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22/08/15

"O discurso do medo é a confissão da derrota"

publicado no I
21 de Agosto de 2015

retirado do blogue Ladrões de Bicicletas

por Jorge Bateira


No Facebook, alguém resumia assim o estado de alguns países após a saída do euro: “moedas sem valor no mercado internacional, inflação galopante, extrema pobreza, sistema bancário de rastos, corralito e corralón, incapacidade de as empresas se financiarem e consequente desemprego, inexistência de meios para importar produtos de necessidades básicas, etc.” De facto, com desemprego em massa pior que o actual, inflação galopante e dificuldade em importar alimentos, medicamentos, etc., temos a combinação perfeita dos males que convém associar à saída do euro.

Quando os argumentos chegam a este nível, isso tem um significado político: a UE dos “amanhãs que cantam” já não convence, pelo que apenas resta a estratégia do medo para controlar o povo.

Repare-se que este quadro negro da saída do euro é inspirado pela realidade que hoje estamos a viver. Nos países mais frágeis da zona euro, já temos desemprego de massa que, no caso da Grécia, é idêntico ao da Grande Depressão dos anos 30 do século passado. Tudo o que a Grécia já sofreu com a política de austeridade, além de cruel e ineficaz, é muito superior ao que teria de suportar se tivesse saído do euro em 2010. O mesmo se poderia dizer de Portugal.

Evidentemente, os partidários do euro a qualquer preço ignoram que um governo com moeda soberana tem autonomia e recursos para promover o pleno emprego. Ignoram que o Banco Central cria dinheiro “a partir do nada” quando credita a conta do Tesouro para que este possa financiar um programa de criação de empregos socialmente úteis, em colaboração com as autarquias locais e agências de desenvolvimento. Ignoram também que o actual modelo de crescimento da Alemanha, gerador de excedentes e do correspondente crédito externo, é intrinsecamente gerador de tensões à escala internacional – as exportações de uns são as importações de outros – e é absolutamente insustentável no contexto da zona euro. Os países que não se integraram na cadeia de valor da indústria alemã não beneficiam da sua dinâmica e, ao mesmo tempo, têm de competir com os salários da Ásia. Esses países europeus, economicamente frágeis, necessitam da política cambial para travar o assédio dos bancos dos países excedentários que oferecem crédito para as importações. Quem defende a manutenção da Grécia, Espanha ou Portugal dentro do euro não diz como se paga a dívida externa privada que se acumulou desde a entrada no euro, nem como se evita a acumulação de nova dívida. Com a austeridade praticamente suspensa em Portugal, na falta de uma desvalorização que torne as importações relativamente mais caras, o défice externo reapareceu e, para o financiar, a dívida externa aumentou. Como se sai disto permanecendo no euro?

A inflação que decorreria da desvalorização da nova moeda tem sido outro espantalho usado para meter medo. Importa lembrar que um país com controlo dos movimentos de capitais tem margem de manobra para gerir o ritmo de desvalorização da sua moeda. Por outro lado, o impulso dado às exportações leva a uma maior procura da moeda, decorrido aproximadamente um ano, pelo que a taxa de câmbio estabilizará num valor compatível com o equilíbrio comercial do país, o que assegura que as exportações geram as divisas necessárias às importações. Ao contrário do que se costuma dizer, o impacto sobre os preços no consumidor é muito inferior ao da percentagem da desvalorização (40% desvalorização x 30% importações no cabaz de consumo = 12% inflação ao fim de dois anos, com tendência a descer).

Com isto, não pretendo dizer que a saída do euro não tem custos. A saída o euro é uma condição necessária ao desenvolvimento do país, mas não suficiente, e tem custos temporários. Um governo preocupado com a justiça social deve endereçá-los às classes mais abastadas e aos cosmopolitas que só pensam em si quando invocam os incómodos do câmbio e os custos agravados (ou mesmo o racionamento) das suas viagens ao estrangeiro. O que pretendo dizer é que não há qualquer teoria económica credenciada, nem qualquer precedente histórico de abandono ou de desmantelamento de uma união monetária que dê suporte empírico ao discurso do medo. Basta de ignorância e manipulação.

13/07/15

verdades incovenientes ..

retirado do facebook


por Jorge Bateira *

Ontem às 11:35 · 

«A esquerda que ataca a Alemanha, por querer expulsar a Grécia, quer o quê?
Quer manter a Grécia sob a pata da Alemanha?
Quer esperar pela grande vitória do Podemos para mudar a Alemanha, Finlândia, Holanda, países do Báltico, Eslováquia, etc.?

Esta esquerda parece não ter aprendido nada. É contra ela, e sobre os seus escombros, que havemos de construir uma esquerda que não tenha vergonha de assumir o patriotismo e a dignidade nacional que o discurso de Nigel Farage, dirigido a Tsipras, transmitiu. Viu-se, pela linguagem do corpo, que este não encaixou bem. A maioria da direcção do Syriza é internacionalista e não quer sair do euro.

Oxalá a Alemanha - através dos pequenos países satélites que estão dispostos a cumprir a ordem de Schauble - expulse a Grécia contra a vontade do seu governo. Acho que o povo grego já está mais preparado que os seus líderes, infelizmente.»
.


 * econiomista; co-Autor do Blogue Ladrões de Bicicletas
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Bom, este Farage será/é um populista de direita, .... mas quem pode não lhe dar razão, nisto que diz? - E isto que abaixo se transcreve é só o final do discurso:
"If you've got the courage, you should leave the Greek people out of the euro zone with your head held high. Get back your democracy, get back control of your country, give your people the leadership and the hope that they crave! Yes, it will be tough for the first few months, but with a devalued currency and with friends of Greece all over the world, you will recover!"

25/06/15

a falência da zona euro


artigo em inglês no Guardian,
22/06/2015

por Aditya Chakrabortty *
tradução minha 

"A Grécia é um palco menor. A zona euro falhou, e os alemães também são vítimas disso."

Photograph: Matt Kenyon
«A moeda única afundou salários por todo o continente e atingiu sobremaneira os trabalhadores da sua economia número um.»
«Quase todas as discussões sobre o fiasco grego se baseiam num auto de moralidade, tipo a Malandra da Grécia versus a Nobre Europa. Aqueles arruaceiros dos gregos nunca deviam ter entrado para a zona euro, é o que diz esta estória. Uma vez lá dentro, meteram-se numa alhada de todo o tamanho - e agora a Europa é que tem de dar solução a isto.

São estas as questões base que agregam todos os Sabichões. Depois, os que estão mais à direita acrescentam que a inútil da Grécia ou aceita as condições da Europa, ou sai da moeda única. Os mais liberais empatam e tossem e pigarreiam antes de pedirem à Europa que mostre um pouco mais de caridade para com o endividado do sul . Seja qual for a solução que apresentem, os Sabichões estão todos de acordo sobre o problema: não é Bruxelas que está em falta, é Atenas. Oh, aqueles tontos dos gregos! É a atitude que se pressente quando Christine Lagarde do FMI entende criticar o governo grego por não ser suficientemente “adulto”. É essa atitude que legitima que a imprensa alemã se refira ao ministro grego das finanças, Yanis Varoufakis, como alguém que precisa de “ajuda psiquiátrica”.

Só há um problema com esta estória: como a maioria das moralidades, desfaz-se quando confrontada com a dura realidade. Atenas é, apenas, a pior manifestação de uma doença muito mais vasta no seio do projecto europeu. Porque a moeda única não está a funcionar para o europeu comum, do vale do Ruhr a Roma.

Isto dito, não fecho os olhos à corrupção endémica e à fuga de impostos na Grécia (nem, de resto, o faz o movimento dos  não-alinhados, Syriza, que chegou ao poder fazendo campanha precisamente contra estes vícios). Também não estou em vias de vestir uma camisola tipo a do Farage. Não, a minha acusação é muito mais simples: o projecto europeu está, não só, a falhar a concretização das promessas dos seus criadores, como a fazer o seu exacto oposto – destruindo os padrões de vida dos europeus comuns. E, como veremos, isto aplica-se inclusive àqueles que vivem na economia número um do continente, a Alemanha.

Comecemos por lembrar os nobres desafios a que se propôs o projecto europeu. Encarnemos o papel representado pelo alemão Helmut Schmidt e o francês Giscard d’Estaing, que lançaram as bases para o grandioso pólo unificador da Europa. Acima de tudo, lembremo-nos do que sentiam os verdadeiros crentes neste projecto. Vejamo-lo em Oskar Lafontaine, o ministro alemão das finanças, exactamente na véspera do lançamento do euro. Falava ele da “visão de uma Europa unida, que se alcançaria através da convergência gradual de padrões de vida, o aprofundamento da democracia, e o florescer de uma cultura verdadeiramente europeia”.

Podíamos citar mais um milhar de idênticas estrofes de euro-poesia, mas aquele único verso de Lafontaine mostra bem o quanto o projecto da moeda única falhou. Ao invés de elevar os níveis de vida por toda a Europa, a unidade monetária está a empurrá-los para baixo. Em vez de aprofundar a democracia, está a miná-la. Quanto a “uma cultura verdadeiramente europeia”, quando jornalistas alemães acusam ministros gregos de “psicose”, essa mítica ágora das nações está muito, mas muito distante.

Destas três acusações, a primeira é importantíssima, porquanto explica como toda a união está a ser minada. Para se ver o que aconteceu ao nível de vida do europeu comum, atente-se na extraordinária pesquisa publicada este ano por Heiner Flassbeck, antigo economista-chefe da Conferência sobre Comércio e Desenvolvimento, das Nações Unidas, e Costas Lapavitsas, um professor de economia da Soas University of London que agora é deputado do Syriza.

Em Contra a Troika, o alemão e o grego publicam um gráfico que desmascara a ideia de que o euro elevou os níveis de vida. O que analisam são custos laborais por unidade – de quanto se precisa para pagar aos trabalhadores para fabricar uma unidade de produção: uma aplicação informática, por exemplo, ou um qualquer elemento de software. Fazem um mapa de custos laborais na zona euro, de 1999 a 2013. O que concluem é que os trabalhadores alemães praticamente não viram os seus salários aumentar neste período de 14 anos. Na curta vida do euro, os trabalhadores alemães foram menos bafejados que os franceses, os austríacos, os italianos e muitos da Europa do sul.

Sim, estamos a falar da mesma Alemanha: a economia mais poderosa do continente, aquela que até David Cameron inveja. No entanto, as pessoas que trabalham lá e tornam o país mais próspero não viram praticamente nenhuma recompensa pelos seus esforços. E este é o modelo para um continente.

Talvez tenham da Alemanha a imagem de um país de operários altamente qualificados e altamente remunerados, a trabalharem em fábricas reluzentes. Essa mão-de-obra (e os seus sindicatos) ainda existe – mas está em vias de extinção. O que a está a substituir, segundo relato do maior especialista alemão em desigualdade, Gerhard Bosch, são empregos da treta. O número de trabalhadores que se vendem por baixos salários disparou e estará agora aos níveis dos Estados Unidos, diz.

E não é o euro que é responsável por esta situação, mas sim o declínio gradual dos sindicatos alemães, e o outsourcing por parte das empresas, que optam pela mais barata Europa de leste. O que a moeda única fez foi transformar os problemas da Alemanha com os baixos salários na ruína de todo um continente.
Os salários dos trabalhadores em França, Itália, Espanha e no resto da zona euro estão agora a ser afectados pelo épico congelamento de salários em vigor no gigantesco país do meio. Flassbeck e Lapavitsas chamam a isto a política da Alemanha de “empobrecer o vizinho” – “mas só depois de empobrecer o seu próprio povo”.

No último século, os outros países na zona euro podiam ter-se tornado mais competitivos, desvalorizando a sua moeda nacional – tal como fez o Reino Unido depois do colapso da banca. Mas agora que fazem todos parte do mesmo clube, a única solução foi pagar menos aos trabalhadores.

É isto, expressamente, que a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o FMI estão a dizer à Grécia: despeçam trabalhadores, paguem muito menos àqueles que ainda têm emprego, cortem nas reformas e pensões. Mas não é só na Grécia. De praticamente todas as reuniões dos Sabichões em Bruxelas e Estrasburgo sai o mesmo comunicado sobre a “reforma” do mercado de trabalho e dos benefícios da segurança social em todo o continente: uma mal disfarçada exigência para atacar os padrões de vida das pessoas comuns. É nisto que o nobre projecto europeu se está a tornar: uma marcha deprimente para o fundo. Não se trata de consolidar a democracia, mas de consolidar os mercados - e os dois são cada vez mais incompatíveis. A alemã Angela Merkel não teve nenhum prurido em se imiscuir nas questões democráticas de outros países europeus – advertindo tacitamente os gregos contra o voto no Syriza, por exemplo, ou forçando o primeiro ministro socialista espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero, a cortar nos gastos com que se tinha comprometido e com que tinha ganho as eleições.

As tareias diplomáticas administradas ao Syriza desde que subiu ao poder este ano podem ser vistas apenas como a Europa a tentar estabelecer um exemplo para quaisquer eleitores espanhóis que possam ter a veleidade de apoiar o seu movimento-irmão, Podemos. Vão demasiado à esquerda, e têm o mesmo tratamento, é a mensagem que passa.

Quaisquer que fossem os ideais fundadores da zona euro, não se coadunam com a triste realidade de 2015. Esta é a revolução de Thatcher ou de Regan – só que, agora, à escala de um continente. E, como então, vem acompanhada da ideia de que Não Há Alternativa, quer para gerir uma economia, quer mesmo para os eleitores escolherem que tipo de governo querem.

O facto de todo este espectáculo ser posto em cena por Sabichões com bom ar, que amiúde reclamam serem sociais-democratas, não torna o projecto mais simpático ou gentil. Só dá à coisa um sabor amargo a hipocrisia.»

traduzido por AL a partir de: The Guardian

* senior economics commentator for the Guardian. He tweets @chakrabortty 

NT: na Grécia Antiga, a ágora era o espaço público por excelência, da cultura, da política e da vida social

04/04/13

«Por que devemos sair do Euro»

«Porque Devemos Sair do Euro», de João Ferreira do Amaral e editado pela Lua de Papel, será apresentado no dia 9 de Abril, pelas 18h30, no El Corte Ingles de Lisboa. 

Nos anos 90, várias vozes tinham-nos alertado para os perigos da adesão à moeda única. Uma das mais destacadas e consistentes foi a do professor de Economia João Ferreira do Amaral. O tempo, infelizmente, viria a dar-lhe razão – e concretizaram-se as suas mais negras previsões. 

Não temos, porém, de nos conformar. O autor argumenta neste livro que podemos e devemos sair do Euro. Explica-nos como e quando; enuncia as condições que têm de estar reunidas para o fazermos com sucesso; e aponta os caminhos para um Portugal pós-Euro. 

E na mesma medida em que apoia a nossa permanência na União Europeia (com a devida distância) reivindica a imperiosa saída do euro como a única solução possível para recuperarmos a autonomia. E ultrapassarmos a crise.» -- fonte