- as imagens das colunas laterais têm quase todas links ..
- nas páginas 'autónomas' (abaixo) vou recolhendo posts recuperados do 'vento 1', acrescentando algo novo ..

31/10/14

Jorge Donn

Jorge Donn tornou-se mundialmente conhecido com a sua interpretação do Bolero (de Ravel, coreografia de Maurice Béjart), no filme de Claude Lelouch, Les Uns et Les Autres (1980)
Jorge Donn era um bailarino fantástico, único. Morreu de sida em 1992. Era argentino.


biografia de Jorge Donn: 

26/10/14

"Pedro Manuel", o nosso 1º


no Público, 03/10/2014
posto no fb por Rui Silvares

A OPINIÃO de António Guerreiro 

O Pedro Manuel

de Rui Silvares
Observemos o nosso primeiro-ministro, para além da contingência do cargo que ocupa e das manigâncias ocultas do seu passado; observemos como ele se revelou desde o primeiro momento, para além dos gestos e dos discursos oficiais e protocolares; observemo-lo como figura ou tipo e chamemos-lhe Pedro Manuel, como se fosse uma personagem literária — um Bloom de Joyce, um Mr. Teste de Valéry, um Franz Biberkopf de Döblin, um Marcovaldo de Calvino.
O nosso Pedro Manuel tem traços de todos eles, mas não coincide inteiramente com nenhum. Tem escassas potencialidades romanescas, mas consegue oferecer matéria suficiente para um diagnóstico epocal, na medida em que é o triste produto do tempo do homem-massa e o engendramento catastrófico do fim de todos os encantamentos políticos, ideológicos e sociais.
É o homem liso, da platitude inerente às formações de uma sociedade homogénea. Se tem alguma aura, é a aura pornográfica da massa contemporânea.
É o homem alienado? Não, é o homem da condição estatística, da indiferença, da impessoalidade.
A sua presença é tão espectral que não é possível ver nele senão a presença de uma ausência.
E até a sua voz de barítono, mas sem grão, e o tom de recitação com que debita são desprovidos de corpo e de mistério.
Enquanto figura ou tipo, isto é, naquilo que tem de comum a tantos outros à sua volta e lhe absorve qualquer pretensão de singularidade, o Pedro Manuel é a encarnação do “último homem” de Nietzsche, sobre o qual se abateu a pobreza inerente a um niilismo completo. É, digamos assim, um homem pós-histórico, que vive como se estivesse desde sempre morto.

Pedro Manuel é o nome de um homem anónimo que surgiu não há muito tempo à superfície do planeta, um homem sem substância (o que não é exactamente o mesmo que o “homem sem qualidades”, de Musil, que era ao mesmo tempo um conjunto de qualidades sem homem).

É um representante perfeito da pequena burguesia planetária que herdou o mundo e da qual um eminente filósofo disse que ela era a forma sob a qual a humanidade vai ao encontro da sua destruição. Esta pequena burguesia, na realidade, não é uma classe, é apenas uma massa.

Enquanto governante ao mais alto nível, é legítimo pedir-lhe contas sobre o seu passado, mas exigir tal coisa ao Pedro Manuel é completamente inadequado: ele não tem mais espessura do que aquela que o confina a um eterno presente. E há-de morrer como alguém que nada aprendeu, em que o “não quero nada, não sei nada e não tenho nada”, muito embora pareça coincidir com um altíssimo conceito de pobreza, de amplitude metafísica, que vem da Idade Média, do Mestre Eckhart, corresponde antes à miséria do Nada que se mascara.
É uma fantasmagórica vacuidade que traz consigo uma única mensagem: nada nos pode defender da trivialidade, da proliferação daninha de Pedros Manueis. A condição política de onde eles emergem é destituída de toda a grandeza, incaracterística, triste como a carne e sem sinais luminosos que assinalem o nosso horizonte.

O contrário desta condição, o homem que devemos opor ao Pedro Manuel, não é aquele que foi tantas vezes solicitado pelo culto dos heróis e que vem para se erguer acima dos outros, para os guiar.
A nova pobreza de que o Pedro Manuel é o nome não deve ser erradicada em nome de nostálgicas grandezas, a única coisa que devemos exigir é não sermos espoliados pelo Nada e determinados pela condição póstuma do último homem, que infelizmente não encarnou apenas no Pedro Manuel.
Pedro Manuel é nome de legião e Massamá é o espaço interior do mundo.

----------------------------------outros artigos de António Guerreiro, aqui

24/10/14

ao sr. Durão, na hora da despedida


http://www.dailymotion.com/video/x28dak0_bilan-de-la-commission-barroso-2-par-philippe-lamberts_news 
à Mr. DURÃO BARROSO: «Votre 1er. choit: vous mettre à côté de George Bush, Aznar, Blair, pour attaquer l’Iraque. (…......)
Enfin, vous avez fait le choit de ne pas mettre un terme au chantage permanent auquel nos démocraties sont soumises, un chantage exercé par les marchés financiers, par les entreprises financières réputées "too big to fail" et par les multinationales auxquelles, à travers d’accords commerciaux, vous voulez donner des droits qui leur donneraient une légitimité, une souveraineté supérieur à celles de nos démocraties.»
Intervention de Philippe Lamberts, co-président du groupe des Verts/ALE, en plénière au Parlement européen de Strasbourg, le mardi 21 octobre 2014, concernant le bilan de la commission Barroso 2.
tradução:
«A sua 1ª escolha, senhor Durão Barroso: pôr-se ao lado de G. Bush, Aznar e Blair para atacar o Iraque. 
(.....) Finalmente, o senhor escolheu não pôr termo à chantagem permanente a que as nossas democracias se encontram sujeitas, uma chantagem exercida pelos mercados financeiros, pelas empresas financeiras conhecidas por “demasiado grandes para falharem” e pelas multinacionais – às quais, através de acordos comerciais, o senhor concedeu direitos que lhes dariam uma legitimidade e uma soberania superior à que têm as nossas democracias.»

*  -----  * ----- * -----

No Parlamento Europeu, a bancada dos ecologistas [Verts/ALE (Alliance libre européenne)] apresentou um «cartão vermelho» a Durão Barroso.
No vídeo abaixo - legendado em português - (clicar no link) falam do que este fez e não fez à frente da Comissão Europeia»
ontem às 14:06Os 
"Em suma, ganhei imenso dinheiro, 
e fartei-me de gozar convosco!" - DB
http://www.tvi24.iol.pt/videos/os-verdes-despedem-se-de-durao-com-um-video-ironico-na-internet/5448fd560cf2b69731c96d72/1

O original:
"Vous êtes les champions des abominations! 
Vous n'existez pas!"

Bref, Barroso, bon débarras por EurodeputesEE

(...) os "Verdes" despedem-se do português com um bem irónico "Boa viagem!"
Em apenas um minuto e 25 segundos, Barroso é acusado de apenas ter beneficiado "os poderosos", em especial as grandes empresas, como "os fabricantes de automóveis, os gigantes da agro-pecuária, os vendedores de tabaco, as multinacionais de energia..."
"Para se fazer conhecer", afirma-se no vídeo, Barroso apoiou "Bush durante a guerra no Iraque" e depois não soube gerir a crise do euro.
-- ler mais: http://www.dn.pt/inicio/globo/interior.aspx?content_id=4196060

descartáveis, prescindíveis: nós

no Público,
21/10/2014 

por José Vítor Malheiros

A mulher empoleirada no banco 

A mulher está empoleirada numa cadeira alta, que mais parece um banco de bar, atrás de um balcão diminuto. Veste um fato preto, sóbrio e elegante, e sorri enquanto atende os clientes que vão entrando e que não têm sequer espaço para pousar a pasta ou o saco de mão em cima do exíguo pedaço de vidro que faz as vezes de balcão. Os homens pousam a pasta no chão, penduram o guarda-chuva no pescoço, dobram o impermeável no braço e apertam o computador entre as pernas. As mulheres hesitam mas ficam com tudo nos braços, casaco, guarda-chuva, mala, saco do computador, mochila, sacos de compras, lancheira.

A cena passa-se numa dependência da CGD, mas podia ser noutro banco porque são todos iguais. Tudo parece ter sido estudado para colocar o cliente numa situação de incomodidade e precariedade, para o obrigar a despachar-se rapidamente e não ocupar o tempo precioso da funcionária que atende. É a mesma função da música aos berros nos fast food. O objectivo é afugentar rapidamente o cliente para acelerar a rotação e poder reduzir o número de trabalhadores ao mínimo.

O minibalcão à entrada, em vez de uma secretária com uma recepcionista, foi invenção de um génio da produtividade. A funcionária ocupa assim apenas meio metro quadrado, em vez dos três metros que ocuparia se tivesse um posto de trabalho confortável. É só poupança. O génio da produtividade esfrega as mãos de contente. Subliminarmente, o desconforto do trabalhador também lhe transmite a mensagem de que a sua situação profissional é, como a sua posição física, instável, e que a sua pessoa é, como o espaço que lhe concedem, insignificante.

Penso em quanto tempo aguentaria eu a trabalhar neste posto, naquela exposição total, frente à porta, naquele desamparo, empoleirado naquele inóspito minibalcão de vidro. Não há o mínimo espaço pessoal, não há nada pessoal naquele espaço nem pode haver, por imperativo físico. Por baixo do balcão, há prateleiras a transbordar de impressos, e é tudo. Onde guardará esta empregada o casaco, o chapéu de chuva, a carteira, os sacos de compras, o livro que está a ler, os desenhos dos filhos, as fotografia das férias, as mil e uma coisas com que os trabalhadores tornam seu o espaço de trabalho? Imagino que deve ter, por trás das portas de vidro fechadas aos clientes, um canto para tudo isso, um cabide, um cacifo. Houve um tempo em que os operários eram tratados assim mas não os empregados dos serviços. Nos escritórios, os trabalhadores detinham algum controlo sobre o seu local de trabalho, podiam humanizar o seu espaço. Agora são todos proletários. E o local de trabalho é apenas mais uma peça da máquina que se quer oleada e estéril, um local onde encaixa outra peça chamada “o colaborador”. E encaixa à justa.

Na dependência do BCP onde entro a seguir também há um minibalcão à entrada. E, a poucos metros, há uma série de cubículos com separadores de vidro, com secretárias, mas todos tão impessoais como o balcão da entrada. Os cubículos proporcionam a mesma privacidade que uma camarata, mas o sigilo bancário é algo com que os bancos apenas se preocupam em relação aos grandes clientes e esses nunca se sentam nos cubículos de vidro. As secretárias estão desprovidas de qualquer toque pessoal para poderem ser usadas rotativamente por diferentes funcionários. É como o sistema de “cama quente” na Marinha. Três marinheiros a fazer turnos só precisam de uma cama. Nos barcos é por falta de espaço, aqui é para poupar dinheiro. Tudo foi pensado para deixar bem claro aos trabalhadores que não pertencem aqui e que nada do que aqui está lhes pertence. Para deixar claro que, quando se forem, outros, quaisquer outros, absolutamente igual a eles, os irão substituir, usando as mesmas secretárias, as mesmas cadeiras, as mesmas frases para garantir aos clientes que irão “propor-lhes a solução que melhor se adapta ao seu caso pessoal”.

Na Clínica da Luz há pior: ao lado dos amplos corredores e dos enormes e confortáveis espaços de espera para clientes e famílias, há “postos de trabalho” encostados às paredes dos corredores que são como minibalcões como os dos bancos mas sem o banco de bar. Os “colaboradores” têm de aguentar as horas de trabalho de pé. É verdade que têm o grato prazer de trabalhar para a Espírito Santo Saúde, uma empresa disputada no mercado, mas deve ser duro para as costas. E isto é o que acontece à frente dos nossos olhos nas “grandes empresas”.

Há muito pior. Há os “seguranças” que passam dias e noites num cubículo sem condições, gelado no Inverno e um forno no Verão, sem uma casa de banho, ao pé de uma cancela, verificando nomes e matrículas 24 horas por dia. Muitas vezes em empresas que se gabam da forma como cuidam dos seus “colaboradores”. É que estes não são “colaboradores” deles. São “colaboradores” de uma empresa subcontratada e por isso a grande empresa pode negar toda a responsabilidade pelas condições de trabalho. E há pior. Há sempre pior.

O empobrecimento e o desemprego multiplicaram estas condições degradantes. Afinal, o desemprego é ainda pior. É assim que se desce o “custo unitário do trabalho”. As empresas chamam-lhe “redução de custos”, “rentabilização”. Mas é só desumanidade. - fonte

contra o bullying, 'Grupos de Amizade' em redes escolares

da SIC notícias
23.10.2014 

Neuropsicóloga britânica revela no Porto como combater bullying nas escolas 

Promover competências sociais em crianças através de Grupos de Amizade de combate ao bullying é o objetivo de um programa cognitivo criado por uma neuropsicóloga britânica e agora revelado num livro a apresentar este sábado no Porto. 
de Keith Haring

"Cérebro: A mente cognitiva social na promoção das competências psicossociais em grupos de pares" é o título do livro que contém parte da tese de doutoramento de Débora Elijah, neuropsicóloga e consultora educacional que desenvolveu o programa em causa e que chegou a implementar na escola Kings Ways Júnior, no Reino Unido, entre 2008 e 2010. 

"O PROSCIG (Programa Sócio Cognitivo de Intervenção em Grupos de Pares em Redes Sociais) tem como objetivo promover as competências sociais em crianças dos seis aos 11 anos de idade, sobretudo em crianças de baixas competências psicossociais, no seio de Grupos de Amizade, e tem como um dos efeitos o combate ao bullying", explicou a autora. 

Pensado e desenvolvido pela autora a partir da sua experiência profissional em países como Bélgica, Inglaterra, França, Portugal e Israel, o programa permite, "sobretudo às crianças de baixa competência psicossocial, o desenvolvimento da assertividade, da comunicação e da confiança", assinalou. 

Através deste método, defende a autora ser possível promover "o bem-estar dos visados, o seu ajustamento social", resultando "indiretamente numa melhor performance escolar e inclusão social". 

A autora defende a implementação do programa em redes escolares onde deverão ser criados os Grupos de Amizade, com seis elementos, juntando "crianças de baixas habilidades sócio-cognitivas com crianças de altas habilidades", em sessões de "uma hora de interação e cooperação social". 

"O PROSCIG pode contribuir para o combate ao bullying, quer na ótica preventiva, quer na ótica repressiva, porque trabalha as competências psicossociais para um bom relacionamento entre pares", frisou. 

Segundo a autora, "o bullying alimenta-se muitas vezes da fraqueza, da baixa autoestima, da falta de confiança, das dificuldades de aprendizagem e consequentes distúrbios emocionais", pelo que "quem desenvolve as suas competências e as suas habilidades sociais torna-se mais seguro, mais resistente e mais capaz de se defender". 

Assim, e até para além do combate ao bullying, "o objetivo principal [do programa] é promover a empatia e as competências sociais das crianças para um bem-estar no seu grupo de pares, na escola e na sociedade, desenvolvendo indiretamente a sua performance escolar". 

Das crianças com que trabalhou em vários países, diz que "todas tinham em comum não apenas baixas competências psicossociais, mas também uma crença muito forte de que se iriam elevar, de que se iriam superar". 

O livro será apresentado no próximo sábado pelas 21:00 no auditório do Hotel da Música, no Porto, num ato que contará com intervenções do reitor da Universidade Fernando Pessoa, onde a tese foi apresentada, e da procuradora do DIAP Maria Clara Oliveira. 

Lusa

23/10/14

"..com o fogo e a água"


ESCREVO-TE COM O FOGO E A ÁGUA

Escrevo-te com o fogo e a água. Escrevo-te no
sossego feliz das folhas e das sombras.
Escrevo-te quando o saber é sabor, quando tudo é surpresa.
Vejo o rosto escuro da terra em confins indolentes.
Estou perto e estou longe num planeta imenso e verde.

O que procuro é um coração pequeno, um animal
perfeito e suave. Um fruto repousado,
uma forma que não nasceu, um torso ensanguentado,
uma pergunta que não ouvi no inanimado,
um arabesco talvez de mágica leveza.

Quem ignora o sulco entre a sombra e a espuma?
Apaga-se um planeta, acende-se uma árvore.
As colinas inclinam-se na embriaguez dos barcos.
O vento abriu-me os olhos, vi a folhagem do céu,
o grande sopro imóvel da primavera efémera.

António Ramos Rosa,
in «Poesia Presente - antologia». 
Organização de Maria Filipe Ramos Rosa 
Prefácio de José Tolentino Mendonça.

22/10/14

O orçamento de Estado para 2015: Crato glosa Bocage

no Público,
22 de Outubro de 2014

por Santana Castilho

Todo o dinheiro que a austeridade da troika e deste governo retirou ao funcionamento da economia, à saúde, à educação e ao bolso dos portugueses, 28.000 milhões de euros, foi, quase na íntegra, para pagar o serviço da dívida, numa evidência gritante de que a austeridade nada resolveu do problema que queria resolver. Dados do Boletim Estatístico do Banco de Portugal mostram que, entre 2010 e 2014, a dívida conjunta, pública mais privada, cresceu 46,1 pontos percentuais por referência ao PIB, cifrando-se agora na assustadora expressão de 767.226 milhões de euros. A dependência de Portugal relativamente ao estrangeiro aumentou drasticamente pela mão da troika e de Passos, o mercador dos nossos anéis. Entre o que Portugal já vendeu ou vai vender a preços de saldo, recordo: Espírito Santo Saúde, HPP Saúde da CGD, Tranquilidade, Fidelidade, BPN, Banco Espírito Santo, agora Novo Banco, Cimpor, EDP, REN, ANA, CTT, TAP e PT. 

Com este pano de fundo, o orçamento é marcado, mais uma vez, pelo aumento da carga fiscal. É socialmente injusto: limita de novo as prestações sociais e mantém a sobretaxa de IRS (dita extraordinária mas de facto perene) enquanto diminui o IRC, por forma a beneficiar apenas as grandes empresas. A solução encontrada (projectar para 2016 uma hipotéctica redução da sobretaxa, desde que a cobrança do IVA e do IRS cresçam acima de 6%), para além de ilegal (as disposições orçamentais têm efeito exclusivo para o ano a que respeitam) é um expediente reles com que se tenta manipular a opinião pública. O aliviar de sacrifícios (reformados e funcionários públicos) impõe que não se esqueça o óbvio: o mesmo Governo que fez ponto de honra da necessidade de cumprir os compromissos e as dívidas para com estrangeiros, desonrou os compromissos que tinha para com os portugueses, reformados e os seus funcionários, deixando de lhes pagar o que estava contratado. E se agora corrige parcialmente a imoralidade da sua política (ainda assim com o rancor que transparece do que escreveu nos documentos que cito) é porque a tal foi obrigado pelo Tribunal Constitucional. O orçamento está aferrolhado para apoiar as pequenas e médias empresas mas escancarado para engolir os prejuízos do BES. O orçamento é deliberadamente mentiroso: ao mesmo tempo que o motor da economia europeia, a Alemanha, corrige a previsão de crescimento para 2015 de 2,0% para 1,3%, o Governo tem a lata de construir as suas contas a partir do pressuposto de crescermos 1,5%. 

Mas há lata maior. A “esclarificação” com que Crato nos brindou sobre o orçamento de Estado para 2015 reconduziu-me ao Bocage boémio: o corte que aquela senhora deu, não foi ela, fui eu! É preciso topete para querer transformar 704,4 milhões de euros de corte orçamental na Educação (-11,3%) nos 200 milhões saídos da lógica anedótica do ministro. À brincadeira de Nuno Crato opõem-se 578 páginas de realidade: 278 de orçamento e 300 da proposta de lei que o aprova. Algumas pérolas aí escritas evidenciam a mistificação que envergonharia pessoas decentes. Mas não o Governo, muito menos Nuno Crato. Na página 172, quando explanam as políticas que o orçamento serve, os mistificadores voltam com a lengalenga de ser “a melhoria dos índices de qualificação da população factor determinante para o progresso, desenvolvimento e crescimento económico do país”. Eles, que reduziram os complementos educativos no ensino não superior em 47,6 %. Eles, que cortaram 68,8% aos serviços de apoio ao ensino superior. Na mesma página, escrevem estar firmemente empenhados “em melhorar os níveis de educação e formação de adultos”. Eles, que cortaram 38,6% do financiamento ao sector. Na página seguinte apontam como objectivo estratégico “garantir o acesso à educação especial, adequando a intervenção educativa e a resposta terapêutica às necessidades dos alunos e das suas famílias”. Eles, que cortaram o financiamento deste sector, onde se incluem deficientes profundos, em 15,3%, removendo sistematicamente, serviço após serviço, as respostas especializadas antes existentes. Tragam estes mistificadores, um só pai, uma só mãe destas crianças com necessidades educativas especiais, um só professor da área, a desmentir o que afirmo e a concordarem com o Governo. E o despudor atinge o clímax quando destacam como medidas justificativas do orçamento a “consolidação da implementação das metas curriculares”, esse expoente superior do refinado “eduquês” inferior. Para o leitor menos familiarizado com o tema, adianto que, apenas no que toca ao 1º ciclo do ensino básico, e se nos ficarmos pelas duas áreas mais badaladas do currículo, Português e Matemática, estamos a falar de 177 objectivos desdobrados em 703 descritores. Qual cereja em cima da imbecilidade, deixo-vos duas dessas metas: 
 - Reunir numa sílaba os primeiros fonemas de duas palavras (por exemplo “cachorro irritado”) cometendo poucos erros. 
- Ler correctamente, por minuto, no mínimo 40 palavras de uma lista de palavras de um texto apresentadas quase aleatoriamente. 

Sim, leram bem! Está lá quase aleatoriamente. 

 * Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt)

21/10/14

professoras agredidas, país impávido


H. Bosch, the last judgment
A notícia (extrato abaixo) é do Público de hoje.  
Nem mês e meio de aulas, e já foram agredidas, só neste ano lectivo, duas professoras, uma em Abrantes (ver aqui), outra no Porto (aqui)
.
«Pelas 13h a escola pedira ajuda à PSP. Uma docente de 43 anos tinha sido agredida durante a manhã. 
Tirara o telemóvel a uma aluna de 12 anos que o usava à socapa na aula de educação visual. No final, a aluna do 6.º ano exigiu o telemóvel de volta. A explicação da professora de que a regra era entregá-lo à direcção da escola não a satisfez. Tirou o telemóvel a um colega e ligou aos pais. Disse-lhes que tinha sido agredida pela professora. Foi o suficiente para os pais, feirantes, lá rumarem. 
Enquanto o pai falava com o director, a mãe descobriu a professora numa das salas de aula e “deu-lhe quatro bofetadas depois de lhe puxar os cabelos”, descreveu fonte da PSP do Porto. 
Mas no exterior a multidão indignava-se com a ausência de novidades sobre o ébola. “Eu acho que há aqui um engano qualquer”, disparava um polícia enquanto tentava controlar os pais que forçavam a entrada na escola. O esforço por explicar que o problema não era o ébola de pouco lhe serviu.»  - fonte

- Edificante! Inaceitável.
A agressão a professoras (sempre mulheres..) há muito que NÃO É motivo de indignação, a bem dizer, para ninguém. Não, pelo menos, uma que leve à acção:

- os pais ou avós acorrem à escola em polvorosa, mas por um boato espalhado ou qualquer outra ocorrência que lhes desperte indignação - não uma deste tipo!;
- os colegas protestarão na sala dos professores e envidarão esforços para que não lhes venha a calhar igual sorte;
-  o ministério da Educação ignora paulatinamente o assunto;
- a comunicação social dá-lhe um relevo q.b., enquanto, no destaque da notícia, subverte tempos e razões ;
- e os sindicatos ?! ... os sindicatos, nada!, ficam-se por uns tíbios comentários, se entrevistados a propósito. 
E que punição vai ter esta mãe pelo crime cometido, pergunto-me? Que castigo exemplar e amplamente noticiado, que previna futuras veleidades por parte de encarregados de educação biliosos e violentos?
Que sanções para o director(a) da escola, que não criou mecanismos que impedissem que a agressora "descobrisse a professora numa das salas"?
Que vai acontecer à menina, que desrespeitou, mentiu, incitou à violência?
A relação professor-aluno, na escola, dentro da sala de aula, é obviamente um reflexo da imagem social do professor, condicionada por factores vários, nomeadamente o ético. Antes do 25 de Abril de 1974 o professor era uma figura respeitada na sociedade (e não me parece que haja dúvidas sobre isso) - pelo carácter elitista de um ensino para muito poucos, mas também pela reverência - na altura inquestionável - devida aos mais velhos, aos pais, a figuras socialmente consideradas relevantes: o professor, o médico, o juiz, o padre.
Com a Revolução, alterou-se drasticamente a relação de forças entre professor e aluno, circunstância a que não terão sido alheios abusos de autoridade generalizados que se consubstanciavam, sobretudo na então chamada "escola primária", em agessões aos alunos, diga-se, muitas vezes sancionadas (exigidas!) pelos respectivos pais.
O ensino generalizou-se, tornou-se obrigatório, passou-se do oito (em que o professor tudo podia) ao oitenta, em que, aos alunos (e respectivos papás e mamãs..), tudo ou quase tudo passou a ser permitido, sem que a sociedade (direcções das escolas e tutela incluídas) se preocupasse com o rumo desgovernado que a situação ia tomando. 
E .. chegou Maria de Lurdes Rodrigues.
Quem, ao tempo, não estivesse na profissão (ou a ela ligado por relações familiares próximas) dificilmente compreenderá a medida real do poder destrutivo da sua acção governativa (e dos seus efeitos a longo prazo), relativamente à Escola Pública no geral e à classe docente do ensino não-superior, em particular. Dificilmente terá a noção de como ela levou tantos à ruptura e de como o seu mandato minou as relações interpessoais dentro das escolas, sem apelo e sem retorno.

A ministra que se gabava de "ter conquistado o país, perdendo os professores" sempre fez gala em os achincalhar, publicamente, sadicamente, sistematicamente. Ela, os seus secretários de Estado e os seus directores gerais. Hostilizaram-nos, deterioraram-lhes as condições de trabalho, transformaram-lhes a vida num inferno.
Foi Maria de Lurdes Rodrigues que escancarou a porta às agressões, verbais ou físicas, de basicamente toda a gente. Com ela - e depois dela - todos se sentiram no direito de questionar a formação, a competência, o trabalho, a dedicação, o carácter, da inteira classe docente deste país. Todos se sentiram legitimados para insultarem e atacarem os professores, dentro e fora da escola.
É ela (e os que, depois dela, se aninharam na cama que ela tão bem soube fazer) a responsável primeira pela desestruturação das escolas e o mau-ambiente que nelas se instalou inapelavelmente, pelo aumento da indisciplina em sala de aula e o decorrente insucesso escolar.
É ela a responsável primeira (e por isso devia ter sido julgada e condenada!) pelo burnout e os suicídios de professores, pelas reformas antecipadas e penalizadoras que tantos, para não se suicidarem também, se viram forçados a pedir.
Maria de Lurdes Rodrigues é, em 1ª análise, a responsável pelas agressões às professoras de Abrantes e do Porto. A maldade dela, o rancor manifesto pelos professores, o ataque cerrado e sistemático aos profissionais da Educação criaram raízes no terreno da ignorância e dos traumas não resolvidos, da ausência de valores, da incompetência que nos desgoverna; deram frutos que a tacanhez pátria e a raiva mal dirigida vão colhendo, perante a cumplicidade geral e a passividade e inoperância de ministros e directores de escola. 

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 -- a lembrar, ainda:
Foi MLR (acolitada pelo mentor JS) que dividiu os professores em 'titulares' e 'não-titulares'. Que congelou as carreiras. Que alonjou a idade para a reforma. Que pôs os professores a fazer tarefas insanas e lhes sobrecarregou os horários de trabalho. Que instituiu as aulas de substituição que o não eram. Que separou a 'componente lectiva' da 'não lectiva', nunca definida ou contabilizada. Que inventou um processo kafkiano de ADD e sujeitou as classificações de topo a regime de quotas. Foi ela que instituiu a figura do director, acabando com a gestão democrática das escolas. Foi ela a mãe dos mega-agrupamentos. Foi ela que empossou os conselhos gerais de escola, com poderes decisores e reduzidíssima representação de professores, o seu papel cada vez mais menorizado. NC é um reles aprendiz de feiticeiro, burro, atabalhoado. MLR escreveu a cartilha por que ele treslê.

----- das agressões a professores, ecos da imprensa:

Linha SOS PROFESSOR,
14 março 2010:
Desde 11 de Setembro de 2006 até 19 de Junho de 2009, a linha recebeu 353 contactos, dos quais 184 foram efectuados durante o ano lectivo de 2006/2007(...)
.
26 março 2010
Professores enfraquecidos
Os portugueses assistem atónitos ao descalabro da escola pública. Há alunos de arma apontada à cabeça de professores. Há professores que se suicidam por causa dos ataques de que são alvo. (...)
------------------------------------------------ 

um artigo obrigatório, para avivar memórias: 
Forte ataque à dignidade profissional docente e resistência a políticas regressivas 

*
os últimos 3 responsáveis pelo estado a que isto chegou: 

Maria de Lurdes Rodrigues: Março de 2005 - Outubro de 2009 
Isabel Alçada: Outubro de 2009 - Junho de 2011 
Nuno Crato: Junho de 2011 --

20/10/14

"A PT – paradigma de uma época"

texto retirado do fb
postado por Mário Martins

de Rui Silvares, Amor à Pátria

A fabulosa história da PT, “campeã nacional” do empreendedorismo pátrio, acabou mal. 


Nos anos 90, alguns dos ministros de então, adivinhando o futuro das telecomunicações e com visão de negócio, reestruturaram as empresas públicas do sector e, com empenho patriótico, fundaram a PT para a… privatizar! Em 2002, deram-lhe 1.350 milhões em benefícios fiscais dispensando-a de pagar impostos nos anos seguintes, quando já se dizia não haver dinheiro para a Educação e para a Saúde por causa do défice. 

Como o negócio da PT era apetecível, a Sonae quis entrar no negócio e deu 5.800 milhões de euros (!) só de bónus para os acionistas votarem a sua OPA, mas a gerência da PT ofereceu-lhes um rebuçado maior - 6.200 milhões (!), o correspondente à totalidade do défice de Portugal na altura (!), e ganhou. Depois, com a ajuda de Sócrates, a PT vendeu a brasileira Vivo (razão do benefício fiscal) na Holanda para não pagar impostos, e o governo, sempre amável, ainda ofereceu mais 270 milhões devidos ao fisco pelas mais-valias aos grandes accionistas. 

Agora, descapitalizada (para não dizer roubada) pelos seus principais administradores que, com o peito cheio de prémios internacionais (afinal tudo se compra...), amigavelmente atiraram 900 milhões para o buraco dos Espirito Santo enquanto debitavam, nos intervalos, a moral do neoliberalismo da moda, a PT passou a peça sobrante da OI brasileira que a pôs à venda a preços de saldo, entregando a estrangeiros mais um sector estratégico nacional. Entretanto, milhares de milhões de euros foram pagos a accionistas e gestores da PT ou perdidos em benefícios fiscais que deixaram de entrar nos cofres públicos e a PT foi à vida. 

Afinal, quem beneficiou com a sua privatização? O Zé Povinho que viveu acima das suas possibilidades? 

E terão a coragem de dizer que não houve alternativa? 

Jorge F. Seabra

19/10/14

um verso debaixo do outro

.. num alinhamento 
que penso proposita
do, assim, embora ...
Com os poetas nunc
a se sabe! ............ ;-)

retirado daqui
de Teresa Dias Coelho

Poema do livro Gaveta de Papéis (2008)

Tenho mil irmãs para amar sem palavras.
Tenho aquela irmã que caminha encostada
às paredes e sem voz, tenho aquela irmã de
esperança, tenho aquela irmã que desfaz o
rosto quando chora. Tenho irmãs cobertas
pelo mármore de estátuas, reflectidas pela
água dos lagos. Tenho irmãs espalhadas por
jardins. Tenho mil irmãs que nasceram
antes de mim para que, quando eu nascesse,
tivesse uma cama de veludo. Agradeço com
amor a cada uma das minhas irmãs. São mil
e cada uma tem um rosto a envelhecer. As
minhas mil irmãs são mil mães que tenho.
Os olhos das minhas irmãs seguem-me com
bondade e, quando não me compreendem,
é porque eu próprio não me compreendo.
Tenho mil irmãs a esperar-me sempre,
com silêncio para ouvir-me e para proteger-me
no inverno. Tenho aquela irmã que é uma
menina que sai de casa cedo para chegar cedo
à escola e tenho aquela irmã que é uma
menina que sai de casa cedo para chegar cedo
à escola. Tenho irmãs como música, como
música. Tenho mil irmãs feitas de branco.
Eu sou o irmão de todas elas. Sou o guardião
permanente e incansável do seu sossego.
Eu tenho de ser feliz pelas minhas irmãs.
Eu tenho de ser feliz pelas minhas irmãs.
 .
José Luís Peixoto, in Gaveta de Papéis

17/10/14

corta.. e segue, até à derrocada final


Educação em 2015: 
OE para ensino básico e secundário 
sofre corte de 704 M€

http://videos.sapo.pt/zSjZAAVIzUew75hLNqvD

A análise de SANTANA CASTILHO, professor universitário, e MANUEL GRILO, da FENPROF, num programa conduzido por Carla Alves Ribeiro. "Especial OE 2015" de 17 de Outubro de 2014.


.

1.ªs intervenções:

- sobre um ministério que continua a roubar à Educação, mas não corta nas suas próprias gorduras
SANTANA CASTILHO: 
Sendo grave este corte de setecentos milhões, é preciso ter em conta que ele se soma a um corte anterior, no ensino não-superior, de €1. 751.6 milhões (estamos a falar dos 3 anos deste governo), mais quatrocentos e um milhões do Ensino Superior.
E é bom que se tenha a noção de que, quando foi assinado o memorando da troika, nós tínhamos uma obrigação para com os financiadores internacionais de corte de 400 milhões de euros. Portanto, a troika saiu, mas parece que a temos cá, três vezes. De um ponto de vista de ideologia, a ideologia do governo é muito mais feroz que a ideologia da troika. 
Nos dois últimos anos, o gabinete do ministro (Nuno Crato) teve, por mês, €1. 356 481, e €1. 071 995 , respetivamente, – e por mês! – para pagar ESTUDOS e PARECERES!

Esse mesmo gabinete gasta, por ano, dois milhões, seiscentos e doze mil, duzentos e treze euros. - “Para quê?”, perguntam os portugueses. - Para pagar a:
  • 5 chefes de gabinete (cinco membros do governo que estão a destruir a educação),
  • 14 adjuntos,
  • 12 especialistas, 
  • 9 secretários pessoais,
  • 26 técnicos administrativos,
  • 12 auxiliares, e
  • 13 motoristas!
Eu sei que, cortando aqui, não se resolvem os problemas do país, mas os portugueses e as crianças que passam fome nas nossas escolas, porque a fome voltou às nossas escolas!, e os portugueses que têm dificuldades, e aqueles que estão desempregados, e os que emigram, e os cinquenta mil professores que estão no desemprego não entendem que aqui não se mexa.
Todos sabemos que este orçamento, embora com as eleições à vista, é um orçamento que continua a aumentar a carga fiscal, porque ela aumenta de facto, e não reduz a despesa do Estado. Ou melhor, reduz as despesas que não deviam ser reduzidas, designadamente esta de que estamos hoje a falar, a Educação, que é, de facto, o futuro do país e que é o sector onde as despesas foram mais cortadas.

(...)

- do cinismo deste governo:
No texto de abertura do Orçamento, pg 172 do relatório, diz-se esta coisa: “A melhoria dos índices de qualificação da população portuguesa é um factor determinante para o combate às desigualdades sociais e para o progresso, desenvolvimento e crescimento económico do país, cabendo à Educação um papel estratégico decisivo.” Lemos isto e pasmamos com o cinismo político! 
É que quem diz isto cortou, durante esta legislatura, 38.6 das verbas consignadas ao ensino dos adultos, 47.6% nos complementos educativos do sector não-superior, 68.8% nos serviços de apoio ao ensino superior! E é esta gente que tem o descaramento de escrever isto no OE 2015! 
Mas pior: fazem uma referência a "continuar a implementar medidas de intervenção precoce que respondam às dificuldades de aprendizagem das crianças e alunos, com vista a contrariar percursos de insucesso escolar e garantir o acesso à educação especial." !! Este governo cortou 15.3% do orçamento que estava consignado anteriormente à Educação Especial, onde estão incluídas crianças com deficiências profundas! 15.3, num orçamento que já era exíguo! 
O mínimo que se pedia a esta gente é que tivessem decoro, quando dizem estas coisas!
 .
- sobre a abertura do ano lectivo e a colocação de professores
MANUEL GRILO:

Um mês depois do início do ano lectivo, as escolas estão longe de terem os professores de que necessitam. A maior parte das escolas inseridas em meios sociais mais desfavorecidos, as escolas que estão inseridas em territórios educativos de intervenção prioritária, têm ainda falta de imensos professores. Só na Escola Básica Pedro de Santarém faltam 23 professores! Os alunos do 9º ano, que vão fazer exame de matemática este ano, não têm professor de matemática desde o princípio do ano. 
Creio que para cima de mil professores estarão em falta ainda. Só na cidade de Lisboa faltam 300, a que acrescem, por exemplo em Sintra, 160. São mil professores em escolas que já têm, de per si, dificuldades: escolas de intervenção prioritária e escolas com contratos de autonomia, que serão 300 e alguns agrupamentos em 800.

- sobre o programa das rescisões dos professores:
Muitos professores foram empurrados para este programa de rescisões, porque estavam com ausência da componente lectiva, em virtude das alterações curriculares que este governo introduziu. Professores de Educação Visual e Tecnológica, por exemplo. Depois, há uma fatia muito grande de professores que estavam completamente desiludidos e que optaram por sair. Conheci alguns que saíam com muita pena, mas estavam em fim de linha, não conseguiam já aguentar o ambiente que se vive nas escolas, o ambiente que se vive na educação. Que saíram profundamente magoados, profundamente tristes. 
Não sei se haverá programas de rescisões no próximo ano, mas 704 milhões é uma verba de uma tal dimensão, que só pode significar salários. E salários significa despedimentos. Temo que, de futuro, haja programas de rescisões associados a programas de despedimentos, por várias vias. Não é expectável que os professores adiram voluntariamente, tendo em conta a bondade do programa. 
Criaram-se situações gravíssimas, que do ponto de vista pessoal são terríveis, e foi isso que levou muitos destes profissionais a sair, em desespero de causa. Diria que o sistema educativo perdeu alguns dos seus melhores professores. Estão a ser substituídos por professores contratados. Serão também bons e estarão muito bem formados, sem dúvida, mas estão lá um ano, e no ano seguinte estará outro, e no ano seguinte outro. 
Saíram professores que “faziam as escolas” e estão agora a entrar professores contratados, professores que vêm de outras escolas através de regimes de mobilidade vários, e as escolas estão a ficar desestruturadas.
As próprias escolas compreendem hoje que têm dificuldade em encontrar-se como escola, isto é, como organização que pensa. E isto, porque saíram muitos dos bons professores, aqueles professores que faziam as escolas. E estes programas de rescisão, estas alterações curriculares vieram destruir, muito, o ambiente da escola, a forma como a escola funcionava, como os seus professores se articulavam. 
Um tão grande número de professores que sai ao mesmo tempo, uns para aposentação, muita dela antecipada e com gravíssimas consequências para os próprios, outros através de rescisões, outros através da mobilidade, destruíram muitos ambientes escolares, destruíram muitas escolas, que tinham demorado muitos anos a estruturar-se, a construir o seu próprio pensamento, a sua identidade. De um momento para o outro, saem 10, saem 15, saem 20 professores, e a escola de repente perde-se. 
E creio que isto não é algo de recuperável, mesmo com outro governo, não é recuperável em pouco tempo. A saída abrupta de um tão grande número de professores é uma daquelas medidas por que o país vai pagar, e vai pagar extremamente caro, na qualidade da educação.

15/10/14

"Serviço Público e Bem Comum"

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Intervenção do Professor Santana Castilho 
na Conferência Nacional «Serviço Público e Bem Comum», 
a 11 de Outubro de 2014, 
promovida pelo Apelo Em Defesa de um Portugal Soberano e Desenvolvido 
Grande Auditório do ISCTE, em Lisboa

lançamento -- convite

16 de Outubro (5ª feira)
às 18.30h

Livraria Ferin (metro Baixa-Chiado):

CRÓNICAS de DIAS de DESESPERO


14/10/14

"Apanhados pela história"

publicado em 14 Out 2014
no I online

Por Nuno Ramos de Almeida*

As mulheres e homens que combatem de cara destapada pela liberdade em Kobane são uma ameaça àqueles que querem impedir a igualdade entre homens e mulheres dos curdos 

Kobane - foto daqui
No filme "Yol", "caminho" em turco, realizado a partir da prisão pelo realizador curdo Yilmaz Guney, são contadas as histórias de cinco presos que saem em licença precária da cadeia. Um deles dirige-se para a sua terra, no Curdistão ocupado pelos turcos. Numa das sequências mais belas pode ver-se o esforço dos cavalos de correrem livres pelos campos salpicados de mortos, em que os cadáveres de centenas de pessoas massacradas são transportadas em camionetas de caixa aberta, literalmente a escorrer sangue. Yilmaz teve uma vida difícil. Curdo na Turquia a contar histórias das suas gentes cedo chamou a atenção das autoridades. Foi preso pela primeira vez em 1974 por albergar anarquistas. Continua a escrever e a filmar. É preso novamente e é condenado a 15 anos de prisão. A acusação é de estar envolvido num atentado mortal. Na Turquia todos os curdos estão condenados. A história da pseudodemocracia turca é a história das prisões dos deputados, dirigentes, militantes e votantes dos partidos curdos, que são legalizados para depois serem presos todos aqueles que aparecem à luz do dia. Ser curdo é, na melhor das hipóteses, uma condenação à morte. Regra geral são condenados a viver numa ditadura para sempre. Yilmaz nunca aceitou as grades que lhe impunham. Libertou-se da prisão pela escrita e pelo pensamento, e com ajuda de camaradas conseguiu dirigir "Yol", um filme duro feito de carne e osso que ganhou a Palma de Ouro de Cannes em 1986. Posteriormente conseguiu mesmo escapar da cadeia e refugiar-se em França. Os turcos retiram-lhe a nacionalidade. Morreu de cancro com 47 anos, mas morreu sem o ferrete do opressor.

Os curdos são vítimas das fronteiras de regra e esquadro traçadas pelo colonialismo. São a maior nacionalidade sem estado. São mortos no Irão, assassinados na Turquia, gaseados no Iraque, reprimidos na Síria. Os burocratas de Bruxelas e os comandantes de drones de Washington declararam "terroristas" as organizações que combatem pela sua libertação. A vida tem sempre vários lados; os resistentes franceses era enforcados como terroristas pelos nazis. Os judeus que morreram de armas na mão nas ruas do gueto de Varsóvia foram apelidados de bandidos, criminosos, pela imprensa dos seus carrascos. Os curdos resistiram contra tudo e contra todos durante dezenas de anos. A seu favor apenas a vontade de ser livres. 

Uma noite em que dormi numa casa do PKK em Madrid, estava na cidade para preparar uma reportagem que fiz com as FARC colombianas, e tinha combinado a possibilidade de ir em reportagem para as áreas controladas pela guerrilha curda, vi uma série de vídeos de propaganda. Alguns tinham imagens de manifestantes curdos que se imolavam pelo fogo nas ruas da Alemanha, numa tentativa desesperada de chamar a atenção para um povo condenado à invisibilidade.

Com a queda do regime secular do Iraque e a guerra civil da Síria as áreas curdas ganharam liberdade. "A Região Autónoma da Rojava é um dos poucos pontos brilhantes a emergir da tragédia da revolução síria. Depois de expulsar os agentes do regime de Assad, em 2011, e apesar da hostilidade de quase todos os seus vizinhos, Rojava não só manteve a sua independência como constitui uma experiência democrática notável. Foram criadas assembleias populares enquanto órgãos de decisão final, os conselhos foram constituídos com um cuidadoso equilíbrio étnico (em cada município, por exemplo, os três principais responsáveis têm de incluir um curdo, um árabe e um assírio ou arménio cristão, e pelo menos um dos três tem de ser uma mulher), existe um exército feminista, a milícia YJA Star (União de Mulheres Livres, a estrela refere-se à antiga deusa mesopotâmica Ishtar), que realizou uma grande parte das operações de combate contra as forças do Estado islâmico", escreve David Graeber, antropólogo e activista do Occupy Wall Street no "The Guardian".

Hoje em Kobane, as centenas de combatentes curdos que se batem contra o EI - guardados ao longe pelos tanques turcos que estão lá para evitar qualquer vitória destas pessoas sobre a morte - são dirigidos por uma mulher. Mais uma vez os curdos estão cercados: o Estado Islâmico e a maior potência da NATO na região querem afogar em sangue a semente da liberdade dos curdos e provar que não pode haver na região um povo livre em que as mulheres e os homens são iguais. 

*Editor-executivo 
Escreve à terça-feira 

YOL: o filme inteiro(1h.46´), legendado em inglês:

de Guernica a Kobane: a indiferença assassina

fonte

Porque é que o mundo ignora os revolucionários curdos na Síria?

Mulheres curdas em armas na defesa de Kobane
por David Graeber (*)

Em 1937, o meu pai ofereceu-se para lutar nas Brigadas Internacionais em defesa da República Espanhola. Um possível golpe fascista foi temporariamente interrompido por uma revolta operária, liderada pelos anarquistas e socialistas, a que se seguiu, em grande parte de Espanha, uma verdadeira revolução social, levando a que cidades inteiras fossem geridas de forma directa e democrática, as indústrias ficassem sob o controle dos trabalhadores e tivesse havido uma participação radical das mulheres.

Os revolucionários espanhóis esperavam criar um modelo de uma sociedade livre que pudesse ser seguido por todo o mundo. Em vez disso, as potências mundiais puseram em prática uma política de “não-intervenção” e mantiveram um rigoroso bloqueio à república, mesmo depois de Hitler e Mussolini, os signatários declarados, começarem a fazer chegar tropas e armas para reforçar o lado fascista. O resultado foram anos de guerra civil que terminaram com a repressão da revolução e alguns dos massacres mais sangrentos de um século sangrento.

Nunca pensei que, durante a minha própria vida, iria ver isto acontecer de novo. Obviamente, nenhum facto histórico acontece na realidade duas vezes. Há milhares de diferenças entre o que aconteceu em Espanha em 1936 e que está a acontecer hoje em Rojava, as três províncias de maioria curda do norte da Síria. Mas as semelhanças são tão impressionantes, e tão angustiantes, que sinto que é minha obrigação dizer, como alguém que cresceu numa família cuja acção política era, em muitos aspectos, definida pela revolução espanhola: não podemos deixar que tudo termine, outra vez, da mesma forma. 

A Região Autónoma da Rojava (Curdistão sírio), como existe hoje, é um dos poucos pontos brilhantes – ainda que seja muito brilhante – a emergir da tragédia da revolução síria. Depois de expulsar os agentes do regime de Assad, em 2011, e apesar da hostilidade de quase todos os seus vizinhos, Rojava não só manteve a sua independência, como constitui uma experiência democrática notável. Foram criadas assembleias populares enquanto órgãos de decisão final, os conselhos foram constituídos com um cuidadoso equilíbrio étnico (em cada município, por exemplo, os três principais oficiais têm de incluir um curdo, um árabe e um assírio ou arménio cristão, e pelo menos um dos três tem que ser uma mulher), há mulheres e conselhos de juventude, e, num eco notável da organização “Mujeres Libres” (Mulheres Livres) de Espanha, existe um exército feminista, a milícia “YJA Star” (“União de Mulheres Livres “, a estrela refere-se à antiga deusa mesopotâmica Ishtar), que realizou uma grande parte das operações de combate contra as forças do Estado islâmico.

Como pode uma coisa destas acontecer e ser ainda ignorado quase por completo pela comunidade internacional, e mais ainda, em grande parte, pela esquerda internacional? Ao que parece, principalmente, porque o partido revolucionário de Rojava, o PYD, é aliado do Partido dos Trabalhadores Curdos (PKK), um movimento de guerrilha marxista, que desde os anos 70 está envolvido numa longa guerra contra o Estado turco. A Nato, os EUA e a UE classificam-no oficialmente como uma organização “terrorista”. Enquanto isso, os esquerdistas, na sua maioria, descrevem-nos como stalinistas.

Mas, na verdade, o próprio PKK já não é absolutamente nada parecido com o velho partido leninista, de cima abaixo, que já foi. A sua própria evolução interna e a transformação intelectual do seu próprio fundador, Abdullah Ocalan, que aconteceu quando estava na preso numa ilha turca desde 1999, levaram-no a mudar completamente de objectivos e tácticas.

O PKK já declarou que nem sequer pretende criar um Estado curdo. Em vez disso, inspirado em parte pela visão do ecologista social e anarquista Murray Bookchin, adoptou a visão de “municipalismo libertário”, apelando aos curdos para criarem comunidades livres de auto-governo, com base nos princípios de democracia directa, que em conjunto podiam ultrapassar os limites das fronteiras nacionais – que se espera que, ao longo do tempo, se tornem cada vez mais sem sentido. Desta forma, a proposta que fazem é de que a luta curda se possa tornar um modelo para um movimento global em direcção a uma democracia genuína, uma economia cooperativa e a dissolução gradual da nação-estado burocrática.

Desde 2005, o PKK, inspirado na estratégia dos rebeldes zapatistas em Chiapas, declarou um cessar-fogo unilateral face ao Estado turco e passou a concentrar os seus esforços no desenvolvimento de estruturas democráticas nos territórios controlados por si. Alguns questionaram quão sério isto seria na realidade. De forma clara, continua a haver traços autoritários. Mas o que tem acontecido em Rojava, quando a revolução síria deu a oportunidade aos radicais curdos de realizarem experiências deste género num grande e contínuo território, sugere que isto é tudo menos uma obra de fachada. Conselhos, assembleias e milícias populares foram constituídos, as propriedades do regime foram entregues a cooperativas geridas pelos trabalhadores – e tudo isto apesar dos ataques continuados por parte das forças de extrema-direita do ISIS (Estado Islâmico). Os resultados vão de encontro a qualquer que seja a definição de uma revolução social. Pelo menos, no Médio Oriente estes esforços têm sido notados: sobretudo depois das forças do PKK e de Rojava terem aberto com êxito uma passagem através do território do ISIS no Iraque para salvarem milhares de refugiados Yezidi, presos no Monte Sinjar, após os peshmerga locais terem abandonado o terreno. Essas acções foram amplamente celebradas na região, mas curiosamente não receberam quase nenhuma atenção por parte da imprensa europeia ou norte-americana.

Agora, o ISIS voltou, com dezenas de tanques e artilharia pesada, de fabrico norte americano, capturados às forças iraquianas, para se vingar de muitas dessas mesmas milícias revolucionárias em Kobane, afirmando a sua intenção de massacrar e escravizar – sim, literalmente escravizar – toda a população civil. Enquanto isto, o exército turco está na fronteira impedindo que reforços e munições cheguem aos defensores (de Kobane, ndt), e os aviões dos Estados Unidos fazem-se ouvir em ocasionais e simbólicos ataques rápidos – aparentemente, apenas para que não se diga que não fizeram nada quando um grupo, contra o qual afirma estar em guerra, esmaga os defensores de uma das grandes experiências democráticas do mundo. 

Se se fizesse um paralelismo hoje com os falangistas de Franco, superficialmente devotos e assassinos, com quem seria senão com o ISIS? Se há um paralelismo com as Mujeres Libres da Espanha, com quem será senão com as mulheres corajosas que defendem as barricadas em Kobane? O mundo – e desta vez da forma mais escandalosa de todas, a esquerda internacional – vai ser outra vez cúmplice ao deixar que a história se repita?

(*) Artigo do antropólogo anarquista David Graeber publicado hoje no “The Guardian”. 
Tradução “Portal Anarquista” 

guerra civil síria
Situación militar actual en Siria. Territorios:
     Controlados por la autoadministración kurda     Controlados por el gobierno sirio     Controlados por el Estado Islámico de Irak y el Levante     Controlados por otros rebeldes

ler também:
  • Por que a Turquia resiste a intervir contra o 'Estado Islâmico'?
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/10/141009_turquia_ei_lab

  • Solidariedade com Rojava e Kobani! Apoiar a resistência curda contra o ISIS! 
http://www.ligasocialista.com/news/solidariedade-com-rojava-e-kobani!-apoiar-a-resist%C3%AAncia-curda-contra-o-isis!-/

13/10/14

Carta Aberta aos Caloiros

no Público,
12/10/2014

por Teolinda Gersão*

de Marcel Duchamp, mov. Dada
Caros Caloiros: 

Certamente sabem que, na praxe coimbrã, mãe de todas as praxes, o caloiro é tradicionalmente “o animal”. Como também julgo que sabem, segundo a lei n.º 69/2014, de 29 de Agosto, no nosso país os animais passaram a estar protegidos de maus tratos, o que abrange qualquer tipo de coacção física: dor, sofrimento, privação de alimentos, abandono, mutilação ou morte. A pena mais pesada pode ir até aos dois anos de prisão efectiva. 

Referindo-se a pessoas, legalmente protegidas desde logo pelos direitos humanos universalmente aceites, o conceito de maus tratos inclui obviamente também qualquer tipo de coerção ou violência psicológica. 
O que me leva a pensar: Que fariam se um professor vos mandasse rastejar no chão? De certeza que não obedeciam, e o professor teria problemas, e apanharia com razão um processo em cima. No entanto, como se viu em imagens passadas na TV, submeter-se à praxe pode significar rastejar no chão, e a muito mais do que isso. Milhares de espectadores viram, como eu, imagens gravadas no Pátio da Universidade, em Coimbra, em que um grande grupo de caloiros, cercado por um grupo igualmente grande de não caloiros, recebeu ordens para se ajoelhar no chão, inclinar-se para a frente e baixar as calças. Dispenso-me de descrever a cena de humilhação e sadismo que aconteceu a seguir, e ficou registada nas imagens. 
No entanto, para muitos de vocês, aparentemente nada é violento nem excessivo. A praxe é considerada intocável, acima dos professores, reitores, universidades, instituições e até da lei, que assegura aos cidadãos direitos, liberdades e garantias, que impedem qualquer tipo de violência e humilhação. No entanto, estranhamente, para vocês a praxe parece ter um poder incontestável – embora ela não tenha qualquer validade jurídica, nem sequer obedeça a princípios racionais. Para começar, os Duxes são os que andam na Universidade há mais tempo, somando portanto mais matrículas. Para isso basta ter dinheiro para pagar propinas (embora eu deixe a pergunta se, em todos os casos, as propinas deles são realmente pagas, e por quem). Uma vez que há numerus clausus, deixo também a pergunta se eles não tiram o lugar a outros estudantes, com mais capacidade de tirar um curso. Outra pergunta elementar me ocorre: É possível não haver prazo limite para frequentar a universidade? Esse tempo pode ser ilimitado, quando o ensino, como tudo o mais, depende dos impostos que pagamos? Pelo menos até ao ano passado, havia um dux que há 24 anos que somava matrículas, proeza heróica que gloriosamente o mantinha no cargo. E também pergunto o que se passa no caso de todos os outros duxes, porque o erário público é isso mesmo, um assunto público. 

Mas o que mais me agride é que, na prática, vocês passaram a estar muito menos protegidos do que os animais, em sentido próprio. E a responsabilidade, em último caso, é vossa, porque se calam e consentem, rejeitando ou ignorando a lei em que vivem. 

Em situações de perigo ou de desastre, se as praxes descambarem em tragédia, não se espantem se as instituições não funcionarem, se universidades, reitores, professores, polícia, tribunais, vos defenderem mal, já que vocês são os primeiros a não querer ser defendidos: consideram que ninguém tem de saber nem de interferir no que acontece nas praxes, juram a pés juntos que são irrelevantes brincadeiras (o que só algumas vezes é verdade, mas está muito longe de ser sempre), sublinham que são adultos, como se esse facto vos permitisse fugir à lei que se aplica a toda a gente. 

Sendo essa a vossa posição, a opinião pública pouco mais pode fazer do que deixar-vos sós. Fica no entanto um alerta: em caso de tudo correr mal, dir-se-á que vocês lá estavam por vontade própria, e que, se lá estavam, não estivessem. 

Mas dói-me pensar que vocês pretendem ser descartados desta forma: Se querem ser “animais”, com ou sem aspas, então sejam. Boa sorte. 

Qualquer cão ou gato está muito mais protegido que vocês. 

* Escritora

12/10/14

a água É de todos!

"Eles .. comem [--e bebem--] tudo ... e não deixam nada"*
O bem comum sacrificado à ganância, à falta de ética e às negociatas de políticos e "mordomos do universo todo"*.  (*da canção de Zeca Afonso, Os Vampiros)

Maioria rejeita iniciativa de cidadãos para manter água no domínio público 
10.10.2014 - 14:09 


A maioria PSD/CDS-PP chumbou, esta sexta-feira, uma iniciativa legislativa de cidadãos para a "proteção dos direitos individuais e comuns à água", enquanto toda a oposição votou favoravelmente ao texto, em sessão plenária da Assembleia da República. 

O projeto de lei estabelecia "o direito fundamental à água e ao saneamento", bem como "disposições de proteção desse direito".

Segundo o texto a água deve ser "propriedade pública" e a sua gestão tem de visar "o interesse coletivo, hierarquizando as utilizações e impedindo a privatização e a mercantilização dos serviços de águas, das infraestruturas públicas e do domínio público hídrico". JN - fonte

11/10/14

"Crato, essa revolução cultural "

no Expresso,

11 de outubro de 2014 

por Isabel Moreira

Há quem faça cornos a um deputado e se demita. Há quem os faça aos professores e continue esplendoroso em funções.

O ministro da educação veio fazer a revolução cultural sentado no mundo laranja. O ataque à escola pública, esse elevador social que Abril lançou, começou cedo. Em tempos de vender o que é de todos, de interesse estratégico, mesmo se dando lucro (caso dos CTT), a escola pública vai sendo esmagada a favor do colégio privado.

Desinvestindo como jamais no ensino, aposta-se em maus rankings, evidencia-se perfidamente que a escola pública vai mal, exige-se dos professores que sejam tudo o que os restantes profissionais desaparecidos eram e fala-se sem pudor em pagar aos papás e mamãs o ensino privado mesmo onde exista oferta pública.

O desastre da abertura do ano letivo dá jeito a quem quer que a escola pública surja mal no retrato. Os resultados da contratação inicial saíram com uma semana de atraso. O dia era 9 de Setembro. Não foram divulgados prazos nem as etapas de contratação, baralhando a capacidade das escolas de se prepararem para o ano letivo. De trapalhada em trapalhada, chegámos ao erro indesculpável da fórmula da ordenação dos candidatos.

Hoje é dia 11 de Outubro, as histórias de vida de professoras e professores tratados como lixo descartável ora a norte ora a sul, como que vidas que pertencem ao Estado, são conhecidas.

Há 1300 professores por colocar, 300 escolas ainda à espera de professores, 5000 funcionários em falta nas escolas, 800 professores que já deviam estar colocados com salários em atraso,

Ao fim de um mês de não abertura do ano letivo, depois de Crato ter pedido perdão com a soberba de recordar que o pedido era um momento histórico, vai ao parlamento e diz o quê acerca dos professores que perderam o lugar?

Pede perdão por ter garantido a estabilidade dos professores já colocados?

Não.

Afirma isto: "eu disse que os professores mantêm-se; eu não disse manter-se-ão"!

Esta inqualificável falta de respeito para com os professores e para com a democracia, este totalitarismo discursivo, devia ter sido seguido de uma demissão em segundos.

Crato acabou. Demitido ou não.

fonte

09/10/14

"rainman" Crato


Válido, também, para "I' M AN EXCELLENT PRIME MINISTER!", ou PR .....
.... neste boneco adulterado do Kaos Inthegarden
----- com o filme "Rain Man" na mente...
.

08/10/14

Errar muito é desumano

no Público,
08/10/2014

por  Carlos Fiolhais *


Errar muito é desumano   


A 18 de Setembro o ministro da Educação e Ciência apresentou-se no Parlamento para pedir desculpa por um erro que o seu ministério tinha cometido uma semana antes. O erro era de palmatória: um programa informático para ordenar os professores candidatos à Bolsa de Contratação de Escola misturava alhos com bugalhos, ao somar duas notas dadas em escalas diferentes. Não percebo como é que, entre os boys e girls de que o ministério está atulhado, alguns, tendo uns rudimentos de matemática, não evitaram o embaraço. Acima de tudo, não percebo como é que o matemático Nuno Crato, sendo ministro, não corrigiu imediatamente o disparate.

Mas um erro é um erro e mais vale emendá-lo tarde do que nunca. Crato agiu bem. O seu comentário de que o problema só afectava um por cento dos professores era, porém, dispensável, porque bastaria que afectasse um só para ter de ser corrigido. Na verdade, afectava muitos mais docentes, já que concorreram 40 mil àquele concurso. Além disso, trata-se de um problema de confiança: como poderemos confiar num ministério que, durante sete dias, colocado perante sobejas provas do erro, se recusou a admiti-lo? Acontece que esse erro não veio só. O ministro acrescentou ao erro dos seus serviços um outro da sua lavra ao dizer que os professores já colocados não seriam prejudicados. Estava-se mesmo a ver que seriam, uma vez que os professores indevidamente colocados teriam de ser substituídos por aqueles que, de acordo com a lei, tinham direito ao lugar. Havia que acautelar direitos não só dos professores não colocados ou mal colocados mas também dos alunos e das suas famílias. A decência manda que ninguém obtenha um emprego devido a uma injustiça, ainda que não tenha culpa nenhuma. Ninguém deve ser beneficiário de um erro grosseiro: se o meu banco me colocar por engano uma certa maquia na conta, ela terá de ser devolvida.

O director-geral da Administração Escolar, que teimava em dizer que estava tudo bem, demitiu-se logo após as desculpas do ministro. O despacho da sua nomeação afirmava que ele possuía competência técnica e aptidão para as funções, mas bastava ter olhado para o seu currículo para verificar que tal não era verdade. A 3 de Outubro foi nomeada a sua sucessora, professora de Geografia, cuja habilitação maior para o cargo é a militância no PSD. Enquanto isso, o secretário de Estado da Administração Escolar, que tinha acedido ao lugar exibindo o cartão do CDS, continuou no cargo como se nada fosse com ele. No mesmo dia 3, foi finalmente anunciada, aleluia, a correcção do erro e divulgadas novas listas. Contudo, sacudindo a água do capote, o ministério quis que os directores assumissem o ónus do despedimento de cerca de 150 professores e da transferência de muitos outros. Falei com uma das docentes dispensadas: disse-me que às 10h45 do dia 6 foi chamada à secretaria da sua escola para assinar um papel que lhe transmitia a ordem de despejo. O director nem sequer se dignou falar-lhe. Assinou porque lhe disseram que era obrigada a fazê-lo e encontra-se agora longe de casa, sem meios de subsistência nem qualquer futuro a curto ou médio prazo (não, não lhe pagaram ainda o serviço prestado, como é normal em despedimentos sumários, nem lhe souberam dizer nada a respeito de indemnização pelos danos causados, a que ela naturalmente tem direito). Ainda não foi substituída e os seus alunos estão sem aulas. Segundo me disse, persistem confusões e arbitrariedades nos chamados “critérios de escola”, um termo de eduquês que se destina a mitigar a classificação profissional, mais justa e objectiva. A opacidade é tanta que ela nem conseguiu sequer saber qual era a sua nota após a errata.

Terá o ministro aprendido a lição ao verificar a incompetência dos serviços que tutela? Acontece que o caos não é só na educação: reina também na ciência. O ministro da Educação e Ciência poderá, se quiser, verificar a entropia que vai na Fundação para a Ciência e a Tecnologia - FCT. Os erros na recente “avaliação” de unidades de investigação são ainda maiores do que os da colocação dos professores: houve quotas escondidas, atropelos aos regulamentos e a modificação a posteriori de uma tabela com valores errados que serviu de base ao processo. O ministro ainda não pediu desculpa e o presidente da FCT ainda não se demitiu. Os autores do programa do concurso dos professores serão talvez os mesmos do programa de classificação das unidades. E quiçá os mesmos do CITIUS, a plataforma emperrada do Ministério da Justiça. A situação é kafkiana: se os professores e investigadores ora penalizados reclamarem para os tribunais, as queixas ficarão provavelmente paradas! O ministro que não diga que os erros só afectam alguns investigadores, pois existem, tal como no caso dos professores, atentados ao Estado de Direito. Mesmo que afectasse um só investigador já era demais, mas afectando muitos é fatal. Errar é humano. Mas errar muito é desumano.

* cientista, professor universitário