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14/10/14

"Apanhados pela história"

publicado em 14 Out 2014
no I online

Por Nuno Ramos de Almeida*

As mulheres e homens que combatem de cara destapada pela liberdade em Kobane são uma ameaça àqueles que querem impedir a igualdade entre homens e mulheres dos curdos 

Kobane - foto daqui
No filme "Yol", "caminho" em turco, realizado a partir da prisão pelo realizador curdo Yilmaz Guney, são contadas as histórias de cinco presos que saem em licença precária da cadeia. Um deles dirige-se para a sua terra, no Curdistão ocupado pelos turcos. Numa das sequências mais belas pode ver-se o esforço dos cavalos de correrem livres pelos campos salpicados de mortos, em que os cadáveres de centenas de pessoas massacradas são transportadas em camionetas de caixa aberta, literalmente a escorrer sangue. Yilmaz teve uma vida difícil. Curdo na Turquia a contar histórias das suas gentes cedo chamou a atenção das autoridades. Foi preso pela primeira vez em 1974 por albergar anarquistas. Continua a escrever e a filmar. É preso novamente e é condenado a 15 anos de prisão. A acusação é de estar envolvido num atentado mortal. Na Turquia todos os curdos estão condenados. A história da pseudodemocracia turca é a história das prisões dos deputados, dirigentes, militantes e votantes dos partidos curdos, que são legalizados para depois serem presos todos aqueles que aparecem à luz do dia. Ser curdo é, na melhor das hipóteses, uma condenação à morte. Regra geral são condenados a viver numa ditadura para sempre. Yilmaz nunca aceitou as grades que lhe impunham. Libertou-se da prisão pela escrita e pelo pensamento, e com ajuda de camaradas conseguiu dirigir "Yol", um filme duro feito de carne e osso que ganhou a Palma de Ouro de Cannes em 1986. Posteriormente conseguiu mesmo escapar da cadeia e refugiar-se em França. Os turcos retiram-lhe a nacionalidade. Morreu de cancro com 47 anos, mas morreu sem o ferrete do opressor.

Os curdos são vítimas das fronteiras de regra e esquadro traçadas pelo colonialismo. São a maior nacionalidade sem estado. São mortos no Irão, assassinados na Turquia, gaseados no Iraque, reprimidos na Síria. Os burocratas de Bruxelas e os comandantes de drones de Washington declararam "terroristas" as organizações que combatem pela sua libertação. A vida tem sempre vários lados; os resistentes franceses era enforcados como terroristas pelos nazis. Os judeus que morreram de armas na mão nas ruas do gueto de Varsóvia foram apelidados de bandidos, criminosos, pela imprensa dos seus carrascos. Os curdos resistiram contra tudo e contra todos durante dezenas de anos. A seu favor apenas a vontade de ser livres. 

Uma noite em que dormi numa casa do PKK em Madrid, estava na cidade para preparar uma reportagem que fiz com as FARC colombianas, e tinha combinado a possibilidade de ir em reportagem para as áreas controladas pela guerrilha curda, vi uma série de vídeos de propaganda. Alguns tinham imagens de manifestantes curdos que se imolavam pelo fogo nas ruas da Alemanha, numa tentativa desesperada de chamar a atenção para um povo condenado à invisibilidade.

Com a queda do regime secular do Iraque e a guerra civil da Síria as áreas curdas ganharam liberdade. "A Região Autónoma da Rojava é um dos poucos pontos brilhantes a emergir da tragédia da revolução síria. Depois de expulsar os agentes do regime de Assad, em 2011, e apesar da hostilidade de quase todos os seus vizinhos, Rojava não só manteve a sua independência como constitui uma experiência democrática notável. Foram criadas assembleias populares enquanto órgãos de decisão final, os conselhos foram constituídos com um cuidadoso equilíbrio étnico (em cada município, por exemplo, os três principais responsáveis têm de incluir um curdo, um árabe e um assírio ou arménio cristão, e pelo menos um dos três tem de ser uma mulher), existe um exército feminista, a milícia YJA Star (União de Mulheres Livres, a estrela refere-se à antiga deusa mesopotâmica Ishtar), que realizou uma grande parte das operações de combate contra as forças do Estado islâmico", escreve David Graeber, antropólogo e activista do Occupy Wall Street no "The Guardian".

Hoje em Kobane, as centenas de combatentes curdos que se batem contra o EI - guardados ao longe pelos tanques turcos que estão lá para evitar qualquer vitória destas pessoas sobre a morte - são dirigidos por uma mulher. Mais uma vez os curdos estão cercados: o Estado Islâmico e a maior potência da NATO na região querem afogar em sangue a semente da liberdade dos curdos e provar que não pode haver na região um povo livre em que as mulheres e os homens são iguais. 

*Editor-executivo 
Escreve à terça-feira 

YOL: o filme inteiro(1h.46´), legendado em inglês:

de Guernica a Kobane: a indiferença assassina

fonte

Porque é que o mundo ignora os revolucionários curdos na Síria?

Mulheres curdas em armas na defesa de Kobane
por David Graeber (*)

Em 1937, o meu pai ofereceu-se para lutar nas Brigadas Internacionais em defesa da República Espanhola. Um possível golpe fascista foi temporariamente interrompido por uma revolta operária, liderada pelos anarquistas e socialistas, a que se seguiu, em grande parte de Espanha, uma verdadeira revolução social, levando a que cidades inteiras fossem geridas de forma directa e democrática, as indústrias ficassem sob o controle dos trabalhadores e tivesse havido uma participação radical das mulheres.

Os revolucionários espanhóis esperavam criar um modelo de uma sociedade livre que pudesse ser seguido por todo o mundo. Em vez disso, as potências mundiais puseram em prática uma política de “não-intervenção” e mantiveram um rigoroso bloqueio à república, mesmo depois de Hitler e Mussolini, os signatários declarados, começarem a fazer chegar tropas e armas para reforçar o lado fascista. O resultado foram anos de guerra civil que terminaram com a repressão da revolução e alguns dos massacres mais sangrentos de um século sangrento.

Nunca pensei que, durante a minha própria vida, iria ver isto acontecer de novo. Obviamente, nenhum facto histórico acontece na realidade duas vezes. Há milhares de diferenças entre o que aconteceu em Espanha em 1936 e que está a acontecer hoje em Rojava, as três províncias de maioria curda do norte da Síria. Mas as semelhanças são tão impressionantes, e tão angustiantes, que sinto que é minha obrigação dizer, como alguém que cresceu numa família cuja acção política era, em muitos aspectos, definida pela revolução espanhola: não podemos deixar que tudo termine, outra vez, da mesma forma. 

A Região Autónoma da Rojava (Curdistão sírio), como existe hoje, é um dos poucos pontos brilhantes – ainda que seja muito brilhante – a emergir da tragédia da revolução síria. Depois de expulsar os agentes do regime de Assad, em 2011, e apesar da hostilidade de quase todos os seus vizinhos, Rojava não só manteve a sua independência, como constitui uma experiência democrática notável. Foram criadas assembleias populares enquanto órgãos de decisão final, os conselhos foram constituídos com um cuidadoso equilíbrio étnico (em cada município, por exemplo, os três principais oficiais têm de incluir um curdo, um árabe e um assírio ou arménio cristão, e pelo menos um dos três tem que ser uma mulher), há mulheres e conselhos de juventude, e, num eco notável da organização “Mujeres Libres” (Mulheres Livres) de Espanha, existe um exército feminista, a milícia “YJA Star” (“União de Mulheres Livres “, a estrela refere-se à antiga deusa mesopotâmica Ishtar), que realizou uma grande parte das operações de combate contra as forças do Estado islâmico.

Como pode uma coisa destas acontecer e ser ainda ignorado quase por completo pela comunidade internacional, e mais ainda, em grande parte, pela esquerda internacional? Ao que parece, principalmente, porque o partido revolucionário de Rojava, o PYD, é aliado do Partido dos Trabalhadores Curdos (PKK), um movimento de guerrilha marxista, que desde os anos 70 está envolvido numa longa guerra contra o Estado turco. A Nato, os EUA e a UE classificam-no oficialmente como uma organização “terrorista”. Enquanto isso, os esquerdistas, na sua maioria, descrevem-nos como stalinistas.

Mas, na verdade, o próprio PKK já não é absolutamente nada parecido com o velho partido leninista, de cima abaixo, que já foi. A sua própria evolução interna e a transformação intelectual do seu próprio fundador, Abdullah Ocalan, que aconteceu quando estava na preso numa ilha turca desde 1999, levaram-no a mudar completamente de objectivos e tácticas.

O PKK já declarou que nem sequer pretende criar um Estado curdo. Em vez disso, inspirado em parte pela visão do ecologista social e anarquista Murray Bookchin, adoptou a visão de “municipalismo libertário”, apelando aos curdos para criarem comunidades livres de auto-governo, com base nos princípios de democracia directa, que em conjunto podiam ultrapassar os limites das fronteiras nacionais – que se espera que, ao longo do tempo, se tornem cada vez mais sem sentido. Desta forma, a proposta que fazem é de que a luta curda se possa tornar um modelo para um movimento global em direcção a uma democracia genuína, uma economia cooperativa e a dissolução gradual da nação-estado burocrática.

Desde 2005, o PKK, inspirado na estratégia dos rebeldes zapatistas em Chiapas, declarou um cessar-fogo unilateral face ao Estado turco e passou a concentrar os seus esforços no desenvolvimento de estruturas democráticas nos territórios controlados por si. Alguns questionaram quão sério isto seria na realidade. De forma clara, continua a haver traços autoritários. Mas o que tem acontecido em Rojava, quando a revolução síria deu a oportunidade aos radicais curdos de realizarem experiências deste género num grande e contínuo território, sugere que isto é tudo menos uma obra de fachada. Conselhos, assembleias e milícias populares foram constituídos, as propriedades do regime foram entregues a cooperativas geridas pelos trabalhadores – e tudo isto apesar dos ataques continuados por parte das forças de extrema-direita do ISIS (Estado Islâmico). Os resultados vão de encontro a qualquer que seja a definição de uma revolução social. Pelo menos, no Médio Oriente estes esforços têm sido notados: sobretudo depois das forças do PKK e de Rojava terem aberto com êxito uma passagem através do território do ISIS no Iraque para salvarem milhares de refugiados Yezidi, presos no Monte Sinjar, após os peshmerga locais terem abandonado o terreno. Essas acções foram amplamente celebradas na região, mas curiosamente não receberam quase nenhuma atenção por parte da imprensa europeia ou norte-americana.

Agora, o ISIS voltou, com dezenas de tanques e artilharia pesada, de fabrico norte americano, capturados às forças iraquianas, para se vingar de muitas dessas mesmas milícias revolucionárias em Kobane, afirmando a sua intenção de massacrar e escravizar – sim, literalmente escravizar – toda a população civil. Enquanto isto, o exército turco está na fronteira impedindo que reforços e munições cheguem aos defensores (de Kobane, ndt), e os aviões dos Estados Unidos fazem-se ouvir em ocasionais e simbólicos ataques rápidos – aparentemente, apenas para que não se diga que não fizeram nada quando um grupo, contra o qual afirma estar em guerra, esmaga os defensores de uma das grandes experiências democráticas do mundo. 

Se se fizesse um paralelismo hoje com os falangistas de Franco, superficialmente devotos e assassinos, com quem seria senão com o ISIS? Se há um paralelismo com as Mujeres Libres da Espanha, com quem será senão com as mulheres corajosas que defendem as barricadas em Kobane? O mundo – e desta vez da forma mais escandalosa de todas, a esquerda internacional – vai ser outra vez cúmplice ao deixar que a história se repita?

(*) Artigo do antropólogo anarquista David Graeber publicado hoje no “The Guardian”. 
Tradução “Portal Anarquista” 

guerra civil síria
Situación militar actual en Siria. Territorios:
     Controlados por la autoadministración kurda     Controlados por el gobierno sirio     Controlados por el Estado Islámico de Irak y el Levante     Controlados por otros rebeldes

ler também:
  • Por que a Turquia resiste a intervir contra o 'Estado Islâmico'?
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/10/141009_turquia_ei_lab

  • Solidariedade com Rojava e Kobani! Apoiar a resistência curda contra o ISIS! 
http://www.ligasocialista.com/news/solidariedade-com-rojava-e-kobani!-apoiar-a-resist%C3%AAncia-curda-contra-o-isis!-/