- as imagens das colunas laterais têm quase todas links ..
- nas páginas 'autónomas' (abaixo) vou recolhendo posts recuperados do 'vento 1', acrescentando algo novo ..
Mostrar mensagens com a etiqueta livros. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta livros. Mostrar todas as mensagens

25/04/13

carta do soldado Renato


de Marc Chagall
À da Canda, amor, aos morros do Seixel vai demoradamente fixar-se a amargura das noites de guerra.
Calambata, sabes?, é uma trégua fuzilada, um morto que não morre mas adormece. Aqui o tens vivo, as mãos fechadas sobre a sua metralhadora. Pior do que estar de sentinela, pior que tudo são as chamas ao longe, os olhos que me vigiam. Sente-se um homem espiado pelas próprias árvores, ouvindo carrilhões impossíveis na calada da noite. 
Escrevo-te, amor, por não saber nem o dia nem a hora. Com o medo de estar apenas vivendo à beira do medo. Que escrevo. Colunas partem à Magina, recebem de volta a notícia dos ataques aos quartéis do Norte, o M'Pozo, a Mama Rosa, a Madimba, o Luvo, e a gente pensa que há-de ser um dia também a destruição de Calambata, amor. Amor, diz-se já que Calambata é apenas o som da nossa respiração: ama-se a vida devagarinho, como nos repugna o cheiro a bálsamo dos mortos que partem a qualquer hora do dia. Palavras dispersas pingam da infusa do silêncio. Palavras. As palmeiras, por exemplo. Os imbondeiros, as mulembas. Perderam a memória dos séculos. 
Um dia, amor, as armas serão somente objectos de museu: os campos hão-de lavrar-se com charruas, nas oficinas trabalharão bigornas, puas, enxós, o esmeril das mãos que nos combateram, e a piaçaba dos cabelos encher-se-á da poeira das madeiras, nas serrações. Era bom, amor, que se ouvissem os guindastes nos cais, os alcatruzes das noras, o uivo do vento nas grandes searas do Sul. Bom que o mar erguesse a voz um pouco acima do sal até à alegria das lágrimas. 
Amor, é provável que não existam brancos inimigos nas picadas de Nambuangongo. Os brancos não podem, amor, continuar, aqui nas serras da Calambata, a alimentar a morte das minas, dos morteiros e dos canhões. Será chegado o tempo, de se cobrirem as crateras das granadas, de despoletar os trilhos, de pintar os furos das balas no corpo das árvores da Binda. 
Por isso te escrevo, amor, antes da minha morte. Nunca pisei uma lavra de milho ou mandioca, sabes? Escrevo. Não chicoteio o suor do negro da tonga. Não troco meu sapato velho, minha cerzida camisa, meu garrafão de aguardente, pelo corpo da menina no alembamento.
Escrevo, amor: reconstruí vós as sanzalas de quantos se foram embora, para que possam ainda regressar, viver. Pergunta-lhes por mim, amor. O que fazia. O que inventava por vezes. O que escrevi eu aqui. 
Que branco caçambuleiro esse, que diferente estava me chamar ainda?
Que branco esse, polícia lhe tinha raiva, lhe estava sempre xingar a voz da denúncia, quase mesmo ia caindo na prisão do esquecimento?
Que branco, amor? 
Minha pele tem o ardor das anchovas da ração de combate, da pasta de fígado (os perseguidos guerrilheiros sul-africanos, lembras-te, amor?). Mas tudo isso eu fui trocando pelo desejo e pelo gosto da moamba de galinha e pelo ácido do abacaxi com pancadinha discreta na curva do ombro, como a dizer: coragem! 
É o que escrevo aqui, sentado na noite. No sítio onde estou, amor. De frente para os morros que cercam Calambata cercada de guerra pelo Norte. A pensar, amor, que há em mim um morto que não morre. 

João de Melo
in Autópsia de Um Mar de Ruínas (da guerra colonial em Angola)

04/04/13

«Por que devemos sair do Euro»

«Porque Devemos Sair do Euro», de João Ferreira do Amaral e editado pela Lua de Papel, será apresentado no dia 9 de Abril, pelas 18h30, no El Corte Ingles de Lisboa. 

Nos anos 90, várias vozes tinham-nos alertado para os perigos da adesão à moeda única. Uma das mais destacadas e consistentes foi a do professor de Economia João Ferreira do Amaral. O tempo, infelizmente, viria a dar-lhe razão – e concretizaram-se as suas mais negras previsões. 

Não temos, porém, de nos conformar. O autor argumenta neste livro que podemos e devemos sair do Euro. Explica-nos como e quando; enuncia as condições que têm de estar reunidas para o fazermos com sucesso; e aponta os caminhos para um Portugal pós-Euro. 

E na mesma medida em que apoia a nossa permanência na União Europeia (com a devida distância) reivindica a imperiosa saída do euro como a única solução possível para recuperarmos a autonomia. E ultrapassarmos a crise.» -- fonte

24/10/12

just like you ..

.
foto de capa - daqui
Chama-se "Winter Journal" e é a obra mais recente de um dos meus autores favoritos. Escrito na 2ª pessoa, assim como quem, olhando-se ao espelho, 'fala' para a imagem reflectida, e, nessa abstracção de pensamento, nesse quase alhear-se de si, se vai 'contando' ao eu-outro: os tempos de infância interrompidos por imagens fugazes da realidade presente ("estás a um mês de fazer 64 anos") , as urgências da adolescência, a memória dos cheiros, dos lugares, das cores, das caras e das casas, o vento e as tempestades, o corpo à chuva (sempre sem chapéu), as texturas do chão por onde caminhou, rebolou, caiu, a relva, o asfalto, a lama, as cicatrizes, as do corpo e as outras, ele, tu, diário de outono, autobiografia incompleta.

De Paul Auster, li praticamente tudo o que escreveu (excepto a poesia), vi 3 dos 4 filmes de que foi realizador ou guionista, descobri cumplicidades, identificações.

Nunca pensei foi ver-me, eu própria, ao espelho, nesta descrição sua que aqui transcrevo: basicamente, uma total-anormal desorientação 'espacial'. Iguais, até (e é isso que acho inacreditável!) no recurso aos pequenos, infrutíferos truques para contrariar esta genética tendência de escolher sempre a direcção errada! :-)

«Always lost, always striking out in the wrong direction, always going around in circles. You have suffered from a life-long inability to orient yourself in space, and even in New York, the easiest of cities to negotiate, the city where you have spent the better part of your adulthood, you often run into trouble. Whenever you take the subway from Brooklyn to Manhattan(assuming you have boarded the correct train and are not traveling deeper into Brooklyn), you make a special point to stop for a moment to get your bearings once you have climbed the stairs to the street, and still you will head north instead of south, go east instead of west, and even when you try to outsmart yourself, knowing that your handicap will set you going the wrong way and therefore, to rectify the error, you do the opposite of what you were intending to do, go left instead of right, go right instead of left, and still you find yourself moving in the wrong direct ion, no matter how many adjustments you have made. (...) »


críticas ao livro:    NY Times   ;     The Telegraph ;    The Guardian
Book Description - Amazon
Release Date: August 7, 2012 

.