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02/10/14

elogio à Costa

no Público,
02/10/2014 - 01:07

por Miguel Esteves Cardoso 

A bela costa  

No dia em que fizemos anos de casados almoçámos nas Azenhas do Mar: lavagantes, seguidos de ovos estrelados, pimentos Padrón e presunto espanhol.

Seguimos para a Costa da Caparica, a 45 minutos de distância. Lá estava calor, pouca gente e um mar feito para entrar dentro dele e beijá-lo.

Há trinta anos que eu não ia à Costa. Da última vez fiquei lá sentado com um amigo, a beber caipirinhas e a engordar, fazendo pouco dos que se davam ao trabalho de tomar banho.

Este ano vinguei-me, na mesma praia. Tomei o melhor banho da minha vida. A Caparica é uma praia a sério. Não se vê nem o princípio nem o fim. Por isso se diz que se está "na costa". Porque aquilo não é apenas uma reentrância ou um armário; um cotovelo de areia e de rochas: a Caparica é a costa portuguesa. É o litoral. É o paraíso.

A praia é só uma e a vista, da areia e do mar, é magnífica. A vila da Caparica é horrível, com prédios horríveis, mas a política de concentrar os horrores perto do centro foi inteligentíssima.

Na Praia Morena, por exemplo, a paisagem é quase inteiramente isenta de intervenções humanas. A Praia Morena não é uma praia: é uma paragem, tal como todas as outras praias.

A Caparica é uma só praia, maravilhosa e limpa: tomara o Rio de Janeiro ter uma única praia como tem Lisboa.

Malta de Cascais e de Sintra: ganhem juízo. Lisboa e Almada é que têm, como sempre, razão. As nossas praias são intervalos. A praia da Caparica é a única praia inteira.
Sim, sim, sim!

17/03/14

Os lambe-cus

resgatado daqui

por Miguel Esteves Cardoso
 Os lambe-cus


"Noto com desagrado que se tem desenvolvido muito em Portugal uma modalidade desportiva que julgara ter caído em desuso depois da revolução de Abril. Situa-se na área da ginástica corporal e envolve complexos exercícios contorcionistas em que cada jogador procura, por todos os meios ao seu alcance, correr e prostrar-se de forma a lamber o cu de um jogador mais poderoso do que ele.

Este cu pode ser o cu de um superior hierárquico, de um ministro, de um agente da polícia ou de um artista. O objectivo do jogo é identificá-los, lambê-los e recolher os respectivos prémios. Os prémios podem ser em dinheiro, em promoção profissional ou em permuta. À medida que vai lambendo os cus, vai ascendendo ou descendendo na hierarquia.

Antes do 25 de Abril esta modalidade era mais rudimentar. Era praticada por amadores, muitos em idade escolar, e conhecida prosaicamente como «engraxanço».

Os chefes de repartição engraxavam os chefes de serviço, os alunos engraxavam os professores, os jornalistas engraxavam os ministros, as donas de casa engraxavam os médicos da caixa, etc. ..

Mesmo assim, eram raros os portugueses com feitio para passar graxa. Havia poucos engraxadores. Diga-se porém, em abono da verdade, que os poucos que havia engraxavam imenso. Nesse tempo, «engraxar» era uma actividade socialmente menosprezada.

O menino que engraxasse a professora tinha de enfrentar depois o escárnio da turma. O colunista que tecesse um grande elogio ao Presidente do Conselho era ostracizado pelos colegas. Ninguém gostava de um engraxador.

Hoje tudo isso mudou. O engraxanço evoluiu ao ponto de tornar-se irreconhecível. Foi-se subindo na escala de subserviência, dos sapatos até ao cu.

O engraxador foi promovido a lambe-botas e o lambe-botas a lambe-cu. Não é preciso realçar a diferença, em termos de subordinação hierárquica e flexibilidade de movimentos, entre engraxar uns sapatos e lamber um cu.

Para fazer face à crescente popularidade do desporto, importaram-se dos Estados Unidos, campeão do mundo na modalidade, as regras e os estatutos da American Federation of Ass-licking and Brown-nosing. Os praticantes portugueses puderam assim esquecer os tempos amadores do engraxanço e aperfeiçoarem-se no desenvolvimento profissional do Culambismo.

(...) Tudo isto teria graça se os culambistas portugueses fossem tão mal tratados e sucedidos como os engraxadores de outrora. O pior é que a nossa sociedade não só aceita o culambismo como forma prática de subir na vida, como começa a exigi-lo como habilitação profissional.

O culambismo compensa. Sobreviver sem um mínimo de conhecimentos de culambismo é hoje tão difícil como vencer na vida sem saber falar inglês."

Miguel Esteves Cardoso, in "Último Volume"
.

03/05/12

"ainda ontem", 2 crónicas

-- por Miguel Esteves Cardoso


Público, 14 de Fevereiro de 2010
Obrigados, namoradas

de Marc Chagall
Penso em tudo o que os homens sentem pelas mulheres que amam e tento dizer o que nos une nesse amor, fora dos pormenores e das particularidades.

Sei que as mulheres que nos amam não nos amam de maneira diferente, mas, como nunca se sabe, deixei-as de fora, falando apenas pelo meu género: a malta.

Minha amada querida. O meu pai, logo depois de se ter apaixonado pela minha mãe, disse-lhe, em pleno namoro (ela uma mulher inglesa casada, com uma filha pequena; ele um solteirão português): "Se soubesses quanto eu te amava; destruías-me já." E disse a verdade. Era tanto o amor e o ciúme que lhe tinha, que fez mal à mulher que amava, minha mãe, e mal ao homem que a amava; ele próprio; meu pai.

O amor é um castigo; é um desespero; é um medo. O amor vai contra todos os nossos instintos de sobrevivência. Instiga-nos a cometer loucuras. Instiga-nos a comprometermo-nos. Obriga-nos a cumprir promessas que não somos capazes de cumprir. Mas cumprimos.

Eu amo-te. E não me custa. É um acto de egoísmo. Mesmo que tu me odiasses mas te odiasses tanto a ti própria que não te importasses de ficar comigo, eu seria feliz e agradeceria a Deus a tua inconsciência; a tua generosidade; qualquer estupidez ou inteligência que te mantivesse perto de mim.

A sorte não é amar-te nem tu me amares. A sorte é ter-te ao pé de mim. Tu podes estar enganada. Deves estar enganada. Mas ninguém neste mundo, por pouco que me ame ou muito que te ame, está mais certa para mim.
Obrigado.

*

Público, 5 de Fevereiro de 2011
Amigos para sempre

Os amigos cada vez mais se vêem menos. Parece que era só quando éramos novos, trabalhávamos e bebíamos juntos que nos víamos as vezes que queríamos, sempre diariamente. E, no maior luxo de todos, há muito perdido: porque não tínhamos mais nada para fazer.

dance, de M. Chagall
Nesta semana, tenho almoçado com amigos meus grandes, que, pela primeira vez nas nossas vidas, não vejo há muitos anos. Cada um começa a falar comigo como se não tivéssemos passado um único dia sem nos vermos.

Nada falha. Tudo dispara como se nos estivera - e está - na massa do sangue: a excitação de contar coisas e a alegria de partilhar ninharias; as risotas por piadas de há muito repetidas; as promessas de esperanças que estão há que décadas por realizar.

Há grandes amigos que tenho a sorte de ter que insistem na importância da Presença com letra grande. Até agora nunca concordei, achando que a saudade faz pouco do tempo e que o coração é mais sensível à lembrança do que à repetição. Enganei-me. O melhor que os amigos e as amigas têm a fazer é verem-se cada vez que podem. É verdade que, mesmo tendo passado dez anos, é como se nos tivéssemos visto ontem. Mas, mesmo assim, sente-se o prazer inencontrável de reencontrar quem se pensava nunca mais encontrar. O tempo não passa pela amizade. Mas a amizade passa pelo tempo. É preciso segurá-la enquanto ela há. Somos amigos para sempre mas entre o dia de ficarmos amigos e o dia de morrermos vai uma distância tão grande como a vida.

03/03/12

«Os ladrões da Fnac»

.. a mim aconteceu-me exactamente o mesmo...
'usurários' los llamavan ..
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no jornal Público
por Miguel Esteves Cardoso
Nunca mais compro nada na Fnac. Pronto. Está dito. Comprava tudo na Fnac. Pensava que fnac era acrónimo de “franceses noctívagos apaixonadamente culturais”. Só agora percebi que designa “falsários nauseabundos aldrabões & carteiristas”.
Já aqui contei a ladroagem do cartão Fnac — o cartão “que faz parte de si”: parte gaga. Resumindo: pedi uma segunda via do dito cartão. Custava 3,50 euros. Como não paguei a tempo, cobraram-me 7 euros pela demora. Paguei 10,50 euros. Mas como não paguei a tempo, cobraram-me mais 7 euros. Ontem recebi um pedido de pagamento de 14 euros. A carta era datada de 15 de Fevereiro, mas só chegou cá no dia 28. A data-limite para pagar? Era dia 27.
É esse o truque da Fnac e da Credibom: para além dos juros de Idade Média sobre o que se deve (sempre acima dos 25%, ilegais nos países que protegem os consumidores), enviam tarde os pedidos de pagamento, para receberem mais 7 euros por mês. Por um cartão que custou três euros e meio já paguei dez e meio e, como não tive tempo de pagar mais catorze, pagarei mais vinte e um euros — isto é, se contrariamente ao que têm feito, me derem tempo para pagar.
Isto sem nada ter comprado a crédito. Pelo contrário: a última coisa que comprei, um MacBook Pro para a Maria João, foi paga por inteiro, em dinheiro. Creditaram-me 50 euros no cartão. Mas só se aplica a compras que eu lá fizer.
Por que não tiram os 21 euros ladroados dessa benesse? Porque são uns ladrões. Repito.