A minha amiga Em@ pôs no fb, ressaltou a semelhança com a saudosa Lhasa de Sela -- de facto! Lindo, lindo!
Golondrina:
A minha amiga Em@ pôs no fb, ressaltou a semelhança com a saudosa Lhasa de Sela -- de facto! Lindo, lindo!
Há crónicas que nascem de jacto, outras que se arrastam. Comecei por ensaiar uma retrospectiva sobre o ano que terminou. Abandonei. Digitei linhas e linhas sobre o ano que vai seguir-se. Não gostei. Parei e recordei. Porque é mau que percamos a memória colectiva.Recordei escolas fechadas aos milhares, Portugal interior fora. Recordei os protestos, onde hoje vejo esquecimento.Recordei as falsas aulas de substituição, com que Maria de Lurdes Rodrigues iniciou a proletarização dos professores. Perdeu em tribunal mas abriu um caminho sinistro. E hoje vejo Crato, oportuno, trilhá-lo com zelo.Recordei a divisão dos professores em titulares e outros. Caiu a aberração mas persiste a tentação. De que outra forma se explica a disponibilidade para examinar colegas a três euros por cabeça?Recordei o altruísmo anónimo por parte de professores, que testemunho há décadas, no combate nacional ao abandono escolar precoce. Vejo, atónito, o novo desígnio governamental de promover o abandono docente precoce.Recordei a indignação nas ruas e a contemporização nos memorandos e nos entendimentos. E hoje vejo o desalento de tantos que desacreditaram.Recordei dois que acabam de partir e senti raiva por tantos que, vivos, são mortos para a profissão. E pergunto-me se, algum dia, muitos, com nome, responderão pelos futuros que destruíram.Recordei a infame guerra em curso aos professores, a quem, em fartas partes, se deve o notório aumento das qualificações dos portugueses. Mau grado desencontros e desencantos.Recordei dados recentes (2013 Global Teacher Status Index, Varkey GEMS Foundation) de um estudo que apurou a atitude das sociedades desenvolvidas relativamente aos seus docentes. E vi o estatuto social dos professores portugueses no último terço da tabela, bem atrás da maioria dos seus parceiros europeus. E vi, sem espanto, que apenas 12% dos portugueses encorajam os filhos a serem professores (o segundo pior resultado do universo estudado).Recordei, a propósito, que a International Association for the Evaluation of Educational Achievement realiza, cada quatro anos, dois estudos conceituados internacionalmente: o TIMMS (Trends in International Mathematics and Science Study) e o PIRLS (Progress in International Reading Literacy Study). Portugal participou na edição de ambos de 1995, tendo ficado nos últimos lugares do ranking. Ausente dos estudos de 1999, 2003 e 2007, voltou a ser cotado em 2011. Entre 50 países, ficou no 15º lugar em Matemática e 19º em ciências. Entre 45 países, foi 19º no PIRLS. Em valor absoluto, os resultados foram positivamente relevantes. Foram-no, ainda mais, em valor relativo: de 1995 para 2011, foi Portugal o país que mais progrediu em Matemática e o segundo que mais avançou no ensino das ciências; se reduzirmos o universo aos países da União Europeia, estamos na 12ª posição em ciências, 7ª em Matemática e 8ª em leitura; se ponderarmos estes resultados face ao estatuto económico e financeiro das famílias e dos estados com que nos comparamos, o seu significado aumenta e deita por terra o discurso dos que destratam os professores. Estes resultados, é bom e actual recordá-lo, são fruto do trabalho dos professores portugueses.Recordei outro estudo, promovido por Joana Santos Rita e Ivone Patrão, investigadoras do Instituto Superior de Psicologia Aplicada, segundo o qual metade dos professores portugueses sofre de stress, ansiedade e exaustão. E vi que as causas apuradas são o excesso de trabalho e de burocracia e a pressão para o sucesso. E vi, vejo, o que o ministro Crato tem por sucesso: caminhos que desprezam a natureza axiológica da Educação, tentando impor-lhe o modelo de mercado, fora ela simples serviço circunscrito a objectivos utilitários e instrumentais, regulada apenas por normas de eficácia e eficiência.E recordei, então, uma carta a um professor, transcrita num livro de João Viegas Fernandes (Saberes, Competências, Valores e Afectos, Plátano Editores, Lisboa, 2001):“… Sou sobrevivente de um campo de concentração. Os meus olhos viram o que jamais olhos humanos deveriam poder ver: câmaras de gás construídas por engenheiros doutorados; adolescentes envenenados por físicos eruditos; crianças assassinadas por enfermeiras diplomadas; mulheres e bebés queimados por bacharéis e licenciados…… Eis o meu apelo: ajudem os vossos alunos a serem humanos. Que os vossos esforços nunca possam produzir monstros instruídos, psicopatas competentes, Eichmanns educados. A leitura, a escrita e a aritmética só são importantes se tornarem as nossas crianças mais humanas".Basta um esforço ínfimo de memória para qualquer se aperceber de quanto deve aos professores. Chega uma réstia de inteligência para qualquer perceber que um ataque aos professores é um ataque ao futuro colectivo. Porque tenho a graça de ter voz pública, começo 2014 com um abraço aos professores portugueses.
*Professor do Ensino Superior
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| de Franz Marc, expressionista alemão (Der Blaue Reiter) |
Desejo que os vossos/nossos anseios possam tornar-se realidade.
Desejo que tenhamos todos muita saúde, muitas ganas de fazer coisas.
Desejo que este país se torne brevemente «qualquer coisa de asseado»,onde seja possível - e volte a apetecer! - VIVER,onde reencontremos todos a JUSTIÇA, a DIGNIDADE.
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| de Egon Schiele |
A História Geral da África está disponível para download em diversas línguas, inclusive, em português!Dentro desse post, você pode baixar os volumes e enriquecer o seu conhecimento!
http://www.pordentrodaafrica.com/cultura/para-aprender-conheca-e-tenha-em-casa-a-serie-de-8-volumes-da-historia-geral-da-africa
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| Alan Turing * |
O perdão real de Isabel II a Alan Turing não passa de uma demonstração de hipocrisia monárquica que só não surpreende de todo se tivermos em conta que provem de uma das mais pronunciadamente decadentes famílias reais.
De facto, já bem entrados no século XXI, vir “perdoar” a pena aplicada a Turing em 1952 pelo “crime de homossexualidade” (cometido, por consentimento mútuo, com um outro adulto), o qual, cumulativamente, se submeteu a castração química para evitar a prisão, é uma indignidade acrescentada à monstruosidade que representou a repressão da homossexualidade na Grã Bretanha durante o século XX e que vitimou mais de 50.000 homens, criminalizados devido à sua orientação sexual ser divergente da maioria e consagrada como única.
Mas, para além do farisaísmo do acto de se “perdoar” aquilo que nunca devia ser cometido, em vez do requerido como justo e que seria um pedido de desculpas a acompanhar a anulação à posteriori do processo judicial conexo, acontece que este “perdão” perante a punição dos homossexuais britânicos foi efectuada apenas para com Turing (uma celebridade, um génio, um herói) deixando-se as outras dezenas de milhares de homossexuais punidos pelas mesmas razões a permanecerem na memória da vergonha do castigo injusto. Ou seja, dificilmente se imagina um outro perdão real tão selectivamente “aristocrático”. -- fonte
* 'Alan Turing's experience is a tragic, shameful episode in our recent history, but while the tragedy was his, the shame was entirely the nation’s.' Photograph: Sherborne School/AFP/Getty Images
Alan Turing's pardon is wrong
To single out Turing is to say all the other persecuted gay men are not so deserving of justice because they were less exceptional
no Público,24/12/2013
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| de Teresa Dias Coelho, Pain 06 |
Era o meu primeiro ano em Lisboa, tinha chegado há seis meses. Contrariamente à tradição, em 1972-73 eram as Faculdades de Letras (que eu frequentava) e a de Direito as de maior contestação académica, aquelas onde mais empenhadamente se protestava contra as políticas do regime fascista.
Em Direito (onde no ano seguinte a minha irmã viria a ser colega do então revolucionário (!) Durão Barroso), o governo de Marcelo Caetano já tinha cortado os protestos, as veleidades transformadoras, pela raiz: colocara na faculdade um corpo de antigos comandos incumbidos de zelarem pela "ordem". Todos abrutalhados de corpo e de espírito, todos uns cães ferozes sedentos do sangue dos estudantes, todos imbuídos desse poderzinho de Pirro tão caro aos ditadores. O nome que lhes foi dado, "gorilas", correspondia ao fabulário da altura.Logo em frente, em Letras, folgavam-nos as costas, fazíamos ainda reuniões clandestinas, distribuíamos panfletos.
Lembro-me bem daquela manhã, de como, consciente do perigo e da ousadia, levara pimenta de casa, na eventualidade de um ataque dos cães-polícia, de como obriguei a minha amiga Judite a estar presente, nervosíssima. Realizava-se mais uma reunião clandestina, os professores que sabiam e não denunciavam, os professores amigos, os professores cúmplices, o Lindley Cintra, o David Mourão-Ferreia, citando só os mais activos. Éramos ... os estudantes quase todos. Dávamos voz à revolta, à urgência de uma mudança, nomeadamente a nível da qualidade do ensino superior. Havia nesse ano, nessa época, gente muito bem falante na Faculdade de Letras, gente muito informada, que anos depois haveria de tornar-se conhecida, integrar governos, partidos, instituições. Eu ouvia e aprendia só, os meus 18 anos viseenses desconhecedores de quase tudo. Em cada janela da sala estavam plantados estudantes de vigília, em cada porta.Foi então que percebemos que qualquer coisa se passava em Direito. Gente cá fora, corridas, gritos, uma enorme confusão. Viríamos a saber, depois (não esquecer que não havia telemóveis!!) da rebelião apesar dos "gorilas", o carro do professor-fascista Martinez virado na rua.
Logo a seguir, o alarme dado por quem vigiava a alameda, do lado de dentro das janelas: "Chegou a polícia de choque! Trazem cães!» O nervosismo, o pavor. Sossegavam-nos os mais experientes, que garantiam que a polícia não ousava entrar na universidade, a opinião pública que não se queria afrontar demasiado. Muitos não aguentaram ficar, fugiram da sala, saíram da faculdade. Cá fora a polícia de choque e os cães, os alunos, os professores presos, o gás lacrimogéneo. A minha amiga Judite que levou com ele..Presos uns quantos "agitadores", as coisas aquietaram-se, a polícia debandou. Respirava-se excitação, todos a querermos saber do que se passara lá fora, os de Direito, que lhes tinha acontecido...?Aos poucos, foram-se-nos juntando estudantes de outras faculdades (a única universidade que então existia era a clássica), a de economia, o técnico, amigos que não víamos há muito e chegavam ávidos de notícias e de aventura, todos excitadíssimos, todos meio deslumbrados pela coragem dos de Letras, "que é que lhes deu para assim liderarem o movimento estudantil, pacatas meninas de outrora"...?! Acabámos todos a confraternizar, a trocar informações na Cantina Velha (a única à altura, também), os ânimos exaltadíssimos, efervescente, em todos, visível, o entusiasmo pela ousadia, a própria e a alheia..Ficou-me gravado na memória como um selo de fogo: contrariamente ao que sempre fazíamos, sugeri que, nesse dia, fôssemos para a fila dos bitoques, no primeiro andar. Não sei se a opção me valeu a vida. Poucos minutos (teriam sido segundos?) depois de termos subido, dei por mim a atirar-me para o chão, reflexo instintivo, inconsciente. Todos, à minha volta, caídos, protegendo-se. No rés-do-chão do "prato-do-dia", as balas («de borracha e disparadas para o ar», viriam eles a alegar, como de costume..), estilhaçavam as paredes de vidro da cantina, acertavam em estudantes atordoados de incredulidade, o pânico-mola que os fazia correr, imponderados. Um deles (e envergonho-me de não lhe lembrar o nome ..) viria a ser assistido no Hospital de Santa Maria, para onde tinha tentado fugir, atingido pelas costas, vinte e tal perfurações no intestino. A sua história, o evoluir do seu estado de saúde, haveria de manter o país suspenso, nos dias que se seguiram. Sobreviveu. As carrinhas que tinham chegado do nada, imprevistas e multiplicadas, os polícias como cães raivosos, couraçados, armados de G3. Dispararam como loucos, sem pré-aviso, sem nada. Almoçávamos. Éramos jovens. Queríamos, apenas, consertar o mundo. Éramos tão jovens! Almoçávamos. (*)Depois dos incidentes desse dia, passou a haver "gorilas" também em Letras. Intimidavam-nos. Proibiam-nos de andar em grupos (3 já era uma conspiração!), obrigavam-nos a "circular". Qualquer conversa, qualquer "estar-se", uma ameaça. Éramos tratados como se fôssemos terroristas.Tão tenebrosos, então, como os que hoje, professores, ousaram lutar pela sua dignidade, contra a realização de uma prova iníqua, disparatada, vexatória.Os "gorilas" viriam a sair de Letras, de Direito, penso que apenas depois do 25 de Abril, apenas depois dessa revolução sonhada, então em processo de gestação nas universidades e nas fábricas da margem sul, nas reuniões clandestinas e nas tipografias, nas ruas e nas casas insonhadas. (**)
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Século XXI, ano 13. A polícia chegou, de novo, às portas das escolas. Ditadores que se enfeitam de alheados mantos, a democracia o mais periclitante, o governo PSD-CDS, o ministro da Educação, todos mestres na "manhosice" instituída. Directores de escola que são tão "gorilas" como esses que se instalaram em Letras e em Direito na década de 70 do século passado, servis lacaios e vingativos, sequiosos do sangue, da alma dos que resistem. Um cheiro fétido de fascismo nas bocas e nos gestos, um odor nauseabundo. E os cúmplices. Cúmplices sem perdão, os professores que pactuaram, que se prestaram a validar a indignidade, vigiando a Prova ACC. Que viram o fascismo de frente, de novo, e não gritaram.
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| Hoje. Foto retirada daqui |
................................................................................................legenda da fotografia:A polícia de choque está hoje de manhã nas instalações da escola Emídio Navarro, em Almada, na sequência de uma tentativa de invasão do estabelecimento e em dia de prova de avaliação de professores-- fonte
(*) daqui:No dia 3 de Maio de 1973, os incidentes ocorridos em Lisboa na Faculdade de Letras e na cantina da Universidade constituíram uma nova expressão dessa violência: cargas de polícias armados sobre estudantes, utilização de granadas de gás lacrimogéneo, cerco da cantina à hora da refeição e intenso tiroteio. Pelo menos 5 estudantes foram atingidos pelos tiros, um dos quais gravemente — o aluno de Medicina Luís Filipe da Silva Simões.
(**) daqui:
Segunda-feira, 14 de Maio de 1973
A polícia de choque, comandada pelo capitão Maltês, reprime uma concentração de estudantes contra a presença de "gorilas" na Universidade A Faculdade de Letras de Lisboa é encerrada por tempo indeterminado. Uma concentração de estudantes com o objectivo de expulsar os «gorilas» será reprimida pela polícia de choque sob o comando do capitão Maltês.
ler também, daqui:
Radicalismo político e ativismo estudantil nos últimos anos do fascismo (1969-1974)
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| foto daqui |
“Entretanto, a nossa querida terra está cheia de manhosos, de manhosos e de manhosos, e de mais manhosos. E numa terra de manhosos não se pode chegar senão a falsos prestígios. É o que há mais agora por aí em Portugal: os falsos prestígios. E vai-se dizer de quem é a culpa de haver manhosos e falsos prestígios: a culpa é nossa e só nossa!”José de Almada Negreiros
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| de Júlio Pomar, L'étonnement |
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| de Cruzeiro Seixas, A Paisagem Exteriormente |
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| (fig.2) JN, 6-12-2013 |
Uma prova de acesso à carreira/ avaliação de conhecimentos, .. para quê? Porquê?
Perguntem a qualquer professor, eventualmente, também, a qualquer aluno que tenha vivido o "antes" e o "depois": O que é que melhorou nas escolas, depois de Maria de Lurdes Rodrigues? Falo por mim, pela minha experiência profissional e pessoal: NADA.Tudo piorou, quando se destruíram, animicamente, os professores.
Piorou - e de que maneira! - o ambiente nas escolas. Onde havia cooperação e entreajuda, instalou-se competição e desconfiança. Onde antes se fazia (bem) por vontade, passou a fazer-se (mal) por obrigação, tudo muito registado em resmas e resmas de inúteis papeis.
Piorou - e de que maneira! - o estado de sanidade mental dos professores. Atacados e pressionados por todos os lados, menosprezados e contestados no seu papel social, desacreditados (quantas vezes publicamente!..) na sua competência e na validade da sua formação científica e académica (inicial ou contínua) e cada vez mais inseguros quanto ao seu futuro, redesenhado por uma sucessão esquizofrénica de leis, despachos e decretos justapostos e contraditórios, os professores "passaram" para os seus alunos, inevitavelmente, essa desestabilização e esse stress, a disponibilidade para se darem ao "outro" comprometida, inviabilizada.
Não interessa se uns escapam, outros não.Não interessa se o que, hoje, ameaça uns, pode, futuramente, ameaçar outros.Não é por aí que devíamos ir. A questão fulcral é a da DIGNIDADE.
Tudo o que agride a nossa inteligência, por ilógico e carecendo de sentido, devia ser rejeitado à partida, e veementemente. Tão simples como isso.
Recusem esta prova! RECUSEM fazê-la, vigiá-la, corrigi-la!PELA DIGNIDADE, digam NÃO A ESTA FARSA!
retirado daqui,
artigo publicado em Julho passado no jornal O Estado de S. Paulo
pelo escritor peruano Mario Vargas Llosa, Prémio Nobel de Literatura de 2010:
ELOGIOS A MANDELA
Nelson Mandela, o político mais admirável destes tempos tumultuados, segue em um hospital de Pretória, após completar 95 anos na quinta-feira, 18 de julho.
Poderemos ter a certeza de que todos os elogios feitos a ele são justos, pois o estadista sul-africano transformou a história do seu país de uma maneira que ninguém imaginava concebível, e demonstrou com sua inteligência, habilidade, honestidade e coragem que, no campo da política, às vezes, os milagres são possíveis.
Tudo isso foi sendo gestado, antes mesmo que na história, na solidão de uma consciência, na desolada prisão de Robben Island, onde Mandela ingressou, em 1964, para cumprir pena de prisão perpétua e trabalhos forçados. ------ ler mais
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| (Foto: Associated Press) |
legenda da foto:Mandela com o então presidente de minoria branca, Frederik W. De Clerk, logo após sua libertação da prisão, em 1990. Num gesto de conciliação e grandeza do grande líder negro, De Klerk, ex-carcereiro de Mandela, tornou-se o seu vice-presidente, democraticamente eleito
Uma prova que não prova nada… - que é um vexame… - que é mais um passo para despedir milhares de professores com vários anos de serviço e mesmo profissionalizados… - desvaloriza a Escola Pública e toda a classe docente
Colegas,Se a prova do dia 18, imposta por agora pelo ministro Crato a uma parte da classe docente, fica e cria raízes, passará a ser mais uma ameaça - e um vexame - para toda a classe docente.O "enterro" dessa prova será uma vitória não só de todos os colegas que têm sido durante anos afastados dos quadros apesar da sua experiência profissional - nomeadamente dos colegas "dispensados" por agora por terem mais de 5 anos de serviço - como de toda a classe docente. Precisamos todos de contribuir para o seu funeral.Não basta manifestar o repúdio a esta prova - nomeadamente depois da traição da FNE que entregou ao MEC os colegas com menos tempo de serviço - e deixar as "coisas" andarem mesmo com greve. É preciso fazer tudo o que está ao alcance da classe para travar a prova. Os colegas contratados que ficaram livres daquele vexame sabem bem quanto valem a solidariedade e luta. Sabem bem que esta luta tem sido mais uma vez construída na base, e por vezes em contramão aos que vivem nas "alturas". Precisamos de continuar a lutar.É por isto que, a exemplo do que se vai fazer em diversas cidades do país, apelamos à tua participação nas reuniões de preparação dessa mobilização!
A arrogância, o ódio aos professores, a ignorância sobre a realidade do sistema educativo e das escolas e a impreparação política e técnica são os eixos identificadores daquilo que poderemos designar por bloco central de governo da Educação da última década. Se apelarmos à memória, salta à vista a convergência ideológica entre Maria de Lurdes Rodrigues e Nuno Crato, relativamente ao papel dos professores. Uma ou outra divergência quanto a processos não apaga o essencial. Do outro lado da barricada, a classe dos professores não interiorizou, enquanto tal, a dimensão política da sua profissão. E, em momentos vitais das lutas a que tem ido, soçobrou por isso.
As mudanças sociais e económicas que varrem a vida dos portugueses colocam à Educação problemas novos e emprestam uma dimensão maior aos problemas de sempre. Mas o maior de todos é político e como tal ideológico e intencional. A Educação nacional está a ser confrontada com caminhos que desprezam a sua natureza axiológica e procuram impor-lhe o modelo de mercado. Trata-se de apresentar a Educação como um simples serviço, circunscrito a objectivos utilitários e instrumentais e regulado apenas por normas de eficiência e eficácia. Trata-se de impor um acto educativo transformado em produto e a escola transformada em empresa de serviços. Trata-se de impor uma ideologia marcada pela sede de desinstitucionalizar e pela pressa de privatizar. De entre tantas mudanças que aqui não cabem, recordemos as duas que melhor servem tal desígnio: a criação da Parque Escolar e o regime jurídico de gestão das escolas. Com a primeira, passou-se para o domínio empresarial a propriedade de mais de metade das escolas secundárias do país. São milhares e milhares de metros quadrados urbanizados nas zonas mais nobres das maiores cidades. Se o BPN foi nacionalizado e a SLN ficou de fora, por que não considerar que a Parque Escolar pode vir a ser vendida ao grupo GPS ou à empresária Isabel dos Santos? Com a segunda, escancararam-se as portas à possível gestão privada das escolas públicas. Porquê? Porque o órgão de gestão das escolas passou a ser escolhido por uma espécie de assembleia de accionistas das empresas (Conselho Geral, onde a maioria dos membros não pertencem à Escola); porque o director assim escolhido também pode, ele próprio, ser estranho à própria Escola ou mesmo, no momento, a qualquer escola, um simples contratado por alguém, que cumpra os requisitos legais. Muitos não pensaram nisto, nem no como pode ser atraente para outros juntar as duas peças, sob a bênção da ideologia de Passos e Crato. Aos primeiros recordo Sun Tzu:
“… Se conheces o inimigo e te conheces a ti mesmo, não precisas temer o resultado de cem batalhas. Se te conheces mas não conheces o inimigo, por cada vitória sofrerás uma derrota. Se não te conheces nem a ti próprio nem ao inimigo, perderás todas as batalhas. …”
A distorção nas representações sobre as condições de exercício da profissão docente, ardilosamente passada pelo Governo para a sociedade em geral, atingiu o limite do suportável e ameaça hoje a própria integridade profissional dos professores, que não se têm afirmado suficientemente vigorosos para destruir estereótipos desvalorizantes. Com tristeza o digo, mas a classe dos professores manifesta-se cada vez mais como classe de dependências. E quem assim se deixa aculturar, dificilmente compreenderá o valor da independência e aceitará pagar o seu custo. É neste contexto que devemos olhar para a Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades, criada por Maria de Lurdes Rodrigues, importa não esquecer, e então fortemente contestada pelo PSD, importa recordar. Não é coisa de alguns. É coisa de todos. Pese embora tudo o que se possa dizer, o carácter facilitista da prova serve para esvaziar a sua contestação. O “Público” evidenciou o grotesco da prova quando mostrou que adolescentes dos 8º e 9º anos a resolvem com facilidade e rapidamente. Mas, recordemos, há uma segunda prova, sobre conhecimentos específicos, que … pode ser bem diferente. Enquanto chamarmos básica, ridícula, elementar, insultuosa, apatetada, desadequada, absurda, a uma prova que é tudo isso, não nos ocupamos de uma política, que vem de longe, que a utiliza para descredibilizar os docentes da escola pública e para os apontar como responsáveis pela degradação da Educação, etapa importante para o que virá a seguir. A todos aqueles vocábulos há que acrescentar a palavra que falta: violência. É o que esta prova é: uma violência.
Dizem os dicionários que a violência é a qualidade de tudo aquilo que opera com ímpeto, que se exerce com força, que se opõe ao direito ou à justiça. Porque há vários tipos de força, o conceito de violência é, de forma mais lata, aplicado comummente a todo o tipo de comportamento que, com intencionalidade, agride ou intimida. Não só do ponto de vista físico, mas, também, do ponto de vista psíquico e moral. O rompimento abrupto das normas e dos princípios constitutivos da moral social vigente é, no meu entendimento, sempre, uma violência. Quantas vezes mais bárbara que a que se exerce de bastão na mão.
Carta Aberta a um MENTECAPTO (João César das Neves)
Meu Caro João, Ouvi-te brevemente nos noticiários da TSF no fim-de-semana e não acreditei no que estava a ouvir.
Confesso que pensei que fossem “excertos”, fora de contexto, de alguém a tentar destruir o (pouco) prestígio de Economista (que ainda te resta).
Mas depois tive a enorme surpresa: fui ler, no Diário de Notícias a tua entrevista (ou deverei dizer: o arrazoado de DISPARATES que resolveste vomitar para os microfones de quem teve a suprema paciência de te ouvir). E, afinal, disseste mesmo aquilo que disseste, CONVICTO e em contexto.
Tu não fazes a menor ideia do que é a vida fora da redoma protegida em que vives:
- Não sabes o que é ser pobre;
- Não sabes o que é ter fome;
- Não sabes o que é ter a certeza de não ter um futuro.
Pior que isso, João, não sabes, NEM QUERES SABER! Limitas-te a vomitar ódio sobre TODOS aqueles que não pertencem ao teu meio. Sobes aquele teu tom de voz nasalado (aqui para nós que ninguém nos ouve: um bocado amaricado) para despejares a tua IGNORÂNCIA arvorada em ciência.
Que de Economia NADA sabes, isso já tinha sido provado ao longo dos MUITOS anos em que foste assessor do teu amigo Aníbal e o ajudaste a tomar as BRILHANTES decisões de DESTRUÍR o Aparelho Produtivo Nacional (Indústria, Agricultura e Pescas).
És tu (com ele) um dos PRINCIPAIS RESPONSÁVEIS de sermos um País SEM FUTURO.
De Economia NADA sabes e, pelos vistos, da VIDA REAL, sabes ainda MENOS! João, disseste coisas absolutamente INCRÍVEIS, como por exemplo: “A MAIOR PARTE dos Pensionistas estão a fingir que são Pobres!”
Estarás tu bom da cabeça, João?
Mais de 85% das Pensões pagas em Portugal são INFERIORES a 500 Euros por mês (bem sei que que algumas delas são cumulativas – pessoas que recebem mais que uma “pensão” – , mas também sei que, mesmo assim, 65% dos Pensionistas recebe MENOS de 500 Euros por mês).
Pior, João, TU TAMBÉM sabes. E, mesmo assim, tens a LATA de dizer que a MAIORIA está a FINGIR que é Pobre?
Estarás tu bom da cabeça, João?
João, disseste mais coisas absolutamente INCRÍVEIS, como por exemplo: “Subir o salário mínimo é ESTRAGAR a vida aos Pobres!”
Estarás tu bom da cabeça, João?
Na tua opinião, “obrigar os empregadores a pagar um salário maior” (as palavras são exactamente as tuas) estraga a vida aos desempregados não qualificados. O teu raciocínio: se o empregador tiver de pagar 500 euros por mês em vez de 485, prefere contratar um Licenciado (quiçá um Mestre ou um Doutor) do que um iletrado. Isto é um ABSURDO tão grande que nem é possível comentar! Estarás tu bom da cabeça, João? João, disseste outras coisas absolutamente INCRÍVEIS, como por exemplo: “Ainda não se pediram sacrifícios aos Portugueses!”
Estarás tu bom da cabeça, João?
Ainda não se pediram sacrifícios?!?
Em que País vives tu, João?
Um milhão de desempregados;
Mais de 10 mil a partirem TODOS os meses para o Estrangeiro;
Empresas a falirem TODOS os dias;
Casas entregues aos Bancos TODOS os dias;
Famílias a racionarem a comida, os cuidados de saúde, as despesas escolares e, mesmo assim, a ACUMULAREM dívidas a TODA a espécie de Fornecedores.
Em que País vives tu, João? Estarás tu bom da cabeça, João?
Mas, João, a meio da famosa entrevista, deixaste cair a máscara: “Vamos ter de REDUZIR Salários!”
Pronto! Assim dá para perceber. Foi só para isso que lá foste despejar os DISPARATES todos que despejaste. Tinhas de TRANSMITIR O RECADO daqueles que TE PAGAM: “há que reduzir os salários!”.
Afinal estás bom da cabeça, João.
Disseste TUDO aquilo perfeitamente pensado. Cumpriste aquilo para que te pagam os teus amigos da Opus Dei (a que pertences), dos Bancos (que assessoras), das Grandes Corporações (que te pagam Consultorias).
Foste lá para transmitir o recado: “há que reduzir salários!”.
Assim já se percebe a figura de mentecapto a que te prestaste.
E, assim, já mereces uma resposta: - Vai à MERDA, João!
Um Abraço,
Carlos Paz
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| de F. Botero |
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| de Egon Schiele |
1. Acabámos de viver o momento alienante da divulgação dos “rankings” dos resultados escolares em exames, sem que o país valorizasse os outros resultados, não mensuráveis por eles mas, eventualmente, bem mais relevantes. Ficámo-nos pela leitura simples dos dados absolutos e dispensámos a complexa que resultaria do cruzamento das variáveis subjacentes. Depreciámos, sem razão, as disciplinas que ficaram de fora dos “rankings”, por não estarem sujeitas a exames nacionais. Contentámo-nos com olhar para os pontos de chegada dos alunos, sem considerar aqueles de que partiram. O famigerado “Guião para a Reforma do Estado”, ao socorrer-se dos “rankings” para, sem pudor, incensar o ensino privado e apoucar o público, assumiu uma política deliberada de elitismo e de tudo para o privado e cada vez menos para o público. Cito dois exemplos de facciosismo, para que não me acusem de me ficar por generalidades: enquanto às escolas privadas está hoje outorgada total autonomia pedagógica e directiva, retirou-se às públicas a possibilidade de estabelecerem as suas ofertas formativas e impôs-se-lhes um modelo único de gestão, fortemente burocratizado e de um gigantismo desumanizante; enquanto o financiamento público às escolas privadas aumentou (são mais 2 milhões de euros que no ano passado, num total de 149,3 milhões e 19,4 para os futuros cheques-ensino), todos os programas de melhoria dos resultados escolares das escolas públicas foram extintos e o seu financiamento diminuiu. Em conclusão breve, os “rankings” chamam a atenção para as escolas mais elitistas e menorizam quantas escolas, eventualmente melhores, acolhem e tentam ensinar os excluídos.2. Não direi que o novo programa de Matemática A tenha sido concebido com a intenção perversa de apressar a passagem de muitos alunos do ensino regular para os eufemisticamente chamados percursos alternativos. Mas será esse o corolário previsível, considerando a complexidade inapropriada que lhe foi introduzida e a sua extensão. Se já eram detectados problemas de cumprimento no anterior, designadamente pelas dificuldades de passagem do básico para o secundário, o quadro ficará pior face a um programa que ignora o que a investigação didáctica internacional tem recomendado e é praticado pelos sistemas de ensino que melhores resultados obtêm nos estudos comparativos. Professores da disciplina, com quem procurei validar a opinião que formei, foram unânimes: trata-se de mais um retrocesso de décadas a teorias e processos há muito abandonados, que promoverá a aversão à disciplina e fará aumentar o número dos excluídos.3. O Governo estabeleceu até ao fim de Dezembro o prazo para as universidades e politécnicos se pronunciarem sobre a reordenação da rede de ensino superior, de modo a que o próximo ano-lectivo a encontre pronta. Se, por um lado, a medida é necessária, por outro, uma imposição atabalhoada só pode gerar desastre. As fusões e os consórcios que o Governo deseja não se promovem sob imperativo temporal bruto. Na linha simplista e imediatamente utilitária que pontifica, pode prevalecer a lei da obediência à procura. Mas se desertificámos o interior, é natural que aí não a encontremos. Valeria a pena uma reflexão sobre processos de rentabilizar a capacidade formativa instalada e o forte investimento dos últimos anos em infraestruturas, no sentido de atrair jovens para as instituições do interior, designadamente estrangeiros, o que não seria difícil se considerarmos a enorme potencialidade da lusofonia. Abandonar parte do país e aceitar o determinismo da redução sem sequer equacionar a utopia da expansão é limitativo. As políticas de desertificação do país, prosseguidas com denodo pelo actual Governo, justificam o receio de que esta reforma da rede se resuma ao simples aumento das dificuldades para os poucos jovens que ainda resistem nas zonas do interior. A ser assim, os que não tiverem recursos para demandarem o litoral e os grandes centros urbanos serão excluídos.4. Por tudo isto, não surpreende que o primeiro-ministro português, paroquial e subserviente ao estrangeiro, não tenha pestanejado quando, a seu lado, Durão Barroso pressionou explicitamente o Tribunal Constitucional com a expressão vulgar do “caldo entornado”. Um e outro, “pintarolas” em lugares de Estado, não percebem que qualquer cidadão de hoje se deve bater pela sua Constituição como os cidadãos do passado se batiam pelas muralhas do seu burgo. É o último reduto para não serem definitivamente excluídos.
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| de S. Dali |