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28/01/16

Vergílio Ferreira, centenário

Vergílio Ferreira nasceu num 28 de Janeiro, faz hoje cem anos

«Pela primeira vez eu tinha o alarme dessa viva realidade que era eu, desse ser vivo que até então vivera comigo na absoluta indiferença de apenas ser e em que agora descobria qualquer coisa mais, que me excedia e me metia medo. Quantas vezes mais tarde eu repetiria a experiência no desejo de fixar essa aparição fulminante de mim a mim próprio, essa entidade misteriosa que eu era e agora absolutamente se me anunciava.»
Vergílio Ferreira, in Aparição


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Vergílio Ferreira 
(1916-1997) 

Vergílio Ferreira iniciou a sua actividade literária na década de quarenta do século XX. 

Seduzido pela força do neorealismo, sofrerá uma sensível mudança que o tornou marginal à ideologia marxista, mas que o afastará também do catolicismo. O que essencialmente o fez mudar, como ele próprio escreveu, não foi a aspiração ao humanismo e à justiça, mas um conceito prático de justiça e de humanismo, pois que se os modos de concretização de um sonho podem sofrer correcção, não o sofreu neste caso, a aspiração que visava concretizar. Transparecia seguramente nesta mudança. 

O que seja esse equilíbrio ele no-lo diz, remetendo-o para o insondável e incognoscível de nós, um substrato gerado ao longo dos infinitos acidentes, encontros e desencontros e que nos surge como anterioridade radical às nossas escolhas e opções. Por isso "o impensável e o indiscutível subjaz a todo o pensar, e para lá dele, ao sentir", sendo sobre esse impensável que se nos organiza a harmonia do pensar, que ulteriormente tentamos explicar ou demonstrar com a disciplina da razão. Este é um dos temas mais recorrentes no pensamento de VF, a que já se referira na sua mais importante obra filosófica, a Invocação ao meu Corpo, ao considerar que "há duas zonas no homem que são a das origens e a da concretização, a do indizível e a do dizível, a do absoluto e a da redutibilidade". 

Daí a relevância do tema da "aparição", consentânea com a revelação momentânea de uma verdade que em nós se pode gerar lentamente, mas cujo momento culminante tem quase sempre o instantâneo da estrada de Damasco e a dimensão fulgurante do mistério. "O mistério e o seu alarme são o tecido de tudo", dirá em Carta ao Futuro (1957). 

Daí também o estatuto da arte, ao longo de toda a sua obra: o mundo da arte é o mundo da aparição, o mundo inicial. A arte será, como disse, "o arauto do impensável, ou o lugar onde se lhe vê a face, cabendo ao filósofo explicitá-la em pensamento", ou, noutra afirmação não menos explícita: "a arte inscreve no coração do homem o que a vida lhe revelou sem ele saber como, e o filósofo transpõe a notícia ao cérebro, na obsessiva e doce mania de querer ter razão", repetindo aqui uma ideia que sempre lhe foi cara: a de que a filosofia é um pobre sobejo do milagre da arte, e vem depois, já tarde, "como os corvos ao cadáver", pois que, como escreveu em Invocação ao meu Corpo, "todo o pensar é póstumo ao que se é, à aparição da verdade essencial, da revelação do originário. Por isso é que a filosofia é uma aventura perene como a arte. Cada filósofo recupera esse espanto inicial, de interrogação suspensa, degradando-a em pergunta quando lhe reponde com razões", deixando patente que a degradação a que se refere se reporta a uma filosofia de matriz racionalista. 

A arte não interpreta, revela; não explica, mostra o lado oculto do homem, por isso, em arte, saber é comover-se. Já em Espaço do Invisível III afirmara a mesma tese, em justificação do título: "mas se em todo o horizonte está presente um horizonte que o margina, até um horizonte final, se na mais breve palavra está o aviso do insondável, se o espaço do invisível se anuncia no do visível, é na obra de arte que mais presente e visível se nos revela o invisível". 

Em todo o caso, dando corpo a um pensamento de base existencialista, emerge o primado do sentir, "o essencial não é para se pensar mas para se sentir", que nos diz que "a verdade é amor", pelo que é a verdade emotiva a primeira e a última que nos liga ao mundo. 

Daí também um dos seus temas preferidos, o das "verdades de sangue": um autor que se admira mas que se não ama, "vai para o lado de nós, onde o sangue não circula ou é uma aguadilha", ou, como dirá em Do Mundo Original, "uma verdade só interfere na vida quando o sangue a reconhece", pelo que uma razão ajuda, mas não decide uma receptividade. 

E daí de novo a arte, inclusive a arte que lhe coube, que foi a da escrita, a do romance lírico, onde as coisas adquirem a sua essencialidade, a sua verdade emotiva, tornando visível o mistério. 

Mistério e espanto perante o estremecimento íntimo das coisas em nós. Aí a raíz da atitude lírica que integrará na sua actividade romanesca, fazendo do romance o lugar de cruzamento entre o lirismo e a reflexão filosófica de vertente existencial, na convicção, por si afirmada, de poder perfeitamente escoar em prosa a poesia que lhe coube, e com a preocupação acrescida de teorizar em ensaios múltiplos - apesar das suas invectivas contra a pobreza da razão - as questões apresentadas ficcional e literariamente. 

Todavia, o cântico ao homem é à sua irredutibilidade individual que tanto o afastou do estruturalismo e nele via a morte do homem, o cântico ao homem que assistiu à morte de Deus, tragicamente vivida em Manhã Submersa, e se colocou no seu altar com a força iluminadora que de si próprio descobriu irradiar, coexiste com a amarga experiência da desagregação dos valores artísticos, sociais, históricos e ideológicos. Entre todos, a morte da arte é a que assume a dimensão mais trágica, uma morte que é autodestruição, e que justifica muita da frieza que empresta aos seus últimos romances, nomeadamente em Para Sempre. 

Ao tema regressará em Pensar, numa comparação singela do aldeão que sempre foi: "Dar um sentido à vida. Para lho darem aos domingos, quando não trabalham, os campónios da aldeia embebedam-se e dão-se facadas. A arte do nosso tempo sabe-o e faz o mesmo". Entre os quatro grandes mitos modernos, Acção, Erotismo, Arte e Deus, foi a morte da Arte que mais o ocupou, a par da morte de Deus. A arte moderna esquecera o "mundo original", autonomizara as formas e divorciara-se do homem? 

Em todo o caso, o tema essencial de toda a sua obra foi certamente o da procura do sentido da existência num universo sem sentido, fazendo-o navegar no que Eduardo Lourenço chamou um "niilismo criador" e um "humanismo trágico", explorando até à exaustão o tema do "eu", ao mesmo tempo eterno e inscrito na finitude, a mesma finitude que o embrenha na temática da morte, num homem que heroicamente, e também angustiadamente, suporta o desafio da finitude. 

"Tenho a corrupção lenta do tempo, tenho a eternidade a executar". Eis, numa breve expressão de Rápida a Sombra, a dimensão trágica do seu pensar, onde se desenrola uma intensa reflexão sobre o corpo e a morte. Há em todo o homem são um impulso para um mais daquilo que se é no presente, e que jamais se alcança, ou que se sabe jamais poder alcançar-se ("um apelo ao máximo" que vem do máximo que o homem é), num processo infindo a que só o absurdo da morte põe termo: "Na profundidade de nós, o nosso eu é eterno, e todavia é justamente o corpo que nos contesta a eternidade". Todavia, em Invocação ao meu corpo, VF pretendeu divinizar o corpo, naquele sentido em que o "homem é espírito e corpo", e por isso realiza o espírito no corpo ou é corpo espiritualizado, estando todo o homem nele "como um Deus panteista". 

No entanto, novo conflito deflagra entre essa exaltação divinatória, e a consciência trágica da sua corruptibilidade e da sua objectiva degradação, lançando o homem na angustiante consciência da sua "infinitude limitada", e ao mesmo tempo no plano heróico de saber que a morte o espera, devendo viver "como se ela não contasse", ou, como escreveu em Nítido Nulo: "viver a eternidade e, num momento de distracção, cortarem-la rente". 

Pedro Calafate


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Rumor de uma polémica

no Público
06/12/2012
(...)
Poucas polémicas na história da literatura portuguesa terão ficado tão célebres como a que opôs Vergílio Ferreira a Alexandre Pinheiro Torres nas páginas do Jornal de Letras e Artes, no começo de 1963, a propósito da publicação, no final do ano anterior, de Rumor Branco, o romance de estreia de Almeida Faria (n. 1943), então com 19 anos. Para assinalar o cinquentenário da primeira edição, a editora Assírio & Alvim acaba de reeditar o livro, acrescentado dos textos dessa polémica: uma troca de argumentos que, entre réplicas e tréplicas, discute acesamente a filiação de Almeida Faria à luz da grande divisão entre existencialistas e neo-realistas.
(...)

«Assim também eu»

Visão, 28.01.2016, p.98

clicar na imagem para ampliar:  


imagem trazida daqui, com sublinhados:
http://entreostextosdamemoria.blogspot.pt/2016/01/visao-28012016-p98.html

27/01/16

Então, que tal?

no Público
27 de Janeiro de 2014

por Santana Castilho *

1. Dois meses corridos sobre a entrada em funções do novo Governo, considerando todos os anúncios de mudança e o que já foi mudado, venho perguntar aos professores de sala- de-aula: então, que tal? 

Da última vez que os contei, eram 11 os documentos, com 18 itens de referência obrigatória, que uma simples reunião de turma de final de período gerava. Há sinais de alívio desta burocracia gratuita? As esferográficas continuam a ser compradas através de concursos públicos centralizados, via plataforma informática? Em tempos de reversão, fala-se por aí que cada escola vai voltar a ser escola? Ou está tudo sereno, na molhada do agrupamento? Já discutem um novo modelo de gestão, que traga democraticidade à coisa, ou estão bem sob o jugo de vários pequeninos ditadores? O vosso quadro de pessoal está em vias de ter uma dimensão adequada às necessidades? Já perceberam como a vossa carga desumana de trabalho não remunerado vai ser aliviada? Já reorganizaram as vossas vidas para responderem zelosamente ao acréscimo de provas a corrigir com a ressurreição das provas de aferição? Já trabalham para definir que recursos e que meios a vossa escola vai ter para combater as dificuldades dos alunos? Já decidiram algo sobre a reversão das aulas de 90 minutos? Embora já habituado, notei que há poucos dias (Escola Secundária Jorge Peixinho, no Montijo) um colega nosso levou um valente murro de um aluno, em plena sala de aula. Pergunto-vos se já notaram indícios de que algo vai mudar em matéria de disciplina. Fala-se por aí em tornar público o crime de agressão a um professor? Ou está tudo tranquilo e a indisciplina é coisa que não vos aflige? Serviços de orientação escolar, vocacional ou tutorial? Diz-se algo? Sobre o que se seguirá ao fim do vocacional em idade precoce, consta algo? Necessidades educativas especiais, minorias étnicas, culturais e religiosas? Fala-se disso? Têm corrido bem as reuniões com os sindicatos para alterar o estatuto da carreira docente? 

Desculpem! Reli isto, um décimo do que gostaria de vos perguntar, e reconheço a minha inconveniência: que importam estas minudências se os exames acabaram? 


2. O fim da denominada Bolsa de Contratação de Escola (BCE), instrumento que permitia que escolas com contratos de autonomia ou integrantes dos Territórios Educativos de Intervenção Prioritária (TEIP) fixassem critérios próprios para contratar professores, é uma medida positiva, por pôr fim a uma roleta-russa absurda, geradora de processos tresloucados, que vitimaram milhares de professores. 

Mas a morosidade na colocação (21 dias em média por cada docente) numa burocracia inaudita, balizada por 2,3 milhões de candidaturas a 7573 concursos no presente ano, sendo relevante, não é argumento primeiro. Mas foi o que o ministro invocou. 

Tão-pouco me parece aceitável insistir em reivindicar poder para fixar critérios próprios, por isso fazer parte dos contratos de autonomia. Mas foi o que invocaram o presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares e o presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas. 

Termos em que parece pertinente recordar que o argumento primeiro é o que o artigo 47º da Constituição da República Portuguesa fixa, quando determina que “todos os cidadãos têm direito de acesso à função pública, em condições de igualdade e liberdade”. Com efeito, o carácter universal deste direito de acesso foi denegado a milhares de professores, por via de 1149 páginas de critérios imbecis e grotescos, definidos para só servirem a alguns. E porque o momento é próprio e o tempo é novo, recorde-se, ainda, toda a jurisprudência do Tribunal de Justiça da União Europeia, relativa à directiva 1999/70/CE, que aponta numa só direcção, legal e justa: vinculação aos quadros de todos os professores que, desde 2001, sejam titulares de mais de três contratos anuais sucessivos. 


3. A DBRS, a agência de notação financeira que tem sido generosa com a dívida do Estado português, deu sinais de impaciência (leia-se de profundo desagrado) com a pulverização sem critério dos créditos de alguns credores seniores do Novo Banco. Se daí resultar um abaixamento do rating (leia-se o débil elo que nos liga à protecção do BCE) será com um ruidoso “paf!” que explodirá a nossa reputação, já em queda nos mercados, sem que qualquer coligação nos acuda e a António Costa. É que, por muito que não gostemos deles (e eu não gosto), os mercados existem e sem os tomar em conta o esboço de orçamento não passará de um esboço de desgraça. É que tomar de assalto o Rato e driblar Seguro foi fácil. Fintar o resto para chegar a São Bento requereu engenho e arte. Mas para conseguir ultrapassar a ortodoxia financeira de Bruxelas e garantir as migalhas que o esboço distribui, não chega o sorriso crónico de Centeno. Bendito seja Costa se vier a ter razão para me chamar Velho do Restelo! 

* Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt)

24/01/16

La Liberté pour quoi faire ?

La Liberté pour quoi faire ? Ou la Proclamation aux Imbéciles

«On ne comprend absolument rien à la civilisation moderne si l’on n’admet pas tout d’abord qu’elle est une conspiration universelle contre toute espèce de vie intérieure. » Georges Bernanos ( La Liberté, pour quoi faire ? et La France contre les robots furent écrits au sortir de la Seconde Guerre mondiale.)
George Bernanos y dénonce, dans une langue poétique et virulente, le chemin pris par la civilisation occidentale vers une soi-disant modernité où la finance devient reine, et le progrès rend les humains « imbéciles ». Ecrasés par des rouages absurdes, comment peuvent-ils encore défendre leur dignité, leur intégrité et leur liberté ? Evoluant dans un décor de fête finissante, les deux comédiens transmettent avec force ces textes visionnaires.

teaser de "La liberté pour quoi faire"
d'après les textes de Georges Bernanos

da liberdade ...


Proj-logo

Arquivo Pessoa

OBRA ÉDITA · FACSIMILE · INFO
pdf
Fernando Pessoa

Para que serve a liberdade às plebes?

Para que serve a liberdade às plebes? Para que lhes serve, supondo, de resto, que elas a possam obter e usar dela?

As plebes são, por sua natureza, aquela parte da sociedade sobre quem incide, quer por divisão social, como a escravatura, quer por compulsão económica, o trabalho manual ou com ele relacionado, o trabalho do artífice. A que serve ao artífice a liberdade? O que [é] à plebe devido não é a liberdade, é a ausência de opressão, que é devida a todos, e o seu direito natural de homens. É esse o direito do homem; esse, e não a liberdade. A que se reduz esse direito? O de não haver mais ingerência na vida das plebes do que a natural; e a natural é a sua condição definida de escravos no tempo da escravatura; e a sua condição económica de compelidos ao trabalho quotidiano e manual, no tempo da chamada concorrência (da concorrência universal).

Para que serve qualquer das fórmulas de liberdade à plebe? Para que lhe serve a liberdade de pensamento? De que serve a liberdade de pensamento a quem, por sua condição social, não pode pensar? De resto, é essa uma liberdade que se lhes pode conceder até certo ponto.

Que haja uma liberdade que permita ao escravo contemporâneo a sua libertação, que modernamente cada qual faz por si próprio, e não por concessão de um dono — isso é justo. Ao homem da plebe compete a liberdade da oportunidade, mas uma liberdade apertada, restrita, para que só os deveras dignos dela possam passar-lhe pelas malhas.

Outra coisa é a liberdade de pensamento, aplicada aos que podem usar dela. Como, porém, fazer a distinção?

1917?
Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1996.
 - 259.

23/01/16

da abstenção

Sei ... há quem não vote como forma de protesto. Pergunto-me apenas o que têm conseguido com essa opção ...
E há quem não vote porque não pode ...

Mas a maioria dos que se abstêm não vota, porque não quer saber. Porque é tão "avesso a políticas"! São os patetas-alegres sempre tão a leste de tudo, que se queixam do desemprego e não percebem que isso é política; dos magros salários, e isso é política; dos recibos-verdes; da precariedade; do preço do pão e da gasolina e dos livros dos filhos, das propinas, da vida sem alternativas em casa dos pais; das magras pensões e do custo da electricidade, dos transportes que mal-funcionam, das horas de espera nas urgências dos hospitais e ISSO, TUDO ISSO, É POLÍTICA!

Mas pronto ..... deixem-se ficar bem esparramadinhos no sofá, não votem! Mas, depois, FAÇAM O FAVOR DE NÃO SE QUEIXAREM!

20/01/16

Nuno Teotónio Pereira, R.I.P.

Prisão, tortura, fé, amor e arte: 

a vida preenchida de Nuno Teotónio Pereira


do DN-Artes: Nuno Teotónio Pereira fotografado em 1989

José Pedro Castanheira, Cândida Santos Silva (texto)

20.01.2016 no Expresso, http://expresso.sapo.pt/sociedade/2016-01-20-Prisao-tortura-fe-amor-e-arte-a-vida-preenchida-de-Nuno-Teotonio-Pereira 

Era um nome incontornável na resistência católica à ditadura e um dos arquitetos mais distinguidos do país. Nuno Teotónio Pereira só deixou de trabalhar no ateliê em 2008, quando um glaucoma lhe fechou os dois olhos em menos de uma semana. Oriundo de uma família monárquica e salazarista, evoluiu para o catolicismo progressista e, mais tarde, para o socialismo radical, antes de aderir ao PS do amigo Ferro Rodrigues. Depois de cegar, deu uma longa entrevista ao Expresso, saída em fevereiro de 2015 e que agora se republica. Nuno Teotónio Pereira morreu esta quarta-feira - faria 94 anos a 30 de janeiro

- A sua primeira experiência política foi aos 14 anos, na guerra civil de Espanha, no apoio a Franco... 

- É verdade. Integrei um comboio de camiões que levou géneros (farinha, arroz, etc.) para os nacionalistas do exército de Franco. Fomos até Sevilha, onde ficámos alojados em casa de aristocratas. 

- Foi a primeira vez que saiu de Portugal? 

- Sim. Voltei a Espanha ainda durante a guerra civil, quando o meu tio Pedro, que gostava muito de mim, foi nomeado por Salazar agente especial junto do Governo do Franco, em Burgos. Ele tinha um filho, o Pedrinho (mais novo que eu), e como achava que eu era uma boa companhia convidou-me várias vezes para ir ter com ele a Espanha. O corpo diplomático costumava passar as férias em San Sebastián, e em 1938 fomos os dois no Sud Express até lá. O meu tio recebeu um telefonema da frente da Catalunha, na altura da batalha do Ebro - a última grande contraofensiva do exército republicano -, a dizer que tinham morrido dois oficiais portugueses que se haviam oferecido como voluntários para integrar os Viriatos. Fomos de carro até Saragoça e depois ele seguiu para Portugal, para as cerimónias fúnebres. Voltei em 1940, na altura da ofensiva do Hitler sobre a França. Em Bordéus estava o cônsul Aristides de Sousa Mendes e havia muitos refugiados a passar a fronteira. O exército alemão já tinha chegado aos Pirenéus, e tenho fotografias de soldados fardados a passear ao domingo em San Sebastián como turistas.

17/01/16

a escola por quem a vive

Mãos - Teresa Dias Coelho
______________  dos exames e das provas-de-aferição:

Para começar e como esclarecimento prévio, sou - basicamente - contra todos os exames até ao fim da escolaridade obrigatória - que agora (lembram-se? Sabem?) é até ao 12.º ano. E escusam de me vir com a treta da exigência, que sei bem do que falo! Os exames não a aumentam em nada!! Apenas a disciplinam, em ditames orientadores do que privilegiar (em detrimento de outros saberes e outras capacidades, quiçá até mais relevantes, na formação de um ser humano.....)

E celebro o fim dos exames no 4º ano! E celebrar-lhe-ei a extinção, se for aprovada, no fim do 9º!

E .... pois .... sou de um tempo em que NÃO SE FAZIAM EXAMES, a não ser no fim do 1º ciclo: de 4ª classe e de admissão aos liceus. É .... pois .... impensável, não? No tempo do Estado-Novo, podia-se dispensar dos exames consoante a nota de frequência. E, lamento dizê-lo, agora, CONFIAVA-SE NOS PROFESSORES, assim eles trabalhassem numa escola pública!

O que eu acho que devia ser revisto - urgentíssimamente!! - e há anos que venho clamando contra isto!!, são as CONDIÇÕES DE TRANSIÇÃO dos alunos, que, na prática, podem chegar ao fim da sua escolaridade obrigatória tendo reprovado, sempre, às mesmas duas disciplinas! Não vos parece isto aberrante? Inaceitável? Pois é, senhor ministro, imagine um professor, digamos de inglês (o meu caso), com uma turma do 10.º ano (em princípio, nível 5 de língua estrangeira), em que metade dos alunos não percebem uma palavra de inglês ... Com um programa para cumprir .... Que tal?? No secundário, em que é preciso aprovar a cada disciplina ... Não o afligem estas circunstâncias? Não acha que, nestes casos, seria urgente-íssimo um apoio extra, para os referidos alunos? Pois ..... e .... zero de medidas? Zero de alterações à lei?!!! Não é o senhor "radicalmente a favor do sucesso dos alunos? E afinal, isso, não passa de tretas, como é costume???

E passemos às provas de aferição. Que lindo! Que politicamente correcto, isso do "Acompanhar o desenvolvimento do currículo, nas diferentes áreas.+ Fornecer informações detalhadas à escola, aos professores, aos encarregados de educação e aos alunos sobre o desempenho destes." (do 'comunicado' deste ministro-a-leste....). Pois ....
Já as fiz e já as corrigi. Mais uma vez, sei do que falo: as provas de aferição só servem para dar trabalho acrescido aos professores. E não há retorno, qualquer indicação do que tem de mudar, visando as aprendizagens (efectivas) dos alunos. Os senhores que tudo decidem espero que saibam: há testes nas escolas (diagnóstico, formativos e sumativos. Anyone there .... ? Ministério da Educação....??? Saberão os senhores e as senhoras que a pergunta mais ouvida, em sala de aula, é: "Isto sai no teste?" "Isto conta p'ra nota?" Pois. Pois ...... as provas de aferição não. Não contam. Basicamente, para nada. E os nossos alunos, habituados que estão a imediatismos de iphones e quejandos, acabam por ter um sentido prático que a nós, professores, nos exaspera, e a vós, governantes, não devia passar despercebido! "Não conta p'ra nota" = não interessa; = ninguém leva a sério. 

CONFIEM NOS PROFESSORES, PORRA! Confiem nas suas avaliações, nas notas dos testes a que sujeitam os seus alunos!!! E, repito, diagnóstico, formativos e sumativos --- não chega de testagens? Que mais querem???
Caso para retomar a máxima do outro: DEIXEM-NOS TRABALHAR!!!
A direcção da escola, seja ela democraticamente eleita, sabe dos nossos erros, dos nossos "conseguimentos"! Que sejam eles, mais os nossos pares mais capazes e mais experientes, a corrigir o que tem de ser corrigido!!
Devolvam-nos a paz-de-espírito e a vontade de trabalhar!!

Alô Fenprof .......?

_____________a ver se nos entendemos:

preponderante e absolutamente condicionador das aprendizagens dos alunos não é o "bom estado" dos seus professores? O físico e o psíquico? ----- Rebatam lá isto, se puderem!
de Luís Dourdil, Abraço

Mais: o flagelo (mais flagelante) das escolas, desde há muito, não é a INDISCIPLINA dos alunos? E .... não acham que isso está relacionadíssimo com a concepção social do estatuto do professor? Que a dona Milú arrasou com todo o prazer sádico e de ódio à classe docente que enfermou o seu mandato? Panorama que o Rato agravou, com toda a insensibilidade e a prepotência que o caracterizam?

Pois então: desde (pelo menos e muito acentuadamente) Maria de Lurdes Rodrigues, os professores têm descido aos infernos: carreiras congeladas, salários diminuídos e horários de trabalho insanamente aumentados, a permanência na escola elevada a níveis kafkianos!! (Sim, que toda a gente, se não sabe, devia saber que a maioria do trabalho de um professor se realiza em casa ....)
Isto, para não falar da relevância que se lhes negou, por exemplo, com a escolha do senhor director (ideia da bendita-sinistra ...), a eficaz gestão democrática descartada em nome vá-se lá saber de quê, os tristes "mandantes" conselhos gerais - instituídos "com o objectivo de reforçar a participação das famí­lias e das comunidades", como se isto fosse prática democrática corrente neste país!!
Isto, para não falar desse atentado anti-democrático que são os mega-agrupamentos de escolas, medida economicista e matadora de qualquer humanismo! FIM, absolutamente! IMEDIATAMENTE!!!
E os professores calam-se! E os sindicatos calam-se! (ou rejubilam, que é pior!!)

Pois ...... fosse eu ministra da educação, e a primeira coisa que teria feito seria REVOGAR O ECD (Estatuto da Carreira Docente, para quem não saiba) IMPOSTO - e tão contestado na altura!!! - por essa megera desalmada e sádica que dá pelo nome de MLR!

Primeiro, repunha a gestão democrática nas escolas: os Conselhos Directivos eleitos por professores - obviamente!!

Depois, acabava com a indefinível componente não-lectiva, tão dependente do número de turmas e do tipo de disciplina leccionada!

Acabava, também, (-aplausos!!) com a delirante BCE (bolsa de contratação de escolas) e a aberrante PACC (prova de avaliação de conhecimentos e ... capacidades (???!!!). A avaliação dos professores é necessária, como necessária é uma formação sólida, pedagógica e cientificamente, e que reformas urgentes haveria a fazer aí!, as saudosas e conceituadas Escolas do Magistério Primário e as licenciaturas pré-Bolonha!!

E aumentava os salários dos professores. E descongelava-lhes as carreiras - obviamente!!!

E ..... mais umas quantas medidas (fáceis, fáceis, urgentes e eficazes), a que haverei de voltar quando me apeteça desgastar-me ...
Alô Fenprof .......?

15/01/16

esvivecer MLR???



Sei .... o governo, o ministro da educação, estão em estado de graça no que às opiniões dos meus amigos-de-esquerda concerne. 
Isto dito .... serei eu a única a estranhar esta unanimidade, este silêncio dos professores?!! Ora digam-me, amigos: isto que, até agora, foi desfeito/alterado corresponde às vossas mais fundas aspirações? (BCE, óptimo; PACC, a ver vamos ...). 


Eu (que saí do inferno, penalizada como convém...) tenho, da leccionação, a memória dorida do que de maquiavélico me fez o ECD imposto por Maria de Lurdes Rodrigues, de má (muito, muito má!!!) memória. E, já sei, monsieur Crato foi pior, mil vezes pior. Mas ..... a coincidência ...... até do apelido ..... não?

Cá para nós .... Não vos incomoda - nada?!!! - por exemplo, continuarem com esse horário sobrecarregadíssimo de horas passadas na escola - a fazer .... um monte de tretas?!!!

Não acham que o novo ministro, a querer fazer, precisamente, "novo", já vos devia ter, ao menos prometido ..... rever aquela história aberrante da componente não-lectiva? É que nem orçamento rectificativo exigiria .... nem alterações de .... nada! ... Não vos preocupa esta ausência de propostas, colegas??!!Não vos merece uma reflexão que seja?!

Quer dizer ..... as vossas condições de trabalho ..... alteraram-se? Para melhor? Pois ..... digam qualquer coisa, não? Uma sugestão? Um pedido de desculpas pelo despautério dos DOIS últimos (2, sim!!!!!) ministros da Educação que vos couberam em sorte??? Assim ..... pelo aviltamento e descredibilização da classe, por exemplo? Tão potenciadora da indisciplina que vos aflige? ....... Não? ..... Nada?!!! ...
Os agrupamentos de escolas!!!! Essa mega-imbecilidade, redutora, apenas, do número de secretarias, e tão, mas tão potenciadora de anonimatos e distâncias, de indisciplina mais uma vez, decorrente e recorrente, tão anti proximidade professores/alunos/gestão, tão destruidora de tudo?
E .... não acham preocupante que uma dos 2 secretários e estado desse Tiago B. R. aparentemente tão bem quisto, tão .... inatacável ... seja, precisamente, tão estranha e convenientemente, um braço-direito da dita sinistra-ministra?!!!

E nada disto vos faz espécie????!!!
Pois .... pela parte que me toca, estou habituada(-íssima!) a sentir que luto sozinha contra o mundo! E .... haja!!!!!! -  já nada disto me afecta, por isso ..... bom-proveito e continuem caladinhos!
Then again .....

Ou ainda assim, professores, ....... nada ...???!!! Reivindicações ..... zero???!!!

13/01/16

O admirável novo tempo da Educação

no Público
13 de Janeiro de 2015

por Santana Castilho*

Ao divulgar o “Modelo Integrado de Avaliação Externa das Aprendizagens no Ensino Básico”, o ministro da Educação deu o seu contributo para a balbúrdia em que se transformou o “novo tempo” em matéria de Educação. Desmentiu a resposta que, na AR, António Costa havia dado a Paulo Portas, sobre os exames nacionais do ensino básico. Mas nessa resposta, António Costa também havia desmentido afirmações de Tiago Brandão e havia mostrado que não fazia a mínima ideia do que dizia o programa do seu próprio Governo sobre o tema. A estes insólitos já se acrescentava essoutro de, por duas vezes, os deputados do PS terem votado em massa contra o programa do Governo PS (PACC e abolição do exame do 4º ano). Por outro lado, o modelo divulgado assume-se, contraditoriamente, proposta e decisão. E fala de ter ouvido actores que garantem que não foram ouvidos. O caso mais relevante é o do Conselho Nacional de Educação, que não foi ouvido e que, na mesma altura, tornou público um parecer que se opõe ao que o ministro decidiu. Parecer esse que é tanto mais relevante quanto é certo que foi aprovado por uma enorme maioria de conselheiros (4 votos contra, em cerca de 50). Para cúmulo, dos três projectos de lei sobre a matéria, pendentes na AR, um (fim do exame do 9.º ano) poderá, ainda, invalidar parte importante da decisão de Tiago Rodrigues.

Nada disto é normal e tudo isto é lamentável. Quem como eu foi, eventualmente, o mais persistente crítico da desastrosa política de Nuno Crato (a quem censurei o improviso, a falta de fundamentação, o autoritarismo e o desrespeito pelos professores) está à vontade para lamentar o frenesim sem critério a que se assiste e justifica críticas idênticas.

Porquê recuperar provas que já usámos (ver despacho nº 5437, de 18/2/2000) e se revelaram inúteis? A persistir no erro, porquê os anos intermédios e não os anos finais? Porquê de modo universal e não por amostragem, como se faz, por exemplo, em sede do PISA? Porquê à bruta, já com o ano a meio, menosprezando o trabalho de planeamento dos professores e a estabilidade mínima devida aos alunos? Ponderou-se o que sentirão os alunos que se sujeitaram ao exame do 4º ano no ano passado e este ano voltam a ter outra prova no 5º, enquanto os colegas do 6º ficaram dispensados de maçadas até ao 8º? Se um dos argumentos para acabar com o exame do 4º ano foi a imaturidade própria de tão tenra idade, o argumento não é aplicável agora aos alunos do 2º, bem mais imaturos porque bem mais novos? Sendo positivo retirar as provas do meio de Maio, acreditam que os alunos do 8º ano, já em férias, se deslocarão empenhados à escola para fazerem uma prova que não conta para nada?

Os exames, em si, apuram resultados. Uma má classificação obtida por um aluno num exame não nos informa sobre as razões pelas quais isso aconteceu. Assim, a intervenção sobre os resultados só é possível se actuarmos sobre os processos. Aqui reside o grande problema da Educação nacional, já que continuamos obcecadamente a ocupar-nos das diversas formas de medir os resultados em vez de identificar e remover, atempadamente, os obstáculos que impedem a aprendizagem. A interpretação, à luz da literatura e da investigação científica actuais, dos dados estatísticos apurados evidencia a ausência de correlação entre o número de exames dos sistemas de ensino e o verdadeiro sucesso escolar dos alunos. Num sistema de ensino de massas, os exames são importantes, no tempo certo e na dose adequada, particularmente como instrumentos de certificação e relativização das classificações internas. Mas se a avaliação do desempenho dos alunos apurada através de exames não servir para a gestão desse desempenho, então os exames não servem para nada.

De há muito que defendo a tese segundo a qual os governos das duas últimas legislaturas se identificaram ideologicamente pela obsessão de reduzir toda a avaliação educacional a simples alinhamentos em escalas quantitativas. Dessa persistência política, de quase uma década, resultou um poder dominante, em nome da eficácia e da eficiência, de controlo social dos professores e dos organismos pedagógicos, que tudo pretende vigiar através de resultados, índices e rankings, qual autoridade única e unificadora de práticas, qual versão moderna de fascismo. O poder a que me refiro tem dominado a gestão do curriculum, orientando-o predominantemente para responder aos exames, retirando autonomia às escolas e liberdade aos professores. Não compreendendo que a complexidade dos processos de aquisição de competências e conhecimentos dos alunos, de índole tão diversa e níveis tão dispersos, supõe o uso de instrumentos e métodos de avaliação igualmente diferentes, bem mais compatíveis com a natureza contínua da avaliação interna que com o carácter casuístico da avaliação externa, este ministro, fazendo diferente, não foi além da eterna desconfiança nos professores. 

* Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt)

08/01/16

a Europa - a Europa?

retirado do facebook:

por Carlos Esperança

A Europa no turbilhão de todas as tempestades


A Europa, a velha Europa, que depois da Guerra dos 30 Anos, da miséria, da ruína e do sangue derramado nessa primeira metade do século XVII, impôs a liberdade religiosa e a paz, em Vestefália, está hoje paralisada pelo medo e má consciência, a hesitar entre o comunitarismo falhado e a civilização cujo respeito teme exigir a quem chega.

A União Europeia foi a maravilhosa utopia que os nacionalismos eliminaram, e a moeda única a aventura que rivalidades económicas, fiscais e políticas debilitaram. A ausência de integração social e económica, frustrando a coesão, acelerou a desunião. Nem uma política migratória comum consegue. A Europa apenas se uniu para desintegrar a Sérvia depois de ter cometido igual crime na Jugoslávia.
A Ucrânia foi a última aventura ofensiva, mal sucedida, contra a Rússia cujas afinidades civilizacionais a geoestratégia rejeita. Prefere a Arábia Saudita que preside ao Conselho da ONU sobre Direitos Humanos, uma sórdida manifestação de humor negro a sugerir a nomeação de assassinos para os corpos sociais das Associações de Apoio à Vítima.

A Europa do Renascimento, do Iluminismo e da Revolução Francesa retrocederá, com nacionalismos e rivalidades históricas à espera de uma oportunidade, quiçá com novos Kosovo(s) a servirem de entrepostos de drogas e campos de treino para terroristas.

A Bélgica talvez produza três condados, Flandres, Valónia e Bruxelas; a Inglaterra, a Escócia; a França, a Córsega, onde os independentistas ganharam as últimas eleições regionais; a Espanha, a Catalunha, o País Basco e a Galiza numa monarquia que o genocida Franco impôs; a Itália, sem Garibaldi que lhe valha, parte-se ao meio. Valha-nos Portugal onde as Berlengas e os ilhéus das Formigas serão sempre portugueses.

Espero não ser coagido a rezar, após seis décadas de abstinência severa, voltado para Meca, Roma ou, em maratona pia, a caminho de Fátima.

A Europa laica, cosmopolita e democrática corre perigo.

06/01/16

“A escolha é possível, em certo sentido, porém o que não é possível é não escolher. Eu posso sempre escolher, mas devo estar ciente de que, se não escolher, assim mesmo estarei escolhendo.” -- Sartre
arte de Christian Schloe

01/01/16

Eu, de passagem

Não sei se a culpa foi dos piropos, na juventude: tornei-me discreta (quem mo diz são os amigos!) - no carro velho que conduzo, cinza, na roupa estilo 'grunge' (apodo dos meus alunos) que sempre usei, na ausência de maquilhagem se exceptuarmos um risco preto ou castanho nos olhos, o cabelo bem curto - e cortado por mim, a maior parte das vezes.
Gosto (gostei sempre) de passar despercebida. De imbuir-me, incógnita, no pulsar das metrópoles. Eu rua e casas e gente anónima. Eu, movimento. Eu, de passagem. Sem rasto. Os pássaros e o rio.
Ah, os pássaros (porque não lhes chamo gaivotas?) e o mar, esta praia nocturna que me aquieta!..
Este devir das nuvens!..