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23/10/15

do lado de cá ..

retirado do fb
postado em 22/10/2015

por Rui Silvares

- A propósito de uma coisa indigna (o discurso do Cavaco ainda há bocadinho)

de Rui Silvares
Os apoiantes da solução cavaquista deveriam tentar perceber como é que são vistos os seus campeões da estabilidade do lado de cá. [o meu lado, também, esclareço ..]

Passos Coelho é um primeiro ministro que se esqueceu de pagar impostos, que não sabia que devia pagar segurança social, que não se lembrou de declarar na assembleia da república que trabalhava numa certa empresa e, portanto, não era deputado em regime de exclusividade. Este gajo levou para o governo Miguel Relvas! Que agora faça cara de pau e apareça com voz arrastada a fingir pose de estadista não apaga tanta falha no seu passado recente e mostra bem a amplitude ética do seu comportamento como cidadão. 

Precisam também de perceber que Paulo Portas é olhado como sendo um vigarista encartado e como uma espécie de cobra cascavel. Ex-anti europeísta convicto, foi responsável por uma crise das antigas quando se demitiu irrevogavelmente para depois ser promovido a vice primeiro ministro. Por muito menos do que isto há putos que levam valentes bofetadas no focinho. Foi também responsável por alguns negócios mais do que obscuros, como é o caso da compra dos submarinos, para citar apenas um. 

É nestes dois cromos que depositamos toda a esperança de boa governação e estabilidade política e social do nosso país? Porquê? Porque são suficientemente sabujos para dobrar a espinha sempre que a voz do dono os manda deitar ou pôr-se de quatro? 

Finalizo com um rápido esboço do retrato de Cavaco (muitos outros poderiam aqui ser chamados mas estes 3 chegam para mostrar o nojo que representa esta gentalha). 

Cavaco, o genial economista, o estadista de visão, não passa de um salazarito de meia tigela. Inculto, de baixo nível intelectual, incapaz de pensar para lá do óbvio, mesquinho, sem visão nem respeito pela Democracia, é o pior cancro que jamais se agarrou a este país. Cavaco mostrou hoje, com o discurso inqualificável que teve o desplante de fazer, que tem todos os tiques de um ditador de república das bananas. Cavaco tem de provar que é honesto e não é capaz pelo simples facto de ser desonesto. 

O que os apoiantes da direita têm de perceber é que os seus campeões, vistos deste lado, têm um aspecto repelente.

26/10/14

"Pedro Manuel", o nosso 1º


no Público, 03/10/2014
posto no fb por Rui Silvares

A OPINIÃO de António Guerreiro 

O Pedro Manuel

de Rui Silvares
Observemos o nosso primeiro-ministro, para além da contingência do cargo que ocupa e das manigâncias ocultas do seu passado; observemos como ele se revelou desde o primeiro momento, para além dos gestos e dos discursos oficiais e protocolares; observemo-lo como figura ou tipo e chamemos-lhe Pedro Manuel, como se fosse uma personagem literária — um Bloom de Joyce, um Mr. Teste de Valéry, um Franz Biberkopf de Döblin, um Marcovaldo de Calvino.
O nosso Pedro Manuel tem traços de todos eles, mas não coincide inteiramente com nenhum. Tem escassas potencialidades romanescas, mas consegue oferecer matéria suficiente para um diagnóstico epocal, na medida em que é o triste produto do tempo do homem-massa e o engendramento catastrófico do fim de todos os encantamentos políticos, ideológicos e sociais.
É o homem liso, da platitude inerente às formações de uma sociedade homogénea. Se tem alguma aura, é a aura pornográfica da massa contemporânea.
É o homem alienado? Não, é o homem da condição estatística, da indiferença, da impessoalidade.
A sua presença é tão espectral que não é possível ver nele senão a presença de uma ausência.
E até a sua voz de barítono, mas sem grão, e o tom de recitação com que debita são desprovidos de corpo e de mistério.
Enquanto figura ou tipo, isto é, naquilo que tem de comum a tantos outros à sua volta e lhe absorve qualquer pretensão de singularidade, o Pedro Manuel é a encarnação do “último homem” de Nietzsche, sobre o qual se abateu a pobreza inerente a um niilismo completo. É, digamos assim, um homem pós-histórico, que vive como se estivesse desde sempre morto.

Pedro Manuel é o nome de um homem anónimo que surgiu não há muito tempo à superfície do planeta, um homem sem substância (o que não é exactamente o mesmo que o “homem sem qualidades”, de Musil, que era ao mesmo tempo um conjunto de qualidades sem homem).

É um representante perfeito da pequena burguesia planetária que herdou o mundo e da qual um eminente filósofo disse que ela era a forma sob a qual a humanidade vai ao encontro da sua destruição. Esta pequena burguesia, na realidade, não é uma classe, é apenas uma massa.

Enquanto governante ao mais alto nível, é legítimo pedir-lhe contas sobre o seu passado, mas exigir tal coisa ao Pedro Manuel é completamente inadequado: ele não tem mais espessura do que aquela que o confina a um eterno presente. E há-de morrer como alguém que nada aprendeu, em que o “não quero nada, não sei nada e não tenho nada”, muito embora pareça coincidir com um altíssimo conceito de pobreza, de amplitude metafísica, que vem da Idade Média, do Mestre Eckhart, corresponde antes à miséria do Nada que se mascara.
É uma fantasmagórica vacuidade que traz consigo uma única mensagem: nada nos pode defender da trivialidade, da proliferação daninha de Pedros Manueis. A condição política de onde eles emergem é destituída de toda a grandeza, incaracterística, triste como a carne e sem sinais luminosos que assinalem o nosso horizonte.

O contrário desta condição, o homem que devemos opor ao Pedro Manuel, não é aquele que foi tantas vezes solicitado pelo culto dos heróis e que vem para se erguer acima dos outros, para os guiar.
A nova pobreza de que o Pedro Manuel é o nome não deve ser erradicada em nome de nostálgicas grandezas, a única coisa que devemos exigir é não sermos espoliados pelo Nada e determinados pela condição póstuma do último homem, que infelizmente não encarnou apenas no Pedro Manuel.
Pedro Manuel é nome de legião e Massamá é o espaço interior do mundo.

----------------------------------outros artigos de António Guerreiro, aqui