o vento que passa 2 --- porque "não há machado que corte a raiz ao pensamento!"
- as imagens das colunas laterais têm quase todas links .. - nas páginas 'autónomas' (abaixo) vou recolhendo posts recuperados do 'vento 1', acrescentando algo novo ..
«Sam Kutesa, enquanto membro do executivo, foi o responsável pela defesa da lei que condena casais homossexuais a PRISÃO PERPÉTUA e prevê sete anos de prisão para quem ajude os homossexuais a fugirem à lei e cinco anos de prisão para quem “promova a homossexualidade”.» - aqui
..
Morreu Stéphane Hessel, autor de Indignai-vos!- notícia aqui
"Acredito que há um risco, que é o de que as pessoas se indignem, protestem e depois tudo continue na mesma. É preciso que a indignação dê lugar a um comprometimento conjunto."
Da meritocracia considerada como uma das belas-artes
por José Vítor Malheiros
Texto publicado no jornal Público a 11 de Dezembro de 2012
Há quem pense que o mérito é um critério tão bom que apenas devem gozar de direitos humanos as pessoas que os mereçam
A palavra é bonita: mérito. Ter mérito. Merecer. Há uma ideia de justiça, de bondosa racionalidade associada ao mérito, de exigência e de justa recompensa. Ou não fôssemos nós um país tradicionalmente cristão, onde nos ensinam que a vida deve ser um longo caminho para merecer a bem-aventurança celestial. Ter mérito é bom. Ter mérito é merecer e todos queremos merecer. Merecer é ser digno de alguma coisa. Conquistar o direito a alguma coisa. Tornar-se merecedor. E todos queremos ser dignos, conquistar direitos, tornar-nos merecedores. Ter mérito também é ter uma aptidão especial que se soube desenvolver com perseverança, um talento que conseguimos desenvolver para nos tornarmos melhores que os outros, para ganhar, para vencer. E todos queremos ser melhores, ter aptidões e talentos e vencer. Há uma ideia de competição no mérito, mas uma justa competição, feita de esforço somado a habilidade natural, feita de regras consensualmente aceites, de confrontos leais, de vitórias dignas, de recompensas merecidas. As medalhas são sempre de mérito.
A meritocracia tem uma história longa (ainda que a expressão tenha pouco mais de cinquenta anos) e uma história nobre. O conceito da meritocracia nasceu em oposição aos privilégios herdados da aristocracia e ao direito divino, aos direitos de sangue da família e da raça, ao favoritismo e ao nepotismo, aos poderes passados de pais para filhos, à exclusão de qualquer tipo de mérito ou justiça na distribuição da riqueza e de poder, à perpetuação de uma casta no exercício do poder. E foi uma coisa boa.
A primeira organização onde surgiu a preocupação em premiar o mérito, a competência, para escolher os seus dirigentes e não os privilégios de família ou a riqueza foi a administração públicaet pour cause. Sem uma escolha baseada no mérito, as castas dirigentes entregavam a administração das riquezas do Estado aos filhos e sobrinhos ou aos seus correligionários políticos com o resultado que se conhece: o sequestro do Estado por grupos sem escrúpulos (aquilo a que hoje se chama os “partidos do arco do poder”). Foi a meritocracia que impôs os concursos públicos na Administração Pública em substituição das cunhas, ainda que seja possível defender que a única coisa que mudou foi a mecânica da cunha (onde antes se escrevia “Se V.Exa. se quisesse interessar pelo meu sobrinho...” hoje sussura-se “Tu podias fazer um concurso para um rapaz lá da distrital...”).
Em termos simples, a meritocracia quer dizer apenas isto: se uma pessoa tiver qualidades excepcionais, ela poderá alcançar o topo da organização onde trabalha e o topo da sociedade onde vive, seja qual for a sua origem social. Parece bonito e louvável. E hoje, além da Administração Pública, há muitas organizações que se gabam de ser meritocracias, das Forças Armadas à Universidade, e outras tantas que são criticadas por não o serem.
A meritocracia tem um problema: tem implícita a ideia de que nem todos merecem. Há quem mereça e há quem não mereça. Há uma ideia de selecção, de recompensa dos mais aptos. Isto não seria um problema em si se soubéssemos definir e delimitar os campos onde o mérito deve ser um critério. É evidente que nem toda a gente merece ganhar uma medalha de ouro na maratona, nem toda a gente merece ser chefe de uma repartição de finanças e nem toda a gente merece ser coronel dos Comandos. O problema não é esse. O problema é que há quem pense que o mérito é um critério tão bom que ele deve ser estendido a todos os domínios, mesmo aos direitos humanos. Ou seja: há quem mereça ter direitos e quem não os mereça. Está bem que há quem lhes chame Humanos e Universais mas isso é secundário.
É esta a posição do neoliberalismo, que critica por esse facto políticas como o Rendimento Social de Inserção (pobres ignorantes e sem trabalho não merecem nada) e que considera que não só há cidadãos que não merecem emprego (não sabem fazer nada) como, se estiverem desempregados algum tempo, até deixam de merecer subsídio de desemprego, casa, tratamentos médicos ou alimentação e devem apenas ter acesso a tudo isso se alguém lho dispensar como esmola.
E esta é a fronteira onde a bela meritocracia se torna fascista.
A facilidade com que esta fronteira é cruzada pode constatar-se pela frequência com que podemos ouvir reputados professores universitários, com uma formação que sugeriria maior sensatez e um cargo que recomendaria maior humanidade, defender a transformação da sociedade portuguesa numa sociedade meritocrática e defender que o mérito seja o único critério de acesso a qualquer benesse que a sociedade disponibilize ao cidadão. Dar-se-ão conta de que foi esta a argumentação usada pelos nazis para defender a eutanásia dos deficientes, aqueles que tinham “uma vida que não merecia ser vivida”, uma vida sem mérito?
E dar-se-ão conta de como é tristemente cómico vê-los, a todos estes defensores da meritocracia e da excelência académica, beijar o anel de Miguel Relvas sempre que a ocasião se proporciona?
Nas ruas de Atenas, refugiados e imigrantes andam assustados. Baniram-nos, de facto, de bairros inteiros onde as milícias locais do partido neonazi Aurora Dourada organizam regularmente batidas racistas.
As declarações racistas, anti-semitas e negacionistas multiplicam-se, especialmente por parte de altos responsáveis políticos. O presidente do Comité de Direitos Humanos [!!!!!!!!!!] do parlamento comparou recentemente os imigrantes a baratas, perante a indiferença geral. [!!!!!!!!!!] O porta-voz da Aurora Dourada pôde citar a célebre frase anti-semita "Os Protocolos dos Sábios de Sião" em pleno parlamento, sem que isso tivesse provocado quaisquer reacções condenatórias.
O primeiro-ministro Samaras persiste em proteger a presença no Conselho da Europa de Eleni Zaroulia, a neonazi que declarou recentemente que os imigrantes são "sub-humanos".
Os jornalistas que denunciam esta situação são alvo de constantes intimidações.
Face à ascensão do racismo, do anti-semitismo e do neonazismo, as instituições democráticas culposamente falham.
Primeiro a polícia, que apresenta um nível de corrupção recorde e uma ligação extremamente forte com o neonazismo: entre 30 a 50 por cento dos agentes votaram no Aurora Dourada, e são numerosos os que fazem parte deste partido. São incontáveis as vítimas de ataques racistas que, chegando ensanguentadas às esquadras, são forçadas a não prestar declarações. São ameaçadas, não socorridas.
Em seguida, a justiça: enquanto o número de declarações e actos racistas aumenta, nenhum procurador avança com processos nem se verificam quaisquer condenações, com a agravante de o racismo não ter sido uma só vez alvo de acusações judiciais desde 2008.
Israel-Yad_Vashem_Sculpture - memorial -Holocausto
Esta ascensão do racismo explica-se igualmente pelo facto de, desde Maio, os neonazis não terem sofrido uma só derrota nos limites que lhes impõe a democracia, agindo com total impunidade.
Como mostra a recente criação de uma ramificação da Aurora Dourada em Itália, eles representam um exemplo para os movimentos e partidos neonazis na Europa, da Hungria à Letónia e da Dinamarca à Áustria. De facto, eles nunca deram sinais de abandonar o anti-semitismo como ideologia estruturante nem o racismo como discurso dominante, contrariamente aos que tentaram seguir uma estratégia de "desdiabolização". Eles combinam acção legal - a participação nas eleições - e acção ilegal - agressões físicas nas ruas - com eficiência. Graças à demissão dos democratas - com os partidos democratas gregos na primeira linha -, eles ganharam permissividade para as suas acções. Mantêm-se activos há meses, investidos de uma funesta sensação de poder absoluto.
A União Europeia, em especial a Alemanha, tem uma grande responsabilidade na ascensão do neonazismo na Grécia.E dois dogmas europeus contribuíram decisivamente para isso.
Primeiro, sob forte pressão alemã, o dogma da austeridade tem conduzido a uma situação social insustentável, onde não é oferecida à população, em particular à juventude, nenhuma outra saída para lá do empobrecedor horizonte do pagamento da dívida. Isto cria um contexto de decadência da sociedade e das suas estruturas sociais tradicionais, no qual os discursos que procuram bodes expiatórios e a pertença a um colectivo, mesmo racista, apresentam forte atracção, em particular entre os jovens.
Os cortes substanciais impostos pela troika nos orçamentos da segurança têm por resultado a falta de polícias para cobrirem todo o território, deixando bairros inteiros sob a alçada dos gangs da Aurora Dourada, que garantem a "segurança" aos que consideram "racialmente gregos". Este abandono do monopólio da força pelo Estado, condição fundamental para a existência do Estado de Direito, permitiu aos neonazis assegurarem grande parte do seu sucesso eleitoral.
Em segundo lugar, o dogma da "Europa fortaleza" estabeleceu a deslocalização de entradas e saídas do território europeu na fronteira entre a Turquia e a Grécia, impondo a esta última a incumbência de ser a principal porta de entrada dos refugiados e imigrantes na Europa. Este dogma resultou de uma vitória da extrema-direita, que conseguiu impor a rejeição de toda a imigração como paradigma ideológico, apesar de a Europa continuar, hoje, a precisar dessa mesma imigração. Isto criou uma situação insustentável para a Grécia, pois se o número de imigrantes e refugiados em trânsito é desejável pela Europa, ele torna-se impossível de gerir pela Grécia, sozinha e isolada do resto da Europa. Esta situação oferece à extrema-direita oportunidades para toda a espécie de instrumentalizações.
A posição da Alemanha é questionável. Ao mesmo tempo que o superego nacional, composto pelos sobreviventes da Shoah, vai desaparecendo aos poucos com os que restam, a Alemanha defende posições que empurram a Grécia, pai fundador da democracia europeia, para o colapso e a expulsão da zona euro, senão mesmo da Europa. Esta tentação ou tentativa de assassinato do pai à escala das nações europeias é alimentada por uma energia que, se viesse a ser usada para a expulsão ou colapso da Grécia, geraria incomensuráveis violências, das quais o ascenso do neonazismo é apenas um prenúncio.
Face a esta perspectiva, é urgente que os democratas se mobilizem por toda a Europa, já que a Grécia é hoje a linha da frente do grande e belo combate pela democracia. O projecto político recentemente coroado com o Nobel da Paz não recuperará de uma derrota dos democratas face aos seus irredutíveis inimigos, e cabe aos dirigentes políticos e às sociedades empenharem-se em fazer viver o sonho europeu de um continente verdadeiramente democrático porque liberto do racismo, do anti-semitismo e do neonazismo. -- fonte