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04/11/14

podemos? .. não podemos? ..

retirado do facebook,

por António Pinho Vargas

O que é que o Podemos pode e nós não podemos? (a hierarquia de medos) 
Têm sido publicadas análises várias da sondagem de Espanha e da situação política de países do resto da Europa, comparando-as com a fixidez do sistema partidário português. Importantes as de André Freire e, hoje no i, de Nuno Ramos de Almeida, "Há razões para não podermos?". Julgo que sim, que há razões.

Há algum tempo - há anos - fui escrevendo aqui da necessidade de uma aliança das esquerdas. O resultado foi um desastre e nenhuma aliança nas Europeias.

Posso apontar o que me parece sobre as razões da especificidade: 
1. O "salazarismo está vivo nos nossos corações": hoje mesmo leio que o director obscuro da Faculdade de Direito de Coimbra, António Santos Justo, proibiu um debate entre Rui Tavares e Pedro Mexia porque "não quer ideologia na Faculdade". Leio e não acredito. O discurso-tipo de Cavaco - o político não-político que dissemina o discurso anti-políticos - dá os seus funestos resultados. Cavaco com esse discurso vai ao encontro dos piores resquícios do tempo do regime da ditadura. "Discutir política é proibido" como se isso mesmo não fosse uma posição política de extrema direita. Discutir política é coisa de comunistas; governar é "a bem da Nação", "não é política". Uma vergonha sem nome. 
2. A existência do Partido Comunista; enquanto que nos outros países da Europa os PCs desapareceram, pura e simplesmente, o PCP mantém-se forte. Deste modo a clivagem Salazar-Cunhal, que marcou o século XX em Portugal prossegue. O Bloco - com todos os meus amigos lá - recupera aspectos idênticos da situação de 1968-75. Daqui resultou o imobilismo que algumas movimentações noutras esquerdas poderão romper nas próximas eleições. Julgo que a força do PC na sociedade e nos sindicatos foi, em Portugal, um obstáculo ao aparecimento de Siryzas e de Podemos. Quando se existe ocupa-se um espaço. 
3. As elites culturais não são elites nem são cultas e mantêm o quadro que marcou o regime fascista após 1945: a divisão entre "a situação" e "a oposição" para além de largas camadas de apolíticos secretos (de direita). O medo bipartido do antigo regime. Quem rompeu este bloqueio social e político foram os militares em 1974, convém lembrar. Depois de 1980 recreou-se uma nova hierarquia de medos que atravessa a sociedade de alto a baixo, nas empresas, nas escolas, nos hospitais, nos partidos. "Eles - sempre eles - é que mandam". 
4. A justiça. O número de presos e arguidos por corrupção em Espanha é enorme desde a filha do rei e o seu elegante marido, até muitos autarcas e financiadores ilegais de partidos. Em Portugal contam-se pelos dedos e todos os banqueiros envolvidos em escândalos, estão à espera das previsíveis prescrições, bem instalados em suas casas. A justiça não funciona em Portugal e esse facto favorece a hierarquia de medos e a prática da corrupção. Claro que deve existir "a presunçao de inocência", mas devia igualmente existir a presunção de condenação uma vez terminados os julgamentos. 
5. Nos próprios textos de André Freire e Nuno Ramos de Almeida - prezo os dois - se mostra a divisão que paralisa. O primeiro defende que "a esquerda radical deve deixar claro que quer governar". O segundo afirma que "o que as pessoas exigem é uma ruptura com aquilo que existe, não que se proponham comer à mesa do sistema". Ramos de Almeida admite adiante que "quem se opõe a este estado de coisas deve ter a ambição de governar e ocupar o lugar do poder para o tornar o lugar de todos" e antes escrevera "o problema dos partidos como o Bloco e o PC […] é terem sido incapazes de transformar uma maioria social numa maioria política" elogiando o Podemos por ter vontade de vencer, tendo uma "forte hegemonia na maioria da população". Veremos se sim ou não nas próximas eleições em Espanha. 
6. Mas a divergência anterior - governar com os partidos do sistema, leia-se o PS - ou governar contra ele - é justamente a causa que impede acordo, que paralisa e que impede o aparecimento da maioria política idêntica à maioria social. 
7. Finalmente uma sociologia empírica do olhar: julgo que as camadas mais pobres da população portuguesa, as mais atingidas pela crise, especialmente no norte do nosso país, tem uma ligação afectiva e política ao PS. Julgo que em Lisboa e arredores este facto é virtualmente invisível e incompreensível. Enquanto o PC tem primazia sindical histórica o PS, por razões certamente complexas, não sofreu, ao contrário de outros partidos similares europeus, o mesmo tipo de desmantelamento, e de desastre eleitoral. Mantém-se. Tomá-lo como "partido do sistema" é, por um lado, verdadeiro mas, por outro, continua a ser visto por muitos da camada mais frágil da população como o seu partido, como o único que os defende na prática nos momentos difíceis. Aqui reside outra particularidade deste país. Nesse sentido, o PS terá no próximo governo a sua última oportunidade de lhes dar uma resposta. 
8. Ao longe a triste União Europeia dos burocratas e dos neoliberais comandados pela Alemanha. O que conta muito.
António Pinho Vargas
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Ver:
Sondagem coloca Podemos à frente das intenções de voto em Espanha 
PÚBLICO 02/11/2014

20/10/14

"A PT – paradigma de uma época"

texto retirado do fb
postado por Mário Martins

de Rui Silvares, Amor à Pátria

A fabulosa história da PT, “campeã nacional” do empreendedorismo pátrio, acabou mal. 


Nos anos 90, alguns dos ministros de então, adivinhando o futuro das telecomunicações e com visão de negócio, reestruturaram as empresas públicas do sector e, com empenho patriótico, fundaram a PT para a… privatizar! Em 2002, deram-lhe 1.350 milhões em benefícios fiscais dispensando-a de pagar impostos nos anos seguintes, quando já se dizia não haver dinheiro para a Educação e para a Saúde por causa do défice. 

Como o negócio da PT era apetecível, a Sonae quis entrar no negócio e deu 5.800 milhões de euros (!) só de bónus para os acionistas votarem a sua OPA, mas a gerência da PT ofereceu-lhes um rebuçado maior - 6.200 milhões (!), o correspondente à totalidade do défice de Portugal na altura (!), e ganhou. Depois, com a ajuda de Sócrates, a PT vendeu a brasileira Vivo (razão do benefício fiscal) na Holanda para não pagar impostos, e o governo, sempre amável, ainda ofereceu mais 270 milhões devidos ao fisco pelas mais-valias aos grandes accionistas. 

Agora, descapitalizada (para não dizer roubada) pelos seus principais administradores que, com o peito cheio de prémios internacionais (afinal tudo se compra...), amigavelmente atiraram 900 milhões para o buraco dos Espirito Santo enquanto debitavam, nos intervalos, a moral do neoliberalismo da moda, a PT passou a peça sobrante da OI brasileira que a pôs à venda a preços de saldo, entregando a estrangeiros mais um sector estratégico nacional. Entretanto, milhares de milhões de euros foram pagos a accionistas e gestores da PT ou perdidos em benefícios fiscais que deixaram de entrar nos cofres públicos e a PT foi à vida. 

Afinal, quem beneficiou com a sua privatização? O Zé Povinho que viveu acima das suas possibilidades? 

E terão a coragem de dizer que não houve alternativa? 

Jorge F. Seabra

26/09/14

a política da trafulhice

no Público,
26/09/2014

por Pedro Sousa Carvalho 


Este mês de Setembro tem sido uma fartura de notícias de titulares ou ex-titulares de cargos políticos que foram condenados, acusados ou são suspeitos de negócios ou comportamentos menos claros envolvendo a política e negócios. 

O primeiro caso foi o de Armando Vara. Condenado a cinco anos de prisão por três crimes de tráfico de influência. Os juízes deram como provado que o ex-ministro adjunto recebeu 25 mil euros de um sucateiro como compensação pelas diligências por si empreendidas a favor das suas empresas. 

O segundo caso foi o de Maria de Lurdes Rodrigues. Condenada a uma pena suspensa de prisão de três anos e meio e ainda a pagar ao Estado 30 mil euros por ter violado a lei, ao contratar por ajuste directo, quando era ministra da Educação, o irmão do dirigente socialista Paulo Pedroso. Os juízes consideraram provado que a não existência de concurso público foi motivada por afinidades pessoais e político-partidárias. 

O terceiro caso foi o de Luís Filipe Menezes. Não foi condenado e nem é acusado. Mas a Visão diz que a Justiça está a investigar várias alegadas irregularidades nas estruturas locais e nacionais do PSD, nomeadamente em Gaia, no tempo em que Menezes era o presidente da câmara. Um caso onde alegadamente há de tudo: ajustes directos e concursos para campanhas do PSD, contas e facturas que não batem certo, contratações de agências de comunicação e empresas, e transferências bancárias pouco transparentes. 

O quarto caso é o de Passos Coelho. Também não foi acusado e muito menos condenado. Mas ao longo da semana avolumaram-se suspeitas, já que o primeiro-ministro continua sem esclarecer se recebeu ou não dinheiro da Tecnoforma numa altura em que era deputado, aparentemente em regime de exclusividade. E a existir esses pagamentos se foram ou não declarados ao Fisco, partindo do princípio que deveriam ter sido. 

Confrontado pelos jornalistas, Passos limitou-se a dizer que não se recordava. Disse aquilo que os advogados aconselham os seus clientes a dizer para não se comprometerem, nem com a verdade, nem com a mentira. E não vale a pena argumentar, como fazia ontem Teresa Leal Coelho na TSF, que o primeiro-ministro não tem de dar explicações porque isso seria inverter o ónus da prova. Em política, quando os eleitos estabelecem um contrato de confiança com os eleitores, os crimes não prescrevem e a inversão do ónus da prova é uma obrigação moral. 

Este caso até é relativamente simples de resolver. Se o primeiro-ministro cometeu alguma ilegalidade no passado, demite-se. Aliás, como o próprio sugeriu que faria caso se viesse a detectar alguma ilegalidade. Muitos no passado nem sequer tiveram coragem de dizer isso. E depois desencadeia-se o processo político normal para empossar um novo primeiro-ministro. Se o país sobreviveu a três anos de troika, à queda de um grande banco e à demissão irrevogável de Paulo Portas também sobreviverá à queda de Passos Coelho. Caso haja uma explicação lógica, legal e convincente para as suspeitas, dada pelo próprio, pela Tecnoforma, pelo Fisco ou pelo Parlamento, o primeiro-ministro cumprirá o mandato para o qual foi eleito. E quem se precipitou em acusá-lo de alguma coisa deverá retractar-se. 

Quer Armando Vara, quer Maria de Lurdes Rodrigues têm direito a recorrer das decisões dos tribunais. E quer Luís Filipe Menezes, quer Passos Coelho têm direito a defender o seu bom-nome. Mas entre todas estas condenações, investigações e suspeitas há um denominador comum; uma aparente promiscuidade entre negócios e política. Como dizia há dias o próprio Passos Coelho na Festa do Pontal, na altura a propósito do caso BES, "vamo-nos apercebendo bem dos privilégios – para não dizer da falta de ética – de muita gente que vivia entre a política e os negócios e os negócios e a política”. 

Hoje em dia todos nós estamos bastante menos tolerantes para situações de promiscuidades, de cunhas, de favores, de esquemas, de privilégios, de chico-espertismo. E ainda bem que estamos. Mas não chega. É preciso apertar a malha legal. Um bom ponto de partida seria olhar para o projecto de lei que foi apresentado na semana passada por António José Seguro para alterar o Regime Jurídico de Incompatibilidades e Impedimentos dos Titulares de Cargos Políticos. Pode gostar-se mais ou menos de Seguro, e até se pode questionar o timing da proposta; mas é incontestável o valor de algumas delas. 

Se proibirmos os deputados de exercer funções de peritos, consultores ou árbitros em qualquer processo em que o Estado seja parte; se obrigarmos os titulares de cargos políticos a revelar a origem dos seus rendimentos, com a indicação das entidades pagadoras; ou se garantirmos que através de um cruzamento de dados se pode fiscalizar a veracidade das declarações de património e rendimentos; então muito provavelmente o caso Tecnoforma – ou aquilo que alguns pensam ser o caso Tecnoforma – não existiria. Aliás, a questão da fiscalização é vital. Como dizia este fim-de-semana Luís de Sousa, presidente da Transparência e Integridade, “há várias entidades que fiscalizam em teoria estas questões, o Tribunal Constitucional, a PGR, a Comissão de Ética do Parlamento, mas a verdade é que não fiscalizam na prática”. Enquanto não dermos este passo vamos continuar a suspeitar, a acusar, a condenar e a lamentar aqueles que vivem entre a política e os negócios.

A sonsice de Pedro Passos Coelho

no Público,
25/09/2014
por João Miguel Tavares 

 A sonsice de Pedro Passos Coelho

Não há qualquer vontade de apurar “a verdade” ou desejo de esclarecer a pátria no pedido do primeiro-ministro para a Procuradoria-Geral da República investigar o caso Tecnoforma. O Ministério Público tem mais que fazer e Passos Coelho sabe muito bem o que fez. Pode ter sido há 15, 20 ou 30 anos: ninguém se esquece de um ordenado que duplica o rendimento mensal. Simplesmente, Passos não quer, nem pode, admiti-lo – para ser coerente com o moralismo que apregoa, teria de se demitir no minuto seguinte. Donde, o chuto para a Procuradoria é apenas um expediente espertalhão com o objectivo de adiar a admissão do óbvio: o primeiro-ministro fez asneira. E da grossa. 

Isto é simultaneamente ridículo e sintomático. Ridículo, porque os valores que estão em causa não justificariam a queda de um primeiro-ministro. Sintomático, porque o problema da Tecnoforma está longe de ser o dinheiro que pagava a Passos Coelho – a empresa é um retrato perfeito de como se desviam fundos europeus para actividades que podem até nem ser ilegais, mas que são inconcebíveis e imorais. Convém recordar aos mais esquecidos que a Tecnoforma era essa extraordinária empresa, impulsionada pelo romântico par Passos-Miguel Relvas, que se propunha, em troca de 1,2 milhões de euros, dar formação a 1063 pobres almas com um objectivo que parece saído do argumento de uma série cómica britânica: ensinar os mais de mil formandos a operar em nove aeródromos da Região Centro, dos quais só três estavam activos e empregavam, no total, cerca de 10 trabalhadores. 

Foi assim que, durante anos e anos, foram estoiradas dezenas de milhões de euros de fundos comunitários que deveriam contribuir para o desenvolvimento do país. E claro: quem frequentava os corredores da Assembleia da República era um veículo privilegiado para canalizar os fundos para terrenos favoráveis. O Manuel sabia de um concurso para a formação de medidores de perímetros de beringelas e dizia ao Joaquim; o Joaquim sabia de um concurso para a formação de analistas em brilho de superfícies inox em restaurantes e dizia ao Asdrúbal; o Asdrúbal sabia de um concurso para formar os formadores disto tudo e dizia ao Manuel. A única variável neste processo era mesmo a dimensão da lata e a vocação dos senhores deputados e secretários de Estado para gerir negócios. Havia alguns, como Miguel Relvas, que tinham muita lata e muita vocação. Havia outros, como Passos Coelho, que provavelmente seriam um pouco mais modestos – mas que, ainda assim, aproveitavam uma migalha aqui e outra acolá, porque a vida é longa e o ordenado de deputado curto. 

Só que, ao contrário de Relvas, que tem um sorriso do tamanho da sua lista telefónica e se assume como “facilitador de negócios”, Pedro Passos Coelho sempre se apoiou numa imagem de extrema modéstia e parcimónia. Ele é o homem de Massamá. Ele é o homem que passa férias em Manta Rota. Ele é o homem que pôs os ministros a viajar em turística. E esse homem, claro está, não pode conviver com uma acusação de cinco mil euros a caírem-lhe no bolso todos os meses sem que ele se recorde disso, ao mesmo tempo que invoca o estatuto de deputado em exclusividade para sacar 60 mil euros de subsídio de reintegração. É possível que Passos Coelho apenas tenha feito aquilo que todos fizeram durante os festivos anos 90. Só que aquilo que ele fez em 1999 não é aceitável em 2014. E ainda bem. A sonsice vai aguentá-lo – mas a sua reputação de governante impoluto morreu.

13/08/14

Uma nação doente


no Público,
13 de Agosto de 2014

por Santana Castilho *

Uma nação doente 

A conturbada Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades (PACC) foi realizada por 10.220 professores, dos quais 1.473 reprovaram. Esclareço que o uso do qualificativo “professores”, que não “candidatos a professores”, como o ministro da Educação lhes chama, é consciente e está correcto. Porquê? Porque a lei vigente lhes confere esse título profissional, logo que terminam a sua formação superior. Portanto, se os apelidarem de “candidatos”, serão só “candidatos” a um lugar em escolas públicas. Feito este esclarecimento, passemos aos factos e às considerações que me merecem: 

1. Segundo os resultados divulgados, relativamente ao item da prova em que se pedia a produção de um texto com uma dimensão compreendida entre 250 e 350 palavras, 62,8% desses textos continham erros ortográficos, 66,6% erros de pontuação e 52,9% erros de sintaxe. Isto é preocupante? É! Seja qual for a área científica da docência, é exigível a um professor que conheça o código de escrita e, muito mais, a sintaxe, sem cujo domínio não se exprimem ideias de forma ordenada e coerente. Como é preocupante o presidente da República dizer, reiteradamente, “cidadões” em vez de cidadãos! Ou recriar o futuro do verbo fazer, de farei para “façarei”. Como é preocupante o primeiro-ministro dizer “sejemos” em vez de sejamos. Como é preocupante encontrarmos no comunicado do Ministério da Educação e Ciência, ironicamente sobre a PACC e no próprio dia em que teve lugar a segunda chamada, um estranho verbo “revir” em lugar de rever. Como é preocupante uma deputada escrever “sensura” por censura, “tulero” por tolero ou “bloquiarei” por bloquearei. 

2. Posto o anterior, sucede-se a pergunta óbvia: e agora? Agora temos a humilhação pública de toda uma classe, com todo o cortejo de generalizações abusivas e nada acrescentado à superação de eventuais lacunas na formação dos jovens professores (jovens, sim, porque é bom recordá-lo, falamos de professores que nunca deram uma só aula ou têm menos de cinco anos de contratos precários, em regime de escravatura moderna). 

O incremento da qualidade dos professores só se consegue com a valorização da sua formação, inicial e contínua, e com a melhoria das condições de trabalho. Mas Nuno Crato e os que o apreciam como o justicialista do “eduqês” galopam estes resultados como se com eles fosse possível substituir o investimento na formação por uma prova que não destrinça um bom professor de um satisfatório perito em decifração de charadas. 

3. Dito o que disse supra, tenho legitimidade para fazer 3 perguntas simples: 

- Como se pode confiar na integridade do processo de apuramento dos resultados da PACC, particularmente depois de o Instituto de Avaliação Educativa (IAVE) ter trocado chaves de correcção e de o país ter conhecido a fraude da avaliação encomendada pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, cujo contrato impunha um determinado resultado? 

- Como foram contabilizadas, nas estatísticas do IAVE, as provas entregues depois de marcadas com diferentes expedientes de protesto? Foram muitas ou foram poucas? Quantas? 

- Que influência tiveram nos resultados os múltiplos tipos de coacção verificados e as grosseiras faltas de condições mínimas para a realização de um exame (ampla e publicamente documentadas nas televisões)? 

4. O epílogo desta saga remete-nos, finalmente, para o mais grave problema da nossa sociedade: a pulverização da confiança dos cidadãos no Estado e nas elites que nos governam. A deriva do país, entregue a dirigentes sem ética nem vergonha, não se detecta apenas na Educação. Está por todo o lado, qual tsunami de lama. 

O governador do Banco de Portugal e o presidente da República disseram-nos que o BES era sólido e que podíamos estar tranquilos. Com o golpe de mão de 3 de Agosto e a divulgação pública da acta que o consumou, não foi só o BES que foi reduzido a nada. Nenhum dos que “se não sabiam deviam saber” veio a público reconhecer a incompetência com que facilitaram tantos crimes de mercado.  

Em 2007 escrevi sobre o drama de Manuela Estanqueiro, professora com 63 anos de idade, 30 de serviço, vítima de leucemia aguda, a quem, por duas vezes, uma junta médica recusou a reforma por doença e obrigou a dar aulas nas vascas da morte e em sofrimento desumano. Um tribunal de segunda instância acaba de condenar a Caixa Geral de Aposentações a pagar à filha uma indemnização de 20.000 euros. Os responsáveis por esta vergonha de uma sociedade sem critério, mais aqueles que tiveram o desplante de recorrer da sentença inicial, pedindo que a indemnização fosse reduzida para 5.000 euros, continuam nos seus postos, sem beliscadura. Como Ricardo Salgado permanecerá no seu iate e na sua mansão, sem que o fisco estranhe que tal cidadão não tenha um só bem em seu nome. 

Três anos de austeridade não destruíram só a economia, o emprego e os direitos sociais. Adoeceram a nação. 

* Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt)

30/07/14

A vã-glória de um atirador furtivo

no Público,
30 de Julho de 2014


por Santana Castilho *
 A vã-glória de um atirador furtivo

Sobre a PACC (Prova de Avaliação de Conhecimentos e Competências) dos professores já me pronunciei sobejas vezes, a primeira das quais nesta coluna, em 7 de Fevereiro de 2008. O que passo a escrever tem duas finalidades: apelar à memória escassa da maioria, para melhor compreendermos a atitude ignóbil de Nuno Crato, e denunciar com frontalidade que a fixação do ministro no papel sacro dos instrumentos de avaliação é demencial.

Com o truque que todos conhecemos, para impedir que os sindicatos pudessem apresentar um pré-aviso de greve, o ministro da Educação actuou sem educação nem escrúpulos. Usou o capote da desfaçatez para bandarilhar uma lei da República, que protege um direito fundamental. Portou-se como um caçador furtivo a atirar sobre cidadãos que o Estado enganou, com dolo agravado por habilidades grosseiras. E foi a primeira vez que assim se desvinculou da ética política e da lealdade que deve àqueles que governa? Não, não foi! Os exemplos repetem-se e há muito que vêm desenhando um carácter.

Foi ele que, em início de mandato, revogou os prémios de mérito dos alunos, sem aviso prévio e atempado, quando eles já tinham cumprido a sua parte.

Foi ele que obrigou crianças com necessidades educativas especiais a sujeitarem-se a exames nacionais, em circunstâncias que não respeitaram o seu perfil de funcionalidade, com o cinismo cauteloso de as retirar, depois, do tratamento estatístico dos resultados.

Foi ele que, dias antes das inscrições nos exames do 12º ano, mudou unilateralmente as regras, ferindo de morte a confiança que qualquer estudante devia ter no Estado.

Foi ele que, a uma sexta-feira, simbolicamente 13, sem que se conhecessem os créditos atribuídos às escolas, sem que as matrículas estivessem terminadas e as turmas constituídas, obrigou os directores a determinarem e comunicarem o número de “horários zero” para 2012-2013, sob ameaça de procedimento disciplinar, lançando na angústia milhares de docentes com dezenas de anos de serviço para, na semana seguinte, recuperar o que antes havia levianamente subtraído. Foi ele que abriu esse concurso com uma lei e o encerrou com outra, num alarde gritante de discricionariedade nunca vista.

A conferência de imprensa, significativamente marcada para o horário nobre do dia da prova da humilhação dos professores, mostrou-nos um ministro obcecado pela vã-glória que a jornada lhe proporcionou, incapaz de discernir, como qualquer alienado, que o seu fundamentalismo patológico sobre o papel dos instrumentos de avaliação está a destruir o sistema nacional de ensino. Os professores são cada vez mais meros aplicadores das mediocridades do IAVE e cada vez menos professores. O tempo do ensino é comido pela loucura de tudo examinar, com provas cheias de erros inconcebíveis e qualidade duvidosa. Todo o ano, tudo se verga aos exames e à alienação que provocam. Preparar exames, treinar para exames, substituir tempos de aulas por tempos para fazer exames, corrigir exames, tirar ilações de “rankings”, pagar a Cambridge e não pagar aos nacionais. E quando os problemas surgem, o ministro puxa pela cabeça doente e chama a polícia. Sim, cidadão que me lê, olhe para as televisões e reconheça que, quando se tornou banal a presença da polícia dentro das nossas escolas, algo vai mal com a democracia que devíamos ensinar aos seus filhos.

Para que serviu o segundo exame aplicado às crianças do 1º ciclo do básico, um mês depois de terem reprovado no primeiro, senão para mostrar que o modelo é inadequado?

Para que serviu a avaliação dos centros de investigação, senão para destruir o que foi laboriosamente construído ao longo das duas últimas décadas, transferir para o estrangeiro uma fatia do parco erário público e mostrar que a fraude é permitida e fica impune?

Em matéria de exames, é factual, o país nunca tinha assistido a tantos dislates como os que o “rigor” de Crato já nos proporcionou: efectivação de provas na ausência de secretariado de exames; exames realizados sem professores suplentes e sem professores coadjuvantes; exames vigiados por professores que leccionaram a disciplina em exame; ausência de controlo sobre a existência de parentesco entre examinandos e vigilantes; salas invadidas e interrupção de provas; tumultos que obrigaram à intervenção da polícia; desacatos ruidosos em lugar do silêncio devido; sigilo quebrado com o uso descontrolado de telefones e outros meios de comunicação electrónica; alunos e professores aglomerados em refeitórios; provas iniciadas depois do tempo regulamentar.

Estes exames e esta política vieram, no dizer de Nuno Crato, para conferir rigor e exigência ao sistema e, nessa medida, o estabilizarem. Mostram as evidências de que rigor falamos e demonstram os factos (e a polícia) que, em vez de estabilidade, temos instabilidade como há muito não existia. Se alguma coisa faz sentido é admitir que estes exames só servem um maquiavélico projecto de elitização do ensino.

* Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt)

28/06/14

de descalabros

retirado do fb,
por Carlos Esperança

O descalabro do Governo e a perpetuação da crise no PS 


Decidi não tomar partido na legítima luta pela liderança dentro do PS porque, sem o PS, não há alternativa ao pior Governo da Segunda República, transformada em República de segunda por gente de terceira.

Dizer que o pior Governo é apoiado pela pior maioria, e pelo mais inapto PR do regime democrático, é um truísmo tautologicamente demonstrado. E ainda queriam confiscar as decisões dos tribunais encarregando os escritórios de amigos para redigirem os acórdãos sobre a constitucionalidade das leis!

O que nenhum partido pode, nem deve, é impor como líder quem o povo rejeite, quem o eleitorado imagine um clone de Passos Coelho, quem confisque o partido para o repartir por amigos e cúmplices, como fizeram Marco António, Relvas e Passos Coelho.

No PS, cada dia que passa na indefinição é um desastre para o País. Os portugueses não se interessam por golpes palacianos, exigem um projeto, um rumo e um líder.

A guerra em que se consomem os potenciais líderes, com uma paixão que não houve no combate ao desastroso Governo do PSD/CDS/ PR, é um prenúncio do desastre eleitoral. O arrastar da chicana interna pode beneficiar um dos candidatos mas prejudica o partido e, sobretudo, o País.

Acentuar divergências internas, lavar a roupa suja na praça pública, agredir o camarada oponente, é um serviço inestimável à direita e uma nódoa indelével num partido que é a charneira do regime e a mais espectável alternativa à tragédia que nos atingiu.

O PS não pode ser o seguro de vida do conjunto de ministros da direita, que apostou na destruição do Estado e prepara a descaracterização da Constituição. Cabe aos militantes exigirem a resolução rápida da crise, sob pena de perderem o partido e não terem quem os acompanhe no funeral.

No PS não está em curso o julgamento que se adia à espera da prescrição, está em causa a substituição do Governo, da maioria e do PR, antes de destruírem o poder judicial e de conseguirem a liquidação total da saúde, segurança e instrução públicas.

04/06/14

Um concurso de professores que eterniza a injustiça, divide e corrompe

no Público,
4 de Junho de 2014

Santana Castilho *

Um concurso de professores que eterniza a injustiça, divide e corrompe 


Pouco a pouco, a Educação nacional vai-se transformando num instrumento da tendência totalitária do Governo, cujo objectivo é produzir cidadãos submissos, que cumpram o desiderato da “ausência de alternativa”. Para isso, a política que emana do Ministério da Educação e Ciência tem sido sistematicamente urdida de modo a conduzir a comunidade académica para um reduto de proletários, que apenas lutem pela sobrevivência. Tratando os professores como menores mentais, que gostaria de confinar a um enorme campo de reeducação, Nuno Crato tem-se esforçado por remover a cidadania da Escola e por vestir a todos o colete-de-forças da burocracia burlesca e do centralismo castrante. Para o homem que odeia as ciências da Educação e lhes chama “ciências ocultas” (que de facto o são por referência à ignorância que sobre elas exibe), tudo o que é anterior ao seu iluminismo é lixo não científico, que trata com a angústia persecutória própria de um teocrata que venera a econometria.

Esta moldura enquadra perfeitamente o concurso externo extraordinário para recrutamento de pessoal docente de educação pré-escolar e dos ensinos básico e secundário. São 1954 vagas para quadros de zona pedagógica, que não satisfazem as exigências da Directiva 1999/70/CE, (toda a jurisprudência do Tribunal de Justiça da União Europeia sobre a matéria aponta para uma só solução no quadro nacional: vinculação aos quadros de todos os professores que, desde 2001, sejam titulares de mais de três contratos anuais sucessivos), que estão muito longe de diminuir a precaridade do trabalho docente e que dividem, uma vez mais e de modo desonesto, os professores.

Desde os tempos de David Justino que os concursos de professores, que estavam então estabilizados e não provocavam protestos, geram injustiças e criam castas, por via de sucessivas mudanças de regras, donde a ponderação da iniquidade desapareceu. Muitas decisões foram deixadas ao livre arbítrio das escolas (contratação de escola), com as consequências vergonhosas que são do conhecimento generalizado, impunemente, ano após ano, com total desrespeito pela graduação e tempo de serviço dos candidatos e facilitação despudorada do favorecimento e da corrupção. No caso em apreço, não se conhece o critério que concentrou a maioria das vagas em dois quadros de zona e deixou muitos grupos de recrutamento com vagas reduzidas ou mesmo sem vagas. O desrespeito pelas artes (sem vagas de contratação) é perverso e diz claramente que para Nuno Crato o objectivo é afastar a Escola do conceito de desenvolvimento integral das pessoas, transformando-a num espaço de reflexos condicionados pelos sinais dos mercados, pelas necessidades das empresas e pelos estímulos do que é imediatamente utilitário.

Já tínhamos professores com mais de duas dezenas de contratos, com menor salário e mais horas de componente lectiva, embora com mais tempo de serviço e, até, habilitações, que professores do quadro. Agora iremos ter professores do quadro que correm o risco de ir parar à mobilidade especial por estarem impedidos de concorrer em igualdade de circunstâncias com colegas contratados.

Temos professores que entraram nos quadros o ano passado, em escolas longe da residência, que verão agora serem ocupadas vagas ao lado de casa por colegas com menor graduação, mas mais sorte na roleta russa.
Teremos professores com menor habilitação profissional, que entrarão nos quadros porque pertencem a grupos de recrutamento bafejados com o livre arbítrio de quem não se sente sequer obrigado a revelar os critérios que usou (se usou algum). E temos professores escravizados e humilhados durante anos, que argumentam contra colegas a quem acusam de nunca terem querido concorrer a todo o país, como se a opção de não abandonar filhos e mulheres ou maridos, gastando metade do ordenado em viagens e quarto alugado, fosse variável válida no jogo deprimente da sobrevivência. E temos governantes sem alma nem ética, que se empenharam meticulosamente e com insídia em descredibilizar os professores aos olhos da opinião pública, que agora se riem com os resultados da divisão que conseguiram, porque é essa divisão que lhes alimenta os abusos. E temos, sobretudo, políticos de todos os quadrantes, humana e politicamente imaturos, que nunca leram o artigo 47º da Constituição da República Portuguesa, que assim dispõe: todos os cidadãos têm direito de acesso à função pública, em condições de igualdade e liberdade, em regra por via de concurso.

Não tivera eu razão e a fiscalização preventiva ou sucessiva da corrupção constitucional das regras de recrutamento de professores há muito que teria sido suscitada. Não tivera eu razão e não assistiria ao lento desboroar da reserva crítica que os professores representam contra a alienação social e cultural, que este Governo promoveu em três anos de desespero.

* Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt)

15/05/14

Uma ideia de sociedade não solidária

retirado do fb,

por António Pinho Vargas

Hoje o Público inclui um artigo de Vanessa Rato sobre Cultura e o Estado (p.38-9)

Dentre os vários aspectos abordados - importantes - ressaltou-me uma intervenção no Parlamento de Catarina Martins (BE), de 3 minutos, sobre a qual se refere que "no breve tempo que demorariam as suas palavras Portugal teria gasto mais em juros da dívida pública do que aquilo que investe em criação artística em todo um ano".
Não deixa de ser impressionante. Algumas conclusões se podem tirar. 
  1. As instituições financeiras que regulam a dita ajuda não brincam em serviço. "Ajuda" e "ajustamento" no discurso; paguem os juros, se faz favor, na realidade. 
  2. O seu projecto de transferência de dinheiro dos pobres para os ricos - acolhido e celebrado por este governo e já levado a cabo - concretiza-se em muitas áreas: emprego/desemprego, pensões de reforma/cortes, impostos cada vez maiores, diminuição de apoios à actividade e à criação cultural até atingir os valores mais baixos de uma década. 
  3. Uma ideia de sociedade não solidária - incentivos discursivos às querela intergenacionais, novos contra velhos, pensionistas contra empregados, funcionários púbicos contra privados, etc - ciências de aplicação imediata - economia e gestão contra todas as chamadas Humanidades, História, Filosofia, Artes, etc, aspectos, aliás, em que grassa no próprio governo e em grande parte dos economistas e gestores, uma enorme ignorância. 
  4. Bem pode o governo vir agora com um discurso próximo do patético-eleitoral anunciar o "sucesso" e baixas putativas de impostos, ao mesmo tempo que se sabe, ou se pode prever que, como diz quem manda (a troika) que a austeridade é para continuar. Será preciso ser muito estúpido para acreditar neste discurso enganoso. Como bem disse a mesma Catarina Martins "a palavra do primeiro ministro não vale nada". 
  5. Da mesma CM a intervenção resume a importância da criação: "a criação é uma forma de conhecimento, uma forma de qualificação e uma forma de soberania, porque é uma forma de pensarmos sobre nós, de nos projectarmos e termos um lugar no mndo. Os cortes põem em causa a capacidade de o nosso país se pensar". 
  6. Não posso estar mais de acordo. Nem tudo deriva ou depende do apoio do Estado, nem todos os problemas estariam resolvidos com esse apoio - as suas formas podem e devem ser melhoradas e escrutinadas - mas a sua actual ridícula dimensão é o outro lado do espelho que favorece a infantilização da população - o titytainmnent - esse sim, o programa cultural do governo e em geral do capitalismo. Favorecer a autoridade, favorecer a passividade e a depressão perante as várias formas de poder do estado, das chefias das grandes empresas, das chefias dos bancos, de todas as formas de poder disseminado. A minha impotência face às dificuldades de colocar os CDs recentes simplesmente à venda (!) é apenas um mero grão de areia neste quadro geral muito mais vasto. 
  7. O voto nas próximas eleições apresenta, para mim, 4 possibilidades plausíveis de oposição de diversos graus e matizes: PS, PC, BE e Livre. Decidirei conforme decidir. 

Na Grécia há o Syrisa em disputa pelo primeiro lugar nas sondagens. Honra à lucidez e capacidade das esquerdas gregas. 

APV,
compositor; Professor na Escola Superior de Música de Lisboa

14/04/14

ao povo o que o povo quer

... Ora nem mais! E .. pois .. continuem a votar nos 2 (+1) do costume, continuem, mas, depois, façam o favor de não se queixarem!!
de Roman Morhardt

recebido via e-mail:

Desde 2002, foram mais de 6500 as antigas escolas primárias que deixaram de funcionar. 
A reorganização arrancou pela mão de David Justino, no executivo liderado por Durão Barroso (PSD-CDS) e afectou principalmente as regiões norte e do interior do país. 

No primeiro governo de José Sócrates, com Maria de Lurdes Rodrigues, foram fechadas mais 2500, ao passo que com Isabel Alçada encerraram 700 escolas. 

Nos primeiros dois anos de mandato, o ministério de Nuno Crato fechou mais de 500 escolas. Fez um intervalo de um ano lectivo, mas os encerramentos de escolas voltam em força no ano que vem. 

Escolas frequentadas por menos de 21 alunos, independentemente de terem ou não colégios com contratos de associação financiados pelo Estado nas vizinhanças a roubarem-lhes alunos, serão desactivadas. O Governo continua a desviar da Escola pública recursos à margem da lei para financiar escolas privadas desnecessárias. 

O Governo não tem um plano de incentivo à natalidade. 

O Governo não tem uma estratégia de combate à desertificação do interior. 

Mas ao povo o que o povo quer. 
É precisamente neste interior desertificado pelas suas políticas que PSD, CDS e PS, sobretudo os dois primeiros, se é que actualmente existe alguma diferença entre os três, têm uma dimensão eleitoral mais expressiva. O interior desertifica-se muito por vontade própria. 

fonte:
http://opaisdoburro.blogspot.pt/2014/04/o-povo-e-quem-mais-ordena.html

27/03/14

o bando de loucos que nos governa

2014-03-24,

Constança Cunha e Sá sem papas na língua:
«Estamos entregues a um bando de loucos» 
«Funcionários públicos e reformados são as grandes vítimas da "visão primária" de Passos Coelho, que empurrou a classe média para o limiar da pobreza.»  
a ver!

17/03/14

NESTES ÚLTIMOS TEMPOS

Nestes últimos tempos é certo a esquerda fez erros
Sophia por Arpad Szenes
Caiu em desmandos confusões praticou injustiças

Mas que diremos da longa tenebrosa e perita
Degradação das coisas que a direita pratica?

Que diremos do lixo do seu luxo — de seu
Viscoso gozo da nata da vida — que diremos
De sua feroz ganância e fria possessão?

Que diremos de sua sábia e tácita injustiça
Que diremos de seus conluios e negócios
E do utilitário uso dos seus ócios?

Que diremos de suas máscaras álibis e pretextos
 De suas fintas labirintos e contextos?

Nestes últimos tempos é certo a esquerda muita vez
Desfigurou as linhas do seu rosto

Mas que diremos da meticulosa eficaz expedita
Degradação da vida que a direita pratica?

Sophia de Mello Breyner Andresen 
NESTES ÚLTIMOS TEMPOS

Julho de 1976
 In O Nome das Coisas

09/03/14

«Não há crise para quem a comenta!»

recebido via e-mail:

A guerra da informação vista da trincheira dos explorados 

«Tudo aquilo que provoque reflexão, análise, crítica, indignação ou revolta – ainda que plenamente justificadas – é banido dos grandes meios de comunicação social. O controlo da informação substitui, nas chamadas democracias, a polícia política e a censura das velhas ditaduras. E de forma muito mais barata e eficaz. Estupidificar o povo, em vez de agredi-lo, é a melhor maneira de o submeter.

Não há crise para quem a comenta 

 «O império dos comentadores onde quem manda são os políticos»
é o título de artigo no Público (ver aqui), que contém alguns números estonteantes. 
Para começar, este: «Se aos quatro canais generalistas se juntarem os canais de informação portugueses no cabo (RTP Informação, SIC Notícias e TVI24), é possível assistir a 69 horas de comentário político por semana. O equivalente a quase três dias completos em frente à televisão.» Que ninguém se queixe de falta de interesse das televisões pela política: mais do que isto, só futebol! 

Dos 97 comentadores com presença semanal na televisão, 60 são actuais ou ex-políticos. Sem espanto, em termos de número de comentadores, o primeiro lugar do pódio é ocupado pelo PSD, seguido pelo PS e pelo CDS. E embora o PCP tenha mais deputados na Assembleia da República do que o Bloco, este está quantitativamente melhor representado. 
 
Mas os números de facto impressionantes, se verdadeiros, são alguns (poucos) que são divulgados quanto à maquia que estes senhores levam para casa. E se não me suscita qualquer aplauso o facto de José Sócrates ter querido falar pro bono na RTP (que lhe pagará as viagens ...) , considero um verdadeiro escândalo que Marcelo Rebelo de Sousa ganhe 10.000 euros /mês (mais do que 20 salários mínimos por pouco mais de meia hora por semana a dizer umas lérias), Manuela Ferreira Leite metade disso e que Marques Mendes tenha preferido passar para a SIC por esta estação ter subido a parada da TVI que só lhe propunha 7.000. 

Claro que estamos a falar de estações privadas, em guerras de concorrência. Mas algo de muito estranho e esquizofrénico se passa num país quando o valor de mercado destes senhores é deste calibre. Estaremos em crise, mas comentá-la compensa e recompensa ? E de que maneira! 
Pergunta-se:
  • Se a maioria já teve – ou tem – altas responsabilidades governativas ou partidárias, por que carga de água é que sabe, do pé para a mão, como resolver os problemas nacionais? 
  • Será que ninguém percebe que o que estão está a fazer é criar uma falsa ilusão de debate e esclarecimento, que esconde o grande propósito dos seus comentários: manter ostatus do actual sistema político, económico e (anti)social, como se ele não fosse o grande responsável por tudo aquilo que nos está a cair em cima? Que é tudo puro ilusionismo?»
 *************************

Pois..
Eu conheço um (fala sobretudo de Educação..) que ganha zero de cada vez e em todo o lado onde o chamam para falar. 
Um - e será caso bem raro! - que, verdadeiramente, encara a sua participação como um "serviço cívico".
Será por isso que as televisões praticamente o excluem do 'horário nobre'?
.........

26/02/14

Os coelhos que Crato tira da cartola são passos eleitorais

no Público, 
26 de Fevereiro de 2014 

por Santana Castilho *

Os coelhos que Crato tira da cartola são passos eleitorais 


Com um sorriso pérfido, tão impróprio quanto significativo, Passos Coelho referiu-se assim ao sofrimento que já causou e continuará a causar aos portugueses: “… Quando se começa a levar pancada, as primeiras, que podem ser as mais fortes, não são, necessariamente, as que doem mais …”.
Há circunstâncias em que a leitura das imagens pode ser dúbia. Não é o caso. O primeiro-ministro fez chacota com o anúncio de mais sacrifícios e a justeza do que afirmo poderá ser confirmada por quem me ler. Basta visionar a gravação deste momento abjecto do Congresso do PSD. Surpreende que a falta de recato verbal e decoro expressivo, por parte de quem impôs o empobrecimento forçado de milhões de portugueses, não tenha provocado incómodo nos congressistas? Nada disso! A parada do Coliseu foi agradecer prebendas e aquecer motores para as campanhas eleitorais que se seguem.
O primeiro inebriado com o cheiro a eleições foi Nuno Crato. Antecipou-se ao sorteio das facturas e desatou a distribuir milhões. Começou com 140, para uma espécie de meias licenciaturas sem certificado, a que chamou Cursos Técnicos Superiores Profissionais. Horas volvidas sobre o anúncio, os institutos politécnicos (os beneficiados na lotaria) vieram dizer que não os leccionariam. Alegaram com razão, digo eu, que a coisa se sobrepunha simplesmente a outra já existente, os Cursos de Especialização Tecnológica, sem nada lhes acrescentar e destruindo a racionalidade do que já se fazia; que a medida era precipitada e havia sido tomada sem qualquer tipo de concertação com os interessados, estabelecendo, ainda, uma confusão total entre a formação profissional de nível secundário e a formação profissional de nível superior. Com efeito, sem que se tenha resolvido a trapalhada dos 30 milhões retirados às universidades, em “golpe de mão” que provocou a demissão (suspensa, é certo) do presidente do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas, fará sentido gastar 140 milhões numa sobreposição de cursos que já existem?
Pouco tempo volvido (Diário de Notícias de 17 transacto), novo anúncio: 1.300 milhões de euros para distribuir, em dois anos, por jovens com menos de 30 anos, que tenham abandonado o ensino superior e não estejam a trabalhar. Sem que se conheçam detalhes e concedendo, embora, que no quadro de sacrifícios enormes impostos às famílias resultam positivas as medidas que os minorem, o anúncio só pode ser considerado escandalosamente eleitoralista. Apesar da ressalva anterior, será equilibrado o destino anunciado daqueles 1.300 milhões? É que, para que quem me lê ajuíze o desatino de tudo isto, recordo que, no Orçamento de Estado para 2014, a verba total alocada ao funcionamento de todas as universidades portuguesas é inferior ao que se propõe gastar com o regresso ao sistema de alguns alunos (dados recolhidos a meio do ano lectivo de 2012/2013 apontavam para cerca de 20.000 alunos com propinas em atraso e apenas 1.000 anulações de matrículas consumadas). Ou que os 650 milhões anuais anunciados para tal acção comparam com os escassos 36 milhões inscritos para toda a formação de adultos em Portugal. Primeiro desempregaram-lhes os pais e cortaram ou diminuíram-lhes as bolsas de estudo (há 9 milhões de euros de incumprimento por parte de estudantes que recorreram a financiamento bancário para custear os estudos). Agora voltam a chamá-los com tal desequilíbrio de verbas?
Porquê a obrigatoriedade de não estarem a trabalhar para serem elegíveis? Imagine-se um jovem que, exactamente porque o desemprego entrou em casa dos pais, aceitou um trabalho pago a salário de escravo. Será justo ficar sem ajuda? Estamos a dizer-lhe que foi parvo, procedendo como procedeu? Imagine-se outro que, para não desistir, passou, com enorme sacrifício, a trabalhar à noite, enquanto estuda de dia. É moralmente aceitável deixá-lo de fora?
Como se sentirão os jovens que não são elegíveis (porque não “abandonaram” os estudos) pela kafkiana razão de nunca terem entrado na universidade, por nunca terem tido dinheiro para a pagar? Que ética é a do Governo, se decidir assim?
Esta política de uma nota de dó está em sintonia com o flop do “ajustamento estrutural” da economia que, desta feita, O FMI desmascarou: 60% do aumento das exportações é consequência da entrada em operação da refinaria da Galp, em Sines. Se retirarmos do balanço importações/exportações a fatia representada pelos combustíveis, o resultado no celebrado indicador da balança comercial passaria a negativo. Saindo o cheiro da gasolina, fica, dominante, o cheiro das eleições, a marca vital de um partido que celebra ter conseguido, à pancada, dar uma vida pior às pessoas de “um país melhor”.
* Professor do ensino superior

25/02/14

de usurários

Tudo muito explicado:
«Eles (os bancos/banqueiros) são gangsters. Estão completamente fora do controle (do presidente, dos poderes legais..) e estão a destruir, não só a economia dos EU, como as economias de todas as nações do planeta.» ...
« Finalmente, nos últimos anos estamos a ver parlamentares como os da Islândia que estão a propor sistemas monetários alternativos para corrigir este problema -- ou como o chefe de Estado da Turquia, que tenta criar um sistema monetário nacional no interesse público.»



«"Palestra de Bill Still na conferência do IFSS (Fórum Internacional sobre Sistemas Financeiros) em Istambul, Turquia (2013.09.12). Bill Still é um ex editor e redactor de jornal. Escreveu para os jornais USA Today, The Saturday Evening Post, the Los Angeles Times Syndicate, OMNI magazine, etc. Escreveu 22 livros e dois vídeos documentários. Em 1996 produziu o documentário aclamado "The Money Masters / Os Mestres do Dinheiro" (www.themoneymasters.com) que previu os eventos económicos que estão apenas começando a acontecer.»

20/02/14

O homem mais perigoso

14 de Novembro de 2013
 · em Rubra · http://www.revistarubra.org/?p=4345

Por Pedro Bravo 

O homem mais perigoso


Na política, não existe homem mais perigoso do que um artista frustrado. Ele, assim que alcança o mais ínfimo poder, vai exercê-lo no extremo absoluto da arbitrariedade, e a sociedade passa a ser o suporte e a matéria da sua obra inconfundível: criar um estado de coisas para a eternidade. 
de Roman Morhardt

Conhecemos bem estes tiranos! Apesar de terem sofrido da sua arte uma profunda rejeição, não deixaram de acreditar em si mesmos, aliás, guardaram até, contra tudo e contra todos e muito intimamente, uma elevada noção do seu valor. Paradoxalmente, a sua imagem especular é de tal modo frágil que tem de ser defendida de qualquer ataque; por isso, mesmo que desejem ser amados, receiam tanto o abandono que preferem ser temidos. Quando se rodeiam de maravilhados e oportunistas, não é por precisarem da comprovação constante do seu valor, até porque para isso têm o espectáculo do poder onde se confirmam, mas para se descartarem deles ao menor tédio e contrariedade. São implacáveis, hiperbólicos, epilépticos. Não temem o ridículo, crêem-se inspirados, divinos: acham-se artistas corajosos que não recuam perante nada, muito menos perante a crueldade e o horror. Finalmente, se acabam por concentrar em si mesmos o poder absoluto do Estado, justificam a indiferença que mereceu a sua arte com uma clara degenerescência do homem, com a decadência da sociedade. Então, já não exigem o reconhecimento do povo, mas a sua submissão incondicional. 

Mas há outro género de homens que quando entra na política, se revela igualmente perigoso, ainda que por razões diferentes. Chamam-lhes tecnocratas. São professores académicos de economia e finanças, administradores de bancos ou de fundos privados de investimento, e a sua vaidade, o seu orgulho, resulta de lhes ser gabada uma sabedoria muito restrita e particular. Encaram a sociedade como uma máquina, um modelo laboratorial, e fragmentam a vida entre variáveis que operam num regime estatístico e abstracto. Reduzem o debate político a dissertações técnicas sobre quocientes, indicadores, curvas e padrões, pois consideram sempre o modelo que aplicam como o fim da História. Desprezam completamente o sofrimento humano e remetem-no para taxas naturais de miséria e impotência. Não têm paciência para a realidade dos corpos, pois a sua pretensão moral sobre o mundo é fundada numa visão utilitária, objectiva e desinteressada do comportamento humano. Adoram eufemismos, provérbios sem graça e lugares-comuns. São cinzentos, secos e gélidos, e crêem ter sempre, sempre razão. Por isso, não precisam do reconhecimento do povo e, tal como aqueles pais que desprezam o reconhecimento amoroso do filho, dele só exigem cumprimento e responsabilidade. 

A verdade é que será sempre preferível lutar contra o poder de um artista frustrado do que contra o de um tecnocrata, e a razão é muito simples: quando se consegue afastar um tecnocrata do seu lugar de poder, logo se oferecem outros dois para o substituir; pelo menos, ao artista frustrado, sempre nos livramos dele quando lhe cortamos a cabeça. Irra, o diabo nos livre desta gente! 


- See more at: http://www.revistarubra.org/?p=4345#sthash.qAsT0MAj.Rlcy2Jea.dpuf

23/05/13

Aos meus professores... e aos outros

Comentário de  José Luís Ferreira  aposto ao artigo do Professor Santana Castilho,

retirado daqui


inst. Museu da Cidade de Almada
«Nem de propósito... Tal Grécia, tal Portugal. 

Carta aberta de um estudante liceal grego (Traduzida de "Echte Democratie Jetzt")»: 

Aos meus professores... e aos outros: 

O meu nome é K. M., sou aluno do último ano num liceu em Drapetsona, Pireu. 

Decidi escrever este texto porque quero exprimir a minha fúria, a minha revolta pelo atrevimento e pela hipocrisia daqueles que nos governam e daqueles jornalistas e media mainstream que os ajudam a pôr em prática os seus planos ilegais e imorais em detrimento dos alunos, dos estudantes e de todos jovens. 

A minha razão para escrever é a intenção dos meus professores de fazer greve durante o período dos exames de admissão à Universidade e os políticos e jornalistas que choram lágrimas de crocodilo sobre o meu futuro, o qual "estaria em causa" devido à greve.* 

De que falam vocês? Que espécie de futuro tenho eu devido a vocês? E quem é que verdadeiramente pôs em causa o meu futuro? 

Deitemos uma vista de olhos sobre quem, já há muito tempo, constrói o futuro e toda a nossa vida:
- Quem construiu o futuro do meu avô?
- Quem vestiu o seu futuro com as roupas velhas da administração das Nações Unidas para a ajuda de emergência e reconstrução e o obrigou a emigrar para a Alemanha?
- Quem governou mal e estripou este país?
- Quem obrigou a minha mãe a trabalhar do nascer ao pôr-de-sol por 530 euros por mês? Dinheiro que, uma vez paga a comida e as contas, nem chega para um par de sapatos, para já não falar num livro usado que eu queria comprar numa feira de rua.
- Quem reduziu a metade o ordenado do meu pai?
- Quem o caluniou, quem o ameaçou, quem o obrigou a regressar ao trabalho sob a ameaça da requisição civil, quem o ameaçou de despedimento, juntamente com todos os seus colegas dos serviços de transportes públicos quando eles, que apenas queriam viver com dignidade, entraram em greve?
- Quem procurou encerrar a universidade que o meu irmão frequenta para atingir alguns dos seus sonhos?
- Quem me deu fotocópias em vez de manuais escolares?
- Quem me deixa enregelar na minha sala de aula sem aquecimento?
- Quem carrega com a culpa de os alunos das escolas desmaiarem de fome?
- Quem lançou tanta gente no desemprego?
- Quem conduziu 4.000 pessoas ao suicídio?
- Quem manda de volta para casa os nossos avós sem cuidados médicos e sem medicamentos?
Foram os meus professores que fizeram tudo isto? Ou foram VOCÊS que fizeram tudo isto?
Vocês dizem que os meus professores vão destruir os meus sonhos fazendo greve.
Quem vos disse alguma vez que o meu sonho é ser mais um desempregado entre os 67% de jovens que estão no desemprego?
Quem vos disse que o meu sonho é trabalhar sem segurança social e sem horários regulares por 350 euros por mês, como determinam as vossas mais recentes alterações às leis laborais?
Quem vos disse que o meu sonho é emigrar por razões económicas? Quem vos disse que o meu sonho é ser moço de recados? 

Gostaria de dirigir algumas palavras aos meus professores e aos professores em toda a Grécia: 

Professores, vocês NÃO devem recuar um único passo no vosso compromisso para connosco. Se recuarem agora na vossa luta, então sim, estarão verdadeiramente a pôr em causa o meu futuro. Estarão a hipotecá-lo. 

Qualquer recuo vosso, qualquer vitória que o governo obtenha, roubará o meu sorriso, os meus sonhos, a minha esperança numa vida melhor e em combater por uma sociedade mais humana. 

Aos meus pais, aos meus colegas e à sociedade em geral tenho a dizer o seguinte: 

Quereis verdadeiramente que aqueles que nos ensinam vivam na miséria? 

Quereis que sejamos moldados nas salas de aulas como mercadorias de produção maciça? 

Quereis que eles fechem cada vez mais escolas e construam cada vez mais prisões? 

Ides deixar os nossos professores sozinhos nesta luta? É para isso que nos educais, para que recusemos a nossa solidariedade? 

Quereis que os nossos professores sejam para nós um exemplo de respeito por nós próprios, de dignidade e de militância cívica? Ou preferis que nos dêem um exemplo de escravidão consentida? 

Finalmente, quereis que vivamos como escravos? 

De amanhã em diante, todos os alunos e pais deviam ocupar-se de apoiar os professores com uma palavra de ordem: "Avançar e derrotar a tirania fascista!" 

Lutemos juntos por uma educação de qualidade, pública e livre. Lutemos juntos para derrubar aqueles que roubam o nosso riso e o riso dos vossos filhos. 


PS: Menciono as minhas notas do ano lectivo 2011/12, não por vaidade mas para cortar a palavra àqueles que avançarem com o argumento ridículo de que "só quero escapar às aulas": Comportamento do aluno: "Muito Bom". Classificação média: 20 ("Excelente") [a nota mais alta nos liceus gregos].


texto original:  http://enough14.org/2013/05/19/piraus-griechenland-offener-brief-eines-gymnasiasten/

tradução de José Luís Ferreira

22/05/13

A falta de senso dos defensores do consenso

Público, 22 de Maio de 2013

Santana Castilho*

A falta de senso dos defensores do consenso



Diariamente, grandes e pequenas coisas, afinal aquilo de que é feita a vida, desfilam em alardes de falta de senso, mesmo quando os seus intérpretes, por inerência dos cargos que ocupam, dele nunca devessem prescindir. O país não está só em recessão e depressão. Parece gerido a partir de uma nave de loucos. 

1. Em nome do consenso, Cavaco Silva criticou Paulo Portas por falar e expor, em público, a fragilidade da coligação moribunda. Mas não se coibiu, ele próprio, de defender, em público, o que Portas disse. Que a senhora de Fátima (segundo ele provável responsável pela conclusão da sétima avaliação) lhe ilumine o senso comum, já que os “cidadões” (novo presidencial plural) recusam consensos sabujos. 

2. Não é de senso comum ou sequer mínimo que se trata quando se ouve, como ouvimos, o primeiro-ministro afirmar, naquele jeito característico de estadista de Massamá, que os cortes apresentados ao eurogrupo não se aplicam à generalidade dos cidadãos mas, tão-só, aos reformados e funcionários públicos. A questão é de siso. Não o tem, de todo, quem teima em dividir os portugueses em subespécies: os espoliáveis, sem direito a pio, e a “generalidade”, salva e agradecida. 

3. Alguém dotado de senso mínimo acreditará que a pantomina da linha vermelha não seja a expressão combinada da total falta de senso de governantes empenhados em aterrorizar todos para aplicar a alguns as últimas patifarias do poder? Seria sensato Passos Coelho anunciar, a 3 de Maio, uma taxa sobre as pensões, sem que Paulo Portas o soubesse, ou que o primeiro ignorasse a fanfarronice que o segundo iria proferir, a 5, e engolir uma semana depois? Escrevi “patifarias do poder” e dou aqui por soletrada a expressão, para que resulte claro que pesei o que escrevi. Ou alguém de senso acha inadequado o qualificativo para designar o modelo anunciado de fuzilamento moral de funcionários públicos? 

4. O país não ensandecido assistiu, atónito, à leviana falta de senso de alguns deputados. “Os Verdes”, sem passarem os olhos pelos programas de ensino, propuseram resolver o que há décadas está resolvido, isto é, o estudo da Constituição da República Portuguesa no contexto de várias disciplinas curriculares, designadamente História e História e Geografia. Fernando Negrão, magistrado, deputado e cumulativamente presidente da Comissão Parlamentar de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias, tudo isto, pasme-se, defendeu que os nossos alunos não devem ter qualquer contacto com a Constituição vigente. Porque ele, a coberto da sua beca e imunidade parlamentar, a decretou “datada” e senhora de uma “carga ideológica muito forte”. Nuno Crato implodiu a área da Formação Cívica. Fernando Negrão quer banir o ensino da Constituição. Compreendemos porquê. Basta seguir a conduta protofascista de Passos e Gaspar. Os direitos humanos, os direitos sociais, os direitos culturais, as liberdades e as garantias, que resistiram às revisões de 1982 e 1989, são insuportáveis para quem governa em regime de excepção encapotada. 

5. Mal foi anunciada a greve dos professores, surgiram, cândidos, dois discursos: o dos que a condicionam a não perturbar a tranquilidade do chá das cinco e o dos que só militam na solução que nunca é proposta. Aos primeiros, é curioso vê-los invocar o direito de uns, com as botas cardadas calcando os direitos dos outros. Aos segundos, repito o que em tempos aqui escrevi: os professores sabem, têm a obrigação de saber, que todo o poder só se constrói sobre o consentimento dos que obedecem. Quando vos tocarem à porta, não se queixem! 

Trinta alunos por turma, 300 alunos por professor, mais horas de trabalho lectivo, mais horas de trabalho não lectivo, menor salário, carreiras e progressões congeladas vai para 7 anos, obrigatoriedade de deslocação a expensas próprias entre escolas do mesmo agrupamento, exercício coercivo a centenas de quilómetros da residência e da família, desmotivação continuada e espectro do desemprego generalizado, são realidades que afectam os professores, em exclusivo? Não afectam os alunos? Não importam aos pais? Ao futuro colectivo? 

A diminuição do financiamento dos serviços de acção social escolar, quando o desemprego dos portugueses dispara e a fome volta às nossas crianças, bem como a remoção sistemática, serviço após serviço, das respostas antes existentes para necessidades educativas especiais, é problema corporativo dos professores ou razão para que a comunidade civilizada se mobilize? A drástica diminuição dos funcionários auxiliares e administrativos, a redução das horas de apoio individualizado aos alunos, o aumento do preço dos manuais e dos passes e a deslocação coerciva de crianças de tenra idade para giga agrupamentos são problemas exclusivos dos professores? 

* Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt)

26/04/13

era uma vez uma terra feliz e próspera..

.
GENIAL! Um vídeo a não perder!

  
 ..
publicado no Youtube por Alcides Santos, aqui

«Taxar os ricos: Um conto de fadas animado, narrado por Ed Asner, com animação de Mike Konopacki. Escrito e dirigido por Fred Glass para a Federação de Professores da Califórnia. Um vídeo de 8 minutos sobre como chegámos a este momento de serviços públicos mal financiados e ampliando a desigualdade econômica. As coisas vão para baixo numa terra feliz e próspera após os ricos decidirem que não querem pagar mais impostos. Dizem às pessoas que não há alternativa, mas as pessoas não têm assim tanta certeza. Esta terra tem uma semelhança surpreendente com a nossa terra. »

Para mais informações, www.cft.org.
O vídeo original está em http://www.youtube.com/watch?v=S6ZsXr...

13/04/13

a amiga de Pinochet .. e de Cavaco Silva

É, convém não esquecer também a lusa 'liaison' .. MT, uma das directamente interessadas na construção/localização da ponte Vasco da Gama (engendrada para retirar trânsito à 25 de Abril, lembram-se?) , no tempo em que o agora presidente da república era primeiro ministro ..

recebido via e-mail: 

in TRAÇO GROSSO
tracogrosso.blogspot.pt

por Alfredo Barroso
10 de Abril de 2013

Na morte de Thatcher, amiga de Pinochet 

MORREU Margaret Thatcher, uma das principais responsáveis pela contra-revolução neoliberal que há mais de 30 anos vem devastando os regimes democráticos ocidentais, distorcendo a economia, tornando as sociedades democráticas cada vez mais desiguais, destruindo a coesão social, impondo o «casino da especulação monetária» e a ditadura dos mercados financeiros globais que hoje mandam em nós. 

Morreu, além disso, a amiga de Pinochet, um dos ditadores mais sanguinários e corruptos da América Latina, que permitiu que o Chile se tornasse banco de ensaio das políticas ultraliberais preconizadas pela famigerada «escola de Chicago» e levadas a cabo pelos «Chicago boys», apadrinhados por Milton Friedman e Friederich von Hayek, figuras tutelares do pensamento de Margaret Thatcher, além da mercearia do pai. 

Não faço esta acusação de ânimo leve. São factos conhecidos, designadamente a sua acendrada admiração por Augusto Pinochet, como se projectasse nele aquilo que ela desejaria impor, mas nunca poderia conseguir, na velha democracia inglesa. Há muitas fotos em que aparecem ambos sorridentes, lado a lado, quer quando o ditador estava no poder, quer quando o detiveram em Londres na sequência do pedido de extradição efectuado pelo juiz espanhol Baltazar Garzon, que o acusou de ser responsável, durante a ditadura, pelo assassínio e desaparecimento de vários cidadãos espanhóis. 

Esta mulher a quem chamaram «dama de ferro», como poderiam ter chamado «de zinco» ou «de chumbo», nutria um profundo desprezo pelos grandes intelectuais ingleses do seu tempo, designadamente Aldous Huxley, John Maynard Keynes, Bertrand Russell, Virgínia Woolf e T. S. Eliot, conhecidos como o «círculo de Bloomsbury» (do nome do famoso bairro londrino de editores e livreiros e de boémia intelectual). A frustração dela perante o talento e a inteligência que irradiavam deles, e que ela não conseguia captar, levaram-na a considerá-los «intelectuais estouvados, que conduziram o Reino (Unido) pelos caminhos nada recomendáveis da segunda metade do século XX». Ao diabo as «literatices» da «clique de Bloomsbury», dizia ela. «O meu Bloomsbury foi Grantham» (onde o pai tinha a famosa mercearia) (…) Para compreender a economia de mercado, não há melhor escola do que a mercearia da esquina». Deve ser por isso que as mercearias estão a falir… 

Thatcher considerava «a distância entre ricos e pobres perfeitamente legítima» e proclamava «as virtudes da desigualdade social» como motor da economia. A verdade dos números é, no entanto, bastante diferente. Como salienta John Gray, um dos mais importantes pensadores contemporâneos, na Grã-Bretanha da chamada «dama de ferro» os níveis dos impostos e das despesas públicas eram tão ou mais altos, ao fim de 18 anos de governos conservadores, do que quando os trabalhistas deixaram o poder, em 1979. Ao mesmo tempo, nos EUA de Ronald Reagan, co-autor da «contra-revolução neoliberal», o mercado livre e desregulado destruiu a civilização de capitalismo liberal baseada no New Deal de Roosevelt, em que assentou a prosperidade do pós-guerra. 

Convém dizer que John Gray, autor de vários livros editados em português, entre os quais Falso Amanhecer (False Dawn), chegou a ser uma das figuras dominantes do pensamento da chamada «Nova Direita», que teve uma grande influência nas políticas que Thatcher pôs em prática. Mas ficou desiludido e alarmado com as terríveis consequências dessas políticas e tornou-se um dos críticos mais lúcidos e implacáveis dos «mercados livres globais», cuja desregulação tem causado os efeitos mais perversos nas sociedades contemporâneas, provocando a desintegração social e o colapso de muitas economias. O capitalismo global parece funcionar, segundo Gray, de acordo com as regras da selecção natural, destruindo e eliminando os que não conseguem adaptar-se e recompensando, quase sempre de maneira desproporcionada, os que se adaptam com sucesso. Estas são, logicamente, as inevitáveis consequências do pensamento de Thatcher, ao pôr em prática «as virtudes da desigualdade social» como motor da economia. 

A pesada herança de Margaret Thatcher, tal como a de Ronald Reagan - adoptadas não apenas pela direita ultraliberal, mas também por uma certa esquerda neoliberal (Tony Blair, Gerhard Schröder e alguns discípulos da Europa do Sul, designadamente lusitanos) - é esta crise brutal em que a UE e os EUA estão mergulhados há já cinco anos. E o mais terrível é que é o pensamento dos principais responsáveis por esta crise que continua e prevalecer na maioria dos governos que prometem acabar com a crise através da austeridade, do empobrecimento dos cidadãos e do confisco dos seus direitos sociais. Thattcher foi um ser maléfico e não deixa saudades. 

Lisboa, 8 de Abril de 2013 
AFIXADO POR ALFREDO BARROSO QUARTA-FEIRA, ABRIL 10, 2013