- as imagens das colunas laterais têm quase todas links ..
- nas páginas 'autónomas' (abaixo) vou recolhendo posts recuperados do 'vento 1', acrescentando algo novo ..

18/03/14

quando o "nada" é um "tudo" imenso..

recebido via e-mail

Eu não sou nada”: 
o que se esconde sob a humildade de Pepe Mujica 

As repúblicas não vieram ao mundo para estabelecer novas cortes, as repúblicas nasceram para dizer que todos somos iguais. E entre os iguais estão os governantes. Ninguém é mais que ninguém, começando pelo governante”, diz o presidente do Uruguai na entrevista em que fala também sobre a legalização da canábis e o casamento homossexual. Por Kiko Nogueira, Diário do Centro do Mundo.
ARTIGO | 15 MARÇO, 2014 
O presidente do Uruguai, José Mujica, e a mulher, Lucía Topolansky.

No início da “Divina Comédia”, Dante encontra Virgílio, seu guia no inferno, e diz-lhe: “Mestre, para mim, são tão certos e me impõem tanta confiança os teus arrazoados, que os demais me parecem carvões apagados.” 

Pepe Mujica, o presidente do Uruguai, erra muito pouco. Na sua última entrevista, ao jornal O Globo, explicou como pretende lidar com as visitas de turistas a seu país para fumar maconha (como se sabe, o Uruguai legalizou o comércio da canábis). Falou muito mais. E, como costuma acontecer, transcende as questões comezinhas e dá a qualquer conversa um tom filosófico. Nas palavras de Vargas Llosa, é um velhinho estadista que fala com sinceridade insólita para um governante. “Queremos tirar o mercado do narcotráfico, queremos tirar-lhes o motivo económico, queremos que o narcotráfico tenha um competidor forte e não seja o monopolista do mercado. Ao mesmo tempo, tentamos incitar as pessoas a atuarem do ponto de vista médico”, disse ele. “Mas temos que ter muito cuidado, porque não é uma legalização como as pessoas supõem no exterior, não vai haver um comércio, os estrangeiros não poderão vir aqui ao Uruguai para comprar maconha. Não vai existir o turismo da maconha. A decisão tomada não tem nada que ver com esse mundo boémio. É uma ferramenta de combate a um delito grave, o narcotráfico, é para proteger a sociedade. É muito sério”. 

Sobre seu exemplo como líder: 
“Pretende ser um mini-ato de protesto. As repúblicas não vieram ao mundo para estabelecer novas cortes, as repúblicas nasceram para dizer que todos somos iguais. E entre os iguais estão os governantes. Têm uma responsabilidade implícita e penso que devem viver de forma bastante similar à maneira de viver da maioria do seu povo. Ninguém é mais que ninguém, começando pelo governante.” 

Sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo: 
“O casamento homossexual, por favor, é mais velho que o mundo. Tivemos Julio Cesar, Alexandre, O Grande, por favor. Dizer que é moderno, por favor, é mais antigo do que nós todos. É um dado de realidade objetiva, existe. Para nós, não legalizar seria torturar as pessoas inutilmente”. 

Sobre trabalho: 
“Temos que lutar para que todos trabalhem, mas trabalhem menos, todos devemos ter tempo livre. Para quê? Para viver, para fazer o que gostam. Isto é a liberdade. Agora, se temos de consumir tanta coisa, não temos tempo porque precisamos ganhar dinheiro para pagar todas essas coisas. Aí vamos até que pluff, apagamos.” 

Sobre manifestações:
“Eu simpatizo com os protestos, mas não levam a lugar nenhum. Não construíram nada. Para construir, há que criar uma mente política, coletiva, de longo prazo, com ideias, disciplina, e com método. E isso é antigo, ou parece antigo. Mas sem interesses coletivos, é difícil mudar. Não são os grandes homens que mudam as sociedades, mudam quando os protestos se organizam, disciplinam, têm métodos de longo prazo. Estes movimentos de protesto têm a vantagem do novo, e tentam alguma coisa nova porque desconfiam de todos os velhos, especialmente os partidos, porque perderam a confiança neles. Mas as primaveras têm se transformado em inverno porque não sabem onde ir. 

Sobre política: 
“Temos de revalorizar o papel da política. Mas no mundo real, muita gente se mete na política porque gosta de dinheiro; estes devem ser expulsos, porque prostituem a política. A política tem de ser feita com carinho, a política tem a ver com a harmonia das contradições que há na sociedade, tem de lutar para harmonizar este mundo frágil e cheio de contradições que estamos vivendo.” 

Sobre seu reconhecimento: 
“Não é que me achem tão excecional, me usam como uma maneira de criticar os outros. A última vez que estive na ONU escutei discursos de um presidente de um país europeu [Hollande, da França] pelo qual temos um respeito enorme: pela cultura, por suas tradições, pelo que significou no mundo. Fiquei assustado, porque parecia um discurso neocolonialista. Eu não sou nada, sou um camponês com senso comum. Sem dúvida, estou a viver uma peripécia. Talvez, se não tivesse passado tantos anos presos com tempo para pensar, fosse diferente.” 

Sobre o Brasil e a América Latina: 
“Brasil vai fazer um campeonato do mundo lindo. Brasil deve apreciar o melhor que tem, não é a Amazônia nem o petróleo, é o experimento social de ser o país mais mestiço do mundo. E tem uma grande alegria de viver, mesmo com as dificuldades e isso deve à África. Por isso, a luta é que brasileiros sejam mais latino-americanos.” 


A admiração de Llosa é genuína, mas há algo de condescendente na sua consideração. Mujica é também mais que um camponês com senso comum. É alguém em quem sempre vale a pena prestar atenção. Um mestre. Como disse Dante: “Com aquela medida que o homem usa para medir a si mesmo, mede as suas coisas”.

1 comentário:

Antonio Cristovao disse...

A America Latina tem dado grandes pensadores . Pena que a imprensa continue tão ligada ao estilo anglosaxonico de destacar apenas o que dizem os seus dirigentes e interesses. Mujica, papa Francisco e Lula se fossem dos FiveEyes eram uns lideres escutados todas as semanas.