entre as duas crianças e a posterior morte de uma delas, os colegas que assistem (calculo que impávidos, deliciados) - 'flagrantes' inequívocos de uma sociedade globalmente podre. Doente há demasiado tempo. 
Os sinais estão todos aí para quem os queira identificar, nos States, na Europa, na Ásia. Os professores, nas escolas, constatam-no todos os dias: a ausência de valores ou a sua absoluta desconstrução, tudo des-entendido, arrumado ao contrário nos meandros insondáveis de um cérebro em 'malconstrução': «já pensei engravidá-la, a ver se a câmara nos dá uma casa», diz-me um miúdo de 15 anos - dolorosos, delinquentes.
Fazemos reuniões atrás de reuniões, infrutíferas. Falamos com os alunos, contactamos os pais, convocamo-los à escola. Inútil, tudo. Nem já a expressão do "entra por um ouvido, sai pelo outro". Do lado dos pais, a desassumpção da culpa transformada em acusações. Os professores, claro. Que.. e que.. e que .. Do lado dos alunos (uma grande parte deles) , uma barreira inexpugnável, assim como uma vacina anti-diálogo. Mentem descarada, compulsivamente, não ouvem e muito menos ligam ao que se lhes diz, nas aulas, nos 'gabinetes de apoio'. Delinquentes ou não. Uma 'protective skin' desenhada pelos media, pelo sistema.
Uma ausência de medidas políticas, sociais, eficazes; de estudos absolutamente urgentes e vêm tarde, sociologias à margem da educação; e as pseudo-psicologias que tudo resumem a um diagnóstico facilitista: bipolares agora, todos os que antes eram hiper-activos, antes ainda simplesmente mal-educados, 'corrécios' às vezes. 
A preocupação com o acessório. O 'show off'. A estratégia da avestruz. Escolas que não sabem [nem deveriam ter de] resolver problemas que ultrapassam o seu âmbito.
Uma sociedade desagregada, alheada, cada vez mais desresponsabilizada - ainda que se faça agora representar nas Assembleias Gerais de todas as nossas escolas, agrupamentos. 
Famílias desestruturadas,  e o epíteto serve para explicar, desculpabilizar tudo, justificar inércias, inépcias.
Famílias que não querem nem saber, que acham tudo natural, próprio da idade (alunos de 11.º ano que atiram papelinhos e bocados de borrachas uns aos outros, nas costas do professor..). Mães, pais que acham graça às diatribes dos seus filhos des-educados, irresponsáveis, sem futuro. 
Uma sociedade doente e o limbo em que vivemos. 
Cidadãos que são autómatos obedientes, seres impensantes, irracionais, executam nem sabem bem o quê, para quê. Autómatos que, agora, ainda por cima, têm como único horizonte a sobrevivência física, a comida a pôr na mesa. 
Políticos, gestores, directores, opinadores, a quase toda nacional inteligentia que não sabe nem se interessa por fazer, agir, eles próprios, às vezes, pais e mães de filhos delinquentes. Delinquentes?!! Não, os professores, a escola, é que .. e que .. e que ..
Eu .. reflicto sobre o futuro destes jovens, desta sociedade. Triste, impotente. Cheguei a pensar que não era possível, pior que Sócrates. Foi. Pior que Coelho, mais que possível, previsível.
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O que é que falta, que está errado, que se podia fazer?
Falta responsabilizar as famílias, para começar. As famílias supostamente 'estruturadas'. Mandasse eu, obrigava os pais dos alunos indisciplinados, mal-educados, a sentarem-se na sala de aula ao lado dos seus rebentos - até que houvesse garantias de transformação de comportamentos lesivos. 
De resto, esta é uma prática existente nalgumas escolas (suponho que particulares) dos EU - sei-o através de um projecto e-twinning com uma escola sueca em 'parceria' com outra americana. Como julgo saber - e agora falo de famílias 'desestruturadas' - que na Suécia, por exemplo, há tutores  designados pelo estado para 'gerirem' a vida de quem provou não saber fazê-lo por si próprio. 
Mandasse eu, e não deixava que os alunos pudessem transitar sistematicamente reprovados a 3 disciplinas! Bem pode o senhor Nuno Crato impor exames atrás de exames. Nada mudará enquanto não se 'mexer' no sistema de transição. O que me custa realmente compreender é por que o não fizeram ainda, por que nenhum ministro da educação sequer fala nisso, por que não o exigem as associações de pais (para bem dos filhos de todos, da qualidade da educação que recebem, da disciplina na sala de aula.)
Mandasse eu, faria pagar propinas aos alunos que reprovam por faltas, sobretudo disciplinares. Propinas mais altas a cada reincidência. E, óbvio, acabava com a escolaridade obrigatória-porque-sim. Escolaridade acessível a todos, sim, mas não a qualquer preço. Não para alunos que, ano após ano, impõem o terror a colegas, professores, funcionários. Que desrespeitam tudo e todos. Que fazem da escola o seu campo de batalha particular. Que, como último possível recurso, são expulsos de uma e levam o seu inferno para outra.
O que é que falta, que está errado, que se podia fazer?
Tenho a memória difusa de alguma eficácia por parte de assistentes sociais, aqui em Portugal. Deixei de os ver nas escolas - a eles, aos psicólogos. Médicos escolares que existiam quando era aluna, eu. Dinheiro que se poupa, sem dúvida. Falta pensar (e muito a sério!) no que se gasta a médio, longo prazo..
Já houve em Portugal as chamadas 'escolas de correcção', daí a palavra corrécio. Poderia optar-se por uma solução semelhante, agora, corrigindo os aspectos negativos do passado. É, deixemo-nos de eufemismos, assobios para o lado, discursos do politicamente correcto: há alunos que são delinquentes, ponto. Que destroem equipamento escolar, agridem e ameaçam professores, funcionários, outros alunos. Que levam uns e outros ao suicídio. Que não deviam estar numa escola "normal" - para bem de todos, a começar talvez por eles próprios .. Deixou de estar na ordem do dia falar do bullying nas escolas. Saiu da ribalta, que não das escolas. Sorte que a venda de armas, por cá, não seja tão generalizada como na América. Apenas uma coisa nos separa do horror da notícia acima: a menor acessibilidade.
O que é que falta, que está errado, que se podia fazer?
Havia, nos tempos do fascismo, escolas 'comerciais e industriais' e 'liceus' - uma separação à altura elitista, baseada quase sempre em factores económicos, mas cujo conceito poderia ser recuperado, agora com critérios de "des-apetência". Na Alemanha que presentemente tudo decide fazem-no no fim do equivalente ao 2.º ciclo. Aos 12 anos os alunos são compulsivamente distribuídos pelos vários tipos de escola de acordo com evidências de capacidades, aptidões específicas, apetência pelo estudo.
Nas fichas que preenchem para o director de turma, a imensa maioria dos alunos portugueses escreve que gosta de andar na escola, mas que não gosta de estudar. Apesar disso, mais de 90% escolhe, no 10.º ano, frequentar um curso de formação geral, de prosseguimento de estudos.. que os levarão, eventualmente, à universidade, quando, confessadamente, não gostam de estudar!!
Retomando-se a divisão das escolas por tipos e, sobretudo, dando-se maior crédito (e poder de decisão) ao Conselho de Turma do 9.º ano (professores que, regra geral, conhecem os alunos há 3 anos) - relativamente ao tipo de curso/escola mais adequado para cada caso,
  1. potencializava-se um ensino exigente e de qualidade àqueles que realmente querem aprender - e que, tenho-o constatado ao longo dos meus mais de 30 anos de serviço, não são predominantemente os filhos de 'famílias-bem'
  2. acabava-se com a indisciplina nas escolas - resultante, precisamente, da falta de apetência pelo estudo por parte da maioria dos alunos; do abjecto sistema de transição que os leva a pôr de parte 2 ou 3 disciplinas ab initium; de currículos indiferenciados e basicamente teóricos para todos: os que gostam de estudar e aprender e os que fazem da sala de aula uma extensão do recreio, às vezes uma arena de circo.
  3. garantia-se uma profissão com futuro a boa parte da população com insucesso escolar.  Com um currículo de 'teoria orientada' [e escusam de me vir com acusações de elitismo, a maior parte dos alunos das nossas escolas públicas não liga nada às disciplinas de formação geral (muito menos as estudam!), sejam elas o português, a língua estrangeira, matemática, filosofia...] e muitas disciplinas práticas voltaríamos a preparar bons electricistas carpinteiros canalizadores mecânicos costureiras sapateiros soldadores - agora tão escassos como incompetentes e desleixados, desconhecedores do seu ofício, pagos a peso de ouro, quase sempre isentos de impostos
  4. dava-se emprego a 'mestres' e artesãos, perpetuando um saber de experiência feito que, pelo andar da carruagem, morrerá quando morrerem eles. Que nos levou, já, a deitar fora tudo o que se avaria por inexistência de quem o conserte ou pelo custo exorbitante da reparação; que nos obrigará a importar cada vez mais aquilo que poderíamos ser nós a produzir, e com qualidade
É ..  O estigma das profissões ditas 'menores'. Os pais que querem os filhos 'doutores' à viva força, mas que não lhes lêem um livro, não os levam a um museu, um teatro, uma exposição.
Pais que não lhes incutem hábitos de trabalho, muito menos valores como a auto-responsabilização.
Que os querem bem longe de modo a garantirem os seus embrutecedores-programas-de-TV-sem-interrupções.
Pais que lhes oferecem iphones e ipods e toda a espécie de 'brinquedos' - não um livro! - para que os deixem a eles em paz, miúdos fechados no quarto, horas e horas de jogos de computador, facebook e sabem lá eles mais o quê.
Pais que autorizam os seus jovens filhos a sair à noite, 13, 14 anos de beber até cair, desacatos tolerados, noitadas permitidas, fins-de-semana de voltar para casa às 4, 7 da manhã, toma lá mais um brinquedinho, uns ténis da moda, filho, filha ..
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imagens: Hieronymus Bosch
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curtas .. do Inimigo Público

de 24/2/2012

PORTUGUESES SÃO OS URSOS DE BERLIM

Portugal é o país com mais ursos da Europa. A distinção foi atribuída pelos fiscais ursídeos da ‘“troika”’ e segue-se ao urso de ouro para melhor curta-metragem ganho por João Salaviza, ao semi-urso mais inovador e para-urso da crítica, arrebatados por Miguel Gomes no Festival de Cinema de Berlim e aos 230 galardões Gandas Ursos atribuídos pela EPAL aos deputados que esta semana se recusaram a substituir a água engarrafada por água da torneira.
“Os gregos podem vir a ser ursos mas os portugueses estão dois passos à frente e já são piursos”, congratulou-se a ‘“troika”’ nos contactos que manteve com os ursos partidários, sindicais e patronais.
“Portugal, com o governo anterior, era o porquinho da Índia da Europa”, analisou Passos Coelho em conversa informal com os ursos da imprensa. “Hoje, somos todos ursos de Berlim, com forte perspectiva de subirmos na cadeia alimentar e sermos ursídeos de Triple A.” MB
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Passos Coelho tem corpo de agentes da PSP a protegerem-no de si próprio
A previsão de crescente contestação social às medidas do Governo levou a PSP a reforçar a protecção policial ao primeiro-ministro, tendo já 15 agentes a seguir Passos Coelho para todo o lado. Destes, a maioria tem como missão proteger Passos Coelho de si próprio, tentando impedi-lo de aconselhar os professores desempregados a emigrarem para Timor, de chamar piegas aos portugueses ou de nomear o Eduardo Catroga a peso de ouro para empresas subservientes do Estado.
Porém, como a protecção policial não tem conseguido evitar o primeiro-ministro de sofrer atentados à sua integridade física, dando tiros no próprio pé, o Ministério da Administração Interna vai destacar uma equipa de guardas prisionais para proteger Passos Coelho e imobiliza-lo com pistolas eléctricas ‘taser’ de cada vez que se preparar para abrir a boca em público. VE

imagens retiradas da pg. FB do Inimigo Público, aqui
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26/02/12

Grande Depressão, século XXI

in Público, 26/2/2012

Paul Krugman:
O Nobel contra a política de austeridade
vai ser homenageado por três universidades

por Sérgio Aníbal

Paul Krugman, que em 2008 conquistou o prémio Nobel da Economia e esta segunda-feira vai receber dos Reitores das Universidades de Lisboa, Técnica de Lisboa e Nova de Lisboa o grau de Doutor Honoris Causa, defende que a política de austeridade que está a ser aplicada na zona euro arrisca-se a colocar o continente perante um cenário idêntico ao da Grande Depressão dos anos 30. Como é seu hábito, o economista não poupa nas palavras e não hesita em apontar o dedo àqueles que vê como os culpados.

"Alguns países estão a enfrentar um sofrimento semelhante ao da Grande Depressão: Grécia e Irlanda com quedas do produto de dois dígitos, a Espanha com 23% de desemprego, o Reino Unido com uma contracção económica mais longa do que nos anos 30. Pior ainda, os líderes europeus - e muitos dos players mais influentes - ainda estão enamorados pela doutrina económica responsável por este desastre", escreveu na sua coluna do fim-de-semana passado, precisamente dedicada à situação europeia.

Nos seus textos*, Krugman tem alertado, de forma repetida, para as "provas históricas" que apontam para o fracasso da política de austeridade europeia. Defende que a austeridade empurra as economias ... ler mais
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23/02/12

ZECA: maior que o pensamento


Zeca (José Afonso): 2 de Agosto de 1929, Aveiro - 23 de Fevereiro de 1987, Setúbal  
(ver biografia)

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          José Afonso numa palavra: cometa
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MAIOR QUE O PENSAMENTO
Na RTP, série documental em três episódios sobre José Afonso 
[com assinatura de Joaquim Vieira]

Zeca c/ Adriano C. O.
“Maior que o Pensamento” é o título de um documentário em três partes acerca da vida e da obra do poeta, compositor e intérprete José Afonso, o mais conhecido autor da chamada canção de intervenção portuguesa, movimento do qual se pode aliás dizer que foi fundador e líder (embora de maneira informal). As criações de José Afonso corporizaram para os portugueses, na fase final da ditadura do Estado Novo, a ideia de resistência à opressão e de esperança numa vida melhor, ajudando a mobilizar os cidadãos para um combate pela liberdade que essas mesmas canções viriam a simbolizar após a queda do regime e ao longo de todo o atual período democrático. Não por acaso, uma canção de José Afonso, “Grândola, vila morena”, foi escolhida como senha radiofónica para os militares revoltosos desencadearem, na madrugada de 25 de abril de 1974, as operações que puseram termo a quase meio século de despotismo.
Zeca e Sérgio Godinho

O documentário recolhe muitas dezenas de testemunhos de pessoas que conheceram José Afonso e com ele colaboraram, desde familiares e amigos a músicos de várias nacionalidades. Imagens de atuações de José Afonso (algumas inéditas em Portugal, como na Alemanha em 1963) completam este exaustivo trabalho sobre um criador que suplantou em muito a estrita esfera do seu posicionamento ideológico, tornando-se num dos mais originais e destacados criadores do seu país no século XX. Ao longo do documentário, podem ser ouvidas algumas das mais significativas canções da autoria de José Afonso, interpretadas pelo próprio.


último concerto, Coliseu
Entre os intervenientes, contam-se os músicos António Vitorino de Almeida, Benedicto García, Caetano Veloso, Carlos Alberto Moniz, Carlos Correia (“Bóris”), Fausto, Francisco Fanhais, Francisco Naia, Gilberto Gil, Janita Salomé, João Afonso, José Jorge Letria, Júlio Pereira, Luís Cília, Luís Góis, José Mário Branco, José Niza, Luis Pastor, Paco Ibañez, Pi de la Serra, Rui Pato, Sérgio Godinho e Vitorino Salomé e ainda o editor discográfico Arnaldo Trindade e amigos de José Afonso, como o pintor Malangatana, o poeta Eugénio Lisboa, o realizador Luís Filipe Rocha, o dirigente revolucionário Camilo Mortágua, o militar de abril Otelo Saraiva de Carvalho, o jornalista Adelino Gomes e o jornalista e ensaísta alemão Günter Wallraff.

“Maior que o Pensamento”, uma produção Nanook, é um documentário de Joaquim Vieira, com edição de Aníbal Carocinho, direção de produção de Lila Lacerda, consultoria histórica de Irene Flunser Pimentel e consultoria de Maria Helena Afonso dos Santos. fonte

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parte 1/3
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parte 2/3
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parte 3/3

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"Um dia chamaram-lhe Zeca"

23 Fev, 2012, 10:35 / atualizado em 23 Fev, 2012, 15:50

No dia em que passam 25 anos da morte de José Afonso, a Antena1 recorda o cantor através dos registos das suas próprias palavras e das vozes da rádio pública portuguesa que conheceram o homem e o músico.
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ouvir aqui
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das paixões ..

... reacendidas pela minha sobrinhita de 9 anos.. Obrigada, Matilde!
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partiste , Zeca, tão cedo desta vida descontente ..

foi há 25 anos .. e vives e serás, sempre, luz, inspiração, amor
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Zeca; amado filho adoptivo da Galiza. 25 de Abril; Sempre!
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José Afonso escolheu a cidade de Compostela, na Galiza, para interpretar por primeira vez em público com carácter de estréia mundial a sua canção "Grândola, Vila Morena", no recital celebrado no "Burgo das Naçons" na tarde do 10 de maio de 1972.


Vídeo da Galeria Multi Média da www.25abril.org

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Gala Homenaxe Zeca Afonso (1/9)
Concerto de homenagem a José Afonso celebrado no Palácio de Congressos de Pontevedra e retransmitido pela TVG e RTP no 25 de Abril de 2007.

22/02/12

Oui, nous sommes tous des grecs!

(*) preâmbulo:

A Guerra Civil Espanhola (1936-1939)
http://www.eurochannel.com
«Em 1936, a Espanha estava politicamente dividida em dois campos: A Frente Nacionalista e a Frente Republicana. A Frente Nacionalista era um partido conservador, com ideias nacionalistas e fascistas, ao passo que a Frente Popular pertencia ao partido Republicano, com ideais socialistas, comunistas e anarquistas. Devido à oposição entre os dois lados, o monumental conflito deixou um rastro de sangue da matança entre espanhóis e tornou-se a precursora da Segunda Guerra Mundial.»

da wikipedia:
«A Luftwaffe teve a oportunidade ideal de testar seus pilotos, aviões e tácticas na guerra civil espanhola, quando em Julho de 1936 Hitler manda a Legião Condor ao General Francisco Franco, líder nacionalista espanhol, para lutar contra os republicanos e comunistas. Em Abril de 1937, uma força combinada de bombardeiros alemães e italianos sob o comando espanhol nacional destruiu a maioria da cidade basca de Guernica, na Espanha.»

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tradução retirada daqui: http://cadpp.org/node/217


A Grécia luta em 2012 como a Espanha em 1936 (*) – pelos povos da Europa!

Discurso de Sonia Mitralia, membro do Comité Grego contra a Dívida e da Iniciativa das Mulheres contra a Dívida e as Medidas de Austeridade, pronunciado no encontro de Marselha de 17 de Fevereiro 2012, organizado pela campanha francesa «por uma auditoria cidadã da dívida pública».

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O curso da História acelera e os acontecimentos cataclísmicos dos últimos dias na Grécia são de molde a convencer até os mais reticentes: a Grécia tende a ser hoje em dia para a Europa de 2012 o que a Espanha foi para a Europa de 1936! Esta constatação aparentemente ousada não é uma tirada romântica. Não, é um facto imposto pelos nossos governantes, pois quem nos assedia a tempo inteiro desde há dois anos são as Merkel e os Sarkozy, o FMI e os banqueiros, a reacção neoliberal de além-fronteiras nacionais, os que optaram por transformar a Grécia num laboratório das suas políticas desumanas e os Gregos em cobaias da sua terapia de choque.

É mais que tempo de todos nós, povos da Europa, tomarmos à letra o que nos dizem os nossos Merkozy e a sua Troika, e de agirmos em consequência. Aceitemos esse desafio e respondamos sem hesitar que a Grécia vai tornar-se um caso/teste também para nós, para o movimento dos trabalhadores, para os movimentos sociais e feministas, para os povos e os explorados de toda a Europa! Sim, façamo-los compreender que Sim, somos todos gregos, pois estamos todos plenamente conscientes de que o combate do povo grego é definitivamente o combate de todos nós. Que se eles conseguirem quebrar as resistências e submeter o povo grego, a seguir será a vez de todos os outros povos europeus, um após outro, serem postos a ferros…

Talvez se recordem que no início eles nos contavam tretas do género «trata-se de um caso único e especificamente grego, devido ao facto de os Gregos serem uns preguiçosos, dados à corrupção e à mentira». De então para cá, pudemos ver que o buraco negro da dívida não é especificamente grego, que não é devido à suposta… hipertrofia do Estado grego, que é igualmente americano, francês, italiano, japonês. Em suma, é tipicamente capitalista e a crise é… sistémica.

Mas atenção, cuidado com as frases feitas e os clichés, que são inadequados para descrever a actual realidade grega. Será que ainda podemos falar de austeridade, ainda que a classifiquemos de draconiana, quando os salários e as pensões baixaram na Grécia 40, 50 ou mesmo 60%? Quando o poder de compra da esmagadora maioria da população sofreu um corte de 50, 60 ou mesmo 70%? Quando a classe média desse país está arruinada e numa depauperização galopante? Quando os novos salários já não chegam aos 417 euros [na Grécia era quase o dobro antes da crise] e as novas pensões de reforma os 320 euros? Tratar-se-á de simples «rigor» quando um em cada dois jovens gregos está no desemprego e o desemprego geral chegou aos 25%? Como é possível falar de simples… «sacrifícios passageiros» quando a subnutrição já provoca razias na população infantil das escolas primárias e a fome acossa até a pequena-burguesia das cidades gregas? E como pode alguém dizer que tudo isso é necessário para «pôr em ordem as finanças» da Grécia, quando os ministérios admitem cinicamente que as políticas impostas pela força à Grécia falharam, tendo por único resultado o afundamento do país numa monstruosa recessão progressiva, e que a dívida grega jamais poderá ser reembolsada? Será isto um caso de simples sadismo da tristemente célebre Troika, ou antes uma guerra aberta e declarada do capital contra o mundo do trabalho? A realidade quotidiana obriga-nos a admitir: Sim, aquilo a que assistimos na Grécia é uma verdadeira guerra dos poderosos contra os oprimidos, dos muito ricos contra todos os outros. E ao mesmo tempo, não nos esqueçamos disto que é muito grave: assistimos à ressurreição do pior neocolonialismo quando vemos a Grécia humilhada e subtraída de praticamente toda a soberania nacional, tratada pelos seus pretensos… parceiros europeus como uma autêntica colónia, um protectorado sob tutela, dirigida por um Gauleiter [denominação alemã para um dirigente provincial] da senhora Merkel e do senhor Schaeuble…

E os Gregos, que fazem eles? Cuidado, não acreditem no que vos contam dos Gregos. Os vossos meios de comunicação social são como os nossos: a realidade que eles vos descrevem é totalmente irreal. Ao falarem da Grécia actual, fazem questão em afirmar que existe em Atenas um governo de União Nacional apoiado por quatro quintos dos representantes do povo grego. Se fôssemos a acreditar nesta descrição, teríamos de concluir que os Gregos são um povo de masoquistas que adoram ser maltratados…

Evidentemente a realidade é outra. Uma dúzia de greves gerais em menos de dois anos, incontáveis lutas e greves muito duras em todo o país, um clima quase insurreccional desde há meses, um movimento dos Indignados – os Aganaktismeni gregos – que varreu toda a Grécia durante 3 meses, confrontos muito violentos com as forças da repressão, ministros e deputados que já há 10 meses não ousam sair à rua, para não serem vaiados ou mesmo esbofeteados pelos transeuntes, um parlamento sitiado com frequência crescente por centenas de milhares de manifestantes que mais tarde ou mais cedo acabarão por tomá-lo de assalto, … eis um breve resumo do que é a rotina quase quotidiana na Grécia desde há muitos meses.

Mas tudo isto são apenas os abalos premonitórios do grande sismo social que vem aí. De facto, um olhar mais atento revela que a cólera popular atinge actualmente recordes históricos, que o país é como um vulcão social preste a explodir. De resto, as sucessivas sondagens são muito eloquentes. O apoio popular a este governo dito de União Nacional não chega aos 8%, enquanto o conjunto dos partidos à esquerda do PASOK social-democrata sobe acima dos 50%! Tudo muda a uma velocidade alucinante e a paisagem política grega está a sofrer uma reviravolta sem precedentes, porque sectores inteiros da sociedade procuram soluções radicais contra a crise e o empobrecimento galopante. Vejamos um exemplo que ilustra perfeitamente esta situação excepcional, fazendo lembrar cada vez mais o que se passou num certo período entre duas guerras no nosso continente. O PASOK, que, há dois anos, teve um triunfo esmagador nas eleições, conquistando a percentagem recorde de 45%, tem agora segundo as sondagens menos de 10%, enquanto um grupúsculo de assassinos neonazis ronda os 3%! Sim, a sociedade grega está já a caminho de ensaiar a sua própria República de Weimar…
imagem retirada daqui

Então, que fazer? A primeira coisa a fazer é gritar alto e bom som que os Gregos não devem pagar esta dívida que os sufoca e que não é deles. Deve ser imediatamente suspensa. Porquê? Para fazer aquilo a que obriga a lei internacional, a ONU, uma quantidade de tratados internacionais, aliás assinados por todos os nossos governos: investir na satisfação das necessidades elementares da sociedade grega – na saúde, na educação, nas infraestruturas, nos serviços públicos, nos desempregados, nas crianças esfomeadas, nas famílias monoparentais, nas mulheres que são agora obrigadas a assumir gratuitamente e em família todas as tarefas assumidas pelos serviços públicos antes do seu desmantelamento e privatização – as quantias astronómicas consagradas ao serviço da dívida pública.

Por quanto tempo? Pelo tempo que for necessário para realizar uma auditoria cidadã da dívida, a fim de identificar a sua parte ilegítima, a qual deve ser anulada e não reembolsada. E tudo isto deve ser feito recusando cair na armadilha das chantagens políticas que repetem incessantemente que uma tal política radical leva automaticamente à saída do euro e da União Europeia, a uma crise nacional inevitável…

Não, não e não. Recusamos pagar esta dívida e ao mesmo tempo permanecemos na zona euro. A razão principal é simples: porque queremos combater convosco, todos juntos, de mãos dadas com todos os trabalhadores deste continente, para pôr fim a esta Europa do capital, das Merkel e dos Sarkozy. Porque queremos criar e amplificar a chamada «crise sistémica» desta União Europeia antidemocrática e anti-social dos ricos. Sim, apenas nos resta uma perspectiva, a única realista e exequível: a do combate comum dos oprimidos de toda a Europa.
Camaradas, mais do que nunca a união faz a força. Unamo-nos, pois todos juntos conseguiremos mudar este mundo em vias de apodrecer. Antes que seja demasiado tarde… E lembrem-se:
Se não formos nós a fazê-lo, quem há-de ser?
Se não for agora, então quando será?...

Discurso de Sonia Mitralia; Marselha, 17.02.2012 – tradução de Rui Viana Pereira

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da Grécia a Espanha, a Portugal - Cohn Bendit, o conhecido activista do Maio de 68, fala
da hipocrisia da 'ajuda' à Grécia: 
«damos-lhes dinheiro para eles comprarem as nossas armas!»


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in Expresso, 22 de fevereiro de 2012

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15/02/12

A confissão de Pedro Passos Coelho


in Público, 15/2/2012
A confissão de Pedro Passos Coelho
por Santana Castilho*


Passos Coelho perguntou, com legitimidade, referindo-se a José Sócrates: “ Como é possível manter um Governo em que o primeiro-ministro mente?” Teimo na redundância de retomar factos sobejamente conhecidos, que justificam devolver a pergunta a quem a formulou e é, agora, primeiro-ministro. Porque a memória dos homens é curta e a síntese é necessária para compreender o que virá depois. 

Passos Coelho enganou os portugueses quando disse que não subiria os impostos, que não reduziria as deduções fiscais em sede de IRS, que achava criminosa a política de privatizações só para arranjar dinheiro, que não contariam com ele para atacar a classe média em nome de problemas externos, que era uma “grande lata”, por parte do PS, acusá-lo de querer liberalizar os despedimentos, que não reduziria a comparticipação do Estado nos medicamentos, que não subiria o IVA e que falar de cortar o subsídio de Natal era um disparate. Passos Coelho enganou os portugueses quando, imagine-se, acusou o PS de atacar os alicerces do Estado social, censurou a transferência do fundo de pensões da PT para o Estado, acusou o Governo anterior de iniquidade porque penalizava os funcionários públicos e os tratava “à bruta”, responsabilizou as políticas socialistas pelo aumento do desemprego e das falências, recusou pôr os reformados a pagar o défice público ou garantiu que o país não necessitava de mais austeridade. Tudo retirado de declarações públicas de Passos Coelho, sustentadas documentalmente. Tudo exactamente ao contrário do que executou, logo que conquistou o poder. 

Quem defende Passos Coelho argumenta, de modo estafado, que os pressupostos mudaram e que ele foi surpreendido pelo que encontrou quando tomou posse. A justificação é inaceitável. Porque só é sério prometer-se quando se está seguro de poder cumprir e porque existem declarações públicas de Passos Coelho afirmando que conhecia bem a situação do país. Todavia, esta questão foi definitivamente ultrapassada pelos acontecimentos recentes. Com efeito, o percurso começa agora a ser esclarecido. O qualificativo “piegas”, com que Passos Coelho injuriou o povo que lidera, não é fruto de um discurso infeliz. É, antes, uma peça de um puzzle de conduta política, cuja chave está numa frase inteira. Passos Coelho pronunciou-a quando, referindo-se ao programa da troika, afirmou: “… não fazemos a concretização daquele programa obrigados, como quem carrega uma cruz às costas. Nós cumprimos aquele programa porque acreditamos que, no essencial, o que ele prescreve é necessário fazer em Portugal …” Com esta frase, Passos Coelho tornou claro um radicalismo ideológico que amedronta. Com esta frase, Passos Coelho inviabilizou o argumento da mudança de pressupostos e confessou, implicitamente, a sua manha pré-eleitoral. O seu “custe o que custar” é, tão-só, uma variável discursiva da máxima segundo a qual os fins justificam os meios. O fim de Passos, confessado agora, sempre foi o que acha ser “… necessário fazer em Portugal …” Não como inevitabilidade imposta pelos credores, a contragosto de um primeiro-ministro que sofresse com o sofrimento do seu povo. Mas como convicção radical de uma ideologia que, para se impor no seu fim, aceitou o meio de mentir com despudor. Ficámos agora a saber que Passos Coelho mentiu conscientemente. Ele o disse. 

O discurso de Odivelas é o melhor paradigma do espírito e da forma deste primeiro-ministro. O espírito fica-se pelos lugares comuns do maniqueísmo da moda: a preguiça de uns, versus o “empreendedorismo” de outros; os “descomplexados” contra os “autocentrados”; as cigarras piegas em oposição às formigas do pastel de nata. A forma alicerça-se numa retórica indigente, de semântica pobre e metáforas que, ao invés de mobilizarem os portugueses, ofendem e geram raiva. 

Por fim, que não de menor importância, o discurso foi relevante no que à Educação toca. Passos Coelho foi pesporrente nas alusões ignorantes e atrevidas que fez. Ele olha para o sector como um mestre-escola de régua na mão. E os disparates que proferiu, ajudaram a clarificar por que razão tudo se limita a reduzir despesa e operar pequenos “liftings” às políticas de Sócrates. Afinal, ele tem Crato como Merkel o tem a ele: para capacho. Basta ver algumas das últimas iniciativas, para ficarmos conversados:

1. Para responder às agressões bárbaras de que os professores são vítimas, os seres pensantes do PSD e CDS propuseram conferir autoridade policial aos professores, outorgando-lhes o direito de reter fisicamente os delinquentes. Se soubessem o que é uma escola e tivessem noção da diferença de força física entre as professoras (que constituem a esmagadora maioria do corpo docente) e os alunos, cada vez mais homens feitos (ensino obrigatório prolongado até os 18 anos), estavam calados.

2. Num alarde de estúpida burocracia, o mesmo ministério que apregoa a autonomia das escolas obriga-as a usar, em todas as comunicações, um único tipo de letra: o “Trebuchet MS”, tamanho 10. Venha lá Crato explicar a razão científica.

3. O regime de autonomia e gestão das escolas vai ser revisto. É uma revolução para o sistema. Mantém tudo quanto Maria de Lurdes Rodrigues congeminou e acrescenta-lhe o que faltava para a perfeição: um bombeiro, um canalizador ou um polícia (sem desprimor para com estes profissionais) podem agora avaliar os directores das escolas portuguesas; num invejável avanço democrático, os professores passam a eleger os coordenadores de departamento de entre três colegas escolhidos pelos directores.

Trinquem a língua e aceitem, ou são piegas. 

* Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt)

13/02/12

Poemarma

o autor deste 'poemarma' renegá-lo-ia agora, talvez .. ("pode alguém ser quem não é?" ... )
-- só os versos ficam, imutáveis (*) , mais arma ainda que poema, na voz de Mário Viegas:


(*) encontrei duas versões do Poemarma. A que corresponde às palavras de Mário Viegas foi retirada daqui

Poemarma

Que o poema tenha rodas motores alavancas
que seja máquina espectáculo cinema.
Que diga à estátua: sai do caminho que atravancas.
Que seja um autocarro em forma de poema.

Que o poema cante no cimo das chaminés
que se levante e faça o pino em cada praça
que diga quem eu sou e quem tu és
que não seja só mais um que passa.

Que o poema esprema a gema do seu tema
e seja apenas um teorema com dois braços.
Que o poema invente um novo estratagema
para escapar a quem lhe segue os passos.

Que o poema corra salte pule
que seja pulga e faça cócegas ao burguês
que o poema se vista subversivo de ganga azul
e vá explicar numa parede alguns porquês.

Que o poema se meta nos anúncios das cidades
que seja seta sinalização radar
que o poema cante em todas as idades
(que lindo!) no presente e no futuro o verbo amar.

Que o poema seja microfone e fale
uma noite destas de repente às três e tal
para que a lua estoire e o sono estale
e a gente acorde finalmente em Portugal.

Que o poema seja encontro onde era despedida.
Que participe. Comunique. E destrua
para sempre a distância entre a arte e a vida.
Que salte do papel para a página da rua.

Que seja experimentado muito mais que experimental
que tenha ideias sim mas também pernas.
E até se partir uma não faz mal:
antes de muletas que de asas eternas.

Que o poema assalte esta desordem ordenada
que chegue ao banco e grite: abaixo a pança!
Que faça ginástica militar aplicada
e não vá como vão todos para França.

Que o poema fique. E que ficando se aplique
a não criar barriga a não usar chinelos.
Que o poema seja um novo Infante Henrique
voltado para dentro. E sem castelos.

Que o poema vista de domingo cada dia
e atire foguetes para dentro do quotidiano.
Que o poema vista a prosa de poesia
ao menos uma vez em cada ano.

Que o poema faça um poeta de cada
funcionário já farto de funcionar.
Ah que de novo acorde no lusíada
a saudade do novo, o desejo de achar.

E que o poema diga: o longe é aqui
e aponte a terra que tu pisas e eu piso.
Ah que o poema chegue ao pé de ti
e te diga ao ouvido o que é preciso.

Que o poema actue directamente sobre o real
nem que por vezes seja só o poeta em movimento.
Ah que o poema para ser original
transforme em braços e acção o pensamento.

Que ponha sinos a tocar dentro das rosas
e seja mais que rosa flor de cacto.
Que o poema saiba ver dentro das coisas
a mão do homem feita poema em acto.

Que o poema me dispa de tudo o que não presta
e me transforme na sua própria acção.
Nem quero outra glória nem quero outra festa:
morrer como Guevara na Bolívia da canção.

Só tu, povo fardado de ganga azul
poderás dar-me a glória ou recusar-ma.
Aí vai o meu poema
a minha taça do rei de tule
aí vai para ser arma!

Manuel Alegre

Manolis Glezos: pela democracia, ontem como hoje

fotos e legenda retirados daqui

«O homem que está a levar com gás pimenta nesta manifestação na Grécia (foi a 5 de Março) tem 88 anos, chama-se Manolis Glezos, com 19 anos, em 1941, subiu à Acrópole e derrubou a Bandeira Nazi que lá estava... E este homem que foi torturado e preso por ter desafiado a ocupação Alemã é agora gazeado e atacado por combater o "Programa de Estabilidade" apoiado pela Chancelaria Teutónica. Passados 60 anos, a história não se repete, mas evoca-se!»


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Helena Smith in Athens
guardian.co.uk, Tuesday 2 August 2011
Manolis Glezos, renowned for his act of defiance 70 years ago, is now a force in Greece's civil disobedience movement - read further

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Whitney Houston, RIP

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«E falam-me de revisão curricular?»


recebido via e-mail:

E falam-me de revisão curricular?
Um dia cinzento…professor... Para mim um dia triste, coberto de indignação, revolta, medo,  impotência e desolação.
M. Duchamp, descending a staircase
Ontem, em frente à Escola EB 2/3 Padre António Luís Moreira, nos Carvalhos – Vila Nova de Gaia, um Professor de Matemática, de 63 anos, foi violentamente agredido por três indivíduos de etnia cigana. Não. Não agrediu nenhum aluno. Não foi incorrecto com ninguém, nem tão pouco falou mais alto. O exemplo de civismo, educação, correcção e profissionalismo é a descrição deste nosso colega. Apenas mandou que uma aluna de etnia cigana se retirasse da sala onde entrou sem autorização e sem educação. Motivo este bastante para que a aluna comunicasse com os familiares que de forma selvagem se encarregaram do “ajuste de contas”.

Sou professora e tenho também alunos de etnia cigana. Terei provavelmente princípios de educação e civismo semelhantes aos da maior parte dos professores, como este colega. Corrijo todos os dias os comportamentos e atitudes que considero despropositados. Trato todos os alunos de igual forma, tendo como principio a igualdade de que todos falam com a “boca cheia”. Igualdade essa de direitos, mas também de deveres. Sim, porque não pensem que a igualdade só serve para ter direitos! O cumprimento das regras de civismo e respeito também fazem parte. E se um dos meus alunos achar que “cuspir em cima das secretárias” é um direito que ele tem? Isso vai contra o meu entendimento de respeito e educação e, como tal terei de informá-lo da necessidade de limpar a secretária que é de todos. Se a moda pega, terei com toda a certeza de pedir protecção policial para sair da escola.

Cada vez que tento visualizar a situação de agressão a que foi sujeito este professor, fico completamente de rastos, desmoralizada e sem motivação alguma para continuar a fazer aquilo que escolhi há muitos anos.

E falam-me em revisão curricular??
Podem fazê-las todas e todos os anos! Não é aí que se encontra o “cancro” da Escola/Educação. Podem aumentar as cargas horárias todas que quiserem! Os alunos não vão saber mais por isso. É o mesmo que tentar tratar o doente com a medicação errada.

A indisciplina grassa em grande escala e em percurso crescente na maior parte dos estabelecimentos de ensino do nosso país. É mais ou menos camuflada, numas ou noutras escolas, por interesses vários, desde directores a ministros. Mas está instaurada e cada vez com maior número de aderentes. A nós pouco nos resta fazer. Tentamos de todas as formas, nunca infringindo a lei ou ferindo os tão apregoados direitos do aluno, proteger os poucos que sabem para que serve a Escola, o Professor e a Educação. Mesmo correndo algum risco de, segundo os entendidos, traumatizar as crianças, ainda elevamos o tom de voz ou castigamos um ou outro aluno, na tentativa, quase inglória, de “salvar” mais um.

Sabendo que a missão primeira de educar compete aos pais e sabendo que poderemos ser verbalmente e fisicamente agredidos, arriscamos e transmitimos, sempre que achamos premente, os valores e princípios que os nossos alunos não trazem de casa, corrigimos atitudes, somos pai e mãe sempre que necessário. Recebemos mensagens escritas dos encarregados de educação revelando uma falta de respeito, educação e desconhecimento atroz, porque cansamos o seu educando com os trabalhos de casa. Somos ameaçados pelos pais e familiares dos alunos a quem dizemos que é necessário um caderno e uma caneta para escrever e que esse material é muito mais importante numa sala de aula do que um telemóvel…

E falam-me em revisão curricular??…

Não aguento mais medidas sem sentido e de nenhum efeito. Um médico não receita sem saber qual é o mal de um doente, ou não deveria fazê-lo.

Então como se quer tratar a Escola/Educação sem antes perceber, analisar, verificar onde está realmente o grande, imenso problema?

  • É urgente e inadiável impor a disciplina nas escolas portuguesas.
  • É urgente e inadiável que se percebam as diferenças de direitos e deveres entre um adulto e uma criança.
  • É urgente e inadiável que um professor possa ensinar quem quer realmente aprender.
  • É urgente e inadiável que o medo deixe de ser uma sombra permanente sobre as cabeças dos docentes do nosso país.
  • É urgente e inadiável que possamos intervir assertivamente e no imediato em situações que estão no limiar do humanamente suportável.
  • É urgente e inadiável que o respeito e educação que exijo aos meus filhos, possa exigir da mesma forma aos meus alunos.

E falam-me de revisão curricular??

É inadmissível que o professor seja obrigado a engolir os insultos de um aluno que tem mais ou menos a idade dos seus filhos quando em sua casa isso não é minimamente tolerável.

Não pensem que quero “a menina dos cinco olhinhos”. Não. Apenas penso que fomos exactamente para o outro extremo. Quase que me apetece dizer que se vive uma anarquia nas escolas. Gritar fere a sensibilidade das crianças, mas falar baixo não resulta pois estas não sabem estar caladas. Uma bofetada ou puxão de orelhas? Completamente desadequado. Isso só com os nossos filhos surte efeito. Aos nossos alunos traumatiza e marca para toda a vida. Talvez seja por isso, por tantos traumas destes, que a nossa geração cresceu, formou-se, trabalha e não espera que nenhum subsídio seja criado e nenhuma casa lhe seja oferecida.

Os meus vinte e cinco anos de serviço não me ensinaram a viver uma escola em que importa apenas que as crianças sejam muito felizes e acreditem que a vida é super fácil; que o trabalhar é apenas para os “totós”, pois a preguiça compensa e de uma forma ou de outra todos conseguirão fazer a escola; que independentemente de cumprirmos as regras teremos sempre direitos; que pudemos ofender de todas as formas possíveis e agredir sempre, pois o pior que poderá acontecer são uns dias de “férias” em casa; que de uma forma ou de outra, a culpa é sempre do professor.

O nosso colega está em casa, depois de uma tarde nas urgências do hospital, com cortes no rosto e muitos hematomas. Tenho o estômago embrulhado e um nó na garganta. Uma vida inteira dedicada a ensinar e a formar um futuro melhor para o nosso país é desta forma agraciada quase no fim da sua carreira. E quem está a ler e a sentir-se da mesma forma que eu perguntará: “ E a escola não age?” E eu digo-vos qual é a resposta: “Foi fora do recinto escolar.” Gostaram? Conseguem imaginar como será o estado de espírito deste professor de matemática? Já não falo das marcas físicas e das dores que deve ter, pois foram muitos pontapés e murros covardemente dados por três homens na casa dos vinte anos. Covardemente por serem três a agredirem um senhor de sessenta e três anos. Falo na dor psicológica, uma dor que não passa com analgésicos, que vai lá ficar muito tempo. Será a recordação mais viva que terá da sua longa carreira que está quase no final. Aqui fica a medalha de “cortiça” que recebe pela sua dedicação e entrega à escola e aos alunos. No final apenas fica o amargo de boca de quem tem consciência de que fez o melhor trabalho que pode, que entregou a melhor parte da sua vida e juventude aos seus alunos, que exerceu com toda a dignidade a sua profissão, respeitando sempre todos, engrandecendo o conhecimento de muitos.

Resta-me dizer que este dia cinzento tem toda a razão de ser e todos os professores se sentirão exactamente neste cinzento que porventura será a cor que melhor define os sentimentos de quem neste momento consegue imaginar-se no lugar deste professor.

Maria do Rosário Meireles Cunha
Professora na Escola EB 2/3 de Olival