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30/06/15

a austeridade na Grécia/em Portugal não “funcionou bem”?


no Público,
28/06/2015

por Mário Vieira de Carvalho *

A tecnocracia e a banalidade do mal

Franz Grassler, Doutor em Direito, foi destacado aos 28 anos para o cargo de adjunto de Heinz Auerswald, também jurista, membro das SS desde 1933, nomeado comissário para o “bairro judaico” (jüdischer Wohnbezirk) de Varsóvia a partir de 15 de Maio de 1941. 

Tratava-se duma zona da cidade previamente esvaziada dos seus habitantes não-judeus para servir como uma espécie de campo de concentração urbano de judeus de várias origens, sobretudo polacos e alemães. Um muro de três metros de altura e dezoito quilómetros de comprimento isolava o gueto do resto da cidade. Quem ousasse sair era punido com a pena de morte. 

De lugar de concentração, o gueto transformou-se a breve trecho em lugar de extermínio e, por fim, de trânsito para as câmaras de gás de Treblinka. No período em que Grassler exerceu as funções de adjunto ou “assessor”, a situação tornou-se extrema: os judeus morriam ao ritmo de cinco mil por mês, as ruas estavam pejadas de cadáveres e havia quem usasse os derradeiros haveres, não para matar a fome, mas sim para assegurar o supremo privilégio de morrer em casa. 

Vale a pena ver a entrevista de Grassler concedida ao jornalista Claude Lanzmann. Mais ainda do que Eichmann, captado por Hanna Arendt, Grassler parece um inofensivo homem comum, que entrou na idade da reforma sem ter feito mal a uma mosca. Em estado de negação do início ao fim da entrevista, não cede um milímetro quanto à aceitação frontal de culpas. Como se não houvesse qualquer trauma que lhe pesasse na consciência (a postura do inimputável), começa por tentar esconder-se atrás da falta de memória, afirmando que, felizmente, as más recordações são apagadas naturalmente pelas boas... E explica a racionalidade da construção do muro: era precisa uma barreira de proteção que evitasse a contaminação da população da cidade pelas epidemias (sobretudo de tifo) que grassavam no gueto. 
Confrontado com as responsabilidades do ocupante alemão na situação criada, alega que nada podia fazer, pois os abastecimentos disponíveis destinados ao gueto eram cada vez mais escassos. No entanto – e esse é o ponto culminante da entrevista! –, reconhece um extraordinário saldo positivo: é que, no gueto, “a autogestão funcionou bem, isso sei eu” (die Selbstverwaltung hat gut funktioniert, das weiss ich...). 
Fica-se estupefacto com este comentário – para mais, vindo de um Doutor em Direito por uma universidade alemã, com o peso de uma brilhante tradição jurídica de séculos! “A autogestão (judaica) funcionou bem...” Mas como? Funcionou bem a organizar a fome e o extermínio por doença e inanição? A desatravancar de cadáveres as ruas, atirando-os para valas comuns? A selecionar os homens, mulheres e crianças que deviam ser carregados em comboios, como gado, com destino a Treblinka? 

Perguntar-se-á quem fala pela voz de Grassler. Um nazi? Não. Isso seria demasiado simples: uma boa desculpa para tranquilidade de certas consciências... Mas não. Não há que demonizar o homem. Limitemo-nos a aceitar aquilo que ele realmente é: um vulgar tecnocrata. Ou melhor: um exemplo paradigmático da racionalidade tecnocrática. Meticuloso, decerto, em aplicar as regras. Por exemplo, as do racionamento: 2310 calorias por pessoa/dia para os alemães, muito menos para o Outro inferior: 634 para os polacos e apenas 184 para os habitantes do gueto. Tão meticuloso, enfim, quanto os tecnocratas que hoje impõem uma barreira de proteção à Grécia, encerrando-a também num gueto que sustenha a todo o custo o perigo de contaminação... 

O mesmo padrão reproduz-se sem cessar. Não está, afinal, “provado”, como já proclamou do alto da sua auctoritas outro abalizado jurista alemão, que a austeridade na Grécia “funcionou bem”?
* Professor catedrático jubilado (FCSH-UNL)

20/02/14

O homem mais perigoso

14 de Novembro de 2013
 · em Rubra · http://www.revistarubra.org/?p=4345

Por Pedro Bravo 

O homem mais perigoso


Na política, não existe homem mais perigoso do que um artista frustrado. Ele, assim que alcança o mais ínfimo poder, vai exercê-lo no extremo absoluto da arbitrariedade, e a sociedade passa a ser o suporte e a matéria da sua obra inconfundível: criar um estado de coisas para a eternidade. 
de Roman Morhardt

Conhecemos bem estes tiranos! Apesar de terem sofrido da sua arte uma profunda rejeição, não deixaram de acreditar em si mesmos, aliás, guardaram até, contra tudo e contra todos e muito intimamente, uma elevada noção do seu valor. Paradoxalmente, a sua imagem especular é de tal modo frágil que tem de ser defendida de qualquer ataque; por isso, mesmo que desejem ser amados, receiam tanto o abandono que preferem ser temidos. Quando se rodeiam de maravilhados e oportunistas, não é por precisarem da comprovação constante do seu valor, até porque para isso têm o espectáculo do poder onde se confirmam, mas para se descartarem deles ao menor tédio e contrariedade. São implacáveis, hiperbólicos, epilépticos. Não temem o ridículo, crêem-se inspirados, divinos: acham-se artistas corajosos que não recuam perante nada, muito menos perante a crueldade e o horror. Finalmente, se acabam por concentrar em si mesmos o poder absoluto do Estado, justificam a indiferença que mereceu a sua arte com uma clara degenerescência do homem, com a decadência da sociedade. Então, já não exigem o reconhecimento do povo, mas a sua submissão incondicional. 

Mas há outro género de homens que quando entra na política, se revela igualmente perigoso, ainda que por razões diferentes. Chamam-lhes tecnocratas. São professores académicos de economia e finanças, administradores de bancos ou de fundos privados de investimento, e a sua vaidade, o seu orgulho, resulta de lhes ser gabada uma sabedoria muito restrita e particular. Encaram a sociedade como uma máquina, um modelo laboratorial, e fragmentam a vida entre variáveis que operam num regime estatístico e abstracto. Reduzem o debate político a dissertações técnicas sobre quocientes, indicadores, curvas e padrões, pois consideram sempre o modelo que aplicam como o fim da História. Desprezam completamente o sofrimento humano e remetem-no para taxas naturais de miséria e impotência. Não têm paciência para a realidade dos corpos, pois a sua pretensão moral sobre o mundo é fundada numa visão utilitária, objectiva e desinteressada do comportamento humano. Adoram eufemismos, provérbios sem graça e lugares-comuns. São cinzentos, secos e gélidos, e crêem ter sempre, sempre razão. Por isso, não precisam do reconhecimento do povo e, tal como aqueles pais que desprezam o reconhecimento amoroso do filho, dele só exigem cumprimento e responsabilidade. 

A verdade é que será sempre preferível lutar contra o poder de um artista frustrado do que contra o de um tecnocrata, e a razão é muito simples: quando se consegue afastar um tecnocrata do seu lugar de poder, logo se oferecem outros dois para o substituir; pelo menos, ao artista frustrado, sempre nos livramos dele quando lhe cortamos a cabeça. Irra, o diabo nos livre desta gente! 


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