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16/04/13

Clarice Lispector

Oportunidade para lembrar esta escritora fantástica, numa altura em que a Gulbenkian lhe rende também homenagem com uma exposição: CLARICE LISPECTOR, "A Hora da Estrela" (3ª-dom, das 10h às 18h | de 5 Abr a 23 Jun) ..

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«Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro. »
«Sou como você me vê. Posso ser leve como uma brisa, ou forte como uma ventania, depende de quando, e como, você me vê passar!».
«Não me dêem fórmulas certas, porque eu não espero acertar sempre. Não me mostrem o que esperam de mim, porque vou seguir meu coração. Não me façam ser quem não sou. Não me convidem a ser igual, porque sinceramente sou diferente. Não sei amar pela metade. Não sei viver de mentira. Não sei voar de pés no chão. Sou sempre eu mesma, mas com certeza não serei a mesma para sempre...» 
«Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada... Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro...»
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1920: Nasce Clarice Lispector, no dia 10 de dezembro [.. como uma que eu cá sei ..] de 1920, em Tchechelnik, uma aldeia da Ucrânia, terra de seus pais, Pedro e Marieta Lispector. - 1921: Em fevereiro, com apenas dois meses, chega a Maceió, Alagoas, com seus pais e suas duas irmãs, Elisa e Tânia. E o português do Brasil será a língua materna da menina Clarice.
(biografia: vidas lusófonas e releituras)

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CLARICE LISPECTOR (10/12/1920 - 9/12/1977) continua sendo algo estranho e fascinante na literatura brasileira. Dotada de especial sensibilidade, sua preocupação maior nunca esteve no enredo, no linear das coisas. Exigiu, ao contrário, que o leitor se entregasse em meditação à aventura de ler, se quisesse desfrutar da profundidade dos conceitos que se multiplicavam.

Alguém chegou mesmo à ousadia de dizer que CL era uma grande escritora à procura de um tema  ( ... )




Clarice Lispector: uma cosmovisão
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AQUI e AGORA
Estou tentando captar a quarta dimensão do instante-já. Meu tema é o instante? Meu tema de vida. Procuro estar a par dele, divido-me milhares de vezes, em tantas vezes quanto os instantes que decorrem, fragmentária que sou e precários os momentos – só me comprometo com a vida que nasça com o tempo e com ele cresça: só no tempo há espaço para mim.
Domingo é o dia dos ecos – quentes, secos, e em toda a parte zumbidos de abelhas e vespas, gritos de pássaros e o longínquo das marteladas compassadas – de onde vêm os ecos de domingo? Eu que detesto domingo por ser oco.
Nada existe de mais difícil do que entregar-se ao instante. Esta dificuldade é dor humana. É nossa. Eu me entrego em palavras e me entrego quando pinto.

ASPIRAÇÃO – I
Quero apossar-me do é da coisa.
Quero possuir os átomos do tempo.
Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero uma verdade inventada.
Mas bem sei o que quero aqui: quero o inconcluso. Quero a profunda desordem que no entanto dá a pressentir uma ordem subjacente.
Um dia eu disse infantilmente: eu posso tudo. Era a antevisão de poder um dia me largar e cair num abandono de qualquer lei. Elástica.


EROS
Só no ato do amor – pela límpida abstração de estrela do que se sente – capta-se a incógnita do instante que é duramente cristalina e vibrante no ar e a vida é esse instante incontável, maior que o acontecimento em si.
No amor o instante de impessoal jóia refulge no ar, glória estranha de corpo, matéria sensibilizada pelo arrepio de instantes.
Escuta: eu te deixo ser, deixa-me ser então.
O anel que tu me deste era de vidro e se quebrou e o amor acabou. Mas às vezes em seu lugar vem o belo ódio dos que se amaram e se entredevoraram.
Olha para mim e me ama. Não: tu olhas para ti e te amas. É o que está certo.

VERBUM – I
A palavra é a minha quarta dimensão.
O que pintei nessa tela é passível de ser fraseado em palavras? Tanto quanto possa ser implícita a palavra muda no som musical.
E eis que percebo que quero para mim o substrato vibrante da palavra repetida em canto gregoriano.
Minhas desequilibradas palavras são o luxo do meu silêncio.
O que te falo nunca é o que te falo e sim outra coisa. 
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compilado por Márcio José Lauria

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Clarice ...  por ...  Clarisse:
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Temperamento impulsivo
“Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever? Acho que assim: vem-me uma idéia ou um sentimento e eu, em vez de refletir sobre o que me veio, ajo quase que imediatamente. O resultado tem sido meio a meio: às vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham, às vezes erro completamente, o que prova que não se tratava de intuição, mas de simples infantilidade. Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E até que ponto posso controlá-los. [...] Deverei continuar a acertar e a errar, aceitando os resultados resignadamente? Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta? E também tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura. Vou pensar no assunto. E certamente o resultado ainda virá sob a forma de um impulso. Não sou madura bastante ainda. Ou nunca serei.”

Lúcida em excesso
“Estou sentindo uma clareza tão grande que me anula como pessoa atual e comum: é uma lucidez vazia, como explicar? assim como um cálculo matemático perfeito do qual, no entanto, não se precise. Estou por assim dizer vendo claramente o vazio. E nem entendo aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior do que eu mesma, e não me alcanço. Além do quê: que faço dessa lucidez? Sei também que esta minha lucidez pode-se tornar o inferno humano — já me aconteceu antes. Pois sei que — em termos de nossa diária e permanente acomodação resignada à irrealidade — essa clareza de realidade é um risco. Apagai, pois, minha flama, Deus, porque ela não me serve para viver os dias. Ajudai-me a de novo consistir dos modos possíveis. Eu consisto, eu consisto, amém.”.
C.L. pintada por Giorgio de Chirico

Ideal de vida
“Um nome para o que eu sou, importa muito pouco. Importa o que eu gostaria de ser. O que eu gostaria de ser era uma lutadora. Quero dizer, uma pessoa que luta pelo bem dos outros. Isso desde pequena eu quis. Por que foi o destino me levando a escrever o que já escrevi, em vez de também desenvolver em mim a qualidade de lutadora que eu tinha? Em pequena, minha família por brincadeira chamava-me de ‘a protetora dos animais’. Porque bastava acusarem uma pessoa para eu imediatamente defendê-la. [...] No entanto, o que terminei sendo, e tão cedo? Terminei sendo uma pessoa que procura o que profundamente se sente e usa a palavra que o exprima. É pouco, é muito pouco.”
ler mais:

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Não entendo
Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender.
Entender é sempre limitado.
Mas não entender pode não ter fronteiras.
Sinto que sou muito mais completa quando não entendo.
Não entender, do modo como falo, é um dom.
Não entender, mas não como um simples de espírito.
O bom é ser inteligente e não entender.
É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida.
É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice.
Só que de vez em quando vem a inquietação:
quero entender um pouco.
Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.

Clarice Lispector
(1920-1977)

retirado daqui
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Perdoando Deus

“ Porque eu me imaginava mais forte. Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria – e não o que é. É porque ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele.”- CL
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Em 1° de fevereiro de 1977, Clarice comparece aos estúdios da TV Cultura, canal 2, em São Paulo, para um debate e acaba concedendo entrevista ao jornalista Júlio Lerner para o programa Panorama Especial. No entanto, pede ao entrevistador que a entrevista só vá ao ar após a sua morte. Este se tornaria o único registro audiovisual da autora, que aí se mostra reservada, imprevisível e extremamente angustiada. O pedido foi atendido e a TV Cultura só exibiu a entrevista no dia 28 de dezembro, 19 dias após a sua morte.
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No total são 5 vídeos que emocionam os fãs de Clarice Lispector.
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Parte 1 - http://www.youtube.com/watch?v=9ad7b6kqyok
Parte 2 - http://www.youtube.com/watch?v=TvLrJMGlnF4
Parte 3 - http://www.youtube.com/watch?v=2Orgxd9bD_c
Parte 4 - http://www.youtube.com/watch?v=ptCJzf20rbY
Parte 5 - http://www.youtube.com/watch?v=TbZriv5THpA
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- Clarice Lispector por Aracy Balabanian (ouvir!)
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22/10/12

torgas e Torga


Adolfo Correia da Rocha nasceu em S. Martinho de Anta, concelho de Sabrosa (Vila Real), a 12 de Agosto de 1907 e faleceu em Coimbra, a 17 de Janeiro de 1995. 
Adopta o pseudónimo de MIGUEL TORGA porque eu sou quem sou. Torga é uma planta transmontana, urze campestre, cor de vinho, com as raízes muito agarradas e duras, metidas entre as rochas. Assim como eu sou duro e tenho raízes em rochas duras, rígidas  (...)
Chega a ser preso pela PIDE, tendo algumas vezes vontade de sair do país: Mas abandonar a Pátria com um saco às costas? Para poder partir teria de meter no bornal o Marão, o Douro, o Mondego, a luz de Coimbra, a biblioteca e as vogais da língua. Sou um prisioneiro irremediável numa penitenciária de valores tão entranhados na minha fisiologia que, longe deles, seria um cadáver a respirar. Nunca se filiou em partido algum: o meu partido é o mapa de Portugal.
fonte: / Miguel Torga - Casa-Museu  / 

http://purl.pt/13860/1/miguel-torga.htm
 .
LETREIRO - - - -   Miguel Torga

Porque não sei mentir,
Não vos engano:
Nasci subversivo.
A começar por mim -  meu principal motivo
De insatisfação - ,
Diante de qualquer adoração,
Ajuízo.
Não me sei conformar.
E saio, antes de entrar,
De cada paraíso. 

Miguel Torga,
Orfeu Rebelde, 1970 (2ª. ed. revista)
fonte

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.. dos meus tempos de escola ..


Sei um ninho. 
E o ninho tem um ovo.
E o ovo, redondinho,
Tem lá dentro um passarinho
Novo.
 Mas escusam de me atentar:
Nem o tiro, nem o ensino.
Quero ser um bom menino
E guardar
Este segredo comigo.
E ter depois um amigo
Que faça o pino A voar...

Miguel Torga 
 fonte
 .

19/04/12

serigrafia de Helena Almeida
Toco a tua boca. Com um dedo, toco a borda da tua boca, desenhando-a como se saísse da minha mão, como se a tua boca se entreabrisse pela primeira vez, e basta-me fechar os olhos para tudo desfazer e começar de novo, faço nascer outra vez a boca que desejo, a boca que a minha mão define e desenha na tua cara, uma boca escolhida entre todas as bocas, escolhida por mim com soberana liberdade para desenhá-la com a minha mão na tua cara e que, por um acaso que não procuro compreender, coincide exactamente com a tua boca, que sorri por baixo da que a minha mão te desenha.
início do capítulo 7, "O Jogo do Mundo"*, Julio Cortázar

* Rayuela, 1963

02/04/12

Maria Teresa Horta

por Helena Vasconcelos [14.03.2012]
http://ipsilon.publico.pt/livros/texto.aspx?id=302028

A luz incandescente de Maria Teresa Horta

Diante da sua nova antologia de poesia erótica, As Palavras do Corpo, Maria Teresa Horta recapitula uma vida inteira de risco e de exposição, de leitura e de escrita: “Para mim, escrever é voo e sobressalto, incêndio e desmesura”
Maria Teresa Horta, poeta, ficcionista, activista, feminista, é uma das mais importantes figuras da literatura portuguesa, conjugando na perfeição a luta feroz pelas causas que defende e o fulgor da escrita. Ao longo de uma vida apaixonante e apaixonada, Maria Teresa Horta conheceu o peso da ditadura e foi penalizada por ser mulher, livre e escritora. Com um vasto e diferenciado corpus literário que inclui poesia e prosa, a autora acaba de publicar uma antologia de poesia erótica intitulada As Palavras do Corpo (Dom Quixote), depois de ter ganho o Prémio D. Dinis - Casa de Mateus 2011 pelo romance histórico As Luzes de Leonor (Dom Quixote).

Fale-me da sua infância.

MTH
A minha infância foi arrebatada. Dividida entre a beleza da minha mãe e a inteligência do meu pai; entre o quarto da minha mãe e o escritório do meu pai. Protegida, defendida, compreendida por uma espantosa avó paterna que vivia connosco, a primeira mulher, aliás, que frequentou o liceu em Portugal. Sufragista, frequentava as reuniões feministas da histórica "casa-jardim", onde eu, menina pequena, ia com ela.

A minha infância foi a fundura do poço e o golpe de asa. O conhecimento do anjo e a queda. Uma espécie de história de fadas, com uma deslumbrante mãe abandonatória, um pai distante, gelado e inflexível, e uma madrasta como a da Branca de Neve, que me deu a comer várias maçãs envenenadas. A minha infância foi o começo exaltado e fulgurante da leitura e o início maravilhado do prazer da escrita; com o escritório do meu pai como paraíso proibido, onde me escondia, me perdia a olhar as lombadas dos livros nas prateleiras das estantes a que não chegava. Livros de que a minha avó me lia pedaços, a meu pedido, reclamando: "Mas não é leitura para a tua idade, não vais perceber nada..." E eu acabava sempre por lhe garantir no final: "Não interessa se não percebi, é tão bonito!"

Li, algures, que a Maria Teresa aprendeu a ler sozinha...

Digamos que sim, embora tivesse a ajuda da minha avó, que com uma imensa paciência sempre acedia quando lhe rogava para me ler esta ou aquela palavra, e repetir o nome de cada uma das letras que as compunham. Nessa altura as crianças só iam para a escola aos sete anos; ora, na altura em que isto aconteceu, eu deveria ter por volta dos quatro. Quando, pasmado, o mau pai se apercebeu de que melhor ou pior eu sabia ler, contratou uma professora para pôr ordem naquele meu saber bastante caótico e para me ensinar a escrever. Aí conheci outra das grandes paixões da minha vida: a escrita. E tudo mudou, tomou um rumo diferente e amotinado.       ------  (ler mais)
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22/10/11

as tuas mãos

ideia roubada à Madalena :)

de Escher
" Poderias mergulhar como um só bloco no nada para onde vão os mortos: consolar-me-ia se me legasses as tuas mãos. Apenas as tuas mãos subsistiriam, separadas de ti, inexplicáveis como as dos deuses de mármore que se tornam pó e cal dos seus próprios túmulos. Elas sobreviveriam aos teus actos, aos miseráveis corpos que acariciaram. Entre as coisas e ti, elas já não seriam intermediários: seriam elas próprias, transformadas em coisas. Voltando a ser inocentes, pois tu já lá não estarias para fazer delas tuas cúmplices, tristes como galgos sem dono, desconcertadas como arcanjos a quem já nenhum deus dá ordens, as tuas mãos vãs repousariam sobre os joelhos das trevas. As tuas mãos abertas, incapazes de dar ou de agarrar qualquer alegria, ter-me-iam deixado cair como uma boneca quebrada. Beijo ao nível do pulso essas mãos indiferentes que a tua vontade já não afasta das minhas; acaricio a artéria azul, a coluna de sangue que outrora, incessante como o jacto de uma fonte, surgia do solo do teu coração. Com pequenos soluços satisfeitos, encosto a cabeça como uma criança, entre as palmas cheias de estrelas, de cruzes, de precipícios daquilo que foi o meu destino."

Marguerite Yourcenar