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02/09/15

da responsabilidade pela tragédia dos refugiados

retirado daqui 
terça-feira, 1 de setembro de 2015 

por José Goulão

INTRODUÇÃO À TEORIA DO CAOS

É provável que nenhum dirigente da União Europeia ou de Estados membros tenha alguma vez ouvido falar da “teoria do caos”, lançada e burilada no pós-guerra pelo filósofo Leo Strauss, da elite política judia e do establishment dos Estados Unidos, continuada até hoje pelos seus discípulos - e financiada pelo Pentágono. Raros são também os jornalistas que a integram nas suas investigações e análises, sujeitando-se a ser imediatamente rotulados como seguidores lunáticos das chamadas teorias da conspiração.

Em poucas palavras, a “teoria do caos” de Strauss estabelece que a melhor maneira de os Estados Unidos da América impedirem a criação de países ou blocos rivais e beneficiarem de matérias primas baratas e com acesso desregulado é através da instauração de situações de caos governamental e social em diferentes países e regiões, de maneira a que Washington delas possa tirar proveito praticamente exclusivo. Para Leo Strauss, a criação de situações de caos favoráveis aos Estados Unidos deveria ser um fim, nunca um meio.

A “teoria do caos” de Strauss teve desenvolvimentos no início dos anos noventa do século passado, quando Washington tratou de fazer vingar a unipolaridade disfarçada de multipolaridade a seguir ao desmembramento da União Soviética. Por iniciativa de George Bush pai nasceu então a “teoria Wolfowitz”, que deve o nome a Paul Volfowitz, discípulo de Strauss, igualmente membro da elite judia norte-americana, arquitecto da política externa de George Bush filho e da invasão do Iraque. Também foi presidente do Banco Mundial. Regressou à sombra depois de conhecidos os escândalos através dos quais rateava cargos públicos entre os amigos neoconservadores, familiares e namoradas.

Em poucas palavras, a “teoria Wolfowitz – ainda secreta mas parcialmente revelada pelo New York Times e pelo Washington Post em Março de 1992 – estabelece que a supremacia global norte-americana exige o controlo militar, político e económico sobre a União Europeia, para que esta não se torne uma potência capaz de rivalizar com os Estados Unidos. Aliada sim, mas nunca em plano igualitário.

Suponhamos então que a teoria de Strauss e a sua sucessora delineada por Wolfowitz não passam de delirantes teorias da conspiração. Suponhamos até que o seu gestor financiado pelo Pentágono, Andy Marshall, não se reformou apenas no ano passado, já com 92 anos, e nunca existiu. Nem foi nomeado em 1973 – sucedendo a Leo Strauss, por morte deste – por Richard Nixon e confirmado por todos os presidentes até Obama.

Ignoremos então esses supostos delírios e olhemos para a Europa, em especial para a União Europeia e respectivo percurso desde o início dos anos noventa do século passado. Reflictamos sobre as consequências do mergulho suicida no neoliberalismo, da submissão à NATO como braço operacional do Pentágono, do envolvimento em guerras desencadeadas pelos Estados Unidos, desde o Afeganistão à Síria e à Líbia, onde aliás as principais aventuras militares foram confiadas à França de Sarkozy/Hollande e ao Reino Unido de Cameron. Observemos o que está a acontecer na Europa, sobretudo na União Europeia, com a tragédia dos refugiados resultante dessas guerras.

Não será disparatado concluir que a hecatombe humanitária, política e económica dos refugiados resulta das situações de caos criadas no Afeganistão, no Iraque, na Somália, na Líbia, no Mali, na Nigéria, na Síria, no Iémen. Antes destas guerras com a marca do Pentágono, arrastando os mais importantes países da NATO em condições de subalternidade, o problema dos refugiados na Europa não atingira nunca uma dimensão sequer próxima da que agora se regista. 

A Europa está há longos anos mergulhada numa crise disparada a partir dos Estados Unidos e que se alimenta a si mesma pelos erros sucessivos cometidos pela União Europeia ao pretender ser um espelho do modelo do lado de lá do Atlântico, mas sem voz própria militar e económica. Crise essa que se agrava através da submissão reforçada com o acordo de comércio livre (TTIP) e, sobretudo, com o problema dos refugiados decorrente das situações de caos que estão para lavar e durar nas zonas e países atrás citados. A gravidade da crise dos refugiados é o veículo que transporta o caos para o interior das fronteiras europeias, potenciado de maneira desagregadora pelo recrudescimento do terrorismo nazi-fascista.

A “teoria do caos” será uma miragem, mas o caos real vai provocando os efeitos desejados pelo complexo militar, político, económico e financeiro que domina o mundo sob as bandeiras dos Estados Unidos e da NATO.

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José Manuel Goulão nasceu em Monforte da Beira, distrito de Castelo Branco, em 1950. 
Iniciou a sua carreira de jornalistaImagem1 em A Capital em 1972, trabalhando depois em O Diário, no Diário/Semanário Económico e na revista Valor; fundou e foi director editorial da revista Volta ao Mundo e director da última série da revista Vida Mundial. Foi também director de comunicação do Sporting Clube de Portugal. 
Especializando-se na área da política internacional, particularmente nos problemas do Médio Oriente, foi comentador da TSF, do Rádio Clube Português, da Radio France Inter e da BBC, da RTP 1, RTP 2, RTP N e da SIC Notícias. 
Dirige em Bruxelas os websites BEinternacional e The Week. 
Autor de vários livros de reportagem e de jornalismo; a publicação mais recente é “Pagadores de Crises” (Porto Editora/Sextante – 2011). 
Em A Viagem dos Argonautas publica uma coluna semanal de análise política – Mundo Cão

09/08/15

de "migrantes" e miragens ..

___________________ a propósito das notícias abaixo, de tantas que nos chegam sobre os fugitivos que embarcam rumo à Europa, tantos morrendo pelo caminho .. 
imagem daqui

A solução, quanto a mim, passaria por UMAS "NAÇÕES UNIDAS" QUE O FOSSEM REALMENTE: 
--- 1.º que tudo, sanções, muitas sanções e prisões, aos traficantes de armas, mais aos governantes que os acobertam/apoiam/ licenciam. 
--- Depois, uma exigência de "serviço público" aos governos dos vários países que originam este êxodo, que enquanto não se intervier/ mediar nos países de origem, não se pode aspirar a alterar nada! : condições de vida e de trabalho; de liberdade e de tolerância; saúde, educação, habitação (tão óbvio, tudo isto!); e mão dura com os extremismos violentos. 

E sei bem das muitas culpas no cartório, ingerências e ditames de quem se julga dono do mundo .. NATO e UE e EU e CIA e etc -- e já não falo das colonizações ... Certo, certo, é que dois dos países devastados, que geram milhares de fugitivos, foram mal-intervencionados pelos Estados Unidos ..

O problema é que os agora chamados "migrantes" vêm à procura de um "el dorado" que não existe, a própria Europa a braços com uma crise que gerou muitos destituídos.. Também sei que os que assim fogem, basicamente de África, são ainda mais pobres e ainda mais destituídos. 
Não me parece é que a Europa aguente um fluxo ininterrupto de refugiados de guerra, políticos e económicos, sem fim à vista para um problema que se eterniza e se agiganta!


Grécia recebeu mais de metade dos refugiados que chegaram à Europa pelo Mediterrâneo 

Responsável do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados afirma nunca ter visto uma situação tão dramática como a que aconteceu nas ilhas gregas. "Isto é a União Europeia e é totalmente vergonhoso". 
8 de Agosto, 2015 - 18:48h 
notícia aqui


ONU: Mais de 225 mil imigrantes chegaram à Europa este ano pelo Mediterrâneo

(...) O organismo humanitário da ONU qualificou de "caóticas" as condições de recepção dos que chegam diariamente ao litoral grego e dos quais a grande maioria são sírios (63%, no ano).
Sua procedência, de um país imerso há quatro anos em uma guerra civil, não deixa dúvida de que se trata de refugiados, com direito a uma proteção internacional.

Afeganistão e Iraque - que também sofrem com conflitos armados - são os outros dois países de onde vem o maior número de refugiados que chegam à Grécia.

Ao mesmo tempo em que comunicou estas novas estatísticas, o Acnur revelou que a Grécia não oferece nem as mais mínimas condições de recepção requeridas para estas vítimas de conflitos e perseguição.
notícia aqui

Regime repressivo da Eritreia leva milhares de cidadãos a abandonar o país

notícia aqui

14/10/14

"Apanhados pela história"

publicado em 14 Out 2014
no I online

Por Nuno Ramos de Almeida*

As mulheres e homens que combatem de cara destapada pela liberdade em Kobane são uma ameaça àqueles que querem impedir a igualdade entre homens e mulheres dos curdos 

Kobane - foto daqui
No filme "Yol", "caminho" em turco, realizado a partir da prisão pelo realizador curdo Yilmaz Guney, são contadas as histórias de cinco presos que saem em licença precária da cadeia. Um deles dirige-se para a sua terra, no Curdistão ocupado pelos turcos. Numa das sequências mais belas pode ver-se o esforço dos cavalos de correrem livres pelos campos salpicados de mortos, em que os cadáveres de centenas de pessoas massacradas são transportadas em camionetas de caixa aberta, literalmente a escorrer sangue. Yilmaz teve uma vida difícil. Curdo na Turquia a contar histórias das suas gentes cedo chamou a atenção das autoridades. Foi preso pela primeira vez em 1974 por albergar anarquistas. Continua a escrever e a filmar. É preso novamente e é condenado a 15 anos de prisão. A acusação é de estar envolvido num atentado mortal. Na Turquia todos os curdos estão condenados. A história da pseudodemocracia turca é a história das prisões dos deputados, dirigentes, militantes e votantes dos partidos curdos, que são legalizados para depois serem presos todos aqueles que aparecem à luz do dia. Ser curdo é, na melhor das hipóteses, uma condenação à morte. Regra geral são condenados a viver numa ditadura para sempre. Yilmaz nunca aceitou as grades que lhe impunham. Libertou-se da prisão pela escrita e pelo pensamento, e com ajuda de camaradas conseguiu dirigir "Yol", um filme duro feito de carne e osso que ganhou a Palma de Ouro de Cannes em 1986. Posteriormente conseguiu mesmo escapar da cadeia e refugiar-se em França. Os turcos retiram-lhe a nacionalidade. Morreu de cancro com 47 anos, mas morreu sem o ferrete do opressor.

Os curdos são vítimas das fronteiras de regra e esquadro traçadas pelo colonialismo. São a maior nacionalidade sem estado. São mortos no Irão, assassinados na Turquia, gaseados no Iraque, reprimidos na Síria. Os burocratas de Bruxelas e os comandantes de drones de Washington declararam "terroristas" as organizações que combatem pela sua libertação. A vida tem sempre vários lados; os resistentes franceses era enforcados como terroristas pelos nazis. Os judeus que morreram de armas na mão nas ruas do gueto de Varsóvia foram apelidados de bandidos, criminosos, pela imprensa dos seus carrascos. Os curdos resistiram contra tudo e contra todos durante dezenas de anos. A seu favor apenas a vontade de ser livres. 

Uma noite em que dormi numa casa do PKK em Madrid, estava na cidade para preparar uma reportagem que fiz com as FARC colombianas, e tinha combinado a possibilidade de ir em reportagem para as áreas controladas pela guerrilha curda, vi uma série de vídeos de propaganda. Alguns tinham imagens de manifestantes curdos que se imolavam pelo fogo nas ruas da Alemanha, numa tentativa desesperada de chamar a atenção para um povo condenado à invisibilidade.

Com a queda do regime secular do Iraque e a guerra civil da Síria as áreas curdas ganharam liberdade. "A Região Autónoma da Rojava é um dos poucos pontos brilhantes a emergir da tragédia da revolução síria. Depois de expulsar os agentes do regime de Assad, em 2011, e apesar da hostilidade de quase todos os seus vizinhos, Rojava não só manteve a sua independência como constitui uma experiência democrática notável. Foram criadas assembleias populares enquanto órgãos de decisão final, os conselhos foram constituídos com um cuidadoso equilíbrio étnico (em cada município, por exemplo, os três principais responsáveis têm de incluir um curdo, um árabe e um assírio ou arménio cristão, e pelo menos um dos três tem de ser uma mulher), existe um exército feminista, a milícia YJA Star (União de Mulheres Livres, a estrela refere-se à antiga deusa mesopotâmica Ishtar), que realizou uma grande parte das operações de combate contra as forças do Estado islâmico", escreve David Graeber, antropólogo e activista do Occupy Wall Street no "The Guardian".

Hoje em Kobane, as centenas de combatentes curdos que se batem contra o EI - guardados ao longe pelos tanques turcos que estão lá para evitar qualquer vitória destas pessoas sobre a morte - são dirigidos por uma mulher. Mais uma vez os curdos estão cercados: o Estado Islâmico e a maior potência da NATO na região querem afogar em sangue a semente da liberdade dos curdos e provar que não pode haver na região um povo livre em que as mulheres e os homens são iguais. 

*Editor-executivo 
Escreve à terça-feira 

YOL: o filme inteiro(1h.46´), legendado em inglês: