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09/02/16

Europa

....roubado daqui, mapa e título e tudo: https://aventar.eu/2016/02/09/europa-3/ 

por Miguel Szymanski (autor convidado do Aventar)

Como europeu dos quatro costados (avô português + avó meia catalã meia alemã; avô austríaco de ascendência polaca + avó da comunidade alemã checa) esta Europa começa, outra vez, a meter-me medo. Claro que a Europa dos meus quatro costados já passou por pior. A minha avó paterna dizia-me que tinha mudado três vezes de país à força das armas sem sair da cidade onde nasceu (Pilsen/ actual República Checa). O meu avô paterno, médico, passou anos a trabalhar com serras de ossos num hospital militar em Viena. A minha outra avó tomava conta das crianças no jardim de casa com uma arma automática em cima da mesa, para se defender em caso de ataque, enquanto o meu avô comandava uma companhia de soldados famélicos.

A Europa já esteve pior. Depois formou-se como cartel industrial para carvão e aço e é sobre esse cartel que assentam as actuais instituições da UE. A democracia de Bruxelas é a de um grémio industrial pela batuta do seu sócio mais rico, Berlim.

Graças a essa federação, sob a supervisão dos EUA, a Europa ocidental deixou de fazer guerras dentro das suas fronteiras. Começou nos anos 50 a exportar os seus produtos como nunca antes. E a prosperar com as exportações. Carros, máquinas e armas. Muitas armas.

O cartel industrial da Europa começou a exportar miséria na forma de ferramentas para fazer guerras, carros blindados, tanques, explosivos, navios, aviões, submarinos, todo o tipo de armas de fogo, de minas e mísseis. Milhares de milhares de milhões de euros de dezenas de países arruinados entraram nos cofres da Europa nas últimas décadas. Agora essas exportações revelam-se como um tiro pela culatra em câmara lenta. As vítimas das guerras fogem aos milhões, do norte de África, Afeganistão, Iraque, Síria, e arriscam as suas vidas para se refugiarem na Europa.

E o que faz o cartel do carvão e do aço? O que fazem os burocratas de Bruxelas? Fazem cálculos aos rolos de arame farpado para proteger as suas fronteiras e desenham estratégias sobre como evitar o desembarque de miseráveis nas suas costas. Os europeus mais básicos, também aos milhões, descobrem o seu “patriotismo contra a islamização da Europa”. A globalização da miséria e da guerra ameaça agora a própria integridade da Europa.

A Europa terá que pagar a factura. Ou assume o primado dos direitos humanos ou usa bulldozers e armas contra os refugiados. Temo que os tão proclamados valores universais do Ocidente não passem de uma farsa. Hitler, Franco, Mussolini, Salazar e companhia foram ontem, os seu netos andam outra vez pelas ruas.

Não são esses os meus quatro costados.

03/09/15

Refugiados

retirado daqui
Posted on 2015-09-02 

por Marisa Matias

As notícias sobre refugiados não são de hoje, a crise dos refugiados também não. Mas hoje e amanhã, e depois de amanhã, nas semanas e nos meses que passaram somos levados pela secura atroz do que vamos lendo e vendo.

Um dia afunda-se um barco no Mediterrâneo, morrem 400 pessoas. Noutro dia morrem 700. Um dia outro soltam-se as imagens de mulheres, crianças, homens a enfrentar muros de segurança, a tentar saltar muros reais, a furar cercas de arame farpado. Num outro dia qualquer são as bastonadas, as pessoas encontradas mortas em contentores, os que jogam a sorte agarrados a camiões de transporte de mercadorias. A dureza e secura das imagens e das histórias que se acumulam é atenuada pelo anonimato, pela ausência de nomes, de histórias de vida, de trajectórias. É gente que deixou de ser vista como gente e que aparece como ilustração nos discursos xenófobos dos altos responsáveis por essa Europa fora que tão preocupados estão em garantir a “segurança” dos seus. O que é claramente uma luta pela vida é tratado como ameaça colectiva. É preciso ter medo, alimentar o medo, descaracterizar as vidas que estão em jogo porque dizem que esta gente é bem capaz de nos invadir e de pôr em causa os “valores europeus”. Tamanha contradição. Tamanho cinismo.

Quem é responsável por tudo isto? Os cínicos gostam de cultivar a ideia de que são “os próprios” os responsáveis. Há que combatê-los, portanto. Podem ser também responsáveis os regimes dos países de onde se foge, que atacam os seus e não lhes deixam alternativas. Mas responsabilidades nossas, essas nem pensar. Ora bem, é de crimes que estamos a falar, quem deveria ir a julgamento por estas mortes, por estes maus tratos, são os governantes – todos – que se envolveram na guerra miserável que está em curso na Líbia, ao arrepio de qualquer Direito Internacional, incluindo o da péssima decisão, há muito ultrapassada pelos acontecimentos, do Conselho de Segurança das Nações Unidas, e que agora nada têm a ver com isso. Mais longínquos vão ainda os tempos em que eram todos amigos. Eram ditadores, diriam os líderes europeus, mas eram os nossos ditadores. Muitas das pessoas que aqui estão ainda se lembrarão da tenda montada para receber Khadafi em Lisboa e a forma pitoresca como tudo foi noticiado. Nessa altura era tolerável perdoar todas as criatividades a Khadafi, como a Ben Ali, como a Mubarak. Dava jeito. Ter uma polícia de fronteiras fora das fronteiras europeias, um “outsourcing” para os trabalhos sujos de contenção de populações em fuga da guerra fazia jus ao “longe da vista, longe do coração” que tanto jeito dá nestas coisas. Os que passavam e chegavam a Lampedusa eram “poucos”. Ia dando para ignorar e era suficiente para perdoar qualquer excesso autoritário que houvesse.

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02/09/15

da responsabilidade pela tragédia dos refugiados

retirado daqui 
terça-feira, 1 de setembro de 2015 

por José Goulão

INTRODUÇÃO À TEORIA DO CAOS

É provável que nenhum dirigente da União Europeia ou de Estados membros tenha alguma vez ouvido falar da “teoria do caos”, lançada e burilada no pós-guerra pelo filósofo Leo Strauss, da elite política judia e do establishment dos Estados Unidos, continuada até hoje pelos seus discípulos - e financiada pelo Pentágono. Raros são também os jornalistas que a integram nas suas investigações e análises, sujeitando-se a ser imediatamente rotulados como seguidores lunáticos das chamadas teorias da conspiração.

Em poucas palavras, a “teoria do caos” de Strauss estabelece que a melhor maneira de os Estados Unidos da América impedirem a criação de países ou blocos rivais e beneficiarem de matérias primas baratas e com acesso desregulado é através da instauração de situações de caos governamental e social em diferentes países e regiões, de maneira a que Washington delas possa tirar proveito praticamente exclusivo. Para Leo Strauss, a criação de situações de caos favoráveis aos Estados Unidos deveria ser um fim, nunca um meio.

A “teoria do caos” de Strauss teve desenvolvimentos no início dos anos noventa do século passado, quando Washington tratou de fazer vingar a unipolaridade disfarçada de multipolaridade a seguir ao desmembramento da União Soviética. Por iniciativa de George Bush pai nasceu então a “teoria Wolfowitz”, que deve o nome a Paul Volfowitz, discípulo de Strauss, igualmente membro da elite judia norte-americana, arquitecto da política externa de George Bush filho e da invasão do Iraque. Também foi presidente do Banco Mundial. Regressou à sombra depois de conhecidos os escândalos através dos quais rateava cargos públicos entre os amigos neoconservadores, familiares e namoradas.

Em poucas palavras, a “teoria Wolfowitz – ainda secreta mas parcialmente revelada pelo New York Times e pelo Washington Post em Março de 1992 – estabelece que a supremacia global norte-americana exige o controlo militar, político e económico sobre a União Europeia, para que esta não se torne uma potência capaz de rivalizar com os Estados Unidos. Aliada sim, mas nunca em plano igualitário.

Suponhamos então que a teoria de Strauss e a sua sucessora delineada por Wolfowitz não passam de delirantes teorias da conspiração. Suponhamos até que o seu gestor financiado pelo Pentágono, Andy Marshall, não se reformou apenas no ano passado, já com 92 anos, e nunca existiu. Nem foi nomeado em 1973 – sucedendo a Leo Strauss, por morte deste – por Richard Nixon e confirmado por todos os presidentes até Obama.

Ignoremos então esses supostos delírios e olhemos para a Europa, em especial para a União Europeia e respectivo percurso desde o início dos anos noventa do século passado. Reflictamos sobre as consequências do mergulho suicida no neoliberalismo, da submissão à NATO como braço operacional do Pentágono, do envolvimento em guerras desencadeadas pelos Estados Unidos, desde o Afeganistão à Síria e à Líbia, onde aliás as principais aventuras militares foram confiadas à França de Sarkozy/Hollande e ao Reino Unido de Cameron. Observemos o que está a acontecer na Europa, sobretudo na União Europeia, com a tragédia dos refugiados resultante dessas guerras.

Não será disparatado concluir que a hecatombe humanitária, política e económica dos refugiados resulta das situações de caos criadas no Afeganistão, no Iraque, na Somália, na Líbia, no Mali, na Nigéria, na Síria, no Iémen. Antes destas guerras com a marca do Pentágono, arrastando os mais importantes países da NATO em condições de subalternidade, o problema dos refugiados na Europa não atingira nunca uma dimensão sequer próxima da que agora se regista. 

A Europa está há longos anos mergulhada numa crise disparada a partir dos Estados Unidos e que se alimenta a si mesma pelos erros sucessivos cometidos pela União Europeia ao pretender ser um espelho do modelo do lado de lá do Atlântico, mas sem voz própria militar e económica. Crise essa que se agrava através da submissão reforçada com o acordo de comércio livre (TTIP) e, sobretudo, com o problema dos refugiados decorrente das situações de caos que estão para lavar e durar nas zonas e países atrás citados. A gravidade da crise dos refugiados é o veículo que transporta o caos para o interior das fronteiras europeias, potenciado de maneira desagregadora pelo recrudescimento do terrorismo nazi-fascista.

A “teoria do caos” será uma miragem, mas o caos real vai provocando os efeitos desejados pelo complexo militar, político, económico e financeiro que domina o mundo sob as bandeiras dos Estados Unidos e da NATO.

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José Manuel Goulão nasceu em Monforte da Beira, distrito de Castelo Branco, em 1950. 
Iniciou a sua carreira de jornalistaImagem1 em A Capital em 1972, trabalhando depois em O Diário, no Diário/Semanário Económico e na revista Valor; fundou e foi director editorial da revista Volta ao Mundo e director da última série da revista Vida Mundial. Foi também director de comunicação do Sporting Clube de Portugal. 
Especializando-se na área da política internacional, particularmente nos problemas do Médio Oriente, foi comentador da TSF, do Rádio Clube Português, da Radio France Inter e da BBC, da RTP 1, RTP 2, RTP N e da SIC Notícias. 
Dirige em Bruxelas os websites BEinternacional e The Week. 
Autor de vários livros de reportagem e de jornalismo; a publicação mais recente é “Pagadores de Crises” (Porto Editora/Sextante – 2011). 
Em A Viagem dos Argonautas publica uma coluna semanal de análise política – Mundo Cão

09/08/15

de "migrantes" e miragens ..

___________________ a propósito das notícias abaixo, de tantas que nos chegam sobre os fugitivos que embarcam rumo à Europa, tantos morrendo pelo caminho .. 
imagem daqui

A solução, quanto a mim, passaria por UMAS "NAÇÕES UNIDAS" QUE O FOSSEM REALMENTE: 
--- 1.º que tudo, sanções, muitas sanções e prisões, aos traficantes de armas, mais aos governantes que os acobertam/apoiam/ licenciam. 
--- Depois, uma exigência de "serviço público" aos governos dos vários países que originam este êxodo, que enquanto não se intervier/ mediar nos países de origem, não se pode aspirar a alterar nada! : condições de vida e de trabalho; de liberdade e de tolerância; saúde, educação, habitação (tão óbvio, tudo isto!); e mão dura com os extremismos violentos. 

E sei bem das muitas culpas no cartório, ingerências e ditames de quem se julga dono do mundo .. NATO e UE e EU e CIA e etc -- e já não falo das colonizações ... Certo, certo, é que dois dos países devastados, que geram milhares de fugitivos, foram mal-intervencionados pelos Estados Unidos ..

O problema é que os agora chamados "migrantes" vêm à procura de um "el dorado" que não existe, a própria Europa a braços com uma crise que gerou muitos destituídos.. Também sei que os que assim fogem, basicamente de África, são ainda mais pobres e ainda mais destituídos. 
Não me parece é que a Europa aguente um fluxo ininterrupto de refugiados de guerra, políticos e económicos, sem fim à vista para um problema que se eterniza e se agiganta!


Grécia recebeu mais de metade dos refugiados que chegaram à Europa pelo Mediterrâneo 

Responsável do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados afirma nunca ter visto uma situação tão dramática como a que aconteceu nas ilhas gregas. "Isto é a União Europeia e é totalmente vergonhoso". 
8 de Agosto, 2015 - 18:48h 
notícia aqui


ONU: Mais de 225 mil imigrantes chegaram à Europa este ano pelo Mediterrâneo

(...) O organismo humanitário da ONU qualificou de "caóticas" as condições de recepção dos que chegam diariamente ao litoral grego e dos quais a grande maioria são sírios (63%, no ano).
Sua procedência, de um país imerso há quatro anos em uma guerra civil, não deixa dúvida de que se trata de refugiados, com direito a uma proteção internacional.

Afeganistão e Iraque - que também sofrem com conflitos armados - são os outros dois países de onde vem o maior número de refugiados que chegam à Grécia.

Ao mesmo tempo em que comunicou estas novas estatísticas, o Acnur revelou que a Grécia não oferece nem as mais mínimas condições de recepção requeridas para estas vítimas de conflitos e perseguição.
notícia aqui

Regime repressivo da Eritreia leva milhares de cidadãos a abandonar o país

notícia aqui

04/05/15

"De novo o puxempurra"

no Público,
04/05/2015

por Rui Tavares

Durante este fim de semana foram resgatados com vida mais de quatro mil refugiados no Mediterrâneo. Os sobreviventes dão menos notícias de jornal do que os mortos mas não deixa de ser importante regressar a este assunto.

Após o naufrágio que, no passado mês de abril, causou a morte a pouco menos de um milhar de refugiados, ouvimos de novo as velhas teorias de que estes fluxos são determinados por dois fatores a que normalmente se dão os nomes em inglês — “pull factor” e “push factor” — ou, traduzindo assim diretamente, “fator puxa” e “fator empurra”.
O “fator puxa”, segundo os opositores a uma política humanitária de refugiados, é suposto ser o mais importante dos dois. De acordo com esta teoria, o problema da política humanitária é que ela atrai os refugiados “puxando” por eles. Além da extrema-direita europeia, e uma boa parte da direita, esta teoria é também defendida pelo governo australiano, que decidiu aconselhar os governos europeus a desviarem todos os barcos de refugiados (para onde?) para diminuir o “fator puxa”. E, infelizmente, os próprios governos europeus parecem ter adotado parcialmente esta teoria ao considerarem a opção de ataques militares para enfraquecer a ação dos passadores e traficantes de seres humanos.

Caso os fluxos migratórios fossem determinados pelo “fator puxa”, não haveria maior travão a eles do que as sucessivas tragédias que têm matado milhares de pessoas no Mediterrâneo. Ninguém joga com a sua vida em tais probabilidades se não estiver convencido de que onde está as probabilidades de sobrevivência são ainda piores. Basta olhar para a lista de países de onde a maioria deles provêm — da Síria à Eritreia — para ter um grande grau de certeza de que o fator “empurra” é o fator decisivo. Os refugiados são ativamente empurrados para fora dos seus países pela guerra civil ou, no caso eritreu, por uma ditadura brutal que condena à prisão perpétua todos os jovens que se recusarem a fazer o serviço militar de duração indefinida que basicamente se assemelha a trabalhos forçados em campos de concentração no deserto. Comparado com isto, a simples fuga ao inferno já é fator de atração suficiente.

*** 

Mas na Europa há um outro tipo de puxa e empurra: é o jogo que se faz para evitar lidar com este assunto. Os governos europeus encontraram na União o alibi ideal para fugirem às suas responsabilidades políticas. Se tomados individualmente, cada um deles diz que o problema é europeu e precisa de uma solução europeia. Quando reunidos, todos impedem qualquer proposta, venha ela da Comissão ou do Parlamento, de ser implementada. Ao chegar a casa, ouvirão os seus cidadãos dizer que a culpa desta vergonha é “da Europa”. A União converteu-se assim no mais eficaz mecanismo de reciclagem de responsabilidades de que há memória.

A pergunta certa é: qual Europa? Se por Europa entendermos as mal amadas instituições de Bruxelas e Estrasburgo, não faltam possibilidades de resolução desta crise humanitária, em base legal, financiamento ou possibilidades de coordenação. Mas se por Europa entendermos os governos nacionais que fazem parte da União, aí teremos acertado: as culpas da inação estão, desta vez, bem pertinho de casa.