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24/03/15

"Não é chuto, é transição responsável!"

recebido via e-mail

por Luís Costa


Corria o ano letivo de 1979/80 ― o meu primeiro nestas andanças do ensino ― quando ouvi falar, pela primeira vez, do “fim das reprovações”. Foi em Montalegre. Um delegado do Ministério da Educação, que andava, de escola em escola, em “missão diplomática”, foi lá sugerir-nos que abríssemos mão do “tradicional” rigor, pois, segundo ele, pelo caminho que as taxas de reprovação levavam, um dia o Estado deixaria de ter dinheiro para pagar tal despesa, e poderia mesmo ter de tomar medida radical enunciada. Fez-se-me luz! Desde então que eu sei quanto a casa gasta.

Vem isto a propósito da prometida crónica dedicada às declarações públicas de David Justino sobre esta problemática. Pelos vistos, são oportunas, pois o Estado parece ter chegado ao “fim do dinheiro”. Todavia, há um ligeiro desvio no objeto da reflexão: afinal, ao contrário de Paula Teixeira da Cruz, que debita, a título pessoal, ideias sobre o seu pelouro, as afirmações do Presidente do CNE decalcam, na forma e na substância, o texto da “Recomendação”, de fevereiro passado (que Mário Nogueira, em declaração de voto, diz ter votado “sem quaisquer restrições”).

Nunca tinha lido uma publicação desta índole (sim, confesso a minha ignorância). Certamente devido a isso, estava à espera de algo muito mais desenvolvido, mais fundamentado e mais profundo. Fiquei surpreendido com a simplicidade (logo eu, que tanto a aprecio). Contudo, foi acre a leitura. Devo ter-me tornado um resistente incurável, um veterano desconfiado de tudo e de todos. Estes anos de constante vigília, de “armapena” sempre em punho, devem ter feito de mim um lobo, pois já quase nada me parece confiável. Só os meus olhos, só os meus ouvidos, só o meu instinto… Lamento dizê-lo, mas, nesse documento… só farejei demagogia, engodo para ingénuos e populismo quanto baste: é a genuína solidariedade com os jovens mais pobres e com os provenientes do estrangeiro; é a sincera preocupação com os comportamentos indisciplinados que a retenção potencia; é a brilhante ideia de que a “transição responsável” (não é administrativa, portanto) traz maior exigência ao processo; é a cenoura-miragem da flexibilização do currículo; é a “eduquesa” desvalorização da “nota”; é a redonda tecla (encravada) da mobilização e capacitação dos professores; é a dramática e coruscante conceção dos professores como principais atores do sistema educativo (de cinema mudo, digo eu); é a sempiterna ideia de comprometer os alunos e as famílias (tão parecido, em corpo e alma, com as atas de conselho de turma); são os miraculosos “programas contextualizados de combate ao insucesso e de melhoria das condições de ensino e aprendizagem”; é a epifania da eliminação da obrigatoriedade de afixação pública das pautas de avaliação… Um nunca-acabar de pérolas de iluminismo histórico, social e pedagógico. Seria tão bom, se fosse verdade! Infelizmente, os meus olhos selvagens apenas divisam dois nítidos propósitos nesse documento: estender uma passadeira vermelha à Senhora Municipalização e acabar com esse desperdício de verbas gastas com a retenção. O resto é, para mim, mera “conversa”.

A leitura das dezoito páginas da “Recomendação” causou-me azia, sobretudo o ideário destinado a diabolizar a retenção, exacerbando os traumas e o estigma por ela provocados. Para mim, como para muitos dos meus colegas ―“atores principais” que nada percebem disto e cuja opinião nunca conta para nada ― era perfeitamente previsível o aumento das taxas de retenção (e não falemos do insucesso real, porque então…). A partir do momento em se começou a desautorizar os professores, a concentrar neles toda a responsabilidade de tudo o que de mal acontece nas escolas e a “castigá-los”, com reuniões em série e torres de papelada justificativa, sempre que têm de exercer a disciplina ou atribuir um nível negativo a um aluno; a partir do momento em que as faltas dos alunos passaram a contar apenas para o aumento do trabalho administrativo dos diretores de turma; a partir do momento em que a indisciplina começou a ser maquilhada; a partir do momento em que os alunos perceberam que pouco precisam de fazer para passar de ano… ficou tudo dito. E como não estamos na Finlândia, nem na Suécia nem na Austrália (estamos em Portugal, o país onde muiiiiiiiitos encarregados não obrigam os filhos a frequentar os apoios educativos, ignoram os recados enviados na caderneta e vão mais depressa à escola para recuperar o telemóvel do filho, para se queixarem dos professores ou para os agredirem do que para saberem o que os educandos andam a fazer), era de esperar que os catraios passassem a adotar um estilo négligé, deixando na espreguiçadeira as verdadeiras capacidades do seu cérebro. Quando se baixa a fasquia (qualquer educador sabe isto) os jovens baixam imediatamente o interesse, o empenho e até o respeito. É, infelizmente, o que tem acontecido nos últimos anos. É, infelizmente, o que vai continuar a acontecer (como bola de neve montanha abaixo), na prossecução deste caminho. Contudo, keep calm, porque a dita “transição responsável” não vai deixar que se note, assim à vista desarmada!

Não há nenhum professor que não deseje o sucesso pleno dos seus alunos. Mas o sucesso real. Temo ― toda a minha experiência de ensino me grita isso ― que o fim da retenção (como casa bem com a não afixação das notas!) traga o fim das expectativas escolares dos mais desfavorecidos. Como diz o texto do CNE (e como também diria Jacques de la Palice), são eles que dão corpo a essas taxas. Porém, será muito mais severa, para eles, a dita “transição responsável”. Sabemos bem o que vai e o que não vai acontecer. É medonho! Só David Justino parece não saber (ou não querer saber). Não desejo ser professor nesse contexto (nenhum membro do CNE desejaria). Rejeito, em absoluto, esse vindouro papel de “principal ator” (de farsa, de comédia burlesca, de drama ou de tragédia). Não quero que os espetadores me cuspam na cara!

Luís Costa

16/06/13

A VELHA TOLICE E O DIZ-QUE-DISSE

um fantástico texto, lúcido e dorido, um apelo e um alerta aos professores..

por Luís Costa

Se necessário fosse, os últimos dias seriam esclarecedores quanto à força social que nós, os professores, temos atualmente. Nenhum partido do dito arco da governação veio a terreiro para nos apoiar. Só os “mais pequenos” o fizeram e de forma bem explícita. Há, de facto, um pacto tácito relativamente à Educação, e não é, por certo, aquele que mais favorece a Escola Pública.

O Partido Socialista, que tem tentado passar entre os pingos de chuva, forçado pelas circunstâncias, lá acabou por dar a cara: a de António José Seguro, anémica de todo, e a de Francisco Assis, com vermelhão próprio de quem deu de beber ao seu alter ego. O homem soltou a língua para dizer que considera ignóbil a convocação da greve para um dia de exames. Não o fez por menos o destacado militante do PS:”IGNÓBIL”.
Não é absolutamente desprezível este tipo de declarações contra os professores. Longe disso, não só pela ofensa que encerram, como pelo que revelam do nosso estatuto. A facilidade, a ligeireza, a soltura e o desprendimento com que muitas com que muitas “entidades” se nos dirigem mostram bem a importância que nos dão, que é a mesma que dão à Escola Pública; mostram quão irrelevantes nos consideram neste xadrez sociopolítico; mostram também que nada receiam da nossa luta. Para “eles”, ela não passa do estrebuchar de condenados sem remissão. Cabe-nos a nós, portanto, contrariar estas expectativas. Seremos capazes?

Os nossos sindicatos, que começaram com grito uníssono imediatamente ouvido e seguido, deixaram-se — apesar da união apresentada ontem nos Restauradores — cair novamente na estratégia da “ronda negocial”; deixaram-se arrastar, novamente, para o “diz-que-disse” póstumo; permitiram que o ministro e seus secretários pudessem compor feições mais sorridentes e um brilhozinho nos dentes aqui e ali. Quem prometeu que não se volta a portar mal?

Chegados a este ponto, ou seguimos em frente, até ao fim, ou resvalamos para sarjeta, levando connosco o futuro dos pequenos deste país.

12/06/13

SENTIDO DE DEVER

por Luís Costa

O Sr. Jorge Ascensão, presidente da CONFAP, veio hoje a terreiro apelar ao «sentido de dever» dos professores. É, no meu entender, um apelo lamentável, apesar de parecer muito assertivo.

Em primeiro lugar, se há profissionais em Portugal com elevado «sentido de dever», os professores estarão, certamente, à cabeça desse honroso grupo.

Em segundo lugar, é precisamente por causa desse elevado «sentido de dever» que os professores estão, de novo, em luta frontal com o Ministério da Educação. Acima de tudo, é a qualidade do serviço prestado aos alunos (logo, aos encarregados de educação e à sociedade em geral) que está em causa. Se os docentes não pudessem usar esta “arma”, então a Escola Pública estaria, doravante, completamente à mercê daqueles que a querem esmifrar, a favor do ensino privado, criando, desse modo, dois Estados dentro do Estado: o dos que podem (com escolas de qualidade) e o dos que não podem (com escolas escanzeladas, inseguras e sem condições de promover a tão propalada igualdade de oportunidades dos cidadãos). Bastaria calendarizar para esta altura todos os saques à Escola Pública. Estaríamos todos de mãos atadas.

Em terceiro lugar, lamento profundamente que a CONFAP apele ao «sentido de dever» dos professores e ignore o sentido de justiça e de dever do Governo, uma vez que é “dali” que, nos últimos cinco anos, têm vindo todas as pragas que têm depauperado a nossa Escola Pública. 

A CONFAP só tem de estar do lado dos alunos e de mais nenhum. É esse o seu tesouro. Por isso mesmo é que estranho muito que não esteja agora — como não tem estado, por norma — ao lado daqueles que dão, diariamente, corpo, alma e até o tempo da família pela Escola que protege, acarinha, alimenta, conforta, ensina e educa as crianças deste país que não podem, ou não querem (porque têm direito a uma Escola Pública de qualidade) refugiar-se nas privadas. Lamento muito que todos corram a encostar-se ao poder, em vez de engrossarem as fileiras daqueles que têm hasteadas as bandeiras com o rosto dos seus educandos.

Luís Costa