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04/12/13

Violência

no Público,
4 de Dezembro de 2013

por Santana Castilho*

 Violência

A arrogância, o ódio aos professores, a ignorância sobre a realidade do sistema educativo e das escolas e a impreparação política e técnica são os eixos identificadores daquilo que poderemos designar por bloco central de governo da Educação da última década. Se apelarmos à memória, salta à vista a convergência ideológica entre Maria de Lurdes Rodrigues e Nuno Crato, relativamente ao papel dos professores. Uma ou outra divergência quanto a processos não apaga o essencial. Do outro lado da barricada, a classe dos professores não interiorizou, enquanto tal, a dimensão política da sua profissão. E, em momentos vitais das lutas a que tem ido, soçobrou por isso.

As mudanças sociais e económicas que varrem a vida dos portugueses colocam à Educação problemas novos e emprestam uma dimensão maior aos problemas de sempre. Mas o maior de todos é político e como tal ideológico e intencional. A Educação nacional está a ser confrontada com caminhos que desprezam a sua natureza axiológica e procuram impor-lhe o modelo de mercado. Trata-se de apresentar a Educação como um simples serviço, circunscrito a objectivos utilitários e instrumentais e regulado apenas por normas de eficiência e eficácia. Trata-se de impor um acto educativo transformado em produto e a escola transformada em empresa de serviços. Trata-se de impor uma ideologia marcada pela sede de desinstitucionalizar e pela pressa de privatizar. De entre tantas mudanças que aqui não cabem, recordemos as duas que melhor servem tal desígnio: a criação da Parque Escolar e o regime jurídico de gestão das escolas. Com a primeira, passou-se para o domínio empresarial a propriedade de mais de metade das escolas secundárias do país. São milhares e milhares de metros quadrados urbanizados nas zonas mais nobres das maiores cidades. Se o BPN foi nacionalizado e a SLN ficou de fora, por que não considerar que a Parque Escolar pode vir a ser vendida ao grupo GPS ou à empresária Isabel dos Santos? Com a segunda, escancararam-se as portas à possível gestão privada das escolas públicas. Porquê? Porque o órgão de gestão das escolas passou a ser escolhido por uma espécie de assembleia de accionistas das empresas (Conselho Geral, onde a maioria dos membros não pertencem à Escola); porque o director assim escolhido também pode, ele próprio, ser estranho à própria Escola ou mesmo, no momento, a qualquer escola, um simples contratado por alguém, que cumpra os requisitos legais. Muitos não pensaram nisto, nem no como pode ser atraente para outros juntar as duas peças, sob a bênção da ideologia de Passos e Crato. Aos primeiros recordo Sun Tzu:

 “… Se conheces o inimigo e te conheces a ti mesmo, não precisas temer o resultado de cem batalhas. Se te conheces mas não conheces o inimigo, por cada vitória sofrerás uma derrota. Se não te conheces nem a ti próprio nem ao inimigo, perderás todas as batalhas. …” 

A distorção nas representações sobre as condições de exercício da profissão docente, ardilosamente passada pelo Governo para a sociedade em geral, atingiu o limite do suportável e ameaça hoje a própria integridade profissional dos professores, que não se têm afirmado suficientemente vigorosos para destruir estereótipos desvalorizantes. Com tristeza o digo, mas a classe dos professores manifesta-se cada vez mais como classe de dependências. E quem assim se deixa aculturar, dificilmente compreenderá o valor da independência e aceitará pagar o seu custo. É neste contexto que devemos olhar para a Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades, criada por Maria de Lurdes Rodrigues, importa não esquecer, e então fortemente contestada pelo PSD, importa recordar. Não é coisa de alguns. É coisa de todos. Pese embora tudo o que se possa dizer, o carácter facilitista da prova serve para esvaziar a sua contestação. O “Público” evidenciou o grotesco da prova quando mostrou que adolescentes dos 8º e 9º anos a resolvem com facilidade e rapidamente. Mas, recordemos, há uma segunda prova, sobre conhecimentos específicos, que … pode ser bem diferente. Enquanto chamarmos básica, ridícula, elementar, insultuosa, apatetada, desadequada, absurda, a uma prova que é tudo isso, não nos ocupamos de uma política, que vem de longe, que a utiliza para descredibilizar os docentes da escola pública e para os apontar como responsáveis pela degradação da Educação, etapa importante para o que virá a seguir. A todos aqueles vocábulos há que acrescentar a palavra que falta: violência. É o que esta prova é: uma violência.

Dizem os dicionários que a violência é a qualidade de tudo aquilo que opera com ímpeto, que se exerce com força, que se opõe ao direito ou à justiça. Porque há vários tipos de força, o conceito de violência é, de forma mais lata, aplicado comummente a todo o tipo de comportamento que, com intencionalidade, agride ou intimida. Não só do ponto de vista físico, mas, também, do ponto de vista psíquico e moral. O rompimento abrupto das normas e dos princípios constitutivos da moral social vigente é, no meu entendimento, sempre, uma violência. Quantas vezes mais bárbara que a que se exerce de bastão na mão. 

* Professor do ensino superior

25/11/13

Carta Aberta a um MENTECAPTO

recebido via e-mail:

Carta Aberta a um MENTECAPTO (João César das Neves) 

Meu Caro João, Ouvi-te brevemente nos noticiários da TSF no fim-de-semana e não acreditei no que estava a ouvir.
Confesso que pensei que fossem “excertos”, fora de contexto, de alguém a tentar destruir o (pouco) prestígio de Economista (que ainda te resta).
Mas depois tive a enorme surpresa: fui ler, no Diário de Notícias a tua entrevista (ou deverei dizer: o arrazoado de DISPARATES que resolveste vomitar para os microfones de quem teve a suprema paciência de te ouvir). E, afinal, disseste mesmo aquilo que disseste, CONVICTO e em contexto.

Tu não fazes a menor ideia do que é a vida fora da redoma protegida em que vives:
- Não sabes o que é ser pobre;
- Não sabes o que é ter fome;
- Não sabes o que é ter a certeza de não ter um futuro.

Pior que isso, João, não sabes, NEM QUERES SABER! Limitas-te a vomitar ódio sobre TODOS aqueles que não pertencem ao teu meio. Sobes aquele teu tom de voz nasalado (aqui para nós que ninguém nos ouve: um bocado amaricado) para despejares a tua IGNORÂNCIA arvorada em ciência.

Que de Economia NADA sabes, isso já tinha sido provado ao longo dos MUITOS anos em que foste assessor do teu amigo Aníbal e o ajudaste a tomar as BRILHANTES decisões de DESTRUÍR o Aparelho Produtivo Nacional (Indústria, Agricultura e Pescas).

És tu (com ele) um dos PRINCIPAIS RESPONSÁVEIS de sermos um País SEM FUTURO.

De Economia NADA sabes e, pelos vistos, da VIDA REAL, sabes ainda MENOS! João, disseste coisas absolutamente INCRÍVEIS, como por exemplo: “A MAIOR PARTE dos Pensionistas estão a fingir que são Pobres!”
Estarás tu bom da cabeça, João?

Mais de 85% das Pensões pagas em Portugal são INFERIORES a 500 Euros por mês (bem sei que que algumas delas são cumulativas – pessoas que recebem mais que uma “pensão” – , mas também sei que, mesmo assim, 65% dos Pensionistas recebe MENOS de 500 Euros por mês).

Pior, João, TU TAMBÉM sabes. E, mesmo assim, tens a LATA de dizer que a MAIORIA está a FINGIR que é Pobre?
Estarás tu bom da cabeça, João?

João, disseste mais coisas absolutamente INCRÍVEIS, como por exemplo: “Subir o salário mínimo é ESTRAGAR a vida aos Pobres!”
Estarás tu bom da cabeça, João?

Na tua opinião, “obrigar os empregadores a pagar um salário maior” (as palavras são exactamente as tuas) estraga a vida aos desempregados não qualificados. O teu raciocínio: se o empregador tiver de pagar 500 euros por mês em vez de 485, prefere contratar um Licenciado (quiçá um Mestre ou um Doutor) do que um iletrado. Isto é um ABSURDO tão grande que nem é possível comentar! Estarás tu bom da cabeça, João? João, disseste outras coisas absolutamente INCRÍVEIS, como por exemplo: “Ainda não se pediram sacrifícios aos Portugueses!”
Estarás tu bom da cabeça, João?

Ainda não se pediram sacrifícios?!?
Em que País vives tu, João?

Um milhão de desempregados;
Mais de 10 mil a partirem TODOS os meses para o Estrangeiro;
Empresas a falirem TODOS os dias;
Casas entregues aos Bancos TODOS os dias;
Famílias a racionarem a comida, os cuidados de saúde, as despesas escolares e, mesmo assim, a ACUMULAREM dívidas a TODA a espécie de Fornecedores.

Em que País vives tu, João? Estarás tu bom da cabeça, João?

Mas, João, a meio da famosa entrevista, deixaste cair a máscara: “Vamos ter de REDUZIR Salários!”

Pronto! Assim dá para perceber. Foi só para isso que lá foste despejar os DISPARATES todos que despejaste. Tinhas de TRANSMITIR O RECADO daqueles que TE PAGAM: “há que reduzir os salários!”.

Afinal estás bom da cabeça, João.

Disseste TUDO aquilo perfeitamente pensado. Cumpriste aquilo para que te pagam os teus amigos da Opus Dei (a que pertences), dos Bancos (que assessoras), das Grandes Corporações (que te pagam Consultorias).

Foste lá para transmitir o recado: “há que reduzir salários!”.
Assim já se percebe a figura de mentecapto a que te prestaste.

E, assim, já mereces uma resposta: - Vai à MERDA, João!

Um Abraço,
Carlos Paz

Seis atributos para uma prova


A garra, o desassombro e a contundência do Homem que, neste país, pugna mais e melhor pela dignidade dos professores do que todos os sindicatos juntos!

23 de Novembro de 2013 às 10:40 
retirado daqui

por SANTANA CASTILHO

Seis atributos para uma prova 

Esta prova diz-se de ingresso na carreira. Mas quem nela obtenha aprovação não entra na carreira. Outrossim, quem leccione há 5, 10, 15 ou mais anos, sempre com avaliação de bom ou superior, os miseravelmente explorados professores contratados, pode ser expulso do exercício profissional. Isto tem um nome: canalhice. O qualificativo é meu. Mas no espírito do juízo estou significativamente acompanhado: Provedor da Justiça e, agora, Comissão Europeia. 
de F. Botero

Esta prova mostra que o Ministério da Educação e Ciência não confia nas instituições de ensino superior que formam professores e que nós, portugueses, não devemos confiar no Estado. Com efeito, as universidades e os politécnicos que formam professores não são clandestinos. Foram reconhecidos pelo Estado como competentes para tal. Para operarem têm que obedecer às exigências do Estado. O Estado impõe-lhes um número mínimo de professores doutorados. Não são livres de conceber os seus planos de estudo: o Estado impõe-lhes matrizes e, além disso, cada curso sujeita-se ao livre arbítrio do Estado para obter autorização de funcionamento. Não são livres quanto à admissão de alunos: o Estado estabelece-lhes cotas. O Estado fiscaliza-as e pode fechá-las se deixar de lhes reconhecer qualidade. O Estado é, pois, tutor de todas. Às vítimas deste devaneio, todos aqueles que pagaram propinas durante anos, está dito, em diploma legal, que obteriam uma habilitação profissional, sublinho, profissional. Isto tem um nome: intrujice. 

Esta prova foi inicialmente concebida por um partido que agora a esconjura e é agora defendida por outro que antes a arrasou. Isto tem um nome: palhaçada. 

Esta prova trará ao ministério, em taxas de inscrições a pagar pelos candidatos, um encaixe próximo do milhão de euros. A maioria dos candidatos está no desemprego. Alguns terão que pagar centenas de euros para se deslocarem aos locais onde as provas se realizam. Pela correcção de cada uma, o ministério propõe-se pagar metade do que paga por hora a uma funcionária de limpeza. Isto tem um nome: perfídia. 

Esta prova não acrescentará um avo de qualidade ao sistema. Pelo contrário, vai diminui-la, pela lama e descrédito que bolça sobre a classe. Todos o sabem menos Crato. Isto tem dois nomes: incompetência e ignorância. 

Quando cantou “Os Vampiros”, Zeca Afonso leu aquele tempo e foi profeta: anunciou o nosso. 

In "Jornal i" de 23.11.13

20/11/13

de “pintarolas” e excluídos ..

de Egon Schiele
no Público,
20 de Novembro de 2013

por Santana Castilho*

O regresso ao ensino elitista 


A ascensão de Nuno Crato ao poder foi promovida por duas vias: o seu populismo discursivo, de que a desejada implosão do ministério foi paradigma, e a influência poderosa de grupos para quem a Educação é negócio. Chegou agora o momento em que o aforismo emblemático de César das Neves começa a colher prova no terreno das realidades: não há almoços grátis! O recentemente aprovado estatuto do ensino privado mostra ao que Crato veio e para quem trabalha. O seu actual direitismo, socialmente reacionário, está próximo, em radicalismo, do seu esquerdismo de outros tempos. O fenómeno explica-se, tão-só, por simples conversão de interesses e ambições aos sinais dos tempos. O resultado que se desenhou e ganha agora forma é o retorno a um sistema de ensino elitista, onde muitos serão excluídos. 

1. Acabámos de viver o momento alienante da divulgação dos “rankings” dos resultados escolares em exames, sem que o país valorizasse os outros resultados, não mensuráveis por eles mas, eventualmente, bem mais relevantes. Ficámo-nos pela leitura simples dos dados absolutos e dispensámos a complexa que resultaria do cruzamento das variáveis subjacentes. Depreciámos, sem razão, as disciplinas que ficaram de fora dos “rankings”, por não estarem sujeitas a exames nacionais. Contentámo-nos com olhar para os pontos de chegada dos alunos, sem considerar aqueles de que partiram. O famigerado “Guião para a Reforma do Estado”, ao socorrer-se dos “rankings” para, sem pudor, incensar o ensino privado e apoucar o público, assumiu uma política deliberada de elitismo e de tudo para o privado e cada vez menos para o público. Cito dois exemplos de facciosismo, para que não me acusem de me ficar por generalidades: enquanto às escolas privadas está hoje outorgada total autonomia pedagógica e directiva, retirou-se às públicas a possibilidade de estabelecerem as suas ofertas formativas e impôs-se-lhes um modelo único de gestão, fortemente burocratizado e de um gigantismo desumanizante; enquanto o financiamento público às escolas privadas aumentou (são mais 2 milhões de euros que no ano passado, num total de 149,3 milhões e 19,4 para os futuros cheques-ensino), todos os programas de melhoria dos resultados escolares das escolas públicas foram extintos e o seu financiamento diminuiu. Em conclusão breve, os “rankings” chamam a atenção para as escolas mais elitistas e menorizam quantas escolas, eventualmente melhores, acolhem e tentam ensinar os excluídos

2. Não direi que o novo programa de Matemática A tenha sido concebido com a intenção perversa de apressar a passagem de muitos alunos do ensino regular para os eufemisticamente chamados percursos alternativos. Mas será esse o corolário previsível, considerando a complexidade inapropriada que lhe foi introduzida e a sua extensão. Se já eram detectados problemas de cumprimento no anterior, designadamente pelas dificuldades de passagem do básico para o secundário, o quadro ficará pior face a um programa que ignora o que a investigação didáctica internacional tem recomendado e é praticado pelos sistemas de ensino que melhores resultados obtêm nos estudos comparativos. Professores da disciplina, com quem procurei validar a opinião que formei, foram unânimes: trata-se de mais um retrocesso de décadas a teorias e processos há muito abandonados, que promoverá a aversão à disciplina e fará aumentar o número dos excluídos

3. O Governo estabeleceu até ao fim de Dezembro o prazo para as universidades e politécnicos se pronunciarem sobre a reordenação da rede de ensino superior, de modo a que o próximo ano-lectivo a encontre pronta. Se, por um lado, a medida é necessária, por outro, uma imposição atabalhoada só pode gerar desastre. As fusões e os consórcios que o Governo deseja não se promovem sob imperativo temporal bruto. Na linha simplista e imediatamente utilitária que pontifica, pode prevalecer a lei da obediência à procura. Mas se desertificámos o interior, é natural que aí não a encontremos. Valeria a pena uma reflexão sobre processos de rentabilizar a capacidade formativa instalada e o forte investimento dos últimos anos em infraestruturas, no sentido de atrair jovens para as instituições do interior, designadamente estrangeiros, o que não seria difícil se considerarmos a enorme potencialidade da lusofonia. Abandonar parte do país e aceitar o determinismo da redução sem sequer equacionar a utopia da expansão é limitativo. As políticas de desertificação do país, prosseguidas com denodo pelo actual Governo, justificam o receio de que esta reforma da rede se resuma ao simples aumento das dificuldades para os poucos jovens que ainda resistem nas zonas do interior. A ser assim, os que não tiverem recursos para demandarem o litoral e os grandes centros urbanos serão excluídos

4. Por tudo isto, não surpreende que o primeiro-ministro português, paroquial e subserviente ao estrangeiro, não tenha pestanejado quando, a seu lado, Durão Barroso pressionou explicitamente o Tribunal Constitucional com a expressão vulgar do “caldo entornado”. Um e outro, “pintarolas” em lugares de Estado, não percebem que qualquer cidadão de hoje se deve bater pela sua Constituição como os cidadãos do passado se batiam pelas muralhas do seu burgo. É o último reduto para não serem definitivamente excluídos

* Professor do ensino superior

19/11/13

pobres e milionários

de S. Dali
17 de Novembro, 2013
retirado daqui


por Raquel Varela,


César das Neves: números, factos e ilusões 


Disse João César das Neves, professor da Universidade Católica, economista, que a «maior parte dos pensionistas não são pobres, fingem-no». Vamos a números e factos. 64% dos pensionistas em Portugal, do conjunto da Segurança Social e da CGA, recebem menos de 419 euros por mês. No escalão de até 750 euros esse número é de 77,3%. Em Portugal a maior parte dos pensionistas são pobres e não ganham o suficiente para a sua reprodução biológica (casa, alimentação, vestuário, transportes, saúde), tendo que recorrer aos serviços de assistência (caridade) complementares para se manterem vivos. Estes números são os mesmos de um país – o nosso, Portugal – onde 870 pessoas têm rendimentos equivalentes a 45% do PIB, quase metade de tudo o que é produzido pelos trabalhadores ou os-que-vivem-do-salário. 

Não fingem que são milionários. São mesmo. Entre outras razões porque levam na algibeira o valor subtraído às pensões desde 2009/2010 que foi directo para o negócio da dívida pública, para não «assustar» os «humores» dos mercados, isto é, para não assustar entre outros estes 870 milionários que o Crédit Suisse veio dar a conhecer. Têm tanto que uma parte deles colocou esse capital em casas vazias que não pagam IMI – autênticas barras de ouro espalhadas por este país com centenas de milhares de casas fechadas em fundos imobiliários. Outros já meteram as pensões roubadas aos portugueses a salvo, operando uma subterrânea fuga de capitais, para quando a próxima crise rebentar, daqui a 4 ou 5 trimestres, os seus capitais (isto é, as nossas pensões e salários) estarem a salvo. Fingir para quê? 

Raquel Varela é coordenadora de A Segurança Social é Sustentável 
Trabalho, Estado e Segurança Social em Portugal (Bertrand, 2013)
Dave Brubeck & Al Jarreau 

Take Five

contra a privatização dos CTT

retirado daqui

MRB INTENTOU UMA ACÇÃO CONTRA A PRIVATIZAÇÃO DOS CTT 


O MRB (Movimento Revolução Branca) efectuou ontem uma Acção Popular na forma de procedimento cautelar contra a privatização dos CTT. Esta acção, caso chegue a bom porto, pode mudar os planos do Governo para esta empresa ainda pertencente ao estado. 

 O Movimento apresentou a acção há alguns dias, mas apenas esta semana foi proferido despacho e tornada pública. 

A Acção deu entrada em Juízo no passado dia 4 de Novembro (PROC. 2839/13.8BELSB, da 3ª U.O. do Tribunal Administrativo do Círculo de Lisboa), foi devidamente distribuída, liminarmente recebida, tendo sido efectuada, a 12 de Novembro, a citação dos requeridos nos termos da Lei do Processo. 

Agora, a Parpública e o Ministério das Finanças têm 10 dias para se pronunciar. 

O Movimento informa no comunicado de imprensa enviado ontem à tarde aos órgãos de comunicação social, que “tendo em atenção a especial tramitação da acção cautelar, espera-se que seja proferida decisão antes da data prevista para a alienação do capital dos CTT”. 

O MRB tornou-se conhecido quando no ano passado apresentou queixa contra titulares de cargos públicos por traição à pátria, queixa essa que viria posteriormente a ser arquivada. 

Também apresentou já este ano uma outra Acção Popular para diminuir as regalias dos partidos políticos na isenção de IMI no qual estes têm direito.

06/11/13

O guião esticado de Portas encolhido

 
no Público,
6 de Novembro de 2013,

por Santana Castilho*

O "guião para a reforma do Estado" é um panfleto de qualidade inferior, ridiculamente esticado a corpo 16 e duas linhas de espaçamento. Se o expurgarmos das afirmações óbvias que o inflam, ficam expostas a vacuidade e a mediocridade da sua substância. Tem a paternidade, longamente publicitada, de Paulo Portas. Mas é bom lembrar que foi aprovado em Conselho de Ministros e vincula por isso o Governo. A figura janota de Portas na televisão não logrou tapar o seu esqueleto reciclado, encolhido e sem convicção, esbracejando na política manhosa que afunda o país. Apesar de tudo isto, este guião não é um documento qualquer, porque levou nove meses a preparar, amalgamou contributos de ministros e trata da “reforma” do Estado. Mas já percebemos que ninguém o toma a sério. Mostra que a última réstia de decoro político se perdeu num emaranhado de banalidades, de ignorância e reviravoltas, sem lógica nem pertinência, de lugares-comuns babosos, miríficas contradições e vacuidade confrangedora. No entanto, manda a profilaxia contra a manipulação e os riscos de contágio que percamos com ele algum tempo. Por dever de ofício e ditadura de espaço, fico-me pelas medidas mais emblemáticas, que à Educação respeitam. 

Portas começa por seduzir os professores com a sua “terceira via”, que designa por “escolas independentes”. Trata-se, esclarece com denguice, “de convidar a comunidade dos professores a organizar-se num projecto de escola específico, de propriedade e gestão dos próprios, mediante a contratualização com o Estado do serviço prestado e do uso das instalações”, garantindo “à sociedade poder escolher projetos de escola mais nítidos e diferenciados” (p.74). Se Portas quer projectos de escolas diferenciados, não precisa de retirar o Estado do processo e trazer para cá o que lá fora começa a ser abandonado. Basta modificar as leis castradoras, que este governo cinicamente refinou, deixando que a iniciativa de organização diferenciada cresça dentro da rede pública. Basta devolver liberdade pedagógica e autonomia intelectual aos professores. Portas quer outra coisa, que não pode dizer de chofre: quer abrir a rede de estabelecimentos públicos à gestão privada


A segunda proposta de Portas é uma tentativa de branqueamento da promiscuidade, melhor dizendo, da corrupção, que grassa com a utilização inconstitucional e reiteradamente ilegal dos dinheiros públicos, para financiar iniciativas privadas. Ontem mesmo (escrevo na manhã de 5, terça-feira) uma notável reportagem da jornalista Ana Leal, da TVI,** teria consequências se a decência vigorasse e as instituições funcionassem, tamanho e tão grave é o escândalo denunciado. Em vez disso, Portas sugere “aumentar a liberdade de escolha da sociedade em relação à educação” dilatando o já escandalosamente dilatado conceito de “contratos de associação”. Com topete de ilusionista, Portas recorda que estes contratos “foram, inicialmente, concebidos para preencher a oferta educativa nos territórios em que a oferta pública era escassa” e proclama que, agora, “com a disseminação dos equipamentos, um novo ciclo de contratos de associação deve estar potencialmente ligado a critérios de superação do insucesso escolar” porque, “como é sabido, globalmente, as escolas com contrato de associação respondem bem nos rankings educativos…” (p. 74 e 75). A “liberdade de escolha” e a “autonomia das escolas” são metáforas gastas para justificar a mercantilização do ensino, substituindo a responsabilidade do Estado pelo interesse de grupos económicos e religiosos. Tudo sem risco, porque a contratualização prévia e a flexibilização do mercado de trabalho o retiraram atempadamente. Não fora ainda termos uma Constituição e quem a defenda, não fora ainda resistirem muitos que dizem não à desvergonha, teríamos Portas e os seus mercadores a gritarem bingo. 

Muitas vezes se acusam projectos e propostas de serem ideológicos. Mas é natural que sejam ideológicos. A questão reside naquilo que propõe determinada ideologia. No que toca à Educação, rejeito qualquer que, usando o dinheiro de todos, pretenda favorecer apenas alguns; que rejeite como obrigação central do Estado promover a Educação de todos os portugueses, enquanto veículo de redução de desigualdades sociais, de autonomização dos cidadãos e primeiro motor de crescimento económico. Uma coisa é uma visão sectária de uma facção, outra coisa é uma opção estratégica que sirva a colectividade. A ideia de Portas para a Educação geraria os fenómenos que outras sociedades, bem menos frágeis que a nossa, já experimentaram e começam a abandonar, por perniciosos para o bem comum. Essa é a realidade escondida com as denominadas “escolas independentes” e com a inconstitucional extensão da natureza dos contratos de associação. 

 * Professor do ensino superior

** "Verdade Inconveniente", de Ana Leal: «São colégios privados, construídos de norte a sul do país e financiados, pelo estado, com muitos milhões. Ao todo, são 81 colégios, pagos por todos nós. Muitos deles autorizados ao lado de escolas públicas que conseguem dar resposta.» -- inf. disponibilizada pelo canal (TVI) no resumo do programa. Mais aqui.

04/11/13

a "profecia" da crise, 15 anos antes



pelo escritor e jornalista
ARTURO PÉREZ-REVERTE 

"Eso es lo que viene, me temo. Nadie perdonará un duro de la deuda externa de países pobres, pero nunca faltarán fondos para tapar agujeros de especuladores y canallas que juegan a la ruleta rusa en cabeza ajena." 

Los Amos del Mundo

«Usted no lo sabe, pero depende de ellos. Usted no los conoce ni se los cruzará en su vida, pero esos hijos de la gran puta tienen en las manos, en la agenda electrónica, en la tecla antro del computador, su futuro y el de sus hijos. 

Usted no sabe qué cara tienen, pero son ellos quienes lo van a mandar al paro en nombre de un tres punto siete, o un índice de probabilidad del cero coma cero cuatro. 

Usted no tiene nada que ver con esos fulanos porque es empleado de una ferretería o cajera de Pryca, y ellos estudiaron en Harvard e hicieron un máster en Tokio, o al revés, van por las mañanas a la Bolsa de Madrid o a la de Wall Street, y dicen en inglés cosas como long-term capital management, y hablan de fondos de alto riesgo, de acuerdos multilaterales de inversión y de neoliberalismo económico salvaje, como quien comenta el partido del domingo. 

Usted no los conoce ni en pintura, pero esos conductores suicidas que circulan a doscientos por hora en un furgón cargado de dinero van a atropellarlo el día menos pensado, y ni siquiera le quedará el consuelo de ir en la silla de ruedas con una recortada a volarles los huevos, porque no tienen rostro público, pese a ser reputados analistas, tiburones de las finanzas, prestigiosos expertos en el dinero de otros. Tan expertos que siempre terminan por hacerlo suyo. Porque siempre ganan ellos, cuando ganan; y nunca pierden ellos, cuando pierden. 

No crean riqueza, sino que especulan. Lanzan al mundo combinaciones fastuosas de economía financiera que nada tienen que ver con la economía productiva. Alzan castillos de naipes y los garantizan con espejismos y con humo, y los poderosos de la Tierra pierden el culo por darles coba y subirse al carro. 

Esto no puede fallar, dicen. Aquí nadie va a perder. El riesgo es mínimo. Los avalan premios Nóbel de Economía, periodistas financieros de prestigio, grupos internacionales con siglas de reconocida solvencia. 

Y entonces el presidente del banco transeuropeo tal, y el presidente de la unión de bancos helvéticos, y el capitoste del banco latinoamericano, y el consorcio euroasiático, y la madre que los parió a todos, se embarcan con alegría en la aventura, meten viruta por un tubo, y luego se sientan a esperar ese pelotazo que los va a forrar aún más a todos ellos y a sus representados. 

Y en cuanto sale bien la primera operación ya están arriesgando más en la segunda, que el chollo es el chollo, e intereses de un tropecientos por ciento no se encuentran todos los días. Y aunque ese espejismo especulador nada tiene que ver con la economía real, con la vida de cada día de la gente en la calle, todo es euforia, y palmaditas en la espalda, y hasta entidades bancarias oficiales comprometen sus reservas de divisas. Y esto, señores, es Jauja. 

Y de pronto resulta que no. De pronto resulta que el invento tenía sus fallos, y que lo de alto riesgo no era una frase sino exactamente eso: alto riesgo de verdad. 

Y entonces todo el tinglado se va a tomar por el saco. Y esos fondos especiales, peligrosos, que cada vez tienen más peso en la economía mundial, muestran su lado negro. Y entonces, ¡oh, prodigio!, mientras que los beneficios eran para los tiburones que controlaban el cotarro y para los que especulaban con dinero de otros, resulta que las pérdidas, no. 

Las pérdidas, el mordisco financiero, el pago de los errores de esos pijolandios que juegan con la economía internacional como si jugaran al Monopoly, recaen directamente sobre las espaldas de todos nosotros. 

Entonces resulta que mientras el beneficio era privado, los errores son colectivos, y las pérdidas hay que socializarlas, acudiendo con medidas de emergencia y con fondos de salvación para evitar efectos dominó y chichis de la Bernarda. Y esa solidaridad, imprescindible para salvar la estabilidad mundial, la paga con su pellejo, con sus ahorros, y a veces con su puesto de trabajo, Mariano Pérez Sánchez, de profesión empleado de comercio, y los millones de infelices Marianos que a lo largo y ancho del mundo se levantan cada día a las seis de la mañana para ganarse la vida. 

Eso es lo que viene, me temo. Nadie perdonará un duro de la deuda externa de países pobres, pero nunca faltarán fondos para tapar agujeros de especuladores y canallas que juegan a la ruleta rusa en cabeza ajena. 

Así que podemos ir amarrándonos los machos. Ése es el panorama que los amos de la economía mundial nos deparan, con el cuento de tanto neoliberalismo económico y tanta mierda, de tanta especulación y de tanta poca vergüenza. »
fonte 1
fonte 2

artigo publicado no 'El Semanal' em 1998 

 publicada no Youtube em Out. 2013:
«Arturo Pérez-Reverte desgrana la sociedad española a través de la historia y de nuestra propia idiosincrasia en el actual contexto de crisis en España.»

03/11/13

ah, os poetas! ..

posto pela minha amiga Madalena no fb,

de G. Klimt
de Rainer Marie Rilke

Solidão 

A solidão é como uma chuva.
Ergue-se do mar ao encontro das noites;
de planícies distantes e remotas
sobe ao céu, que sempre a guarda.
E do céu tomba sobre a cidade.


Cai como chuva nas horas ambíguas,
quando todas as vielas se voltam para a manhã
e quando os corpos, que nada encontraram,
desiludidos e tristes se separam;
e quando aqueles que se odeiam
têm de dormir juntos na mesma cama:

então, a solidão vai com os rios...

Rainer Maria Rilke, 
in "O Livro das Imagens" 
Tradução de Maria João Costa Pereira

01/11/13

de burkas, prostitutas e astúcias

recebido via e-mail:
Astarte - img daqui

A burka, traje islâmico que cobre o rosto e corpo da mulher, tem a sua origem num culto à divindade Astarte, deusa do amor, da fertilidade e da sexualidade, na antiga Mesopotâmia.

Em homenagem à deusa do amor físico, todas as mulheres, sem excepção, tinham de se prostituir uma vez por ano, nos bosques sagrados em redor do templo da deusa. Para cumprirem o preceito divino sem serem reconhecidas, as mulheres de alta sociedade acostumaram-se a usar um longo véu em protecção da sua identidade.

Com base nessa origem histórica, Mustapha Kemal Atatürk, fundador da moderna Turquia (1923 – 1938), no quadro das profundas e revolucionárias reformas políticas, económicas e culturais que introduziu no país, desejoso de acabar de uma por todas com a burka, serviu-se de uma brilhante astúcia para calar a boca dos fundamentalistas da época.

Pôs definitivamente um fim à burka na Turquia com uma simples lei que determinava o seguinte:

«Com efeito imediato, todas as mulheres turcas têm o direito de se vestir como quiserem, no entanto todas as prostitutas devem usar a burka».

No dia seguinte, ninguém mais viu a burka na Turquia. Essa lei ainda se mantém em vigor.

de volta ao colchão ..

retirado daqui

de Alex Hubbard
por Amadeu Homem

AS NOSSAS POUPANÇAS 

O actual governo embandeirou em arco, ao dizer que a população portuguesa estava a poupar mais do que nunca. Desta vez, como excepção, o governo não mentiu. Mas iludiu-se e muito. Longe de tal comportamento, adoptado pelas camadas populacionais que ainda podem poupar, dever ser lido como uma atitude de aposta do futuro, ele deve ser lido como o mais fundada e poderosa manifestação de PÂNICO que alguma vez pôde assaltar os portugueses. 

Estes portugueses - os tais que ainda podem poupar - não aforram, fundamentalmente, para dar aos filhos uma frequência universitária ; não o fazem, basicamente, para poderem trocar de automóvel ; não procedem à guarda de excedentes monetários para salvaguardar uma inesperada doença. A causa determinante, a mais poderosa, a mais imperativa do actual aforro português radica nisto : o actual governo português é um coio de gatunos; é gente nada fiável, que tanto promete como prevarica ; é uma horda ávida do "nosso rico dinheirinho". O governo sabe , não pode deixar de saber, que essa poupança não está depositada nos bancos. Uma enorme fracção dela está em sótãos, em garagens, em esconderijos, em buracos de parede. Porquê ? Porque este governo dá-se ao hábito de não garantir confiança a ninguém e de "larapiar". Ninguém, hoje, sente o seu dinheiro bem guardado em Instituições bancárias. Os portugueses recordam o que aconteceu aos depósitos dos cipriotas e temem que lhes possa acontecer algo de semelhante. Ou pior. 

O aforro português é hoje o aforro CLANDESTINO que trai apenas o sentimento do medo por quem manda, a angústia de todo um Povo se sentir nas garras de uma horda vandalizante, que não possui princípios, não apresenta decência de comportamento, faz batota, rouba por debaixo da mesa e é pulhostre em todos os aspectos do seu proceder económico. 

O governo actual não é uma garantia para ninguém. Pelo contrário, é um bando de marginais de viela, que tudo querem desviar em proveito dos seus patrões germânicos e dos seus apaniguados de partido. 

Assim, a poupança portuguesa aumenta proporcionalmente ao temor do saque. Entre a situação actual e aquela que foi sentida na Europa, em longes épocas, perante o avanço das cargas bárbaras, a diferença é coisa nenhuma. Toca a guardar, como podemos, "o nosso rico dinheirinho". Estes gajos, se puderem, "abafam-no" , locupletam-se com ele. E , seguidamente, vão banquetear-se à nossa custa, rindo-se muito de todos nós !

OE 2014

retirado daqui
por Carlos Manuel Moreno *


Este OE tem um conjunto de características irrepetíveis:

- torna os portugueses muito mais pobres

- destrói as empresas familiares e as PME não exportadoras

- não atrai qualquer investimento externo, nem interno

- aumenta o desemprego

- aumenta a emigração

- empurra ainda mais para baixo a taxa de natalidade

- assusta de forma imoral e cruel velhos, viúvas e tudo quanto ainda recebe salários seja do público, seja do privado.

- acaba ideologicamente com o pouco que resta das classes médias, espinha dorsal de qualquer sociedade

- não fecha o programa de ajustamento

- não permite o acesso aos mercados

- não garante um programa cautelar

- não atinge as metas nem do défice nem da divida

- demonstra que o país, independentemente dos partidos, não quer voltar a ter no poder os filhos e os enteados dos aparelhos partidários e das jotas das universidades de verão, porque sabe que há Homens de estado nos partidos e que há elites em Portugal. 

(...)

* Juiz conselheiro jubilado do Tribunal de Contas

31/10/13

para quem tenha veleidades de escrita..

daqui,

por Mário de Carvalho

DOZE NOTAS SOBRE LITERATURA EM TOM DE PRECEITO 


  1. Comece o escritor por ser um leitor curioso, variado e insaciável, capaz de ser «autor dos livros que lê», na expressão esclarecida de Óscar Lopes. 
  2. de G. Klimt
    Há coisas que não se escrevem, nem sob tortura. Frases como um «rapaz alto e espadaúdo», «lábios vermelhos como cerejas», ou incipits como «tudo começou quando», são admissíveis em clave de ironia ou de apelo à cumplicidade do leitor. Se não, revelam o autor ingénuo, em demanda de leitor apropriado. 
  3. Aprenda-se com os mestres. Ainda com aqueles de quem não se goste, ou com quem não existam afinidades de imaginário, prosa ou família literária. Quer para os rejeitar (ou exorcizar) ou para os incorporar, impõe-se não serem esquecidos. A literatura não se inventa a cada instante. Reinventa-se. 
  4. As neves de antanho são despachadas a derreter. Em menos de uma geração estalam e desfazem-se as gloríolas literárias. É sensato ser circunspecto, quer em relação ao sucesso próprio, quer ao dos outros. Têm vocação de fugazes e frágeis. 
  5. Nunca se deve lisonjear o leitor. Apostar na moda é condenar-se àquilo que já passou. 
  6. Guardar-se de palavras fortes sobre a matéria, tais como «fulgor», «assombro» e «sublime» e adjectivos derivados. A literatura e a arte situam-se nas zonas do indizível a que as palavras não chegam. Por isso elas descaem, quando são forçadas. 
  7. A literatura não é sagrada, nem precisa de altares, santinhos, beatos e beatas. Mesmo o texto mais solene e dorido tem um fio lúdico que bule com o entranhado instinto de jogo dos humanos. 
  8. Há que valorizar o ofício, a técnica, a velha techné dos antigos, o domínio cuidado e rigoroso sobre os materiais. Essa é a arte em que falavam os Gregos, emparelhada com o engenho, ou inventiva. 
  9. As teorizações e doutrinas vêm após o texto e exercem-se sobre ele. Quando se tenta o contrário, nem sempre dá bom resultado. Está para se saber se uma hiperconsciência do texto será ou não inibidora. 
  10. A língua com que trabalhamos apresenta variadíssimas panóplias de recursos. Nenhum deles está vedado ao autor que pode, até, escolher as soluções mais rudimentares. Mas que o texto resulte sempre de uma opção livre e não de uma ignorância limitadora. 
  11. Considerar que no jardim do Senhor há muitas tendas, como diz a Bíblia algures, ou, se não diz, podia dizer. Com os outros, aprende-se sempre alguma coisa. Pode ser que a criação de espaço e as demarcações impliquem algum alarido. Mas ponderadas em termos históricos, para já não dizer sub specie aeternitatis, soam um bocado a chocalho. Pode, aliás, ser um bom exercício formativo, o de encontrar qualidade naquilo de que se não gosta. 
  12. Todas as firmações peremptórias sobre literatura estão erradas. E, como no célebre paradoxo do cretense, se calhar, esta também está errada. Bem como as anteriores. Mas não deixa de ser curioso verificar que o gosto da frase bombástica e assertiva denuncia desde logo o outsider ou o parvenu. 

www.mariodecarvalho.com

 Ler Mais Ler Melhor - Mário de Carvalho - Quando o Diabo Reza

«O faz de conta»

publicado em 30 Out 2013
i online
por Carlos Moreno

O poder faz de conta que tem uma excelente estratégia para reduzir o défice e a dívida. A Europa apoia-o. As oposições protestam, mas inutilmente 

de Escher
Faz de conta significa fingimento, dissimulação, camuflagem. 

O poder diz que tem uma estratégia coerente e eficaz para consolidar as contas públicas. Mas limita-se a enormes aumentos de impostos e a cortes atrás de cortes, por si, e por imposição da troika quando esta cá vem e vê derrapagens nas metas irrealistas acordadas pelo poder para o défice.
Em 2014, a austeridade vai duplicar, à custa dos velhos, das viúvas, dos reformados e das classes médias baixas. Os mais ricos continuam a escapar nas PPP, nas rendas da energia, na redução futura do IRC, cujos grandes beneficiários serão os grupos económicos do PSI 20. O poder faz de conta que tem uma excelente estratégia para reduzir o défice e a dívida. A Europa apoia-o. As oposições protestam, mas inutilmente. 

O poder repete que, em Junho de 2014, a troika se vai e os portugueses recuperam a sua soberania, e que um mítico programa cautelar permitirá aceder aos mercados financeiros. Desde Maio passado, quando rebentou a crise na coligação, as taxas de juro da dívida soberana subiram para os 6% e nunca mais deram sinal de abrandar (na Irlanda estão na casa dos 3,6%). O poder faz de conta que irá aos mercados financeiros sem novos e pesados sacrifícios para os portugueses. A Europa fica muda. A oposição do arco do poder contesta, sem mostrar alternativa. Faz ainda de conta. 

O poder diz que fez a reforma do Estado. Nunca teve para isso plano suportado em estudos, com objectivos e medidas devidamente calendarizadas e quantificadas. O célebre guião tornou--se uma miragem. A apregoada reforma da justiça não chegou ao terreno. A reforma fiscal e a da administração fiscal estão no limbo. As reformas para desburocratizar a administração central e local, e as tornar eficientes e eficazes, bem como as reformas na saúde e na educação, para melhor servirem o povo, limitam-se a cortes orçamentais aleatórios. O poder faz de conta que concretizou uma profunda reforma do Estado. A Europa diz "nim". A oposição que quer governar não revelou proposta credível. Faz de conta. 

O poder exulta com o facto de a austeridade, sem mais e só por si, começar a dar frutos na recuperação da economia. O poder sabe que os ténues sinais de crescimento se devem às empresas exportadoras e, em parte relevante, à melhoria das expectativas e da esperança dos consumidores, abertas sobretudo pela reposição de subsídios ordenada pelo Tribunal Constitucional (TC). O poder sabe que a duplicação da austeridade para 2014 vai matar a esperança e voltar a assustar os consumidores, e assim a deprimir o consumo interno. As exportações não terão força para compensar este factor de diminuição do PIB e o investimento estrangeiro será residual. Mas o poder faz de conta que o "milagre" do crescimento está aí. A Europa cala--se. A principal oposição não acredita, mas não mostrou a sua aposta para o crescimento. Ainda faz de conta. 

O poder cria leis retroactivas, que destroem direitos fixados no passado por leis legítimas, límpidas e transparentes, sem se preocupar com a machadada que assim dá na confiança dos cidadãos na democracia, no Estado de direito, nos partidos e nos políticos. Conduz uma campanha de assédio ao TC para que este decida como ele pretende e não com independência. O poder faz de conta que respeita o Estado de direito e que os juízes do TC não foram chamados antipatriotas e acusados de conduzir o país a um segundo resgate, mesmo antes de decidirem seja o que for. As oposições e muitos cidadãos, aqui, indignaram-se violentamente. 

A discussão do OE/2014 corre o risco de levar a coligação e a maioria que a apoia a tentar transmitir à opinião pública que o OE/2014 é o purgatório inevitável que nos abrirá o céu, se o TC nada reprovar e a oposição lhe der o braço.     -- fonte

Juiz conselheiro jubilado do Tribunal de Contas

28/10/13

LOU REED

morreu este domingo (27/10/2013) aos 71 anos em Long Island, Nova Iorque
notícia aqui e aqui
in memoriam, pg oficial


Lou Reed no filme "Fumo azul"(Blue in the Face), de Paul Auster e Wayne Wang --1995: «I actually feel pretty comfortable in NY. (...) I get scared in Sweeden: it's kind of empty, they're all drunk, everything works!!»

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2003 -- com Antony Hegarty, Perfect Day: 
.

*

 Lou Reed - Walk On The Wild Side -- (1972) -
um êxito maior da sua recém-iniciada carreira a solo
.

23/10/13

Os devoristas

de F. Goya

no Público
de 23 de Outubro de 2013,

por Santana Castilho *

 Os devoristas


O Governo de Portugal e o Governo da Europa perderam o contacto com os seus cidadãos. Para quem não desiste da sua cidadania, outrossim dela faz alimento da alma, a raiva e o desespero dominam. Só me contém a noção dos meus limites e da minha mortalidade. Mas sofro. Sofro com tantos que sofrem às mãos de devoristas. 

O pior de Portugal não é a dívida em si. É o que foi feito com a dívida contraída. Não edificámos com ela uma economia competitiva e produtiva. Não tornámos sustentável um débil Estado social, que agora soçobra às investidas dos devoristas. Instituímos, tão-só, um perene cartão de débito internacional, que alimenta a sofreguidão da “mercadotecnia” dominante. Até o presidente da República traveste, de modo repugnante, o juramento que fez em mercantilismo primário, anunciando que a constitucionalidade ou não do orçamento não é assunto de Direito, mas de custos. Para ele, o mais honesto entre os honestos, os compromissos de honra prescrevem se os custos forem altos. Os recursos do nosso país, o destino dos nossos filhos, estão hoje entregues a pessoas que nada fizeram para os merecer. Chefes que representassem verdadeiramente os portugueses só podiam seguir outras políticas e actuar com moral diferente. Malevolamente, dolosamente, o discurso oficial mistura o custo dos serviços que o Estado presta aos cidadãos (razão da sua existência) com os custos operacionais da máquina burocrática e política. Os primeiros diminuíram drasticamente. Os segundos cresceram exponencialmente. A análise das contas de 2012, única possível neste momento, mostra isso: a aquisição de bens e serviços cresceu 1.500 milhões de euros. 

O orçamento do Estado para 2014 é de uma desumanidade aviltante. A chamada consolidação orçamental proposta soma mais 3.900 milhões de euros aos 15.000 dos últimos dois anos. A simples papel molhado ficaram reduzidos os pronunciamentos de Paulo Portas, que garantiu não vir mais austeridade. Desta feita, a “revogação” vale 612 milhões de euros. Coisa pouca. Depois de ter pulverizado a classe média e aumentado exponencialmente o desemprego e a emigração dos mais preparados, Passos Coelho investe agora sobre os salários de 600 euros mensais. O Governo de Portugal e a “troika” que ele representa, que não o povo, que devia proteger, têm a mesma atitude perante os portugueses que os donos mantinham relativamente aos escravos: então, alimentavam-nos minimamente para que pudessem trabalhar; agora, permitem-lhes que vivam para pagar impostos. Não terminará bem esta negação da realidade. E já que terá de vir a explosão social, é duro dizê-lo, mas que não tarde. Basta! 

A proposta de orçamento para 2014 prevê uma redução de 969 milhões de euros com funcionários públicos. Metade desse corte (565 milhões) será feito com a redução da despesa do pessoal do ensino não superior (redução de salários e diminuição de efectivos). A verba consignada à educação pré-escolar sofre um corte de 67,5 milhões de euros. Significativamente, as transferências previstas para o ensino privado não só não sofrem qualquer corte como crescem dois milhões de euros, totalizando 240 milhões. Globalmente, estamos perante um corte de 8% face ao ano transacto, altura em que atingimos o menor esforço com a educação, em relação ao PIB, em 39 anos de democracia. Passos Coelho e Nuno Crato julgam-se predestinados como tiranos, sem noção do mal que semeiam. Em dois anos de subserviência ao estrangeiro, aproveitando um conformismo que se banalizou, traçaram uma linha de costa que divide o país em dois: um litoral, concentracionário, e outro interior, desertificado. Tal linha virtual permitiu a metáfora recorrente: quando o Governo invoca melhoria da eficiência e aproveitamento de recursos, sabemos que se refere ao encerramento de milhares de escolas e ao despedimento de 38.000 professores. E se já era problema grande a desigualdade que caracterizava o sistema, agora ganhou foros de escândalo. Com efeito, enquanto crescem as transferências do dinheiro público para o ensino privado, diminuem drasticamente as verbas para o ensino público. Enquanto aumenta a autonomia do ensino privado, diminui a autonomia das escolas públicas. A capacidade de decisão das escolas públicas para criarem cursos profissionais e os recursos inerentes foram fortemente cerceados, enquanto o sentido inverso nos estabelecimentos particulares se tornou diariamente patente na folha oficial da República. Os apoios, não importa de que índole, disponibilizados para combater o insucesso e o abandono precoce do ensino público desapareceram. As crianças com necessidades educativas especiais foram, sem qualquer réstia de pudor, consideradas meros apêndices administrativos e liminarmente segregadas das turmas do ensino regular. A falácia do ensino dual reconduziu-nos à escola do Estado Novo: curta e pobre para os pobres, rica e financiada pelos impostos de todos para as famílias privilegiadas. 

* Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt)

18/10/13

este governo ilegítimo ..

 
.. de um meu "Amigo" no facebook que é um incansável defensor dos direitos do povo português. Que denuncia sistematicamente as malfeitorias deste governo. Que deve ser lido e partilhado!

3 'posts',

por Carlos Manuel Moreno *


A política de austeridade sem economia não conduz a nada. Nem a economia mexe nem as contas são postas em ordem. Portanto a política que está a ser seguida só pode dar em destruição da economia e dos portugueses. E é uma mentira dizer que a austeridade a este nível insuportável é inevitável e que não há alternativas. Ou no mínimo incompetência.
Em 2014 vamos ter nova recessão e mais desemprego. As famílias portuguesas não têm mais confiança neste executivo, pois concluíram que com ele a todo o momento podem vir cortes atrás de cortes, ao sabor da impreparação.
E como não haverá mais estabilidade política, económica e social e o acesso aos mercados em meados de 2014 está seriamente comprometido, precisamos de ar fresco e, como acontece em democracia sempre que se está num beco sem saída, de dar a voz ao povo. Se isto não for compreendido, as consequências podem ser irreversíveis. Defendo, pois, legislativas em simultâneo com as europeias. 

 • • • – – – • • •

Caros amigos: isto ultrapassa tudo o que se pode fazer para ganhar eleições, sem consequências. Este executivo nem legitimidade formal tem, pois o seu chefe mentiu com dolo, culpa grave , sabendo que estava deliberadamente a mentir, na campanha eleitoral que o levou ao poder. Eu conto.

Ontem num debate na TVI 24, em que participaram João Cravinho, Nobre Guedes e Nogueira Leite, este último, que é professor universitário e foi conselheiro de PPC na campanha eleitoral de 2011, disse, preto no branco, que, durante a campanha eleitoral de 2011,tinha aconselhado PPC a não prometer que não iria cortar vencimentos nem pensões porque sabia perfeitamente que o não podia fazer, na situação em que o país se encontrava. Mas que PPC preferiu, então, mentir, apesar dos conselhos que nl lhe deu em contrário.

Ou o prof Nogueira Leite ontem mentiu ou, se disse a verdade, PPC em 2011 mentiu consciente e dolosamente aos portugueses, sabendo o que estava a fazer, só para com a mentira chegar ao poder e...ao pote!!! 

 Todos os portugueses deviam saber isto e saber que quem o contou foi, não um perigoso esquerdista, mas um académico do PSD E EX-CONSELHEIRO DE PPC.

A bem da honra, da dignidade, da defesa da ética democrática, e já que os media o não repetem, difunda e partilhe pelos seus amigos, o que aqui posto. Temos todos de defender a democracia.
As eleições de 2011 não foram livres, porque o povo votou enganado propositadamente

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É uma grande falácia dizer que não há alternativa a esta nova brutal e não inteligente austeridade que não atingirá o défice de 4% nem as metas da dívida, não porá o país a crescer, aumentará o desemprego e a pobreza. Tal como nos anos anteriores.

Não é verdade dizer-se que o OE é duro para nos libertarmos da troika em Junho. Por muitos e bons anos vamos ficar sob tutela estrangeira. Também não é verdade dizer que é uma inevitabilidade. Só é inevitável para esta ideologia neo liberal.

Temos de deixar o povo e a economia respirarem.
Temos de deixar a Sociedade respirar.
O Povo tem de ser chamado a pronunciar-se porque em 2011 votou numa mentira dolosa. 

Se os partidos e os poderes aprenderem com o que se passou darão voz ao povo, escolherão os melhores e mais competentes para os governar, com verdade e transparência, com autoridade perante uma troika que não pode deixar, nem muito menos quer falhar em Portugal.

A troika e este governo estão num beco sem saída. Mas enquanto os deixarem aplicarão a receita da austeridade e da destruição das pessoas e da economia temos de deixar o povo falar e, depois, com uma larga base de consenso político, com o apoio do povo e das forças sociais negociar um programa realista e progressista para pagarmos aos credores e podermos melhorar a vida dos pobres e dos desempregados e dos velhos em Portugal.

Assim e com doses de austeridade iguais ou piores em 2015, 2016 e provavelmente e de novo com novas medidas de austeridade ainda em 2014 não vamos a parte nenhuma. 
Disso tenho a certeza.

* Professor de Finanças Públicas,
 (penso que ex-) Juiz Conselheiro do Tribunal de Contas

16/10/13

triste fado .. povo amorfo ..


no Público,
27/09/2013

por Alberto Pinto Nogueira *

A História não esquece e não perdoa

Filipe II de Espanha foi I de Portugal. Mau vizinho, assaltou o extremo da Ibéria. Para acabar com dúvidas, decretou que o reino de cá lhe pertencia, que o herdara e conquistara. Comprara! Era o ano de 1580. 

de Júlio Pomar **
Teve o colaboracionismo dos traidores domésticos. O costume. Miguel de Vasconcelos foi expoente. Povo oprimido, escravizado. Impostos e mais impostos. 

Em 1640, o Povo revoltou-se, farto de rei e exploração estrangeiros. Sitiado de impostos. Miguel de Vasconcelos defenestrado. O jugo durou 60 anos. A Casa de Bragança legitimou o novo poder político. Regressou a gerência doméstica. 

Mais duzentos anos de História se passaram. 

Portugal titubeava entre a “velha aliada” (?!), a Inglaterra, e o império francês. Em 1801, Carlos IV de Espanha e a França tramam em Madrid a sua invasão. Napoleão, insaciável de império, cozinhava a conquista de Portugal. Em Outubro de 1807, a corte portuguesa, com centenas de embarcações e navios de guerra, fez-se ao Atlântico. Assentou praça no Brasil. 

Junot, general gaulês, desceu de França no dia seguinte, assaltou o reino até Lisboa. A bota cardada da França dominou uns quatro anos. Assassinatos, massacres, saques, roubos, pilhagens, violações. Um festim. Impostos. A mando do Imperador, Junot assina um decreto: 100 milhões de francos a cobrar. No regresso, o poder imperial leva tudo, santos das igrejas, seus olhos de pedras preciosas. Um sacrilégio. 

A Inglaterra, “velha aliada”, como tal, mandou Wellington afrontar os galos. Foi conde, marquês e duque. Tem direito a uma estátua, na entrada do Hospital de Santo António, no Porto. Sucedeu-lhe um facínora, o marechal-general William Beresford. Estiveram cá dez anos. Mais execuções sumárias, massacres, roubos, pilhagens. Impostos. Como aliados (?), não largavam o poder de Lisboa e arredores. A Ilha tomou o lugar da Gália na opressão. D. João VI, I do Brasil, regressa. Instaura-se um regime de monarquia constitucional. 

Duzentos anos depois, a História repete-se. É fado. 

O país é colónia da Europa que impõe leis, regras, procedimentos, previsões orçamentais. O Ministério das Finanças é de Berlim. O orgulho de ser português definha. Emigra-se a conselho do Governo. O Povo é tratado sem honra e dignidade. Como caloteiro relapso. 

O Terreiro do Paço faz de oficial de diligências. Assina de cruz a sentença condenatória do tribunal criminal de Berlim. Uma fatalidade a que é alheio. O anterior e os anteriores do anterior também. A responsabilidade criminal é do Povo. Cumpre a pena de austeridade. O Orçamento do Estado é um código penal de penas parcelares. Renega a irretroactividade da lei penal, consagra o cúmulo material das penas. Há sempre mais um corte no salário, pensão, emprego (pena), a adicionar a outro corte (mais pena). O plenário da troika decide, o Governo executa. Se fala ou espirra, sai imposto, corte, desemprego. 

Cumpre ordens do invasor. Faz de Miguel de Vasconcelos. 

Não fica sempre o traidor. A História não esquece. E não perdoa! 

 “Felizmente há luar

* Procurador-Geral-Adjunto .

** imagem:
"Fernando Pessoa encontra D. Sebastião num caixão sobre um burro ajaezado à andaluza", 
Júlio Pomar-1985

10/10/13

«Vou deitar a gramática na retrete»

A escritora Teolinda Gersão publicou (...) o texto abaixo no Facebook. (https://www.facebook.com/teolinda.gersao.50?fref=ts). Dá bem a ideia do desnorte em que andam as políticas educativas, começando pelos programas das disciplinas leccionadas no ensino não-superior.

Quando se fala em insucesso escolar, quantos se lembram de analisar as circunstâncias 'funcional-oficiais' em que são leccionados o Português, a Matemática, ...? Aquelas que são ditadas/impingidas pelo Ministério da Educação?

A quantos ocorre que, muito mais do que os bons ou maus professores, serão estas mudanças sistemáticas - e porque sim!!! - de tudo e mais alguma coisa (vide o novo acordo ortográfico, o novo programa de matemática, etc, etc..) que estão na génese das "dificuldades" de aprendizagem dos alunos?


de Marcel Duchamp
Quantos se darão conta de que o "mudar por mudar" mais não é do que a incapacidade de pensar as coisas a médio e longo prazo, de planificar educação?

Quantos suspeitarão, finalmente, que estes pobres "alternes" estarão na razão directa dos mestrados e doutoramentos "ad-hoc" - e carecendo visibilidade - dos filhos, sobrinhos e afilhados de ministros ou outros "inimputáveis", da intelectualite dos boys e das girls dos partidos que se vão substituindo no ministério da educação?
Atenção, pois, aos 'flutuamentos' da GRAMÁTICA PORTUGUESA, seja ela, presentemente, o que for.. E, confessem lá: quantos de vocês, pais, tios, avós.., responderiam satisfatoriamente às exigências destes dislates?
(recebido via e-mail):
«Tempo de exames no secundário, os meus netos pedem-me ajuda para estudar português. Divertimo-nos imenso, confesso. E eu acabei por escrever a redacção que eles gostariam de escrever. As palavras são minhas, mas as ideias são todas deles. Aqui ficam, e espero que vocês também se divirtam. E depois de rirmos espero que nós, adultos, façamos alguma coisa para libertar as crianças disto. 

Redacção 
Declaração de Amor à Língua Portuguesa 

Vou chumbar a Língua Portuguesa, quase toda a turma vai chumbar, mas a gente está tão farta que já nem se importa. As aulas de português são um massacre. A professora? Coitada, até é simpática, o que a mandam ensinar é que não se aguenta. Por exemplo, isto: No ano passado, quando se dizia “ele está em casa”, ”em casa” era o complemento circunstancial de lugar. Agora é o predicativo do sujeito.”O Quim está na retrete” : “na retrete” é o predicativo do sujeito, tal e qual como se disséssemos “ela é bonita”. Bonita é uma característica dela, mas “na retrete” é característica dele? Meu Deus, a setôra também acha que não, mas passou a predicativo do sujeito, e agora o Quim que se dane, com a retrete colada ao rabo. 

No ano passado havia complementos circunstanciais de tempo, modo, lugar etc., conforme se precisava. Mas agora desapareceram e só há o desgraçado de um “complemento oblíquo”. Julgávamos que era o simplex a funcionar: Pronto, é tudo “complemento oblíquo”, já está. Simples, não é? Mas qual, não há simplex nenhum,o que há é um complicómetro a complicar tudo de uma ponta a outra: há por exemplo verbos transitivos directos e indirectos, ou directos e indirectos ao mesmo tempo, há verbos de estado e verbos de evento,e os verbos de evento podem ser instantâneos ou prolongados, almoçar por exemplo é um verbo de evento prolongado (um bom almoço deve ter aperitivos, vários pratos e muitas sobremesas). E há verbos epistémicos, perceptivos, psicológicos e outros, há o tema e o rema, e deve haver coerência e relevância do tema com o rema; há o determinante e o modificador, o determinante possessivo pode ocorrer no modificador apositivo e as locuções coordenativas podem ocorrer em locuções contínuas correlativas. Estão a ver? E isto é só o princípio. Se eu disser: Algumas árvores secaram, ”algumas” é um quantificativo existencial, e a progressão temática de um texto pode ocorrer pela conversão do rema em tema do enunciado seguinte e assim sucessivamente. 

No ano passado se disséssemos “O Zé não foi ao Porto”, era uma frase declarativa negativa. Agora a predicação apresenta um elemento de polaridade, e o enunciado é de polaridade negativa. 

No ano passado, se disséssemos “A rapariga entrou em casa. Abriu a janela”, o sujeito de “abriu a janela” era ela,subentendido. Agora o sujeito é nulo. Porquê, se sabemos que continua a ser ela? Que aconteceu à pobre da rapariga? Evaporou-se no espaço? 

A professora também anda aflita. Pelo vistos no ano passado ensinou coisas erradas, mas não foi culpa dela se agora mudaram tudo, embora a autora da gramática deste ano seja a mesma que fez a gramática do ano passado. Mas quem faz as gramáticas pode dizer ou desdizer o que quiser, quem chumba nos exames somos nós. É uma chatice. Ainda só estou no sétimo ano, sou bom aluno em tudo excepto em português,que odeio, vou ser cientista e astronauta, e tenho de gramar até ao 12º estas coisas que me recuso a aprender, porque as acho demasiado parvas. Por exemplo,o que acham de adjectivalização deverbal e deadjectival, pronomes com valor anafórico, catafórico ou deítico, classes e subclasses do modificador, signo linguístico, hiperonímia, hiponímia, holonímia, meronímia, modalidade epistémica, apreciativa e deôntica, discurso e interdiscurso, texto, cotexto, intertexto, hipotexto, metatatexto, prototexto, macroestruturas e microestruturas textuais, implicação e implicaturas conversacionais? Pois vou ter de decorar um dicionário inteirinho de palavrões assim. Palavrões por palavrões, eu sei dos bons, dos que ajudam a cuspir a raiva. Mas estes palavrões só são para esquecer, dão um trabalhão e depois não servem para nada, é sempre a mesma tralha, para não dizer outra palavra (a começar por t, com 6 letras e a acabar em “ampa”, isso mesmo, claro.) 

Mas eu estou farto. Farto até de dar erros, porque me põem na frente frases cheias deles, excepto uma, para eu escolher a que está certa. Mesmo sem querer, às vezes memorizo com os olhos o que está errado, por exemplo: haviam duas flores no jardim. Ou : a gente vamos à rua. Puseram-me erros desses na frente tantas vezes que já quase me parecem certos. Deve ser por isso que os ministros também os dizem na televisão. E também já não suporto respostas de cruzinhas, parece o totoloto. Embora às vezes até se acerte ao calhas. Livros não se lê nenhum, só nos dão notícias de jornais e reportagens,ou pedaços de novelas. Estou careca de saber o que é o lead, parem de nos chatear. Nascemos curiosos e inteligentes, mas conseguem pôr-nos a detestar ler, detestar livros, detestar tudo. As redacções também são sempre sobre temas chatos, com um certo formato e um número certo de palavras. Só agora é que estou a escrever o que me apetece, porque já sei que de qualquer maneira vou ter zero. E pronto, que se lixe, acabei a redacção - agora parece que se escreve redação.O meu pai diz que é um disparate, e que o Brasil não tem culpa nenhuma, não nos quer impôr a sua norma nem tem sentimentos de superioridade em relação a nós, só porque é grande e nós somos pequenos. A culpa é toda nossa, diz o meu pai, somos muito burros e julgamos que se escrevermos ação e redação nos tornamos logo do tamanho do Brasil, como se nos puséssemos em cima de sapatos altos. Mas, como os sapatos não são nossos nem nos servem, andamos por aí aos trambolhões, a entortar os pés e a manquejar. E é bem feita, para não sermos burros. 

E agora é mesmo o fim. Vou deitar a gramática na retrete, e quando a setôra me perguntar: Ó João, onde está a tua gramática? Respondo: Está nula e subentendida na retrete, setôra, enfiei-a no predicativo do sujeito. 

João Abelhudo, 
8º ano, 
setôra, sem ofensa para si, que até é simpática. »

Passos, mentiras e RTP

Eu não vi, não vejo, não verei ..
Este gajo dá-me azia, não lhe suporto, nem a imagem, nem a voz. A dele mais a dos seus comparsas.

Retiradas do facebook, aqui vão as opiniões de quem ainda tem pachorra para o aturar, mais o boneco do Kaos:

«A RTP montou e pagou o cenário, recrutou umas tantas pessoas, que fizeram o papel de perguntadores. As perguntas apenas serviam para Passos Coelho fingir que estava a responder a alguém, quando, na verdade, estava a dizer o mesmo de sempre, a anunciar o mesmo de sempre, mais austeridade e mais austeridade. E foi neste quadro que anunciou mais um Orçamento rectificativo para este ano.»

«Fraquinho, fraquinho, fraquinho 

Passos Coelho é um primeiro-ministro apoucado pelos portugueses. Se aparece no espaço público logo surgem uns tantos a insultá-lo, a confrontá-lo com as desgraças da sua governação. Confesso que tinha curiosidade em ver»-- ler mais: incursoes.blogs.sapo.pt

Há quem baixe os olhos, com vergonha das respostas dele e quem aguente o olhar, entre o alucinado e o incrédulo. Experiência dolorosa para os representantes do país que pergunta.
BATE LEVE, LEVEMENTE, A DERRAPAGEM DAS CONTAS PÚBLICAS

No meio do talk show da RTP que decorreu esta noite, o alegado primeiro-ministro anuncia um novo Orçamento Rectificativo para este ano de 2013. (http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=cogdP5SmQmI).

Como escreve Pedro Marques (https://www.facebook.com/pedro.mj.marques/posts/531911633563742), “o Governo assume que precisa de receitas extraordinárias, não apenas por perder outras receitas, mas também porque há despesa ou dívida descontrolada.”

É o círculo vicioso da austeridade.
O que se está a passar no canal 1 com o 1º M é patético, para não dizer pindérico.
Como é que o canal público se permite dar 1h e meia de antena ao 1º M para exclusiva PROPAGANDA POLÍTICA E ANESTESIA SOCIAL, numa altura em que está em extrema dificuldade pelos erros e contradições que tem cometido.
Aquele ar preocupado do 1ºM com os mais pobres é confrangedor...
E DEPOIS O HOMEM FALA DE TUDO SOBRE TUDO E NADA DIZ...


Voltei ao canal 1 e a venda de banha de cobra e de ilusões continua. Não sei se aquela gente que faz perguntas as combinou ou não. Mas tenho a impressão que estão radiantes por aparecerem a televisão a fazer perguntas ao GRANDE APACHE!!!