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23/03/16

A palhaçada

no Público
23 e Março de 2016

por Santana Castilho*

Segundo a Rádio Renascença, o diploma que instituía o modelo integrado de avaliação externa das aprendizagens no Ensino Básico poderia ser vetado. Para o evitar, Governo e presidência da República, leia-se Tiago Rodrigues e Isabel Alçada, terão negociado um regime transitório, que assenta na não obrigatoriedade das provas de aferição e na possibilidade de ressuscitar os exames dos 4º e 6ºanos, ainda que sem contarem para classificação.
O que de mais generoso me ocorre para qualificar este quadro cobarde, gerador de confusão e instabilidade, caracterizado por três modelos de avaliação num mesmo ano lectivo, três, é que se trata de uma deriva de irresponsáveis. A ser verdade o que disse a Renascença, como pode ter passado pela cabeça do Presidente da República vetar um diploma que, por mais sem sentido que fosse (e era) não feria nenhuma disposição da Constituição e leis correlatas? Como entender que Marcelo presidente passe a vetar normativos de governo, porque Marcelo, comentador, os criticou?
E porquê cobarde? Porque uma decisão que deveria ser da exclusiva responsabilidade do Governo acaba, farisaicamente, entregue às escolas. Em dois meses, haverá escolas que, com aulas, reuniões e férias pelo meio, irão conceber e fazer os exames que a estrutura do IAVE, profissional, especializada e em tarefa exclusiva, faria num ano inteiro. Umas escolas terão provas, outras não. Uns alunos farão exames, outros não. A cascata das legítimas discordâncias sobrará para as escolas. Porque um ministro imaturo brincou às democracias e às autonomias com uma ex-ministra, perita em acordos envenenados.
Vimos o que nunca deveríamos ter visto. Os exames foram abolidos, já quase a meio do ano lectivo, com os votos dos deputados do PS, na manhã seguinte à tomada de posse do governo do PS, cujo programa não continha tal medida. No primeiro debate em que participou como primeiro-ministro, António Costa, desconhecendo o programa do seu próprio governo, afirmou que o exame do 6ºano não estaria em causa, para ser desmentido, dias depois, pelo ministro da Educação.
Estamos todos lembrados do modo precipitado e arrogante que pôs fim aos exames, contra o parecer de muitos, Conselho Nacional de Educação e Conselho de Escolas incluídos. Coisa nociva para o sistema, a exterminar, por isso, com urgência, dizia o ministro em Janeiro passado. E agora podem ser feitos nas escolas que o decidam?
É patética a invocação da autonomia da Escola para justificar esta palhaçada já que, no mesmo momento, o ministro lhe anuncia o fim para daqui a uns meses. Isto é, glória suprema, a autonomia das escolas, agora, decide. Mas no próximo ano lectivo já decidiu ele, pensem as escolas o que pensarem. Melhor tributo à hipocrisia não podia ser prestado, para não falar da permanente incerteza introduzida no espírito das crianças e das suas famílias e no planeamento do trabalho das escolas e dos seus professores.
Mas o desconhecimento e o amadorismo de quem governa estão patentes noutros acontecimentos.
Em rigor, os exames de Cambridge não desapareceram. Apenas foram suspensos.
A PACC não desapareceu. Apenas foi subtraída como requisito de concurso. Continua firme no Estatuto da Carreira Docente, todo ele, aliás, intocável. Como se não fosse algo que um ministro conhecedor e um partido respeitador da profissão docente não tivessem que refazer com urgência máxima.
A revisão da legislação sobre concursos (DL nº 9/2016, de 7 de Março) é desoladoramente pobre em substância e indigente em fundamentação. A forma usada para remover a Bolsa de Contratação de Escola (BCE) suscita um receio legítimo: a eliminação parece ser simplesmente temporária, isto é, cosmética agora, mais do mesmo em breve. Com efeito, se por um lado se invoca a morosidade e complexidade operacionais para extinguir, exprime-se, por outro, a intenção de recuperar, no futuro, o modelo que tornou a BCE um instrumento de impensáveis dislates e odiosas injustiças. Basta ler o diploma.
A norma-travão, que mais não foi que um expediente usado pelo anterior governo para tornear a Directiva 1999/70/CE, de 28 de Junho, da Comissão Europeia, venceu e persiste. Assim, continua a impor a entrada nos quadros de todos os professores que tenham cinco contratos de trabalho, anuais, completos e sucessivos, quando a directiva citada e a nossa lei do trabalho estipulam três. E apenas se aplica a partir da data em que foi instituída, deixando de fora os muitos docentes que, em períodos anteriores, cumpriram os requisitos.
Os mecanismos de recondução e renovação automática de contratos, isentos de concurso, instrumentos que derrogam liminarmente a justiça, a equidade e a Constituição (art. 47º, 2) resultaram incólumes. Assim, ao rigor e à transparência, PS e Tiago Brandão Rodrigues preferiram a tômbola e as águas turvas.
*Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt)

22/03/16

"Nunca mais haverá sossego na Europa. "

do fb
por Manuel Tavares

A chamada "Primavera Árabe" só agudizou toda a situação no médio oriente e no norte de África, colocando os muçulmanos moderados numa situação difícil, fazendo com que décadas de tentativas de secularização de sociedades, ainda em boa parte mergulhadas numa religiosidade típica da idade média, fossem deitadas por terra. 

Os óbvios interesses económicos e geoestratégicos do eixo anglo-americano com o apoio de líderes europeus fracos, corruptos e traidores levou a que a situação de insegurança na Europa seja hoje uma lamentável realidade. 

Os líderes do mundo ocidental tiveram e têm uma duplicidade de critérios gritante em relação a países como a ditadura Saudita (medieval e religiosamente fanática) em comparação com outras ditaduras da zona apesar de tudo fundamentalmente seculares e muito mais progressistas em relação aos direitos das mulheres e que conseguiam um equilíbrio entre as várias etnias e sensibilidades religiosas que constituíam uma ideia de Estado, mesmo que precária ou mantida coercivamente. 

Hoje em dia o que é a Líbia? Ironicamente um país classificado no tempo da ditadura Kadafi como terrorista é hoje um ninho de terroristas do pior! Uma terra de ninguém! Um não-Estado! 

Ali ao lado até a Tunísia já não garante férias sossegadas apesar de ser o fruto menos mau da Primavera Árabe, o Egipto está transformado no que se sabe, o Iraque é uma anedota, o Iémen é vítima de genocídios indiscriminados por parte das forças sauditas e companhia limitada, a Síria já todos sabem o que se passa porque está na ordem do dia, Israel e Palestina não avançam um centímetro em décadas de conflito, a Turquia agora serve de Estado-tampão a troco de uns trocos comunitários, pelo meio foi-se tentando transformar a ditadura religiosa Iraniana no bode expiatório de todos os males da zona mas sem grande sucesso ( mesmo sendo uma ditadura religiosa consegue ser menos má que a Saudita ). 

Com tanta confusão mesmo à sua porta parece-me que a chamada crise dos refugiados sírios acaba por ser uma gota de água tendo em conta o que de mal pode suceder à Europa nos próximos tempos. Talvez uma nova "cimeira dos Açores" venha salvar a situação ...

A propósito dos atentados de Bruxelas

do fb
por Carlos Matos Gomes

A propósito dos atentados de Bruxelas (mas podia ser sobre os de Paris, ou de Londres, ou dos que se seguirão). Oiço: os jovens terroristas radicalizaram-se nas mesquitas da Europa. Radicalizar quer dizer: tornaram-se terroristas religiosos. Nunca ouvi perguntar pelas razões porque vieram os pais dos terroristas para Paris, para Londres, para Bruxelas… 

A resposta não é agradável para os políticos europeus e americanos do pós guerra fria, do pós colapso da União Soviética. Um pequeno e pouco rigoroso exercício de memória: 
Nos anos oitenta, nos países de onde vieram os pais dos terroristas religiosos, os tais que se radicalizaram, existiam regimes laicos – não eram democracias ocidentais, mas as mulheres andavam de cara descoberta, de perna ao léu, ouvia-se música ocidental, aprendia-se inglês, ou francês, dançava-se. O regime sírio de Hafez el-Assad era tolerante em termos de religião e de costumes. Assim como no regime de Saddam Hussein, no Iraque. Na Pérsia (agora Irão), o Xá da Pérsia, Reza Pahlevi tinha uma mulher toda práfrentex – Farah Diba – depois de se divorciar de outra também muito igual às ocidentais das revistas cor-de-rosa, a triste Soraya. Bebia-se e dançava-se em Teerão. Os ayatollahs eram considerados uns grunhos, tipo cardeal Torquemada da Inquisição. No Egito de Nasser e de Sadat as mulheres tomavam banho de bikini, bebia-se, ouvia-se música, viajava-se. Discutia-se. Na Turquia dos continuadores de Ataturk o mesmo, um ambiente aberto ao mundo. No Afeganistão até existiu uma República Democrática de 19778 a 1992 – não foi assim há tanto tempo, que o génio visionário de Ronald Reagan substituiu pelos mujahideen governo republicano e liberal que tinha sido instituído por Zahir Saha, porque era pró-soviético. Reagan e os seus cabeças de dólar preferiram o Ben Laden e a Alqaeda! Bela escolha! Na Líbia, Khadafi não era flor de estufa, mas tomava conta da porta da África negra e dos islamitas radicais – o Ocidente (a França e a Inglaterra) matou-o. 

Todos os regimes que, com mão mais ou menos pesada, mantinham os fundamentalistas religiosos em respeito foram derrubados pelo Ocidente e pelo Ocidente substituídos por bandos chefiados por clérigos fundamentalistas, assassinos, traficantes avulso que são a base do Estado Islâmico, do Daesh ou de como queiram chamar aos nazis islâmicos. Isto em nome da democracia, que os treinou e armou para destituir o Assad da Síria que impede o assalto das petrolíferas aos poços do Irão! Na realidade esses regimes laicos foram derrubados e substituídos para o Ocidente e as suas empresas petrolíferas e de armamentos agirem e explorarem à sua vontade os recursos desses países. Escapou a esta limpeza petrolífera, em nome da democracia, o ninho da serpente: a Arábia Saudita! 

A destruição dos regimes mais ou menos laicos do médio oriente e da bacia do Mediterrâneo para as petrolíferas ocidentais e as empresas de armamento fuçarem sem restrições provocou uma vaga de emigrantes, que a Europa recebeu deixando-os à vara larga, em autogoverno, à margem das leis locais. O Ocidente chamou globalização e mercado livre ao saque das suas companhias feito sobre as riquezas locais. Chamou democracia ao governo de cúmplices locais. Chamou multiculturalismo à irresponsável demissão de vigilância sobre o comportamento dos parias que acolhia. Os Estados do Ocidente entregaram a sua estratégia aos seus mercadores, demitiram-se de defender internamente os seus princípios civilizacionais e agora admiram-se que, depois de admitida a poligamia, a violência sobre as mulheres, a imposição de leis à margem das leis nacionais e da cultura dos países de acolhimento, os jovens radicalizados entendam que o Ocidente é uma terra de infiéis. Têm razão: somos infiéis à nossa cultura e aos nossos princípios. 

Os atentados de Paris e de Bruxelas e os que se seguirão devem-se à criminosa ausência de princípios, e à ganância de políticos com nome: Reagan, Tatcher, Bush, Blair, Kissinger, Zbigniew Brzezinski e, mais perto, Sarkozy, Hollande, Cameron… 

Os mortos de hoje merecem uma reflexão para prevenir o futuro. É a melhor forma de os respeitar. 


(Nas fotos: Ben Laden com Zibgniew Brzezinski e Bush com o amigo saudita)

com o coração apertado ...

de Egon Schiele
Os atentados de Bruxelas doem-me ainda mais fundo que os de Paris, tenho lá o meu irmão, a minha cunhada, a minha sobrinha. E odeio de um ódio visceral quem assim se arroga o direito de ceifar vidas inocentes e de espalhar o terror, semear o medo.
E tenho o coração apertado de preocupação e angústia, por eles, pelo meu filho longe. Choro as famílias hoje enlutadas.

E tento perceber, encontrar caminhos que acabem de vez com esta barbárie. E questiono-me sobre a eficácia, nenhuma, deste "combate ao terrorismo" desde os ataques de 2001, nos EUA, aquela invasão do Iraque tão iniciadora de tudo.

E não posso deixar de olhar as vidas desfeitas dos milhares de refugiados que fogem deste mesmo horror, encurralados e indesejados, vítimas, também eles, de facínoras iguais a estes, os jihadistas e os outros, carregados de armas e de bombas e de drones, desses que, incondenados, lhes vêm destruindo as cidades e os países, há anos, todos os dias.


Não posso deixar de me interrogar sobre as causas profundas das coisas, as culpas, várias, e as conivências, os que ganham com estas guerras e guerrilhas.


E não posso aceitar este "olho por olho, dente por dente", que mais não tem feito que generalizar as guerras e espalhar a morte e a dor, sempre de inocentes, cá ou lá. 


E penso, que raio de instituições são estas, as europeias e as outras? Que raio de utilidade têm as Nações Unidas, assim tão cegas e surdas, tão inoperantes e coniventes?

hoje, Bruxelas ...


de Juan Miró
do fb
por Paulo Mendes
Mais um atentado, daqui a algumas horas provavelmente descobrir-se-à que foram cometidos por europeus, entretanto seguem-se mais umas horas de defesa de uma sociedade securitária e normalizada, e exclusiva. Ou seja, a defesa do medo como decisor político.
Hoje, ninguém fará qualquer ligação entre o que sucedeu em Bruxelas e a decisão dos líderes europeus em relação às intervenções "pacificantes" para mudança de regime numa míriade de países.
Hoje, ninguém vai fazer as contas de quanto custou, em vidas inocentes, a Invasão do Iraque NA EUROPA.
Depois de hoje, vamos acelerar ainda mais o pagamento de biliões a um proto-ditador turco para manter higienicamente fora da nossa vista o fluxo de milhões de refugiados causado por guerras pagas por nós e cujos resultados estamos agora a colher. Pobre Bruxelas...pobre Europa.

09/03/16

e vai acabar condecorado?!

retirado daqui
por Filipe Tourais

«Foi um dos maiores protagonistas daquele revanchismo que há mais de 40 anos vem ajustando contas com o 25 de Abril. 
Sempre foi amicíssimo e comensal das mesmas mesas que enriqueceram alguns dos maiores corruptos da nossa História recente. 
Ora condecorador de bandidos, ora perseguidor de gigantes da nossa Cultura. 
Um perito em facadinhas fiscais do seu tamanho. 
Um especialista em exortações à aceitação da injustiça social. 
Uma boca cheia umas vezes de bolo rei, outras de mão de princesa espanhola, outras ainda de lamúrias sobre a triste vida a que o condena um pecúlio mensal equivalente ao de uma vintena das centenas de milhar de portugueses cuja miséria faz parte do seu conceito de “interesse nacional”. 
Uma vida vazia de gestos nobres e grandes. 
Um rabo sentado sobre uma Constituição que nunca se dignou a respeitar, menos ainda a fazer cumprir. 
Até que enfim. Termina hoje o segundo mandato daquele que foi o pior Presidente da República da nossa democracia. A repugnância que a figurinha me desperta obriga-me a registar o momento com enorme satisfação. Porém, ver alguém que tanto, tudo fez para justificar ser demitido sair pelo seu próprio pé, apenas porque o seu tempo expirou, arreda-me de qualquer festejo. 

Sem dúvida alguma, Cavaco Silva desaparecer das nossas vidas é a melhor notícia com o seu nome que alguma vez já tivemos ocasião de ler ou ouvir. E nem esta é aquela maravilha: o povo que o fez acontecer e lhe proporcionou uma vida política tão longa permanecerá por aí, fiel ao que não se cansa de continuar a ser.»
................................

do site da SIC-notícias:  
«Às 18:20, no Palácio Nacional da Ajuda, Marcelo Rebelo de Sousa irá condecorar Cavaco Silva com as insígnias do Grande Colar da Ordem da Liberdade» 
----- e eu digo: F* you all !

Cem e sem

 
no Público
9 de Março de 2016

por Santana Castilho*


1. Cem dias passados, o Governo do PS, apoiado pelo PCP, BE e Verdes, provou ter uma capacidade notável de adaptação. Aguentou-se no primeiro lance, o da aprovação de um programa dúbio de governo. Sobreviveu ao golpe que ofereceu, em saldo, o Banif ao Santander, logrando mesmo o apoio do PSD para aprovar o orçamento rectificativo que viabilizou a negociata. Levantou (foi obra) o PCP, pela primeira vez em 40 anos, para aprovar o OE 2016, saído de um belo joguinho de cintura com Bruxelas. E, cereja no topo da geringonça, 46 páginas de erratas depois, eis que a radical Moody’s lhe conferiu um invulgar elogio. Cavaco Silva desta vez não o disse, mas certamente que voltou a pensar ser coisa da virgem de Fátima.

Nestes cem dias, de fé no fim da austeridade, recuperaram-se feriados perdidos. Operaram-se exíguas melhorias para as famílias de mais baixos recursos. Reverteram-se privatizações. Extinguiram-se exames. Prometeram-se (para uns) 35 em vez de 40 horas de trabalho. Aumentou-se o salário mínimo. Apresentou-se à EDP a factura da tarifa social de energia e aos fundos imobiliários a nota para pagarem o IMI e o IMT de que estavam isentos.

Seguir-se-á a realidade, que diluirá tendências populistas e começou já a ser reconhecida com 800 milhões de novos impostos. A realidade que liga o crescimento económico, a justiça social, a dignidade nacional e o futuro do país ao fim dos abusos da banca e à renegociação da dívida, que sufocam tudo e todos, incluindo qualquer fé e qualquer governo que actue de modo híbrido, querendo, como este, simultâneamente, contentar a ortodoxia europeia, PCP, Bloco e Verdes. Neste quadro, os próximos episódios (procedimentos do Semestre Europeu, designadamente Plano B) deste jogo de realidade versus fé apenas testarão quanto tempo António Costa conseguirá, do mesmo passo, ser poder e contrapoder, bom aluno para Bruxelas e suficientemente rebelde para o Bloco, Verdes e PCP. Citando Pacheco Pereira (Público de 27.2.16), “… há uma certa tristeza nisto tudo, mas as coisas são como são. Na política, o país está num impasse, mas parece que não …”.

2. Sem qualidade, começam a revelar-se os discursos (e as políticas) dos dois dignitários da Educação. Ouvi o do ensino superior, no parlamento, abalroar, de forma reiterada (o que afasta o lapso simples para expor a ignorância grave) o presente do conjuntivo do verbo ter. “Tenhemos”, senhor ministro? E traulitar, sem rebuço, o pretérito perfeito do indicativo de intervir. “Interviram”, senhor ministro? E li-o (Público de 27.2.16), defendendo (alô, alô, BE, PCP e Verdes) a precarização do emprego dos professores e investigadores do seu sector. Flexibilizar o emprego científico, senhor ministro? Quando mais de 40% dos docentes e investigadores do ensino superior têm vínculos precários? Não terá cuspido no dedo errado para “virar a página”?

O ministro da Educação, igualmente no parlamento, também repetiu o tique que se lhe começa a pegar à pele, qual seja uma certa tendência arrogante para manipular os factos. “Ao contrário do que alguns disseram, o Orçamento do Estado para Educação em 2016 cresce 303 milhões de euros (+ 5.3%) quando comparado com o que o governo anterior inscreveu no orçamento para 2015. De 5716 milhões de euros para 6019 milhões de euros”, disse o ministro. E disse mais que só “podemos comparar o que é comparável”. Ora no momento em que “alguns” disseram haver um corte de 82 milhões (-1,4%) já se sabia quanto o Governo anterior tinha efectivamente gasto com a Educação. E gastou mais 82 milhões do que este se propõe gastar em 2016. Que queria o ministro? Que se ignorasse o que já era conhecido? Não comparámos velocidade com toucinho, senhor ministro. Comparámos euros gastos com euros que o senhor disse que ia gastar. E o senhor disse que tenciona gastar menos 82 milhões que o seu antecessor de facto gastou. E a esse corte de 82 milhões, para compararmos o que é comparável, isto é, conhecer a verdadeira dimensão do corte nominal das actividades da escola pública, com os dados existentes no momento em que “alguns” falaram, temos que somar os 14,4 milhões que pagará a mais ao ensino privado e o aumento dos gastos salariais dos professores. Se já fez as contas, teria sido mais sério confessar o número no parlamento.

Hoje, os novos donos das novas certezas decidem ontem e estudam amanhã. Levianamente. Os professores, que não são donos deles próprios, sujeitam-se, quando pouco mudou. A frustração não desapareceu mas a capacidade de espera cresceu. Às salas dos professores não voltou a familiaridade, a colaboração mútua e a confiança que de lá desapareceram com Maria de Lurdes Rodrigues  e Nuno Crato. Os sinais de narcisismo dos novos poderosos contrastam com os traços de psicose dos que perderam o poder. Os anúncios de ideias de futuro, sem ideias e medidas de presente, não combatem a depressão colectiva que ameaça a escola pública.

*Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt)

08/03/16

quando a "mulher" tem um dia e ......

de Maria Teresa Horta

ELAS
Maria Teresa Horta

Elas
Iludem as escurezas
dos rostos a negrura das nódoas

do corpo
desatam os nós que lhes
atardam, atam e algemam
a alma e os pulsos
Conversam entre si
coisas de enredo
lançam Luz nos recantos
das vagas
Trocam receitas de venenos
murmuram palavras escusas
desejos inolvidáveis
‘Oh, que dureza ruim!
Ataduras e debruns
missanga de muita estrela
Cassiopeia, raízes
sangrantes
das próprias veias’
Elas
inventam a mata
na clareira assombrada
embrenhadas na vigília
Recriam, criam, dominam
Viram pombas, profetizas
com uma alvura de cera
pálidas rosas da China
‘Oh, tormenta amendoada
solidões desirmanadas
enquanto de madrugada
Cavam, enterram, devassam
pespontando com o riso
as dobras do calamento’
Elas
bradam, elas buscam
sibilas e amazonas
emudecem as camélias
e as roseiras nervosas
Feiticeiras ardilosas
filhas da harmonia
partilham as tempestades
Derrubam, suturam, fiam
‘Oh doçuras sigilosas
no aço do destempero
de incêndios e desesperos
Virados pelo avesso
a paixão e a razão
entre si tão divididas’
Elas
recusam, derrubam
dominam as próprias vidas
com a sua inteligência
Tornam-se donas do tempo
a semearem agruras
pelos meandros do vento.

Maria Teresa Horta, Março de 2016

07/03/16

dos horários docentes e outras propostas

Concordando (obviamente!) com as propostas da Fenprof, não posso deixar de me espantar com o branqueamento que continua a fazer-se relativamente às políticas de Maria de Lurdes Rodrigues, nomeadamente as relacionadas com a criação dos mega-agrupamentos ou a contabilização falaciosa da componente não-lectiva. 
  • Porque é que os sindicatos não propõem a revogação do estatuto de MLR, pergunto-me ... 
  • Porque é que este ministro lhe passa, também, ao lado? 
  • E porque é que os professores estão tão caladinhos? 
... Isto sou eu, que até já nem sou minimamente afectada pelos desvarios do ME .....

retirado daqui:
http://www.saladeprofessores.pt/Artigo/organizacao-do-proximo-ano-letivo

Organização do próximo ano letivo
07 Março, 2016

por José António Faria Pinto

Entende a FENPROF que o quadro legal que rege a organização de cada ano letivo deverá ser estável e não, como tem acontecido, alterado de ano para ano, por vezes profundamente, por norma, por imposição orçamental.

Tal quadro, na opinião da Federação, deverá permitir que as escolas, no quadro da sua autonomia, se organizem de acordo com as realidades e necessidades locais, designadamente ao nível da constituição de turmas, da organização de horários, da definição das chamadas ofertas de escola e, de uma forma geral, na decisão sobre o conjunto de atividades a desenvolver com vista à promoção do sucesso e ao combate ao abandono escolar.
Para a FENPROF, esta será também a oportunidade de deixar de penalizar em horas de crédito as escolas cujos alunos apresentam maiores dificuldades, sob pena de se aprofundar o fosse já hoje existente entre escolas. E quanto ao crédito global de horas, o tempo é de acabar com um conceito de autonomia que apenas tem permitido às escolas a gestão da escassez. Respeitar a autonomia passa por permitir às escolas a elaboração de uma proposta de crédito global de horas construída sobre critérios objetivos, transparentes e justos que tenham em conta a sua realidade.
Clarificar o conteúdo
da componente letiva


Para a FENPROF, no que respeita aos docentes, a questão principal é a de clarificar o conteúdo da componente letiva para que acabe a confusão deliberadamente instalada entre o que é letivo e o que integra a componente não letiva de estabelecimento. Essa foi uma estratégia do governo anterior para reduzir o número de professores no sistema, pois a muitos foram atribuídas tarefas letivas na sua componente não letiva.

De entre as várias propostas apresentadas destacam-se ainda a existência de reduções adequadas para cargos como a direção de turma, a coordenação de departamento ou a coordenação de estabelecimentos, assim como a consideração dos intervalos no 1.º Ciclo como componente letiva. Por último, são apresentadas propostas relativas ao número de alunos por turma, sendo também dada ênfase à necessidade de garantir que as turmas do 1.º Ciclo têm apenas um ano de escolaridade e que as turmas que integram alunos com necessidades educativas especiais respeitarão os normativos legalmente estabelecidos, coisa que hoje não acontece.
Após a elaboração, pelo ME, do projeto de quadro legal, deverá ter lugar o adequado processo negocial relativo a matérias que o exigem, nomeadamente a organização do horário de trabalho e o conteúdo funcional de cada componente do horário.

Propostas da FENPROF - continuar a ler

03/03/16

os EUA em guerra consigo próprios, ou a definível estupidez dos 'trampas' ...

Em vésperas de eleições nos Estados Unidos, e face à não-descartável vitória de um trampas com uma assustadora base de apoio, a sugestão de uma leitura:

Man in the Dark (clicar para ver sinopse, etc), 
um livro do escritor americano Paul Auster

Numa estória dentro da estória, há um homem que, nas suas noites de insónia, vai imaginando, construindo uma América 'alternativa', cuja História começa no ano 2000, logo após a eleição de Bush. Revoltados com o resultado das eleições (em que Al Gore, reunindo mais votos, é, no entanto, derrotado - lembram-se daquelas contagens e recontagens?), os Estados começam a declarar a sua separação da União. O primeiro, claro! (ver em baixo porquê - 'claro' ) é o de Nova Iorque. Outros 15 se lhe seguirão e a América está em guerra. Nada de novo, só que, desta vez, não com o mundo, mas consigo própria. 

Neste mundo paralelo, o 11 de Setembro (2001) nunca aconteceu. As torres gémeas continuam de pé. Não houve a invasão do Afeganistão. Não há guerra no Iraque. Da Síria não se fala, ainda, sequer...
«Há uma guerra civil em que se disparam sobretudo ideias, e que se leva ao limite». Mortíferas, tão devastadoras como balas. Ler aqui a entrevista do autor ao El País: - interessantíssima, elucidativa: «Nos EU há dois mundos que não comunicam entre si!» 

O tema deste romance de Paul Auster 'nasce' de um inconformismo, uma não-aceitação do 'estado das coisas', no seu país: «Há oito anos, desde o golpe de estado legal que derrotou Al Gore, que sinto como se vivesse num mundo paralelo que acabou por tornar-se real, e tudo só tem vindo a piorar!» 

Não é casualidade que a guerra civil de Brill (o 'homem no escuro') comece com a independência de Nova York. «E não é piada: há muita gente que pensa que NY deveria ser um Estado independente; tanto que, após o 11 de Setembro, houve uma revista de poesia que escreveu, na 1ª página: 'USA out of NYC'; muitos outros odeiam NY pelo que representa, com 40% da população vinda de fora...».
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review: Man in the Dark

02/03/16

um trump-como-hitler

fonte: http://www.esquerda.net/artigo/chomsky-evoca-ascensao-do-fascismo-europeu-para-explicar-fenomeno-trump/41501
1 de Março, 2016

Donald Trump: foto de Gage Skidmore
Chomsky evoca ascensão do fascismo europeu para explicar fenómeno Trump 
“As pessoas sentem-se isoladas, desamparadas, vítimas de forças poderosas que não compreendem e não podem influenciar”, diz o famoso linguista e ativista político norte-americano, considerando que o bilionário do Partido Republicano está a conseguir canalizar este sentimentos para a sua candidatura.

Numa recente entrevista ao Huffington Post, Noam Chomsky afirmou que o crescimento da candidatura de Donald Trump no Partido Republicano se deve aos “sentimentos profundos de raiva, frustração e desamparo” que se espalham entre os setores da população que veem, por exemplo, crescer os índices de mortalidade no país. “Nenhuma guerra, nenhuma catástrofe causou a subida abrupta do índice de mortalidade desta população”, defendeu o famoso linguista e ativista político. 

Noutra entrevista, ao site Alternet, Chomsky desenvolveu esta ideia: “As pessoas sentem-se isoladas, desamparadas, vítimas de forças poderosas que não compreendem e não podem influenciar.” Para o também professor emérito do MIT, “é interessante comparar com a situação dos anos 30, que eu tenho idade suficiente para recordar. Objetivamente, a pobreza e o sofrimento eram muito maiores. Mas mesmo entre o povo trabalhador pobre e os desempregados havia um sentimento de esperança que falta hoje, em grande parte devido ao crescimento, na época, de um movimento sindical militante e também à existência de organizações políticas exteriores ao mainstream”.

Os sentimentos de desamparo e de raiva, defende Chomsky, “não apontam tanto às instituições que são agentes de dissolução das suas vidas e do mundo”, mas sim àqueles que são ainda mais duramente atacados. “São sinais que conhecemos, e que evocam algumas memórias da ascensão do fascismo europeu.” 

Viragem à direita 
A uma pergunta sobre o surgimento da candidatura de Bernie Sanders, declaradamente socialista, e também do novo líder trabalhista britânico, Jeremy Corbin, Chomsky respondeu: 
"Sanders, na minha opinião, é um honesto e decente democrata do New Deal. Corbyn expressa as posições do trabalhismo tradicional. O facto de serem olhados como 'extremistas' ilustra a viragem à direita de todo o espectro político durante o período neoliberal."