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06/05/13

Passos e Portas: 48 horas de embuste

fonte: Cantigas Do Maio  

os embusteiros-mor
O governo já nem tenta disfarçar a manobra de diversão e o embuste, o que é a prova de que se sente impune, faça o que fizer. 

Passos Coelho apresentou sexta-feira as novas medidas de corte na despesa a inserir no Orçamento rectificativo. Uma delas, a nova contribuição para os pensionistas, foi lançada só para ser rejeitada por Paulo Portas e dar-lhe espaço político para se manter na coligação. 

O governo não se importou que parecesse gratuito e fantasioso estar a lançar mais uma contribuição para os pensionistas em cima da contribuição extraordinária de solidariedade do Orçamento para 2013, viabilizada recentemente pelo Tribunal Constitucional. No sábado, Passos ainda lhe estendeu o tapete para o grande discurso das 19 horas de domingo. Que Portas tinha participado nas novas medidas mas que ele, Passos, estava aberto a alternativas.... 

Mas o espectáculo que começou às 20 horas de sexta-feira, foi já hoje desmontando. Passos diz ao diário Económico que "precisamos de equacionar a aplicação de uma contribuição sobre as pensões". 

Não se pode demitir o governo por 48 horas de embuste? 

Um Presidente da República que não fosse cúmplice desta impostura metia o governo na ordem em três tempos. 

Uma sociedade civil mais exigente não se calaria após ser tratada com tamanho despudor como se fosse mentecapta. 

[Paulo Gaião, Expresso]

Nota — A nova taxa de sustentabilidade sobre pensões implica um corte médio de 1,9% e a roubalheira, perdão, poupança estimada com a medida é de 436 milhões de euros, a partir de 2014. 

Fonte <http://bit.ly/11anO8l>

Paulo Portas, o polícia bom

por Daniel Oliveira 

8:00 Segunda feira, 6 de maio de 2013
fonte: Expresso.Sapo - aqui



Seguindo a ordem inversa dos acontecimentos, tratarei hoje do discurso de Paulo Portas ao País e guardarei para amanhã a análise do novo pacote de austeridade apresentado por Passos Coelho.
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Paulo Portas tem numa unha mais inteligência política que Pedro Passos Coelho no corpo inteiro. E um dos principais sinais de inteligência que um político pode demonstrar é não subestimar os cidadãos. Porque não é parvo, Portas, ao contrário do verdíssimo Passos, não nos toma a nós por parvos. Não tentou, por isso, vender este pacote como se fosse uma reforma do Estado que, obviamente, não é. Nem, com exceção de uma ou de outra medida, como uma imposição de soluções mais justas para o conjunto da sociedade.
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Portas assumiu, sem grandes rodeios, que ele resulta da simples necessidade de apresentar qualquer coisa que permita uma sétima avaliação da troika positiva. Na esperança de ganhar tempo para uma mudança na Europa, que, no seu otimismo, permita uma alteração de metas e de políticas. Uma mudança que ninguém vislumbra mas que ele acredita que o descontentamento em vários países (mas não no nosso) conseguirá.
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Esta é a primeira vantagem de Portas sobre Gaspar e Passos. Não assume o discurso da troika. Pelo contrário, critica-o. Não assume a narrativa alemã desta crise. Pelo contrário, avisa para os seus perigos. Não se assume, numa posição de vergonhosa subserviência e até falta de patriotismo que caracterizam os discursos de Gaspar e Passos, como representante da troika juntos dos portugueses. Pelo contrário, tenta, aos olhos do País, surgir como representante dos portugueses junto da troika
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Uma das coisas que se percebe no seu discurso é que, ao contrário de Gaspar e Passos (e a ordem de poder é esta), Portas sabe que esta receita não nos retirará da crise. Tende, pelo contrário, a aprofundá-la. Apesar de ser inconsequente, Portas até introduziu no seu discurso a ideia de que se bateu por medidas "menos recessivas" e não por medidas de crescimento. E deu-se ao luxo de dizer que quer ver "esses senhores" (da troika) o mais depressa possível fora de Portugal. Introduzindo no governo um vocabulário que trata os representantes do FMI, BCE e Comissão Europeia, não como nossos aliados, mas como um problema. Bem distante das palavras de Passos, que disse que não podemos querer que a Europa continue a estar disponível para resolver os problemas que nós criamos.
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Do ponto de vista formal, a intervenção de Portas seria, se tivesse alguma consequência prática, digna de um estadista. De um estadista de direita, claro. Mas de alguém que não se presta, com as devidas distâncias que as metáforas permitem, a comportar-se como uma versão nacional de Pétain.
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Para, perante mais um violentíssimo pacote de austeridade que lançará o País ainda mais depressa para o abismo (disso tratarei amanhã), poder sustentar este discurso, Portas construiu para si próprio um conveniente papel nesta trama. Como nos interrogatórios policiais, ele, na companhia de alguns ministros do PSD, seria o polícia bom. Aquele que nos explica que o seu companheiro de coligação é irascível e violento e que, se mostrarmos abertura para ceder, lá estará ele para aliviar o nosso sofrimento.
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E foi exaustivo na enumeração dos seus préstimos. Sem ele, a idade de reforma seria aos 67 anos (coisa que, apesar de ser da responsabilidade de um ministro do CDS, terá sabido pelos jornais). Sem ele, haveria muito mais despedimentos. No meio, quis, numa cambalhota lógica, explicar que estes poderiam ser bons para a criação de emprego, argumentar que aconteceriam num momento melhor do nosso mercado de trabalho e fingir que acredita que o "mútuo acordo" não se fará por via da chantagem da perda progressiva de salário. Mas a sua participação nesta desgraça é benigna.
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Sobre o que evidentemente não poderia ser pior, atirou para o PS e para a UGT a responsabilidade de conseguir o que ele não conseguiu. A estratégia do "polícia bom" no seu esplendor: tu cedes, eu ajudo e ele poupa-te.
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Até que chegou à contribuição extraordinária de sustentabilidade, um imposto escondido, permanente e cumulativo com outros entretanto criados. Portas até recordou o nome com que alguns a batizaram: "a TSU dos reformados e pensionistas". É esta nova taxa que o impede de completar, sem cair no ridículo, a ideia de que sem ele até seria pior. Em vez de cortes na despesa, teríamos mais impostos, diria ele sem esta medida. E, ainda por cima, é um imposto sobre os reformados, onde grande parte da base eleitoral do CDS se encontra.
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Porque não se fazem milagres, Portas foi, chegado aqui, menos eficaz na retórica. Chutou para a frente. Dizendo, basicamente, que é matéria não fechada que pode ser substituída por outras fontes de rendimento. Ou seja, que a guerra ainda não acabou. Como tem sido evidente para todos, Portas perdeu todas as batalhas no interior do governo. Nada consegue contra o todo-poderoso Vítor Gaspar. Resta-lhe, por isso, dizer aos portugueses que tudo tentou e vai continuar a tentar. E esperar assim ter as vantagens de estar no governo e na oposição. 
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Portas terminou a sua comunicação com uma tirada mais ou menos intimista, confessando-se entalado entre as suas "obrigações" e a sua "consciência". Convenientemente, ficamos a saber que, apesar de ceder em tudo, com mais ou menos números trágicos e amuos inconsequentes, Portas acha que tem uma consciência. A pergunta que resta é esta: e isso muda a vida de quem? Talvez a dele, na procura da quadratura do círculo: como participar nesta tragédia sem pagar o preço eleitoral pelas suas responsabilidades. É que a rábula, de tão repetida, começa a não funcionar.
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Em todas as tragédias humanas, há sempre, entre os seus responsáveis, os que têm maior ou menor consciência do mal que provocam. Mas, ao contrário do que Portas quer que se pense, são os que sabem do erro que cometem os piores dos culpados. Os outros são apenas inconscientes.


Economistas exigem rutura com euroliberalismo

 "O que fazer quanto à dívida e ao euro?", pergunta o manifesto lançado por economistas da esquerda europeia que defendem uma alternativa política ao afundamento da Europa sob a pressão da austeridade. Francisco Louçã, Michel Husson, Mariana Mortágua e Eric Toussaint são alguns dos subscritores deste manifesto.

Artigo | 5 Maio, 2013 - 17:53
texto e imagem daqui

Este grupo de economistas constata que há hoje um "consenso alargado" a defender que "a austeridade fiscal não reduz o fardo da dívida, gerando antes uma espiral de depressão, mais desemprego e desespero entre os povos da Europa". Mas estas políticas de austeridade "são racionais do ponto de vista da burguesia", explicam na abertura deste Manifesto, considerando-as "uma forma brutal de terapia de choque para restaurar os lucros, garantir os rendimentos financeiros e implementar as contrarreformas neoliberais".

O Manifesto defende uma "corajosa refundação da Europa" mas rejeita a "falsa dicotomia" entre "uma saída 'arriscada' da zona euro e uma utópica harmonização europeia que resulte da luta dos trabalhadores". A estratégia política a seguir deverá ser a criação de uma maioria para um governo de esquerda "capaz de se livrar deste colete de forças" que é a austeridade resultante da nacionalização das dívidas privadas. O texto desenvolve as propostas para responder aos problemas imediatos de um governo de esquerda no momento atual na Europa: como financiar o défice público fora dos mercados financeiros, como obter o controlo do crédito e como cancelar a dívida ilegítima. 

Sobre o problema da dívida, os autores identificam as duas alternativas de longo prazo: "ou uma austeridade fiscal eterna ou uma política de cancelamento da dívida e uma moratória imediata da dívida pública", com a realização da necessária auditoria para quantificar as benesses fiscais dadas a quem vive dos rendimentos, a evasão fiscal, os resgates dos bancos ou o efeito de bola de neve criado pelos juros da dívida. 

"A saída do euro não é uma garantia de rutura com o “euroliberalismo” 

Os economistas defendem que a saída do euro não pode ser nem um tabu nem o ponto de partida para um governo de esquerda. E dão quatro argumentos para rejeitar a defesa da saída do euro como proposta política no momento atual: a soberania não seria reposta com a nova moeda a ficar à mercê dos especuladores; a dívida aumentaria com a provável nacionalização da banca para evitar a bancarrota, já que as dívidas privadas se manteriam em euros; a inflação e o aumento das taxas de juro provocariam mais desigualdade; e sendo uma proposta de desvalorização competitiva, acaba por abandonar a estratégia de uma luta europeia conjunta contra a austeridade. 
"Continuar a luta sem propor a saída do euro e da União Europeia como alternativa, aumenta a área de manobra e negociação de um governo de esquerda, bem como as probabilidades de alastrar a resistência a outros países da União", defendem os subscritores do Manifesto, preferindo uma estratégia "progressista e internacionalista por oposição a ser isolacionista e nacional". 
Os economistas apontam que "a ameaça da saída do euro não é de excluir como opção viável" e reconhecem que "a refundação da Europa não pode ser a pré-condição para a implementação de uma política alternativa". Admitem ainda que "as eventuais medidas retaliatórias contra um governo de esquerda devem ser neutralizadas através de contra-medidas que efetivamente recorram a políticas protecionistas se necessário", mas lêem a expressão 'protecionismo' não no sentido mais comum da proteção dos interesses do capitalismo nacional em competição com outros países, mas sim da defesa duma "transformação social proveniente do povo". A lógica deste “protecionismo por extensão” será a de "desaparecer tão cedo quanto as medidas sociais para o emprego e contra a austeridade possam ser generalizadas através da Europa", uma vez construída a relação de forças "que possa desafiar as instituições europeias".

a escola é uma maçada?

É, mas não pelas razões apontadas no parágrafo abaixo, não só, não necessariamente.

Sérgio Niza: «O professor dá uma lição, depois faz uma pergunta, escolhe um aluno para responder e avalia o trabalho substancial que é feito em casa. O principal problema da escola está neste modelo de não-comunicação em que o professor usa mais de três quartos do tempo da aula para falar sem que os alunos participem ou estejam envolvidos. Assim não há diálogo possível. Poderá algum jovem ou criança suportar isto?» -- ler mais
de Keith Haring, Characters

Ora as coisas não se passam exactamente assim. Não sempre. Não em todas as disciplinas. A bem dizer e por orientação programatico-didáctica, não deveria passar-se assim em nenhuma disciplina.

É claro que a propalada diferenciação/individualização do ensino é uma treta, impossível de levar à prática em turmas demasiado grandes, sem professores nem horas de apoio disponíveis e/ou suficientes.

Apesar de tudo, é suposto o trabalho centrar-se no aluno, partindo de um qualquer material (um texto, por exemplo) que ele próprio explorará, com exercícios vários testando 'competências' várias. No caso de uma língua, por exemplo, testando a compreensão do que se lê ou ouve, a expressão escrita ou oral, os aspectos estruturais/funcionais.
Idealmente, os alunos trabalhariam sozinhos, em pares ou em grupo.
Idealmente, o professor circularia pelas mesas, sentar-se-ia com cada aluno, com cada par ou grupo que o solicitasse. Na prática, quase impossível. Um professor sentado, tentando prestar apoio individualizado, rapidamente tem a sala transformada num circo ou numa 'chatroom', o uso 'transgressor' do computador, sendo o caso, ou as conversas, as brincadeiras, as agressões, na proporção inversa da idade dos seus alunos.
É assim nas escolas por onde passei, o problema da indisciplina e do desinteresse generalizado agravando-se de ano para ano, estendendo-se a faixas etárias e níveis de ensino impensáveis desta passibilidade, anos atrás.

Para pelo menos 99% dos alunos, as aulas são, à partida, uma maçada. São-no ainda antes de entrarem para a sala, o recreio, as conversas com os amigos que interrompem a contra-gosto. As aulas são uma maçada, como é uma maçada (talvez ainda maior) ler um livro. 

Factores como o desvinculamento dos pais, a mediocridade dos meios de comunicação e uma cultura do facilitismo e do imediatismo veiculada e incensada pelas novíssimas tecnologias, entre outros, levaram a que, por exemplo na disciplina de inglês, a obra de leitura extensiva tenha, na última década e meia, passado de um romance de 200 ou 300 páginas para um conto de 10 que, ainda assim, a maior parte dos alunos não lê em casa. Que é dado na aula, trabalhado, supostamente anotado para eventual posterior consulta em teste que lhe avalie a compreensão. Pois nem assim. A maior parte dos alunos recusa fazer uma leitura dramatizada. A maioríssima parte não ouve as perguntas que o professor faz. Muitos (demasiados) não copiam nada do quadro, não tomam notas, não têm dúvidas nem põem questões. Grande parte dos alunos, pura e simplesmente, não quer saber.

Os alunos portugueses são tradicionalmente 'copiões'. Com o passar dos anos, desenvolveram técnicas de copianço (apoiadas sobretudo nas novas tecnologias e facilitadas pela tipologia de exercícios visando a avaliação de competências) tão eficazes como indetectáveis e que desafiam qualquer esforço de vigilância ou o recurso a diferentes versões do mesmo teste - ingénuo numa sala sobrelotada, implementado com relativo sucesso nos exames nacionais, com menos de metade dos alunos e o dobro dos professores.

O copianço é o 'desenrascanço' das nossas escolas. Alunos há que o praticam com afinco e êxito durante toda a sua escolaridade. Falham nas provas orais levadas a cabo no dia-a-dia, em testes periódicos ou nos exames finais, mas a avaliação das restantes competências dá-lhes muitas vezes a nota necessária para transitarem de ano. Empenhar-se nas aulas, estudar ... para quê? , se as artimanhas compensam, em prazer, facilidade e eficácia? Se, antes do teste ou do exame, entregam um telemóvel ou um iPhone e guardam outro no bolso ou nas cuecas?

Para mudar a ESCOLA, há que mudar a SOCIEDADE, não há volta a dar-lhe. Enquanto os pais permitirem que os seus filhos passem horas infinitas jogando num computador ou sistematicamente 'ligados' à TV ou a uma qualquer maquineta (inclusive à hora das refeições) , enquanto não os incentivarem a ler desde muito cedo, enquanto não lhes orientarem o uso dos tempos livres, nunca as aulas vão deixar de ser uma maçada.

Referi há tempos o relato de uma aluna que foi viver para a Suíça, de tempos a tempos vindo visitar a sua antiga turma. O que os ex-colegas se riram quando contou que os alunos suíços se levantavam mais cedo para ouvirem as notícias e que ocupavam os intervalos a ler ou a estudar; o que eles desacreditaram quando contou que não havia algazarra nas aulas, que se respeitavam os professores; que os 'chumbos' praticamente não existiam, tal era a vergonha da perspectiva, o controle dos pais para que os filhos 'cumprissem'.

É ... mundos estranhos onde se está com um objectivo. Onde o estudar, o aprender, são em si motivo de interesse, a motivação intrínseca. Mundos onde, talvez, a escola não seja uma maçada - não pelos malabarismos dos professores nas aulas, mas pelo diferente entendimento da sua existência, por parte dos alunos e respectivos encarregados de educação.
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26/04/13

O terceiro D do 25 de Abril

no Expresso,
Sexta feira, 26 de abril de 2013

por Daniel Oliveira  



Quando, há 39 anos, um conjunto de oficiais de baixa patente, apenas munido dos mais rudimentares conceitos ideológicos e sem qualquer experiência política, derrubou um regime que já mal se aguentava de pé, prometeu, num programa genérico, três coisas: descolonizar, democratizar e desenvolver Portugal.
Pior ou melhor, a descolonização tardia foi feita. A democracia, depois de um período conturbado mas pacífico quando comparado com outras revoluções, foi aceite por todos. E o desenvolvimento, a mais difícil das três tarefa, superou as melhores expectativas.  
Em menos de meio século, Portugal deu um salto assombroso. Um país atrasado, isolado, miserável e semianalfabeto chegou rapidamente ao restrito clube do primeiro mundo. Pobre entre os ricos, é verdade. Mas em tudo um contraste com o seu passado.
  • O saneamento básico e a eletricidade chegaram a todo o território. 
  • Foram construídas infraestruturas
  • A segurança social foi generalizada. 
  • Acabou-se com trabalho infantil
  • As barracas foram praticamente erradicadas. 
  • A pobreza e a desigualdade, que subsistem, não são comparáveis à miséria em que vivia grande parte da população. 
  • Passámos de um País de emigrantes para um País de imigrantes
  • Nasceu um Serviço Nacional de Saúde gratuito e universal. 
  • Os nossos indicadores de mortalidade infantil passaram dos piores para os melhores da Europa. 
  • O analfabetismo é hoje marginal e a nova Escola Pública formou a geração mais bem preparada, culta e instruída que Portugal conheceu em toda a sua história. 
Quem desmerece o que conseguimos nestas quatro décadas comete a pior das injustiças: a ingratidão consigo próprio. Em 40 anos fizemos o que a maioria das nações europeias levaram mais de um século a construir. 
Os três d's não eram três partes de um programa. Eram todos a mesma coisa. Não seria possível desenvolver Portugal e ter um Estado Democrático se teimássemos na guerra colonial. Num país tão atrasado e desigual, o desenvolvimento só foi possível porque os portugueses o exigiram no uso da sua liberdade. E a construção da democracia, numa nação que nunca a conhecera realmente, só prevaleceu porque trouxe bem estar. E o Estado Social foi o mais poderoso motor desta democratização tardia.
Quem acredita que a democracia vingaria no meio da miséria julga que ela se impõe pela sua indiscutível bondade. Que a história é justa e os povos sábios. Não, ela só resiste se conseguir garantir as condições materiais para o seu exercício. 
Nenhuma democracia sobrevive à destruição da classe média e ao empobrecimento geral da população. Nem à completa instabilidade social, imprevisibilidade pessoal e insegurança laboral. Nenhuma democracia sobrevive sem a confiança dos cidadãos no Estado e essa confiança depende, pelo menos em Portugal, do Serviço Nacional de Saúde, da Segurança Social e da Escola Pública. Nenhuma democracia sobrevive a um discurso castigador do poder, à ausência de esperança, a uma intervenção externa sem fim à vista e ao discurso da inevitabilidade, que torna as eleições numa mera formalidade sem conteúdo.
Quando se diz que os valores do 25 de Abril estão em perigo constata-se uma evidência: se o nosso caminho é empobrecer, temos de nos preparar para viver sem liberdade. Porque uma nação é como uma cidade: se à nossa volta só houver a miséria e o caos, até os mais ricos estão condenados a viver cercados por muros.

Sobre o esclarecedor discurso de Cavaco Silva no Parlamento escreverei na edução de amanhã do Expresso. 


era uma vez uma terra feliz e próspera..

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GENIAL! Um vídeo a não perder!

  
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publicado no Youtube por Alcides Santos, aqui

«Taxar os ricos: Um conto de fadas animado, narrado por Ed Asner, com animação de Mike Konopacki. Escrito e dirigido por Fred Glass para a Federação de Professores da Califórnia. Um vídeo de 8 minutos sobre como chegámos a este momento de serviços públicos mal financiados e ampliando a desigualdade econômica. As coisas vão para baixo numa terra feliz e próspera após os ricos decidirem que não querem pagar mais impostos. Dizem às pessoas que não há alternativa, mas as pessoas não têm assim tanta certeza. Esta terra tem uma semelhança surpreendente com a nossa terra. »

Para mais informações, www.cft.org.
O vídeo original está em http://www.youtube.com/watch?v=S6ZsXr...

25/04/13

carta do soldado Renato


de Marc Chagall
À da Canda, amor, aos morros do Seixel vai demoradamente fixar-se a amargura das noites de guerra.
Calambata, sabes?, é uma trégua fuzilada, um morto que não morre mas adormece. Aqui o tens vivo, as mãos fechadas sobre a sua metralhadora. Pior do que estar de sentinela, pior que tudo são as chamas ao longe, os olhos que me vigiam. Sente-se um homem espiado pelas próprias árvores, ouvindo carrilhões impossíveis na calada da noite. 
Escrevo-te, amor, por não saber nem o dia nem a hora. Com o medo de estar apenas vivendo à beira do medo. Que escrevo. Colunas partem à Magina, recebem de volta a notícia dos ataques aos quartéis do Norte, o M'Pozo, a Mama Rosa, a Madimba, o Luvo, e a gente pensa que há-de ser um dia também a destruição de Calambata, amor. Amor, diz-se já que Calambata é apenas o som da nossa respiração: ama-se a vida devagarinho, como nos repugna o cheiro a bálsamo dos mortos que partem a qualquer hora do dia. Palavras dispersas pingam da infusa do silêncio. Palavras. As palmeiras, por exemplo. Os imbondeiros, as mulembas. Perderam a memória dos séculos. 
Um dia, amor, as armas serão somente objectos de museu: os campos hão-de lavrar-se com charruas, nas oficinas trabalharão bigornas, puas, enxós, o esmeril das mãos que nos combateram, e a piaçaba dos cabelos encher-se-á da poeira das madeiras, nas serrações. Era bom, amor, que se ouvissem os guindastes nos cais, os alcatruzes das noras, o uivo do vento nas grandes searas do Sul. Bom que o mar erguesse a voz um pouco acima do sal até à alegria das lágrimas. 
Amor, é provável que não existam brancos inimigos nas picadas de Nambuangongo. Os brancos não podem, amor, continuar, aqui nas serras da Calambata, a alimentar a morte das minas, dos morteiros e dos canhões. Será chegado o tempo, de se cobrirem as crateras das granadas, de despoletar os trilhos, de pintar os furos das balas no corpo das árvores da Binda. 
Por isso te escrevo, amor, antes da minha morte. Nunca pisei uma lavra de milho ou mandioca, sabes? Escrevo. Não chicoteio o suor do negro da tonga. Não troco meu sapato velho, minha cerzida camisa, meu garrafão de aguardente, pelo corpo da menina no alembamento.
Escrevo, amor: reconstruí vós as sanzalas de quantos se foram embora, para que possam ainda regressar, viver. Pergunta-lhes por mim, amor. O que fazia. O que inventava por vezes. O que escrevi eu aqui. 
Que branco caçambuleiro esse, que diferente estava me chamar ainda?
Que branco esse, polícia lhe tinha raiva, lhe estava sempre xingar a voz da denúncia, quase mesmo ia caindo na prisão do esquecimento?
Que branco, amor? 
Minha pele tem o ardor das anchovas da ração de combate, da pasta de fígado (os perseguidos guerrilheiros sul-africanos, lembras-te, amor?). Mas tudo isso eu fui trocando pelo desejo e pelo gosto da moamba de galinha e pelo ácido do abacaxi com pancadinha discreta na curva do ombro, como a dizer: coragem! 
É o que escrevo aqui, sentado na noite. No sítio onde estou, amor. De frente para os morros que cercam Calambata cercada de guerra pelo Norte. A pensar, amor, que há em mim um morto que não morre. 

João de Melo
in Autópsia de Um Mar de Ruínas (da guerra colonial em Angola)

24/04/13

Salgueiro Maia, depoimento


"A marcha para o Carmo foi extraordinária pelo apoio popular que agregou, que contribuiu bastante para que o Carmo perdesse a vontade de resistir. Nunca tinha visto o povo a manifestar-se assim.
No Carmo, ao chegar, houve desde senhoras a abrir portas e janelas para colocar os homens nas posições dominantes sobre o Quartel, até ao simples espectador que enrouquecia a cantar o Hino Nacional. 
O ambiente que lá se viveu foi de tal maneira belo que depois dele nada mais digno pode acontecer na vida de uma pessoa. 
Fernando Salgueiro Maia,
CAPITÃO DE ABRIL
HISTÓRIAS DA GUERRA DO ULTRAMAR E DO 25 DE ABRIL,
Notícias Editorilal/ Diário de Notícias, Lisboa, 1997, pp 94 e 100

De regresso ao passado


In "Público" de 24.4.13
por Santana Castilho


1. Nuno Crato, antes de ser ministro, tinha um farol para a Matemática: o TIMMS (Trends in International Mathemathics and Science Study), programa prestigiado internacionalmente, que, de quatro em quatro anos, mede os resultados do ensino da Matemática, num conjunto extenso de países. Clamava pela necessidade de entrarmos nessa roda, onde, em 1995, ocupámos um dos últimos lugares. Talvez por isso, ficámos de fora em 1999, 2003 e 2007. Voltámos em 2011, ano da Graça em que Crato passou a ministro e emudeceu em relação ao TIMMS. Porquê? Porque as pessoas que ele denegriu e os métodos que ele combateu fizeram história no seio do TIMMS. Portugal, em 2011, foi 15º em 50 países. Portugal foi o primeiro na escala que mediu o progresso: foi o país que mais progrediu no universo dos 50 classificados. Portugal foi melhor que a Alemanha, Irlanda, Áustria, Itália, Suécia, Noruega e Espanha, entre outros. E que fez Nuno Crato? Acabou com o programa de Matemática do ensino básico, que contribuiu para um sucesso a que não estávamos habituados. Substituindo qualquer avaliação fundamentada por juízos de valor, alicerçados no “achismo” que o caracteriza. Surdo à indignação dos docentes. Contra as associações de professores da disciplina. Com um comportamento autocrático, guiado pela sua nova luz: a do regresso às décadas do Estado Novo. 

Em linguagem imprecisa e discurso sem rigor, o ministro justifica que o novo programa, que não é ainda conhecido, virá “complementar as metas curriculares”, cujo uso tem tido “resultados muito positivos nas escolas”. Um programa “complementa” metas? As metas a que se refere, ou não estão a ser aplicadas ou suscitam a perplexidade dos professores, que vêem nelas um retrocesso metodológico. Por onde anda o ministro? De que fala? Quem o informa? 

O presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática admitiu que o novo programa irá originar uma confusão desnecessária. A Sociedade Portuguesa de Investigação em Educação Matemática, em sede de discussão pública das metas, em Julho passado, denunciou a incoerência que representavam, face ao programa vigente. João Pedro da Ponte, um dos autores do programa, considera que as metas estabelecidas para a disciplina configuram um recuo de décadas. No juízo que formulou é acompanhado pela presidente da Associação dos Professores de Matemática, organização que, em Março, ameaçou interpor nos tribunais uma acção para impedir a aplicação das metas, por conflituarem com o programa. O ministro parece ter actuado com impulso vingativo. Invocam conflito entre metas e programa? Corrigem-se as metas? Não! Muda-se o programa! 

Borda fora, irresponsavelmente, vão milhares de horas de formação de professores e o envolvimento de anos de um enorme conjunto de instituições. Borda fora, levianamente, vai o financiamento de uma acção que deu resultados, internacionalmente reconhecidos. Borda fora irão os manuais escolares, há pouco aprovados. E alunos e professores aguentarão mais um experimentalismo, pedagogicamente criminoso, decidido por um rematado incompetente. 


2. Correm rios de tinta sobre o concurso de professores. Não repetirei o que é público, o que os directores mais corajosos já denunciaram e o que os mais informados já escreveram. Não há concurso nacional de professores. Há uma coreografia sinistra, uma espécie de dança macabra de lugares, para preparar um despedimento de mais 12.000 docentes. É isso que está em causa. Não as reais necessidades das escolas, muito menos as do país vindouro. As estatísticas disponíveis (DGEEC/MEC, PORDATA), permitem concluir que tínhamos no sistema público de ensino não superior, em 2000, 1.588.177 alunos para 146.040 professores. Em 2011 (últimos dados disponíveis), passámos a ter 1.528.197 alunos para 140.684 professores. Ou seja, o sistema perdeu 59.980 alunos e 5.356 professores, mantendo-se a relação professor/alunos. Não há dados publicados referidos ao momento presente. Mas sabemos que a alteração da escolaridade obrigatória terá considerável impacto na necessidade de professores, sendo certo que a invocada diminuição da natalidade não é expressiva entre 2011 e 2013. E o que aconteceu ao número de professores? Considerando os contratados e os que saíram do sistema, teremos, hoje, cerca de 111.600. Em dois anos, perdemos 29.084 professores. Diminuição da natalidade? Sejam honestos: exclusiva preocupação com a redução de custos, sem nenhuma sensibilidade para o futuro. Porque temos 3.500.000 portugueses com mais de 15 anos, que não têm qualquer diploma ou apenas concluíram o ensino básico. Porque temos 1.500.000 portugueses, entre os 25 e os 44 anos, que não concluíram o ensino secundário. Porque, apesar dos progressos, persiste uma Taxa de Abandono Precoce de 27,1%, a maior da Europa. Porque estamos de regresso ao passado.

23/04/13

hands off, troika!


publicado aqui em 20/04/2013
Esta semana os deputados europeus da esquerda manifestaram-se contra a troika. A revolta contra a austeridade já chegou ao Parlamento Europeu. Esta foto está a correr a Europa toda, mas alguém a viu na imprensa portuguesa ?

"Portugal suicidado"

tirando a guerra colonial, o retrato - desenhado magistralmente pela voz do saudoso Ary dos Santos - é um passado revisitado ..
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Zeca Afonso, mandato de captura pela PIDE

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no tempo do Estado Novo .. 3 anos antes da revolução de 25 de Abril de 1974 :



A dívida e o crescimento

Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff argumentaram que os países mais endividados têm menor crescimento. Ora, o artigo que escreveram está errado. Um artigo crítico demonstra como o crescimento (e a dívida) variam intensamente com o ciclo económico. 

Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff, ela académica e ele ex-quadro de topo do FMI, publicaram um livro influente sobre a dívida ao longo da história (“This Time is Different”, já foi traduzido em português). Já citei esse livro quanto à sua demonstração de que quase todos os países desenvolvidos já renegociaram e reestruturaram unilateralmente as suas dívidas, quando precisaram de o fazer.
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Mas o que agora está sob grande atenção pública nos Estados Unidos é outro argumento: o de que os países mais endividados têm menor crescimento, que resumiram num artigo com grande impacto, "Growth in a Time of Debt". Os republicanos têm citado esse artigo para fundamentarem a sua proposta de proibição de acréscimos da dívida pública.
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Ora, o artigo está errado. A sua base de dados foi mal concebida, a folha Excel em que fizeram os seus cálculos foi mal programada, a estatística é defeituosa e as conclusões não são verdadeiras. Michael Ash, o diretor do departamento de economia da Universidade de Amherst em Massachussets, com dois colegas, publicou uma crítica devastadora sobre o trabalho de Reinhart e Rogoff: http://www.peri.umass.edu/236/hash/31e2ff374b6377b2ddec04deaa6388b1/publication/566/
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O que esta crítica demonstra é que os países estudados e com mais de 90% de rácio de dívida/PIB não tiveram, entre 1946 e 2009, um crescimento médio de -0.1% (como tinham calculado Reinhart e Rogoff) mas sim de 2.2%. Esse crescimento foi menor do que o dos países sem dívida significativa (que atingiu 4.2%): foi cerca de metade. Mas houve crescimento e, portanto, a dívida alta pode não estar relacionada com o colapso da economia: simplesmente, depende de como é paga, do juro, do financiamento futuro e das decisões económicas e políticas. Para mais, há diversas razões para as diferenças entre as taxas de crescimento e podem ser o inverso do que sugerem Reinhart e Rogoff: o crescimento baixo alimenta a dívida, porque pequena receita fiscal cria défice. Ou a sangria provocada pela perda de recursos públicos para o pagamento da dívida, despesa que pode não ter efeito na economia nacional, acentua as dificuldades e as recessões.
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Por outro lado, este artigo crítico demonstra como o crescimento (e a dívida) variam intensamente com o ciclo económico: de 1946 para cá houve um período de grande crescimento e vários períodos de recessão intensa e de desaceleração. E reforça portanto o argumento contra a austeridade, que está a criar a recessão de 2013.

22/04/13


  

se Portugal tivesse mar..


por JOÃO QUADROS . NEGÓCIOS ONLINE

"Os dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística (INE) demonstram que o Pingo Doce (da Jerónimo Martins) e o Modelo Continente (do grupo Sonae) estão entre os maiores importadores portugueses."

Porque é que estes dados não me causam admiração? Talvez porque, esta semana, tive a oportunidade de verificar que a zona de frescos dos supermercados parece uns jogos sem fronteiras de pescado e marisco.
Uma ONU do ultra-congelado. Eu explico.
Por alto, vi: camarão do Equador, burrié da Irlanda, perca egípcia, sapateira de Madagáscar, polvo marroquino, berbigão das Fidji, abrótea do Haiti?

Uma pessoa chega a sentir vergonha por haver marisco mais viajado que nós. Eu não tenho vontade de comer uma abrótea que veio do Haiti ou um berbigão que veio das exóticas Fidji. Para mim, tudo o que fica a mais de 2.000 quilómetros de casa é exótico. Eu sou curioso, tenho vontade de falar com o berbigão, tenho curiosidade de saber como é que é o país dele, se a água é quente, se tem irmãs, etc.

Vamos lá ver. Uma pessoa vai ao supermercado comprar duas cabeças de pescada, não tem de sentir que não conhece o mundo. Não é saudável ter inveja de uma gamba. Uma dona de casa vai fazer compras e fica a chorar junto do linguado de Cuba, porque se lembra que foi tão feliz na lua-de-mel em Havana e agora já nem a Badajoz vai. Não se faz. E é desagradável constatar que o tamboril (da Escócia) fez mais quilómetros para ali chegar que os que vamos fazer durante todo o ano.

Há quem acabe por levar peixe-espada do Quénia só para ter alguém interessante e viajado lá em casa. Eu vi perca egípcia em Telheiras. Fica estranho. Perca egípcia soa a Hercule Poirot e Morte no Nilo. A minha mãe olha para uma perca egípcia e esquece que está num supermercado e imagina-se no Museu do Cairo e esquece-se das compras. Fica ali a sonhar, no gelo, capaz de se constipar.

Deixei para o fim o polvo marroquino. É complicado pedir polvo marroquino, assim às claras. Eu não consigo perguntar: "tem polvo marroquino?", sem olhar à volta a ver se vem lá polícia. "Queria quinhentos de polvo marroquino" - tem de ser dito em voz mais baixa e rouca. Acabei por optar por robalo de Chernobyl para o almoço. Não há nada como umas coxinhas de robalo de Chernobyl.

Eu, às vezes penso:
O que não poupávamos se Portugal tivesse mar.

(TEXTO ESCRITO EM COMPLETO DESACORDO ORTOGRÁFICO)
POESIA III


Hoje acordei na dispersão cinzenta
dum dia decepado...Com o corpo dividido,
as imagens sem olhos,
os gestos a fugirem-me dos dedos
- e a sombra esquecida no quarto ao lado.


Desatado de mim,
andei todo o dia assim
com os passos nas nuvens,
os pés na terra,
as mãos a estrangularem o nevoeiro,
e os olhos... Ah! os meus olhos onde estão?


(Só há momentos me encontrei por inteiro
num charco a evaporar-se do chão...)


JOSE GOMES FERREIRA

comemorar o 39º aniversário do 25 de Abril

ESCLARECIMENTO

O Conselho Executivo da Escola Secundária Vitorino Nemésio vem, por esta forma, esclarecer a comunidade escolar, órgãos de comunicação social e a quem possa interessar, que a ordem de serviço em que se determinava o fim das turmas mistas e a separação por sexos no espaço escolar foi, desde o início, forjada para obter exactamente o efeito que se pretendia para comemorar o 39º aniversário do 25 de Abril: uma indignação o mais generalizada possível. 

Uma medida que seria inconstitucional e ilegal, para além de o órgão executivo da escola nem ter competência para a implementar, revoltou alunos, professores, funcionários, pais e encarregados de educação . Os alunos indignaram-se nas salas de aula, povoaram corredores com desejos de manifestação imediata. A Associação de Estudantes reuniu a fim de tomar posição. Os jovens abriram uma página no facebook para promover um evento de contestação à medida, havendo comentários do género “nunca vi um evento juntar tanta gente”. Os pais mobilizaram-se, alertaram órgãos de comunicação social e membros do governo. E tudo isto perante uma decisão que seria IMPOSSÍVEL DE IMPLEMENTAR nos nossos dias, em que vivemos em democracia e liberdade. 

Repare-se estar em causa uma medida que vigorava há apenas 39 anos. Mas não passa pela cabeça de ninguém que pudesse haver qualquer retrocesso no caminho da igualdade entre os cidadãos deste País. Ninguém pode ser discriminado em função do sexo, assim dispõe a Constituição. Mas se é assim, é-o apenas porque muitos lutaram para assim ser. A única forma de lutarmos pelos nossos direitos é termos a consciência de que houve um tempo em que não os tínhamos . E termos como certo que, se não os defendermos, poderemos perdê-los. 

Não se tratou, assim, de uma brincadeira. Tratou-se, sim, de uma coisa muita séria : comemorar o Dia da Liberdade, que se aproxima, não de uma forma morna, de calendário, mais um feriado, mas sim de forma activa, empenhada, de consciência. Aliás, no dia 24 de Abril, haverá um recital de poesia no Auditório da Escola, em que alunos e professores dirão poemas alusivos à Liberdade. 

O Conselho Executivo congratula - se por toda a indignação que a sua “medida” originou. O que se pretendia foi atingido. Desejamos todos que qualquer atentado aos nossos direitos fundamentais tenha, por parte dos atingidos, este tipo de reacção. Porque a Liberdade não é uma palavra. É um compromisso de presente, visando o futuro. Que nos indignemos perante os direitos que podemos perder. Que nos indignemos pelos direitos que já perdemos nos últimos 39 anos, e que todos julgávamos adquiridos para sempre. E não deixa de ser irónico que se tenham revoltado tanto perante DIREITOS IMPOSSÍVEIS DE PERDER tantos cidadãos que aceitaram sem grande indignação A PERDA DE DIREITOS QUE EFECTIVAMENTE JÁ NÃO TÊM , embora os julgassem adquiridos. 

Viva a Liberdade.
fonte

18/04/13

.. uns caloteiros, estes alemães! - dívidas da 1ª guerra

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in Expresso.Sapo

Alemanha deve 2,3 mil milhões de euros a Portugal 
por indemnizações da I Guerra 

por Paulo Gaião
Sexta, 12 de Abril de 2013 
img. daqui


Não é só a Grécia que tem dinheiro a receber da Alemanha por indemnizações da II Guerra Mundial. 

Portugal também é credor da Alemanha por compensações financeiras da I Guerra. 

O historiador Filipe Ribeiro de Meneses recorda que o Tratado de Versalhes fixou em cerca de mil milhões de marcos-ouro o valor a pagar pela Alemanha a Portugal. Porém, "pouco deste dinheiro entrou nos cofres do Estado devido às sucessivas revisões da dívida alemã" adianta o historiador. 

Este valor de mil milhões de marcos-ouro corresponderá hoje a cerca de 2,3 mil milhões de euros, o equivalente a 1,8 do PIB português (números apurados pelo jornalista do Expresso João Silvestre). 

Dava para cobrir o valor do chumbo do Tribunal Constitucional às normas constitucionais do OE 2013 e ainda sobravam mil milhões de euros. 

Filipe Ribeiro de Meneses relembra que as pretensões de Afonso Costa, representante português em Versalhes, em relação à Alemanha eram de 8 mil e 500 milhões de marcos-ouro, oito vezes mais que o valor obtido, "pois a guerra tinha causado - alegadamente - a morte de 273.547 portugueses da metrópole e colónias, uma cifra que os Aliados rejeitaram por completo". 

Afonso Costa ainda recorreu à arbitragem internacional mas a Alemanha acabou por ganhar a batalha legal.

Parece evidente que Portugal apresentou números de vítimas de guerra totalmente fantasiosos (terão morrido na I Guerra Mundial entre 10 mil e 15 mil portugueses) mas os valores monetários apurados no Tratado de Versalhes também deverão estar áquem do que Portugal teria direito mas que como país pouco influente não teve peso para impor. 

Portugal recebeu apenas 0,75 do total das compensações financeiras a serem pagas pela Alemanha, segundo refere Ribeiro de Meneses. Mais um factor que a Alemanha terá que ponderar quando chegar a altura de o nosso país renegociar o actual pacote de resgate financeiro. [terá / teria / mas não vai!, digo eu..]

a Europa em 1914 (antes da guerra)
 A primeira Grande Guerra: 1914 - 1918

Para quem queira saber da 1ª Guerra Mundial (e devíamos, todos..), aqui ficam as ligações para dez capítulos de um documentário com a garantida qualidade da BBC.
Até agora, vi todo o primeiro 'capítulo' e partes do último. 
As minhas notas: 
  • quem começa a guerra é a Áustria-Hungria (assim lhe chamam) em retaliação pelo assassinato do herdeiro do império (ironicamente um acérrimo defensor da paz nos Balcãs) . 
  • A Áustria-Hungria pede apoio à Alemanha, prevenindo um ataque da Rússia, principal aliada da Sérvia (o país a que a Áustria-Hungria declara guerra), mas também da França. 
  • No 10º capítulo já não se fala da "Áustria-Hungria". É a Alemanha que, no fim, aparece como a grande responsável pala Primeira Grande Guerra: não vi ainda o que mudou entretanto para alterar protagonismos.. [da Wikipedia: Desastrosa durante grande parte da guerra, a participação italiana acabou sendo importante, na medida em que o país derrotou e forçou o Império Austro-Húngaro à capitulação na batalha de Vittorio Veneto, causando a desagregação do mesmo. A capitulação da Áustria-Hungria foi um duro golpe na Alemanha, que passaria a lutar sozinha - fonte]
  • É aqui (10º e última parte) que se fala de compensações a pagar aos 'Aliados', condições de rendição tão duras para a Alemanha, que explicariam o germinar do nacional-socialismo, que viria a dar origem à 2ª guerra mundial, isto depois de quase 20 anos de uma república democrática (a República de Weimar, instituída depois de o kaiser se exilar na Holanda)
  • O armistício é assinado em 11 de Novembro, 1918. 
  • A população alemã festejou nas ruas o armistício e celebrou o derrube do seu kaiser. O próprio exército se virou contra ele e recusou investir sobre os manifestantes revolucionários que exigiam o fim da guerra, corria o ano de 1918. 

a Europa em 1919 (depois da guerra)
Bem interessante! A bem dizer, um documentário a não perder por inteiro! São 10 capítulos legendados em português-brasileiro, cada um durando cerca de 50 minutos.
do youtube:
«Excelente série de documentários da TV Inglesa BBC sobre o Primeiro Grande Conflito Mundial, que ocorreu entre os anos de 1914-1918. Diferentemente dos documentários produzidos até hoje, que sempre retrataram a Primeira Guerra Mundial sob a óptica norte-americana, este retrata diferentes visões do conflito, mostrando a guerra na Rússia, na Arábia, em África, entre outros países. A Primeira Guerra Mundial não se ateve somente aos seus 4 anos cronológicos, teve conseqüências muito graves para além dos milhares de mortes que causou. A pior dessas conseqüências foi a preparação para o maior conflito armado que a humanidade já viveu.»

1ª parte: 
2ª parte: 
3ª parte: 
4ª parte (onde, nos países do império Otomano, se fala já em Jihad!): 
5ª parte: 
6ª parte: 
7ª parte: 
resumo aqui
8ª parte (onde se fala em revoluções no interior dos países envolvidos na guerra- e da vontade de lhe pôr fim; os revolucionários dos respectivos países passaram a ser encarados como "o inimigo número um", mais ainda que os países do 'outro lado' *)- 1917: as tropas russas param de lutar 
9ª parte: a última jogada da Alemanha (basicamente p/ dar cabo dos ingleses) 
10ª parte: 

* tal como, de resto, viria a acontecer na 2ª Guerra Mundial: a enorme desconfiança em relação à aliada União Soviética culminando na prova de força "indispensável" que constituiu o lançamento das duas bombas atómicas no Japão (a de Nagasaki apenas 3 dias depois da  terrível, chocante devastação de Hiroxima!) - um acto terrorista de que os EUA não se retrataram nunca!

1ª Grande Guerra em espanhol, com boas fotos:
nas trincheiras, c/ máscaras anti-gás
http://html.rincondelvago.com/primera-guerra-mundial_33.html
Confederação Germânica
Áustria-Hungria 
Império Russo
Império Otomano
Sérvia
cronologia da 1ª Guerra Mundial

No Congresso de Viena de 1815 (que estabeleceu o Concerto da Europa como uma tentativa de conservar a paz depois dos anos das Guerras Napoleónicas), estiveram presentes as 'grandes potências' europeias da época: Reino Unido, Áustria, Prússia, França, e Rússia -- fonte

Os objectivos que levaram os responsáveis políticos portugueses a entrar na guerra saíram gorados na sua totalidade. A unidade nacional não seria conseguida por este meio e a instabilidade política acentuar-se-ia até à queda do regime democrático em 1926. -- fonte
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17/04/13

Assembleia Popular no 25 de Abril

daqui:
https://www.facebook.com/events/564410356913869/?notif_t=plan_user_invited 

«Aproxima-se o 25 de Abril e a realização da Assembleia Popular que se deseja aconteça nesse dia no Largo do Carmo pelas 18H30
Nesse sentido uma vez mais se convidam todos os cidadãos, grupos e movimentos sociais a se juntarem para acertar os detalhes daquilo que queremos seja uma Assembleia, livre e participada e onde todos possam manifestar as suas opiniões e apresentar as suas propostas e alternativas. A tua presença é importante. Aparece e colabora. Todos nunca seremos demais. »
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Assembleia Popular 25 de Abril

eu quero um Mujica aqui!

img. daqui

Protesto-relâmpago no Ritz contra a troika

O grupo Que se Lixe a Troika convocou uma "ação-relâmpago" para o fim da tarde de ontem em frente ao hotel de luxo onde estão hospedados os emissários da troika.

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16/04/13

Clarice Lispector

Oportunidade para lembrar esta escritora fantástica, numa altura em que a Gulbenkian lhe rende também homenagem com uma exposição: CLARICE LISPECTOR, "A Hora da Estrela" (3ª-dom, das 10h às 18h | de 5 Abr a 23 Jun) ..

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«Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro. »
«Sou como você me vê. Posso ser leve como uma brisa, ou forte como uma ventania, depende de quando, e como, você me vê passar!».
«Não me dêem fórmulas certas, porque eu não espero acertar sempre. Não me mostrem o que esperam de mim, porque vou seguir meu coração. Não me façam ser quem não sou. Não me convidem a ser igual, porque sinceramente sou diferente. Não sei amar pela metade. Não sei viver de mentira. Não sei voar de pés no chão. Sou sempre eu mesma, mas com certeza não serei a mesma para sempre...» 
«Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada... Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro...»
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1920: Nasce Clarice Lispector, no dia 10 de dezembro [.. como uma que eu cá sei ..] de 1920, em Tchechelnik, uma aldeia da Ucrânia, terra de seus pais, Pedro e Marieta Lispector. - 1921: Em fevereiro, com apenas dois meses, chega a Maceió, Alagoas, com seus pais e suas duas irmãs, Elisa e Tânia. E o português do Brasil será a língua materna da menina Clarice.
(biografia: vidas lusófonas e releituras)

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CLARICE LISPECTOR (10/12/1920 - 9/12/1977) continua sendo algo estranho e fascinante na literatura brasileira. Dotada de especial sensibilidade, sua preocupação maior nunca esteve no enredo, no linear das coisas. Exigiu, ao contrário, que o leitor se entregasse em meditação à aventura de ler, se quisesse desfrutar da profundidade dos conceitos que se multiplicavam.

Alguém chegou mesmo à ousadia de dizer que CL era uma grande escritora à procura de um tema  ( ... )




Clarice Lispector: uma cosmovisão
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AQUI e AGORA
Estou tentando captar a quarta dimensão do instante-já. Meu tema é o instante? Meu tema de vida. Procuro estar a par dele, divido-me milhares de vezes, em tantas vezes quanto os instantes que decorrem, fragmentária que sou e precários os momentos – só me comprometo com a vida que nasça com o tempo e com ele cresça: só no tempo há espaço para mim.
Domingo é o dia dos ecos – quentes, secos, e em toda a parte zumbidos de abelhas e vespas, gritos de pássaros e o longínquo das marteladas compassadas – de onde vêm os ecos de domingo? Eu que detesto domingo por ser oco.
Nada existe de mais difícil do que entregar-se ao instante. Esta dificuldade é dor humana. É nossa. Eu me entrego em palavras e me entrego quando pinto.

ASPIRAÇÃO – I
Quero apossar-me do é da coisa.
Quero possuir os átomos do tempo.
Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero uma verdade inventada.
Mas bem sei o que quero aqui: quero o inconcluso. Quero a profunda desordem que no entanto dá a pressentir uma ordem subjacente.
Um dia eu disse infantilmente: eu posso tudo. Era a antevisão de poder um dia me largar e cair num abandono de qualquer lei. Elástica.


EROS
Só no ato do amor – pela límpida abstração de estrela do que se sente – capta-se a incógnita do instante que é duramente cristalina e vibrante no ar e a vida é esse instante incontável, maior que o acontecimento em si.
No amor o instante de impessoal jóia refulge no ar, glória estranha de corpo, matéria sensibilizada pelo arrepio de instantes.
Escuta: eu te deixo ser, deixa-me ser então.
O anel que tu me deste era de vidro e se quebrou e o amor acabou. Mas às vezes em seu lugar vem o belo ódio dos que se amaram e se entredevoraram.
Olha para mim e me ama. Não: tu olhas para ti e te amas. É o que está certo.

VERBUM – I
A palavra é a minha quarta dimensão.
O que pintei nessa tela é passível de ser fraseado em palavras? Tanto quanto possa ser implícita a palavra muda no som musical.
E eis que percebo que quero para mim o substrato vibrante da palavra repetida em canto gregoriano.
Minhas desequilibradas palavras são o luxo do meu silêncio.
O que te falo nunca é o que te falo e sim outra coisa. 
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compilado por Márcio José Lauria

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Clarice ...  por ...  Clarisse:
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Temperamento impulsivo
“Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever? Acho que assim: vem-me uma idéia ou um sentimento e eu, em vez de refletir sobre o que me veio, ajo quase que imediatamente. O resultado tem sido meio a meio: às vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham, às vezes erro completamente, o que prova que não se tratava de intuição, mas de simples infantilidade. Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E até que ponto posso controlá-los. [...] Deverei continuar a acertar e a errar, aceitando os resultados resignadamente? Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta? E também tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura. Vou pensar no assunto. E certamente o resultado ainda virá sob a forma de um impulso. Não sou madura bastante ainda. Ou nunca serei.”

Lúcida em excesso
“Estou sentindo uma clareza tão grande que me anula como pessoa atual e comum: é uma lucidez vazia, como explicar? assim como um cálculo matemático perfeito do qual, no entanto, não se precise. Estou por assim dizer vendo claramente o vazio. E nem entendo aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior do que eu mesma, e não me alcanço. Além do quê: que faço dessa lucidez? Sei também que esta minha lucidez pode-se tornar o inferno humano — já me aconteceu antes. Pois sei que — em termos de nossa diária e permanente acomodação resignada à irrealidade — essa clareza de realidade é um risco. Apagai, pois, minha flama, Deus, porque ela não me serve para viver os dias. Ajudai-me a de novo consistir dos modos possíveis. Eu consisto, eu consisto, amém.”.
C.L. pintada por Giorgio de Chirico

Ideal de vida
“Um nome para o que eu sou, importa muito pouco. Importa o que eu gostaria de ser. O que eu gostaria de ser era uma lutadora. Quero dizer, uma pessoa que luta pelo bem dos outros. Isso desde pequena eu quis. Por que foi o destino me levando a escrever o que já escrevi, em vez de também desenvolver em mim a qualidade de lutadora que eu tinha? Em pequena, minha família por brincadeira chamava-me de ‘a protetora dos animais’. Porque bastava acusarem uma pessoa para eu imediatamente defendê-la. [...] No entanto, o que terminei sendo, e tão cedo? Terminei sendo uma pessoa que procura o que profundamente se sente e usa a palavra que o exprima. É pouco, é muito pouco.”
ler mais:

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Não entendo
Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender.
Entender é sempre limitado.
Mas não entender pode não ter fronteiras.
Sinto que sou muito mais completa quando não entendo.
Não entender, do modo como falo, é um dom.
Não entender, mas não como um simples de espírito.
O bom é ser inteligente e não entender.
É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida.
É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice.
Só que de vez em quando vem a inquietação:
quero entender um pouco.
Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.

Clarice Lispector
(1920-1977)

retirado daqui
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Perdoando Deus

“ Porque eu me imaginava mais forte. Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria – e não o que é. É porque ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele.”- CL
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Em 1° de fevereiro de 1977, Clarice comparece aos estúdios da TV Cultura, canal 2, em São Paulo, para um debate e acaba concedendo entrevista ao jornalista Júlio Lerner para o programa Panorama Especial. No entanto, pede ao entrevistador que a entrevista só vá ao ar após a sua morte. Este se tornaria o único registro audiovisual da autora, que aí se mostra reservada, imprevisível e extremamente angustiada. O pedido foi atendido e a TV Cultura só exibiu a entrevista no dia 28 de dezembro, 19 dias após a sua morte.
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No total são 5 vídeos que emocionam os fãs de Clarice Lispector.
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Parte 1 - http://www.youtube.com/watch?v=9ad7b6kqyok
Parte 2 - http://www.youtube.com/watch?v=TvLrJMGlnF4
Parte 3 - http://www.youtube.com/watch?v=2Orgxd9bD_c
Parte 4 - http://www.youtube.com/watch?v=ptCJzf20rbY
Parte 5 - http://www.youtube.com/watch?v=TbZriv5THpA
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- Clarice Lispector por Aracy Balabanian (ouvir!)
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