--- de como os lobos alteram a geografia positivamente:
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«Estamos entregues a um bando de loucos»
«Funcionários públicos e reformados são as grandes vítimas da "visão primária" de Passos Coelho, que empurrou a classe média para o limiar da pobreza.»
a análise profunda e consistente sobre as coisas da educação e da política, a crítica contundente e desassombrada de um Humanista que tem como referência e horizonte os valores mais essenciais à nossa cidadania, os direitos mais inalienáveis e as mais caras conquistas de Abril.
«Realizou-se dia 22 de fevereiro, sábado, no auditório da Escola Secundária de S. Maria, em Sintra, com assinalável êxito e um número significativo de participantes, noventa) a conferência: “ As mudanças em educação e a profissionalidade docente”, a cargo do Professor Santana Castilho.
Na sua excelente comunicação, à qual se seguiu um período de perguntas e respostas, o professor passou a limpo algumas das medidas que, em seu entender, têm sido mais nocivas para a escola Pública e têm afectado tragicamente a condição e o desempenho docente.
Falou dos temas que estão na ordem do dia, tais como: “liberdade de escolha; cheque ensino; Escola Pública versus Escola Privada; autonomia das escolas, natureza da crise; finalidade da escola; lutas e condições docentes; sindicatos; ordem; Parque Escolar; avaliação; da necessidade de os professores assumirem o seu poder, a sua cidadania; histórias de vida e muitos, muitos outros temas de atual e futura importância. Aqui fica o vídeo de um evento, necessariamente, de qualidade com um excelente conferencista que, de forma despojada e sincera, partilhou com os presentes as suas ideias, angústias e “utopias” do que pode e deve ser a Escola Pública.»-- fonte
1. Poiares Maduro foi recentemente ouvido na Comissão Parlamentar de Ambiente, Ordenamento do Território e Poder Local. Entre outras coisas, falou de educação como se, digo eu, não existisse ministro dessa pasta. E que disse? Que pretende que, no próximo ano lectivo, dez municípios piloto sejam responsáveis pela gestão da educação. Não clarificou, ele que invocou a transparência, o que é isso de “gestão da educação” que, assim deixada na nebulosidade, pode ser tudo e nada. Mas foi assertivo quando afirmou que iria descentralizar. Ora descentralizar, verbo transitivo que significa afastar do centro, distribuir pelas localidades ou corporações locais, pode nada resolver e tudo piorar. A gestão da educação nacional não precisa que substituamos o monolitismo do ministério por outros tantos monolitismos, um em cada câmara. Há coisas que devem continuar concentradas (concursos de professores, por exemplo, onde o experimentalismo descentralizador dos últimos anos gerou aberrações inomináveis) e outras que, ao invés de serem desconcentradas por câmaras, devem, outrossim, ser disseminadas pelas escolas e pelos professores (a gestão pedagógica, por exemplo). Ao ministro Maduro (e ao da Educação, se existisse) conviria reler a história da I República (a descentralização/municipalização da educação foi definida pela primeira vez em decreto de 29 de Março de 1911) para perceber que não é de descentralização municipalista mas de autonomia que as escolas e os professores necessitam.2. A duração dos mestrados em Educação exigidos aos futuros professores, nas suas diferentes modalidades, foi aumentada por decisão do Conselho de Ministros, com a justificação de assim se ir melhorar a qualidade da docência. Deixo de lado a discutível questão de estabelecer uma relação causa/efeito entre a duração dos cursos e a qualidade da docência, desde que a formação de partida seja adequada e suficiente. Deixo de lado o abalroamento que o Governo acaba de fazer à autonomia científica das universidades e politécnicos. Apenas pretendo, brevemente, relembrar alguns factos, que evidenciam a incoerência do que se vai fazendo neste instável encolhe-estica formativo.A qualidade e a harmonização em todo o espaço europeu foram invocadas, em 1999, para incentivar a adesão ao processo de Bolonha. De que qualidade se falava ficámos esclarecidos quando a lei, publicada em 2006, exigiu às instituições a adequação dos cursos na volta do correio. Bolonha a sério, discutível como tudo, significava mais laboratórios, mais bibliotecas, mais dinheiro e mais professores. Bolonha de fachada foi generalizada entre nós com muito menos dinheiro e muitos menos professores. Licenciaturas de 4 ou 5 anos passaram a 3. Volvidos 15 anos, faz sentido interrogarmo-nos sobre se Bolonha trouxe mais qualidade ao nosso ensino superior. Não sendo, certamente, consensual a resposta, há um aspecto em que todos rapidamente convergirão: o Estado tem vindo a descomprometer-se no que toca ao financiamento da formação superior. Até Bolonha, garantia licenciaturas de 4 ou 5 anos. Depois de Bolonha, co-financia apenas 3, em parte sempre a decrescer. A Educação e os professores não fizeram a crise. Mas pagam-na como nenhuma outra instituição e classe.A distorção nas representações sobre as condições de exercício da profissão docente, ardilosamente passada pelo Governo para a sociedade em geral, atingiu o limite do suportável e ameaça hoje a própria integridade profissional dos professores, que não se têm afirmado suficientemente vigorosos para destruir estereótipos desvalorizantes. Porque, subliminarmente, a medida aprovada passa a mensagem de que os males da educação são consequência da impreparação dos professores.O que a decisão em apreço sugere é que a acção dos ministros é muito mais marcada pela sua visão empírica do sistema de ensino e natureza política das convicções, próprias ou partidárias, que por um exercício racional de resposta às necessidades do país, identificadas em estudos e diagnósticos produzidos. Sobretudo quando essa resposta contrarie as convicções.3. Os dois temas anteriores e a recente “divergência insanável” entre PS e PSD justificam a pergunta: será possível o consenso, em nome do interesse nacional? Parece-me tão óbvia a resposta como óbvia é a dificuldade de a aceitar, de uma vez por todas. Na vida de uma sociedade, independentemente do respectivo modelo de organização política, jamais teremos um interesse colectivo. Outrossim, temos vários interesses, dos vários colectivos que a compõem. É isso que as eleições mostram: a divisão, por alternativas defendidas, de uma sociedade em vários colectivos. O que uma eleição estabelece é uma decisão que agrada a uns e prejudica os outros. É pois difícil falar de interesse nacional. O interesse nacional é, nesta óptica, algo que não existe. Tão-só se encontra um interesse maioritário. Que disse, senão isto, a controvérsia sobre o manifesto dos 74?
O 25 de Abril foi um movimento libertador – pela democracia, paz, descolonização e desenvolvimento socioeconómico do nosso país – de que herdámos o regime político-constitucional em que temos vivido desde então.
Mas quarenta anos volvidos, a nova geração atravessa um período penoso da nossa vida colectiva. Não por culpa do regime constitucional, que consagrou e defendeu avanços inegáveis, que iluminam a história do nosso país. Mas em consequência das políticas seguidas nos anos mais recentes, que têm desmantelado estruturas produtivas, suprimido serviços e prestações do Estado social, acentuado assimetrias sociais e territoriais.
O problema da dívida e do défice das contas públicas tem sido ardiloso pretexto quer para a denegação de direitos e garantias, quer para o desmantelamento de funções sociais do Estado, quer para o ataque a instituições da sua soberania – sem que todavia tenha obviado à maior acumulação de privilégios privados e de capitais em anónimos mercados. As insistentes intromissões de entidades externas e a correspondente sujeição do Governo do País no plano internacional ao ditame de superestruturas opacas e sem legitimação democrática têm acelerado esse curso desastroso de acontecimentos, e bem assim ofendido a dignidade dos portugueses e de Portugal. Estando o povo português privado do exercício pleno da sua soberania e a democracia ameaçada, o nosso futuro colectivo encontra-se comprometido enquanto Estado-nação soberano.
Em contraposição à chantagem financeira, firmamo-nos, sim, nos superiores valores da vida, da dignidade e da felicidade dos portugueses e na capacidade do povo português em defender a democracia num Portugal soberano e desenvolvido. Cientes do inquebrável nexo que une democracia e soberania e contrariando a humilhante submissão à falsa virtude e prevalência de critérios financistas, afirmamos que é na criatividade e no trabalho dos portugueses que reside o desenvolvimento de Portugal.
Reconhecemos e reiteramos convictamente que democracia, soberania e desenvolvimento são inalienáveis e inseparáveis fundamentos do projecto nacional que contém a Constituição da República. E como tal tomamo-la como bandeira da nossa luta comum. Uma luta para a qual convocamos todos os que se identificam com o Portugal de Abril, para a comemoração do 40.º aniversário do 25 de Abril e do 38.º da Constituição da Republica Portuguesa, a realizar no próximo dia 29 de Março no Grande Auditório da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.
Porque não toleramos viver prisioneiros no próprio país, que é o nosso, porque não queremos que a soberania do povo continue a ser profanada, apelamos aos portugueses para que assumam o compromisso de tudo fazerem para que Portugal se liberte das amarras que o prendem e assim possamos retomar a caminhada por um «Portugal soberano e desenvolvido».
Promotores da Sessão Comemorativa:
Tradução do título do artigo: A verdade sobre a Venezuela: uma revolta dos ricos, não uma "campanha de terror" -- a retórica de John Kerry (secretário de Estado dos EUA)** está desfasada da realidade no terreno, onde a vida continua - até nas barricadas.
John Kerry’s rhetoric is divorced from the reality on the ground, where life goes on – even at the barricades
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| uma imagem elucidativa .. ---- daqui |
Images forge reality, granting a power to television and video and even still photographs that can burrow deep into people’s consciousness without them even knowing it. I thought that I, too, was immune to the repetitious portrayals of Venezuela as a failed state in the throes of a popular rebellion. But I wasn’t prepared for what I saw in Caracas this month: how little of daily life appeared to be affected by the protests, the normality that prevailed in the vast majority of the city. I, too, had been taken in by media imagery. [As imagens forjam a realidade, concedendo um poder à televisão, vídeo e mesmo a fotografias, que pode alojar-se bem fundo na consciência das pessoas sem que elas sequer disso se apercebam. Também eu pensei que era imune aos repetidos retratos da Venezuela como um estado falhado nas vascas de uma rebelião popular. Mas não estava preparado para o que vi em Caracas este mês: como tão pouco da vida quotidiana parecia ser afectado pelos protestos, a normalidade que prevalecia na maior parte da cidade. Também eu tinha sido apanhado pela imagística dos media.]Major media outlets have already reported that Venezuela’s poor have not joined the right-wing opposition protests, but that is an understatement: it’s not just the poor who are abstaining – in Caracas, it’s almost everyone outside of a few rich areas like Altamira, where small groups of protesters engage in nightly battles with security forces, throwing rocks and firebombs and running from tear gas.Walking from the working-class neighborhood of Sabana Grande to the city center, there was no sign that Venezuela is in the grip of a “crisis” that requires intervention from the Organization of American States (OAS), no matter what John Kerry tells you. The metro also ran very well, although I couldn’t get off at Alta Mira station, where the rebels had set up their base of operations until their eviction this week.I got my first glimpse of the barricades in Los Palos Grandes, an upper-income area where the protesters do have popular support, and neighbors will yell at anyone trying to remove the barricades – which is a risky thing to attempt (at least four people have apparently been shot dead for doing so). But even here at the barricades, life was pretty much normal, save for some snarled traffic. On the weekend, the Parque del Este was full of families and runners sweating in the 90-degree heat – before Chávez, you had to pay to get in, and the residents here, I was told, were disappointed when the less well-to-do were allowed to enter for free. The restaurants are still crowded at night.Travel provides little more than a reality check, of course, and I visited Caracas mainly to gather data on the economy. But I came away skeptical of the narrative, reported daily in the media, that increasing shortages of basic foods and consumer goods are a serious motivation for the protests. The people who are most inconvenienced by those shortages are, of course, the poor and working classes. But the residents of Los Palos Grandes and Altamira, where I saw real protests happening – they have servants to stand in line for what they need, and they have the income and storage space to accumulate some inventory.These people are not hurting – they’re doing very well. Their income has grown at a healthy pace since the Chávez government got control of the oil industry a decade ago. They even get an expensive handout from the government: anyone with a credit card (which excludes the poor and millions of working people) is entitled to $3,000 per year at a subsidized exchange rate. They can then sell the dollars for 6 times what they paid in what amounts to a multi-billion dollar annual subsidy for the privileged – yet it is they who are supplying the base and the troops of the rebellion.The class nature of this fight has always been stark and inescapable, now more than ever. Walking past the crowd that showed up for the March 5 ceremonies to mark the anniversary of Chávez’s death, it was a sea of working-class Venezuelans, tens of thousands of them. There were no expensive clothing or $300 shoes. What a contrast to the disgruntled masses of Los Palos Grandes, with $40,000 Grand Cherokee Jeeps bearing the slogan of the moment: SOS VENEZUELA.When it comes to Venezuela, John Kerry knows which side of the class war he is on. Last week, just as I was leaving town, the US Secretary of State doubled down in his fusillade of rhetoric against the government, accusing President Nicolás Maduro of waging a “terror campaign against his own people”. Kerry also threatened to invoke the Inter-American Democratic Charter of the OAS against Venezuela, as well as implementing sanctions.Brandishing the Democratic Charter against Venezuela is a bit like threatening Vladimir Putin with a UN-sponsored vote on secession in Crimea. Perhaps Kerry didn’t notice, but just a few days before his threats, the OAS took a resolution that Washington brought against Venezuela and turned it inside-out, declaring the regional body’s “solidarity” with the Maduro government. Twenty-nine countries approved it, with only the right-wing governments of Panama and Canada siding with the US against it.Article 21 of the OAS’s Democratic Charter applies to the “unconstitutional interruption of the democratic order of a member state” (like the 2009 military coup in Honduras that Washington helped to legitimize, or the 2002 military coup in Venezuela, aided even more by the US government). Given its recent vote, the OAS would be more likely to invoke the Democratic Charter against the US government for its drone killings of US citizens without trial, than it would be to do so against Venezuela.Kerry’s “terror campaign” rhetoric is equally divorced from reality, and predictably provoked an equivalent response from Venezuela’s foreign minister, who called Kerry a “murderer”. Here’s the truth about those charges from Kerry: since the protests in Venezuela began, it appears that more people have died at the hands of protesters than security forces. According to deaths reported by CEPR in the last month, in addition to those killed for trying to remove protesters’ barricades, about seven have apparently been killed by protesters’ obstructions – including a motorcyclist beheaded by a wire stretched across the road – and five National Guard officers have been killed.As for violence from law enforcement, at least three people appear to have been killed by the National Guard or other security forces – including two protesters and a pro-government activist. Some people blame the government for an additional three killings by armed civilians; in a country with an average of more than 65 homicides per day, it is entirely possible these people acted on their own.A full 21 members of the security forces are under arrest for alleged abuses, including some of the killings. This is no “terror campaign”.At the same time, it is difficult to find any serious denunciation of opposition violence from major opposition leaders. Polling data finds the protests to be deeply unpopular in Venezuela, although they do much better abroad when they are promoted as “peaceful protests” by people like Kerry. The data also suggest that a majority of Venezuelans see these disturbances for what they are: an attempt to remove the elected government from power.The domestic politics of Kerry’s posturing are pretty simple. On the one hand, you have the right-wing Florida Cuban-American lobby and their neo-conservative allies screaming for overthrow. To the left of the far right there is, well, nothing. This White House cares very little about Latin America, and there are no electoral consequences for making most of the governments in the hemisphere more disgusted with Washington.Perhaps Kerry thinks the Venezuelan economy is going to collapse and that will bring some of the non-rich Venezuelans into the streets against the government. But the economic situation is actually stabilizing – monthly inflation fell in February, and the black-market dollar has fallen sharply on the news that the government is introducing a new, market-based exchange rate. Venezuela’s sovereign bonds returned 11.5% from 11 February (the day before the protests began) to 13 March, the highest returns in the Bloomberg dollar emerging market bond index. Shortages will most likely ease in the coming weeks and months.Of course, that is exactly the opposition’s main problem: the next election is a year-and-a-half away, and by that time, it’s likely that the economic shortages and inflation that have so increased over the past 15 months will have abated. The opposition will then probably lose the parliamentary elections, as they have lost every election over the past 15 years. But their current insurrectionary strategy isn’t helping their own cause: it seems to have divided the opposition and united the Chavistas.The only place where the opposition seems to be garnering broad support is Washington.
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| imagem daqui |
de como as Histórias se repetem:
«Durante o mandato de Allende como presidente, a CIA financiou diversas “acções directas”, desde pagar a líderes corruptos de um sindicato de mineiros para encenarem greves, e a associações de camionistas para recusar transportar bens para as cidades, até à manipulação de grupos terroristas como o Patria y Libertad nas suas campanhas de assassinatos. O programa de desestabilização da CIA foi especificamente designado para provocar instabilidade económica, através de escassez artificial e racionamento, de modo a incitar o descontentamento da classe média. Isto tornou-se óbvio quando se viram manifestações de donas de casa batendo tachos e panelas. A CIA procurou incitar um golpe militar através do caos económico.(...) --- ler mais
La capital de España se inunda por las Marchas de la Dignidad. Se registran medidas de seguridad sin precedentes aunque la jornada trascurre sin incidentes: los participantes reivindican que la manifestación es totalmente pacífica.
"Venimos para manifestar que este Gobierno nos ha engañado desde el primer día, tanto este Gobierno, como el anterior. Presentaron un programa electoral que ninguno ha cumplido, dicen que van a hacer una cosa y después hacen otra. Ya estamos hartos de tantos engaños y tantas mentiras. Venimos a decirles que se vayan y que tienen que cambiar este sistema. Desde abajo a arriba lo vamos a conseguir todos trabajadores en la calle", dijo a RT Pepe Caballero, organizador de la columna de Andalucía.."Es un Gobierno genocida porque fomenta un genocidio social. La única diferencia es que hace años se hacía con cámaras de gas, ahora se hace en una manera más sutil, más sibilina", dice Agripa Hervás, organizador de marcha que partía desde Alicante.."Soy profesor y sé que significan los recortes en el sector público. Todas estas medidas son una locura. Estoy marchando a Madrid porque no puedo caminar a Berlín o Bruselas. ¡Debemos detenerlos y también a la Troika!", explicó un activista a RT.
______________ saudades de um tempo em que a vontade popular contava ..
«Canção de Carlos Alberto Moniz e de Maria do Âmparo, dedicada ao General Vasco Gonçalves, primeiro ministro de Portugal em 1974 e 1975, nos II, III, IV e V Governos Provisórios»:
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| foto no Courrier International |
no Expresso,
por Daniel Oliveira
Fraudes na banca, bufos no autocarro
Espalhados por Lisboa, andam cartazes com dois olhos vigilantes. Só graficamente, a coisa já é sinistra. Mas faz justiça ao que nos pede: que ajudemos a combater a fraude. Como o apelo não se resume ao pagamento do nossos bilhetes, o que se pede é que sejamos bufos. E explica-se porquê. Porque menos gente a pagar é menos carreiras e pior qualidade no serviço. Na realidade, fico espantado. Os preços dos títulos de transporte subiram exponencialmente nos últimos anos, por decisão dos mesmos senhores que fizeram estes cartazes. As carreiras diminuíram. O serviço degradou-se. E, ao que parece, os serviços da Carris e do Metro até vão ser concessionados a privados, até junho, o que torna este anúncio ainda mais absurdo. Foi por causa das fraudes que tudo isto aconteceu? Só se nela se incluírem os swaps. E nem todos os olhos bem abertos para as responsabilidades passadas e presentes da ministra das Finanças, enterrada na coisa até às orelhas, a tiraram do lugar.Mas o que mais me perturbou foi ver aqueles olhos azuis esbugalhados a apelarem à delação enquanto lia, nas capas dos jornais, que Jardim Gonçalves se tinha safado de uma multa de um milhão de euros, por prescrição. É ver que Oliveira e Costa e Rendeiro podem ir pelo mesmo caminho. E que é mais fácil um banqueiro manipular o mercado de ações e enganar o Estado e os depositantes em milhões do que um desgraçado andar no metro à borla.Sim, a fraude ajuda a que haja menos autocarros, menos escolas, menos hospitais. Que os títulos de transporte, as propinas ou as taxas moderadoras pesem mais nas nossas carteiras. Que os serviços públicos percam qualidade. A fraude do BPN, que nos está a levar milhares de milhões de euros que ninguém parece querer cobrar a ninguém. Mas não apenas ela. A fraude em que se transformou o sistema financeiro, onde enterramos dinheiro em resgates e juros e que, em Portugal e por todo o mundo, é hoje sinónimo de abuso, escândalo e amoralidade. E nem quando as comadres se zangam e uma delas põe a boca no trombone, como aconteceu com Joe Berardo, alguma coisa acontece. Esta é a fraude que me interessa. Se não querem mobilizar a coragem dos políticos, os recursos do Estado e o empenho dos cidadãos contra ela, como têm o atrevimento de apelar à bufaria nos transportes públicos?Um desempregado anda, sem pagar, nos transportes que o senhor Sérgio Monteiro se prepara para privatizar? Comigo, pode estar descansado. O máximo que farei será empatar algum tempo o fiscal para lhe dar tempo para escapar. Faço mal? Não farei nem mais nem menos do que o Banco de Portugal e o Ministério Público fizeram com Jardim Gonçalves. E sempre ajudo alguém que precisa..
“As repúblicas não vieram ao mundo para estabelecer novas cortes, as repúblicas nasceram para dizer que todos somos iguais. E entre os iguais estão os governantes. Ninguém é mais que ninguém, começando pelo governante”, diz o presidente do Uruguai na entrevista em que fala também sobre a legalização da canábis e o casamento homossexual. Por Kiko Nogueira, Diário do Centro do Mundo.
ARTIGO | 15 MARÇO, 2014
O presidente do Uruguai, José Mujica, e a mulher, Lucía Topolansky.
No início da “Divina Comédia”, Dante encontra Virgílio, seu guia no inferno, e diz-lhe: “Mestre, para mim, são tão certos e me impõem tanta confiança os teus arrazoados, que os demais me parecem carvões apagados.”
Pepe Mujica, o presidente do Uruguai, erra muito pouco. Na sua última entrevista, ao jornal O Globo, explicou como pretende lidar com as visitas de turistas a seu país para fumar maconha (como se sabe, o Uruguai legalizou o comércio da canábis). Falou muito mais. E, como costuma acontecer, transcende as questões comezinhas e dá a qualquer conversa um tom filosófico. Nas palavras de Vargas Llosa, é um velhinho estadista que fala com sinceridade insólita para um governante. “Queremos tirar o mercado do narcotráfico, queremos tirar-lhes o motivo económico, queremos que o narcotráfico tenha um competidor forte e não seja o monopolista do mercado. Ao mesmo tempo, tentamos incitar as pessoas a atuarem do ponto de vista médico”, disse ele. “Mas temos que ter muito cuidado, porque não é uma legalização como as pessoas supõem no exterior, não vai haver um comércio, os estrangeiros não poderão vir aqui ao Uruguai para comprar maconha. Não vai existir o turismo da maconha. A decisão tomada não tem nada que ver com esse mundo boémio. É uma ferramenta de combate a um delito grave, o narcotráfico, é para proteger a sociedade. É muito sério”.
Sobre seu exemplo como líder:“Pretende ser um mini-ato de protesto. As repúblicas não vieram ao mundo para estabelecer novas cortes, as repúblicas nasceram para dizer que todos somos iguais. E entre os iguais estão os governantes. Têm uma responsabilidade implícita e penso que devem viver de forma bastante similar à maneira de viver da maioria do seu povo. Ninguém é mais que ninguém, começando pelo governante.”Sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo:“O casamento homossexual, por favor, é mais velho que o mundo. Tivemos Julio Cesar, Alexandre, O Grande, por favor. Dizer que é moderno, por favor, é mais antigo do que nós todos. É um dado de realidade objetiva, existe. Para nós, não legalizar seria torturar as pessoas inutilmente”.
Sobre trabalho:“Temos que lutar para que todos trabalhem, mas trabalhem menos, todos devemos ter tempo livre. Para quê? Para viver, para fazer o que gostam. Isto é a liberdade. Agora, se temos de consumir tanta coisa, não temos tempo porque precisamos ganhar dinheiro para pagar todas essas coisas. Aí vamos até que pluff, apagamos.”Sobre manifestações:“Eu simpatizo com os protestos, mas não levam a lugar nenhum. Não construíram nada. Para construir, há que criar uma mente política, coletiva, de longo prazo, com ideias, disciplina, e com método. E isso é antigo, ou parece antigo. Mas sem interesses coletivos, é difícil mudar. Não são os grandes homens que mudam as sociedades, mudam quando os protestos se organizam, disciplinam, têm métodos de longo prazo. Estes movimentos de protesto têm a vantagem do novo, e tentam alguma coisa nova porque desconfiam de todos os velhos, especialmente os partidos, porque perderam a confiança neles. Mas as primaveras têm se transformado em inverno porque não sabem onde ir.Sobre política:“Temos de revalorizar o papel da política. Mas no mundo real, muita gente se mete na política porque gosta de dinheiro; estes devem ser expulsos, porque prostituem a política. A política tem de ser feita com carinho, a política tem a ver com a harmonia das contradições que há na sociedade, tem de lutar para harmonizar este mundo frágil e cheio de contradições que estamos vivendo.”
Sobre seu reconhecimento:“Não é que me achem tão excecional, me usam como uma maneira de criticar os outros. A última vez que estive na ONU escutei discursos de um presidente de um país europeu [Hollande, da França] pelo qual temos um respeito enorme: pela cultura, por suas tradições, pelo que significou no mundo. Fiquei assustado, porque parecia um discurso neocolonialista. Eu não sou nada, sou um camponês com senso comum. Sem dúvida, estou a viver uma peripécia. Talvez, se não tivesse passado tantos anos presos com tempo para pensar, fosse diferente.”Sobre o Brasil e a América Latina:“Brasil vai fazer um campeonato do mundo lindo. Brasil deve apreciar o melhor que tem, não é a Amazônia nem o petróleo, é o experimento social de ser o país mais mestiço do mundo. E tem uma grande alegria de viver, mesmo com as dificuldades e isso deve à África. Por isso, a luta é que brasileiros sejam mais latino-americanos.”A admiração de Llosa é genuína, mas há algo de condescendente na sua consideração. Mujica é também mais que um camponês com senso comum. É alguém em quem sempre vale a pena prestar atenção. Um mestre. Como disse Dante: “Com aquela medida que o homem usa para medir a si mesmo, mede as suas coisas”.
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| Sophia por Arpad Szenes |
por Miguel Esteves Cardoso
Os lambe-cus
"Noto com desagrado que se tem desenvolvido muito em Portugal uma modalidade desportiva que julgara ter caído em desuso depois da revolução de Abril. Situa-se na área da ginástica corporal e envolve complexos exercícios contorcionistas em que cada jogador procura, por todos os meios ao seu alcance, correr e prostrar-se de forma a lamber o cu de um jogador mais poderoso do que ele.Este cu pode ser o cu de um superior hierárquico, de um ministro, de um agente da polícia ou de um artista. O objectivo do jogo é identificá-los, lambê-los e recolher os respectivos prémios. Os prémios podem ser em dinheiro, em promoção profissional ou em permuta. À medida que vai lambendo os cus, vai ascendendo ou descendendo na hierarquia.Antes do 25 de Abril esta modalidade era mais rudimentar. Era praticada por amadores, muitos em idade escolar, e conhecida prosaicamente como «engraxanço».Os chefes de repartição engraxavam os chefes de serviço, os alunos engraxavam os professores, os jornalistas engraxavam os ministros, as donas de casa engraxavam os médicos da caixa, etc. ..Mesmo assim, eram raros os portugueses com feitio para passar graxa. Havia poucos engraxadores. Diga-se porém, em abono da verdade, que os poucos que havia engraxavam imenso. Nesse tempo, «engraxar» era uma actividade socialmente menosprezada.O menino que engraxasse a professora tinha de enfrentar depois o escárnio da turma. O colunista que tecesse um grande elogio ao Presidente do Conselho era ostracizado pelos colegas. Ninguém gostava de um engraxador.Hoje tudo isso mudou. O engraxanço evoluiu ao ponto de tornar-se irreconhecível. Foi-se subindo na escala de subserviência, dos sapatos até ao cu.O engraxador foi promovido a lambe-botas e o lambe-botas a lambe-cu. Não é preciso realçar a diferença, em termos de subordinação hierárquica e flexibilidade de movimentos, entre engraxar uns sapatos e lamber um cu.Para fazer face à crescente popularidade do desporto, importaram-se dos Estados Unidos, campeão do mundo na modalidade, as regras e os estatutos da American Federation of Ass-licking and Brown-nosing. Os praticantes portugueses puderam assim esquecer os tempos amadores do engraxanço e aperfeiçoarem-se no desenvolvimento profissional do Culambismo.(...) Tudo isto teria graça se os culambistas portugueses fossem tão mal tratados e sucedidos como os engraxadores de outrora. O pior é que a nossa sociedade não só aceita o culambismo como forma prática de subir na vida, como começa a exigi-lo como habilitação profissional.O culambismo compensa. Sobreviver sem um mínimo de conhecimentos de culambismo é hoje tão difícil como vencer na vida sem saber falar inglês."Miguel Esteves Cardoso, in "Último Volume"
Pois.. Já estamos habituados.. O circo e os seus palhaços, cambada de assalariados-da-política que lá não estão para outra coisa que não seja a obediência cega à voz do dono - também chamada de "disciplina de voto", ou mais hipocritamente, "orientação firme de voto" (PP dixit).
E pergunto-me: para que pagamos nós a 'n' deputados, então, se um bastava, por cada partido que assim impõe um sentido único nas votações da AR, sem um pensamento autónomo ou uma consciência individual que lhes justifique a existência e o ordenado?
Um triste dia no Parlamento português
pela Direcção
Há oito meses, a co-adopção passou. O PSD estava distraído. Pena que agora não estivesse
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| de F. Botero |
ler também:
por José Goulão
De repente, a plêiade de dirigentes político-mercantis que gerem a União Europeia e os Estados Unidos da América, até há dias incapazes de apontar no mapa uma coisa chamada “Crimeia”, tornaram-se fervorosos ucranianos da Crimeia, até tártaros da Crimeia, defensores de direitos de pessoas de cuja existência, em boa verdade, jamais se tinham lembrado.De Hollande a Obama, de Cameron a Merkel – os outros batem palmas e acenam com a cabeça – todos acham que o pecado é a realização de um referendo, uma consulta aos cidadãos para saber se querem ficar sob a pata de Bruxelas e Washington ou de Moscovo, já que independência ou autonomia não contam para o caso, o que conta são os portos no Mar Negro, que não gelam nem sob as ordens do temido general Inverno, o que conta são influências e negócios.De um lado, Vladimir Putin e a sua versão do renascido nacionalismo russo, orgulhoso e reacionário como todos os nacionalismos, mas pior quando dá polimento aos galões imperiais e muito poder transnacional às suas oligarquias económicas. Em Paris e Bruxelas, Londres e Washington choram-se sentidas saudades de marionetas como Ieltsin, como se o bem-bom que permitiu negócios soberbos aos de sempre com o leilão a pataco do “obsoleto” sistema económico soviético “e países satelites”, durasse para sempre. Não durou, a gora a música é outra e a Rússia imperial não gosta de se sentir acossada, muito menos quando os que a atiçam se querem instalar no osso das suas fronteiras.Do outro lado, o dos bons, estão os virtuosos cavaleiros-andantes da democracia, dos direitos humanos, ombro-com-ombro, mão-na-mão com fascistas embebidos numa mistura de poeira da história e sangue vivo destes dias, transformados em heróis libertadores e cujas origens e cédulas de nascimento foram varridas à pressa para as lixeiras, juntamente com os destroços das arruaças na Praça Maidan.
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| festejos em Sevastopol - img e notícia aqui |
Percebe-se que democratas tão genuínos não queiram um referendo na Crimeia.
Onde estão os referendos nos seus países sobre a adesão ao Euro, sobre o tratado orçamental, sobre as próprias adesões à União Europeia? Ou os referendos para lançar as guerras no Afeganistão, no Iraque, na Líbia, na Síria? Ou as consultas aos povos para ficarem a viver em protectorados, seja na Grécia, na Bósnia Herzegovina, no Chipre, em Portugal? Ouvir as pessoas? É um risco, ou até garantia de uma invasão, de que a maioria do Parlamento Europeu decidiu acusar a Rússia ao promover a votação na Crimeia... Ouvir as pessoas só quando existe a certeza de decidirem como eles querem. Mas que não seja quando se sabe que os inimigos, neste caso os russos, vão obter a resposta que pretendem. Para estes genuínos democratas nada é mais incómodo que a própria democracia. Por essas e outras, decidiu o embaixador de Israel em Kiev assinar um acordo “defensivo” com as milícias neonazis – no governo – para que os seus ímpetos xenóbobos ponham o anti-semitismo entre parêntesis, em troca da colaboração de uns quantos mercenários trazendo de Gaza algum sangue para juntar ao que jorra em Kiev.Sangue dos impuros nunca é excessivo.
No olho deste vendaval provocado por gente ensandecida, e que nos governa, estão pessoas, milhões de pessoas, a correr o risco de serem arrastadas para um conflito de consequências que ninguém avalia porque não existe na história padrão que sirva de referência.
A coluna militar que marchou sozinha para fazer um 25 de Abril 40 dias antes
Cumprem-se neste domingo 40 anos sobre o golpe das Caldas da Rainha, "abortado" já perto de Lisboa quando o Regimento de Infantaria 5 percebeu que, afinal, avançava sozinho.
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O comandante do cerco dá ordem de rendição ao Regimento de Infantaria 5
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Este surto de raiva, com laivos claramente censórios, não me surpreende. Estava à espera dele
Nem isso poupou os seus signatários a uma série de insultos, acusações ad hominem, insinuações e o que mais adiante se verá. Sobre eles caiu a excomunhão que retira os seus nomes do círculo de ferro da confiança do poder.
É difícil imaginar tanta raiva, tanta vontade de calar, tanto desejo de pura exterminação do outro, como aquele que se abateu sobre o manifesto dos 70 signatários a pretexto da reestruturação da dívida, uma posição expressa em termos prudentes e moderados por um vasto grupo de pessoas qualificadas, quase todas também prudentes e moderadas.
Pelo contrário, alguns dos que os atacam ganharam o direito de lá entrar, e os que já estão lá dentro viram reforçada a confiança que lhes permite uma vida almofadada dos custos da crise. São os "responsáveis", discordam às vezes no secundário, mas portam-se bem. Os 70, pelo contrário, portaram-se muito mal. Num mundo cada vez mais dos "nossos" e dos "deles", bastante parecido com o paradigma marxista da luta de classes, os signatários cometeram vários pecados mortais, e ficaram do "lado errado". É com eles que estou e é com eles que quero estar, não tendo assinado o manifesto apenas por incúria minha em responder a tempo ao convite que me foi feito. Mas é como se o tivesse assinado, por isso incluam-me na lista dos insultos, que já estou habituado.
Veio ao de cima tudo, a começar pelo primeiro-ministro, que os tratou de essa "gente", ou porque tinham uma "agenda política" ou porque eram "cépticos" por natureza, inúteis para o glorioso esforço nacional de empobrecer como programa de vida. O manifesto era "antipatriótico", com um timing inaceitável, a dois meses da "libertação" de 1640, feito pelos "culpados" do esbanjamento, pelos "velhos" a defenderem os seus privilégios, pelos defensores do statu quo dos interesses instalados, pelos "jarretas", pela "geração errada". O seu objectivo escondido, ao assinarem o manifesto, é outro, é "manter o modelo de negócio que temos, o Estado que temos, e atirar a dívida para trás das costas", escreve António Costa em editorial do Diário Económico. José Gomes Ferreira é mais claro: "Estará a vossa iniciativa relacionada com alguns cortes nas vossas generosas pensões?"
Os argumentos ad hominem abundam. Alguns dos signatários que são de direita, um bom exemplo é Adriano Moreira, passaram a ter que ser de esquerda, o que é um modo muito interessante de lhes recusar a identidade, esvaziá-los do que foram toda a vida, para substituir essa identidade por aquilo que é, na sua pena, um anátema: "Já cá faltava um manifesto, de espectro partidário amplo, mas com uma ideologia única, de Esquerda", diz, de novo, um editorial de António Costa no Diário Económico.
Cada vez mais se generaliza em Portugal a idade como insulto, diminuição, culpa, e todos são "velhos" por associação. Falta-lhes a desenvoltura dos "jovens". José Gomes Ferreira pergunta: "Que tal deixarem para a geração seguinte a tarefa de resolver os problemas gravíssimos que vocês lhes deixaram? É que as vossas propostas já não resolvem, só agravam os problemas. Que tal darem lugar aos mais novos?" De facto, troquem Manuela Ferreira Leite, Bagão Félix, Vítor Martins, Sevinate Pinto, o presidente da CIP, Capucho, Sampaio da Nóvoa, Braga da Cruz, Gomes Canotilho, Manuel Porto, Teresa Beleza, e tantos outros, pelos "mais novos", Relvas, Arnault, Marco António, Passos, pelos yuppies das consultoras financeiras que antes vendiam os swaps, e agora iam negociá-los para o Governo, pelos jovens lobos dos escritórios de advogados que fazem todos os negócios do Estado e vice-versa, sob a batuta de alguns velhos "que estão lá sempre", pelo jovem que era para ser propagandista do Impulso Jovem, pelos gestores desempoeirados que usam o Twitter todas as horas e que circulam de cargos políticos para a Caixa, para a RTP, para Angola, dos ministérios para as empresas do PSI-20, ou aqueles que os chineses empregam para manter um link, útil, mesmo que caro. Manuela Ferreira Leite é "velha", Catroga é novo. "Que tal darem lugar aos mais novos?"
Nos comentários dos blogues pró-governamentais, ou seja, no fim da cadeia alimentar, espuma-se de ódio junto com erros de ortografia, alguns dos quais eu corrijo para se perceber, outros ficaram: "Este tipo de "notáveis" (...) sinceramente mentem nojo. Concordo em pleno com o nosso primeiro-ministro com o facto de hoje em dia já nem sequer consegue responder a este tipo de escumalha que hoje em dia aparece na comunicação social, parlamento em fim....por todo lado"; "foi uma ideia idiota que passou pela cabeça de alguns"; "infelizmente estamos já habituados a que figuras da direita se mudem para a ideologia da esquerda irresponsável vá-se lá saber a troco de quê, ou talvez fácilmente se saiba...(...) São gente golpista, que facilmente vende a alma e a dignidade." E estes são alguns comentários reproduzíveis, a maioria é puro insulto soez.
A imprensa económica teve nesta fronda contra o manifesto um papel central, enfileirou editoriais furiosos e notícias com títulos críticos sobre como o manifesto de nada valia e como felizmente ninguém ouvia estes "irresponsáveis", repetindo os argumentos do antipatriotismo, do "timing errado" que sairia "caro" ao país, caso alguém "ligasse" ao manifesto, que deitaria abaixo o adquirido pelos "sacrifícios" dos portugueses, como disse o primeiro-ministro e eles glosam. José Gomes Ferreira vai mais longe - se as coisas correrem mal, a culpa é vossa: "Mesmo sendo uma proposta feita por cidadãos livres e independentes, pela sua projecção social poderá ter impacto externo e levar a uma degradação da percepção dos investidores, pela qual vos devemos responsabilizar desde já. Se isso acontecer, digo-vos que como cidadão contribuinte vou exigir publicamente que reparem o dano causado ao Estado." A mensagem essencial é "saiam da frente", a mesma que está na capa e no título de um livro de Camilo Lourenço, que achava bem que houvesse um novo resgate porque isso "disciplinaria" os preguiçosos dos portugueses.
O que é que tocou esta corda hipersensível de governantes, jornalistas da imprensa económica, homens da banca, alguns empresários e os seus agentes na ideologia "orgânica" do "ajustamento"? Primeiro, voltar ao bom senso e deixar os revolucionarismos de "mudar Portugal", mostrar que há uma política alternativa, que pode ser difícil, mas é muito mais realista do que a política actual, ou seja, que há alternativas. E, pelo caminho, revelar a grande hipocrisia em que assenta a política governamental, e em nome da qual os portugueses têm vindo a ter a vida estragada: é que para se pagar a dívida, tem que haver folga para o crescimento económico e qualquer outra solução é pura e simplesmente irrealista. A questão é que daqui a uns anos, quando tudo isto desabar, nenhum destes corifeus políticos dos "mercados" vai estar por cá, mas a sua herança estará.
Segundo, que essa alternativa implica uma nova forma de estar na Europa, ou seja, responsabiliza-nos pela acção e não pela submissão. É como num velho ditado gaullista sobre os comunistas: "Só fazem aquilo que lhes permitimos que façam." E como nós permitimos tudo, fazem tudo. Na Europa é-se mais realista, incluindo nos "mercados", do que se pensa e seja porque nós actuamos, ou seja a reboque do que pode acontecer na França, Itália ou Espanha, a política vai mudar. Só que, quando mais tarde Portugal o reclamar como membro de parte inteira da União, mais estragado estará o país, maior será o preço.
Terceiro, o manifesto revela que o único consenso transversal existente hoje na vida pública portuguesa, é exactamente aquele que põe em causa a actual política do Governo e dos seus apoiantes. O outro "consenso" assenta num rotativismo entre PS e PSD, obrigados a um pacto que impõe uma política "única" e a aceitação e institucionalização de um colaboracionismo face a uma Europa que pode aceitar "manter-nos", mas com rédea curta e disciplinados. É apenas a blindagem da actual política em eleições, para que, quer se vote no PSD ou no PS, tudo continue na mesma. Esse seria um enorme risco para a democracia.
Este surto de raiva, com laivos claramente censórios, não me surpreende. Estava à espera dele, na sua magnitude e violência. E não vai acabar, vai-se tornar endémico. Ele é o efeito a curto prazo de uma política que se assume para vinte ou trinta anos de empobrecimento, centrados num único eixo: pagar aos credores, obedecer aos mercados. Essa política não pode ser conduzida em democracia, só pode existir com base num regime autoritário.
fonte
Oito em cada dez portugueses estão exaustos e querem mudar de emprego
Estudo da Associação Portuguesa de Psicologia da Saúde Ocupacional será apresentado no Parlamento e mostra que indicadores pioraram muito entre 2008 e 2013
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| de Edvard Munch |
Ao fim de cinco anos, disseram-me que o curso acabara. Fiquei sem bolsa de estudos e sem dinheiro. Tinha 22 anos. A cair de teso. Sem um tostão para café ou tabaco. Mais seis longos meses à custa da família que pouco ou nada tinha. Bati a algumas portas de advogados. Estágio sim, mas gratuito. Requerimentos para aqui e para ali.Num meio dia de princípios de Junho de 1971, recebi uma carta do Ministério da Justiça. Tinha um ofício que transcrevia um despacho do ministro, informava que me tinha nomeado Delegado do Procurador da República interino na comarca de Moimenta da Beira.A minha vida de magistrado do Ministério Público durante cerca de 42 anos começou aí. Vivia ainda em Lisboa, numa residência universitária. Não tinha a mais ínfima ideia onde ficaria Moimenta da Beira.Inquiri de um colega mais letrado. Terra de Aquilino Ribeiro, de Quando os Lobos Uivam. Livro proibido que lera às ocultas na faculdade.
de Cruzeiro Seixas Pousei em Moimenta num tarde tórrida de Verão de 1971, após dia e meio de viagens de comboio até à Régua. Depois carreira. Uma rua, poucas ruelas, um restaurante, o Tamariz, um edifício enorme a cair. Era o tribunal e outras repartições do Estado. No Verão, o meu “gabinete” era de um calor ofegante, povoado por milhões de moscas. No Inverno, um frio gélido, insuportável. Poucos fins-de-semana que a neve impedia o trânsito. Terra de gente simples. Quase todos pobres. Aquilino o descreveu muitas vezes.Andei por lá uns dois anos. Numa solidão que enganava e amolecia de paleio com o juiz, os funcionários e advogados. Falava com os processos crime, os inventários obrigatórios, as investigações de paternidade, os processos de baldios e comigo. Não havia ninguém. Montanhas de pedras escuras, enormes, esvoaçadas por aves negras, também enormes. Metiam medo. Numa ou outra diligência a Sernancelhe, as pessoas recolhiam a casa, espreitavam pelos buracos feitos janelas. Com razão, que os do tribunal representavam ou eram mesmo o poder.O Estado era certinho a pagar vencimentos.Havia poucos descontos. Para a Caixa Geral de Aposentações (CGA), sempre. Nunca as Finanças se esqueceram, e bem, de descontar o que iria garantir a minha reforma. Quando chegasse a doente ou o calendário não me permitisse trabalhar com a mesma energia e produtividade.Foi assim cerca de 42 anos. A remuneração do meu trabalho foi objecto dos descontos que a Lei determinou para a minha reforma. Era o mealheiro, o seguro de vida.Nunca me passou pela cabeça que um Governo viesse trair o contrato que vigorou mais de 40 anos. Comigo e com milhões de cidadãos, que hoje me tratasse como se tivesse sido um criminoso ao exercer as funções que exerci. Inscrevesse no meu certificado do registo criminal um crime hediondo: “Pensionista”!A rondar a delinquência, governos sucessivos usaram dezenas de anos a fio, às ocultas, como ladrão, os cofres da CGA para o que lhes apeteceu. Dela retiraram contribuintes. Não entregaram milhares de milhões na mesma como entidade patronal.Responsabilizam os pensionistas pelo descalabro que criaram. Sempre ávidos e famintos de cortes e mais cortes nas pensões e reformas!José Manuel Fernandes, de parceria com Helena Matos, escreveu que Este País Não é Para Jovens. Nem para velhos. É para mercados, bancos, swaps, parcerias público-privadas, perdões fiscais, clientelismos. Negócios sujos.*Procurador-Geral Adjunto