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24/02/16

"Escola a mais, pais a menos "

no Público
24 de Fevereiro de 2016

por Santana Castilho*

Três meses volvidos sobre o início de funções do Governo, temos, na Educação, um Orçamento de Estado pior que o último de Passos Coelho e umas Grandes Opções do Plano para 2016-2019 (Proposta de Lei n.º 11/XIII) que não são melhores. Se não é claro quem manda no ministério da Educação, é já claro quem não manda, apesar de algumas tiradas fanfarrãs e pouco respeito por quem pensa diferente. Decididamente, António Costa menosprezou a Educação e resolveu-a protegendo a impreparação do ministro com a sombra tutelar de Maria de Lurdes Rodrigues. Cruzando o orçamento com as opções, resultam projectadas para a legislatura (se o Governo a concluir) medidas sem dinheiro para as pagar e persistência em bandeiras erradas do PS de outros tempos. Um bom exemplo é o alargamento da “Escola a Tempo Inteiro” (permanência na escola das 08.30 às 19.30) a todos os alunos do ensino básico, que já estava no programa do Governo e é reafirmado nas Grandes Opções do Plano (pág. 110).

A falta de tempo para os pais se dedicarem ao crescimento dos filhos é um problema social real e grave. Mas encontrar pais de substituição (professores e outros técnicos) e lar alternativo (escola) é acrescentar ao primeiro um segundo problema. A este propósito, o défice de conhecimento do Governo é preocupante quando lamenta (pág. 20 das opções) que a taxa de “escolarização efectiva (sic) antes dos três anos” seja apenas de 45,9%. E quando se regozija, a seguir, por essa taxa ficar “claramente acima dos 27,7 % da Finlândia”. Isto é, o PS ainda não percebeu que, no caso vertente, taxa baixa é melhor que taxa alta. E não percebeu porque insiste no desígnio, pedagógica e socialmente aberrante, de nacionalizar as crianças e facilitar a escravização dos pais. Perceberá o PS que, na sociedade que defende, cada vez mais as crianças não são crianças? Que não têm tempo para brincar livremente, a actividade mais séria do seu crescimento? Que mais escola não significa melhor educação? Que a falta de presença e disponibilidade dos pais impede a consolidação dos laços afectivos profundos, que caracterizam a relação pais/filhos? Que essa ausência dificulta o desenvolvimento da personalidade das crianças, o qual requer figuras claras de referência? Que só cresce a necessidade de mais berçários porque aumenta o peso do trabalho desregulado e mal pago? Que a prevalência dos interesses profissionais sobre o direito ao bem-estar mental das crianças tem reflexos nefastos no futuro de todos nós?

Só há uma maneira de encarar isto e a alarmante baixa taxa de natalidade, geradora de um saldo demográfico persistentemente negativo, qual seja a de proteger verdadeiramente as crianças e a maternidade, admitindo novas formas de organização do trabalho e reduzindo a carga horária de um dos progenitores, pelo menos, até que os filhos concluam o ensino básico. Como fazem os países mais avançados, que há muito concluíram, à luz da abundante produção científica sobre psicologia do desenvolvimento, que resulta inaceitável guardar crianças na escola em jornadas contínuas de 10 a 12 horas, como já hoje se verifica em muitos casos.

É tempo de trazermos a debate modelos alternativos de organização do trabalho e de fixação dos seus horários. Não são só os escolhos postos à maternidade que o justifica. São, também, os problemas suscitados pelo desemprego persistente, pela natureza cada vez mais precária do emprego, pelo crescimento do peso das mulheres no preenchimento do trabalho disponível e pelo aumento constante do tempo de vida, sem reflexo satisfatório na percepção da utilidade social dos mais idosos, que não podem, não devem nem aceitam ser reduzidos a simples fardos da sociedade. É, também, ainda, a necessidade de encarar e resolver um paradoxo inaceitável: se a crise atirou uns para a inactividade, obrigou outros, muitos, a dupla actividade, paga a preço singelo.

Não fora isto determinante e, mesmo com técnicos qualificados em trabalho não curricular e recursos que não existem (se a iniciativa custou em 2006, só para o 1º ciclo do básico, cerca de 100 milhões de euros, em quanto importaria hoje para um universo de quase 900.000 alunos?), a tipologia dominante na organização dos espaços das escolas, que é a sala de aula, inviabilizaria a generalização proposta. Faltam ginásios, recintos desportivos de ar livre e espaços para actividades expressivas (teatro, música, artes plásticas, etc.), pelo que não nos iludamos: a persistir no erro, duplicaremos apenas, sem sucesso, actividades rígidas, de cariz escolar. E porque os níveis de desenvolvimento são diferentes, reter em reclusão tão prolongada adolescentes do 9º ano pode provocar episódios reactivos que não se verificam com crianças do 1º ciclo.

*Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt)

15/06/15

admirável mundo-novo-português!

retirado do blogue da Anabela Magalhães


O caso do pai que abortou os filhos na escola 

12/06/2015
no Aventar 

por João José Cardoso

Os colégios internos sempre foram uma boa solução para pais que não estão para aturar os filhos. Mas há poucos, e são caros. 

Para democratizar o acesso ao sossego paterno e à tranquilidade materna, o presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais, Jorge Ascensão, teve uma ideia: aulas 11 meses por ano. É a chamada massificação da irresponsabilidade parental, ou da estupidez, como preferirem. 

Nesta fase os pais ainda fariam o sacrifício de manter os filhos em casa à noite e fim-de-semana, dadas as dificuldades económicas que o país atravessa, mas poderia iniciar-se a reivindicação seguinte, os dormitórios escolares, a que se seguiria um calendário escolar flexível, em que cada aluno gozasse de férias em data coincidente com as do agregado, porque há que manter algum contacto com as crianças, não vá alguém esquecer-se do nome das crias. 

Abortadas as criaturas nas escolas, em Portugal que já tem das maiores cargas lectivas e um sistema de férias absurdo onde dois períodos se dividem às ordens de um feriado móvel, o problema da natalidade resolvia-se num instante. Era tudo a fazer portugueses, o mais idiotizados possível.


15/05/14

Uma ideia de sociedade não solidária

retirado do fb,

por António Pinho Vargas

Hoje o Público inclui um artigo de Vanessa Rato sobre Cultura e o Estado (p.38-9)

Dentre os vários aspectos abordados - importantes - ressaltou-me uma intervenção no Parlamento de Catarina Martins (BE), de 3 minutos, sobre a qual se refere que "no breve tempo que demorariam as suas palavras Portugal teria gasto mais em juros da dívida pública do que aquilo que investe em criação artística em todo um ano".
Não deixa de ser impressionante. Algumas conclusões se podem tirar. 
  1. As instituições financeiras que regulam a dita ajuda não brincam em serviço. "Ajuda" e "ajustamento" no discurso; paguem os juros, se faz favor, na realidade. 
  2. O seu projecto de transferência de dinheiro dos pobres para os ricos - acolhido e celebrado por este governo e já levado a cabo - concretiza-se em muitas áreas: emprego/desemprego, pensões de reforma/cortes, impostos cada vez maiores, diminuição de apoios à actividade e à criação cultural até atingir os valores mais baixos de uma década. 
  3. Uma ideia de sociedade não solidária - incentivos discursivos às querela intergenacionais, novos contra velhos, pensionistas contra empregados, funcionários púbicos contra privados, etc - ciências de aplicação imediata - economia e gestão contra todas as chamadas Humanidades, História, Filosofia, Artes, etc, aspectos, aliás, em que grassa no próprio governo e em grande parte dos economistas e gestores, uma enorme ignorância. 
  4. Bem pode o governo vir agora com um discurso próximo do patético-eleitoral anunciar o "sucesso" e baixas putativas de impostos, ao mesmo tempo que se sabe, ou se pode prever que, como diz quem manda (a troika) que a austeridade é para continuar. Será preciso ser muito estúpido para acreditar neste discurso enganoso. Como bem disse a mesma Catarina Martins "a palavra do primeiro ministro não vale nada". 
  5. Da mesma CM a intervenção resume a importância da criação: "a criação é uma forma de conhecimento, uma forma de qualificação e uma forma de soberania, porque é uma forma de pensarmos sobre nós, de nos projectarmos e termos um lugar no mndo. Os cortes põem em causa a capacidade de o nosso país se pensar". 
  6. Não posso estar mais de acordo. Nem tudo deriva ou depende do apoio do Estado, nem todos os problemas estariam resolvidos com esse apoio - as suas formas podem e devem ser melhoradas e escrutinadas - mas a sua actual ridícula dimensão é o outro lado do espelho que favorece a infantilização da população - o titytainmnent - esse sim, o programa cultural do governo e em geral do capitalismo. Favorecer a autoridade, favorecer a passividade e a depressão perante as várias formas de poder do estado, das chefias das grandes empresas, das chefias dos bancos, de todas as formas de poder disseminado. A minha impotência face às dificuldades de colocar os CDs recentes simplesmente à venda (!) é apenas um mero grão de areia neste quadro geral muito mais vasto. 
  7. O voto nas próximas eleições apresenta, para mim, 4 possibilidades plausíveis de oposição de diversos graus e matizes: PS, PC, BE e Livre. Decidirei conforme decidir. 

Na Grécia há o Syrisa em disputa pelo primeiro lugar nas sondagens. Honra à lucidez e capacidade das esquerdas gregas. 

APV,
compositor; Professor na Escola Superior de Música de Lisboa

06/05/13

a escola é uma maçada?

É, mas não pelas razões apontadas no parágrafo abaixo, não só, não necessariamente.

Sérgio Niza: «O professor dá uma lição, depois faz uma pergunta, escolhe um aluno para responder e avalia o trabalho substancial que é feito em casa. O principal problema da escola está neste modelo de não-comunicação em que o professor usa mais de três quartos do tempo da aula para falar sem que os alunos participem ou estejam envolvidos. Assim não há diálogo possível. Poderá algum jovem ou criança suportar isto?» -- ler mais
de Keith Haring, Characters

Ora as coisas não se passam exactamente assim. Não sempre. Não em todas as disciplinas. A bem dizer e por orientação programatico-didáctica, não deveria passar-se assim em nenhuma disciplina.

É claro que a propalada diferenciação/individualização do ensino é uma treta, impossível de levar à prática em turmas demasiado grandes, sem professores nem horas de apoio disponíveis e/ou suficientes.

Apesar de tudo, é suposto o trabalho centrar-se no aluno, partindo de um qualquer material (um texto, por exemplo) que ele próprio explorará, com exercícios vários testando 'competências' várias. No caso de uma língua, por exemplo, testando a compreensão do que se lê ou ouve, a expressão escrita ou oral, os aspectos estruturais/funcionais.
Idealmente, os alunos trabalhariam sozinhos, em pares ou em grupo.
Idealmente, o professor circularia pelas mesas, sentar-se-ia com cada aluno, com cada par ou grupo que o solicitasse. Na prática, quase impossível. Um professor sentado, tentando prestar apoio individualizado, rapidamente tem a sala transformada num circo ou numa 'chatroom', o uso 'transgressor' do computador, sendo o caso, ou as conversas, as brincadeiras, as agressões, na proporção inversa da idade dos seus alunos.
É assim nas escolas por onde passei, o problema da indisciplina e do desinteresse generalizado agravando-se de ano para ano, estendendo-se a faixas etárias e níveis de ensino impensáveis desta passibilidade, anos atrás.

Para pelo menos 99% dos alunos, as aulas são, à partida, uma maçada. São-no ainda antes de entrarem para a sala, o recreio, as conversas com os amigos que interrompem a contra-gosto. As aulas são uma maçada, como é uma maçada (talvez ainda maior) ler um livro. 

Factores como o desvinculamento dos pais, a mediocridade dos meios de comunicação e uma cultura do facilitismo e do imediatismo veiculada e incensada pelas novíssimas tecnologias, entre outros, levaram a que, por exemplo na disciplina de inglês, a obra de leitura extensiva tenha, na última década e meia, passado de um romance de 200 ou 300 páginas para um conto de 10 que, ainda assim, a maior parte dos alunos não lê em casa. Que é dado na aula, trabalhado, supostamente anotado para eventual posterior consulta em teste que lhe avalie a compreensão. Pois nem assim. A maior parte dos alunos recusa fazer uma leitura dramatizada. A maioríssima parte não ouve as perguntas que o professor faz. Muitos (demasiados) não copiam nada do quadro, não tomam notas, não têm dúvidas nem põem questões. Grande parte dos alunos, pura e simplesmente, não quer saber.

Os alunos portugueses são tradicionalmente 'copiões'. Com o passar dos anos, desenvolveram técnicas de copianço (apoiadas sobretudo nas novas tecnologias e facilitadas pela tipologia de exercícios visando a avaliação de competências) tão eficazes como indetectáveis e que desafiam qualquer esforço de vigilância ou o recurso a diferentes versões do mesmo teste - ingénuo numa sala sobrelotada, implementado com relativo sucesso nos exames nacionais, com menos de metade dos alunos e o dobro dos professores.

O copianço é o 'desenrascanço' das nossas escolas. Alunos há que o praticam com afinco e êxito durante toda a sua escolaridade. Falham nas provas orais levadas a cabo no dia-a-dia, em testes periódicos ou nos exames finais, mas a avaliação das restantes competências dá-lhes muitas vezes a nota necessária para transitarem de ano. Empenhar-se nas aulas, estudar ... para quê? , se as artimanhas compensam, em prazer, facilidade e eficácia? Se, antes do teste ou do exame, entregam um telemóvel ou um iPhone e guardam outro no bolso ou nas cuecas?

Para mudar a ESCOLA, há que mudar a SOCIEDADE, não há volta a dar-lhe. Enquanto os pais permitirem que os seus filhos passem horas infinitas jogando num computador ou sistematicamente 'ligados' à TV ou a uma qualquer maquineta (inclusive à hora das refeições) , enquanto não os incentivarem a ler desde muito cedo, enquanto não lhes orientarem o uso dos tempos livres, nunca as aulas vão deixar de ser uma maçada.

Referi há tempos o relato de uma aluna que foi viver para a Suíça, de tempos a tempos vindo visitar a sua antiga turma. O que os ex-colegas se riram quando contou que os alunos suíços se levantavam mais cedo para ouvirem as notícias e que ocupavam os intervalos a ler ou a estudar; o que eles desacreditaram quando contou que não havia algazarra nas aulas, que se respeitavam os professores; que os 'chumbos' praticamente não existiam, tal era a vergonha da perspectiva, o controle dos pais para que os filhos 'cumprissem'.

É ... mundos estranhos onde se está com um objectivo. Onde o estudar, o aprender, são em si motivo de interesse, a motivação intrínseca. Mundos onde, talvez, a escola não seja uma maçada - não pelos malabarismos dos professores nas aulas, mas pelo diferente entendimento da sua existência, por parte dos alunos e respectivos encarregados de educação.
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26/04/13

era uma vez uma terra feliz e próspera..

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GENIAL! Um vídeo a não perder!

  
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publicado no Youtube por Alcides Santos, aqui

«Taxar os ricos: Um conto de fadas animado, narrado por Ed Asner, com animação de Mike Konopacki. Escrito e dirigido por Fred Glass para a Federação de Professores da Califórnia. Um vídeo de 8 minutos sobre como chegámos a este momento de serviços públicos mal financiados e ampliando a desigualdade econômica. As coisas vão para baixo numa terra feliz e próspera após os ricos decidirem que não querem pagar mais impostos. Dizem às pessoas que não há alternativa, mas as pessoas não têm assim tanta certeza. Esta terra tem uma semelhança surpreendente com a nossa terra. »

Para mais informações, www.cft.org.
O vídeo original está em http://www.youtube.com/watch?v=S6ZsXr...

05/03/13

O roubo do presente

texto retirado daqui

publicado na Visão 
em 20 de Dezembro de 2012

por José Gil

Nunca uma situação se desenhou assim para o povo português: não ter futuro, não ter perspectivas de vida social, cultural, económica, e não ter passado porque nem as competências nem a experiência adquiridas contam já para construir uma vida. Se perdemos o tempo da formação e o da esperança foi porque fomos desapossados do nosso presente. Temos apenas, em nós e diante de nós, um buraco negro.

O «empobrecimento» significa não ter aonde construir um fio de vida, porque se nos tirou o solo do presente que sustenta a existência. O passado de nada serve e o futuro entupiu.

O poder destrói o presente individual e colectivo de duas maneiras: sobrecarregando o sujeito de trabalho, de tarefas inadiáveis, preenchendo totalmente o tempo diário com obrigações laborais; ou retirando-lhe todo o trabalho, a capacidade de iniciativa, a possibilidade de investir, empreender, criar. Esmagando-o com horários de trabalho sobre-humanos ou reduzindo a zero o seu trabalho.

O Governo utiliza as duas maneiras com a sua política de austeridade obsessiva: por exemplo, mata os professores com horas suplementares, imperativos burocráticos excessivos e incessantes: stresse, depressões, patologias border-line enchem os gabinetes dos psiquiatras que os acolhem. É o massacre dos professores. Em exemplo contrário, com os aumentos de impostos, do desemprego, das falências, a política do Governo rouba o presente de trabalho (e de vida) aos portugueses (sobretudo jovens).

O presente não é uma dimensão abstracta do tempo, mas o que permite a consistência do movimento no fluir da vida. O que permite o encontro e a intensificação das forças vivas do passado e do futuro – para que possam irradiar no presente em múltiplas direcções. Tiraram-nos os meios desse encontro, desapossaram-nos do que torna possível a afirmação da nossa presença no presente do espaço público.

 Actualmente, as pessoas escondem-se, exilam-se, desaparecem enquanto seres sociais. O empobrecimento sistemático da sociedade está a produzir uma estranha atomização da população: não é já o «cada um por si», porque nada existe no horizonte do «por si». A sociabilidade esboroa-se aceleradamente, as famílias dispersam-se, fecham-se em si, e para o português o «outro» deixou de povoar os seus sonhos – porque a textura de que são feitos os sonhos está a esfarrapar-se. Não há tempo (real e mental) para o convívio. A solidariedade efectiva não chega para retecer o laço social perdido. O Governo não só está a desmantelar o Estado social, como está a destruir a sociedade civil.

Um fenómeno, propriamente terrível, está a formar-se: enquanto o buraco negro do presente engole vidas e se quebram os laços que nos ligam às coisas e aos seres, estes continuam lá, os prédios, os carros, as instituições, a sociedade. Apenas as correntes de vida que a eles nos uniam se romperam. Não pertenço já a esse mundo que permanece, mas sem uma parte de mim. O português foi expulso do seu próprio espaço continuando, paradoxalmente, a ocupá-lo. Como um zombie: deixei de ter substância, vida, estou no limite das minhas forças – em vias de me transformar num ser espectral. Sou dois: o que cumpre as ordens automaticamente e o que busca ainda uma réstia de vida para os seus, para os filhos, para si.

Sem presente, os portugueses estão a tornar-se os fantasmas de si mesmos, à procura de reaver a pura vida biológica ameaçada, de que se ausentou toda a dimensão espiritual. É a maior humilhação, a fantomatização em massa do povo português. Este Governo transforma-nos em espantalhos, humilha-nos, paralisa-nos, desapropria¬-nos do nosso poder de acção. É este que devemos, antes de tudo, recuperar, se queremos conquistar a nossa potência própria e o nosso país.

nota:
José Gil foi considerado pelo semanário francês Le Nouvel Observateur, um dos 25 grandes pensadores do mundo - fonte
«O país em 2013. O futuro, o empobrecimento, a política de austeridade. Os portugueses e a crise que vai aumentar e desmascarar toda uma sociedade. Reflexões de um dos maiores pensadores portugueses de sempre. José Gil, filósofo em entrevista conduzida por Rosário Lira.»
ver entrevista aqui

13/01/13

de Eugénio Lisboa a um PM surdo

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Duas cartas de Eugénio Lisboa ao PM:
--- recebida via e-mail, a primeira, encontrada (aqui) por acaso, a segunda ..

“Eu amei a justiça e odiei a iniquidade: por isso, morro no exílio.” 

1ª carta que Eugénio Lisboa escreveu a Passos Coelho (em Setembro de 2012). O signatário tem hoje 82 anos e, para além de todas as funções que desempenhou e enuncia no final, foi um ensaísta e crítico literário notável. Peço a vossa atenção, porque fala em nome de todos nós. Trata-se de uma reflexão sobre a saúde da nossa pátria e penso que ninguém, de nenhum quadrante, poderá ficar-lhe indiferente. 

CARTA AO PRIMEIRO-MINISTRO DE PORTUGAL 

Exmo. Senhor Primeiro Ministro 

Hesitei muito em dirigir-lhe estas palavras, que mais não dão do que uma pálida ideia da onda de indignação que varre o país, de norte a sul, e de leste a oeste. Além do mais, não é meu costume nem vocação escrever coisas de cariz político, mais me inclinando para o pelouro cultural. Mas há momentos em que, mesmo que não vamos nós ao encontro da política, vem ela, irresistivelmente, ao nosso encontro. E, então, não há que fugir-lhe. 

Para ser inteiramente franco, escrevo-lhe, não tanto por acreditar que vá ter em V. Exa. qualquer efeito – todo o vosso comportamento, neste primeiro ano de governo, traindo, inescrupulosamente, todas as promessas feitas em campanha eleitoral, não convida à esperança numa reviravolta! – mas, antes, para ficar de bem com a minha consciência. Tenho 82 anos e pouco me restará de vida, o que significa que, a mim, já pouco mal poderá infligir V. Exa. e o algum que me inflija será sempre de curta duração. É aquilo a que costumo chamar “as vantagens do túmulo” ou, se preferir, a coragem que dá a proximidade do túmulo. Tanto o que me dê como o que me tire será sempre de curta duração. Não será, pois, de mim que falo, mesmo quando use, na frase, o “odioso eu”, a que aludia Pascal.  
Mas tenho, como disse, 82 anos, e, portanto, uma alongada e bem vivida experiência da velhice – da minha e da dos meus amigos e familiares. A velhice é um pouco – ou é muito – a experiência de uma contínua e ininterrupta perda de poderes. “Desistir é a derradeira tragédia”, disse um escritor pouco conhecido. Desistir é aquilo que vão fazendo, sem cessar, os que envelhecem. Desistir, palavra horrível. Estamos no verão, no momento em que escrevo isto, e acorrem-me as palavras tremendas de um grande poeta inglês do século XX (Eliot): “Um velho, num mês de secura”... A velhice, encarquilhando-se, no meio da desolação e da secura. É para isto que servem os poetas: para encontrarem, em poucas palavras, a medalha eficaz e definitiva para uma situação, uma visão, uma emoção ou uma ideia. 

A velhice, Senhor Primeiro Ministro, é, com as dores que arrasta – as físicas, as emotivas e as morais – um período bem difícil de atravessar. Já alguém a definiu como o departamento dos doentes externos do Purgatório. E uma grande contista da Nova Zelândia, que dava pelo nome de Katherine Mansfield, com a afinada sensibilidade e sabedoria da vida, de que V. Exa. e o seu governo parecem ter défice, observou, num dos contos singulares do seu belíssimo livro intitulado The Garden Party: “O velho Sr. Neave achava-se demasiado velho para a primavera.” Ser velho é também isto: acharmos que a primavera já não é para nós, que não temos direito a ela, que estamos a mais, dentro dela... Já foi nossa, já, de certo modo, nos definiu. Hoje, não. Hoje, sentimos que já não interessamos, que, até, incomodamos. 

Todo o discurso político de V. Exas., os do governo, todas as vossas decisões apontam na mesma direcção: mandar-nos para o cimo da montanha, embrulhados em metade de uma velha manta, à espera de que o urso lendário (ou o frio) venha tomar conta de nós. Cortam-nos tudo, o conforto, o direito de nos sentirmos, não digo amados (seria muito), mas, de algum modo, utilizáveis: sempre temos umas pitadas de sabedoria caseira a propiciar aos mais estouvados e impulsivos da nova casta que nos assola. Mas não. Pessoas, como eu, estiveram, até depois dos 65 anos, sem gastar um tostão ao Estado, com a sua saúde ou com a falta dela. Sempre, no entanto, descontando uma fatia pesada do seu salário, para uma ADSE, que talvez nos fosse útil, num período de necessidade, que se foi desejando longínquo. Chegado, já sobre o tarde, o momento de alguma necessidade, tudo nos é retirado, sem uma atenção, pequena que fosse, ao contrato anteriormente firmado. É quando mais necessitamos, para lutar contra a doença, contra a dor e contra o isolamento gradativamente crescente, que nos constituímos em alvo favorito do tiroteio fiscal: subsídios (que não passavam de uma forma de disfarçar a incompetência salarial), comparticipações nos custos da saúde, actualizações salariais – tudo pela borda fora. Incluindo, também, esse papel embaraçoso que é a Constituição, particularmente odiada por estes novos fundibulários. O que é preciso é salvar os ricos, os bancos, que andaram a brincar à Dona Branca com o nosso dinheiro e as empresas de tubarões, que enriquecem sem arriscar um cabelo, em simbiose sinistra com um Estado que dá o que não é dele e paga o que diz não ter, para que eles enriqueçam mais, passando a fruir o que também não é deles, porque até é nosso. 

Já alguém, aludindo à mesma falta de sensibilidade de que V. Exa. dá provas, em relação à velhice e aos seus poderes decrescentes e mal apoiados, sugeriu, com humor ferino, que se atirassem os velhos e os reformados para asilos desguarnecidos , situados, de preferência, em andares altos de prédios muito altos: de um 14º andar, explicava, a desolação que se comtempla até passa por paisagem. V. Exa. e os do seu governo exibem uma sensibilidade muito, mas mesmo muito, neste gosto. V. Exas. transformam a velhice num crime punível pela medida grande. As políticas radicais de V. Exa, e do seu robôtico Ministro das Finanças - sim, porque a Troika informou que as políticas são vossas e não deles... – têm levado a isto: a uma total anestesia das antenas sociais ou simplesmente humanas, que caracterizam aqueles grandes políticos e estadistas que a História não confina a míseras notas de pé de página. 

Falei da velhice porque é o pelouro que, de momento, tenho mais à mão. Mas o sofrimento devastador, que o fundamentalismo ideológico de V. Exa. está desencadear pelo país fora, afecta muito mais do que a fatia dos velhos e reformados. Jovens sem emprego e sem futuro à vista, homens e mulheres de todas as idades e de todos os caminhos da vida – tudo é queimado no altar ideológico onde arde a chama de um dogma cego à fria realidade dos factos e dos resultados. Dizia Joan Ruddock não acreditar que radicalismo e bom senso fossem incompatíveis. V. Exa. e o seu governo provam que o são: não há forma de conviverem pacificamente. Nisto, estou muito de acordo com a sensatez do antigo ministro conservador inglês, Francis Pym, que teve a ousadia de avisar a Primeira Ministra Margaret Thatcher (uma expoente do extremismo neoliberal), nestes termos: “Extremismo e conservantismo são termos contraditórios”. Pym pagou, é claro, a factura: se a memória me não engana, foi o primeiro membro do primeiro governo de Thatcher a ser despedido, sem apelo nem agravo. A “conservadora” Margaret Thatcher – como o “conservador” Passos Coelho – quis misturar água com azeite, isto é, conservantismo e extremismo. Claro que não dá. 

Alguém observava que os americanos ficavam muito admirados quando se sabiam odiados. É possível que, no governo e no partido a que V. Exa. preside, a maior parte dos seus constituintes não se aperceba bem (ou, apercebendo-se, não compreenda), de que lavra, no país, um grande incêndio de ressentimento e ódio. Darei a V. Exa. – e com isto termino – uma pista para um bom entendimento do que se está a passar. Atribuíram-se ao Papa Gregório VII estas palavras: ”Eu amei a justiça e odiei a iniquidade: por isso, morro no exílio.” Uma grande parte da população portuguesa, hoje, sente-se exilada no seu próprio país, pelo delito de pedir mais justiça e mais equidade. Tanto uma como outra se fazem, cada dia, mais invisíveis. Há nisto, é claro, um perigo. 

De V. Exa., atentamente, 
Eugénio Lisboa 

Ex-Director da Total, em Moçambique 
Ex-Director da SONAP MOC 
Ex-Administrador da SONAPMOC e da SONAREP 
Ex-Conselheiro Cultural da Embaixada de Portugal em Londres 
Prof. Catedrático Especial de Estudos Portugueses (Univ. Nottingham) 
Ex-Presidente da Comissão Nacional da UNESCO 
Prof. Catedrático Visitante da Univ. de Aveiro 
Doutor Honoris Causa pela Univ. de Nottingham 
Doutor Honoris Causa pela Universidade de Aveiro 
Medalha de Mérito Cultural (Câmara de Cascais)
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Outubro de 2012

SEGUNDA CARTA AO PRIMEIRO MINISTRO DE PORTUGAL


Senhor Primeiro Ministro 

Não há muitos dias, dirigi a V. Exa. uma carta que, como cidadão, entendi dever enviar-lhe. Era uma carta séria - e para ser levada a sério - , profundamente meditada e que visava dar a V. Exa. uma ideia do sofrimento que grassa no nosso país, motivado por uma política financeira fundamentalista e insensata, que tem promovido um sofrimento estéril e, portanto, beirando o criminoso. 

O problema, com este governo a que V. Exa. preside, é ser constituído por políticos amadores e vastamente incultos: faltando-lhes cultura (histórica e não só), tendem a não ter perspectivas e a não mergulhar nas experiências milenares que a História regista para com ela aprendermos. 

O Sr. Ministro das Finanças, por exemplo, invoca, com ar professoral e quase menosprezante, modelos “científicos” que, de “científico, nada têm. Um dos ingredientes fundamentais do universo científico é o princípio da verificabilidade: quando uma hipótese de trabalho não é verificada pelos arreliadores factos, deve ser abandonada, procurando-se outra melhor. É aquilo a que Popper chama a “falsificação” da hipótese que já não serve, para maior proveito da que vem a seguir... O Sr. Ministro das Finanças tem visto todas as suas hipóteses - que, aliás se resumem a uma: cortar nos rendimentos dos pobres e da classe dita média – desbaratadas pelos resultados da aplicação delas. Mas, essas hipóteses, a que chama “modelos”, persiste em aplicá-las em doses reforçadas. Fazendo este curioso raciocínio: aquilo que é calamitoso, em doses modestas, é virtuoso, em doses reforçadas. A ciência, é claro, tem horror a estes comportamentos. A economia já é uma ciência relativa (“comportamental”, lembra, e muito bem, o sensato e competente Dr. Bagão Félix), mas, nas mãos dogmáticas do Sr. Ministro das Finanças, ela não passa de um dogma religioso, com pés de barro e consequências sinistras. 

Falei nos ensinamentos da História. Se V. Exa., em vez de confiar nas crenças religiosas do Sr. Ministro das Finanças, se desse ao trabalho de ir ler a intervenção do deputado Victor Hugo, em 10 de Novembro de 1848, veria que, já nesse tempo remoto, falando de cortes selvagens que se propunham fazer para o orçamento do ano seguinte, o grande poeta e realista que era Victor Hugo dizia o seguinte, que traduzo, para benefício de V. Exa.: “Ninguém mais do que eu, caros senhores, está penetrado da necessidade urgente de aligeirar o orçamento; simplesmente, na minha opinião, o remédio para o embaraço das nossas finanças não reside em certas economias mesquinhas e detestáveis; o remédio estaria, quanto a mim, mais alto e algures; estaria numa política inteligente e tranquilizadora, que desse confiança à França, que fizesse renascer a ordem, o trabalho e o crédito, e que permitisse diminuir, suprimir mesmo as enormes despesas sociais que resultam dos embaraços da situação.” Repare, Sr. Primeiro Ministro: o remédio estaria “mais alto e algures” (para nós, naquilo – Parcerias Público-Privadas, especulações na Bolsa, transferências para fora e paraísos fiscais, empresas e institutos que alimentam clientelas, etc. etc. – em que V. Exa. se recusa a mexer, castigando, de preferência, a classe média, para proteger desavergonhadamente uma falsa elite de falsos empresários). E repare ainda: “uma política inteligente e tranquilizadora”. Porque se trata mesmo de tranquilizar um povo levado ao desespero e à beira dos mais indesejáveis desacatos. As revoluções surgem nestes momentos e sabe V. Exa. porquê? Leia o nosso Eça, tantas vezes de bom conselho. Diz ele: “As desgraças das revoluções são dolorosas fatalidades, as desgraças dos maus governos são dolorosas infâmias.” É quando as pessoas já não toleram a extensão das “dolorosas infâmias” que se não importam de experimentar o risco das “dolorosas fatalidades” das revoluções”. E não se apresse V. Exa. a sugerir que estou a ameaçá-lo (nem para isso tenho poder e, ainda menos jeito e desejo): estou só a preveni-lo. Não estique demasiado a corda. 

O Sr. Ministro das Finanças, para lhe ser franco, parece-me um ser astral e completamente alienado das realidades sociais do País. Será um técnico, embora se me afigure fraco em cálculo e previsão. Mas, a V. Exa., que não é técnico de coisa nenhuma, cumpre-lhe, ao menos, compensar um pouco, com alguma sensibilidade política e social (digamos, simplesmente: humana), a total e inquietante insensibilidade do chanceler das Finanças. Pode ser (quem sabe?) que ainda vá a tempo. 

Com os melhores cumprimentos,
Eugénio Lisboa

22/11/12

pauladas, mentes-captas e vídeos

de Escher

8 dias passaram sobre a última greve geral, mas os confrontos da tarde de 14 de Novembro têm ainda repercussões:

ontem à noite, 21/11/2012
notícia do Público:

Nuno Santos demite-se de director de informação da RTP 

Director de Informação deixa cargo depois de a PSP ter pedido imagens da carga policial na noite da última greve.- notícia aqui


Nuno Santos 'forneceu' ou não, 'desrespeitou' as hierarquias ou não, pouco interessa. Primeiro, demitiu-se, que é acto quase inédito nos tempos que vivemos: não levou indemnização (que se saiba), abdicou de um ordenado chorudo, optou pela sua dignidade - atitude ainda mais inédita, se bem virmos.
Segundo: a PSP foi até às instalações da RTP pedir "imagens da sua carga policial". A que título e com que direito, pergunto-me? (E bem podem alguns escrever que é 'procedimento normal', não é isso que lhe confere legitimidade! A PIDE agia de igual forma.)
Que pretende a PSP com as imagens? Retratar-se da violência gratuita e indiscriminada que exerceu sobre manifestantes pacíficos (transeuntes até seriam, alguns..), gente na sua maioria indefesa e que apenas tentava enfiar-se num qualquer beco, escapar às pauladas, à fúria de uns quantos bullies de farda? Pretenderá a PSP, analisando as imagens ( e como elas me fizeram lembrar as investidas da polícia de choque dos tempos da ditadura!), punir agentes seus por abuso inequívoco de poder?  Pois, ninguém acredita nestas ingenui-ventualidades.

O governo, o PR, os deputados, têm medo. Têm cada vez mais medo. Por isso dão benesses à polícia, aos juízes e MPs, quiçá aos jornalistas e às direcções de informação, a quem quer que possa promover-lhes a falsimagem, protegê-los deste povo espezinhado enfurecendo-se. No projecto do OE 2013 esqueceram-se foi de 'conquistar' as forças armadas! Estranho  ..
Estranho também terem ainda, incompreensivelmente, um bando de fieis devotos, pés-descalços ou não, pressurosos lambedores das botas do dono, mais papistas eles que o próprio. 
Penso: por que razão a PSP se 'arma em vítima' durante 2 horas, para depois se transfigurar em algoz implacável contra pessoas que - óbvio porque o vimos nas imagens - não lhe faziam qualquer mossa? Mistérios..
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Sobre a carga policial ocorrida no dia da greve geral ( e os vídeos abundam pela net..), recordemos:
  • Passos Coelho e Cavaco Silva elogiam " a actuação da polícia" junto ao Parlamento e o líder parlamentar do PSD considera-a "impecável" ..
  • o ministro da Administração Interna, Miguel Macedo, diz que "os confrontos registados ficaram a dever-se ao comportamento de meia dúzia de profissionais da desordem" e deixa "uma palavra de saudação às forças de segurança pelo profissionalismo e seriedade que revelaram quando se tornou inevitável intervir" ...
  • o comentador Marcelo Rebelo de Sousa debita na TVI que "a carga policial teve o apoio da «opinião pública» e a intervenção policial «correu bem»  " 
  • a própria PSP garante que a 'intervenção' foi "necessária e proporcional" .. 
  • os "bispos portugueses" condenam a violência das pedras, mas não a dos agentes da PSP ..
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-as imagens falam por si, e a opinião realmente pública - via participantes do Opinião Pública na SIC notícias - acusa:

«manobra mediática de criminalização dos manifestantes e dos movimentos sociais»

  


"Estamos entregues à bicharada", como diz a Clara F. Alves.

--- recebidos via e-mail, dois testemunhos  :

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Relato vivido de uma vítima da bestialidade policial: 

Durante a minha participação pacífica na manifestação da Greve Geral frente à Assembleia da República a polícia dispersou os manifestantes com foguetes, bastões e balas de borracha. Eu, como milhares de pessoas, corremos pelas ruas do Largo de São Bento para evitar bastonadas. Não querendo confusão, eu e os meus amigos seguimos pela 24 de Julho, no sentido do Cais do Sodré a caminho de casa. 

Fomos surpreendidos por um grupo de polícias fardados a correr atrás de nós e, pela frente, homens não fardados mas armados ordenaram que nos deitássemos. Deitei-me de barriga para baixo e gritei “por favor não me faça mal” duas ou três vezes. A resposta do homem não fardado foi clara – uma bastonada na nádega direita e outra nas costas com marca bem visível. 
Fui algemado enquanto me gritavam que não me mexesse. Entretanto trocaram as algemas por braçadeiras, bem mais desconfortáveis. 
Fui revistado (não possuindo nada de ilegal ou ilícito). Um agente da PSP rebentou as abas da minha mochila para ma tirar das costas através das braçadeiras que me prendiam os braços. 
Fui empurrado para uma carrinha da PSP com 6 lugares, onde me fizeram sentar na parte de cima da roda, nas traseiras. Fomos transportadas 9 pessoas na carrinha de 6 lugares. 
Chegado ao Tribunal fui revistado mais duas vezes e, descalço, fui colocado numa cela com mais 4 pessoas, um deles com ferimentos na cabeça e costas, com sangue a cair na cela. Outro, um menor, de 15 anos, foi libertado com aflição pelos agentes ao aperceberem-se da detenção ilegal do menor. Eu pedi várias vezes para fazer o telefonema a que tenho direito. Responderam-me que “aqui não há telefones”. Insisti com diferentes agentes que sempre me recusaram esse direito. 

Nenhum dos agentes que me detiveram e revistaram estavam identificados, tendo retirado a placa com o seu nome. Nenhum dos agentes no tribunal estava identificado. 

Horas depois fui chamado a uma sala onde fui coagido a assinar um Auto de Identificação com os meus dados mas em branco no “local, hora e motivo da detenção”. Questionei o agente que me disse ser um procedimento normal, que depois eles preencheriam o resto “para bater certo com os outros detidos”. Insisti não me sentir à vontade para assinar um papel que será preenchido depois. O Agente colocou, então, o local de detenção mas recusou-se a pôr a hora e motivo. Foi-me dado a entender que bastaria assinar para ser libertado. Coagido, assinei. 

Levaram-me para a rua, para a porta do tribunal, onde, já libertado, confirmei que não tinha direito ao telefonema. 

A minha advogada foi impedida de entrar enquanto lá estive, foi impedida de ver os papéis que assinei. Chegado cá fora pedi aos agentes de serviço que me facultassem uma cópia do Auto que assinei, ou que o mostrassem à minha representante. Esse acesso foi negado com o argumento de que “já não estava detido”. 

Saí sem nenhuma acusação ou explicação para o sucedido. 

Conclusão: Estou no Cais do Sodré a caminho de casa (ali perto) quando homens não fardados me agridem, me algemam e detêm durante horas, sendo libertado cerca das 00h em Monsanto, sem forma de voltar a casa ou ao local de detenção. Não me foi feita acusação nem dada qualquer explicação. Foi-me recusado telefonar e também me foi recusado ver a minha advogada, como é direito de qualquer pessoa detida. O meu dia foi transtornado, fui agredido, e nenhuma explicação me foi dada. Foi uma experiência miliciana. 

Fábio Filipe Varela Salgado 
BI 13018976 DN 8/4/1986 
Lisboa, 15 de Novembro de 2012



quadro de Botero

Sobre a carga policial em São Bento 

16/11/2012
Associação Internacional dos Trabalhadores 
- Secção Portuguesa Núcleo de Lisboa

No dia 14 de Novembro, na maior manifestação em dia de greve geral, os chefes da polícia, o ministro da administração interna e outros políticos tentaram justificar a carga policial sobre os manifestantes em São Bento, dizendo que as "forças de segurança" tinham sido muito tolerantes porque durante mais de uma hora “com serenidade e firmeza” levaram com pedras e garrafas atiradas por “meia dúzia de profissionais da provocação”. 

Houve várias pessoas a atirar pedras e outros objectos ao cordão policial que defendia o Parlamento e não só eram bem mais do que meia dúzia, como muitos outros permaneceram por ali bastante tempo, sem arredar pé. 
Também é verdade que houve uma carga violentíssima sobre os manifestantes, homens, mulheres, idosos, crianças, tudo o que se mexia foi varrido, atirado ao chão, ameaçado com gritos e balas de borracha. Houve ainda uma perseguição por várias ruas, onde se prenderam pessoas indiscriminadamente. Dezenas de pessoas foram identificadas sem saberem porquê. Nas esquadras não lhes foi dada a possibilidade de falar com um advogado, ir ao wc ou até de receber assistência médica. 

Sobre a repressão policial temos apenas a dizer o seguinte: violência não é atirar pedras contra o corpo de intervenção, protegido com os seus fatos especiais, capacetes, escudos, cassetetes e armas. Violência não é a revolta de quem trabalha e não tem dinheiro suficiente para viver, de quem nem trabalho tem e desespera à procura, de quem passa fome, dos idosos que vêem as suas pensões reduzidas, de quem não explora ninguém e vive uma vida inteira a ser explorado pelos mesmos de sempre: políticos, banqueiros e empresários. Violência não é atacar a polícia quando esta defende o sistema ao qual pertence: o Estado, esse mesmo Estado que concedeu um aumento salarial de 10% para as forças de intervenção enquanto milhares de pessoas vivem em pobreza e outros para lá caminham. 
Violência não é gritar palavrões contra os agentes policiais quando eles escolheram estar ali, especialmente os do corpo de intervenção. A polícia só existe para manter a ordem pública. E manter a ordem pública não é mais que evitar quaisquer acções que possam perturbar o sono dos ricos e poderosos. 

Para nós violência é passar fome. Violência é 561 postos de trabalho serem destruídos todos os dias e 500 mil pessoas não terem qualquer apoio social. Violência é os 25 mais ricos de Portugal crescerem 17,8% em 2011 face ao ano anterior. Violência é passar toda a vida a trabalhar por um salário, apenas para sobreviver. Violência é ter de cumprir ordens sem nunca podermos ser nós a decidir como queremos viver. Violência são os ataques diários da polícia nos bairros sociais, violência é a detenção de imigrantes que procuram uma vida melhor, violência é prender pessoas por roubar algo para comer, violência é não poderes ir por ali porque está a Merkel a passar, não poderes ir por acolá porque é o parlamento onde se encontram seguros os governantes, não poderes passar porque simplesmente os polícias te gritam que tens de te ir embora se não queres levar um tiro. Violência foi a morte à queima roupa do Kuku na Amadora, os ataques da polícia contra os piquetes de greve, as balas de borracha numa manifestação no 1º de Maio em Setúbal, a carga brutal ontem em São Bento como em tantas outras situações.
Que se desiludam aqueles que pensam que são as “pedradas” que causam alguma coisa, a violência policial em manifestações é uma constante, sobretudo se não houver televisões por perto a filmar. 

A violência policial é a violência ordenada pelo sistema em que vivemos, em que uns têm tudo e outros sofrem na miséria. É a violência do Estado e do Capital. É a violência que irá crescer aqui em Portugal e em todos os lugares onde os governantes e os ricos tenham medo da revolta dos pobres. 
Mas eles que não se esqueçam que não nos podem matar a todos. Não nos podem prender a todos. Haverá sempre quem resista. Quem volte. Com pedras ou sem pedras, haverá sempre quem lute contra os polícias armados, pois onde houver luta pela justiça e igualdade, haverá sempre cães de guarda a defender o dono. 

Levamos um mundo novo nos nossos corações, e os golpes que nos desferem só nos fazem acreditar mais na justeza dos ideais e das formas de luta que defendemos. Contra a repressão, solidariedade! Contra a exploração, acção directa! Unidos e auto-organizados, nós damos-lhes a crise!


17/09/12

eu queria ser Anonymous!


porque 'eles' dizem/fazem coisas importantes, e certas, e justas
que eu gostava de saber e ter a coragem de fazer também..
oiça/leiam .. meditem ..
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  • «Ser 'Anonymous' não faz de si um "hacker", nem significa que você seja um criminoso.
  • Ser 'Anonymous' significa, simplesmente, que se partilham e valorizam os princípios da liberdade, a sua defesa e a sua busca.
  • Somos pessoas comuns, preocupadas com o estado deste mundo. Ansiamos pela mudança, uma mudança que, por uma vez, sirva o interesse dos povos deste mundo.»
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04/06/12

direitos e futebol

recebido via e-mail, tel-quel: 

SUBSÍDIOS FÉRIAS E NATAL 2012 - Dec.Lei não foi revogado!
Dec. Lei n.º496/80 de 20 Outubro

Os nossos governantes e a Troika desconhecem isto!!!!  Não tiveram tempo para consultar este decreto-lei uma vez que data de 1980.....
Como pode o Governo Central retirar os subsídios de férias e de Natal se o Decreto Lei nº. 496/80,o qual não foi revogado, no seu artº.17, diz que os mesmos são inalienáveis e impenhoráveis?
É um direito inscrito na constituição que nos estão a tirar! 
Faz a tua parte e divulga o máximo que te for possível. 
Estes senhores com estas medidas andam a apalpar a nossa reacção. Já vimos que são fracos com os fortes e fortes com os fracos, e se sentirem que os fracos são mesmo fracos, então meus amigos, estamos feitos e depois não se queixem!
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Ora muito bem, eu divulgo. Eu repasso. Eu não acredito que alguém vá reagir. Eu, a bem dizer, já não acredito em nada, nenhum atropelo à lei, à Constituição, me surpreende. Desde os tempos do Sócrates-dito-engenheiro e sobretudo da megera Lurdes Rodrigues que tenho visto direitos adquiridos e inalienáveis serem paulatinamente espezinhados sem a sombra de um remorso ou um assomo de vergonha; sem manifestações de repúdio acima dos mínimos-para-apaziguar-consciência-só, ao fim e ao cabo inócuas, como parece ser o fado de um povo que reage nas franjas e por curtos impulsos, dir-se-ia eléctricos. Acaba-se a corrente e vamos todos ao que interessa: o futebol, senhores! Abro os jornais, faço zapping na TV, para qualquer lado que olhe sou agredida pelo novel mote nacional, "Corre, Portugal": a bendita da selecção, a prioridade das prioridades, a solução para a crise, a razão de ser do bom povo português!
Disseram-me que a selecção deste país é  a mais bem instalada em hotéis de super-luxo, a que mais dinheiro gasta, a mais perdulária. Não verifiquei a  informação, como não apurei da veracidade do tal decreto-lei de 1980, se foi ou não revogado. A possibilidade de me espantar com as coisas da política, a sociedade, está na razão directa da esperança que desconsigo acalentar, relativamente ao que quer que seja.

Acho todos os políticos uns farsantes (não o fossem, e perante esta ignomínia instalada, consentida, auto-legislada, já se teriam demitido ..). Para mim, o Estado que temos há muito deixou de ser pessoa de bem, as instituições, todas elas, só existem para nos tramar. O que queria, eu, era dispensar ad-eternum o governo como o fizeram os belgas, reduzir tudo a escombros e refazer do nada assim ao jeito dos islandeses. Pudesse eu, e obrigava os senhores deputado-legisladores, os senhores ministro-desavergonhado-ignorantes, os senhores presidente-aproveitadores mais os senhores banqueiro-usurários a provar das suas envenenadas receitas. Todos os dias me crescem ímpetos terroristas que insublimo em depressão, impotente.

Ah, mas não o grosso dos meus compatriotas! Os meus sempatriotas exultam com as promoções-pingo-doce em Dia do Trabalhador, os concursos da treta, a xaropada das novelas e dos reality-shows, o engodo do euro-milhões. Os meus sempatriotas, agora, respiram por balões de oxigénio: os festivais de verão, o mundial. Oh, sim, o mundial!!! Novos e velhos, desempregados e explorados, espoliados uns e outros de direitos, dignidade, futuro, os portugueses farão, por uns tempos, uma tábua muito rasa de toda a miséria última. Assim como um interregno na crise ou na vida mal-vivida. E da pressuposta penúria brotarão espectadores para os rock-in-rios, os super-bock-rocks, os estádios de futebol, contados em milhares, preços exorbitantes.
Esquecidos da crise, os portugueses que o são vestirão orgulhosos o vermelho e verde da sua bandeira, a tribo ululante do totem futebol, a crença que se apressarão a ostentar nas janelas nos carros nas ruas em arrobos de ultra-nacionalismo. E todos unidos neste opiácio fervor cantarão laudas à selecção que é a deles, gloriosa sempre, ainda que perca. Não interessa. Enquanto durar o circo, os milionários jogadores darão sentido às tristes vidas dos portugueses. Os ronaldos ronaldinhos e ronaldões são eles, o zé, o povo-povão. Falidos, mas ricos de devoção. Frenéticos de adrenalina e orgulho nacional-vá-se-lá-saber-porquê hão-de vitoriar os seus guerreiros de chuteiras, esses que hão-de exorcizar a bruxamerkl, a troikamalvada, o coelho dos passos bêbados e da equipa da treta, o bem-instalado silva, o secreta e o interpretativo relvas, as trapaças, os bpns e as lavagens suíças, os sorvedouros todos.
E viva o  futebol! O futebol  é  o nobre povo lusitano, nação valente, heróis do relvado, agora sim. Ele é a alma deles lavada de tristezas, a crise longe por uns tempos. 
Pois então corre, Portugal. É assim que vais longe, vermelho e verde, anestesiado como convém, e amarelo.
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08/05/12

quando o cinzento é a cor da moda, o arco-íris é um insulto


Ponho agora aqui o vídeo do programa, porque é ainda preciso, 7 dias depois. Porque é, será sempre, urgente ouvir estas pessoas, todos tão em uníssono de bom-senso, análises claras, óbvias: o Frei Ventura acima de toda a poesia, mas também o Carvalho da Silva, o Elísio Estanque... E como perpassam aqui as almas-gémeas de José Saramago, de Santana Castilho .. em espírito da letra e na comunhão de ideias, frades capuchinhos poderiam ser, como este que nos fala. Nobres pregadores no deserto, todos eles, e só os peixes, que não a maioria dos homens, absorvendo-lhes a lógica e a sabedoria, a imensa lucidez, a intrínseca qualidade humanista. 
Gostaria de transcrever-lhes o discurso, a todos: tão certeiro o de Carvalho da Silva! Fica a suprema intervenção de Frei Ventura, que alguém felizmente transcreveu. E penso em como tudo seria diferente se tivéssemos Pessoas assim gerindo-nos os destinos, globalmente pensando-nos Gente. Pergunto-me por que são sempre os mais medíocres, os mais parvus-pobres-de-espírito a terem a legalidade de infernizar-nos a vida, bandidos e burros e bandalhos tantos deles, num qualquer mundo de lógico bom-senso escorraçados vendilhões do templo. Fieis adoradores do des-deus capital, coveiros do futuro e da esperança, matadores de tudo, o que nos está des-destinado.

Contra eles "ouvide agora senhores" (nau catrineta) , e 'esguardai'! E aprendei com estes que aqui vos falam, e deles divulgai a mensagem, e gritai-a aos quatro ventos, e semeai a palavra, sobretudo semeai a esperança, com fartura. Talvez um dia mereçamos colhê-la.

«Ora esguardai, como se fôsseis presentes, uma tal cidade assim desconfortada e sem nenhuma certa fiúza de seu livramento, como viveriam em desvairados cuidados, quem sofria ondas de tais aflições?»(F. Lopes)
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1º de maio em análise em Contracorrente - SIC notícias

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Convidados: Frei Fernando Ventura, o ex-líder da CGTP e investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, Manuel Carvalho da Silva, o comentador da SIC e presidente do ISEG, João Duque e o sociólogo Elísio Estanque.

síntese da intervenção de Frei Fernando Ventura
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« Este é, acima de tudo, o tempo de falar de esperança. E não é uma esperança pendurada em ninguém, em messias nenhum, nem político nem religioso. Não é tempo de pendurar as esperanças, nem nos senhores do tempo, nem nos senhores do templo. Estamos a viver um tempo que é um ponto de chegada, um momento de antítese das sínteses, dos ismos que não funcionaram. Estamos à espera de chegar à síntese final. E é essa síntese que está a doer e está a doer a dores de parto. Somos o ponto de chegada da falência de tempos de ismos .. E eu tenho muito medo dos ismos todos, até do cristianismo. Tenho muito medo de tudo aquilo que são ismos levados por gente que não percebe que a sua missão é ser gente com gente para que cada vez mais gente seja gente e nunca ninguém deixe de ser pessoa. E aqui estamos todos necessitados também de elevar um pouco mais o discurso, de elevar um pouco mais a crispação. É o tempo da serenidade consciente, que terá que levar fatalmente a esta passagem à cidadania praticante. Estamos no tempo em que andam aí algumas vozes alarmadas com a falta dos católicos praticantes. Não tenho medo nenhum dos católicos não-praticantes, tenho muito medo dos cidadãos não-praticantes. E este é o tempo disso, é o tempo de, transversalmente, quer a tutela, quer todas as organizações (sobretudo as que têm um mínimo de possibilidade no terreno), é o tempo de mobilizar a esperança e de mobilizar aquilo que é a urgência urgente deste tempo. E é a possibilidade de acertarmos o tiro ..
Nestes dias lembrava-me de um cachorro de um vizinho meu: um cachorro simpático, mas um bocado estúpido que, quando tinha fome, ladrava ao comedouro. Aquele bicho não percebeu que quem não lhe dava de comer não era o comedouro, que precisava de ter ladrado mais para cima .. Também não sabia, se calhar, que o cachorro que estava na casa do lado também ladrava para a lata, não sabia que ele existia, porque ninguém lhe tinha pegado ao colo para lhe mostrar que o vizinho do lado também estava a precisar de encontrar sinais de esperança e estava a precisar de aprender contra quem é que tinha que lutar.
Neste momento creio que precisamos todos de perceber que não são os nossos governos que nos governam. Estamos quase com esta fatalidade edipiana de termos de bater no pai ou termos de matar o pai, mas estamos numa casa em que o pai é pobre, ainda por cima está cheio de dívidas. Por ali não virá a salvação. Temos, ainda por cima, uma paternidade alargada que nem sempre está de acordo e tantas vezes temos em poucos minutos um dos pais a desdizer o que outro disse e vice-versa .. Estou a falar das nossas fronteiras e da Europa ..
Quando fui viver para Itália eu dizia que lá só existiam - só existem, infelizmente - dois poderes organizados: a maçonaria desviada e a máfia . E eu dizia que Portugal não era assim. Neste momento já não tenho a certeza. As dores que eu sinto do lado italiano são muito parecidas com as dores que sinto do nosso lado...
(...)

Quando vi as imagens do Pingo Doce, fiquei triste e alarmado. Vi isto na Venezuela, com o Chavez, exactamente o mesmo tipo de reacção. Fiquei com esta imagem como um ícone, ou como um contra ícone, uma mensagem de sinal contrário daquilo que é uma das urgências a descobrir hoje. Desde logo, querem-nos convencer que economia e finanças é a mesma coisa – e não é. As finanças serão uma pequena parte daquilo que é a economia, a gestão da casa, que tem de ser uma casa comum. Estamos confrontados com um discurso de inevitabilidades – que não existem! Nós, enquanto seres humanos, independentemente das nossas sensibilidades políticas ou religiosas ou seja o que for, nós enquanto seres, existimos entre dois abismos de solidão: nascemos sozinhos e morremos sozinhos, ninguém nasce por nós e ninguém morre por nós. O desafio e o bloqueio que neste momento nos mata… porque a crise não é económica, a crise é relacional acima de tudo. A crise tem a ver com isto: quem és tu para mim? Nestes dois limites de solidões, aquilo que se nos pede enquanto seres humanos é sermos capazes de criar redes de solidariedade. Desculpem lá puxar a brasa para a minha sardinha franciscana: nós vivemos um mito urbano quando, para se falar dos franciscanos, se continua a falar da pobreza franciscana, como se Francisco de Assis fosse tolinho da cabeça e como se alguém no seu perfeito juízo fosse capaz de optar por um não-valor. O que Francisco traz à História é uma opção pela fraternidade, o que é outra coisa – e tem consequências. Tem consequências na relação com o outro, tem consequências naquilo que tem que ser – e isto é que nos vai doer muito – o milagre que pode levar à saída da crise.
Não quero proclamar que tenho a chave para a saída da crise, mas tenho pelo menos uma pista de reflexão. Ou pelo menos uma ideia que gostava de partilhar como ideia.. uma coisa que me arrelia muito: nos últimos tempos, temos uma sociedade marcada por uma partidarite aguda, tribalizada. E a partidarite é uma inflamação da democracia. Vivemos esta falta de ideias e tantas vezes damos conta que em vez de termos uma linha de pensamento, só temos uns gatafunhos ideológicos que nos matam e que nos prendem, que não nos deixam depois chegar a esta que pode ser uma primeira pista de reflexão para nos entendermos e para nos situarmos. Porque quando o cinzento é a cor da moda, o arco-íris é um insulto. E nós estamos cinzentos, demasiado cinzentos.

Deixem-me deixar esta ideia bíblica: nós, em alguns arroubos mais ou menos místico-gasosos, ficamos muito alarmados e muito agitados interiormente com a multiplicação dos pães e dos peixes. Se nós percebêssemos o que está ali, se nós percebêssemos o desafio de construção social e de acusação contra o egoísmo cego do capitalismo que mata a História, ou dos ismos todos, quaisquer que eles sejam, quando a Pessoa não está no centro e que matam a História, sejam totalitarismos de direita ou totalitarismos de esquerda (mantendo-nos ainda nesta linguagem primitiva de separações destes géneros). O que aconteceu naquele momento? A cena é descrita como uma cena de final da tarde, imensa gente, tudo cheio de fome, é preciso dar de comer a esta gente. A resposta de Jesus à situação: “dai-lhes vós de comer” - e o pânico! Como é que vamos arranjar de comer para esta gente toda? Quem teve a solução ali naquele momento? É um catraio, é alguém que não tem nada a perder, só uns pãezitos e uns peixes. Só houve multiplicação porque houve divisão.

A solução tem que passar por aqui: é preciso dividir para multiplicar e é preciso somar sem subtrair nada a ninguém. O segredo está aqui. A chave está aqui. E por aqui pode construir-se a esperança. Por aqui podem-se criar redes de relações, por aqui pode dizer-se às pessoas que a esperança é possível. É preciso organizar esta esperança.

Eu, hoje, vi as cenas do Pingo Doce e vi as cenas das manifestações das duas centrais sindicais. As manifestações têm uma função catártica, porque é preciso gritar e é preciso explodir e é preciso libertar energias. Mas depois do final da manifestação, depois de enrolar a bandeira, o que é que eu faço com aquilo, para onde vai a minha desesperança? Eu que deixei a minha centralidade, e aqui voltamos a Emaus, eu que deixei a minha esperança pendurada na centralidade de uma Jerusalém qualquer, e vou a caminho da minha Emaus do desespero. Hoje não são só dois que vão a caminho de Emaus do desespero, são milhões no mundo inteiro, que perdem o emprego, que deixam de poder satisfazer as necessidades da sua família, onde a esperança desaparece. São às centenas os que morrem como gatos afogados no mediterrâneo a saltar do Norte de África para chegar a Lampedusa, à Sicília, às costas do Sul de Espanha. E este é o subir, pegar no cachorro para ver o muro do outro lado. Quem tem a História nas mãos somos nós. As revoluções nunca se fazem pelas estruturas, as revoluções começam por baixo contra as estruturas. As estruturas são coisas estáticas, têm um medo desgraçado de serem tocadas. Isto é a piscina de água choca, está toda a gente com a água por aqui [pelo pescoço], quando alguém faz onda, todos gritam: não faças ondas! Todas as estruturas sofrem deste mal.

Hoje, depois da manifestação, pensei: para que Emaus vai esta gente? Que esperança é que podemos trazer à História? Será que as centrais sindicais, será que a Igreja, será que as associações do bairro, não têm uma responsabilidade social? Têm! Têm que ter! A nossa resposta e o nosso grito não pode ser só enrolar a bandeira até à próxima manifestação ou até à próxima greve geral. É preciso sermos imaginativos e fazer outra coisa. Deixem-me ser profundamente demagógico agora: nós estamos todos com a corda ao pescoço. De cada vez que metemos gasolina, os nossos carros andam a impostos, 84% do que a gente mete nos depósitos são impostos e aquilo anda. E os preços estão a subir, não porque a matéria prima esteja a subir, mas porque o consumo está a baixar. Isto é maquiavélico, um ciclo vicioso. Temos quatro companhias em Portugal a vender gasolina. O Governo já disse, pela activa e pela passiva, várias vezes, que não tem poder para mexer naquilo. O loby está instalado. Mas nós temos! Nós podemos! Imagine que durante uma semana a CGTP e a UGT dizem: esta semana ninguém compra gasolina nem gasóleo em duas destas marcas. Aqueles senhores, ao fim de uma semana, terão os preços mais baixos. E as outras duas vão ter que baixar também, porque a concorrência vai começar. De cada vez que vou na auto-estrada sinto-me insultado. Porque é que gastaram aqueles milhões a colocar aqueles painéis sobre a informação de preços quando os preços são todos iguais? Isso é brincar!

É preciso galvanizar as pessoas! Ou nos galvanizamos ou nos albanizamos! Não há via do meio. E passa por aqui a responsabilidade de todos.»
Frei Ventura
 texto retirado daqui 
-- ajustado e acrescentado de acordo com o que ouvi no vídeo acima ..
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27/02/12

sociedade doente e responsabilidade parental

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e vai outro, nos States, hoje :
Five students shot at Ohio high school  - A gunman is captured after opening fire in the cafeteria as students were eating (...)
Police have not yet confirmed if the gunman was a student at the school, but junior Heather Ziska told the Associated Press she recognized the shooter as a fellow student.  (ler mais)
.. e ainda:
(...) The two girls and seven onlookers (as duas raparigas e 7 'espectadores') went to an alley off campus after school on Friday, where they had planned to fight, according to Deputy Chief Robert Luna of the Long Beach Police Department. (...)Police are waiting for autopsy results to determine Ramos' cause of death.  -- (ler mais)


Bom ...  estes, pelo menos, não puseram a 'fight' no FB .. Irrelevante. O tiroteio no bar da escola, a luta entre as duas crianças e a posterior morte de uma delas, os colegas que assistem (calculo que impávidos, deliciados) - 'flagrantes' inequívocos de uma sociedade globalmente podre. Doente há demasiado tempo. 
Os sinais estão todos aí para quem os queira identificar, nos States, na Europa, na Ásia. Os professores, nas escolas, constatam-no todos os dias: a ausência de valores ou a sua absoluta desconstrução, tudo des-entendido, arrumado ao contrário nos meandros insondáveis de um cérebro em 'malconstrução': «já pensei engravidá-la, a ver se a câmara nos dá uma casa», diz-me um miúdo de 15 anos - dolorosos, delinquentes.
Fazemos reuniões atrás de reuniões, infrutíferas. Falamos com os alunos, contactamos os pais, convocamo-los à escola. Inútil, tudo. Nem já a expressão do "entra por um ouvido, sai pelo outro". Do lado dos pais, a desassumpção da culpa transformada em acusações. Os professores, claro. Que.. e que.. e que .. Do lado dos alunos (uma grande parte deles) , uma barreira inexpugnável, assim como uma vacina anti-diálogo. Mentem descarada, compulsivamente, não ouvem e muito menos ligam ao que se lhes diz, nas aulas, nos 'gabinetes de apoio'. Delinquentes ou não. Uma 'protective skin' desenhada pelos media, pelo sistema.
Uma ausência de medidas políticas, sociais, eficazes; de estudos absolutamente urgentes e vêm tarde, sociologias à margem da educação; e as pseudo-psicologias que tudo resumem a um diagnóstico facilitista: bipolares agora, todos os que antes eram hiper-activos, antes ainda simplesmente mal-educados, 'corrécios' às vezes. 
A preocupação com o acessório. O 'show off'. A estratégia da avestruz. Escolas que não sabem [nem deveriam ter de] resolver problemas que ultrapassam o seu âmbito.
Uma sociedade desagregada, alheada, cada vez mais desresponsabilizada - ainda que se faça agora representar nas Assembleias Gerais de todas as nossas escolas, agrupamentos. 
Famílias desestruturadas,  e o epíteto serve para explicar, desculpabilizar tudo, justificar inércias, inépcias.
Famílias que não querem nem saber, que acham tudo natural, próprio da idade (alunos de 11.º ano que atiram papelinhos e bocados de borrachas uns aos outros, nas costas do professor..). Mães, pais que acham graça às diatribes dos seus filhos des-educados, irresponsáveis, sem futuro. 
Uma sociedade doente e o limbo em que vivemos. 
Cidadãos que são autómatos obedientes, seres impensantes, irracionais, executam nem sabem bem o quê, para quê. Autómatos que, agora, ainda por cima, têm como único horizonte a sobrevivência física, a comida a pôr na mesa. 
Políticos, gestores, directores, opinadores, a quase toda nacional inteligentia que não sabe nem se interessa por fazer, agir, eles próprios, às vezes, pais e mães de filhos delinquentes. Delinquentes?!! Não, os professores, a escola, é que .. e que .. e que ..
Eu .. reflicto sobre o futuro destes jovens, desta sociedade. Triste, impotente. Cheguei a pensar que não era possível, pior que Sócrates. Foi. Pior que Coelho, mais que possível, previsível.
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O que é que falta, que está errado, que se podia fazer?
Falta responsabilizar as famílias, para começar. As famílias supostamente 'estruturadas'. Mandasse eu, obrigava os pais dos alunos indisciplinados, mal-educados, a sentarem-se na sala de aula ao lado dos seus rebentos - até que houvesse garantias de transformação de comportamentos lesivos. 
De resto, esta é uma prática existente nalgumas escolas (suponho que particulares) dos EU - sei-o através de um projecto e-twinning com uma escola sueca em 'parceria' com outra americana. Como julgo saber - e agora falo de famílias 'desestruturadas' - que na Suécia, por exemplo, há tutores  designados pelo estado para 'gerirem' a vida de quem provou não saber fazê-lo por si próprio. 
Mandasse eu, e não deixava que os alunos pudessem transitar sistematicamente reprovados a 3 disciplinas! Bem pode o senhor Nuno Crato impor exames atrás de exames. Nada mudará enquanto não se 'mexer' no sistema de transição. O que me custa realmente compreender é por que o não fizeram ainda, por que nenhum ministro da educação sequer fala nisso, por que não o exigem as associações de pais (para bem dos filhos de todos, da qualidade da educação que recebem, da disciplina na sala de aula.)
Mandasse eu, faria pagar propinas aos alunos que reprovam por faltas, sobretudo disciplinares. Propinas mais altas a cada reincidência. E, óbvio, acabava com a escolaridade obrigatória-porque-sim. Escolaridade acessível a todos, sim, mas não a qualquer preço. Não para alunos que, ano após ano, impõem o terror a colegas, professores, funcionários. Que desrespeitam tudo e todos. Que fazem da escola o seu campo de batalha particular. Que, como último possível recurso, são expulsos de uma e levam o seu inferno para outra.
O que é que falta, que está errado, que se podia fazer?
Tenho a memória difusa de alguma eficácia por parte de assistentes sociais, aqui em Portugal. Deixei de os ver nas escolas - a eles, aos psicólogos. Médicos escolares que existiam quando era aluna, eu. Dinheiro que se poupa, sem dúvida. Falta pensar (e muito a sério!) no que se gasta a médio, longo prazo..
Já houve em Portugal as chamadas 'escolas de correcção', daí a palavra corrécio. Poderia optar-se por uma solução semelhante, agora, corrigindo os aspectos negativos do passado. É, deixemo-nos de eufemismos, assobios para o lado, discursos do politicamente correcto: há alunos que são delinquentes, ponto. Que destroem equipamento escolar, agridem e ameaçam professores, funcionários, outros alunos. Que levam uns e outros ao suicídio. Que não deviam estar numa escola "normal" - para bem de todos, a começar talvez por eles próprios .. Deixou de estar na ordem do dia falar do bullying nas escolas. Saiu da ribalta, que não das escolas. Sorte que a venda de armas, por cá, não seja tão generalizada como na América. Apenas uma coisa nos separa do horror da notícia acima: a menor acessibilidade.
O que é que falta, que está errado, que se podia fazer?
Havia, nos tempos do fascismo, escolas 'comerciais e industriais' e 'liceus' - uma separação à altura elitista, baseada quase sempre em factores económicos, mas cujo conceito poderia ser recuperado, agora com critérios de "des-apetência". Na Alemanha que presentemente tudo decide fazem-no no fim do equivalente ao 2.º ciclo. Aos 12 anos os alunos são compulsivamente distribuídos pelos vários tipos de escola de acordo com evidências de capacidades, aptidões específicas, apetência pelo estudo.
Nas fichas que preenchem para o director de turma, a imensa maioria dos alunos portugueses escreve que gosta de andar na escola, mas que não gosta de estudar. Apesar disso, mais de 90% escolhe, no 10.º ano, frequentar um curso de formação geral, de prosseguimento de estudos.. que os levarão, eventualmente, à universidade, quando, confessadamente, não gostam de estudar!!
Retomando-se a divisão das escolas por tipos e, sobretudo, dando-se maior crédito (e poder de decisão) ao Conselho de Turma do 9.º ano (professores que, regra geral, conhecem os alunos há 3 anos) - relativamente ao tipo de curso/escola mais adequado para cada caso,
  1. potencializava-se um ensino exigente e de qualidade àqueles que realmente querem aprender - e que, tenho-o constatado ao longo dos meus mais de 30 anos de serviço, não são predominantemente os filhos de 'famílias-bem'
  2. acabava-se com a indisciplina nas escolas - resultante, precisamente, da falta de apetência pelo estudo por parte da maioria dos alunos; do abjecto sistema de transição que os leva a pôr de parte 2 ou 3 disciplinas ab initium; de currículos indiferenciados e basicamente teóricos para todos: os que gostam de estudar e aprender e os que fazem da sala de aula uma extensão do recreio, às vezes uma arena de circo.
  3. garantia-se uma profissão com futuro a boa parte da população com insucesso escolar.  Com um currículo de 'teoria orientada' [e escusam de me vir com acusações de elitismo, a maior parte dos alunos das nossas escolas públicas não liga nada às disciplinas de formação geral (muito menos as estudam!), sejam elas o português, a língua estrangeira, matemática, filosofia...] e muitas disciplinas práticas voltaríamos a preparar bons electricistas carpinteiros canalizadores mecânicos costureiras sapateiros soldadores - agora tão escassos como incompetentes e desleixados, desconhecedores do seu ofício, pagos a peso de ouro, quase sempre isentos de impostos
  4. dava-se emprego a 'mestres' e artesãos, perpetuando um saber de experiência feito que, pelo andar da carruagem, morrerá quando morrerem eles. Que nos levou, já, a deitar fora tudo o que se avaria por inexistência de quem o conserte ou pelo custo exorbitante da reparação; que nos obrigará a importar cada vez mais aquilo que poderíamos ser nós a produzir, e com qualidade
É ..  O estigma das profissões ditas 'menores'. Os pais que querem os filhos 'doutores' à viva força, mas que não lhes lêem um livro, não os levam a um museu, um teatro, uma exposição.
Pais que não lhes incutem hábitos de trabalho, muito menos valores como a auto-responsabilização.
Que os querem bem longe de modo a garantirem os seus embrutecedores-programas-de-TV-sem-interrupções.
Pais que lhes oferecem iphones e ipods e toda a espécie de 'brinquedos' - não um livro! - para que os deixem a eles em paz, miúdos fechados no quarto, horas e horas de jogos de computador, facebook e sabem lá eles mais o quê.
Pais que autorizam os seus jovens filhos a sair à noite, 13, 14 anos de beber até cair, desacatos tolerados, noitadas permitidas, fins-de-semana de voltar para casa às 4, 7 da manhã, toma lá mais um brinquedinho, uns ténis da moda, filho, filha ..
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imagens: Hieronymus Bosch
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