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texto de
Daniel Oliveira, no
Arrastão
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| de Marcel Duchamp, dadaísta |
«O economista Nuno Moniz fez um excelente exercício. Criou uma aplicação em que as pessoas podem colocar os seus rendimentos anuais e ficam a saber quanto vão pagar (isto sem deduções) e para onde vai o seu dinheiro.
O exercício é pedagógico. Porque diz onde estão as famosas "gorduras" que se querem cortar. E porque diz para onde vão os nossos impostos em despesas em que não quer tocar.
Fiz o exercício com um casal com dois filhos que receba 24 mil euros por ano. Ou seja, mil euros brutos por mês cada um.
O agregado paga 5,7 mil euros de impostos. 472 euros por mês.
69 euros vão para a saúde.
61 euros vão para a educação.
Até agora, é dinheiro bem empregue.
78 euros vão para a segurança social, quase tudo para as transferências do Estado.
18 euros vão para a defesa
e outros 18 vão para a segurança.
10 euros vão para a justiça.
Um euro vai para a cultura, esse sorvedouro de dinheiro que os ultras do regime abominam.
Um euro vai para a habitação.
19 euros vão para as autarquias.
Já agora: 60 cêntimos vão para a Assembleia da República. Talvez ajude a refrear um pouco o populismo.
A maior rubrica é a das Finanças: 180 euros por mês.
Mais de 11 euros vão para as PPP's.
Mas o que realmente sai caro é isto: 64 euros vão para os juros da dívida.
Ou seja, dos 472 euros de impostos, mais de 60 vão para pagar juros a bancos.
Não é a dívida, entenda-se.
As famílias pagam o mesmo em juros do que pagam, por exemplo, para garantir educação gratuita para os seus filhos. E esta é a única parte dos seus impostos em que a direita no governo e a que o contesta não está disposta a mexer.
Quando lhe falam em cortes na despesa, é sobretudo na educação, saúde e segurança social de que estão a falar. Aquelas em que seguramente o nosso dinheiro deveria ser mais útil.
Ou um casal com dois filhos e dois mil euros por mês acha excessivo pagar 130 euros por educação e saúde? Algum privado, apesar de toda a lenga-lenga sobre a liberdade de escolha, o garante a este preço?
Este é o Estado que eles querem emagrecer. Porque, dizem, é incomportável.
E há a parte da despesa em que não querem tocar: os mais de 64 euros por mês para os juros da dívida. A mesada que damos a quem, diz-se por aí, nos resgata. Tudo é negociável. Nenhum compromisso, a começar pelos compromissos sociais, vale nada. Mas estes juros são, para esta gente, inegociáveis.
Está ou não está tudo de pernas para o ar?»
Daniel Oliveira