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10/06/13

quem tem medo dos professores?

________sobre a greve às avaliações e respectivos ecos na imprensa, na opinião pública .......
de Helena Almeida

.. pois.. QUEM TEM MEDO DOS PROFESSORES?

Pelos vistos, todos. 
Quando a classe se une; 
quando a inércia se sacode; 
quando a doentia tendência que os professores têm para cumprirem tudo, aceitarem tudo sem um queixume - se transforma na revolta de quem já não aguenta mais; 
quando os professores tomam consciência do poder que detêm - e o exercem, o país treme.

Tremem os políticos ao verem escapar-se-lhes debaixo das garras dominadoras a classe que (justificadamente, diga-se..) acreditavam mais submissa, a mais sensível à chantagem emocional. Os direitos dos jovens, pois claro!
Tremem os pais ao verem ameaçados .. basicamente, os seus organizadinhos planos de férias, pois que outra coisa?

Hipócritas, uns e outros.
Não os comovem as crianças com fome, a única refeição diária retirada das escolas, a ASAE que há anos se pôs a medir batatas e encerrou ou inviabilizou as boas cantinas escolares, agora reféns da normalizada  fast food de empresas duvidosas.
Não os comovem as escolas fechadas, as crianças deslocadas, as escolas-fábrica em que cada aluno não é sequer um número, o interior do país desertificado, as longas viagens de e para casa, o tempo com a família, inexistente.
Não os comovem os livros deitados fora, que deixaram de servir porque sim: o novo programa de matemática para quê se o outro dava mostras de funcionar, o (des)acordo ortográfico para benefício de quem..
Não os comovem os professores massacrados que lhes aturam os filhos todo o dia, : «Já não sei o que fazer dele, dela.., em casa é a mesma coisa.. »
Não os comovem os alunos que querem aprender e não podem, a indisciplina na sala de aula e os professores esgotados, deprimidos, muitas vezes doentes, os professores que desabam a chorar no meio da aula, a tensão, as pulsações que disparam e como é que se pode ensinar assim?
Não os comovem os professores hostilizados publicamente por ministras, escritores, comentadores, opinadores - e já lá vão anos de enxovalhamento!
Não os comovem as políticas aberrantes do ministério da Educação, as constantes alterações aos curricula, aos programas, as disciplinas de uma hora semanal a fingir que existem e os professores que se adaptam aos caprichos todos, formações atrás de formações, obrigatórias todas, pagas do próprio bolso algumas;
Não os comovem as condições de trabalho e de saúde de quem lhes zela pelos filhos, as horas insanas passadas na escola, as tarefas sem sentido e as outras, o tempo e a disposição que depois faltam para tudo o resto que fazem em casa, preparar aulas, orientar trabalhos, corrigir testes, as noites que não dormem e amanhã aguenta-te que não são papéis que tens à frente, mas sim pessoas!
Não os comovem vidas inteiras de andar 'com a casa às costas', 10, 20, 30 anos contratados (dantes chamavam-se 'provisórios'), de Trás-Os-Montes ao Algarve e é se queres ter emprego, SEMPRE assim foi até conseguirem um lugar no quadro de efectivos numa escola - e agora aos 40, 50, à beira de vínculo nenhum! - as regras que mudam, a reforma que se alonja, a carreira de há muito congelada, os sucessivos cortes no salário, os impostos uns atrás dos outros e depois ......
cara alegre que tens a responsabilidade de ensinar, formar, educar os nossos jovens, futuro deste país ou de outro para onde imigrem, será mais certo.

E eu digo, professora que fui, professora que serei sempre e já não vos aturo: VÃO-SE FODER com as vossas preocupações da treta, a vossa chantagem e as vossas ameaças, os vossos apelos aviltantes. E não, não peço desculpa pela linguagem, que outra não há que dê a medida da raiva.

Quem é que vocês, políticos, associações de pais, pensam que são?
Vocês, que destroem tudo o que de bom se tinha conseguido neste país? Que promovem o regresso à miséria, ao cinzentismo, à ignorância? Que se estão borrifando para os alunos e as famílias, a qualidade do ensino nas nossas escolas públicas? Que tiram ao estado para darem aos privados? Que acabam com apoios onde eles eram vitais, aos alunos mais pobres, aos alunos com deficiências? Que despedem psicólogos e professores do ensino especial? Que, em exames, recusaram tempo extra aos alunos que a ele tinham direito? Que não fazem nada para promover a educação, os vossos podres serviços públicos reféns do vosso oportunismo, da vossa falta de valores, do vosso cinismo?
Vocês, que atacam os professores mas lhes confiam os vossos filhos? Que não os educam em casa, mas esperam que eles o façam na escola? Que agora defendem a "mobilidade especial" quando antes defendiam a estabilidade, se queixavam de que as crianças mudavam de professores todos os anos? Que não percebem que um professor maltratado é um profissional menos disponível para os alunos que tem à frente? Que a luta dos professores é a luta pelos vossos filhos, pela qualidade da sua educação, pelas oportunidades do seu futuro?

E vocês, opinadores 'de bancada' que continuam a achar que os professores trabalham pouco e ganham muito, por que se queixam agora desta greve (três meses de férias, é?!), quando nunca antes se queixaram das condições miseráveis em que vocês próprios sempre viveram?
Por que não se queixam dos dinheiros mal-gastos destes políticos?
Por que não se queixam de um serviço público de televisão que vos embrutece e vos torna prisioneiros de quem vos engana todos os dias, vos impede de terem pensamento próprio?
Por que não se queixam da razia deste governo sobre os  funcionários públicos, dos serviços que vão funcionar muito pior, das horas de espera que vão aumentar, nos hospitais, nos centros de saúde, nos correios e nas repartições todas, a 'má-cara' de quem, maltratado, vos vai atender com pouca paciência e muito cansaço?
A vocês, que pelos vistos não sabem o que é uma greve, nunca vos vi defenderem os professores do vosso país. Vi-vos aplaudirem uma ministra que vos 'ganhou', 'perdendo-os'. Vi-vos porem-se contra eles, ao lado dos filhos que vocês não souberam nem se preocuparam em educar. Vi-vos irem às escolas apenas para insultarem ou ameaçarem os que nela todos os dias 'dão o litro' para que os vossos filhos sejam melhores que vocês, tenham as condições de vida que vocês não puderam ter.

Os professores não estão de férias, como vocês, que tudo julgam saber, gostam de apregoar.
Os Professores estão em greve. Finalmente!
Os Professores levaram anos a aguentar pauladas. Anos e anos a serem, eles, prejudicados.
Agora fazem greve, dizem BASTA!
Vocês, deviam fazer o mesmo, assim a educação que a escola pública vos proporcionou vos tenha garantido sentido crítico, pensamento autónomo e DIGNIDADE.

35 comentários:

Luís Sérgio disse...

Excelente. Parabéns !
Tenhamos coragem para não termos medo destes miseráveis.
É bom ler vozes sem medo e lucídas.
Bem-haja !
Luís Sérgio

AL disse...

Obrigada, Luís! Bjinho

sílvia disse...

Partilhei, Ana. Beijos

Sílvia

AL disse...

Beijos, Sílvia!

Miguel Loureiro disse...

Sim senhora!
Porque se a escola pública proporcionar o sentido crítico, pensamento autónomo e DIGNIDADE, lá se ia este regabofe pacifistas...
Gostei do VÃO-SE FODER...

Fátima Inácio Gomes disse...

Bravo!
Haja voz e consciência.

Paula Baptista disse...

Grande texto. Obrigada e os meus parabéns!

pompeia disse...

muito bem escrito.

parabéns!

pompeia castro

AL disse...

Obrigada, amigos!
É isso mesmo, Miguel, estivessem as pessoas habituadas a pensar, e já tinham virado as suas críticas e os seus apelos contra o governo!

Só há uma saída para que a escola pública não seja total e definitivamente destruída, só há uma cedência possível nesta luta, e ela não cabe aos professores!

Bjinhos a todos,
Ana

cristina pinto disse...

Obrigada, AL! Bem haja! Um texto EXCELENTE com todo o sentimento nu e cru! Obrigada, pela clareza das suas palavras!

Emoções disse...

Muito bom.
Aldina

AL disse...

Obrigada, Cristina, Emoções, todos..

É reconfortante saber que o que pensamos e sentimos encontra eco noutras pessoas..

Bjinhos!

AliceMaravilha disse...

Excelente texto... Coragem determinante! Obrigada.
Felícia

Olinda disse...

Parabéns por mais um excelente texto!
Vou divulgá-lo no facebook e nos blogues, várias vezes.

Beijinhos

Aida Pereira disse...

MUITO, MUITO, MUITO BOM! Também partilhei. Excelente.

Teresa Maria Silva dos Santos Duarte disse...

Gostei imenso, explica as nossas emoções!

AL disse...

Obrigada, amigas/os .. e coragem nesta luta!
Ana

Oliveira disse...

Gostei. Sinto exactamente o mesmo.

Trabalho no público disse...

Obrigada por este belíssimo texto!

AL disse...

Obrigada eu, por tanto elogio .. :) -- já me tinha desabituado de ter comentários por aqui ..
Bjis!

id disse...

parabéns pelo excelente texto! vim aqui parar por acaso, vou voltar com mais calma: agora estou ocupada a fazer greve

Profipal disse...

Excelente!Disse tudo e muito bem!!

Carlota disse...

Obrigada pelas palavras que tão bem retratam o que sinto e as certezas que tenho!

AL disse...

Força, colegas!

Santana Castilho sb a greve dos professores: hoje, na Antena 1:

http://santanacastilho.blogspot.pt/2013/06/santana-castilho-na-antena1.html

catXiva disse...

Obrigada! pelo texto com o qual me identifico, onde encontrei muito do que sinto em relação à nossa profissão apesar de, também eu, já estar aposentada.
FORÇA! muita FORÇA para quem está no activo a defender, a lutar pela DIGNIDADE, pelo RESPEITO da profissão docente.

frag disse...

Simplesmente genial. Parabéns a quem reza assim.

AL disse...

Obrigada, mais uma vez..

E porque as razões da luta dos professores não se resumem às 40 horas e à mobilidade especial,

divulguem...
por Santana Castilho:

« (...) chega-me a decência mínima para lhes explicar o óbvio, isto é, que os professores, humilhados como nenhuma outra classe profissional nos últimos anos, decidiram, finalmente, dizer que não aceitam mais a desvalorização da dignidade do seu trabalho.

Porque se sentem governados por déspotas de falas mansas, que instituíram clandestinamente um estado de excepção.

Porque, conjuntamente com os demais funcionários públicos, se sentem alvo da raiva do Governo, coisas descartáveis e manipuláveis, joguetes no fomento das invejas sociais que a fome e o desemprego propiciam.

Porque têm mais que legítimo receio quanto à sobrevivência do ensino público.

Porque viram, na prática, os quadros de nomeação definitiva pulverizados pelo arbítrio.

Porque rejeitam a vulgarização da precariedade como forma de esmagar salários e promover condições laborais degradantes.

Porque foram expedientes perversos de reorganização curricular, de aumento do número de alunos por turma e de cálculo de trabalho semanal que geraram os propalados horários-zero, que não a diminuição da natalidade, suficientemente compensada pelo alargamento da escolaridade obrigatória e pela diminuição da taxa de abandono escolar.

Porque a dignidade que reivindicam para si próprios é a mesma que reclamam para todos os portugueses que trabalham, sejam eles públicos ou privados.

Porque sabem que a tragédia presente de professores despedidos será o desastre futuro dos estudantes e do país.

Porque a disputa por que agora se expõem defende a sociedade civilizada, as famílias e os jovens. »


(excerto de "Os três pastorinhos e a greve dos professores")

terezinha disse...

PARABÉNS, mas parabéns MESMO !!
Quem assim fala, escreve, tem os ditos no sitio certo, independentemente do sexo, neste caso !!

Ju disse...

Obrigada por me dar a sua voz! Vou partilhar o mais que puder. Sou professora (aposentada) e só tenho pena que o ministro não se tenha lembrado de convocar também os aposentados para eu poder fazer greve no dia 17. O discurso do "rigor e exigência" do Nuno Crato sempre me "arranhou" - de Educação, de Pedagogia (e de muitas outras coisas)não percebe nada!

maria antónia lima disse...

Sou também professora aposentada e faço minhas as palavras da colega e amiga Júlia.
Parabéns a quem escreveu o excelente texto.
Maria Antónia Lima

Silenciosamente ouvindo... disse...

Não tive filhos, portanto não
tive essa ligação filhos-escola,
mas andei na escola e sempre
respeitei os meus professores
e reconheço que eles devo o que sou.
Estou convosco nesta greve.
Estou convosco por vós e por mim.
Se a v/greve falhar este Governo
vai fixar "ainda mais arrogante e
vai ainda fazer mais mal a todos os
outros trabalhadores." Que pena
que muitas pessoas não o entedam.
Obrigada por ter escrito este texto.
Um beijinho
E coragem...precisa-se!!!

Em@ disse...

companheira \O/
vão-se foder!
beijo com abraço

Em@

Mário Caiado disse...

Excelente! Vou partilhar.

Teresa Calado disse...

OBRIGADA!
Pelas palavras que irei partilhar a colegas que ainda duvidam da nossa luta... por medo, por falta de coragem, por egoísmo, por indiferença ou por ignorância.

Professora em greve!

AL disse...

Obrigada, amigos,
FORÇA!

Há mais 'vento' para além deste post.. ;)

http://oventoquepassa.blogspot.pt/2013/06/o-dia-em-que-tudo-pode-mudar.html