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31/01/15
«Meus queridos analfabetos»
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| de Picasso |
20/01/2015
por José Fanha *
A figura que há tempo domina a cena social é a do "analfabeto secundário". Pode ser um ministro, um gestor, uma empregada de caixa de supermercado.
Sorrio sempre que alguém diz: "Não gosto de ler."
Todo o homem é um leitor. Lê imagens, sinais, signos e palavras. Lê a linguagem das nuvens e sabe que vai chover. Lê a linguagem dos pássaros, a das cabras, a das águas, lê todas as linguagens da natureza. Lê as linguagens que se lêem com a vista, com o olfacto, com o sabor, com o ouvido, com a pele. Para sobreviver na selva ou na tundra, os nossos antepassados dos tempos pré-históricos tinham que ser muito bons leitores.
A esta capacidade original de ler veio juntar-se a capacidade de nomear através da palavra. Esse foi um primeiríssimo acto mágico e maravilhoso, fundador da história da humanidade.O próprio mundo na tradição judaico-cristã é criado pela palavra. Segundo o Génesis:"No princípio, Deus criou os céus e a terra.A terra era informe e vazia. As trevas cobriam o abismo, e o Espírito de Deus movia-Se sobre a superfície das águas.Deus disse: 'Faça-se luz'. E a luz foi feita. Deus viu que a luz era boa e separou a luz das trevas. Deus chamou dia à luz e noite às trevas."O criador do Homem e do Mundo disse: "Faça-se luz". Isto é, a palavra gerou a coisa. Mais do que isso, a palavra e a coisa ficaram indissoluvelmente ligadas. A coisa contém a palavra. Melhor, contém o nome. E o nome convoca a coisa.Aos olhos de cada ser humano, aquela extraordinária descoberta que era a palavra dita continha uma forma de poder sobre o objecto nomeado. Pelo menos cada palavra era uma forma de um homem se aproximar da verdade nuclear daquilo que era nomeado, da inteireza fragmentada entre céus e terra, água, fogo e ar. Nomear seria uma forma de aproximação ao próprio acto primeiro dos deuses na criação do mundo e das coisas.Esse era e é o poder dos analfabetos primários que são definidos desta forma pelo poeta e ensaísta alemão Hans Magnus Henzensberger: o analfabeto clássico não sabe ler nem escrever, precisa da memória, e tem de exercer a capacidade de narrar.Foram analfabetos que pegaram na palavra e inventaram a literatura nas suas formas elementares, o mito, o conto, a canção, as rimas infantis. E é com esses instrumentos que os analfabetos se relacionam consigo próprios, com os outros, com o mundo, com o correr do tempo.Sem querer idealizá-los ou embarcar na ilusão do bom selvagem, há que lembrar que sem tradição oral não haveria poesia, não haveria livros. A escrita levou tempo a fazer a sua entrada em cena. No entanto, inventada a escrita, durante muito tempo foi considerado preguiçoso aquele que tivesse o hábito de recorrer ao livro, já que, segundo Platão, a sabedoria na sua dialéctica tinha de ser oral.O escrito debilitava o pensamento e destruía a memória. Ao contrário do orador, o texto escrito não era capaz de dar respostas nem se poderia defender quando questionado.A verdade é que a escrita foi uma tecnologia que levou tempo a desenvolver-se e a ser utilizada integral e proficuamente pelo pensamento filosófico e científico, e bastante mais tempo ainda a entrar no quotidiano como um instrumento generalizado de relação individual e, digamos, poética com o mundo, para além da sua função de relatar o real.No seu excepcional romance Vinte anos e um dia, o escritor Jorge Semprún afirma de uma forma simultaneamente definitiva e carregada de ironia que: “As histórias completamente verídicas só interessam à polícia.”De facto, todos nós somos feitos do que vivemos, do que lemos, do que imaginamos e do que escrevemos. Como leitores, preservamos pedaços do pensamento, da emoção vivida ou escrita por outra pessoa para nos tornarmos nós próprios em participantes de um acto de criação, uma forma de diálogo que desenvolvemos connosco próprios, com o mundo e com o tempo.É a leitura e a escrita que nos permitem habitar o tempo para trás e para a frente, no sentido da memória, ou da esperança.Vivemos um tempo dominado por uma economia que mata, como diz o Papa Francisco, uma economia que reduz o entendimento da complexidade do mundo, que vê a cultura como mercadoria e a ciência como estrito instrumento prático. Esta economia reduz a vida dos homens a uma coisa sórdida e limitada em que o desejo é estereotipado e a vida é uma prisão chamada tempo presente.A figura que há tempo domina a cena social é a do “analfabeto secundário”. Pode ser um ministro, um gestor, uma empregada de caixa de supermercado. Sabe ler e escrever mas diz com frequência que não tem tempo para ler, tem coisas mais importantes para fazer. É activo, adaptável, tem boa capacidade para abrir caminho, safa-se na vida. Está muito bem informado sobre os importantíssimos assuntos do dia que amanhã esquecerão. Sabe ler as informações de uso dos objectos que compra. Sabe usar os cartões de crédito e sabe passar cheques. Vive dentro de um mundo que o afasta hermeticamente de tudo quanto possa inquietar a sua consciência. A atrofia da memória não o preocupa. Aprecia a sua própria capacidade para se concentrar em nada. Vê a cultura como espectáculo ou mercadoria. Não tem a menor ideia de que é um analfabeto, analfabeto secundário, mas analfabeto.A sua escrita está reduzida ao mínimo. O seu meio ideal é a televisão, as redes sociais, o SMS. Habita o território do lugar-comum e alimenta-se de doses fartas das “reflexões” de comentadores, políticos, económicos, desportivos e outros produtores do pensamento único.
*Poeta e escritor, comissário do 1.º Encontro da Literatura Infanto-Juvenil da Lusofonia
«A cigarra e a formiga»
no Público,
31/01/2015
31/01/2015
por Manuel Loff *
“Um conto de crianças” ganhou as eleições gregas. É o que diz Pedro Passos Coelho, esse grande filósofo moral. Para ele, as propostas do partido vencedor, o Syriza, que começou por fazer o mais básico (paralisar novas privatizações e repor o salário mínimo de há cinco anos atrás), são as de quem “não quer assumir os seus compromissos, não pagar as suas dívidas, querer aumentar os salários, baixar os impostos e ainda [julgar que] os seus parceiros [têm a obrigação de] garantir o financiamento sem contrapartidas” (PÚBLICO, 26.1.2015). Não haverá, entre aquela revoada de assessores de São Bento, alguém que explique ao lamentável PM que temos que de “faltar a compromissos” é do que ele menos pode falar? Ele, o homem que garantiu em 2011 que não despediria funcionários públicos nem cortaria pensão alguma de reforma – e meses depois fez uma coisa e a outra, e muito pior do que alguma troika tinha pedido, a ele ou ao outro filósofo que o antecedeu, Sócrates.
de Paula Rego
O ministro Marques Guedes elevou o nível do debate ao dizer que a Grécia e Portugal dos últimos anos, cheios de nova pobreza, fome, morte por deliberado desleixo público e emigração, lhe “lembram a história da cigarra e da formiga” (DN, 29.1.2015). Suponho que o ministro se referiria a essas cigarras gregas, desavergonhadas, cuja mortalidade infantil aumentou 40% desde que as receitas da troika levaram ao corte de outros 40% (desde 2008) do orçamento para a Saúde. Já em 2011, Piet Moerland, um dos grandes patrões da banca holandesa (esse país de formiguinhas, como bem se percebe visitando Amesterdão), achava que os gregos “precisam de sentir o patamar da dor” (citado por I. Beugel, NRC Handelsblad, 21.6.2011). Eis a dor: “35 mil médicos, enfermeiros e outro pessoal sanitário perderam os seus empregos. (…) As novas infeções por HIV mais do que duplicaram (...) — o orçamento para a troca de seringas foi cortado.” O mesmo aconteceu aos programas de combate ao mosquito da malária – e a doença manifestou-se “em números significativos pela primeira vez desde os anos 70” (D. Stuckler, S. Basu, “How Austerity Kills”, New York Times, 12.5.2013). E eis o indício: devem ser cigarras que andam a morrer nas urgências dos hospitais públicos portugueses.
No seu “conto de crianças” pessoal, Passos explica que “a troika não pede para ir aos países. (…) Em Portugal, por exemplo, foi o Governo que chamou a troika”. E na Grécia também. Exatamente como aqui: um governo socialista, com a assinatura por baixo do maior partido da direita, que rapidamente substituiu os socialistas. Como os votos não chegavam no Parlamento, fizeram o que a troika lhes pediu: juntaram-se todos no governo, construíram o famoso “consenso” de que tanto fala Cavaco e mantiveram os “compromissos” de que tanto falam eurocratas, ministros alemães e demais democratas-sim-mas. Os mesmos que governaram a Grécia desde 1974 (os mesmos que governam Portugal desde 1976...), lavaram-se de responsabilidades, apresentaram-se como formiguinhas reformistas e declararam guerra às cigarras (primeiro funcionários públicos e pensionistas, depois imigrantes e desempregados, por fim a todo o assalariado). Graças à chantagem “ou nós, ou não há mais salários nem pensões!”, ganharam à tangente as eleições de 2012. Há uma semana perderam-nas por grande distância; em menos de seis anos, os dois partidos do bloco central grego passaram de 5,3 para 2 milhões de votos (32,5%). O que agora sói chamar-se a esquerda radical (o Syriza e os comunistas) passou de 830 mil para 2,6 milhões (42%).
Uma linguagem pseudomoral acompanha a indisfarçável irritação que esta vontade emancipadora dos gregos provoca entre a direita e os socialistas austeritários que governam a Europa. Como reiteradamente tem denunciado Paul Krugman, reemerge do mais fundo da arrogância (e da desonestidade intelectual) um discurso moralista. O dos eurocratas que “continuam a tratar a dívida [pública] como uma questão puramente moral” (NYT, 28.1.2015). Se a explicação económica (ou política) não convence, venham daí as fábulas morais! Funciona até melhor se lhe misturarmos uma dose suficiente de preconceito racista, disfarçado de “incompatibilidade cultural”. Não é preciso ser-se um demagogo populista da extrema-direita holandesa como Geert Wilders para descrever os gregos como “drogados” a quem se não deve dar dinheiro, atitude, aliás, que deve ser seguida com todos os “países do alho”, isto é, os países do Sul da Europa. Esta linguagem tomou há muito conta das elites políticas e económicas da Europa do Norte. Thilo Sarrazin, ex-governante social-democrata alemão e ex-administrador do Bundesbank acha que “se os gregos preferem dormir a sesta em vez de trabalhar, se desejam ausentar-se do escritório para estar com a amante, é lá com eles. (…) Não venham depois pedir-nos que paguemos a fatura” (entrevista a Olivier Cyran, Le Monde Diplomatique, julho 2012). Já antes, a formiguinha Sarrazin, ministro regional das finanças em Berlim, dissera não ter “respeito por ninguém que vive da segurança social (…) e não pára de produzir rapariguinhas de véu na cabeça”, referindo-se a “70% dos turcos e 90% dos árabes” (Lettre International, setembro 2009). Só quando começou a falar de “características genéticas” dos judeus é que alguém reparou que havia racismo naquilo a que Sarrazin chama “libertar-se do politicamente correto”!
Podem os gregos ser quem mais trabalha na Europa (2037 horas/ano, contra 1388 dos alemães, 1380 dos holandeses ou 1712 dos portugueses - OECD. StatExtracts). Pode o seu governo ser o que menos gasta em proteção social de todos os 15 primeiros Estados-membros da UE. A legitimação da mais violenta divisão internacional do trabalho que desde há 25 anos se está a fazer na Europa não se compadece com a realidade. Face à concorrência internacional, uma das soluções encontradas pela nova ortodoxia ultraliberal é a de reconstituir as velhas divisões entre uma Europa rica (o Centro-Noroeste) e uma Europa pobre (o Leste e o Sul). A segunda é desde a implosão do “socialismo real” produtora de mão de obra e qualificada mal remunerada e quase sem direitos sociais, agora complementada com 70 milhões de gregos, espanhóis e portugueses, que há que convencer a aceitar esse “patamar da dor”. Para erradicar a preguiça.
* historiador, investigador
sobre "cigarras e formigas", A NÃO PERDER:
«O espectro que assola a Europa»
texto e foto retirados daqui
por Pacheco Pereira
31/1/2015,
no Público
por Pacheco Pereira
31/1/2015,
no Público
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| Pablo Iglésias, num comício do PODEMOS em Valência no fds passado |
Passou uma semana desde que o Syriza ganhou as eleições na Grécia, quase com maioria absoluta, com um programa anti-troika e anti-austeritário, logo a seguir aliou-se com outro partido nacionalista e anti-troika, e no dia seguinte o seu líder visitou um memorial dos fuzilados na guerra contra a ocupação alemã, negociou com o Arcebispo Ieronymos de Atenas uma dupla cerimónia de juramento do governo grego, uma laica para os ministros ateus ou agnósticos e outra religiosa para os ministros cristãos, e ainda não pôs gravata. E começou a tempestade europeia, abrindo caminho a políticas distintas das dos últimos anos impostas pela Alemanha. Espero que tudo termine em bem para os gregos e que isso ajude a mudar a Europa que bem precisa. Para que haja contágio.
Se eu quiser descrever o que se passou de outra forma posso fazê-lo. Passou uma semana desde que um partido radical da extrema-esquerda ganhou as eleições na Grécia, mas não conseguiu a maioria absoluta, com um programa que quer a Grécia a mandriar e os gregos na boa vida, e os outros países da Europa a pagar a factura, logo a seguir aliou-se com um partido de extrema-direita, à direita do CDS, foi homenagear os guerrilheiros comunistas, e rompeu as obrigações que tinha com a Constituição grega, que definem a Grécia como tendo uma religião de estado, e com um primeiro-ministro que é mal-educado e não sabe vestir a roupa própria para cerimónias protocolares. E começou a tempestade grega, com os gregos a irem provar o fel de terem escolhido uns energúmenos demagogos para se governarem. Desejo que tudo se faça para que a “minha” política alemã “inevitável”, “sem alternativa”, não venha a ser posta em causa e que os gregos paguem duramente o preço da sua aventura, para que tudo continue na mesma. Para que haja vacina.
Basta comparar estas duas versões, para se perceber o grau de radicalização que hoje implica mudar, na Europa, como se as relações de poder tivessem ficado congeladas num momento da história recente e ninguém quisesse partir essa redoma de gelo. E foi mesmo isso que aconteceu. De há uns anos para cá, ou melhor desde que a Alemanha abriu a crise das dívidas soberanas, que é uma “construção” política artificial, escolhida, desejada e desencadeada, lançada às feras dos mercados, de natureza muito diferente da crise bancária suscitada pelos activos tóxicos e pela derrocada do Lehman Brothers, que a mudança parecia impossível. Num pequeno espaço de tempo, a União Europeia ensaiou uma resposta keynesiana, de injectar dinheiro nas economias para impedir que a crise bancária fizesse estragos consideráveis numa Europa sob assalto tóxico, seguida de imediato de um travão a fundo e do prosseguimento de duras políticas austeritárias, escolhendo uma linguagem punitiva para apontar os alvos. Começou pela Grécia e depois foi Portugal, esteve para ser a Espanha e a Itália.
Estava tudo bem nesses países? Não, não estava nada bem, mas a abertura artificial da “crise das dívidas soberanas” tornou tudo pior, porque impediu de imediato que esses países acedessem aos mercados e tornou-nos dependentes das políticas que levaram à troika. A relação de causa efeito não é entre os descalabros orçamentais e as dívidas cada vez mais altas desses países e os “resgates”, mas entre a criação de um novo tipo de crise com as dívidas soberanas dos estados, que infectaram os mercados e deram origem aos resgates. Nesse processo, acabou o directório, que já era uma perversão do funcionamento da União Europeia e passou-se ao exercício do poder único da Alemanha, que mudou de aliados na Europa. Deixou a França apagar-se cada vez mais e ligou-se aos países pequenos da linha dura anti-PIGs, como a Finlândia ou a Holanda.
Ou seja, a crise das dívidas soberanas permitiu a hegemonia alemã, que a Alemanha usou para impor um Tratado Orçamental que tornava rígida a sua política em toda a União Europeia, impediu o Banco Central Europeu de avançar com qualquer outra solução alternativa para conter a crise, e fez tudo para bloquear qualquer esboço de resistência à sua política. O Reino Unido isolou-se ainda mais, a França enfraqueceu-se, a Espanha conseguiu in extremis não seguir os PIGs, a Itália permaneceu na corda bamba, a Irlanda, Portugal e Grécia subjugaram-se em desespero de causa. Os socialistas traíram um pouco por todo o lado, assinando o Tratado Orçamental, aliando-se como parceiros menores aos vários governos alemães, e, quando tinham sido eles a estarem no poder no momento dos resgates, ou foram reduzidos a partidos menores ou desapareceram do mapa dos grandes partidos, como aconteceu com o PASOK. Não havia “alternativa”, embora desde o início essas alternativas surgissem mas foram descartadas como exercícios de irrealismo político quase subversivo. Uma política genuinamente radical, como a que foi seguida por vários países europeus, como é o caso do governo português, passou a ocupar o “centro político”, o “arco da governação”. Eles é que eram radicais, mas chamavam radicais a todos os que lhe contestavam a “inevitabilidade”. No intervalo, países que seguiram outras receitas para combater a crise, passaram quase a bolchevistas, como era o caso dos EUA.
Era só uma questão de tempo até que outros verdadeiros radicais acabassem por vir tomar o lugar dos partidos social-democratas, democratas-cristãos, centristas, que cederam aos diktats alemães. Cresceram os partidos democráticos, conservadores e eurocépticos, como UKIP, que, como contestava a ortodoxia europeia, passou também a ser considerado radical. Mas cresceram os partidos de direita mais extrema, como a Frente Nacional e partidos neo-nazis, que deixam Marine Le Pen num altar de moderação, como é o caso da Aurora Dourada na Grécia. E cresceu o Syriza e o Podemos. Mas, mais significativo do que tudo isso, todos traduziram as tendências crescentes do eleitorado de muitos países de recusar a deriva anti-democrática da União Europeia, e a hegemonia das políticas alemãs de austeridade punitiva. Se hoje a União, como está, fosse a votos, na maioria dos países, não passava no eleitorado.
As pessoas sabem disso, os governantes que estão irresponsavelmente a destruir a União como ela existia, também sabem. A União Europeia não sobrevive à substituição de uma política de coesão e de interesse mútuo pela pergunta pavloviana dos novos mestres: “quem é que paga?”. É que antes também só alguns pagavam, mas percebiam que a construção da Europa era uma vantagem política para todos, e que o preço era pequeno. Pagavam desmandos? Pagavam e sabiam que pagavam, quer fosse a falcatrua das contas gregas quer fossem os privilégios dos agricultores franceses. Hoje quem pergunta “quem paga?”, para depois dizer que não quer pagar para esses preguiçosos do sul, está a usufruir das vantagens da União, a garantir que o euro é uma nova versão do seu marco, ou que os mercados a leste lhes estão abertos como nunca estiveram desde o tempo nefasto do Generalgouvernement, ou que puderam beneficiar do fim da guerra fria sem grandes turbulências à porta. Desequilibrem a Europa e depois admirem-se de Putin estabilizar as suas conquistas a Leste; dividam a Europa entre os amigos da austeridade e os seus inimigos e depois queixem-se de muitos segundos ou terceiros partidos serem extremos, anti-europeus, populistas, radicais; aticem os mercados contra os “que se portam mal” e depois queixem-se de haver saídas do euro, e queixem-se ainda mais se elas se revelarem vantajosas a prazo.
Ninguém pode garantir que o Syriza tenha sucesso, e também não é fácil definir qual o grau de cumprimento das suas intenções que possa ser considerado pelos gregos um sucesso, mas os gregos que votaram no Syriza prestaram um enorme serviço à Europa, desbloquearam-na, abriram novas possibilidades, umas boas e outras más. Os gregos fizeram história, no sentido de que quem conhece a história sabe que ela é sempre surpresa. É por isso que, como na célebre frase de 1848, um espectro assola a Europa: o do Syriza.»
– Pacheco Pereira, no Público.
30/01/15
PACC: "A estupidez à solta"
no Público,
30/01/2015
ler também:
30/01/2015
por Vasco Pulido Valente
Dezenas de analfabetos que gostam de se dar ares fizeram um escândalo com o aparente excesso de erros de ortografia, pontuação e sintaxe dos 2490 professores que se apresentaram à “Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades” (PACC). Deus lhes dê juízo.
Para começar, não há em Portugal uma ortografia estabelecida pelo uso ou pela autoridade. Antes do acordo com o Brasil – um inqualificável gesto de servilismo e de ganância –, já era tudo uma confusão. Hoje, mesmo nos jornais, muita gente se sente obrigada a declarar que espécie de ortografia escolheu. Pior ainda, as regras de pontuação e de sintaxe variam de tal maneira que se tornaram largamente arbitrárias. Já para não falar na redundância e na impropriedade da língua pública que por aí se usa, nas legendas da televisão, que transformaram o português numa caricatura de si próprio; ou na importação sistemática de anglicismos, derivados do “baixo” inglês da economia e de Bruxelas.
De qualquer maneira, a pergunta da PACC em que os professores mais falharam acabou por ser a seguinte: “O seleccionador nacional convocou 17 jogadores para o próximo jogo de futebol (para que seria?). Destes 17 jogadores, 6 ficarão no banco como suplentes. Supondo que o seleccionador pode escolher os seis suplentes sem qualquer critério que restrinja a sua escolha, poderemos afirmar que o número de grupos diferentes de jogadores suplentes (é inferior, superior ou igual) ao número de grupos diferentes de jogadores efectivos.” Excepto se a palavra “grupo” designar um conceito matemático universalmente conhecido, a pergunta não faz sentido. Grupos de quê? De jogadores de ataque, de médios, de defesas? Grupos dos que jogam no estrangeiro e dos que, por acaso, jogam aqui? Não se sabe e não existe maneira de descobrir ou de responder. O dr. Crato perdeu a cabeça.
Na terceira pergunta em que os professores mais falharam, o dr. Crato agarrou nas considerações tristemente acéfalas de um cavalheiro americano sobre “impressão e fabrico” de livros. Esse cavalheiro pensa que há “livros em que a beleza é um desiderato” (ou seja, a beleza do objecto) e outros “em que o encanto não é factor de importância material” (em inglês, “material” não significa o que o autor da PACC manifestamente julga). E o homenzinho acrescenta pressurosamente: “Quando tentamos uma classificação, a distinção parece assentar entre uma obra útil e uma obra de arte literária”. A obra de arte pede beleza ao tipógrafo (ao tipógrafo?), a obra útil só pede “legibilidade e comodidade de consulta”. Perante este extraordinário cretinismo, a PACC exige que os professores digam se o “excerto” “ilustra” os dois termos de uma comparação, o primeiro, o segundo ou nenhum deles. Uma pessoa pasma como indivíduos com tão pouca educação e tão pouca inteligência se atrevem a “avaliar” alguém.
ler também:
- O que prova a PAAC?, por Ana Lima
- Português dos redactores da PACC não cumpre os requisitos mínimos, por Luís Miguel Queirós
entender a História
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| Yanis Varoufakis, ministro das Finanças do Governo do Syriza |
Yanis Varoufakis é o ministro das Finanças do governo grego do Syriza. É
um reconhecido economista greco-australiano, professor na Universidade
do Texas e na Universidade de Atenas. Em março de 2014, foi um dos 74
economistas de 20 países que assinaram o manifesto internacional que apelou à reestruturação da dívida portuguesa e apoiou o manifesto das 70 personalidades portuguesas.
Entrevista com Yanis Varoufakis, ministro das Finanças do Governo do Syriza
Nesta entrevista, para o público falante de alemão, dada a Johanna Jaufer da cadeia pública austríaca ORF, Varoufakis afirma: “A Europa não aprendeu com as lições da história e, enquanto não mudarmos de rumo, é altamente improvável que consigamos manter o conjunto da união”.
excertos:
Algo que foi divulgado várias vezes na Alemanha e na Áustria é o assunto das reparações de guerra (...)
Nos anos 40, os Aliados tinham decidido converter de novo a Alemanha num país camponês. Propuseram o desmantelamento de 700 fábricas, e foram os norte-americanos que travaram esse plano. De maneira que, sim, destruíram 700, mas depois mudaram de ideias. Mudaram por razões que têm a ver com o modo como os EUA estavam a desenhar o capitalismo global: precisavam de uma moeda forte na Europa e de uma moeda forte na Ásia (que acabaram por ser o marco alemão e o iene japonês), e todo o projeto da União Europeia se construiu em torno desse plano.
Na Europa nós gostamos de pensar que a União Europeia foi uma criação nossa. Não foi. Foi um desenho norte-americano que depois nós adotamos e que, certamente, era congruente com o que desejávamos, com as nossas aspirações. Parte desse desenho passava por estimular a economia alemã, tirá-la da depressão, tirá-la do poço em que se encontrava nos anos 40, e uma componente importante de qualquer tentativa de revigorar uma economia passa por aliviar a sua dívida, por um corte importante da dívida, pelo perdão de dívida.
Assim, em 1953 foi organizada a Conferência da Dívida em Londres, da qual resultou um violento corte da dívida alemã em prejuízo de muitas nações, entre as quais a Grécia. Mas a Grécia é um caso especial, porque a Alemanha tinha contraído com ela uma dívida que não tinha com nenhuma outra nação: em 1943, a Kommandatur aqui, em Atenas, impôs ao Banco da Grécia um acordo pelo qual este banco imprimiria um montão de dracmas – dracmas de guerra— e fornecê-lo-ia às autoridades alemãs para que estas pudessem comprar material, financiar os seus esforços de guerra e acumular bens agrícolas para a Wehrmacht, etc.
O interessante é que as autoridades alemãs assinaram um contrato: deixaram por escrito o montante de dinheiro que tomavam como empréstimo. Prometeram pagar juros. Foi, por conseguinte, um empréstimo formal. Os documentos existem ainda e encontram-se em poder do Banco (Central) da Grécia. Em nenhum outro país aconteceu algo parecido. De modo que isto é como uma dívida oficial, como um título, contraído com a Grécia em tempo de guerra pelo estado nazi alemão.
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Por que é que muitas pessoas da Europa setentrional não temeram que os cortes nos direitos laborais nos anos 90 pudessem ser presságio do mesmo tipo de coisas que agora estão a ocorrer aqui (na Grécia)?
Acho que tudo é culpa de Esopo. A sua fábula da formiga e da cigarra: a formiga trabalha duro, não desfruta da vida, guarda dinheiro (ou valor), enquanto a cigarra se limita a descansar ao sol, a cantar e a não fazer nada, e depois vem o inverno e põe cada uma no seu lugar. É uma boa fábula: desgraçadamente, na Europa predomina a estranhíssima ideia de que todas as cigarras vivem no Sul e todas as formigas no Norte. Quando, na realidade, o que há são formigas e cigarras em todo o lado.
O que aconteceu antes da crise - é a minha revisão da fábula de Esopo— é que as cigarras do Norte e as cigarras do Sul, banqueiros do Norte e banqueiros do Sul, por exemplo, se aliaram para criar uma bolha, uma bolha financeira que os enriqueceu enormemente, permitindo-lhes cantar e descansar ao sol, enquanto as formigas do Norte e do Sul trabalhavam, em condições cada vez mais difíceis, até nos tempos bons: conseguir que as contas quadrassem em 2003, em 2004, não foi nada fácil para as formigas do Norte e do Sul; e depois, quando a bolha, que as cigarras do Norte e as cigarras do Sul tinham criado, estoirou, as cigarras do Norte e do Sul puseram-se de acordo e decidiram que a culpa era das formigas do Norte e das formigas do Sul. A melhor forma de fazer isso era confrontar as formigas do Norte com as formigas do Sul, contando-lhes que no Sul só viviam cigarras. Assim, a União Europa começou a fragmentar-se, e o alemão médio odeia o grego médio, o grego médio odeia o alemão médio. Não tardará que o alemão médio odeie o alemão médio, e o grego médio odeie o grego médio.
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No tocante à decisão do Sr. Draghi de inundar o mercado com biliões de euros, vi que você disse que isso é como usar uma pistola de água num incêndio florestal.
Acho que o Sr. Draghi tem boas intenções. Quer manter unida a zona euro, e é muito competente. Faz o que pode, dadas as restrições que tem. Não tenho a menor dúvida - ainda que ele nunca o admita - de que entende cabalmente que o que está a fazer é demasiado pouco e demasiado tarde: uma pistola de água perante um grande incêndio florestal. Mas ele acha que até uma pistola de água é melhor que nada. Se se declarou um incêndio, ele preferiria servir-se de um canhão de água, e teria preferido começar a usá-lo antes, mas não era permitido porque na Europa temos uma Carta do BCE que o ata de pés e mãos e o lança perante o monstro da deflação, o que é muito injusto para o BCE.
E assim será enquanto a Europa não compreender o que é imperiosamente necessário do ponto de vista económico para sustentar uma união monetária, enquanto não entender por que se dá toda esta fragmentação e a crescente renacionalização de tudo, incluída agora a flexibilização quantitativa do senhor Draghi (80% das compras de títulos serão realizadas pelos Bancos Centrais nacionais, como se estes existissem separadamente do BCE). Porque essa fragmentação e essa renacionalização é exatamente o oposto do que deveríamos estar a fazer, apoiar, consolidar.
Como se formaram os EUA? Pois, porque cada vez que tinham uma crise - a Guerra Civil, a Grande Depressão - avançavam na sua união. Nós dizemos que estamos a fazer isso com as “uniões bancárias”, com os “Mecanismos Europeus de Estabilização”, mas não é verdade. Criámos uma união bancária que não é uma união bancária, é uma desunião bancária, e chamamo-la, à maneira orwelliana, “união bancária”. A Europa não aprendeu com as lições da história , e enquanto não mudarmos de rumo, é altamente improvável que consigamos manter o conjunto da união.
ler entrevista completa aqui
What You (Germans) Were Never Told About Greece
29/01/2015 por Aventar
* uma espécie de Finantial Times alemão
Carta Aberta de Alexis Tsipras aos Leitores do Handelsblatt *
13/1/2015 (antes da vitória do Syriza na Grécia)
O que nunca vos disseram sobre a Grécia
A maior parte de vós, caros leitores do Handelsblatt, terá já uma ideia preconcebida acerca do tema deste artigo, mesmo antes da leitura. Rogo que não cedais a preconceitos. O preconceito nunca foi bom conselheiro, principalmente durante períodos em que uma crise económica reforça estereótipos e gera fanatismo, nacionalismos e até violência.
Em 2010, a Grécia deixou de conseguir pagar os juros da sua dívida. Infelizmente, as autoridades europeias decidiram fingir que o problema poderia ser ultrapassado através do maior empréstimo de sempre, sob condição de austeridade orçamental, que iria, com uma precisão matemática, diminuir drasticamente o rendimento nacional, que serve para pagar empréstimos novos e antigos. Um problema de insolvência foi tratado como se fosse um problema de falta de liquidez.
Dito de outro modo, a Europa adoptou a táctica dos banqueiros com pior reputação, que não reconhecem maus empréstimos, preferindo conceder novos empréstimos à entidade insolvente, tentando fingir que o empréstimo original está a obter bons resultados, adiando a bancarrota. Bastava bom senso para se perceber que a adopção da táctica “adiar e fingir” levaria o meu país a uma situação trágica. Em vez da estabilização da Grécia, a Europa estava a criar as condições para uma crise auto-sustentada que põe em causa as fundações da própria Europa. O meu partido e eu próprio discordamos veementemente do acordo de Maio de 2010 sobre o empréstimo, não por vós, cidadãos alemães, nos terdes dado pouco dinheiro, mas por nos terdes dado dinheiro em demasia, muito mais do que devíeis ter dado e do que o nosso governo devia ter aceitado, muito mais do que aquilo a que tinha direito. Dinheiro que não iria, fosse como fosse, nem ajudar o povo grego (pois estava a ser atirado para o buraco negro de uma dívida insustentável), nem sequer evitar o drástico aumento da dívida do governo grego, às custas dos contribuintes gregos e alemães.
Efectivamente, passado menos de um ano, a partir de 2011, as nossas previsões confirmaram-se. A combinação de novos empréstimos gigantescos e rigorosos cortes na despesa governamental diminuíram drasticamente os rendimentos e, não só não conseguiram conter a dívida, como também castigaram os cidadãos mais frágeis, transformando pessoas que, até então, haviam tido uma vida comedida e modesta em pobres e mendigos, negando-lhes, acima de tudo, a dignidade. O colapso nos rendimentos conduziu milhares de empresas à falência, dando um impulso ao poder oligopolista das grandes empresas sobreviventes. Assim, os preços têm caído, mas mais lentamente do que ordenados e salários, reduzindo a procura global de bens e serviços e esmagando rendimentos nominais, enquanto as dívidas continuam a sua ascensão inexorável. Neste contexto, o défice de esperança acelerou de forma descontrolada e, antes que déssemos por ela, o “ovo da serpente” chocou – consequentemente, os neo-nazis começaram a patrulhar a vizinhança, disseminando a sua mensagem de ódio.
A lógica “adiar e fingir” continua a ser aplicada, apesar do seu evidente fracasso. O segundo “resgate” grego, executado na Primavera de 2012, sobrecarregou com um novo empréstimo os frágeis ombros dos contribuintes gregos, acrescentou uma margem de avaliação aos nossos fundos de segurança social e financiou uma nova cleptocracia implacável.
Recentemente, comentadores respeitados têm mencionado a estabilização da Grécia e até sinais de crescimento. Infelizmente, a ‘recuperação grega’ é tão-somente uma miragem que devemos ignorar o mais rapidamente possível. O recente e modesto aumento do PIB real, ao ritmo de 0,7%, não indica (como tem sido aventado) o fim da recessão, mas a sua continuação. Pensai nisto: as mesmas fontes oficiais comunicam, para o mesmo trimestre, uma taxa de inflação de -1,80%, i.e., deflação. Isto significa que o aumento de 0,7% do PIB real se deveu a uma taxa de crescimento negativo do PIB nominal! Dito de outro modo, aquilo que aconteceu foi uma redução mais rápida dos preços do que do rendimento nacional nominal. Não é exactamente motivo para anunciar o fim de seis anos de recessão!
Permiti-me dizer-vos que esta lamentável tentativa de apresentar uma nova versão das “estatísticas gregas”, para declarar que a crise grega acabou, é um insulto a todos os europeus que, há muito, merecem conhecer a verdade sobre a Grécia e sobre a Europa. Com toda a frontalidade: actualmente, a dívida grega é insustentável e os juros não conseguirão ser pagos, principalmente enquanto a Grécia continua a ser sujeita a um contínuo afogamento simulado orçamental. A insistência nestas políticas de beco sem saída, e em negação relativamente a simples operações aritméticas, é muito onerosa para o contribuinte alemão e, simultaneamente, condena uma orgulhosa nação europeia a indignidade permanente. Pior ainda: desta forma, em breve, os alemães virar-se-ão contra os gregos, os gregos contra os alemães e, obviamente, o ideal europeu sofrerá perdas catastróficas.
Quanto a uma vitória do SYRIZA, a Alemanha e, em particular, os diligentes trabalhadores alemães nada têm a temer. A nossa tarefa não é a de criar conflitos com os nossos parceiros. Nem sequer a de assegurar maiores empréstimos ou, o equivalente, o direito a défices mais elevados. Pelo contrário, o nosso objectivo é conseguir a estabilização do país, orçamentos equilibrados e, evidentemente, o fim do grande aperto dos contribuintes gregos mais frágeis, no contexto de um acordo de empréstimo pura e simplesmente inexequível. Estamos empenhados em acabar com a lógica “adiar e fingir”, não contra os cidadãos alemães, mas pretendendo vantagens mútuas para todos os europeus.
Caros leitores, percebo que, subjacente à vossa “exigência” de que o nosso governo honre todas as suas “obrigações contratuais” se esconda o medo de que, se nos derem espaço para respirar, iremos regressar aos nossos maus e velhos hábitos. Compreendo essa ansiedade. Contudo, devo dizer-vos que não foi o SYRIZA que incubou a cleptocracia que hoje finge lutar por ‘reformas’, desde que estas ‘reformas’ não afectem os seus privilégios ilicitamente obtidos. Estamos dispostos a introduzir reformas importantes e, para tal, procuramos um mandato do povo grego e, claro, a cooperação dos nossos parceiros europeus, para podermos executá-las.
A nossa tarefa é a de obter um New Deal europeu, através do qual o nosso povo possa respirar, criar e viver com dignidade.
No dia 25 de Janeiro, estará a nascer na Grécia uma grande oportunidade para a Europa. Uma oportunidade que a Europa não poderá dar-se ao luxo de perder.
Publicado a 13–1-2015, fonte.
* uma espécie de Finantial Times alemão
29/01/15
o que prova a PACC?
Em jeito de preâmbulo:
1. a apreciação de um professor universitário, em Novembro de 2013 (não inteiramente exacta na sua auto-classificação, e penso que propositadamente..)
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| https://www.facebook.com/jose.adelino.maltez/posts/10152022656671182 |
2. a questão n.º 6 da prova de código 1000 074 - 2014/2015 : aquela em que os professoress (78,9%) mais erraram (do Público)
O seleccionador nacional convocou 17 jogadores para o próximo jogo de futebol. Destes 17 jogadores, 6 ficarão no banco como suplentes. Supondo que o seleccionador pode escolher os seis suplentes sem qualquer critério que restrinja a sua escolha, poderemos afirmar:
(a) que o número de grupos diferentes de jogadores suplentes é inferior ao número de grupos diferentes de jogadores efectivos;
(b) superior ao número de grupos diferentes de jogadores efectivos;
(c) igual ao número de grupos diferentes de jogadores efectivos;
(d) não se relaciona com o número de grupos diferentes de jogadores efectivos"
Segundo o IAVE, esta primeira parte da componente comum da prova (32 itens de escolha múltipla, que correspondem a 80% da cotação) "visa avaliar a capacidade para mobilizar o raciocínio lógico e crítico, bem como a preparação para resolver problemas em domínios não disciplinares"
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| de R. Magritte |
Eu (...) não saberia responder a esta questão. Desde logo, irritar-me-ia a incongruência linguística apontada. Talvez bloqueasse depois desta questão. E não me considero, nem burra, nem ignorante. Sem modéstias de qualquer espécie, tenho, da língua portuguesa, um domínio infinitamente melhor que a maioria dos jornalistas ou dos políticos portugueses. Et pourtant ... (que, para quem não saiba francês, significa "e, no entanto" ..) eu (...) talvez tivesse "chumbado" nesta prova. Isso far-me-ia uma pior professora de inglês ou alemão (a minha área disciplinar)? I don't think so!
E pergunto-me (...) se os tais "domínios não disciplinares" serão assim tão determinantes no exercício da profissão docente ...
Pergunto-me (...) por que escusos interesses não se questiona habitualmente a "bondade" das provas do IAVE, as dos professores ou as dos alunos.. (Estão bem feitas? Estão mal feitas?) ... Como me pergunto quem são os "iluminados" que as elaboram, e por que preço fica a dita "iluminação" ...
Pergunto-me, ainda, (e não sou de filosofia, mas sei o que é a "dúvida metódica" de Descartes...) :
Um professor da área das ciências exactas precisa de dominar a língua portuguesa com absoluta correcção? Não, não precisa. Devia? Sim, absolutamente, como qualquer português detentor de um diploma académico, sobretudo de grau superior.
É isso relevante para a sua qualidade, enquanto profissional? - Sim e não.É isso condição "sine qua non" para definir um bom profissional do ensino da matemática, da física, das ciências naturais? Definitivamente, não!Em que é que um deficiente domínio da língua portuguesa afecta o desempenho de um professor da área das ciências? - Apenas nas tarefas burocráticas ou administrativas que é, cada vez mais, chamado a desempenhar: fazer uma acta, por exemplo. E, acreditem, sou de um tempo em que, nas reuniões de conselho de turma, se dispensavam de fazer actas alguns professores, porque o faziam mal.
Gostava? Concordava? Não e não!, sobrava trabalho para os outros. Achava eu que aquelas pessoas não tinham aptidão para a carreira docente? Oh, por quem sois, meus amigos!!, claro que não! Respeitava-as pela sua incapacidade linguística? - Não, obviamente, tanto mais sendo eu da área das letras .. Respeitava-os nos seus conhecimentos científicos, nas suas capacidades humanas.Equacionava a realização de uma prova seriativa?Ponderava a justeza da sua expulsão do sistema?- Não e não, que absurdo! Desejava, apenas, que lessem uns livros, se esforçassem por melhorar .. Que fizessem e corrigissem, ou pedissem ajuda. Que não dessem azo a críticas por parte de colegas, alunos, pais, direcção, tutela ...
Eu (...) professora de língua estrangeira ... preciso de raciocínio lógico? - Evidentemente. Não o tivesse, e os alunos "massacravam-me" nas aulas que não saberia dar ...Preciso de comprovar que sou detentora desse raciocínio lógico através de sudokus e outros desafios do género? Ohhhhh pleeeeease!!!!! E saibam que faço contas de cabeça com mais facilidade que a maioria dos meus ex-alunos, resolvo facilmente equações necessárias ao exercício da profissão (só de 1º grau, sorry, não tive matemática depois do que agora é o 9º ano, das outras esqueci-me ...), mas aplico/aplicava com eficácia fórmulas complicadíssimas para avaliação dos meus alunos - que o Excel (ou outro software - e é para isso que estes programas existem, como é por isso que eu e os restantes professores aprendemos a usá-los!) resolve!!
Para que serve, então, a PACC? (E suspeito que os que agora a ela se sujeitam serão os filhos dos que à PGA disseram não ...) Por que razão se insiste num modelo de seriação que todos (excepto o senhor Crato e a antecessora Milú) repudiam? Que o Concelho Científico do IAVE (o Instituto de Avaliação Educativa que promove a dita prova, vejam a incongruência..) "chumbou", por, entre outras razões, ser passível de induzir "um empobrecimento geral da formação dos professores"? (ver)
Pois, parece-me evidente, pelas razões apontadas pelo Professor Santana Castilho (ver aqui).
A malévola intenção deste ministro de opereta, cego e surdo (e que, pseudo-matemático ele -- e professor do ensino superior!! -- não sabe que não se somam alhos com bugalhos, como ficou demonstrado pelo descalabro na ordenação de candidatos à docência, no início do presente ano lectivo), a sua intenção, dizia, outra não é que a de despedir cada vez mais professores (e vá lá que não se morre nas escolas como nas urgências dos hospitais!), desacreditar (ainda mais) a classe, ultimately ... destruir a escola pública, transformar-nos a todos (professores, alunos, sociedade) em robots obedientes e acéfalos - mas capazes de resolver charadas, valha-nos isso!
E terminaria com um "a bem da nação", estivéssemos nós no tempo do famigerado Estado Novo.
Como, por enquanto!, ainda não, concluamos com um "a bem dos pobres de espírito" que, bem resolvendo charadas de interesse futebolístico, hão-de futuramente, docilmente, formar gerações e gerações de futuros cratos e passos e dar ao mundo uma boa carrada de novos-imbecis!
a intenção escondida da PACC
Intervenção do Professor Santana Castilho
na Antena 1
27.1. 2015
- a partir do minuto 13.20:
http://www.rtp.pt/play/p469/e181035/antena-aberta
excerto:
«Há uma intenção escondida por trás desta iniciativa do ministério, que é a de repercutir aqui, 43 anos depois, estratégias políticas que foram seguidas na Inglaterra, nos Estados Unidos, no tempo de Ronald Reagan e James Callaghan:
- colocar a responsabilidade do falhanço das escolas nos professores;
- desvalorizar a profissão;
- tornar os professores, perante a sociedade, nos responsáveis por uma série de problemas que são do “todo” do país e, com isso, conseguir proletarizar a classe, diminuir salários e, em última análise, promover a privatização do ensino e um retorno a toda uma concepção elitista do sistema educativo português.
É esta a política ‘escondida’ deste governo, em relação à qual esta prova é apenas um dos vários instrumentos usados.
Há uma outra questão sobre que importa reflectir: todos estes fenómenos que vão colhendo o interesse público têm uma raiz, que é a circunstância de nós sacralizarmos esta ideia da competição, de que tudo é mensurável em educação, esquecendo-nos nós de que a actividade lectiva é, fundamentalmente, uma actividade cooperativa, e que é a cooperação que serve as pessoas e as harmoniza, enquanto que a competição serve os números, e serve os conflitos.
de Escher
Todo este ambientede conflito que hoje se vive na escola (e esta questão da PACC é apenas um dos vectores ...) é um ambiente que tem sido promovido pelo ministério da educação e designadamente por Nuno Crato e é um ambiente que, do meu ponto de vista, não serve o valor mais importante, que é o da formação de pessoas - maduras civicamente, naturalmente conhecedoras e, nos domínios das diferentes ciências, competentes para uma sociedade onde a competição é cada vez mais feroz, mas que não se pode deixar dominar, ainda que viva na tal "economia de mercado", por essa ideia, e transformar-se numa "sociedade de mercado".
É isso que Nuno Crato (e este governo) estão a procurar trazer para as nossas escolas: transformar um local de formação de pessoas num local de formação de autómatos ao serviço desta economia de mercado.»
falar claro
Ora bem! ....
Na Grécia e em Portugal ...
Na Grécia e em Portugal ...
«Boa parte dos problemas do nosso país tem a ver com a maneira como ele tem sido governado!»
28/01/15
Governar para números ou governar para pessoas?
no Público,
28 de Janeiro de 2015
28 de Janeiro de 2015
por Santana Castilho *
O filósofo Slavoj ZizeK citou T. S. Elliot num comício do Syriza para dizer que “há momentos em que a única escolha é entre a heresia e a descrença”. E clarificou a ideia afirmando que “só uma nova heresia, representada hoje pela Syriza, pode salvar o que vale a pena salvar do legado europeu: democracia, confiança nas pessoas, igualdade e solidariedade”.
O estado em que a política educativa dos dois últimos governos colocou escolas e professores faz-me suspirar por um “momento Syriza” na Educação. Por uma nova heresia, que coloque cooperação onde hoje está competição. Porque a cooperação aproxima-nos e sedimenta-nos enquanto grupo e a competição, ampliando as diferenças, afasta-nos, isolados por egoísmos. Porque a cooperação serve as pessoas e harmoniza-as, tal como a competição, hoje sacralizada na nossa cultura, serve os números e os conflitos.
Informação constante de um novo portal do Ministério da Educação e Ciência veio dizer-nos que há 24 escolas onde são dadas todos os anos notas internas significativamente mais favoráveis que as conseguidas nos exames nacionais. Daí a mais um lance na competição público versus privado foi um passo, sem espaço para assumir que se comparam coisas diferentes: num caso o conhecimento científico demonstrado num só teste; no outro caso o percurso de um ano de desempenho num ambiente pluridisciplinar e multifactorial, sendo que alguns desses factores de classificação são bem relevantes para a formação integral do aluno e para a sua maturidade cívica.
Os exames nacionais e os testes estandardizados internacionais têm vindo a assumir uma dominância evidente na concepção das políticas para a Educação definidas pelos dois últimos governos. E essa dominância tem a sua génese na nossa intestina tendência para importar modismos alheios. Com efeito, quando a Escola se manifestou em crise um pouco por todo o mundo ocidental e alguns teóricos começaram a clamar contra determinados métodos pedagógicos e o que consideravam autonomia excessiva dos professores, primeiro, e emergiram as primeiras tendências para encarar a Educação como serviço passível de ser submetido a regras de mercado (com o concomitante discurso da liberdade de escolha por parte das famílias), depois, logo surgiram as pressões para introduzir nos sistemas de ensino instrumentos que tudo medissem, particularmente resultados.
Recorde-se, a propósito, duas referências incontornáveis, que continuam a produzir efeitos retardados entre nós e que nos levam aos ventos que sopraram de Inglaterra em 1976 e dos EUA em 1983. Refiro-me à iniciativa reformista de James Callagahan sobre Educação, que ficaria conhecida por “The Great Debate”, onde o primeiro-ministro de então do Reino Unido lamenta a falta de rentabilidade dos professores e das escolas, pede maior controlo da qualidade dos docentes e clama pela reorientação precoce da educação para os aspectos vocacionais, qual discurso profético que seria retomado pelo nosso ministro da Educação, 43 anos mais tarde. E refiro-me ao relatório “A Nation at Risk: The Imperative for Educational Reform”, produzido a pedido de Ronald Reagan, cuja violência classificativa do trabalho dos professores e da escola americana está bem traduzida nesta frase, que o integra, a qual, fora ela do conhecimento do nosso primeiro-ministro e certamente teria substituído, 32 anos volvidos, a metáfora da salsicha educativa: “Se um poder estrangeiro tivesse tentado impor à América a mediocridade do desempenho educacional que hoje existe, deveríamos ter encarado esse acto como um acto de guerra”.
Não é, portanto, de modo solitário no contexto internacional que a novilíngua classificativa portuguesa em matéria de Educação se tem desenvolvido centrada em metas, testes e exames, apesar de todos sabermos que nenhum sistema sério de prestação de contas em Educação se esgota no despejo sistemático sobre a sociedade dos resultados de testes, mesmo que estandardizados, e de exames nacionais. Tanto pior quando esses resultados de alunos são o critério primeiro para avaliar escolas e professores. Mais. Mostra-nos a história recente que os governos que assim procederam acabaram, por via das ideologias neoliberais que adoptaram, a utilizar os resultados como estratégia para induzir medidas de privatização e promoção de lógicas de educação como serviço sujeito a regras de mercado.
É tempo, pois, de procedermos a uma reflexão despida de preconceitos ideológicos sobre o seu contributo técnico para a decantada “accountability” educacional. Porque muito do que deve contar em Educação não pode ser medido e é de comparação difícil. Porque, no dizer de Licínio Lima, “enquanto orientação política, a educação contábil evidencia uma alta capacidade de discriminação da educação que conta e da educação que não conta, ou conta menos”.
* Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt)
27/01/15
"hoje como ontem, somos todos gregos"!
no Público,
27/01/2015
27/01/2015
por José Vítor Malheirosfonte
1. A grande novidade das eleições legislativas gregas é que a Grécia vai ter finalmente um Governo grego, composto por gregos que se preocupam com a vida dos cidadãos gregos e não um Governo de capatazes, preocupados acima de tudo em não indispor os poderes financeiros do mundo e em obedecer às directivas das forças ocupantes.
O líder do partido espanhol Podemos, Pablo Iglesias, usou esta imagem, e ela é correcta. Até agora, na Grécia, como em Portugal, temos tido Governos que ascenderam ao poder para manter os seus países acorrentados à dívida. Governos que juraram vassalagem aos mais ricos para poderem beneficiar um dia dos seus favores, sacrificando para isso a liberdade, a dignidade, o bem-estar, a vida e o futuro de milhões de cidadãos.
Governos que tentaram destruir por dentro o Estado que construímos com o nosso trabalho e que não hesitam em delapidar o património que não lhes pertence na esperança de que, um dia, possam voltar a ajudar o inimigo a atacar de novo as muralhas da cidade e as possam encontrar mais enfraquecidas.
Governos que venderam a soberania nacional, que ofendem a memória de todos os que se sacrificaram em defesa da democracia, que escarnecem daqueles que acreditam que todos os indivíduos nascem livres e iguais em direitos. Fazem-no em troca de uns lugares em futuros conselhos de administração, ébrios de alegria por poderem ombrear com os ricos e com a consciência imperturbada dos que consideram que a conta bancária é a medida de todas as coisas e a vida dos pobres algo negligenciável.
Não há nada mais vil do que esta traição que, não por acaso, durante milénios, em todas as latitudes e em todos os povos, conheceu a mais radical das punições.
E, por isso, é com alegria que saudamos a queda do Governo de Antonis Samaras, como saudaremos com alegria o dia da queda de Passos Coelho, o primeiro-ministro cuja ambição mais exaltante é ser o cãozinho de regaço da chanceler alemã.
2. O Governo grego de coligação Nova Democracia-Pasok-Dimar, agora derrotado nas urnas, foi constituído e empossado em nome da necessidade de “estabilidade” do país, como já o anterior Governo de Papademos tinha sido e outros antes destes. Sabemos aonde levou esta “estabilidade”: desemprego de 25 por cento, desemprego jovem de 60 por cento, dívida de 317 mil milhões de euros ou 177% do PIB, a uma sociedade à beira do caos, com apoios sociais praticamente inexistentes para uma população com uma pobreza crescente, ao êxodo de profissionais, a uma economia destruída e sem motor de arranque à vista, a uma sociedade desesperada e descrente.
A vitória de anteontem do Syriza, segundo inúmeros analistas financeiros, politólogos e muitos solícitos comentadores anónimos de vários Governos europeus, corre, porém, o risco de aumentar a “instabilidade” da situação grega.
Apetece brincar e dizer que, se Samaras era a “estabilidade”, é urgente experimentar a “instabilidade”, mas é evidente que uma situação, por má que seja, pode sempre piorar e não faltará por certo na extrema-direita económica que governa a Europa quem queira aproveitar a vitória do Syriza para dar uma lição à esquerda e às veleidades de autodeterminação dos povos e para mostrar que não se devem eleger políticos de quem os bancos não gostam, cortando radicalmente o financiamento a Atenas e recusando todas as negociações.
É, no entanto, de esperar que algum bom senso prevaleça e que a Grécia não seja transformada no barril de pólvora que pode incendiar a União Europeia. Mas falemos desta “estabilidade” que a direita tanto aprecia e da “instabilidade” que ela tanto receia.
É evidente que, numa situação de paz, de progresso e justiça social, a estabilidade é um valor. Mas quando a situação é a desagregação social e a injustiça da Grécia, quando a situação é a desigualdade e a pobreza crescente que vemos no nosso país, quando a situação são os probemas estruturais da economia e a carência de financiamento dos dois países, é evidente que não é ética e politicamente admissível defender a “estabilidade”, porque essa “estabilidade” é apenas a paz podre onde os pobres morrem de fome sem reclamar.
Nos países em crise, a situação actual exige instabilidade porque exige mudanças drásticas. Não a destruição mascarada de estabilidade que vemos em Portugal, onde a calma apenas esconde uma operação de pilhagem do património público em nome da necessidade de “revitalizar a economia” com as privatizações, a par de uma campanha de ataque aos direitos laborais denominada “reformas estruturais”, mas uma instabilidade criativa, onde se admite a necessidade de inventar verdadeiras soluções que sirvam as populações. Uma instabilidade inventiva e honesta, onde será necessário correr riscos, mas onde os riscos que se correm terão uma razão de que nos poderemos orgulhar.
Este é o desafio que nos lança a Grécia de hoje. Um desafio a que respondemos com alegria porque, hoje como ontem, somos todos gregos.
26/01/15
Syriza, as provas dadas antes da vitória
Um membro do Syriza já chegou ao poder: chama-se Rena Dourou e governa 2 milhões de gregos
Quis aplicar um programa social e teve que negociar um orçamento com Bruxelas. A política da governadora de Ática, Rena Dourou, é um tubo de ensaio para um governo do Syriza.
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| Rena Dourou, a Governadora de Ática, com o líder do Syriza |
no Observador,
22/1/2015
por Tiago Carrasco
Depois de se bater à porta, as passadas de Rena Dourou ouvem-se por largos segundos. Quando abre, percebe-se porquê: da secretária da autarca à entrada vão uns 25 metros, embelezados por uma vista soberba para a Acrópole e por um ecrã com quase tantas polegadas como a parede do escritório. “Eu sei, é obsceno”, diz Dourou, de 40 anos. “Foi uma herança dos nossos antecessores: um prédio de oito andares para 100 funcionários. Pagamos uma renda de 80 mil euros mensais. Já estamos a tratar de sair daqui”.
Para chegar ao gabinete de Governadora de Ática – inclui Atenas e parte dos subúrbios -, Dourou, segunda figura de maior relevo do Syriza (partido de esquerda favorito à vitória nas eleições gregas), percorreu mais que uma maratona. Na campanha, andou de porta em porta numa área que diz ser “maior que Malta e o Liechtenstein, quase do tamanho da Bélgica”. Levava uma mensagem a mais de dois milhões de gregos: “Se gostam da vida que têm, não votem em mim”. Em Maio de 2014, venceu com 50,8% dos votos. Pelo poder que o cargo acarreta, chamam-lhe “mini-Primeira-Ministra”, um prelúdio de um Parlamento liderado pela esquerda radical.
“O meu país está em guerra”, anuncia, depois de servir dois cafés e de se recostar numa cadeira preta. “Há uma enorme crise humanitária para resolver e temos de devolver credibilidade à política, porque já ninguém acredita no sistema”. Dourou começa a enumerar: 25% de desemprego (mais de 60% entre os jovens), 6 mil suicídios, 300 mil famílias sem luz nem aquecimento. “São as consequências catastróficas da austeridade implementada no meu país. É por isso que a vitória do Syriza no próximo domingo vai ser um momento histórico. Representa uma lufada de ar fresco não só para a Grécia, como para todo a Europa”.
Dourou começou o mandato com políticas de cariz humanitário: criou bancos alimentares para as crianças desfavorecidas, subiu o orçamento para causas sociais de 1,9 para 13,5 milhões de euros e devolveu a eletricidade a 38 mil casas. Tudo a partir de um orçamento de 575 milhões de euros, aprovado pela União Europeia. “A prova de que os programas do Syriza podem passar por Bruxelas”. Simultaneamente, a sua promessa de luta contra a fraude e corrupção, deixou muitos funcionários e empresários de respiração suspensa. Dourou despediu e processou empregados que obtiveram o trabalho com credenciais falsas e cancelou todos os contratos municipais de tratamento de resíduos: “No meu país, ainda queimamos e enterramos lixo. Indiquem-me um país da União Europeia que o faça? É uma prática de terceiro mundo”.
Para ela, a crise não é novidade. Filha de um polícia “que foi descalço para a escola”, nunca teve uma vida folgada. “Eles [os membros do Nova Democracia, o partido de direita liberal no Governo] é que sempre tiveram privilégios. Nós, não. Conquistamos as coisas com trabalho árduo. Essa é uma grande diferença entre nós”, diz. Dourou continua a viver em Aigalio, o seu bairro de infância no oeste de Atenas, de onde saiu apenas para tirar o mestrado em Inglaterra. Fala cinco línguas, incluindo turco. Ostenta o orgulho pela educação que os pais lhe permitiram ter na única fotografia exposta no gabinete, em que surge ao lado da mãe no dia da tomada de posse.
Conhecida pela sua compostura (ficou célebre por ter ficado impávida e serena quando um deputado do partido ultranacionalista Aurora Dourada lhe atirou água para a cara num direto televisivo), a Governadora de Ática afirma não se exaltar nem quando, repetidamente, a confrontam com o radicalismo do Syriza. Mesmo que a paciência já não seja muita. “Para não dizerem que sou uma cabra, um demónio de esquerda, até costumo usar argumentos de direita. Quem arruinou o investimento privado na Grécia? Quem conduziu ao encerramento de 200 mil PME’s? Fomos nós, os radicais de esquerda, ou as medidas de austeridade do atual Governo?”, questiona. “O que nós propomos desde o início é uma aproximação ao projeto social europeu, que esta nova geração de líderes esqueceu por completo”.
O programa do Syriza contempla a implementação de reformas com um custo de 12 mil milhões de euros: aumento do salário mínimo, restabelecimento de energia elétrica, perdão de dívidas a empresas e cancelamento do corte das pensões. Os oponentes dizem ser impossível obter liquidez para tais medidas com uma dívida de 170% do PIB e com uma grossa fatia do empréstimo por pagar à troika. O Syriza responde com uma proposta de perdão parcial de dívida, como compensação dos danos infligidos à Grécia pela invasão do III Reich, e com a taxação em 75% de rendimentos anuais superiores a 500 mil euros. “O sistema fiscal na Grécia muda a cada ano e meio. Ninguém investe com um sistema tão instável. Temos de começar por estabelecer taxas de impostos sólidas. E quanto aos oligarcas e milionários, não nos preocupam muito. Muitos deles, como os donos dos barcos de carga, já têm as empresas registadas no estrangeiro. Não podemos fazer muito em relação a isso”.
Fora do seu horizonte, está a saída da Grécia da União Europeia. Dourou diz ter-se rido quando Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu, afirmou que “os estatutos da zona euro não contemplam a saída de um Estado-Membro”. “Perdemos tanto tempo aqui a discutir esse assunto, que podia ter sido útil para resolver os problemas dos gregos, quando nem sequer é assunto”.
No entanto, não afasta nenhum cenário, recusando-se a revelar o conteúdo das negociações que o Syriza, caso vença no domingo, irá ter com as instituições europeias. Diz apenas que é inútil fazer pré-anúncios – se a Grécia fica ou sai do euro -, sem sequer terem começado as reuniões. “Quando se negoceia com a senhoria a renda de um apartamento também não sabemos à partida se queremos ou não ficar com a casa”.
40% dos membros do Syriza são eurocéticos. No seio do partido, muitos temem que este ceda às condições impostas por Bruxelas e perca a sua identidade de esquerda. Dourou, o seu único elemento em funções administrativas de relevo, desvaloriza. “Quando eu e o Alexis Tsipras [líder do Syriza] andávamos a viajar pela Europa e pelos Estados Unidos, tive a oportunidade de conhecer professores como Noam Chomsky”, diz. “Cheguei à conclusão de que é fácil ser professor ou analista político, mas eu preferi ir para o campo e passar à ação. Escolhi entrar nesta guerra e não ficar a ver o meu país morrer, correndo o risco de ter de fazer algumas reformas que violem uma linha ideológica limpa”.
Dourou puxa mais um cigarro. Diz que é tabaco grego, dos de qualidade, daquele que só os velhos fumam. Dá a primeira baforada. “Sempre que um camarada me acusa de ser reformista, pergunto-lhe o que fez hoje para ajudar a Grécia”. E isso não pode criar problemas no interior da Coligação? “Estamos juntos desde 1995. Se há quem tenha experiência em coligações, somos nós”.
A assessora interrompe. Dourou tem outros compromissos. Antes de se despedir, pergunta como estão as coisas em Portugal, se o fenómeno Podemos já contagiou os vizinhos: “Não? Pode ser que algo mude nos próximos meses”, diz. “Espero que vocês saibam que nas reuniões que tive em Bruxelas, eles usam sempre Portugal como um bom exemplo de como a austeridade funciona numa crise da dívida. É bom que estejam conscientes disso. Acho que é um dos únicos casos em que ser avaliado como bom aluno dá uma reputação terrível”.
um programa que eu apoio
Este é o programa do Syriza
25/1/2015,
19:58
Eleito para formar Governo, Alexis Tsipras terá como base eleitoral um extenso programa de esquerda, com várias medidas internas e outras tantas exigências a nível europeu. Aqui fica uma síntese útil.
Observador
Depois da
noite de domingo, a Europa vai ter que contar com uma nova proposta política,
eleita num Governo da zona euro. Aqui deixamos-lhe uma síntese, primeiro das
linhas gerais do programa – e mais abaixo do seu programa económico, desenhado
em cinco pilares.
Começamos
pelo que diz respeito à Europa:
- Reestruturar grande parte da dívida pública, de forma a que se torne sustentável, no contexto de uma “Conferência sobre a Dívida Europeia”.
- Incluir uma “cláusula de crescimento” para o pagamento da parte remanescente da dívida grega, para garantir que será financiada com crescimento e “não com o orçamento”.
- Incluir uma moratória para o serviço da dívida, para poupar fundos para estimular o crescimento.
- Excluir os investimentos públicos das restrições do Pacto de Estabilidade e Crescimento da UE (as novas regras interpretativas só o permitem para países que respeitem défice de 3% do PIB).
- Um “New Deal” de investimento público europeu financiado pelo Banco Europeu de Investimento (o plano Juncker já está no papel, mas o seu financiamento ainda não está acertado).
- Exigência de compra direta de dívida europeia pelo BCE, o chamado “Quantitative Easing” (O BCE anunciou esta semana um plano neste sentido, mas deixou condicionada a aplicação à Grécia – não só porque tem coberto o limite colocado para o país – até junho -, mas também condicionando-o à existência de um programa de assistência. O atual na Grécia ainda não terminou e é quase certo que o país precisará de um outro, pelo menos de um cautelar).
E aqui, uma
ideia global do que se propõe a fazer dentro de fronteiras:
- Aumentar o investimento público “imediatamente” em, pelo menos, 4 mil milhões de euros.
- “Gradualmente”, reverter “todas as injustiças do memorando de entendimento”.
- “Gradualmente, recuperar os salários e pensões, para aumentar o consumo e a procura”.
- Dar incentivos ao emprego às pequenas e médias empresas, dando subsídios ao custo da energia na indústria – em troca da criação de emprego e de uma cláusula ambiental.
- Investir em conhecimento, investigação e nova tecnologia, com o objetivo de levar de volta para a Grécia os jovens investigadores que emigraram.
O plano
económico do Syriza tem como base cinco pilares, que aqui resumimos
também.
Primeiro
pilar: combater a crise humanitária.
Custo: 1,9 mil milhões de euros
Custo: 1,9 mil milhões de euros
- Eletricidade grátis para 300 mil famílias a viver abaixo do limiar de pobreza;
- Subsídios à alimentação para famílias sem rendimentos, em coordenação com as autoridades locais, a Igreja e organizações de solidariedade;
- Programa de garantia de habitação, pagando parte da renda de pequenas casas a 30 mil famílias;
- Assistência de saúde e farmacêutica livre para desempregados sem subsídio;
- Cartão especial para transportes públicos, entregue a desempregados de longa duração;
- Revisão dos impostos dos combustíveis e para aquecimento em casa.
Segundo
pilar: relançar a economia e promover a justiça fiscal
Custo: 6,5 mil milhões de euros; Receita esperada: 3 mil milhões
Custo: 6,5 mil milhões de euros; Receita esperada: 3 mil milhões
- Parar os processos e arresto de contas bancárias a quem não tenha rendimentos, que ficarão suspensos por 12 meses;
- Abolição do imposto único sobre propriedade;
- Introdução de uma taxa sobre as grandes propriedades e casas de luxo;
- Aumentar o número de escalões de IRS, para assegurar maior progressividade;
- Reestruturação de empréstimos para empresas e indivíduos – para os que estiverem abaixo do limiar de pobreza e para as dívidas (ao Estado, Segurança Social e banca) que baixem os rendimentos abaixo dos 33%. O mecanismo de revisão contará o apoio de uma organização pública, que vai garantir os pagamentos em falta;
- Recolocar o salário mínimo nos 751 euros;
Terceiro
pilar: recuperar 300 mil empregos
Custo: 3 mil milhões de euros
Custo: 3 mil milhões de euros
- Recuperar os direitos perdidos com o Memorando (legislação laboral);
- Recuperar acordos coletivos;
- Abolição de layoffs “massivos e injustificados”;
Quarto
pilar: transformar o sistema político
Custo: zero.
Custo: zero.
- Regionalização do Estado;
- Maior autonomia aos municípios e regiões;
- Iniciativa legislativa aos cidadãos – também para convocar referendos;
- Restabelecimento da televisão pública;
Quinto
pilar: encontrar receitas
- Recuperação de pagamentos em atraso ao Estado;
- Combate à evasão fiscal;
- Usar os 11 mil milhões destinados à banca no Memorando para servir de “almofada social”;
- Aproveitar os fundos europeus do último quadro ainda não aproveitados, mas também do próximo quadro comunitário;
- Transferir propriedades públicas para fundos de pensões – para poder gradualmente aumentar as pensões cortadas nos últimos anos. As privatizações acabam.
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