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- nas páginas 'autónomas' (abaixo) vou recolhendo posts recuperados do 'vento 1', acrescentando algo novo ..

24/02/16

"Escola a mais, pais a menos "

no Público
24 de Fevereiro de 2016

por Santana Castilho*

Três meses volvidos sobre o início de funções do Governo, temos, na Educação, um Orçamento de Estado pior que o último de Passos Coelho e umas Grandes Opções do Plano para 2016-2019 (Proposta de Lei n.º 11/XIII) que não são melhores. Se não é claro quem manda no ministério da Educação, é já claro quem não manda, apesar de algumas tiradas fanfarrãs e pouco respeito por quem pensa diferente. Decididamente, António Costa menosprezou a Educação e resolveu-a protegendo a impreparação do ministro com a sombra tutelar de Maria de Lurdes Rodrigues. Cruzando o orçamento com as opções, resultam projectadas para a legislatura (se o Governo a concluir) medidas sem dinheiro para as pagar e persistência em bandeiras erradas do PS de outros tempos. Um bom exemplo é o alargamento da “Escola a Tempo Inteiro” (permanência na escola das 08.30 às 19.30) a todos os alunos do ensino básico, que já estava no programa do Governo e é reafirmado nas Grandes Opções do Plano (pág. 110).

A falta de tempo para os pais se dedicarem ao crescimento dos filhos é um problema social real e grave. Mas encontrar pais de substituição (professores e outros técnicos) e lar alternativo (escola) é acrescentar ao primeiro um segundo problema. A este propósito, o défice de conhecimento do Governo é preocupante quando lamenta (pág. 20 das opções) que a taxa de “escolarização efectiva (sic) antes dos três anos” seja apenas de 45,9%. E quando se regozija, a seguir, por essa taxa ficar “claramente acima dos 27,7 % da Finlândia”. Isto é, o PS ainda não percebeu que, no caso vertente, taxa baixa é melhor que taxa alta. E não percebeu porque insiste no desígnio, pedagógica e socialmente aberrante, de nacionalizar as crianças e facilitar a escravização dos pais. Perceberá o PS que, na sociedade que defende, cada vez mais as crianças não são crianças? Que não têm tempo para brincar livremente, a actividade mais séria do seu crescimento? Que mais escola não significa melhor educação? Que a falta de presença e disponibilidade dos pais impede a consolidação dos laços afectivos profundos, que caracterizam a relação pais/filhos? Que essa ausência dificulta o desenvolvimento da personalidade das crianças, o qual requer figuras claras de referência? Que só cresce a necessidade de mais berçários porque aumenta o peso do trabalho desregulado e mal pago? Que a prevalência dos interesses profissionais sobre o direito ao bem-estar mental das crianças tem reflexos nefastos no futuro de todos nós?

Só há uma maneira de encarar isto e a alarmante baixa taxa de natalidade, geradora de um saldo demográfico persistentemente negativo, qual seja a de proteger verdadeiramente as crianças e a maternidade, admitindo novas formas de organização do trabalho e reduzindo a carga horária de um dos progenitores, pelo menos, até que os filhos concluam o ensino básico. Como fazem os países mais avançados, que há muito concluíram, à luz da abundante produção científica sobre psicologia do desenvolvimento, que resulta inaceitável guardar crianças na escola em jornadas contínuas de 10 a 12 horas, como já hoje se verifica em muitos casos.

É tempo de trazermos a debate modelos alternativos de organização do trabalho e de fixação dos seus horários. Não são só os escolhos postos à maternidade que o justifica. São, também, os problemas suscitados pelo desemprego persistente, pela natureza cada vez mais precária do emprego, pelo crescimento do peso das mulheres no preenchimento do trabalho disponível e pelo aumento constante do tempo de vida, sem reflexo satisfatório na percepção da utilidade social dos mais idosos, que não podem, não devem nem aceitam ser reduzidos a simples fardos da sociedade. É, também, ainda, a necessidade de encarar e resolver um paradoxo inaceitável: se a crise atirou uns para a inactividade, obrigou outros, muitos, a dupla actividade, paga a preço singelo.

Não fora isto determinante e, mesmo com técnicos qualificados em trabalho não curricular e recursos que não existem (se a iniciativa custou em 2006, só para o 1º ciclo do básico, cerca de 100 milhões de euros, em quanto importaria hoje para um universo de quase 900.000 alunos?), a tipologia dominante na organização dos espaços das escolas, que é a sala de aula, inviabilizaria a generalização proposta. Faltam ginásios, recintos desportivos de ar livre e espaços para actividades expressivas (teatro, música, artes plásticas, etc.), pelo que não nos iludamos: a persistir no erro, duplicaremos apenas, sem sucesso, actividades rígidas, de cariz escolar. E porque os níveis de desenvolvimento são diferentes, reter em reclusão tão prolongada adolescentes do 9º ano pode provocar episódios reactivos que não se verificam com crianças do 1º ciclo.

*Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt)

14/02/16

do nojo

..... demasiado enojada para escrever sobre isto ....


foto DN


- de quem o fez por mim, no blogue Pérola da Cultura

Indignação

Indignaram-me as condecorações de Maria de Lurdes Rodrigues e Nuno Crato, antigos ministros de Educação, pelo presidente cessante. Para mim, Cavaco termina o mandato com mais esta nódoa: a de agraciar com medalhas de honra por bons serviços prestados ao país duas das pessoas que mais mal conseguiram fazer à Escola pública e aos professores. 

Há quem tente hoje em dia relativizar os "males" que MLR impôs aos docentes e à escola comparando-os com os de Nuno Crato, eventualmente ainda piores. Mas, não nos esqueçamos de que, por muito mau que Nuno Crato tenha sido, isso não pode de modo algum isentar Maria de Lurdes Rodrigues de todos os males que fez à escola pública e sobretudo aos professores. 

Acrescento: nunca tinham existido tantos suicídios de professores como no tempo negro que essa senhora nos fez passar. Nunca me poderei esquecer disso, nem do seu ar de freira, de discurso auto-vitimizador, do sarcasmo, do desprezo e da grosseria com que os seus secretários de estado zurziram publica e sistematicamente a classe docente, começando pela infame campanha de descredibilização da sua imagem junto da opinião pública e dos media. 

O pior modelo de avaliação de desempenho docente alguma vez imposto foi o da vigência de MLR. A ideia dos professores titulares e do respetivo e absurdo concurso, idem. Foi ela quem quis estratificar os professores numa cadeia hierárquica dentro da escola, comparando-os a generais e soldados, como na tropa, e como se a escola fosse um quartel. Foi ela quem instituiu o modelo de gestão concentrando poderes numa só pessoa, como se da administração de uma empresa se tratasse. Foi ela que começou por fechar escolas. Isabel Alçada continuou. Foi ela quem começou a falar em agrupamentos. Isabel Alçada continuou. Foi ela que começou por tentar esvaziar, em suma, toda a democraticidade interna das escolas. Quando chega Nuno Crato encontra já o terreno todo minado. Transforma os agrupamentos em mega-agrupamentos, aumenta o número de alunos por turma, congela para sempre as progressões na carreira, que as suas antecessoras tinham iniciado, e lança no desemprego milhares de professores. 

Manobras escusas como a requalificação, reintegração ou rescisão "amigável" não são mais do que formas de despedir pessoas, reduzindo ao mínimo os quadros e passando todos a "contratados sem termo fixo". 

Enfim, poderia continuar aqui a desfiar um rosário de males que estas pessoas vieram impondo ao ensino público e aos professores, sempre em nome de supostas "melhorias", aumento da qualidade na docência, diminuição do abandono escolar ou outras patranhas do género. 

Não sabe Cavaco quantas doenças profissionais estas pessoas causaram aos professores, desde depressões até suicídios, como nunca antes se tinham registado? 
Não sabe Cavaco que foi a partir do tremendo desrespeito com que Lurdes Rodrigues e seus acólitos trataram os docentes que aumentaram do forma exponencial agressões de alunos e pais a professores, de uma forma nunca vista neste país? 
Não sabe Cavaco que, mais do que nunca houve uma avaliação absurda e até inconstitucional, (como se veio a provar, sobre professores contratados, por exemplo), assim como despedimentos, erros concursais, atropelos e processos mais do que turvos na contratação de docentes, como nunca dantes se tinha visto? 
Não sabe Cavaco que foi durante a vigência de Lurdes e Crato, os seus medalhados, que mais professores tiveram de abandonar as suas famílias e as suas casas, para irem dar aulas a 200, 300 ou 400 km da sua residência? 
Não sabe Cavaco quantos casais Crato e Rodrigues ajudaram a separar ou divorciar, ou quantas crianças retiraram do colo das suas mães? 
Não sabe porventura Cavaco que durante a vigência de Crato e Rodrigues a indisciplina nas Escolas atingiu números e gravidade nunca dantes vistos em Portugal? Quantas pessoas Crato e Rodrigues obrigaram a ter de pagar para trabalhar, colocados de modo a que tivessem de pagar duas rendas, fazer face a consumos de gasolina e portagens impossíveis de aguentar? 
Não sabe Cavaco que muitos professores, não tendo emprego no sistema público, tiveram de entregar-se nas mãos de máfias de alguns colégios privados, onde são objeto de todo os tipos de escravatura, desde abusos dos horários, até situações de assédio moral e chantagens de todo o tipo? 

Não há dúvidas sobre os méritos deste dois medalhados sobre a vida das escolas e dos professores. Cavaco termina o seu mandato da pior maneira possível: legitimando e prestando honrarias à incompetência e à maldade. Parabéns ao Cavaco! Estas condecorações são bem o retrato de quem as atribuiu.

10/02/16

"O orçamento do Estado e a “circulatura” do quadrado"

no Público,
10 de Fevereiro de 2016

por Santana Castilho *

O orçamento do Estado e a “circulatura” do quadrado 

As 50 sombras que David Justino não tem


1. Para titular este artigo apropriei-me de um neologismo feliz que Bagão Félix criou, porque exprime bem o processo técnico (não teria sido melhor que António Costa o assumisse como político?) que nos trouxe ao orçamento de 2016. 
O plano macroeconómico do PS não contemplava o aumento de impostos. O aumento previsto era o dos rendimentos líquidos dos portugueses, designadamente por via da redução da TSU. Podíamos questionar a viabilidade de êxito da proposta, mas não podíamos deixar de lhe reconhecer coerência. Porém, essa coerência esfumou-se entre os acordos com a esquerda parlamentar e as negociações com Bruxelas, dando lugar a um caminho de fraco norte e forte risco. 

Os benefícios deste orçamento resumem-se à função pública e à restauração e são parcos para virar a página da austeridade, quando o aumento líquido da receita fiscal e contributiva ultrapassa os 2.600 milhões de euros. Este é um orçamento simplesmente menos servil, com execução no fio da navalha e sem dinheiro, como serão todos, não importa de que governo, enquanto não for reduzido o peso e o custo da dívida. Porque a “circulatura” do quadrado só se consegue no domínio da mistificação política. 

Todavia, devemos reconhecê-lo, António Costa venceu o dramatismo ridículo de certa comunicação social, o discurso caceteiro da direita, o teatro majestaticamente rasteiro da Comissão Europeia e conseguiu valorizar o Estado e os seus servidores e promover alguma justiça social, de que o fim das benesses fiscais aos fundos imobiliários em sede de IMI e a extensão da tarifa social da energia são os melhores exemplos. 

Se lhe concedo, portanto, um sinal débil de virar de página, quando chegamos à Educação a página vira para trás e a desilusão tem, para quem se iludiu, o exacto tamanho da ilusão. O orçamento para a Educação é pior que o último de Passos Coelho e Crato. Cai em 2016 cerca de 1,4%, menos 82 milhões de euros. O corte nominal para as diferentes actividades será ainda bem maior se considerarmos que do bolo geral sairá o aumento dos gastos salariais e sairá o aumento de 6% das dotações para o ensino particular e cooperativo (14,4 milhões de euros de compromissos assumidos pelo anterior governo). Neste quadro, que credibilidade atribuir à prometida universalidade do pré-escolar dos três aos cinco anos, à generalização (perniciosa) da Escola a Tempo Inteiro, ao reforço da Acção Social Escolar e aos programas de Educação e Formação de Adultos, Nacional de Promoção do Sucesso Escolar e de Desenvolvimento do Ensino Artístico Especializado? 

Para os desprevenidos torna-se agora claro o papel menor que a Educação representa para António Costa. A “circulatura” que concebeu assenta na alimentação de uma divisão que lhe serve: de um lado uma Direita arrogante, que muito fez em detrimento da Escola pública; do outro, uma Esquerda igualmente fanática, que acaba por comprometer, pela imprudência e pelo facilitismo dos métodos, o que diz querer promover. 

2. Se o Tribunal Constitucional declarou ilegal a Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades (PACC), resultam ilegais os impedimentos postos aos docentes contratados nos processos de candidatura nos anos lectivos de 2013-14 e 2014-15. Se esta constatação parece óbvia, já o mesmo não se dirá quanto ao modo de ressarcir os prejudicados. Com efeito, a reconstituição do que poderia ter acontecido não passa apenas por uma reconstrução de listas, com base em graduações profissionais. Suporia conhecer o que não chegou a ser manifestado, isto é, as preferências dos putativos candidatos, tarefa impossível. 

Quando uma panela de pressão é destapada sem o cuidado prévio de diminuir a pressão interior, o conteúdo pode saltar para a cara de inexperientes incautos. 

3. Sou amigo pessoal de David Justino e tenho por ele apreço e consideração intelectual. Com frequência, encontramo-nos e discutimos política e política de Educação. Se em matéria de tintos, que apreciamos em conjunto, jamais discordámos, divergimos abundantemente em temas políticos. Ele aprecia Eric Hanushek, eu não. Ele acredita que agrupar escolas foi solução, eu não. Ele aceita que a dimensão das turmas não importa, eu não. A lista daquilo em que discordamos é provavelmente mais extensa do que a lista daquilo em que estamos de acordo. Posto isto, permito-me agora responder à pergunta “Quantos Justinos há, afinal?” (“As 50 sombras de Justino”, Público de 26/1/16) formulada por Pedro José Pereira. Há um, cuja seriedade está bem acima de qualquer processo de intenções. O carácter obsessivo do romance, por alguns descrito como pornografia para mamãs, cujo título parece ter inspirado o articulista, poderá explicar a prosa rasteira. 

* Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt)

09/02/16

Europa

....roubado daqui, mapa e título e tudo: https://aventar.eu/2016/02/09/europa-3/ 

por Miguel Szymanski (autor convidado do Aventar)

Como europeu dos quatro costados (avô português + avó meia catalã meia alemã; avô austríaco de ascendência polaca + avó da comunidade alemã checa) esta Europa começa, outra vez, a meter-me medo. Claro que a Europa dos meus quatro costados já passou por pior. A minha avó paterna dizia-me que tinha mudado três vezes de país à força das armas sem sair da cidade onde nasceu (Pilsen/ actual República Checa). O meu avô paterno, médico, passou anos a trabalhar com serras de ossos num hospital militar em Viena. A minha outra avó tomava conta das crianças no jardim de casa com uma arma automática em cima da mesa, para se defender em caso de ataque, enquanto o meu avô comandava uma companhia de soldados famélicos.

A Europa já esteve pior. Depois formou-se como cartel industrial para carvão e aço e é sobre esse cartel que assentam as actuais instituições da UE. A democracia de Bruxelas é a de um grémio industrial pela batuta do seu sócio mais rico, Berlim.

Graças a essa federação, sob a supervisão dos EUA, a Europa ocidental deixou de fazer guerras dentro das suas fronteiras. Começou nos anos 50 a exportar os seus produtos como nunca antes. E a prosperar com as exportações. Carros, máquinas e armas. Muitas armas.

O cartel industrial da Europa começou a exportar miséria na forma de ferramentas para fazer guerras, carros blindados, tanques, explosivos, navios, aviões, submarinos, todo o tipo de armas de fogo, de minas e mísseis. Milhares de milhares de milhões de euros de dezenas de países arruinados entraram nos cofres da Europa nas últimas décadas. Agora essas exportações revelam-se como um tiro pela culatra em câmara lenta. As vítimas das guerras fogem aos milhões, do norte de África, Afeganistão, Iraque, Síria, e arriscam as suas vidas para se refugiarem na Europa.

E o que faz o cartel do carvão e do aço? O que fazem os burocratas de Bruxelas? Fazem cálculos aos rolos de arame farpado para proteger as suas fronteiras e desenham estratégias sobre como evitar o desembarque de miseráveis nas suas costas. Os europeus mais básicos, também aos milhões, descobrem o seu “patriotismo contra a islamização da Europa”. A globalização da miséria e da guerra ameaça agora a própria integridade da Europa.

A Europa terá que pagar a factura. Ou assume o primado dos direitos humanos ou usa bulldozers e armas contra os refugiados. Temo que os tão proclamados valores universais do Ocidente não passem de uma farsa. Hitler, Franco, Mussolini, Salazar e companhia foram ontem, os seu netos andam outra vez pelas ruas.

Não são esses os meus quatro costados.

08/02/16

repensarmo-nos é preciso! - memórias de infância

de Marc Chagall
Vivia em Viseu, numa casa que dividia um encantatório quintal com outras casas, uma coisa minúscula com uma parreira de videiras [e um baloiço!!! E um galinheiro!! E uma coelheira!! ], enfeitada de pereiras e macieiras e pessegueiros (um de cada, entenda-se...) e sobretudo abrunheiros (dois? - um, de ameixas brancas, outro de pretas...) em que passava as tardes-depois-da-escola encavalitada, quase sempre com um livro nas mãos, "Vais dar cabo dos olhos com tanta leitura, filha!", dizia-me a minha avó e eu que só ao lusco-fusco, desobediente, quando a luz escasseava definitivamente e se faziam horas de jantar, demandava a casa, a materna ou a dos avós.

Vivíamos todos por ali, e eu e os meus irmãos éramos o "ai-jesus" da vizinhança, as únicas crianças residentes nas casas que repartiam um quintal: a Rufininha e a irmã, costureiras, e as noites de um certo quarto de lua em que se ouviam os gritos, tão doce no resto do tempo, ela, a fazer-me vestidos para as bonecas que eu, mais dada a muros, mal-queria ... ; e a Amelinha e o senhor Pedro, o único casal que me faria acreditar em casamentos, já de meia-idade os dois, ele pai adoptivo de uma estória que só em sussuros, não interessa. Amava-os de paixão, aos dois, meu refúgio em fins-de-dia problemáticos até ao fim da adolescência, quando de lá saí e demandei Lisboa, tão virgem de tudo ...; e as senhoras costureiras, (a única profissão para além da da minha mãe?!) e eram umas 6 na casa grande e velha que fora dos meus avós e onde nasci, eu, elas e mais um irmão que só no fim dos dias se deixava ver, respeitável e ocupado empregado de uma loja de tecidos, único varão daquele grupo incasado, semeador de morangos e de afectos, elas. 
Um tanque enorme, comunitário, não estivesse ele sempre cheio de água ensaboada e daria uma bela de uma piscina. 
E havia um muro, fronteira e cenário das minhas aventuras, a infância formatada pelas séries dos 5 e dos 7, a Enid Blyton que os escrevia, e a personalidade, horrível, que lhe descobri por um filme, há pouco tempo, não há infâncias confiáveis! ...
E uma estória que me contou depois a minha mãe, eu criança de 2 ou 3 anos, roubando os morangos e as cenouras da terra em que os plantava a Amelinha, que, de brincadeira, se terá ido queixar dos meus verdes desvarios, e da reacção que tive, ao ser apanhada: - a Memé é má, é feia, olha, és me'da!! ... Pois ..... infâncias incompreendidas (repito, 2, 3 anos e a linguagem que mal-dominava, pois se nem merda com todas as letras.....) e as cenouras que re-enterrava, não estivessem ainda carnudas de terra ...

Ah, e claro!!!, naquele tempo da minha infância não havia televisão. (telemóveis então, ou internet, nem "in your wildest dreams"!). Os livros, meu entretenimento primeiro, ia-os buscar à biblioteca itinerante da Gulbenkian a Abraveses, uma aventura de viagens em camioneta aos arredores de Viseu, nós as duas, quase crianças e sozinhas, os molhos de 15 que líamos recomendados pelo senhor da carrinha - e era fantástico, como ele acompanhava e orientava as nossas leituras!, praticamente um livro por dia depois das aulas, eu e a minha irmã, um ano e meio separando-nos as idades, quase crianças, discutindo Os Meninos Terríveis do Cocteau ...

Quando apareceram as primeiras (televisões, pá!!), cheias de britagem e estremeços, a preto-e-branco, só nos cafés. Tempos depois também na casa dos avós, uma companhia para a velhice, ainda que quase sempre acompanhada-de-facto, as touradas tantas e o bom do cinema português da altura, os filmes de cowboys americanos e ... pasme-se!!, a música francesa. E o que o meu avô se ria apenas com a visão da cara do Aznavour, os seus dois AVCs infantilizantes, que na altura tinham até outro nome, não me lembro qual...!
Chegava da escola e entrava, a porta sem trancas, os tempos serenos, estremecidos, só, pelo menos no que ao social competia, de coscuvilhices, muitas, um ror delas, ai a mãe do Seara (esse mesmo! ...) sempre postada à janela do outro lado da rua Alexandre Herculano, controladora, "Para onde vai?", se saíamos, "De onde vem?", se entrávamos. 

Certo, certo, é que havia sempre alguém lá por casa: se não a minha mãe, os meus avós e as vizinhas com quem dividíamos o quintal. A minha mãe. A minha mãe professora, uma excepção relativamente às mulheres casadas da sua geração, maioritariamente donas de casa. E havia criadas a que, acho, não se pagava sequer salário, a "cama e mesa e roupa lavada" garantida, a fome que se matava das quase-crianças roubadas à aldeia, as famílias que, explicaram-me, pediam que as levassem, que as "criassem", daí o nome. E penso, como é possível?, Criadas com o ordenado de professora? Eu sem mesada nem semanada nem nada, os bolos que as minhas amigas compravam depois do liceu (no Horta ou no Santos) sem que as invejasse? E quem sabe, é por isso que não gosto de doces, ainda hoje? ... Como podíamos, nós, classe ... quê?, média-baixa? .....

Era o meu avô que tinha dinheiro, a minha mãe professora primária e ganhando uma miséria, ainda assim tendo que mentir para casar, o meu pai ainda mais mal pago do que ela, e o Salazar que controlava estes devaneios e protegia os seus funcionários! Tempos de FNAT, quem se lembra? Pois, o meu avô, e não se ponham já a pensar em fidalguias, nada disso! O meu avô, filho ilegítimo de pai "incógnito" (oh, sim, esses "maravilhosos" tempos do fascismo, agora meio-branqueados!) O meu avô materno, que o paterno nunca cheguei a conhecer, a ida para aquela miragem africana e a mulher abandonada, o filho tão pequeno que só por retratos lhe sabia a memória e bem afectado se (des)encontrou, vida fora ... Será que te deste conta, tu, do mal que fizeste? Do que a tua ausência sem notícias provocou, em ondas que me atingiram, tantos anos depois?

O meu avô-materno, então, o que nos sustentou a todos, filhas, netos. Que abraçou a carreira militar que lhe proporcionou estudos. Que chegou a tenente, coisa pouca, ainda assim extraordinária. Que, nascido paupérrimo, venceu na vida fazendo várias comissões em Moçambique, essa Ilha ilusória que a minha mãe havia de demandar muitos anos depois, procurando hipotéticos irmãos. (mãe, como pudeste tu, entre todas as outras - admitir, desculpar....?!) O meu avô que amealhou poupanças e abriu uma loja de materiais de construção, fonte do nosso estar-assossegado. O meu avô alicerçado naquela mulher dura e "direita" e rija, a sub-condição assumida mas ainda assim, os sorrisos de que não me lembro, nem uma vez. A minha avó-presente, o cabelo tão forte que partia pentes em vãs tentativas de domá-lo. A minha avó que sofria da asma que herdei apenas eu, os ataques que abrandavam quando o marido, noites de horas tardias, voltava a casa.

Único devaneio "despesista" dos dois, velhinhos ambos, a tal televisão. Morreram com diferença de um ano, aos setenta e poucos, acompanhados, a filha e o genro e os netos e os vizinhos, tantos, solidários, presentes, o quintal que os unia.
As tardes de 'bisca' com ele e contigo, irmão-agora-imigrado.
A morte. Assistidos, os dois, nem imaginário de lares, o que fosse, a família, várias gerações partilhando a vida, ali, naquela casa que dividia um quintal ...

Hoje. Famílias dispersas. Crianças sozinhas, velhos sozinhos. Em vida, na morte, descartados, todos...
........ e segue para novo post, brevemente  .....

01/02/16

a força transgressora de Julio Cortázar

uma reposição de um post colocado no blogue da biblioteca da ESAG, em 2008 .....

Julio Cortázar, escritor e intelectual argentino (1914-1984) é considerado um dos autores mais inovadores e originais do seu tempo», lê-se na informação sobre o autor constante do livro recém-editado em Portugal, 'O Jogo do Mundo' (Rayuela), da cavalo de ferro.

Pois eu (que até leio umas coisas..) não conheço ninguém mais original, mais ousado, mais transgressor dos cânones académicos que enformam (espartilham?) a criação literária. Dir-se-ia, pelo que dele conheço e que se resume a um livro, Rayuela (e perdoar-me-ão a blasfémia ..) uma esquizofrenia intelectual, uma construção narrativa eivada de um lsdismo tão indissociável desses gloriosos anos 60 do século passado..

tenho de esclarecer que adorei conhecer este autor. que deste seu romance que são dois, li tudo, incluindo os 'capítulos dispensáveis'. que me deslumbrou, precisamente, isso a que chamo 'esquizofrenia'. que não parei de me surpreender com a ousadia deste homem, com as impensáveis transgressões, capítulo a capítulo. só mesmo alguém muito consciente da sua genialidade. alguém muito louco, e é um elogio. alguém com um sentido de humor único. alguém que ama tanto a literatura, que com ela se entretém em permanentes - quase eróticos - jogos recreativos. alguém a quem não importa um mínimo (a palavra ideal ñ seria esta, mas não vou ferir susceptibilidades..) a opinião dos outros (e é, novamente, um elogio). alguém no limiar da vida, e da morte, e de tudo.


exemplos de transgressões presentes no romance 'O Jogo do Mundo' / Rayuela :
1.
«Julio Cortázar, escritor e intelectual argentino, é considerado
tenho de esclarecer que adorei conhecer este autor.
um dos autores mais inovadores e originais do seu tempo»
que deste seu romance que são dois, li tudo.
2.
não parei de me surpreender com a housadia deste homem, com as himpensáveis transgressões
3.
tenho de esklarecer ke adorei konhecer este autor. ke deste seu romance ke são dois, li tudo
4.
as inhpençáveis trãsgreçõins, capitllo a capitlo. só mesmo alguenhe muito conssiente da sua xeniali dá-de


perplexos? qq dúvida, é só deixarem um comentário! :-)
....................................................................
de rayuela = jogo da macaca = jogo da amarelinha = o jogo do mundo: também aqui

postado por ana lima 
no 'ESAGBIB' (Dez. 2008)
................. 
(...) há muito mais para além de um pequeno capítulo com 2 histórias contadas em linhas alternadas, alguns parágrafos em que palavras improváveis começam por 'h' ou por 'k', uma ou outra passagem com palavras 'revestidas' (vestidas de novo?!), com erros ortográficos, o que se queira..
Há transgressões também na organização dos capítulos, na mistura surpreendente de linguagem, como há, poesia da melhor e outra à beira da náusea, uma enorme sensibilidade, uma dureza que magoa, filosofia estonteante, uma erudição rara.
só sei que me senti transportada para o espírito dos anos 60 e da sua magia (aqui foram os 70). E vieram-me à memória os ciclos de cinema do Bergman, do Godard .. e as tertúlias depois, as análises mirabolantes..
AL,
19/12/2008 

------------------------- e ainda ------------------------------------

32 frases y extractos de "Rayuela" de Julio Cortázar