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30/09/13

a influência das hortas nos comportamentos eleitorais

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Ia vendo as projecções, ontem, o mapa deste norte-interior progressivamente descolorindo-se de laranja, azul-amarelo às vezes, tudo tão contrário à tendência generalizada de penalizar os partidos no governo, tudo parecendo tão à margem da involução das coisas, depreciando misérias: os desertos intensificando-se e os incêndios, o desemprego e os velhos de míseras pensões, os serviços que desapareceram e os jovens sem futuro, a nuvem de um 2º resgate.

Em contrapartida, o Alentejo, algumas zonas da grande Lisboa: a CDU reocupando - muito compreensivelmente! - lugares tradicionalmente seus.

Lembro os duros tempos do fascismo, a fome e a emigração em massa, as duas regiões mais miseráveis do país: a Beira-Alta e o Baixo-Alentejo, firmando-se agora, e desde a implantação da democracia em Portugal, em extremos ideológicos, uma "fascista", outra comunista. E pergunto-me: porquê esta diferença abissal, este extremar-se assim opostamente?

Recordo ter lido - visto? Ouvido? -- estórias de foragidos que demandavam o Alentejo escondendo-se da PIDE, refugiados políticos que, a troco de comida, ofereciam lições aos miúdos da casa, ensinavam letras e números. Terá sido esta alfabetização sui generis o gérmen de um pensar "de esquerda", de uma consciência política? Duvido, que ao tempo grassavam já, nessas planuras de além-Tejo, ideias igualitárias e "subversivas", razão, parece-me, de lhe terem demandado as paragens os perseguidos do norte, talvez do Porto, talvez Coimbra, Lisboa..

Depois pensei: não, a causa mais provável deste "colocar-se" político, PSD/CDS ao norte, PCP/CDU ao sul, mais não pode ser do que a Igreja, com o seu obscurantismo proverbial, os padres bradando impropérios do púlpito das aldeias tantas, esquecidos eles de inquestionáveis analogias, "somos todos iguais", "o que tiveres a mais dá-o ao teu vizinho".. A muito maior implementação da igreja católica em "Terras do Demo" e o seu imiscuir-se lá onde não devia, a influência nefasta na incultura das gentes, a sua omnipresença em terras beirãs e transmontanas, que não em plantios de trigo.

Ignorante que sou, apenas depreendo estar a igreja católica mais arredia das gentes do Alentejo, as igrejas que se multiplicam a norte reduzidas a sul pela escassez de povoações, se compararmos.

Embalada nesta convicção, assaltou-me uma espécie de "dúvida-metódica": serão as pedras? A dureza daquele granito e daqueles xistos mal-moldando carácteres, anquilosando pensamentos? Nada, que o refutam, desde logo, Homens assim grandes como o Aquilino ou o Torga!

Foi então que tive uma 'epifania'! As hortas, pá, as hortas!!!

Óbvio! Contrariando o monopólio das herdades imensas, os latifúndios que tudo absorviam e deixavam os pobres dos alentejanos à míngua, os expeditos dos beirões aproveitavam qualquer nico de terra, plantavam-lhe um pé de couve ou uma batata, mal a planta brotava sentiam-se proprietários. Proprietários rurais! As suas hortas!!

É, verdadeira e inequivocamente, este seu esboço de 'posse', tão essencial à sobrevivência, tão assim como um sentido de vida, que explica, mais do que as pedras, mais do que a pouca escolarização ou a acéfala obediência aos ditames religiosos, o serem as gentes do norte tão avessas a comunismos ou outras ideologias que lhes façam perigar a pequena propriedade, ainda que pseudo! "A minha couve ninguém ma tira! Bibó PSD! Bibó CDS e bibó senhor padre da minha paróquia!"

Isso, mais a arreigada convicção (que quase quarenta anos de convivência não abalaram!), de que os outros, esses a quem, depreciativamente, desconfiadamente como convém, continuam a chamar "comunas", comem mesmo criancinhas ao pequeno-almoço!
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«O PR, O GOVERNO E O PSD-CDS FORAM A ELEIÇÕES»

 por Carlos Esperança 

As eleições legislativas e presidenciais que hoje tiveram lugar, com a denominação de autárquicas, acrescentaram às legislativas, que deviam ter-se realizado com a demissão irrevogável de Paulo Portas, o escrutínio sobre a decisão presidencial e o próprio PR. 

Jamais as eleições autárquicas tiveram uma leitura tão política e nacional. Nas opções do eleitorado estiveram em escrutínio este presidente, este governo e esta maioria. 

Pode-se, desde já, assinalar a expressiva vitória do PCP, mas o mais significativo foi a humilhação do Governo, da maioria que o sustenta e do PR que se lhes hipotecou. 

O PR, com a proteção que deu à irresponsabilidade governamental, por motivos que se desconhecem, e em flagrante contraste com o comportamento anterior, quer no que diz respeito ao Governo, quer na escandalosa atitude contra a A.R., no caso do Estatuto dos Açores, e em outras decisões, tornou-se o maior responsável da dissolução das instituições e dos rombos na credibilidade dos políticos. 

A partir de hoje não há referências credíveis nos mais altos postos do Estado, e o País, que tanto precisava de estabilidade, fica com um Governo enxovalhado, uma maioria desacreditada e um presidente combalido. 

O nosso azar não se deve ao facto de haver um presidente, um governo e uma maioria mas, apenas, ao facto de nos ter calhado este presidente, este governo e esta maioria. 

O futuro que aí vem é a trágica herança das más escolhas do eleitorado e da máquina de propaganda que vendeu ao país gatos por lebre. Somos um país à deriva com um regime bloqueado. Valeu o dia de hoje para mostrar à troika o descontentamento de um povo já que os verdadeiros derrotados vão dizer que não foram a votos. 

Quem quiser aturar a imaginação dos avençados do regime, cole-se às televisões e oiça as vuvuzelas do costume. Sempre adormece a pensar que os resultados foram diferentes dos números que viu.

27/09/13

ousar PENSAR!

Pior do que o que está, pode ficar? 
Pode, se os partidos agora no governo tiverem votação relevante. 
Pode, se os portugueses tiverem a ingenuidade de eleger o PS como alternativa. 

Chega de burrice! 

Chega de votar nos mesmos de sempre! 

Só há dois partidos que não desiludiram, que não tiveram nunca a oportunidade de mostrarem o que valem, governando: o PCP e o BE. Ouvimos os seus eleitos na AR, sabemos o que pensam e quem defendem. É mais do que tempo de lhes darmos um voto de confiança. É mais do que tempo de apostarmos seriamente na MUDANÇA! 

Que o voto de cada um seja UM CRAVO REPLANTADO!

25/09/13

A inconsistência de Nuno Crato


no Público,

25 de Setembro de 2013

por Santana Castilho*

 

A inconsistência de Nuno Crato

Não há nada como o querer do candidato autárquico Luís Filipe Menezes. Bastou o concorrente do PSD prometer, que se ganhar, todas as crianças do Porto terão Inglês no Básico, para Nuno Crato dar a pirueta da semana. O inconsistente ministro afirma agora que pretende tornar o Inglês obrigatório, incluindo-o no currículo do 1º ciclo do Ensino Básico. Num dia desvalorizou a disciplina (anulou a obrigatoriedade de inclusão nas Actividades de Enriquecimento Curricular do 1º Ciclo e reduziu-lhe a carga horária no 2º e 3º). No outro promoveu-a a fundamental. Depois disto e das mentiras que nos ofereceu na recente entrevista à SIC, alguém sensato pode confiar neste ministro catavento? 

Para além da espuma da inconsistência, que produziu notícias, parece-me necessário fixar a substância da incompetência, que marca a realidade. 

A incontinência conceptual caótica de Nuno Crato permite que tenhamos hoje crianças que poderão concluir o 1º ciclo do Básico com 4, 3, 2, 1 ou nenhum ano de Inglês. Tudo em nome da “livre escolha” e de uma cínica “autonomia”. E é nestas condições de “igualdade” que se prepara o percurso, a medir por mais um exame. 

O exame de Inglês, a satisfazer no 9º ano, reveste um modelo (prova de aferição) que Crato comentador criticou e Crato ministro recuperou. Com incontido gáudio, anunciou que a Universidade de Cambridge o vai conceber e que é um consórcio de empresas (com interesses comerciais na área da educação) que pagará o serviço. Sobram questões que a competência reconhecida de Cambridge e a probidade presumida das empresas não apagam. Nada justifica que se substituam instituições e professores portugueses por uma universidade estrangeira, senão uma provinciana mas inaceitável tendência para a vassalagem. Presumindo que a vigilância e a correcção dos exames estarão reservadas aos docentes portugueses, o seu não pagamento deixará de ser “consequencialista” de um estatuto de carreira, que a isso os obriga, para ser “deontologista” de uma dignidade aviltada e de uma iniquidade feudal. Concedendo (que não aceitando) que em matéria de obrigações o Estado se deixasse substituir por empresas privadas, porquê aquelas e não outras? Definitivamente, Crato não entende que a dignidade e a independência da administração pública são o melhor garante da prevalência do interesse colectivo sobre o privado, sempre que se trate de gerir a coisa pública. 

O que este Governo mudou no sistema de ensino português terá consequências cujo alcance não está a ser percebido pela maioria dos portugueses. Mas há um universo, o dos professores, que se assume como espectador num processo em que é actor. Por omissão, concedo. Com gradientes diversos de responsabilidade, volto a conceder. Mas com o ónus global de não dizer não. Um não veemente quanto necessário para pôr cobro aos dislates de uma política que nos reconduz ao passado e nos recusa o futuro. A crise financeira e económica não justifica o pacifismo reinante face à crise da democracia. Tão-pouco a força das circunstâncias (leia-se o humor dos mercados) justifica a demasiado bem comportada espera pelo fim da legislatura, para corrigir o voto de 2011. Os sindicatos, as outras associações profissionais, os directores de escola e os professores, pese embora o que têm feito, o que dizem e escrevem, acabam por ser espectadores num processo em que, historicamente, serão julgados como actores. Actores de uma tolerância malquista, que vai poupando a besta que não os poupa. 

Na antevisão dos que pensam o país, a Educação será uma questão política central para a recuperação duradoura. Mas, para tal, será mister identificar que políticas a servem, num quadro de tensões múltiplas e num ambiente de confronto entre os neoliberais e os que recusam aceitar a Educação como mais um mercado. 

As mudanças sociais e económicas colocam à Educação problemas novos e emprestam uma dimensão maior a problemas de sempre. Mas em situações de crise e de emergência, a Educação pode ser confrontada com caminhos que desprezem a sua natureza axiológica e procurem impor-lhe o modelo de mercado. Trata-se de apresentar a Educação como um simples serviço, circunscrito a objectivos utilitários e instrumentais e regulado apenas por normas de eficiência e eficácia. 

O acto educativo transformado em produto e a escola transformada em empresa de serviços é sonho de alguns, que já não escondem uma ideologia marcada pela sede de desinstitucionalizar e pela pressa de privatizar, como se a República não devesse outra coisa aos seus cidadãos. Mas deve. Deve o respeito à igualdade de todos perante as mesmas oportunidades, sem discriminações. E deve o garante da dignidade humana, pilar fundador da República. Coisa pouca para a educação-mercadoria. Coisa muita para a arte de educar e para as necessidades da cidadania.  

* Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt)

20/09/13

poema - José Carlos Ary dos Santos
música - Alain Oulman
voz - GISELA JOÃO
guitarra portuguesa - RICARDO PARREIRA
viola de fado - TIAGO OLIVEIRA
baixo acústico - FRANCISCO GASPAR
produção musical - FREDERICO PEREIRA ©2013
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19/09/13

o bullying na pseudo "tradição" académica


O texto tem dois anos, mas não interessa. Agora "estendido" a miúdos de 12 anos, mantém-se em todo o seu selvático esplendor o 'circo romano' das praxes , apesar das queixas, apesar das mortes.

(www.expresso.pt

por Daniel Oliveira ,
19 de outubro de 2011

Praxe: na Universidade e na vida, integra-te na cobardia 


Felizmente, longe vão os tempos em que ao se entrar na Universidade já se era "doutor". E que ser "doutor" era uma espécie de título nobiliárquico da República, perante a qual a plebe respeitosamente se vergava com um "senhor doutor" em cada frase. A Universidade, democratizada e aberta a muitíssimo mais gente, perdeu a capacidade de oferecer aos seus estudantes prestígio social. E foi aí que, fora da cidade de Coimbra, começou a inventar-se uma tradição. A tradição académica. Mas até aqui tudo bem. Amigo não empata amigo. Cada um veste os trajes que entender e ninguém tem nada a ver com isso. 

de F. Botero, img. daqui
Compreendo esta necessidade de ritualizar aquele momento da vida. Para muita gente a entrada na Universidade não é uma mera continuação dos estudos. É motivo de orgulho familiar. Resultado de enormes sacrifícios de pais e filhos. No momento em que entram na Academia muitos daqueles caloiros acreditam que conseguiram dar o primeiro passo na sonhada ascensão social. Serei o último a julgar. 

Bem diferente é a praxe. Também ela pretende dar àquele momento uma importância que não tem. É um ritual de passagem sem qualquer tradição na maioria das faculdades - também elas recentes. Bruno Moraes Cabral acompanhou este momento. Em Lisboa, Santarém, Coimbra, Setúbal e Beja. E fez um documentário que estreia, no DocLisboa, na próxima sexta-feira (Culturgest, Pequeno Auditório, 21h). Chama-se "Praxis", a origem grega da palavra "praxe". Tudo o que filmou foi com autorização dos envolvidos. Ali não está, portanto, aquilo que os próprios podem ver como um abuso ou um excesso. É a versão soft da praxe. 

O que vemos é uma sucessão de humilhações consentidas - ou toleradas por quem, estando fora do seu meio, não tem coragem de dizer que não. A boçalidade atinge níveis abjectos. Os gritos alarves, a exibição de simulações forçadas de atos sexuais, o exercício engraçadinho do poder arbitrário de quem, por uns dias, não conhece qualquer limite. Tudo isso impressiona quem tenha algum amor próprio e respeito pela sua autonomia, liberdade e dignidade. Mas a questão é mais profunda do que a susceptibilidade de cada um. É o que aquilo quer dizer. 

Como o documentário não é um mero ato de voyeurismo, mostra-nos o outro lado. Como a esmagadora maioria dos caloiros se sente bem naquela pele. Porquê? Porque, como já disse, aquilo marca o início de um momento que julgam que mudará a sua vida. Mas, acima de tudo, porque os "integra". E não se trata de uma mentira. De facto, naqueles rituais violentos e humilhantes, conhecem pessoas e sentem-se integrados num grupo. Eles são, naquele momento, rebaixados da mesma forma. Não há discriminações. São todos "paneleiros", "putas", "vermes". Na sua passividade e obediência, não se distinguem. Até, quando deixarem de ser caloiros, terem direito à mesma "dignidade" de que gozam os que bondosamente os maltrataram. Aceitam. Porque, como escrevia Jean-Paul Sartre, "é sempre fácil obedecer quando se sonha comandar". 

de Kaloust Guedel
Sim, a praxe integra. A questão é saber em que é que ela integra. Porque a integração não é obrigatoriamente positiva. Se ela nivela todos por baixo deve ser evitada a todo o custo. Perante o que é degradante os espíritos críticos distinguem-se e resistem. Não se querem integrar. 

Ingénuos, supomos que a Universidade deveria promover o oposto: a exigência, o sentido critico, a capacidade de recusar a tradição pela tradição, a distinção. A Academia que aceita o espírito bovino da obediência está morta. Porque será incapaz de inovar, de pôr em causa e de questionar o resto da sociedade. A universidade que, através de rituais (que têm um significado), promove o seguidismo e a apatia, não é apenas inútil para a comunidade. É um problema para o conhecimento e para a cidadania. 

Mais do que as cenas dignas de muito do telelixo que nos entra em casa, o que impressiona é a relação que a comunidade mantém com aquilo. São raros os que põem em causa tão estúpida tradição sem tradição nenhuma. E é normal. Vemos no documentário como as estruturas universitárias - corpo diretivo e docente - não só toleram como promovem a boçalidade. As autarquias emprestam meios. As empresas de bebidas patrocinam. E até membros do clero vão lá benzer a coisa, perante jovens de caras pintadas ou com penicos na cabeça. Não se trata apenas de um momento de imbecilidade de alguns jovens e adolescentes. Porque é aceite por todos, porque é mesmo assim que as coisas são, foi institucionalizada e parece ser vista por todos como um momento que dá dignidade à Universidade. 

Assim, com pequenos gestos simbólicos, se forja a alma de cidadãos sem fibra. Incapazes de dizerem que não. Incapazes de se distinguirem dos demais. A praxe é a iniciação de uma longa carreira de cobardia. Na escola, perante as verdades indiscutíveis dos "mestres". Na rua, perante o poder político. Na empresa, perante o patrão. A praxe não é apenas a praxe. É o processo de iniciação na indignidade quotidiana. O pior escravo é aquele que não se quer libertar. E que encontra na escravidão o conforto de ser como os outros. Os caloiros que aceitam a praxe não são ainda escravos. Apenas treinam para o ser. fonte

12/09/13

O mentiroso

no DN,
11 de Setembro de 2013,

por BAPTISTA-BASTOS

 Pouco há a fazer senão demonstrarmos a nossa indignada repulsa. O homem é um mentiroso compulsivo. Há dois anos ameaçou-nos com o empobrecimento, "única alternativa", dizia, à soberba que de nós se apossara para vivermos "acima das nossas possibilidades." Íamos, pois ficar mais pobres do que temos sido. Depois, como a Fénix que renasce das cinzas, gozaríamos de um cintilante futuro. O rol de miséria que se seguiu causou-nos infortúnios e desditas sem nome. Agora, o mesmo homem, possuído de amnésia contumaz, veio afirmar que nenhum político seria capaz de afirmar tal destino. A SIC, pressurosa e cheia de zelo informativo, foi aos arquivos e retransmitiu a primeira e a segunda mensagens. Acaso para avivar a lembrança do desmemoriado ou, simplesmente, para reforçar o que dele sabemos: transformou a mentira numa banalidade. 

O pior de tudo é que não nos podemos esconder nem fugir deste homem. Ele está em todo o lado, com rostos diversos e múltiplos, a mesma voz enfática, a mesma mentira travestida, as mesmas maneiras afáveis e frias. Mentir a nós, que temos cama, mesa e roupa lavada asseguradas, é o menos. Mentir aos desempregados, aos velhos, aos miúdos famintos nas escolas, aos moços e moças que não sabem o que fazer porque lhes foi tirada a mais ínfima parcela de sonho - essa, sim, é uma mentira monstruosa, a merecer todas as maldições, os maiores dos desprezos, a mais vil de todas as execrações. 

Como é possível que haja gente, presuntivamente de bem, a apoiar este mentiroso que não só nos empobreceu materialmente como nos enfraqueceu a alma, nos amolgou o espírito com perseverança infame, e continua a impelir-nos para uma perdição tão maldosa que, ela própria, nos escapa; como é possível? 

A mentira multiplicada quebrou a coesão e colocou portugueses contra portugueses, numa endemia moral que irá prolongar-se. Com extrema dificuldade, os governos que se seguirão conseguirão repor o que nos indicava como o povo mais lógico, por mais unido, da Europa. O mentiroso conseguiu o que mais ninguém obteve, com repressão ou com o montante. Levou-nos até ao desgosto da palavra, porque houve quem acreditasse na voz de tenor, falsamente casta, e na insistência maviosa dos temas. 

Redignificar a função, reabilitar a grandeza do falar verdade, é tarefa de resgate incomum; e não vejo quem disponha da elevação necessária e urgente para tal empreitada. Os políticos entenderam a facilidade como norma de uma vitória sobre o tempo, e abandonaram, por incúria e ignorância, as convicções e a consciência de missão. O seu combate é outro. E no caso português muito mais evidente, pelas debilidades culturais dos intervenientes. O mentiroso comum é desprezível; o mentiroso político, abominável: pertence a uma época estimulada pela incerteza, e incapaz de se opor às estruturas ideológicas que tomaram conta da Europa. 

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo acordo ortográfico

fonte 

11/09/13

ah bom, um aCto de jeito!


Privatizem também a nuvem que passa

no Público,
11 de Setembro de 2013,

um artigo a-v-a-s-s-a-l-a-d-o-r !!!

por Santana Castilho*

Privatizem também a nuvem que passa

O ano-lectivo que agora se inicia está marcado, pobremente marcado: pelo afastamento da profissão de muitos e dedicados professores; pela redução, a régua e esquadro, sem critério, de funcionários indispensáveis; pela amputação autocrática da oferta educativa das escolas públicas, para benefício das privadas; pela generalização do chamado ensino vocacional, sem que se conheça qualquer avaliação da anterior experiência limitada a 13 escolas e agora estendida a 300, via verde de facilitismo (pode-se concluir o 3º ciclo num ano ou dois, em lugar dos três habituais) e modo expedito de limpar o sistema de repetentes problemáticos; pela imposição arbitrária de decisões conjunturais de quem não conhece a vida das escolas, de que as metas curriculares, a eliminação de disciplinas, o brutal aumento do número de alunos por turma e as alterações de programas são exemplos; pelo medo do poder sem controlo, que apaga ao dobrar de qualquer esquina contratos de décadas e compromissos de sempre; pela selva que tomou conta da convivência entre docentes; pelo utilitarismo e imediatismo que afastou a modelação do carácter e a formação cívica dos alunos; pela paranoia de tudo medir, registar e reportar, para cima, para baixo, para o lado, uma e outra vez, e cujo destino é o lixo, onde termina toda a burocracia sem sentido; pelo retrocesso inimaginável, a que só falta a recuperação do estrado e do crucifixo.

Providencialmente no tempo (imediatamente antes de se concretizar mais um despedimento colectivo de professores, que marca o ano-lectivo) vieram a público dados estatísticos oficiais. Primeiro disseram-nos que em 2011/2012 tivemos nos ensinos básico e secundário menos 13.000 alunos que no ano anterior. Depois, projectando o futuro, prepararam-nos para perdermos 40.000 até 2017. Providencialmente, no momento, omitiram que, de Janeiro de 2011 a Junho deste ano, desapareceram 47.000 horários docentes. Políticos sérios não insinuam que esta redução de docentes se deve à quebra da natalidade. Trapaceiros, sim.

Nada justifica a desumanidade com que se trataram os professores contratados. Nada justifica o ministerial sadismo de obrigar ao ritual do Fundo do Desemprego, por escassos dias, aqueles que acabarão por ser contratados. Nada justifica o anacronismo de impor um exame de selecção a quem já é professor há uma década e mais, ao mesmo tempo que se entrega a leccionação de disciplinas curriculares a quem nem sequer tem habilitação científica na área.

Na Educação acabaram as subtilezas e perdeu-se a vergonha. Se Fernando Negrão, juiz de carreira e deputado de circunstância, expressou vincado desacordo pelo ensino da Constituição nas escolas, se Passos Coelho clamou pela “União Nacional” e, raivoso com o quinto chumbo constitucional (que impediu o despedimento sem justa casa dos funcionários públicos e foi significativamente decidido por unanimidade) recorreu à boçalidade de linguagem para referir explicitamente os respectivos juízes e, implicitamente, o Presidente da República, por que razão seria Crato recatado e decente? Na mesma altura em que a falácia da “liberdade de escolha” foi o argumento para um passo determinante na privatização do ensino e para a ampliação sem peias das parcerias público-privadas na Educação, (outra coisa não são os contratos de associação já vigentes) o preclaro ministro cerceou a liberdade de escolha relativamente às escolas públicas, quando não autorizou o funcionamento de turmas constituídas em função das decisões dos alunos e das famílias. A engenharia social e económica que o Governo acaba de consumar com a aprovação do novo estatuto do ensino particular, a consumar-se com a regulamentação sucessiva que se espera, não se afastará daquela que protege as rendas escandalosas dos sectores energéticos, bancários, das rodovias e outros. Eis o Estado do futuro, o Estado escravo, cujo poder deixou de ser delimitado pela lei. Uma vez mais, a Constituição da República acaba de ser revista por decreto do Governo, que derrogou o carácter supletivo do ensino privado nela contido.

A agenda escondida com o objectivo de fora deste Governo é a substituição do Estado social possível, laboriosamente construído em 39 anos de democracia, por um Estado neoliberal, redutoramente classista. Para o conseguir, e a coberto do fantasma da falência, o Governo tem-se encarniçado em reduzir o Estado a funções mínimas de obediência aos titereiros do regime, privatizando o resto. Como fixou Saramago naquele belo naco de prosa que nos deixou desde Lanzarote, não escapará “a nuvem que passa” nem o sonho, “sobretudo se for diurno e de olhos abertos”. Pela mão de Passos e de Crato, abriu o assalto final à Educação. Não lhe declararam a privatização, como fizeram com a água. Mas, sorrateiramente, com melífluas justificações, querem consumá-la.

* Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt)

Porquê a corrupção? Porquê em Portugal?


enviado por e-mail
por  [Grupo da dívida]  
Grazia Tanta 

Sumário
1 - A corrupção é tara genética?
2 – Corrupção e estruturas políticas e económicas
3 - Corrupção e a falta de democracia
4 – Há soluções! 

Em uma das seguintes ligações:

http://grazia-tanta.blogspot.pt/2013/09/porque-corrupcao-porque-em-portugal.html
http://www.slideshare.net/durgarrai/porqu-a-corrupo-porqu-em-portugal 
http://pt.scribd.com/doc/166994454/Porque-a-corrupcao-Porque-em-Portugal-pdf 


Súmula 

  • Não há pessoas naturalmente corruptas e, muito menos a corrupção é imanente à natureza humana. O que existe são meios sociais mais permissivos que outros em relação a procedimentos corruptos;
    de Roman Morhardt

  • Quer os poderes tradicionais, quer as alternativas “de esquerda” colocam a corrupção no âmbito da moral individual, retirando-lhe a caraterística sistémica, política; 
  • Não sendo sistémica a corrupção não é argumento relevante para alargar a democracia e, para efeitos de propaganda, esse aprofundamento cinge-se a uma folclórica “democracia participativa”; 
  • A corrupção sempre esteve associada ao poder dos senhores feudais mas é o capitalismo que a faz alastrar para toda a esfera da economia real, mais disfarçada sobre a forma de lobbying para satisfazer sensibilidades luteranas, menos mascarada noutras culturas; 
  • Os factores sistémicos que incutem procedimentos corruptos ou, são seus instrumentos são a concorrência, a incerteza, a posse do aparelho estatal e a globalização; 
  •  A corrupção é uma forma de privatização, à medida, da atuação do Estado como materializador e reprodutor das desigualdades. O seu caráter endémico torna letra morta o primado da lei e portanto a democracia sai, forçosamente, em perda; 
  • Num contexto global de inerência ao capitalismo, a corrupção é mais necessária nos países dependentes, menos dotados para a competição global; e daí a sua ligação a modelos de baixos salários, menor qualidade de vida, redução de direitos e menos democracia; 
  • A corrupção demonstra a inconsistência da democracia dita representativa, a irrealidade da concorrência, a inoperacionalidade programada do sistema judicial; 
  • Os sistemas informáticos reduzem a pequena corrupção e centralizam-na nas grandes empresas, nas sociedades de advogados, por um lado e, nas altas esferas do poder estatal e dos partidos que o ocupam; 
  • Essa centralização torna a corrupção programada, institucional pois tudo se passa com … “certificação” legal e contratual. A apropriação do Estado pela associação entre poder financeiro, empresas de regime e o partido-estado há uma normalização da corrupção, passando a questão a colocar-se ao nível da legitimidade da classe política e da nulidade ou anulabilidade dos seus actos; 
  • A financiarização com a insana criação de capital-dinheiro, associada à grande concentração de capitais na economia dita “real” altera o plano da corrupção para uma escala global e densifica o tráfico de influências; 
  • Manipulada por esses interesses a democracia desaparece da vida da população e os sistemas políticos resvalam para ditaduras que se mostram tolerantes na exacta medida em que mantêm as pessoas politicamente infantilizadas; 
  • É muito duvidoso que a corrupção possa ser extirpada num quadro de capitalismo e por isso é preciso construir com caráter de urgência um regime político efetivamente democrático. Que contemple estes aspetos: 
· Responsabilidades individuais na representação política e não grupais ou partidárias;
· Possibilidade de cassação de mandato a todo o instante, por referendo
· Períodos curtos de mandato e a sua eventual repetição
· Ausência de classe política
· Total transparência da gestão das necessidades coletivas
· Estado é sinónimo de autoridade, desigualdade, hierarquia
· Independência do aparelho judicial e seu controlo democrático

04/09/13

«O regresso da sopa dos pobres..»

por José Vítor Malheiros

20/08/2013

 O regresso da sopa dos pobres como modelo de apoio social

O filho mais velho de Cláudia tem dez anos e acompanha a mãe e os dois irmãos mais pequenos à cantina social de Matosinhos. Levam sacos com recipientes vazios que vão levar para casa com o almoço da família. Pai e mãe estão desempregados e o subsídio de desemprego não chega para cobrir as despesas e comprar comida para todos. Ao entrar na cantina, o rapaz cruzou-se com um colega da escola, que deve ter percebido o que a família ia fazer. “Que vergonha!”, disse o rapaz à mãe. 

A história é contada numa reportagem de Ana Cristina Pereira, publicada há poucos dias nestas páginas, a par de um artigo de Andreia Sanches sobre o Programa de Emergência Alimentar. E nós não podemos senão repetir, como o filho mais velho de Cláudia, “Que vergonha!”. 
de Picasso, Le Repas Frugal

Que vergonha que o Governo de Passos Coelho esteja a mergulhar cada vez mais famílias na pobreza, a destruir os apoios sociais a que todos os cidadãos têm direito nos momentos de necessidade e para os quais todos contribuímos, e a substituí-los por humilhantes programas de caridade, onde os direitos se transformam em esmolas, onde a dignidade das pessoas é ofendida, onde a sua autonomia é negada, onde a sua perda de estatuto é ofensivamente reiterada dia após dia. 

É infame que o ministro Mota Soares envergonhe o filho mais velho de Cláudia, uma criança de dez anos cujo único crime é ter pais desempregados. É infame que o ministro Mota Soares apenas aceite alimentar os filhos das Cláudias em troca da sua humilhação. Mas Mota Soares, que de facto é não só ministro para a Promoção da Miséria mas também grão-mestre da Humilhação dos Pobres, não se fica por aqui. Há todos os dias milhares e milhares de crianças que comem a sopa da caridade, sob o olhar envergonhado dos pais, e que rezam para que nenhum colega da escola os veja entrar numa cantina social ou entrar de sacos vazios e sair de sacos cheios de uma IPSS ou de um Centro Paroquial. Mota Soares pode achar esta vergonha despropositada em miseráveis, pode considerar que todos eles têm muita sorte por ter a sua sopinha grátis e pode até argumentar que seria pior se não a tivessem, mas a questão é que o Estado tem o dever de proteger os direitos das pessoas em geral e dos seus cidadãos mais frágeis em particular e que estas doações não são senão retribuições que a sociedade lhes deve – como no-las deve a cada um de nós em caso de necessidade porque todos contribuímos solidariamente uns para os outros. Mota Soares não percebe que o seu papel é gerir os recursos de todos de acordo com as políticas solidárias que a sociedade colectivamente sancionou e não impor um programa de submissão dos pobrezinhos para aterrorizar os trabalhadores e facilitar o ataque aos seus direitos. Mota Soares não percebe que as pessoas são todas iguais em direitos e dignidade e que não pode impor aos filhos dos mais pobres o que nunca admitiria que fosse imposto aos seus filhos. Mota Soares não percebe que está a vender a sua sopa a um preço demasiado alto. 

Mota Soares não percebe que é abjecto organizar apoios sociais de uma forma que humilha os necessitados, que eterniza a sua dependência porque não lhes permite qualquer autonomia e que nem sequer é a mais eficiente. 

Há 415.000 portugueses que vivem de alimentos doados, quer pelo Banco Alimentar contra a Fome quer pelas cantinas sociais do Programa de Emergência Alimentar. Se somarmos a estes os que são alimentados por organizações privadas que não estão ligadas àqueles programas e por indivíduos a título pessoal, o número excederá certamente o meio milhão. Meio milhão de pessoas que só podem comer todos os dias se forem pedir comida. 

O Programa Alimentar de Emergência cresceu paralelamente à redução das prestações e do âmbito do rendimento social de inserção (RSI), que apoia cada vez menos pessoas apesar do evidente aumento das necessidades, mas todos os especialistas consideram que um grande alargamento do RSI seria a medida mais justa, mais respeitadora da dignidade das pessoas, mais promotora da sua autonomia e até mais benéfica para a economia nacional. Porque é que o Governo gosta de distribuir sopa mas reduz o RSI? Porque o RSI proporciona uma autonomia que o Governo não quer promover. O RSI serve para fazer sopa ou para um bilhete de autocarro. A sopa é só sopa. Não permite veleidades. 

P. Portas e P. Mota Soares
Usando habilmente de uma propaganda sem escrúpulos, o Governo e a direita em geral conseguiram difundir a ideia de que o RSI promovia a preguiça e atrofiava a iniciativa, além de gastar recursos gigantescos. Era e é mentira, mas a campanha ajudou a estabelecer a sopa dos pobres como modelo social alternativo. 

Mota Soares prefere dar sopa e anunciar que os pobres podem fazer bicha para a sopa. “É bom para o Governo e para a alma”, sonha Mota Soares. “É maravilhoso ter muitos pobres a quem dar sopa, porque quem dá sopa aos pobres pratica a caridade e quem pratica a caridade está na graça de Deus.” É por isso que Mota Soares exulta com a sopa dos pobres. Por isso e porque sabe que na bicha da sopa só estarão os filhos dos outros. 

José Vítor Malheiros – “Público” 20 agosto 2013
 fonte

"Bom senso"

no i online,
publicado em 4 Set 2013

por Carlos Moreno *

Bom senso


Há fronteiras que numa democracia adulta não devem ser ultrapassadas, em particular pelos titulares de órgãos de soberania nos quais o povo põe os olhos e segue o exemplo 

Na sequência do recente chumbo pelo Tribunal Constitucional (TC) de duas normas do diploma que tinha por fim último despedir efectivos da função pública (matéria que não vou aqui analisar), o primeiro-ministro fez declarações públicas que chocaram a sensibilidade de muitos.

Repesco da generalidade dos meios de comunicação social os factos.

Após publicitado o acórdão do TC, o chefe do executivo exprimiu sem hesitações que o principal entrave à reforma do Estado não é a Constituição da República Portuguesa (CRP), mas a interpretação que dela faz o TC, a cujos juízes, disse, falta bom senso. O primeiro-ministro acrescentou ainda que a decisão do TC poderia acarretar soluções mais gravosas para os funcionários do Estado ou para os portugueses em geral, tendo deixado pairar demasiadas ambiguidades sobre novo aumento de impostos e/ou um segundo resgate. E numa espécie de pergunta não inocente aos cidadãos questionou-os sobre o que a Constituição tem valido aos milhares de desempregados.

Estas declarações não devem ser banalizadas, esquecidas ou entendidas como fazendo parte de uma qualquer quezília emocional, sem antecedentes e irrepetível entre o governo e o TC. Há fronteiras que numa democracia adulta não devem ser ultrapassadas, muito em particular pelos titulares de órgãos de soberania, nos quais o povo põe os olhos e segue o seu exemplo.

Estado democrático e de direito é aquele em que os mais altos responsáveis políticos são eleitos pelo povo, e tanto eles como os cidadãos devem estrita obediência às leis promulgadas e publicadas, em particular às normas constitucionais.

Estado democrático significa que o governo cabe ao povo, mas como, nos tempos actuais, é impossível a governação directa por aquele, o governo é entregue aos eleitos do povo.

Estado de direito é aquele em que vigora o "império da lei". Isto é, só os órgãos previstos na Constituição podem criar leis, todos a elas ficam sujeitos, incluindo o Estado e os seus órgãos de soberania, e todo o poder estatal é limitado pela lei. 

Em todos os Estados modernos ocidentais, que são Estados democráticos e de direito, encontramos três poderes ou funções: o poder legislativo, o poder executivo e o poder judicial. O primeiro é o que faz as leis. O segundo é o que governa ou administra a coisa pública. O terceiro é o que controla a conformidade da acção dos anteriores com a lei, máxime com a lei fundamental que, no nosso país, é a Constituição. É o último a decidir e as suas decisões, quando transitadas em julgado, impõem-se a todos.

A interpretação da lei constitucional cabe em última instância ao TC e a decisão deste, embora possa, como tudo em democracia, ser analisada e criticada, exige, sobretudo da parte dos demais órgãos de soberania, e dos seus titulares, respeito institucional e pessoal.

Desconhecendo os portugueses o que é a apregoada "reforma do Estado", pois não foi ainda divulgado, pelo governo, o seu conteúdo, os seus objectivos, a sua quantificação e o seu calendário, não se compreende que se chame reforma do Estado a medidas avulsas de meros cortes na despesa com o despedimento de funcionários públicos e com a redução das reformas dos aposentados da Caixa Geral de Aposentações.

As declarações do chefe do governo, no fim-de-semana passado e já atrás referidas, levantam várias perplexidades que só o futuro poderá esclarecer. Refiro duas.

Voltar a assustar as classes médias, quando a economia dá alguns sinais de recuperação, é erro estratégico imperdoável.

Criticar a pessoa dos juízes do TC nas suas capacidades intelectuais, profissionais e humanas, revela, benignamente falando, menos compostura cívica e falta de bom senso. 

fonte

*Juiz conselheiro jubilado do Tribunal de Contas 
Escreve quinzenalmente à quarta-feira

"Um governo de traição nacional"


no Público,
03/09/2013

por José Vítor Malheiros

Um governo de traição nacional

A história e a política estão cheias de grandes tiradas, de declarações que mudaram o rumo do mundo e que inflamaram o desejo e o sonho de milhões durante décadas ou séculos. "Obviamente, demito-o!" "De l'audace, toujours de l'audace, encore de l'audace!" "We shall fight on the beaches..." "Os proletários não têm nada a perder senão as suas grilhetas!"... 

E há também frases aparentemente banais que, por uma conjugação de circunstâncias, conseguem mudar o curso dos acontecimentos. O fim do senador republicano americano Joseph McCarthy foi ditado quando, durante um das famosas audições no Senado, o advogado do Exército dos EUA Joseph Nye Welch lhe perguntou simplesmente, com um ar de profundo desdém, "Have you no sense of decency?" Uma pergunta que bastou para os americanos - havia 20 milhões a seguir a transmissão televisiva em directo - adquirirem a consciência de que aquele arruaceiro pomposo era apenas um pequeno traste à procura de poder. O homem não merecia senão desprezo. 

O que é espantoso é como, na actual situação política portuguesa, há tão pouca gente a fazer a mesma pergunta a todos e a cada um dos membros do Governo português, de cada vez que abrem a boca, quando é tão evidente que essa gente é apenas, como McCarthy, um bando sem escrúpulo, sem noção de decência, sem respeito pela lei, sem apego à democracia e com um profundo desprezo pela vida dos cidadãos e uma subserviência criminosa em relação aos interesses financeiros internacionais. Há decência nos swaps? Na destruição da escola pública? Na humilhação dos pobres? Na destruição da universidade? No aumento do desemprego a que chamam flexibilização? Na destruição da administração pública a que chamam requalificação? 

Não têm o sentido da decência? Não. Não têm, não querem ter e têm raiva a quem tem. 

Parece uma caricatura? Parece. Mas isso é apenas porque o Governo de Passos Coelho é de facto uma caricatura, um excesso de mentiras e pouca-vergonha, uma organização de rapina que governa sem qualquer escrúpulo. Aquele conjunto é de facto caricatural. Portas é caricatural. Mota Soares é caricatural. Maduro é caricatural. Passos Coelho é caricatural como todas as pessoas sem escrúpulos são caricaturais. Por que é que as enormidades que diz não são denunciadas como as enormidades que são? Por que é que se acha aceitável este estilo de títere tiranete? Porque há uma reserva de boa vontade nas pessoas que lhes diz que as coisas talvez não sejam tão más como parecem e que as pessoas podem não ser tão desprovidas de princípios morais e de sentimentos como parecem na televisão. Há sempre pessoas que levam a sua magnanimidade até à estultícia. E os Passos Coelhos deste mundo contam com isso. Com isso, com os crédulos que podem convencer a continuar a votar em si e com os moluscos que os servem no Parlamento. 

É assim que este Governo fora-da-lei pode continuar a roubar aos milhares de milhões os portugueses, roubando-lhes os bolsos, os empregos, as pensões, os ordenados, os subsídios, os serviços públicos que eles pagam, o património que construíram, as empresas públicas que são de todos, destruindo o progresso que se alcançou nas últimas décadas apenas para poder enriquecer ainda mais os muito ricos e para poder aniquilar os resquícios de soberania que possam teimar em existir, espalhando a miséria e reduzindo os portugueses à inanição e à subserviência. 

O que temos é um Governo não de salvação mas de traição nacional. De traição às suas promessas eleitorais, às suas juras de tomada de posse, às instituições democráticas e aos compromissos da civilização que todos abraçámos, de traição ao povo, espremido e vendido barato para enriquecer os credores. 

E, no entanto, os portugueses não se movem. Ou quase não se movem. As acções do bando de malfeitores que se apoderou do Governo com falsas promessas parece tão inconcebível que parece impossível que alguém as leve a cabo sem que haja fortíssimas razões de interesse público, ainda secretas. Imagina-se que deve haver aí alguma racionalidade. Talvez o que o Governo diz da austeridade seja verdade. Talvez seja justo matar os pobres à fome para pagar aos bancos. 

Custa a acreditar que alguém possa ser tão desonesto, tão insensível, com um tal ódio aos mais fracos. Pensamos que isto não é possível, que a lei nos protege, que a filosofia nos protege, que a história nos protege, que a decência que temos o direito de esperar dos outros nos protege. 

Mas a história está cheia de exemplos destes. Durante anos ninguém acreditou que Hitler quisesse exterminar os judeus, ninguém acreditou que Pol Pot tivesse dizimado um quarto da população do Camboja. E na sombra destes grandes ditadores sempre houve pequenos velhacos, pequenos capatazes como Passos Coelho ou Mota Soares que fizeram o trabalho sujo apenas para terem as migalhas da mesa do poder. Há racionalidade na acção do Governo, mas é a racionalidade do saque, do roubo descarado, da tirania da oligarquia. A decência está fora da equação. 
fonte
jvmalheiros@gmail.com 
Escreve à terça-feira

01/09/13

«A mão que embala os incendiários»

no blogue Delito de Opinião,
por Teresa Ribeiro,
em 31.08.13

imagem retirada daqui
Quando morrem bombeiros, a ladainha sazonal dos políticos choca-me mais, porque sei - com o saber da experiência feito - que é inconsequente. Há dias Marques Mendes admitiu na televisão que os discursos circunstanciais da época são "hipócritas" porque, assim que o Verão termina, as medidas anunciadas de prevenção e combate aos fogos ficam imediatamente esquecidas até ao Verão seguinte. E reconheceu que esta atitude se tem perpetuado de governo em governo, ou seja, que as culpas estão democraticamente distribuídas por todos os que ocuparam cargos de decisão nas últimas décadas. Os políticos que não estão no activo são assim, desassombrados. A frontalidade é uma forma de exercerem também o seu direito à hipocrisia. 

As medidas que ficam na gaveta de ano para ano são bem conhecidas de todos, já que na época dos fogos são sempre lembradas, nos mais diversos fóruns. É impossível evitar de todo os incêndios florestais, mas os nossos piores anos começaram a somar-se no passado recente, não por acaso. Sei que pouco depois do 25 de Abril a rede de guardas florestais que residia nas florestas foi desmantelada e o combate aos fogos saiu da alçada da então Direcção Geral dos Serviços Florestais e Aquícolas, onde se concentravam os especialistas, quase todos engenheiros silvicultores de formação. A partir daí foi o caos. Os bombeiros, na época sem treino específico de combate a incêndios florestais, passaram a liderar as operações nas frentes dos fogos com resultados desastrosos. 

Se ao nível da formação dos bombeiros muito se evoluiu com o tempo, o resto, tudo em que assentava o antigo sistema de prevenção de fogos permaneceu afastado dos programas governamentais, com destaque para a rede de postos de vigia, com comunicação entre si, a que acediam os guardas florestais (que foi desactivada) e práticas como a abertura e manutenção de picadas e valas para facilitar respectivamente os acessos da floresta em caso de fogo e a sua delimitação. 

Também a preservação das espécies autóctones deixou de ser um desígnio. O eucalipto ainda há-de ser promovido a símbolo nacional. Para quem trabalha na indústria da pasta de papel, já o é, com certeza. 

A inércia tem diversos factores, também já profusamente enumerados, mas é na falta de vontade política que se consubstancia. É por isso que quando vejo políticos a chorar lágrimas de crocodilo na televisão me repugna. Se há quem possa sentir confiança nas suas palavras são certamente os próprios incendiários.

Em defesa de todos

no i online 

Por Eduardo Oliveira Silva
publicado em 31 Ago 2013 

Em defesa de todos 

Com a sua decisão, o Constitucional salvaguardou a independência da administração pública em relação a partidos e interesses privados. 

Há quem nunca tenha percebido por que é que despedir no Estado ou no privado é diferente e por que é natural e essencial que assim seja. 

de René Magritte
Um funcionário público tem por missão primeira servir a comunidade de forma isenta e independente. Para isso não pode estar subordinado a uma hierarquia política tutelar que possa estar vergada a interesses partidários ou a lóbis, e portanto tem de ter um estatuto que lhe permita resistir a pressões e ordens ditadas por quem está num lugar de topo porque eventualmente foi indicado por um partido ou por amizades públicas ou secretas. Quantas vezes a politização dos cargos dirigentes tem sido discutida! 

Assim, se por exemplo um ministro pede um parecer a um técnico da administração pública, este tem liberdade e defesa para o elaborar em função do que efectivamente for a sua avaliação da situação e da lei. Foi em boa parte por isso que os governos mudaram a contratação e não têm substituído esses quadros, optando, em regra, pelos escritórios que dão pareceres à medida ou feitos por adjuntos de gabinete inexperientes que estão de passagem e muitas vezes são, no pior dos sentidos, pessoal político, a quem o interesse do Estado e o dever de isenção, de imparcialidade, não diz rigorosamente nada. Em geral apenas querem saltar dali para outro lado, normalmente também público, até chegar ao aconchego de uma daquelas grandes entidades que também têm como core business prestar serviços privados ao Estado. 

Uma coisa é reduzir quadros, outra é sujeitar funcionários públicos a pressões e perseguições, de forma indiscriminada e arbitrária, como no fundo acentua o Tribunal. Uma coisa é o regime disciplinar da função pública (que efectivamente existe e é especialmente exigente), outra é a hierarquia e a forma como ela se exerce. 

E não vale a pena dizer que certas regras só se devem aplicar a casos específicos, como os magistrados e mais uns quantos, porque há muitas outras carreiras em que o princípio da independência no exercício da profissão é uma defesa para toda a sociedade. Não perceber isto é não perceber nada. É não entender o que é o Estado. Os países democráticos e ricos são precisamente aqueles que têm administrações públicas fortes e independentes, que vivem sem medo de pressões de interesses de qualquer natureza. 

Ao dizer que há outras maneiras de chegar ao mesmo objectivo, o Tribunal Constitucional não criou nenhuma clivagem na sociedade. Pelo contrário, defendeu os direitos de absolutamente todos os cidadãos que devem ser tratados justa e igualitariamente pelos serviços da administração pública que devem estar cobertos por mecanismos de independência. 

Basta ver as violentas e quase indecorosas pressões que houve sobre o Tribunal Constitucional para ter uma pálida ideia do que poderiam ser as que cairiam sobre um singelo funcionário das Finanças numa fiscalização, sobre um agente camarário num licenciamento ou um funcionário colocado num júri para avaliar uma compra pública. 

Ao defender a exigência de critérios no despedimento, 
o Tribunal Constitucional na realidade mais não fez do que acautelar os interesses de toda a comunidade, por muito que alguns não entendam.

UMA ILUSÃO CHAMADA "VELHO PSD"



retirado daqui

UMA ILUSÃO CHAMADA "VELHO PSD" 


Em vésperas do 25 de Abril, um grupo de políticos afastou-se apressadamente da Acção Nacional Popular para poder reaparecer após a implantação do regime democrático sob uma nova veste. A agitação posterior revelou que a designação escolhida — Partido Popular Democrático (PPD) — não era a mais apelativa para se alçar ao poder. Por isso, a formação recém-criada foi então rebaptizada (com um erro ortográfico para todo o sempre): Partido Social Democrata (em lugar de Democrático). 

Este grupo de políticos e profissionais liberais, que se uniu para representar a finança e a grande indústria, atraiu a si as forças vivas recauchutadas do Estado Novo e as camadas da população atemorizadas pelo inócuo preâmbulo da Constituição (“abrir caminho para uma sociedade socialista”): catedráticos e analfabetos, patos bravos e publicistas, chupistas do Estado e cantores-pimba, negociantes de ocasião e autoridades locais. 
de F. Botero, Ball in Colombia

É esta amálgama quase obscena que permite ao PSD aparecer com sucessivas máscaras — até como pregoeiro da “social-democracia”. A verdade é que ter ilusões sobre a sua natureza só conduz a deixar a esquerda desarmada. Vê-se com alguma frequência figuras proeminentes da oposição a fazer apelos ao “velho PSD” — como o fez João Ribeiro, porta-voz do PS, numa entrevista ao Expresso na última semana - 24 de Agosto (na resposta reproduzida na imagem que aqui publico). 

Acontece que o “velho PSD” anda por aí em peso. Salvo a circunstância de as suas figuras se gabarem de ser mais competentes do que estarolas de Passos Coelho, que alterações de política propõem eles? Nenhumas. 

Com efeito, na “Universidade” de Verão do PSD, Marcelo (http://sicnoticias.sapo.pt/2319806) subiu ao palanque para serenar as hostes após o chumbo do Tribunal Constitucional, garantindo que se há-de arranjar forma de despedir os trabalhadores do Estado. Também na “Universidade” de Verão do PSD, Alexandre Relvas (http://www.tvi24.iol.pt/503/politica/psd-universidade-de-verao-alexandre-relvas-jovens-austeridade-tvi24/1484584-4072.html), o afamado Mourinho de Cavaco, atiçou, perante o olhar incrédulo dos jotinhas, os filhos contra os pais, apelando a uma total desregulação do mercado de trabalho: “é pais a viverem à conta dos filhos” [sic], disse o protegido de Cavaco. 
No mesmo local, Leonor Beleza (http://rr.sapo.pt/informacao_detalhe.aspx?fid=27&did=120383) retomou o apelo do ex-Dr. Relvas à emigração dos jovens. Santana Lopes (http://sicnoticias.sapo.pt/pais/2013/08/29/santana-lopes-diz-que-uma-revisao-constitucional-pode-unir-partidos) defendeu a necessidade de uma revisão constitucional para o país poder ter uma “constituição que seja neutra, que seja isenta e independente” [sic], tema agarrado por Paulo Rangel (http://sicnoticias.sapo.pt/pais/2013/08/29/paulo-rangel-diz-que-tribunal-constitucional-tem-visao-demasiado-conservadora) para sustentar que a Constituição tem uma “visão demasiado conservadora”. 

Velho PSD ? Sim, tal como ele é exactamente agora...