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08/10/14

Errar muito é desumano

no Público,
08/10/2014

por  Carlos Fiolhais *


Errar muito é desumano   


A 18 de Setembro o ministro da Educação e Ciência apresentou-se no Parlamento para pedir desculpa por um erro que o seu ministério tinha cometido uma semana antes. O erro era de palmatória: um programa informático para ordenar os professores candidatos à Bolsa de Contratação de Escola misturava alhos com bugalhos, ao somar duas notas dadas em escalas diferentes. Não percebo como é que, entre os boys e girls de que o ministério está atulhado, alguns, tendo uns rudimentos de matemática, não evitaram o embaraço. Acima de tudo, não percebo como é que o matemático Nuno Crato, sendo ministro, não corrigiu imediatamente o disparate.

Mas um erro é um erro e mais vale emendá-lo tarde do que nunca. Crato agiu bem. O seu comentário de que o problema só afectava um por cento dos professores era, porém, dispensável, porque bastaria que afectasse um só para ter de ser corrigido. Na verdade, afectava muitos mais docentes, já que concorreram 40 mil àquele concurso. Além disso, trata-se de um problema de confiança: como poderemos confiar num ministério que, durante sete dias, colocado perante sobejas provas do erro, se recusou a admiti-lo? Acontece que esse erro não veio só. O ministro acrescentou ao erro dos seus serviços um outro da sua lavra ao dizer que os professores já colocados não seriam prejudicados. Estava-se mesmo a ver que seriam, uma vez que os professores indevidamente colocados teriam de ser substituídos por aqueles que, de acordo com a lei, tinham direito ao lugar. Havia que acautelar direitos não só dos professores não colocados ou mal colocados mas também dos alunos e das suas famílias. A decência manda que ninguém obtenha um emprego devido a uma injustiça, ainda que não tenha culpa nenhuma. Ninguém deve ser beneficiário de um erro grosseiro: se o meu banco me colocar por engano uma certa maquia na conta, ela terá de ser devolvida.

O director-geral da Administração Escolar, que teimava em dizer que estava tudo bem, demitiu-se logo após as desculpas do ministro. O despacho da sua nomeação afirmava que ele possuía competência técnica e aptidão para as funções, mas bastava ter olhado para o seu currículo para verificar que tal não era verdade. A 3 de Outubro foi nomeada a sua sucessora, professora de Geografia, cuja habilitação maior para o cargo é a militância no PSD. Enquanto isso, o secretário de Estado da Administração Escolar, que tinha acedido ao lugar exibindo o cartão do CDS, continuou no cargo como se nada fosse com ele. No mesmo dia 3, foi finalmente anunciada, aleluia, a correcção do erro e divulgadas novas listas. Contudo, sacudindo a água do capote, o ministério quis que os directores assumissem o ónus do despedimento de cerca de 150 professores e da transferência de muitos outros. Falei com uma das docentes dispensadas: disse-me que às 10h45 do dia 6 foi chamada à secretaria da sua escola para assinar um papel que lhe transmitia a ordem de despejo. O director nem sequer se dignou falar-lhe. Assinou porque lhe disseram que era obrigada a fazê-lo e encontra-se agora longe de casa, sem meios de subsistência nem qualquer futuro a curto ou médio prazo (não, não lhe pagaram ainda o serviço prestado, como é normal em despedimentos sumários, nem lhe souberam dizer nada a respeito de indemnização pelos danos causados, a que ela naturalmente tem direito). Ainda não foi substituída e os seus alunos estão sem aulas. Segundo me disse, persistem confusões e arbitrariedades nos chamados “critérios de escola”, um termo de eduquês que se destina a mitigar a classificação profissional, mais justa e objectiva. A opacidade é tanta que ela nem conseguiu sequer saber qual era a sua nota após a errata.

Terá o ministro aprendido a lição ao verificar a incompetência dos serviços que tutela? Acontece que o caos não é só na educação: reina também na ciência. O ministro da Educação e Ciência poderá, se quiser, verificar a entropia que vai na Fundação para a Ciência e a Tecnologia - FCT. Os erros na recente “avaliação” de unidades de investigação são ainda maiores do que os da colocação dos professores: houve quotas escondidas, atropelos aos regulamentos e a modificação a posteriori de uma tabela com valores errados que serviu de base ao processo. O ministro ainda não pediu desculpa e o presidente da FCT ainda não se demitiu. Os autores do programa do concurso dos professores serão talvez os mesmos do programa de classificação das unidades. E quiçá os mesmos do CITIUS, a plataforma emperrada do Ministério da Justiça. A situação é kafkiana: se os professores e investigadores ora penalizados reclamarem para os tribunais, as queixas ficarão provavelmente paradas! O ministro que não diga que os erros só afectam alguns investigadores, pois existem, tal como no caso dos professores, atentados ao Estado de Direito. Mesmo que afectasse um só investigador já era demais, mas afectando muitos é fatal. Errar é humano. Mas errar muito é desumano.

* cientista, professor universitário

O manicómio

no Público,
8 de Outubro de 2014

por Santana Castilho *

O manicómio 

O grotesco do caos em que o início do ano lectivo se transformou vai do cómico ao dramático. Sob a tónica da insensatez do desvairado que o dirige, o Ministério da Educação e Ciência assemelha-se a um manicómio gerido pelos doentes. A última paciente, a directora-geral da Administração Escolar, decidiu sambar na cara de milhares de alunos, pais e professores: com a coragem própria dos cobardes, mandou os directores despedirem os professores anteriormente contratados. Sim, esses mesmos em que o leitor está a pensar. Aqueles a quem o ministro Crato (entretanto desaparecido atrás da palavra que não tem) garantiu, na casa da democracia, que não teriam qualquer espécie de prejuízo quando ele, ministro incompetente, corrigisse o enorme disparate para que acabava de pedir a desculpa da nação.

Leio que são 150 nestas condições. Contratos antes assinados, agora rasgados. Como o daquela colega de Bragança, colocada em Constância a 12 de Setembro e reenviada para Vila Real de Santo António a 3 de Outubro. Casa alugada com caução perdida. Filha a mudar de escola outra vez. Confiança no Estado caída na lama, a reclamar, pelo menos em nome da decência mínima e última, que algo aconteça. Porque não se trata da consciência que o ministro não tem. Trata-se da obrigação republicana de quem o nomeou.

Retomo o que já anteriormente escrevi. Navegar por entre a teia kafkiana da legislação aplicável aos concursos de professores é um desesperante exercício de resistência. Só legisladores mentalmente insanos e socialmente perversos a podem ter concebido, acrescentando sempre uma nova injustiça à anteriormente perpetrada. Leiam as 1347 páginas das listas de subcritérios, agora tornadas públicas, verdadeiro hino à liberdade de disparatar, e ousem dizer-me que não tenho razão.

Os concursos de professores tornaram-se coreografias sinistras, danças macabras de lugares para despedir docentes. É isso que está em causa. Não as reais necessidades das escolas, muito menos as do país vindouro.

A distorção nas representações sobre as condições de exercício da profissão docente, ardilosamente passada pelo Governo para a sociedade em geral, atingiu o limite do suportável e ameaça hoje a própria integridade profissional dos professores, que não se têm afirmado suficientemente vigorosos para destruir estereótipos desvalorizantes. Com tristeza o digo, mas a classe dos professores manifesta-se cada vez mais como uma classe de dependências. E quem assim se deixa aculturar, dificilmente compreenderá o valor da independência e aceitará pagar o seu custo.

Quando o Papa proclama, em boa hora, que não há mães solteiras, mas tão-só mães, nós, classe docente desunida, demoramos, primeiro, e somos inconsequentes, depois, a dizer que não há professores de primeira e professores de segunda, mas tão só professores. Caímos na armadilha de calar as aspirações legítimas de uns com o retrocesso das aquisições de outros, contentes por termos evitado o vandalismo maior que o Governo projectava para todos. Enquanto isto, a colega de Bragança enche o carro com as tralhas de mais uma mudança de casa e ruma a Vila Real de Santo António, engolindo a raiva. Sem que uma solidariedade operante, atempada, impeça que a calquem.

O que este Governo mudou no sistema de ensino português terá consequências cujo alcance não está a ser percebido pela maioria dos portugueses. Mas há um universo, o dos professores, que se assume como espectador num processo em que é actor. Por omissão, concedo. Com gradientes diversos de responsabilidade, volto a conceder. Mas com o ónus global de não dizer não. Um não veemente quanto necessário para pôr cobro aos dislates de uma política que nos reconduz ao passado e nos recusa o futuro. A crise financeira e económica não justifica o pacifismo reinante face à crise da democracia. Os sindicatos, as associações profissionais, os directores de escola e os professores, pese embora o que têm feito, o que dizem e escrevem, acabam por ser espectadores num processo em que, historicamente, serão julgados como actores. Actores de uma tolerância malquista, que vai poupando a besta que não os poupa.

A arrogância, o ódio aos professores, a ignorância sobre a realidade do sistema educativo e das escolas e a impreparação política e técnica são os eixos identificadores daquilo que poderemos designar por bloco central de governo da Educação da última década. Se apelarmos à memória, salta à vista a convergência ideológica entre Maria de Lurdes Rodrigues e Nuno Crato, relativamente ao papel dos professores. Uma ou outra divergência quanto a processos não apaga o essencial. Do outro lado da barricada, a classe dos professores não interiorizou, enquanto tal, a dimensão política da sua profissão. E, em momentos vitais das lutas a que tem ido, soçobrou por isso.

* Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt)

07/10/14

"o ministro que explodiu com o ano lectivo"

no Público,
07/10/2014

por João Miguel Tavares

Caro Nuno Crato: ainda aí está? 

Convinha que a desresponsabilização na política portuguesa não chegasse a este triste ponto: desde que um ministro não seja apanhado a fazer corninhos no Parlamento ou a contar piadas sobre hemofílicos de Évora, ele pode espalhar a sua infinita incompetência por ministérios e secretarias de Estado sem que nada lhe aconteça. Ora, após o homérico desastre que está a ser o início do actual ano lectivo, por culpa exclusiva dos serviços do ministério da Educação, somos obrigados a perguntar que mais é preciso acontecer para que Nuno Crato se decida a apresentar o seu pedido de demissão. 
Crato ficou em tempos conhecido por um colorido comentário que envolvia a implosão do ministério da Educação, e não se pode dizer que estivesse sozinho nesse desejo. O ministério da 5 de Outubro é um monstro burocrático que engole tudo à sua volta, e cujas preocupações acerca da gestão do exército docente suplantam em muito as preocupações com a qualidade de ensino dos alunos que é suposto servir. Mas por mais que nos unamos a Crato na sua vontade de implosão, a verdade é que em 2014 ele colocou a dinamite no local errado: em vez de implodir o ministério, explodiu com o ano lectivo.

Há muitos anos que não se via nada assim, e qualquer cidadão deve questionar-se para que serve um ministério com milhares de funcionários se ele não é sequer capaz de executar a mais básica tarefa para que foi criado: começar as aulas a tempo e horas e atribuir a cada aluno os professores a que ele tem direito. As listas de colocação de professores saíram apenas a 9 de Setembro, o que fez com que no começo das aulas milhares de alunos estivessem sem docentes. E nas escolas de ensino artístico a tragédia é completa, com instituições, como os Conservatórios, a garantirem que só em meados de Outubro a situação deverá estar normalizada – um mês após a data fixada para início do ano lectivo.

Quando se tenta encontrar uma explicação para esta situação, há quem balance entre a incompetência fortuita e a incompetência intencional. Ou seja, uns acham que Nuno Crato pura e simplesmente não sabe o que anda a fazer, outros acham que Nuno Crato sabe o que anda a fazer bem de mais. Tradução: o ministério da Educação estaria a aproveitar estes atrasos inconcebíveis para poupar uns milhões em ordenados de professores. Seja qual for a opção, ela mais do que justificaria que Crato arrumasse os tarecos – e quando se junta a isso o desastre matemático na ordenação dos professores das bolsas de contratação de escola, e as mentiras que o ministro da Educação andou a espalhar pelo Parlamento, só mesmo a narcolepsia de Pedro Passos Coelho pode justificar a permanência de Crato na 5 de Outubro.

Depois de o ministro ter andado 15 dias a assobiar para o ar fingindo não ver um erro matemático básico na ordenação das listas, ele ainda foi para a Assembleia da República jurar que “os professores colocados mantêm-se”, que “eventuais duplicações serão analisadas caso a caso”, que “os alunos não serão prejudicados”. Tudo mentiras, como se viu: as listas anteriores foram simplesmente anuladas e centenas de professores foram descartados após três semanas a dar aulas. Após a asneira ter sido feita, nunca haveria boas soluções para o problema. Mas a cabeça de director-geral de administração escolar é demasiado pequena para ser a única a rolar. Nuno Crato deve ser devidamente responsabilizado – é inadmissível ter um governo que exige tanto aos portugueses e tão pouco a si próprio.

24/09/14

O absurdo de um matemático de ética trôpega

no Público,
24 Setembro de 2014

por Santana Castilho *

O absurdo de um matemático de ética trôpega
de Escher

Na véspera da data fixada para o início do ano lectivo faltavam nas escolas cerca de 3.500 professores. Estes docentes podiam e deviam ter sido colocados a tempo de participarem nos trabalhos preparatórios do ano que se ia iniciar. Mas assim não foi, por incúria do Ministério da Educação e Ciência. Na mesma altura começou, reiteradamente, a ser denunciado o erro que está na origem da ordenação dos docentes que concorreram à Bolsa de Contratação de Escola, processo através do qual os estabelecimentos de ensino com contratos de autonomia ou estatuto TEIP (Território Educativo de Intervenção Prioritária) poderiam contratar os professores em falta. A ordenação em causa foi feita através da média aritmética obtida pela consideração de duas notações ponderadas: a classificação profissional dos candidatos e a sua avaliação curricular. Só que o ministério cometeu um erro básico, inaceitável, daqueles que nenhuma contrição, por mais beata ou pública que seja, lava: somou, sem prévia conversão a uma mesma escala, duas grandezas expressas em escalas bem diferentes. Assim como se, no altar do absurdo, um aluno bronco somasse velocidade com toucinho e apresentasse o resultado em farófias. Mas este é, tão-só, o aspecto mais gritante de um conjunto de outros que atropelam a lei ou expõem a imbecilidade de quem os permitiu. Alguns exemplos, para fundamentar: três professores colocados na mesma escola para preencherem um lugar que nunca foi manifestado; professores do quadro retirados do concurso de mobilidade interna, sabe-se lá por quem, que agora não têm vínculo a escola alguma; ignorância discricionária de pedidos de renovação de contratos; cursos de curtíssima duração e duvidosa qualidade que podem valer mais que décadas de experiência lectiva; fórmulas e subcritérios subtraídos ao conhecimento de quem concorre; contactos feitos ao sábado e domingo à noite, para telefones pessoais de directores, com ultimatos para que fornecessem, num prazo de duas horas, dados de que poderia depender a vida profissional de milhares de professores. 
Com professores, directores e escolas em polvorosa e abundantes protestos públicos de pais e autarcas, o país testemunhou um ministro em negação, autocontente e ufano por ter um ano a “arrancar com normalidade”, aparentemente inconsciente ante o desastre e doentiamente alheio ao desrespeito, que personificou, pelos cidadãos, particularmente pelos muitos professores desempregados, cuja vida gratuitamente destroçou. Este ministro, na noite anterior ao cínico pedido de desculpa, ainda negava o erro. Este ministro ignorou os pareceres da Associação de Professores de Matemática e da Sociedade Portuguesa de Matemática, a que outrora presidiu e usou para criticar o que agora faz, que classificaram o processo como opaco, ilegal e injusto. Este ministro só afivelou um ar sofrido para reconhecer o erro que todos já tinham visto quando no parlamento, depois de tentar resistir, acabou vergado à pressão justa de alguns deputados. Merece crédito? Merece que aceitemos a sua desculpa? Não! Porque no momento em que a pediu, a ética trôpega por que se pauta borrou irrecuperavelmente o que já era pífio: “ Estão a assistir a uma coisa que não é comum na História, que é um ministro chegar ao parlamento e reconhecer a responsabilidade por uma não compatibilidade de escalas e um ministro assumir que o assunto vai ser corrigido”, disse, sem se enxergar, sem a mínima noção de que o maquiavelismo bacoco que acabava de usar afastaria qualquer resíduo de tolerância por parte dos que o ouviam. Valesse a moral, emergisse uma réstia de ética do pântano em que esbraceja e já teria cruzado a porta pequena de saída de um mandato de vergonha, que só acrescentou novos problemas aos velhos, já resolvidos, por ele recuperados em retrocesso inimaginável.

Que resta, depois disto? Reparar o possível. Mas o que chega não favorece o prognóstico. O secretário de Estado Casanova de Almeida reitera o que Crato disse, isto é, que nenhum dos professores beneficiados pelo erro será prejudicado. Ora a questão é bem mais que deixar no lugar quem já lá está, juntando outro, que devia estar. Trata-se de um erro sistemático, que origina injustiças em cascata. Não é um mais outro. São muitos mais pelo meio e a projecção que qualquer colocação indevida tem nas posições relativas de concursos futuros. E insistem os governantes em desvalorizar o problema porque, dizem, afecta 1% dos professores de que as escolas necessitam. Persistem pois num dolo de comunicação e na má-fé. Porque escondem que falamos de um universo de 40.000 professores e um terço de todas as escolas do país. Sejam politicamente honestos, por uma vez: anulem o concurso e partam do zero, publicando novas listas, que respeitem a lei e a matemática elementar; promovam a divulgação, por grupo de recrutamento, escola a escola, dos subcritérios utilizados; prevejam a possibilidade de corrigir candidaturas, porque ficam conhecidas variáveis que antes foram omitidas. É demorado? Então usem como critério único a graduação profissional dos candidatos. Mudem a disposição legal que o impede, como tantas vezes já fizerem para fins bem menos justificados. 

* Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt)

17/05/13

Merkel-Barroso, as comadres desavindas

--- mas só porque 'fica bem no retrato', entenda-se! Há eleições à vista e a economia alemã está de fraca saúde, convém iludir os cidadÕES! (palavra inventada pelo sr. presidente Cavaco, outro muito bem-empoleirado português!)


Merkel acusa Barroso e troika 
de serem os culpados da austeridade 

Por Margarida Bon de Sousa 
tão amigos que eles eram!/são? -- foto daqui

publicado em 17 Maio 2013 
no ionline 

Austeridade é culpa da cegueira de Bruxelas e presidente da Comissão Europeia devia ter nomeado comissário para a Grécia

Zangam-se as comadres, sabem--se as verdades. Afinal a austeridade sacrossanta que castiga países como Portugal não é culpa de Merkel ou de Schäuble, os maus da fita para mais de metade da Europa. Não. A culpa é de Bruxelas, da Comissão Europeia e do incompetente presidente Durão Barroso

Pela segunda vez em menos de um mês, o verniz voltou a estalar entre a Alemanha e Bruxelas, deste vez em sentido totalmente contrário ao da posição de Berlim quando o presidente da Comissão Europeia disse que já bastava de austeridade. Quarta-feira, num encontro informal em Berlim com jornalistas, Wolfgang Schäuble, ministro das Finanças alemão, afirmou que os programas de ajustamento da troika são demasiado rígidos e com pouca flexibilidade, criticando Durão Barroso por não ter nomeado um comissário europeu para a Grécia. Já Angela Merkel, que também participou na reunião, defendeu que o pacote de 6 mil milhões de euros para promover o emprego jovem na UE deveria antes ser utilizado para pagar reformas, de forma a serem criadas vagas nos empregos já existentes

As afirmações dos dois dirigentes alemães surgiram no mesmo dia em que foi tornado público que o produto interno bruto (PIB) da zona euro contraiu 0,2% nos primeiros três meses de 2013, o que representa a sexta queda trimestral consecutiva, naquela que é a maior e mais longa recessão desde a criação do euro. Nove destas 17 economias recuaram enquanto o PIB no conjunto dos 27 estados-membros contraiu 0,1%. 

Volte-face  
Os novos dados dão um apoio renovado a todos aqueles que defendem há muito que mais austeridade só vai criar mais recessão, numa espiral sem fim à vista. A própria Alemanha, a maior economia da zona euro, cresceu 0,1% em relação ao trimestre anterior, mas decresceu 0,3% face ao mesmo período do ano passado. Já a França, a segunda maior economia do conjunto de países que utilizam a moeda única, também caiu 0,4% relativamente a período homólogo de 2012, ao mesmo tempo que registou uma nova contracção de 0,2% relativamente ao último trimestre do ano passado. Foi certamente este quadro que por fim levou Berlim a juntar a sua voz contra a austeridade à de outros países como a Grécia, Espanha e Portugal, demarcando-se da Comissão Europeia, apesar de até agora a senhora Merkel ter sido sistematicamente apontada como a grande incentivadora dos programas impostos pela troika (Comissão, BCE e FMI) a todos os estados-membros que necessitaram de resgates para não entrarem em default (Portugal, Grécia, Irlanda e Chipre). 

A este volte-face não será alheio o facto de a chanceler alemã, que ainda mantém um alto índice de popularidade, ter pela frente uma terceira reeleição, pelo que a posição agora assumida pode inserir-se na sua próxima batalha eleitoral, depois de várias derrotas consecutivas da CDU em eleições regionais. 

Durão criticado 
Em Abril, o porta-voz da CDU “convidou” Durão Barroso a precisar o que quis dizer quando afirmou numa conferência de imprensa que os limites à austeridade eram visíveis em alguns aspectos. “Apesar de esta política estar fundamentalmente correcta, penso que alcançou os seus limites em muitos aspectos, porque uma política, para ser bem sucedida, não pode ser apenas bem estruturada. Tem de ter um mínimo de apoio político e social”, disse na altura o presidente da Comissão Europeia. 

Quarta-feira, e noutro encontro com jornalistas, Durão Barroso, acompanhado do presidente da França, François Hollande, teve um discurso mais politicamente correcto, optando por pôr a tónica das suas declarações na vitória da União Europeia, por, no seu conjunto, ter finalmente atingido o valor mágico de 3% para o défice. Um dado que nem Merkel nem Schäuble valorizaram em Berlim. 

*   *   *   *   *

e.. a não esquecer: 
Durão Barroso sai em defesa da chanceler Angela Merkel :
"O que acontece em França ou em Portugal não é culpa de Merkel ou da Alemanha”
"As decisões no seio do Eurogrupo são sempre tomadas por unanimidade. (...)»

fonte: Sol - 4 de Maio 2013, aqui 

11/09/12

Ele é um empresário de sucesso. Eu era uma simples professora de inglês, mas numa coisa estamos de acordo: ver sublinhado. Só o sr Passos não vê. Nem os lacaios dos seus economistas .. e eu pergunto-me se é assim tão transcendente enxergar o mais-que-óbvio!

Austeridade

Belmiro de Azevedo lamenta “erros permanentes” 

nas medidas tomadas


11.09.2012 - 09:00 Por Lusa

Belmiro lembra que "quando se tira dinheiro ao povo falta dinheiro para comprar coisas"

B. A. (Foto: Nelson Garrido)



O chairman da Sonae, Belmiro de Azevedo, disse na segunda-feira que Portugal não tem uma estrutura de avaliação dos impactos das medidas que implementa, alertando que apenas se faz “navegação à vista” e há “erros permanentes”.


À margem da conferência “Portugal e os Desafios da Segurança Energética”, no Porto, Belmiro de Azevedo foi questionado pelos jornalistas sobre se a descida da Taxa Social Única (TSU) para as empresas, anunciada na sexta-feira pelo primeiro-ministro, vai ajudar à criação de emprego. “Portugal não tem uma estrutura estatística nem de avaliação dos impactos. Quando se faz uma coisa, o que é que altera no outro lado? E esse é que é o problema. Nós verificamos que há erros permanentes”, respondeu.

O presidente do conselho de administração da Sonae (proprietária do PÚBLICO) questionou o que é que acontece com a economia “quando se sobe uma taxa ou se desce uma taxa”, afirmando, por exemplo, que “quando se tira dinheiro ao povo falta dinheiro para comprar coisas, quer seja na economia quer seja nas empresas”. “Isso depois tem um impacto tremendamente negativo para a actividade económica, que desaparece. Nós não temos instrumentos de estudo em Portugal como muitos países têm. É tudo navegação à vista. Faz, não dá certo, corrige porque não há informação”, sublinhou.

Na opinião de Belmiro de Azevedo, Portugal tem “um problema, mais genericamente falando, que é de arranjar algum dinheirinho para resolver esse tipo de problemas”, referindo-se à questão do emprego.

“Portugal é um país relativamente pequeno. Nós temos é que melhorar a rentabilidade daquilo que é nosso. Da floresta, do mar, da agricultura e deixemo-nos de devaneios. Já temos estradas que cheguem. E isso resolve até problemas sociais importantes, porque nós podemos empregar muitos trabalhadores portugueses em tarefas muito interessantes”, sugeriu.

Segundo notícias divulgadas na segunda-feira, que dão nota das contas feitas pelo BES Investimento, as empresas mais endividadas e com mais mão-de-obra vão ser as mais beneficiadas com a redução da TSU de 23,75% para 18%. Entre as cotadas no PSI20, Sonae, BCP e EDP são as que mais beneficiam com a redução da TSU, poupando a empresa de Belmiro de Azevedo 20 milhões de euros, de acordo com o mesmo estudo. -- fonte

20/10/11

Contabilistas sem rasgo

.
por Santana Castilho

Qualquer programa de austeridade exige, para ser credível e aceite pelos que o sofrem, que seja desenvolvido sobre uma clara estratégia de gestão e uma sólida equidade social. O Orçamento de Estado para 2012 é um simples exercício contabilístico, a que falta uma e outra coisa. Do que contém, não se retira uma ténue ideia de crescimento económico. Sem isso, o ponto de chegada será o desastre. A incógnita é prevermos o tempo em que o teremos declarado.

No Governo, temos hoje um directório de contabilistas sem rasgo. Crato ocupa lugar de destaque. O que vai dizendo sobre Educação, ora pela vacuidade ora pelo disparate das afirmações, reconduz-me às memoráveis tiradas de Américo Tomás. Um objectivo para 2012 (pág. 197 do Relatório OE 2012) é reforçar a aposta no ensino profissionalizante dos jovens que frequentam o ensino básico. Por este andar ainda vou ver bancadas de torneiro mecânico nos jardins-de-infância. 

Supor-se-ia que os quadros de síntese do OE para 2012 (veja-se, por exemplo, o Quadro III.3.17. Despesa do Estado – Classificação Funcional, donde se retira uma quebra de 1.550,5 M€ no sector) estariam fundamentados num conjunto de medidas já descritas e quantificadas pelos responsáveis pelas políticas sectoriais. Mas não é isso que acontece. O contabilista- mor, Gaspar, disse ao guarda-livros, Crato, quanto tinha na taleiga. E este irá agora dar, com a incompetência já patenteada, o respectivo contributo para a hecatombe do futuro, atirando moedas ao ar. Fala-se por aí que reduzirá os tempos lectivos da História e da Educação Física. Que suprirá a segunda língua estrangeira. Que fará uma caldeirada entre a História e a Geografia. Que acabará com o par pedagógico da EVT. Em rigor, veio para escaqueirar o que faltava. Tanto dá por onde continuará o trabalho de Lurdes Rodrigues e Isabel Alçada. 

in Diário Económico