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24/02/16

"Escola a mais, pais a menos "

no Público
24 de Fevereiro de 2016

por Santana Castilho*

Três meses volvidos sobre o início de funções do Governo, temos, na Educação, um Orçamento de Estado pior que o último de Passos Coelho e umas Grandes Opções do Plano para 2016-2019 (Proposta de Lei n.º 11/XIII) que não são melhores. Se não é claro quem manda no ministério da Educação, é já claro quem não manda, apesar de algumas tiradas fanfarrãs e pouco respeito por quem pensa diferente. Decididamente, António Costa menosprezou a Educação e resolveu-a protegendo a impreparação do ministro com a sombra tutelar de Maria de Lurdes Rodrigues. Cruzando o orçamento com as opções, resultam projectadas para a legislatura (se o Governo a concluir) medidas sem dinheiro para as pagar e persistência em bandeiras erradas do PS de outros tempos. Um bom exemplo é o alargamento da “Escola a Tempo Inteiro” (permanência na escola das 08.30 às 19.30) a todos os alunos do ensino básico, que já estava no programa do Governo e é reafirmado nas Grandes Opções do Plano (pág. 110).

A falta de tempo para os pais se dedicarem ao crescimento dos filhos é um problema social real e grave. Mas encontrar pais de substituição (professores e outros técnicos) e lar alternativo (escola) é acrescentar ao primeiro um segundo problema. A este propósito, o défice de conhecimento do Governo é preocupante quando lamenta (pág. 20 das opções) que a taxa de “escolarização efectiva (sic) antes dos três anos” seja apenas de 45,9%. E quando se regozija, a seguir, por essa taxa ficar “claramente acima dos 27,7 % da Finlândia”. Isto é, o PS ainda não percebeu que, no caso vertente, taxa baixa é melhor que taxa alta. E não percebeu porque insiste no desígnio, pedagógica e socialmente aberrante, de nacionalizar as crianças e facilitar a escravização dos pais. Perceberá o PS que, na sociedade que defende, cada vez mais as crianças não são crianças? Que não têm tempo para brincar livremente, a actividade mais séria do seu crescimento? Que mais escola não significa melhor educação? Que a falta de presença e disponibilidade dos pais impede a consolidação dos laços afectivos profundos, que caracterizam a relação pais/filhos? Que essa ausência dificulta o desenvolvimento da personalidade das crianças, o qual requer figuras claras de referência? Que só cresce a necessidade de mais berçários porque aumenta o peso do trabalho desregulado e mal pago? Que a prevalência dos interesses profissionais sobre o direito ao bem-estar mental das crianças tem reflexos nefastos no futuro de todos nós?

Só há uma maneira de encarar isto e a alarmante baixa taxa de natalidade, geradora de um saldo demográfico persistentemente negativo, qual seja a de proteger verdadeiramente as crianças e a maternidade, admitindo novas formas de organização do trabalho e reduzindo a carga horária de um dos progenitores, pelo menos, até que os filhos concluam o ensino básico. Como fazem os países mais avançados, que há muito concluíram, à luz da abundante produção científica sobre psicologia do desenvolvimento, que resulta inaceitável guardar crianças na escola em jornadas contínuas de 10 a 12 horas, como já hoje se verifica em muitos casos.

É tempo de trazermos a debate modelos alternativos de organização do trabalho e de fixação dos seus horários. Não são só os escolhos postos à maternidade que o justifica. São, também, os problemas suscitados pelo desemprego persistente, pela natureza cada vez mais precária do emprego, pelo crescimento do peso das mulheres no preenchimento do trabalho disponível e pelo aumento constante do tempo de vida, sem reflexo satisfatório na percepção da utilidade social dos mais idosos, que não podem, não devem nem aceitam ser reduzidos a simples fardos da sociedade. É, também, ainda, a necessidade de encarar e resolver um paradoxo inaceitável: se a crise atirou uns para a inactividade, obrigou outros, muitos, a dupla actividade, paga a preço singelo.

Não fora isto determinante e, mesmo com técnicos qualificados em trabalho não curricular e recursos que não existem (se a iniciativa custou em 2006, só para o 1º ciclo do básico, cerca de 100 milhões de euros, em quanto importaria hoje para um universo de quase 900.000 alunos?), a tipologia dominante na organização dos espaços das escolas, que é a sala de aula, inviabilizaria a generalização proposta. Faltam ginásios, recintos desportivos de ar livre e espaços para actividades expressivas (teatro, música, artes plásticas, etc.), pelo que não nos iludamos: a persistir no erro, duplicaremos apenas, sem sucesso, actividades rígidas, de cariz escolar. E porque os níveis de desenvolvimento são diferentes, reter em reclusão tão prolongada adolescentes do 9º ano pode provocar episódios reactivos que não se verificam com crianças do 1º ciclo.

*Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt)

14/02/16

do nojo

..... demasiado enojada para escrever sobre isto ....


foto DN


- de quem o fez por mim, no blogue Pérola da Cultura

Indignação

Indignaram-me as condecorações de Maria de Lurdes Rodrigues e Nuno Crato, antigos ministros de Educação, pelo presidente cessante. Para mim, Cavaco termina o mandato com mais esta nódoa: a de agraciar com medalhas de honra por bons serviços prestados ao país duas das pessoas que mais mal conseguiram fazer à Escola pública e aos professores. 

Há quem tente hoje em dia relativizar os "males" que MLR impôs aos docentes e à escola comparando-os com os de Nuno Crato, eventualmente ainda piores. Mas, não nos esqueçamos de que, por muito mau que Nuno Crato tenha sido, isso não pode de modo algum isentar Maria de Lurdes Rodrigues de todos os males que fez à escola pública e sobretudo aos professores. 

Acrescento: nunca tinham existido tantos suicídios de professores como no tempo negro que essa senhora nos fez passar. Nunca me poderei esquecer disso, nem do seu ar de freira, de discurso auto-vitimizador, do sarcasmo, do desprezo e da grosseria com que os seus secretários de estado zurziram publica e sistematicamente a classe docente, começando pela infame campanha de descredibilização da sua imagem junto da opinião pública e dos media. 

O pior modelo de avaliação de desempenho docente alguma vez imposto foi o da vigência de MLR. A ideia dos professores titulares e do respetivo e absurdo concurso, idem. Foi ela quem quis estratificar os professores numa cadeia hierárquica dentro da escola, comparando-os a generais e soldados, como na tropa, e como se a escola fosse um quartel. Foi ela quem instituiu o modelo de gestão concentrando poderes numa só pessoa, como se da administração de uma empresa se tratasse. Foi ela que começou por fechar escolas. Isabel Alçada continuou. Foi ela quem começou a falar em agrupamentos. Isabel Alçada continuou. Foi ela que começou por tentar esvaziar, em suma, toda a democraticidade interna das escolas. Quando chega Nuno Crato encontra já o terreno todo minado. Transforma os agrupamentos em mega-agrupamentos, aumenta o número de alunos por turma, congela para sempre as progressões na carreira, que as suas antecessoras tinham iniciado, e lança no desemprego milhares de professores. 

Manobras escusas como a requalificação, reintegração ou rescisão "amigável" não são mais do que formas de despedir pessoas, reduzindo ao mínimo os quadros e passando todos a "contratados sem termo fixo". 

Enfim, poderia continuar aqui a desfiar um rosário de males que estas pessoas vieram impondo ao ensino público e aos professores, sempre em nome de supostas "melhorias", aumento da qualidade na docência, diminuição do abandono escolar ou outras patranhas do género. 

Não sabe Cavaco quantas doenças profissionais estas pessoas causaram aos professores, desde depressões até suicídios, como nunca antes se tinham registado? 
Não sabe Cavaco que foi a partir do tremendo desrespeito com que Lurdes Rodrigues e seus acólitos trataram os docentes que aumentaram do forma exponencial agressões de alunos e pais a professores, de uma forma nunca vista neste país? 
Não sabe Cavaco que, mais do que nunca houve uma avaliação absurda e até inconstitucional, (como se veio a provar, sobre professores contratados, por exemplo), assim como despedimentos, erros concursais, atropelos e processos mais do que turvos na contratação de docentes, como nunca dantes se tinha visto? 
Não sabe Cavaco que foi durante a vigência de Lurdes e Crato, os seus medalhados, que mais professores tiveram de abandonar as suas famílias e as suas casas, para irem dar aulas a 200, 300 ou 400 km da sua residência? 
Não sabe Cavaco quantos casais Crato e Rodrigues ajudaram a separar ou divorciar, ou quantas crianças retiraram do colo das suas mães? 
Não sabe porventura Cavaco que durante a vigência de Crato e Rodrigues a indisciplina nas Escolas atingiu números e gravidade nunca dantes vistos em Portugal? Quantas pessoas Crato e Rodrigues obrigaram a ter de pagar para trabalhar, colocados de modo a que tivessem de pagar duas rendas, fazer face a consumos de gasolina e portagens impossíveis de aguentar? 
Não sabe Cavaco que muitos professores, não tendo emprego no sistema público, tiveram de entregar-se nas mãos de máfias de alguns colégios privados, onde são objeto de todo os tipos de escravatura, desde abusos dos horários, até situações de assédio moral e chantagens de todo o tipo? 

Não há dúvidas sobre os méritos deste dois medalhados sobre a vida das escolas e dos professores. Cavaco termina o seu mandato da pior maneira possível: legitimando e prestando honrarias à incompetência e à maldade. Parabéns ao Cavaco! Estas condecorações são bem o retrato de quem as atribuiu.

10/02/16

"O orçamento do Estado e a “circulatura” do quadrado"

no Público,
10 de Fevereiro de 2016

por Santana Castilho *

O orçamento do Estado e a “circulatura” do quadrado 

As 50 sombras que David Justino não tem


1. Para titular este artigo apropriei-me de um neologismo feliz que Bagão Félix criou, porque exprime bem o processo técnico (não teria sido melhor que António Costa o assumisse como político?) que nos trouxe ao orçamento de 2016. 
O plano macroeconómico do PS não contemplava o aumento de impostos. O aumento previsto era o dos rendimentos líquidos dos portugueses, designadamente por via da redução da TSU. Podíamos questionar a viabilidade de êxito da proposta, mas não podíamos deixar de lhe reconhecer coerência. Porém, essa coerência esfumou-se entre os acordos com a esquerda parlamentar e as negociações com Bruxelas, dando lugar a um caminho de fraco norte e forte risco. 

Os benefícios deste orçamento resumem-se à função pública e à restauração e são parcos para virar a página da austeridade, quando o aumento líquido da receita fiscal e contributiva ultrapassa os 2.600 milhões de euros. Este é um orçamento simplesmente menos servil, com execução no fio da navalha e sem dinheiro, como serão todos, não importa de que governo, enquanto não for reduzido o peso e o custo da dívida. Porque a “circulatura” do quadrado só se consegue no domínio da mistificação política. 

Todavia, devemos reconhecê-lo, António Costa venceu o dramatismo ridículo de certa comunicação social, o discurso caceteiro da direita, o teatro majestaticamente rasteiro da Comissão Europeia e conseguiu valorizar o Estado e os seus servidores e promover alguma justiça social, de que o fim das benesses fiscais aos fundos imobiliários em sede de IMI e a extensão da tarifa social da energia são os melhores exemplos. 

Se lhe concedo, portanto, um sinal débil de virar de página, quando chegamos à Educação a página vira para trás e a desilusão tem, para quem se iludiu, o exacto tamanho da ilusão. O orçamento para a Educação é pior que o último de Passos Coelho e Crato. Cai em 2016 cerca de 1,4%, menos 82 milhões de euros. O corte nominal para as diferentes actividades será ainda bem maior se considerarmos que do bolo geral sairá o aumento dos gastos salariais e sairá o aumento de 6% das dotações para o ensino particular e cooperativo (14,4 milhões de euros de compromissos assumidos pelo anterior governo). Neste quadro, que credibilidade atribuir à prometida universalidade do pré-escolar dos três aos cinco anos, à generalização (perniciosa) da Escola a Tempo Inteiro, ao reforço da Acção Social Escolar e aos programas de Educação e Formação de Adultos, Nacional de Promoção do Sucesso Escolar e de Desenvolvimento do Ensino Artístico Especializado? 

Para os desprevenidos torna-se agora claro o papel menor que a Educação representa para António Costa. A “circulatura” que concebeu assenta na alimentação de uma divisão que lhe serve: de um lado uma Direita arrogante, que muito fez em detrimento da Escola pública; do outro, uma Esquerda igualmente fanática, que acaba por comprometer, pela imprudência e pelo facilitismo dos métodos, o que diz querer promover. 

2. Se o Tribunal Constitucional declarou ilegal a Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades (PACC), resultam ilegais os impedimentos postos aos docentes contratados nos processos de candidatura nos anos lectivos de 2013-14 e 2014-15. Se esta constatação parece óbvia, já o mesmo não se dirá quanto ao modo de ressarcir os prejudicados. Com efeito, a reconstituição do que poderia ter acontecido não passa apenas por uma reconstrução de listas, com base em graduações profissionais. Suporia conhecer o que não chegou a ser manifestado, isto é, as preferências dos putativos candidatos, tarefa impossível. 

Quando uma panela de pressão é destapada sem o cuidado prévio de diminuir a pressão interior, o conteúdo pode saltar para a cara de inexperientes incautos. 

3. Sou amigo pessoal de David Justino e tenho por ele apreço e consideração intelectual. Com frequência, encontramo-nos e discutimos política e política de Educação. Se em matéria de tintos, que apreciamos em conjunto, jamais discordámos, divergimos abundantemente em temas políticos. Ele aprecia Eric Hanushek, eu não. Ele acredita que agrupar escolas foi solução, eu não. Ele aceita que a dimensão das turmas não importa, eu não. A lista daquilo em que discordamos é provavelmente mais extensa do que a lista daquilo em que estamos de acordo. Posto isto, permito-me agora responder à pergunta “Quantos Justinos há, afinal?” (“As 50 sombras de Justino”, Público de 26/1/16) formulada por Pedro José Pereira. Há um, cuja seriedade está bem acima de qualquer processo de intenções. O carácter obsessivo do romance, por alguns descrito como pornografia para mamãs, cujo título parece ter inspirado o articulista, poderá explicar a prosa rasteira. 

* Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt)

09/02/16

Europa

....roubado daqui, mapa e título e tudo: https://aventar.eu/2016/02/09/europa-3/ 

por Miguel Szymanski (autor convidado do Aventar)

Como europeu dos quatro costados (avô português + avó meia catalã meia alemã; avô austríaco de ascendência polaca + avó da comunidade alemã checa) esta Europa começa, outra vez, a meter-me medo. Claro que a Europa dos meus quatro costados já passou por pior. A minha avó paterna dizia-me que tinha mudado três vezes de país à força das armas sem sair da cidade onde nasceu (Pilsen/ actual República Checa). O meu avô paterno, médico, passou anos a trabalhar com serras de ossos num hospital militar em Viena. A minha outra avó tomava conta das crianças no jardim de casa com uma arma automática em cima da mesa, para se defender em caso de ataque, enquanto o meu avô comandava uma companhia de soldados famélicos.

A Europa já esteve pior. Depois formou-se como cartel industrial para carvão e aço e é sobre esse cartel que assentam as actuais instituições da UE. A democracia de Bruxelas é a de um grémio industrial pela batuta do seu sócio mais rico, Berlim.

Graças a essa federação, sob a supervisão dos EUA, a Europa ocidental deixou de fazer guerras dentro das suas fronteiras. Começou nos anos 50 a exportar os seus produtos como nunca antes. E a prosperar com as exportações. Carros, máquinas e armas. Muitas armas.

O cartel industrial da Europa começou a exportar miséria na forma de ferramentas para fazer guerras, carros blindados, tanques, explosivos, navios, aviões, submarinos, todo o tipo de armas de fogo, de minas e mísseis. Milhares de milhares de milhões de euros de dezenas de países arruinados entraram nos cofres da Europa nas últimas décadas. Agora essas exportações revelam-se como um tiro pela culatra em câmara lenta. As vítimas das guerras fogem aos milhões, do norte de África, Afeganistão, Iraque, Síria, e arriscam as suas vidas para se refugiarem na Europa.

E o que faz o cartel do carvão e do aço? O que fazem os burocratas de Bruxelas? Fazem cálculos aos rolos de arame farpado para proteger as suas fronteiras e desenham estratégias sobre como evitar o desembarque de miseráveis nas suas costas. Os europeus mais básicos, também aos milhões, descobrem o seu “patriotismo contra a islamização da Europa”. A globalização da miséria e da guerra ameaça agora a própria integridade da Europa.

A Europa terá que pagar a factura. Ou assume o primado dos direitos humanos ou usa bulldozers e armas contra os refugiados. Temo que os tão proclamados valores universais do Ocidente não passem de uma farsa. Hitler, Franco, Mussolini, Salazar e companhia foram ontem, os seu netos andam outra vez pelas ruas.

Não são esses os meus quatro costados.

08/02/16

repensarmo-nos é preciso! - memórias de infância

de Marc Chagall
Vivia em Viseu, numa casa que dividia um encantatório quintal com outras casas, uma coisa minúscula com uma parreira de videiras [e um baloiço!!! E um galinheiro!! E uma coelheira!! ], enfeitada de pereiras e macieiras e pessegueiros (um de cada, entenda-se...) e sobretudo abrunheiros (dois? - um, de ameixas brancas, outro de pretas...) em que passava as tardes-depois-da-escola encavalitada, quase sempre com um livro nas mãos, "Vais dar cabo dos olhos com tanta leitura, filha!", dizia-me a minha avó e eu que só ao lusco-fusco, desobediente, quando a luz escasseava definitivamente e se faziam horas de jantar, demandava a casa, a materna ou a dos avós.

Vivíamos todos por ali, e eu e os meus irmãos éramos o "ai-jesus" da vizinhança, as únicas crianças residentes nas casas que repartiam um quintal: a Rufininha e a irmã, costureiras, e as noites de um certo quarto de lua em que se ouviam os gritos, tão doce no resto do tempo, ela, a fazer-me vestidos para as bonecas que eu, mais dada a muros, mal-queria ... ; e a Amelinha e o senhor Pedro, o único casal que me faria acreditar em casamentos, já de meia-idade os dois, ele pai adoptivo de uma estória que só em sussuros, não interessa. Amava-os de paixão, aos dois, meu refúgio em fins-de-dia problemáticos até ao fim da adolescência, quando de lá saí e demandei Lisboa, tão virgem de tudo ...; e as senhoras costureiras, (a única profissão para além da da minha mãe?!) e eram umas 6 na casa grande e velha que fora dos meus avós e onde nasci, eu, elas e mais um irmão que só no fim dos dias se deixava ver, respeitável e ocupado empregado de uma loja de tecidos, único varão daquele grupo incasado, semeador de morangos e de afectos, elas. 
Um tanque enorme, comunitário, não estivesse ele sempre cheio de água ensaboada e daria uma bela de uma piscina. 
E havia um muro, fronteira e cenário das minhas aventuras, a infância formatada pelas séries dos 5 e dos 7, a Enid Blyton que os escrevia, e a personalidade, horrível, que lhe descobri por um filme, há pouco tempo, não há infâncias confiáveis! ...
E uma estória que me contou depois a minha mãe, eu criança de 2 ou 3 anos, roubando os morangos e as cenouras da terra em que os plantava a Amelinha, que, de brincadeira, se terá ido queixar dos meus verdes desvarios, e da reacção que tive, ao ser apanhada: - a Memé é má, é feia, olha, és me'da!! ... Pois ..... infâncias incompreendidas (repito, 2, 3 anos e a linguagem que mal-dominava, pois se nem merda com todas as letras.....) e as cenouras que re-enterrava, não estivessem ainda carnudas de terra ...

Ah, e claro!!!, naquele tempo da minha infância não havia televisão. (telemóveis então, ou internet, nem "in your wildest dreams"!). Os livros, meu entretenimento primeiro, ia-os buscar à biblioteca itinerante da Gulbenkian a Abraveses, uma aventura de viagens em camioneta aos arredores de Viseu, nós as duas, quase crianças e sozinhas, os molhos de 15 que líamos recomendados pelo senhor da carrinha - e era fantástico, como ele acompanhava e orientava as nossas leituras!, praticamente um livro por dia depois das aulas, eu e a minha irmã, um ano e meio separando-nos as idades, quase crianças, discutindo Os Meninos Terríveis do Cocteau ...

Quando apareceram as primeiras (televisões, pá!!), cheias de britagem e estremeços, a preto-e-branco, só nos cafés. Tempos depois também na casa dos avós, uma companhia para a velhice, ainda que quase sempre acompanhada-de-facto, as touradas tantas e o bom do cinema português da altura, os filmes de cowboys americanos e ... pasme-se!!, a música francesa. E o que o meu avô se ria apenas com a visão da cara do Aznavour, os seus dois AVCs infantilizantes, que na altura tinham até outro nome, não me lembro qual...!
Chegava da escola e entrava, a porta sem trancas, os tempos serenos, estremecidos, só, pelo menos no que ao social competia, de coscuvilhices, muitas, um ror delas, ai a mãe do Seara (esse mesmo! ...) sempre postada à janela do outro lado da rua Alexandre Herculano, controladora, "Para onde vai?", se saíamos, "De onde vem?", se entrávamos. 

Certo, certo, é que havia sempre alguém lá por casa: se não a minha mãe, os meus avós e as vizinhas com quem dividíamos o quintal. A minha mãe. A minha mãe professora, uma excepção relativamente às mulheres casadas da sua geração, maioritariamente donas de casa. E havia criadas a que, acho, não se pagava sequer salário, a "cama e mesa e roupa lavada" garantida, a fome que se matava das quase-crianças roubadas à aldeia, as famílias que, explicaram-me, pediam que as levassem, que as "criassem", daí o nome. E penso, como é possível?, Criadas com o ordenado de professora? Eu sem mesada nem semanada nem nada, os bolos que as minhas amigas compravam depois do liceu (no Horta ou no Santos) sem que as invejasse? E quem sabe, é por isso que não gosto de doces, ainda hoje? ... Como podíamos, nós, classe ... quê?, média-baixa? .....

Era o meu avô que tinha dinheiro, a minha mãe professora primária e ganhando uma miséria, ainda assim tendo que mentir para casar, o meu pai ainda mais mal pago do que ela, e o Salazar que controlava estes devaneios e protegia os seus funcionários! Tempos de FNAT, quem se lembra? Pois, o meu avô, e não se ponham já a pensar em fidalguias, nada disso! O meu avô, filho ilegítimo de pai "incógnito" (oh, sim, esses "maravilhosos" tempos do fascismo, agora meio-branqueados!) O meu avô materno, que o paterno nunca cheguei a conhecer, a ida para aquela miragem africana e a mulher abandonada, o filho tão pequeno que só por retratos lhe sabia a memória e bem afectado se (des)encontrou, vida fora ... Será que te deste conta, tu, do mal que fizeste? Do que a tua ausência sem notícias provocou, em ondas que me atingiram, tantos anos depois?

O meu avô-materno, então, o que nos sustentou a todos, filhas, netos. Que abraçou a carreira militar que lhe proporcionou estudos. Que chegou a tenente, coisa pouca, ainda assim extraordinária. Que, nascido paupérrimo, venceu na vida fazendo várias comissões em Moçambique, essa Ilha ilusória que a minha mãe havia de demandar muitos anos depois, procurando hipotéticos irmãos. (mãe, como pudeste tu, entre todas as outras - admitir, desculpar....?!) O meu avô que amealhou poupanças e abriu uma loja de materiais de construção, fonte do nosso estar-assossegado. O meu avô alicerçado naquela mulher dura e "direita" e rija, a sub-condição assumida mas ainda assim, os sorrisos de que não me lembro, nem uma vez. A minha avó-presente, o cabelo tão forte que partia pentes em vãs tentativas de domá-lo. A minha avó que sofria da asma que herdei apenas eu, os ataques que abrandavam quando o marido, noites de horas tardias, voltava a casa.

Único devaneio "despesista" dos dois, velhinhos ambos, a tal televisão. Morreram com diferença de um ano, aos setenta e poucos, acompanhados, a filha e o genro e os netos e os vizinhos, tantos, solidários, presentes, o quintal que os unia.
As tardes de 'bisca' com ele e contigo, irmão-agora-imigrado.
A morte. Assistidos, os dois, nem imaginário de lares, o que fosse, a família, várias gerações partilhando a vida, ali, naquela casa que dividia um quintal ...

Hoje. Famílias dispersas. Crianças sozinhas, velhos sozinhos. Em vida, na morte, descartados, todos...
........ e segue para novo post, brevemente  .....

01/02/16

a força transgressora de Julio Cortázar

uma reposição de um post colocado no blogue da biblioteca da ESAG, em 2008 .....

Julio Cortázar, escritor e intelectual argentino (1914-1984) é considerado um dos autores mais inovadores e originais do seu tempo», lê-se na informação sobre o autor constante do livro recém-editado em Portugal, 'O Jogo do Mundo' (Rayuela), da cavalo de ferro.

Pois eu (que até leio umas coisas..) não conheço ninguém mais original, mais ousado, mais transgressor dos cânones académicos que enformam (espartilham?) a criação literária. Dir-se-ia, pelo que dele conheço e que se resume a um livro, Rayuela (e perdoar-me-ão a blasfémia ..) uma esquizofrenia intelectual, uma construção narrativa eivada de um lsdismo tão indissociável desses gloriosos anos 60 do século passado..

tenho de esclarecer que adorei conhecer este autor. que deste seu romance que são dois, li tudo, incluindo os 'capítulos dispensáveis'. que me deslumbrou, precisamente, isso a que chamo 'esquizofrenia'. que não parei de me surpreender com a ousadia deste homem, com as impensáveis transgressões, capítulo a capítulo. só mesmo alguém muito consciente da sua genialidade. alguém muito louco, e é um elogio. alguém com um sentido de humor único. alguém que ama tanto a literatura, que com ela se entretém em permanentes - quase eróticos - jogos recreativos. alguém a quem não importa um mínimo (a palavra ideal ñ seria esta, mas não vou ferir susceptibilidades..) a opinião dos outros (e é, novamente, um elogio). alguém no limiar da vida, e da morte, e de tudo.


exemplos de transgressões presentes no romance 'O Jogo do Mundo' / Rayuela :
1.
«Julio Cortázar, escritor e intelectual argentino, é considerado
tenho de esclarecer que adorei conhecer este autor.
um dos autores mais inovadores e originais do seu tempo»
que deste seu romance que são dois, li tudo.
2.
não parei de me surpreender com a housadia deste homem, com as himpensáveis transgressões
3.
tenho de esklarecer ke adorei konhecer este autor. ke deste seu romance ke são dois, li tudo
4.
as inhpençáveis trãsgreçõins, capitllo a capitlo. só mesmo alguenhe muito conssiente da sua xeniali dá-de


perplexos? qq dúvida, é só deixarem um comentário! :-)
....................................................................
de rayuela = jogo da macaca = jogo da amarelinha = o jogo do mundo: também aqui

postado por ana lima 
no 'ESAGBIB' (Dez. 2008)
................. 
(...) há muito mais para além de um pequeno capítulo com 2 histórias contadas em linhas alternadas, alguns parágrafos em que palavras improváveis começam por 'h' ou por 'k', uma ou outra passagem com palavras 'revestidas' (vestidas de novo?!), com erros ortográficos, o que se queira..
Há transgressões também na organização dos capítulos, na mistura surpreendente de linguagem, como há, poesia da melhor e outra à beira da náusea, uma enorme sensibilidade, uma dureza que magoa, filosofia estonteante, uma erudição rara.
só sei que me senti transportada para o espírito dos anos 60 e da sua magia (aqui foram os 70). E vieram-me à memória os ciclos de cinema do Bergman, do Godard .. e as tertúlias depois, as análises mirabolantes..
AL,
19/12/2008 

------------------------- e ainda ------------------------------------

32 frases y extractos de "Rayuela" de Julio Cortázar

28/01/16

Vergílio Ferreira, centenário

Vergílio Ferreira nasceu num 28 de Janeiro, faz hoje cem anos

«Pela primeira vez eu tinha o alarme dessa viva realidade que era eu, desse ser vivo que até então vivera comigo na absoluta indiferença de apenas ser e em que agora descobria qualquer coisa mais, que me excedia e me metia medo. Quantas vezes mais tarde eu repetiria a experiência no desejo de fixar essa aparição fulminante de mim a mim próprio, essa entidade misteriosa que eu era e agora absolutamente se me anunciava.»
Vergílio Ferreira, in Aparição


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Vergílio Ferreira 
(1916-1997) 

Vergílio Ferreira iniciou a sua actividade literária na década de quarenta do século XX. 

Seduzido pela força do neorealismo, sofrerá uma sensível mudança que o tornou marginal à ideologia marxista, mas que o afastará também do catolicismo. O que essencialmente o fez mudar, como ele próprio escreveu, não foi a aspiração ao humanismo e à justiça, mas um conceito prático de justiça e de humanismo, pois que se os modos de concretização de um sonho podem sofrer correcção, não o sofreu neste caso, a aspiração que visava concretizar. Transparecia seguramente nesta mudança. 

O que seja esse equilíbrio ele no-lo diz, remetendo-o para o insondável e incognoscível de nós, um substrato gerado ao longo dos infinitos acidentes, encontros e desencontros e que nos surge como anterioridade radical às nossas escolhas e opções. Por isso "o impensável e o indiscutível subjaz a todo o pensar, e para lá dele, ao sentir", sendo sobre esse impensável que se nos organiza a harmonia do pensar, que ulteriormente tentamos explicar ou demonstrar com a disciplina da razão. Este é um dos temas mais recorrentes no pensamento de VF, a que já se referira na sua mais importante obra filosófica, a Invocação ao meu Corpo, ao considerar que "há duas zonas no homem que são a das origens e a da concretização, a do indizível e a do dizível, a do absoluto e a da redutibilidade". 

Daí a relevância do tema da "aparição", consentânea com a revelação momentânea de uma verdade que em nós se pode gerar lentamente, mas cujo momento culminante tem quase sempre o instantâneo da estrada de Damasco e a dimensão fulgurante do mistério. "O mistério e o seu alarme são o tecido de tudo", dirá em Carta ao Futuro (1957). 

Daí também o estatuto da arte, ao longo de toda a sua obra: o mundo da arte é o mundo da aparição, o mundo inicial. A arte será, como disse, "o arauto do impensável, ou o lugar onde se lhe vê a face, cabendo ao filósofo explicitá-la em pensamento", ou, noutra afirmação não menos explícita: "a arte inscreve no coração do homem o que a vida lhe revelou sem ele saber como, e o filósofo transpõe a notícia ao cérebro, na obsessiva e doce mania de querer ter razão", repetindo aqui uma ideia que sempre lhe foi cara: a de que a filosofia é um pobre sobejo do milagre da arte, e vem depois, já tarde, "como os corvos ao cadáver", pois que, como escreveu em Invocação ao meu Corpo, "todo o pensar é póstumo ao que se é, à aparição da verdade essencial, da revelação do originário. Por isso é que a filosofia é uma aventura perene como a arte. Cada filósofo recupera esse espanto inicial, de interrogação suspensa, degradando-a em pergunta quando lhe reponde com razões", deixando patente que a degradação a que se refere se reporta a uma filosofia de matriz racionalista. 

A arte não interpreta, revela; não explica, mostra o lado oculto do homem, por isso, em arte, saber é comover-se. Já em Espaço do Invisível III afirmara a mesma tese, em justificação do título: "mas se em todo o horizonte está presente um horizonte que o margina, até um horizonte final, se na mais breve palavra está o aviso do insondável, se o espaço do invisível se anuncia no do visível, é na obra de arte que mais presente e visível se nos revela o invisível". 

Em todo o caso, dando corpo a um pensamento de base existencialista, emerge o primado do sentir, "o essencial não é para se pensar mas para se sentir", que nos diz que "a verdade é amor", pelo que é a verdade emotiva a primeira e a última que nos liga ao mundo. 

Daí também um dos seus temas preferidos, o das "verdades de sangue": um autor que se admira mas que se não ama, "vai para o lado de nós, onde o sangue não circula ou é uma aguadilha", ou, como dirá em Do Mundo Original, "uma verdade só interfere na vida quando o sangue a reconhece", pelo que uma razão ajuda, mas não decide uma receptividade. 

E daí de novo a arte, inclusive a arte que lhe coube, que foi a da escrita, a do romance lírico, onde as coisas adquirem a sua essencialidade, a sua verdade emotiva, tornando visível o mistério. 

Mistério e espanto perante o estremecimento íntimo das coisas em nós. Aí a raíz da atitude lírica que integrará na sua actividade romanesca, fazendo do romance o lugar de cruzamento entre o lirismo e a reflexão filosófica de vertente existencial, na convicção, por si afirmada, de poder perfeitamente escoar em prosa a poesia que lhe coube, e com a preocupação acrescida de teorizar em ensaios múltiplos - apesar das suas invectivas contra a pobreza da razão - as questões apresentadas ficcional e literariamente. 

Todavia, o cântico ao homem é à sua irredutibilidade individual que tanto o afastou do estruturalismo e nele via a morte do homem, o cântico ao homem que assistiu à morte de Deus, tragicamente vivida em Manhã Submersa, e se colocou no seu altar com a força iluminadora que de si próprio descobriu irradiar, coexiste com a amarga experiência da desagregação dos valores artísticos, sociais, históricos e ideológicos. Entre todos, a morte da arte é a que assume a dimensão mais trágica, uma morte que é autodestruição, e que justifica muita da frieza que empresta aos seus últimos romances, nomeadamente em Para Sempre. 

Ao tema regressará em Pensar, numa comparação singela do aldeão que sempre foi: "Dar um sentido à vida. Para lho darem aos domingos, quando não trabalham, os campónios da aldeia embebedam-se e dão-se facadas. A arte do nosso tempo sabe-o e faz o mesmo". Entre os quatro grandes mitos modernos, Acção, Erotismo, Arte e Deus, foi a morte da Arte que mais o ocupou, a par da morte de Deus. A arte moderna esquecera o "mundo original", autonomizara as formas e divorciara-se do homem? 

Em todo o caso, o tema essencial de toda a sua obra foi certamente o da procura do sentido da existência num universo sem sentido, fazendo-o navegar no que Eduardo Lourenço chamou um "niilismo criador" e um "humanismo trágico", explorando até à exaustão o tema do "eu", ao mesmo tempo eterno e inscrito na finitude, a mesma finitude que o embrenha na temática da morte, num homem que heroicamente, e também angustiadamente, suporta o desafio da finitude. 

"Tenho a corrupção lenta do tempo, tenho a eternidade a executar". Eis, numa breve expressão de Rápida a Sombra, a dimensão trágica do seu pensar, onde se desenrola uma intensa reflexão sobre o corpo e a morte. Há em todo o homem são um impulso para um mais daquilo que se é no presente, e que jamais se alcança, ou que se sabe jamais poder alcançar-se ("um apelo ao máximo" que vem do máximo que o homem é), num processo infindo a que só o absurdo da morte põe termo: "Na profundidade de nós, o nosso eu é eterno, e todavia é justamente o corpo que nos contesta a eternidade". Todavia, em Invocação ao meu corpo, VF pretendeu divinizar o corpo, naquele sentido em que o "homem é espírito e corpo", e por isso realiza o espírito no corpo ou é corpo espiritualizado, estando todo o homem nele "como um Deus panteista". 

No entanto, novo conflito deflagra entre essa exaltação divinatória, e a consciência trágica da sua corruptibilidade e da sua objectiva degradação, lançando o homem na angustiante consciência da sua "infinitude limitada", e ao mesmo tempo no plano heróico de saber que a morte o espera, devendo viver "como se ela não contasse", ou, como escreveu em Nítido Nulo: "viver a eternidade e, num momento de distracção, cortarem-la rente". 

Pedro Calafate


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Rumor de uma polémica

no Público
06/12/2012
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Poucas polémicas na história da literatura portuguesa terão ficado tão célebres como a que opôs Vergílio Ferreira a Alexandre Pinheiro Torres nas páginas do Jornal de Letras e Artes, no começo de 1963, a propósito da publicação, no final do ano anterior, de Rumor Branco, o romance de estreia de Almeida Faria (n. 1943), então com 19 anos. Para assinalar o cinquentenário da primeira edição, a editora Assírio & Alvim acaba de reeditar o livro, acrescentado dos textos dessa polémica: uma troca de argumentos que, entre réplicas e tréplicas, discute acesamente a filiação de Almeida Faria à luz da grande divisão entre existencialistas e neo-realistas.
(...)

«Assim também eu»

Visão, 28.01.2016, p.98

clicar na imagem para ampliar:  


imagem trazida daqui, com sublinhados:
http://entreostextosdamemoria.blogspot.pt/2016/01/visao-28012016-p98.html

27/01/16

Então, que tal?

no Público
27 de Janeiro de 2014

por Santana Castilho *

1. Dois meses corridos sobre a entrada em funções do novo Governo, considerando todos os anúncios de mudança e o que já foi mudado, venho perguntar aos professores de sala- de-aula: então, que tal? 

Da última vez que os contei, eram 11 os documentos, com 18 itens de referência obrigatória, que uma simples reunião de turma de final de período gerava. Há sinais de alívio desta burocracia gratuita? As esferográficas continuam a ser compradas através de concursos públicos centralizados, via plataforma informática? Em tempos de reversão, fala-se por aí que cada escola vai voltar a ser escola? Ou está tudo sereno, na molhada do agrupamento? Já discutem um novo modelo de gestão, que traga democraticidade à coisa, ou estão bem sob o jugo de vários pequeninos ditadores? O vosso quadro de pessoal está em vias de ter uma dimensão adequada às necessidades? Já perceberam como a vossa carga desumana de trabalho não remunerado vai ser aliviada? Já reorganizaram as vossas vidas para responderem zelosamente ao acréscimo de provas a corrigir com a ressurreição das provas de aferição? Já trabalham para definir que recursos e que meios a vossa escola vai ter para combater as dificuldades dos alunos? Já decidiram algo sobre a reversão das aulas de 90 minutos? Embora já habituado, notei que há poucos dias (Escola Secundária Jorge Peixinho, no Montijo) um colega nosso levou um valente murro de um aluno, em plena sala de aula. Pergunto-vos se já notaram indícios de que algo vai mudar em matéria de disciplina. Fala-se por aí em tornar público o crime de agressão a um professor? Ou está tudo tranquilo e a indisciplina é coisa que não vos aflige? Serviços de orientação escolar, vocacional ou tutorial? Diz-se algo? Sobre o que se seguirá ao fim do vocacional em idade precoce, consta algo? Necessidades educativas especiais, minorias étnicas, culturais e religiosas? Fala-se disso? Têm corrido bem as reuniões com os sindicatos para alterar o estatuto da carreira docente? 

Desculpem! Reli isto, um décimo do que gostaria de vos perguntar, e reconheço a minha inconveniência: que importam estas minudências se os exames acabaram? 


2. O fim da denominada Bolsa de Contratação de Escola (BCE), instrumento que permitia que escolas com contratos de autonomia ou integrantes dos Territórios Educativos de Intervenção Prioritária (TEIP) fixassem critérios próprios para contratar professores, é uma medida positiva, por pôr fim a uma roleta-russa absurda, geradora de processos tresloucados, que vitimaram milhares de professores. 

Mas a morosidade na colocação (21 dias em média por cada docente) numa burocracia inaudita, balizada por 2,3 milhões de candidaturas a 7573 concursos no presente ano, sendo relevante, não é argumento primeiro. Mas foi o que o ministro invocou. 

Tão-pouco me parece aceitável insistir em reivindicar poder para fixar critérios próprios, por isso fazer parte dos contratos de autonomia. Mas foi o que invocaram o presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares e o presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas. 

Termos em que parece pertinente recordar que o argumento primeiro é o que o artigo 47º da Constituição da República Portuguesa fixa, quando determina que “todos os cidadãos têm direito de acesso à função pública, em condições de igualdade e liberdade”. Com efeito, o carácter universal deste direito de acesso foi denegado a milhares de professores, por via de 1149 páginas de critérios imbecis e grotescos, definidos para só servirem a alguns. E porque o momento é próprio e o tempo é novo, recorde-se, ainda, toda a jurisprudência do Tribunal de Justiça da União Europeia, relativa à directiva 1999/70/CE, que aponta numa só direcção, legal e justa: vinculação aos quadros de todos os professores que, desde 2001, sejam titulares de mais de três contratos anuais sucessivos. 


3. A DBRS, a agência de notação financeira que tem sido generosa com a dívida do Estado português, deu sinais de impaciência (leia-se de profundo desagrado) com a pulverização sem critério dos créditos de alguns credores seniores do Novo Banco. Se daí resultar um abaixamento do rating (leia-se o débil elo que nos liga à protecção do BCE) será com um ruidoso “paf!” que explodirá a nossa reputação, já em queda nos mercados, sem que qualquer coligação nos acuda e a António Costa. É que, por muito que não gostemos deles (e eu não gosto), os mercados existem e sem os tomar em conta o esboço de orçamento não passará de um esboço de desgraça. É que tomar de assalto o Rato e driblar Seguro foi fácil. Fintar o resto para chegar a São Bento requereu engenho e arte. Mas para conseguir ultrapassar a ortodoxia financeira de Bruxelas e garantir as migalhas que o esboço distribui, não chega o sorriso crónico de Centeno. Bendito seja Costa se vier a ter razão para me chamar Velho do Restelo! 

* Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt)

24/01/16

La Liberté pour quoi faire ?

La Liberté pour quoi faire ? Ou la Proclamation aux Imbéciles

«On ne comprend absolument rien à la civilisation moderne si l’on n’admet pas tout d’abord qu’elle est une conspiration universelle contre toute espèce de vie intérieure. » Georges Bernanos ( La Liberté, pour quoi faire ? et La France contre les robots furent écrits au sortir de la Seconde Guerre mondiale.)
George Bernanos y dénonce, dans une langue poétique et virulente, le chemin pris par la civilisation occidentale vers une soi-disant modernité où la finance devient reine, et le progrès rend les humains « imbéciles ». Ecrasés par des rouages absurdes, comment peuvent-ils encore défendre leur dignité, leur intégrité et leur liberté ? Evoluant dans un décor de fête finissante, les deux comédiens transmettent avec force ces textes visionnaires.

teaser de "La liberté pour quoi faire"
d'après les textes de Georges Bernanos

da liberdade ...


Proj-logo

Arquivo Pessoa

OBRA ÉDITA · FACSIMILE · INFO
pdf
Fernando Pessoa

Para que serve a liberdade às plebes?

Para que serve a liberdade às plebes? Para que lhes serve, supondo, de resto, que elas a possam obter e usar dela?

As plebes são, por sua natureza, aquela parte da sociedade sobre quem incide, quer por divisão social, como a escravatura, quer por compulsão económica, o trabalho manual ou com ele relacionado, o trabalho do artífice. A que serve ao artífice a liberdade? O que [é] à plebe devido não é a liberdade, é a ausência de opressão, que é devida a todos, e o seu direito natural de homens. É esse o direito do homem; esse, e não a liberdade. A que se reduz esse direito? O de não haver mais ingerência na vida das plebes do que a natural; e a natural é a sua condição definida de escravos no tempo da escravatura; e a sua condição económica de compelidos ao trabalho quotidiano e manual, no tempo da chamada concorrência (da concorrência universal).

Para que serve qualquer das fórmulas de liberdade à plebe? Para que lhe serve a liberdade de pensamento? De que serve a liberdade de pensamento a quem, por sua condição social, não pode pensar? De resto, é essa uma liberdade que se lhes pode conceder até certo ponto.

Que haja uma liberdade que permita ao escravo contemporâneo a sua libertação, que modernamente cada qual faz por si próprio, e não por concessão de um dono — isso é justo. Ao homem da plebe compete a liberdade da oportunidade, mas uma liberdade apertada, restrita, para que só os deveras dignos dela possam passar-lhe pelas malhas.

Outra coisa é a liberdade de pensamento, aplicada aos que podem usar dela. Como, porém, fazer a distinção?

1917?
Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1996.
 - 259.

23/01/16

da abstenção

Sei ... há quem não vote como forma de protesto. Pergunto-me apenas o que têm conseguido com essa opção ...
E há quem não vote porque não pode ...

Mas a maioria dos que se abstêm não vota, porque não quer saber. Porque é tão "avesso a políticas"! São os patetas-alegres sempre tão a leste de tudo, que se queixam do desemprego e não percebem que isso é política; dos magros salários, e isso é política; dos recibos-verdes; da precariedade; do preço do pão e da gasolina e dos livros dos filhos, das propinas, da vida sem alternativas em casa dos pais; das magras pensões e do custo da electricidade, dos transportes que mal-funcionam, das horas de espera nas urgências dos hospitais e ISSO, TUDO ISSO, É POLÍTICA!

Mas pronto ..... deixem-se ficar bem esparramadinhos no sofá, não votem! Mas, depois, FAÇAM O FAVOR DE NÃO SE QUEIXAREM!

20/01/16

Nuno Teotónio Pereira, R.I.P.

Prisão, tortura, fé, amor e arte: 

a vida preenchida de Nuno Teotónio Pereira


do DN-Artes: Nuno Teotónio Pereira fotografado em 1989

José Pedro Castanheira, Cândida Santos Silva (texto)

20.01.2016 no Expresso, http://expresso.sapo.pt/sociedade/2016-01-20-Prisao-tortura-fe-amor-e-arte-a-vida-preenchida-de-Nuno-Teotonio-Pereira 

Era um nome incontornável na resistência católica à ditadura e um dos arquitetos mais distinguidos do país. Nuno Teotónio Pereira só deixou de trabalhar no ateliê em 2008, quando um glaucoma lhe fechou os dois olhos em menos de uma semana. Oriundo de uma família monárquica e salazarista, evoluiu para o catolicismo progressista e, mais tarde, para o socialismo radical, antes de aderir ao PS do amigo Ferro Rodrigues. Depois de cegar, deu uma longa entrevista ao Expresso, saída em fevereiro de 2015 e que agora se republica. Nuno Teotónio Pereira morreu esta quarta-feira - faria 94 anos a 30 de janeiro

- A sua primeira experiência política foi aos 14 anos, na guerra civil de Espanha, no apoio a Franco... 

- É verdade. Integrei um comboio de camiões que levou géneros (farinha, arroz, etc.) para os nacionalistas do exército de Franco. Fomos até Sevilha, onde ficámos alojados em casa de aristocratas. 

- Foi a primeira vez que saiu de Portugal? 

- Sim. Voltei a Espanha ainda durante a guerra civil, quando o meu tio Pedro, que gostava muito de mim, foi nomeado por Salazar agente especial junto do Governo do Franco, em Burgos. Ele tinha um filho, o Pedrinho (mais novo que eu), e como achava que eu era uma boa companhia convidou-me várias vezes para ir ter com ele a Espanha. O corpo diplomático costumava passar as férias em San Sebastián, e em 1938 fomos os dois no Sud Express até lá. O meu tio recebeu um telefonema da frente da Catalunha, na altura da batalha do Ebro - a última grande contraofensiva do exército republicano -, a dizer que tinham morrido dois oficiais portugueses que se haviam oferecido como voluntários para integrar os Viriatos. Fomos de carro até Saragoça e depois ele seguiu para Portugal, para as cerimónias fúnebres. Voltei em 1940, na altura da ofensiva do Hitler sobre a França. Em Bordéus estava o cônsul Aristides de Sousa Mendes e havia muitos refugiados a passar a fronteira. O exército alemão já tinha chegado aos Pirenéus, e tenho fotografias de soldados fardados a passear ao domingo em San Sebastián como turistas.

17/01/16

a escola por quem a vive

Mãos - Teresa Dias Coelho
______________  dos exames e das provas-de-aferição:

Para começar e como esclarecimento prévio, sou - basicamente - contra todos os exames até ao fim da escolaridade obrigatória - que agora (lembram-se? Sabem?) é até ao 12.º ano. E escusam de me vir com a treta da exigência, que sei bem do que falo! Os exames não a aumentam em nada!! Apenas a disciplinam, em ditames orientadores do que privilegiar (em detrimento de outros saberes e outras capacidades, quiçá até mais relevantes, na formação de um ser humano.....)

E celebro o fim dos exames no 4º ano! E celebrar-lhe-ei a extinção, se for aprovada, no fim do 9º!

E .... pois .... sou de um tempo em que NÃO SE FAZIAM EXAMES, a não ser no fim do 1º ciclo: de 4ª classe e de admissão aos liceus. É .... pois .... impensável, não? No tempo do Estado-Novo, podia-se dispensar dos exames consoante a nota de frequência. E, lamento dizê-lo, agora, CONFIAVA-SE NOS PROFESSORES, assim eles trabalhassem numa escola pública!

O que eu acho que devia ser revisto - urgentíssimamente!! - e há anos que venho clamando contra isto!!, são as CONDIÇÕES DE TRANSIÇÃO dos alunos, que, na prática, podem chegar ao fim da sua escolaridade obrigatória tendo reprovado, sempre, às mesmas duas disciplinas! Não vos parece isto aberrante? Inaceitável? Pois é, senhor ministro, imagine um professor, digamos de inglês (o meu caso), com uma turma do 10.º ano (em princípio, nível 5 de língua estrangeira), em que metade dos alunos não percebem uma palavra de inglês ... Com um programa para cumprir .... Que tal?? No secundário, em que é preciso aprovar a cada disciplina ... Não o afligem estas circunstâncias? Não acha que, nestes casos, seria urgente-íssimo um apoio extra, para os referidos alunos? Pois ..... e .... zero de medidas? Zero de alterações à lei?!!! Não é o senhor "radicalmente a favor do sucesso dos alunos? E afinal, isso, não passa de tretas, como é costume???

E passemos às provas de aferição. Que lindo! Que politicamente correcto, isso do "Acompanhar o desenvolvimento do currículo, nas diferentes áreas.+ Fornecer informações detalhadas à escola, aos professores, aos encarregados de educação e aos alunos sobre o desempenho destes." (do 'comunicado' deste ministro-a-leste....). Pois ....
Já as fiz e já as corrigi. Mais uma vez, sei do que falo: as provas de aferição só servem para dar trabalho acrescido aos professores. E não há retorno, qualquer indicação do que tem de mudar, visando as aprendizagens (efectivas) dos alunos. Os senhores que tudo decidem espero que saibam: há testes nas escolas (diagnóstico, formativos e sumativos. Anyone there .... ? Ministério da Educação....??? Saberão os senhores e as senhoras que a pergunta mais ouvida, em sala de aula, é: "Isto sai no teste?" "Isto conta p'ra nota?" Pois. Pois ...... as provas de aferição não. Não contam. Basicamente, para nada. E os nossos alunos, habituados que estão a imediatismos de iphones e quejandos, acabam por ter um sentido prático que a nós, professores, nos exaspera, e a vós, governantes, não devia passar despercebido! "Não conta p'ra nota" = não interessa; = ninguém leva a sério. 

CONFIEM NOS PROFESSORES, PORRA! Confiem nas suas avaliações, nas notas dos testes a que sujeitam os seus alunos!!! E, repito, diagnóstico, formativos e sumativos --- não chega de testagens? Que mais querem???
Caso para retomar a máxima do outro: DEIXEM-NOS TRABALHAR!!!
A direcção da escola, seja ela democraticamente eleita, sabe dos nossos erros, dos nossos "conseguimentos"! Que sejam eles, mais os nossos pares mais capazes e mais experientes, a corrigir o que tem de ser corrigido!!
Devolvam-nos a paz-de-espírito e a vontade de trabalhar!!

Alô Fenprof .......?

_____________a ver se nos entendemos:

preponderante e absolutamente condicionador das aprendizagens dos alunos não é o "bom estado" dos seus professores? O físico e o psíquico? ----- Rebatam lá isto, se puderem!
de Luís Dourdil, Abraço

Mais: o flagelo (mais flagelante) das escolas, desde há muito, não é a INDISCIPLINA dos alunos? E .... não acham que isso está relacionadíssimo com a concepção social do estatuto do professor? Que a dona Milú arrasou com todo o prazer sádico e de ódio à classe docente que enfermou o seu mandato? Panorama que o Rato agravou, com toda a insensibilidade e a prepotência que o caracterizam?

Pois então: desde (pelo menos e muito acentuadamente) Maria de Lurdes Rodrigues, os professores têm descido aos infernos: carreiras congeladas, salários diminuídos e horários de trabalho insanamente aumentados, a permanência na escola elevada a níveis kafkianos!! (Sim, que toda a gente, se não sabe, devia saber que a maioria do trabalho de um professor se realiza em casa ....)
Isto, para não falar da relevância que se lhes negou, por exemplo, com a escolha do senhor director (ideia da bendita-sinistra ...), a eficaz gestão democrática descartada em nome vá-se lá saber de quê, os tristes "mandantes" conselhos gerais - instituídos "com o objectivo de reforçar a participação das famí­lias e das comunidades", como se isto fosse prática democrática corrente neste país!!
Isto, para não falar desse atentado anti-democrático que são os mega-agrupamentos de escolas, medida economicista e matadora de qualquer humanismo! FIM, absolutamente! IMEDIATAMENTE!!!
E os professores calam-se! E os sindicatos calam-se! (ou rejubilam, que é pior!!)

Pois ...... fosse eu ministra da educação, e a primeira coisa que teria feito seria REVOGAR O ECD (Estatuto da Carreira Docente, para quem não saiba) IMPOSTO - e tão contestado na altura!!! - por essa megera desalmada e sádica que dá pelo nome de MLR!

Primeiro, repunha a gestão democrática nas escolas: os Conselhos Directivos eleitos por professores - obviamente!!

Depois, acabava com a indefinível componente não-lectiva, tão dependente do número de turmas e do tipo de disciplina leccionada!

Acabava, também, (-aplausos!!) com a delirante BCE (bolsa de contratação de escolas) e a aberrante PACC (prova de avaliação de conhecimentos e ... capacidades (???!!!). A avaliação dos professores é necessária, como necessária é uma formação sólida, pedagógica e cientificamente, e que reformas urgentes haveria a fazer aí!, as saudosas e conceituadas Escolas do Magistério Primário e as licenciaturas pré-Bolonha!!

E aumentava os salários dos professores. E descongelava-lhes as carreiras - obviamente!!!

E ..... mais umas quantas medidas (fáceis, fáceis, urgentes e eficazes), a que haverei de voltar quando me apeteça desgastar-me ...
Alô Fenprof .......?

15/01/16

esvivecer MLR???



Sei .... o governo, o ministro da educação, estão em estado de graça no que às opiniões dos meus amigos-de-esquerda concerne. 
Isto dito .... serei eu a única a estranhar esta unanimidade, este silêncio dos professores?!! Ora digam-me, amigos: isto que, até agora, foi desfeito/alterado corresponde às vossas mais fundas aspirações? (BCE, óptimo; PACC, a ver vamos ...). 


Eu (que saí do inferno, penalizada como convém...) tenho, da leccionação, a memória dorida do que de maquiavélico me fez o ECD imposto por Maria de Lurdes Rodrigues, de má (muito, muito má!!!) memória. E, já sei, monsieur Crato foi pior, mil vezes pior. Mas ..... a coincidência ...... até do apelido ..... não?

Cá para nós .... Não vos incomoda - nada?!!! - por exemplo, continuarem com esse horário sobrecarregadíssimo de horas passadas na escola - a fazer .... um monte de tretas?!!!

Não acham que o novo ministro, a querer fazer, precisamente, "novo", já vos devia ter, ao menos prometido ..... rever aquela história aberrante da componente não-lectiva? É que nem orçamento rectificativo exigiria .... nem alterações de .... nada! ... Não vos preocupa esta ausência de propostas, colegas??!!Não vos merece uma reflexão que seja?!

Quer dizer ..... as vossas condições de trabalho ..... alteraram-se? Para melhor? Pois ..... digam qualquer coisa, não? Uma sugestão? Um pedido de desculpas pelo despautério dos DOIS últimos (2, sim!!!!!) ministros da Educação que vos couberam em sorte??? Assim ..... pelo aviltamento e descredibilização da classe, por exemplo? Tão potenciadora da indisciplina que vos aflige? ....... Não? ..... Nada?!!! ...
Os agrupamentos de escolas!!!! Essa mega-imbecilidade, redutora, apenas, do número de secretarias, e tão, mas tão potenciadora de anonimatos e distâncias, de indisciplina mais uma vez, decorrente e recorrente, tão anti proximidade professores/alunos/gestão, tão destruidora de tudo?
E .... não acham preocupante que uma dos 2 secretários e estado desse Tiago B. R. aparentemente tão bem quisto, tão .... inatacável ... seja, precisamente, tão estranha e convenientemente, um braço-direito da dita sinistra-ministra?!!!

E nada disto vos faz espécie????!!!
Pois .... pela parte que me toca, estou habituada(-íssima!) a sentir que luto sozinha contra o mundo! E .... haja!!!!!! -  já nada disto me afecta, por isso ..... bom-proveito e continuem caladinhos!
Then again .....

Ou ainda assim, professores, ....... nada ...???!!! Reivindicações ..... zero???!!!

13/01/16

O admirável novo tempo da Educação

no Público
13 de Janeiro de 2015

por Santana Castilho*

Ao divulgar o “Modelo Integrado de Avaliação Externa das Aprendizagens no Ensino Básico”, o ministro da Educação deu o seu contributo para a balbúrdia em que se transformou o “novo tempo” em matéria de Educação. Desmentiu a resposta que, na AR, António Costa havia dado a Paulo Portas, sobre os exames nacionais do ensino básico. Mas nessa resposta, António Costa também havia desmentido afirmações de Tiago Brandão e havia mostrado que não fazia a mínima ideia do que dizia o programa do seu próprio Governo sobre o tema. A estes insólitos já se acrescentava essoutro de, por duas vezes, os deputados do PS terem votado em massa contra o programa do Governo PS (PACC e abolição do exame do 4º ano). Por outro lado, o modelo divulgado assume-se, contraditoriamente, proposta e decisão. E fala de ter ouvido actores que garantem que não foram ouvidos. O caso mais relevante é o do Conselho Nacional de Educação, que não foi ouvido e que, na mesma altura, tornou público um parecer que se opõe ao que o ministro decidiu. Parecer esse que é tanto mais relevante quanto é certo que foi aprovado por uma enorme maioria de conselheiros (4 votos contra, em cerca de 50). Para cúmulo, dos três projectos de lei sobre a matéria, pendentes na AR, um (fim do exame do 9.º ano) poderá, ainda, invalidar parte importante da decisão de Tiago Rodrigues.

Nada disto é normal e tudo isto é lamentável. Quem como eu foi, eventualmente, o mais persistente crítico da desastrosa política de Nuno Crato (a quem censurei o improviso, a falta de fundamentação, o autoritarismo e o desrespeito pelos professores) está à vontade para lamentar o frenesim sem critério a que se assiste e justifica críticas idênticas.

Porquê recuperar provas que já usámos (ver despacho nº 5437, de 18/2/2000) e se revelaram inúteis? A persistir no erro, porquê os anos intermédios e não os anos finais? Porquê de modo universal e não por amostragem, como se faz, por exemplo, em sede do PISA? Porquê à bruta, já com o ano a meio, menosprezando o trabalho de planeamento dos professores e a estabilidade mínima devida aos alunos? Ponderou-se o que sentirão os alunos que se sujeitaram ao exame do 4º ano no ano passado e este ano voltam a ter outra prova no 5º, enquanto os colegas do 6º ficaram dispensados de maçadas até ao 8º? Se um dos argumentos para acabar com o exame do 4º ano foi a imaturidade própria de tão tenra idade, o argumento não é aplicável agora aos alunos do 2º, bem mais imaturos porque bem mais novos? Sendo positivo retirar as provas do meio de Maio, acreditam que os alunos do 8º ano, já em férias, se deslocarão empenhados à escola para fazerem uma prova que não conta para nada?

Os exames, em si, apuram resultados. Uma má classificação obtida por um aluno num exame não nos informa sobre as razões pelas quais isso aconteceu. Assim, a intervenção sobre os resultados só é possível se actuarmos sobre os processos. Aqui reside o grande problema da Educação nacional, já que continuamos obcecadamente a ocupar-nos das diversas formas de medir os resultados em vez de identificar e remover, atempadamente, os obstáculos que impedem a aprendizagem. A interpretação, à luz da literatura e da investigação científica actuais, dos dados estatísticos apurados evidencia a ausência de correlação entre o número de exames dos sistemas de ensino e o verdadeiro sucesso escolar dos alunos. Num sistema de ensino de massas, os exames são importantes, no tempo certo e na dose adequada, particularmente como instrumentos de certificação e relativização das classificações internas. Mas se a avaliação do desempenho dos alunos apurada através de exames não servir para a gestão desse desempenho, então os exames não servem para nada.

De há muito que defendo a tese segundo a qual os governos das duas últimas legislaturas se identificaram ideologicamente pela obsessão de reduzir toda a avaliação educacional a simples alinhamentos em escalas quantitativas. Dessa persistência política, de quase uma década, resultou um poder dominante, em nome da eficácia e da eficiência, de controlo social dos professores e dos organismos pedagógicos, que tudo pretende vigiar através de resultados, índices e rankings, qual autoridade única e unificadora de práticas, qual versão moderna de fascismo. O poder a que me refiro tem dominado a gestão do curriculum, orientando-o predominantemente para responder aos exames, retirando autonomia às escolas e liberdade aos professores. Não compreendendo que a complexidade dos processos de aquisição de competências e conhecimentos dos alunos, de índole tão diversa e níveis tão dispersos, supõe o uso de instrumentos e métodos de avaliação igualmente diferentes, bem mais compatíveis com a natureza contínua da avaliação interna que com o carácter casuístico da avaliação externa, este ministro, fazendo diferente, não foi além da eterna desconfiança nos professores. 

* Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt)

08/01/16

a Europa - a Europa?

retirado do facebook:

por Carlos Esperança

A Europa no turbilhão de todas as tempestades


A Europa, a velha Europa, que depois da Guerra dos 30 Anos, da miséria, da ruína e do sangue derramado nessa primeira metade do século XVII, impôs a liberdade religiosa e a paz, em Vestefália, está hoje paralisada pelo medo e má consciência, a hesitar entre o comunitarismo falhado e a civilização cujo respeito teme exigir a quem chega.

A União Europeia foi a maravilhosa utopia que os nacionalismos eliminaram, e a moeda única a aventura que rivalidades económicas, fiscais e políticas debilitaram. A ausência de integração social e económica, frustrando a coesão, acelerou a desunião. Nem uma política migratória comum consegue. A Europa apenas se uniu para desintegrar a Sérvia depois de ter cometido igual crime na Jugoslávia.
A Ucrânia foi a última aventura ofensiva, mal sucedida, contra a Rússia cujas afinidades civilizacionais a geoestratégia rejeita. Prefere a Arábia Saudita que preside ao Conselho da ONU sobre Direitos Humanos, uma sórdida manifestação de humor negro a sugerir a nomeação de assassinos para os corpos sociais das Associações de Apoio à Vítima.

A Europa do Renascimento, do Iluminismo e da Revolução Francesa retrocederá, com nacionalismos e rivalidades históricas à espera de uma oportunidade, quiçá com novos Kosovo(s) a servirem de entrepostos de drogas e campos de treino para terroristas.

A Bélgica talvez produza três condados, Flandres, Valónia e Bruxelas; a Inglaterra, a Escócia; a França, a Córsega, onde os independentistas ganharam as últimas eleições regionais; a Espanha, a Catalunha, o País Basco e a Galiza numa monarquia que o genocida Franco impôs; a Itália, sem Garibaldi que lhe valha, parte-se ao meio. Valha-nos Portugal onde as Berlengas e os ilhéus das Formigas serão sempre portugueses.

Espero não ser coagido a rezar, após seis décadas de abstinência severa, voltado para Meca, Roma ou, em maratona pia, a caminho de Fátima.

A Europa laica, cosmopolita e democrática corre perigo.