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30/12/15

"Tempos novos, conluios de sempre"

no Público
30 de Dezembro de 2015

por Santana Castilho*

Quando, depois de tantos impostos que pagamos, se morre por falta de assistência médica num hospital central de Lisboa, quando milhares de filhos de emigrantes são expulsos de aulas de língua pátria por falta de pagamento de uma propina inconstitucional, quando se calca a dignidade dos pobres dando-lhes 80 cêntimos mensais de aumento de pensão social, não é o simples anúncio de que os tempos são novos que os mudam. É preciso mais, fazer diferente, selar conúbios. 

1. Tivessem Pedro Passos Coelho, Paulo Portas e Maria Luís uma réstia de dignidade política e já teriam vindo a público responder às gravíssimas acusações que lhes foram feitas por António Costa e Mário Centeno, a propósito do Banif. Com esta entrada, não se conclua que aprovo a solução encontrada. Com efeito, nenhum português esclarecido aceita a passividade do Banco de Portugal perante o arrastar da solução do Banif, que outra explicação não tem que não a servidão política à saída limpa e aos interesses eleitorais da coligação PSD/CDS. Como nenhum português esclarecido aceita uma solução que deixa sem resposta tantas perguntas, que abalroam as consciências dos que acreditaram que os tempos seriam novos. Quem já ganhou e vai ganhar com o que os contribuintes já perderam e vão perder? Quem concedeu créditos e quem os não pagou? Quem promoveu a fuga de informação que originou a corrida aos depósitos? Que interesses resultaram protegidos quando Costa e Centeno impediram que a resolução do Banif ocorresse em 2016, rejeitando, assim, a solidariedade europeia e impedindo que o BCE liderasse o processo no âmbito da união bancária e apurasse, em auditoria externa, as responsabilidades do bloco central da teia financeira? Como entender que o mesmo Governo que se escandalizou com a venda da falida TAP por 10 milhões de euros, venha agora obrigar-nos a pagar quase três mil milhões para que um banco estrangeiro fique com o Banif, limpinho de todos os prejuízos, numa solução que Passos Coelho achou inteligente e só o PSD viabilizou no parlamento? 

2. A gestão da Educação continua entregue ao acaso, desconcertada, cabendo a iniciativa à AR e tornando claro que o PS não tem problemas identificados e prioridades estabelecidas. Primeiro foram abolidos os exames nacionais de Matemática e Português do 1º ciclo do ensino básico, na manhã seguinte à tomada de posse do Governo, cujo programa não continha tal medida. E, surpreendentemente, os deputados do PS votaram à revelia do seu próprio programa de Governo. Seguiu-se a extinção da Prova de Avaliação de Capacidades e Conhecimentos (PACC), com a aprovação dos projectos de lei do BE e do PCP. Os deputados do PS voltaram a votar contra o programa de Governo, que apenas postulava a suspensão da prova, “procedendo à reponderação dos seus fundamentos, objetivos e termos de referência”. Apenas um deputado, Paulo Trigo Pereira, se absteve, depois de ter defendido publicamente a PACC (Público de 7.12.15) com uma imprecisão de monta. Com efeito, depois de invocar a alta qualidade do respectivo sistema de ensino, afirmou que a Finlândia tem uma prova semelhante. Mas a verdade é que não tem. E basta ler o texto que o próprio citou para verificar que confundiu um exame rigoroso de fim de secundário e entrada na universidade com um exame aplicado a quem detém um grau académico de mestre, pelo menos, e um título profissional de professor.

No primeiro debate em que António Costa participou como primeiro-ministro, Paulo Portas perguntou-lhe se acabariam os exames dos 6º e 9º anos. Costa mandou-o ler o programa de Governo, afirmando que o mesmo era “muito claro quanto às provas que serão mantidas”. Costa errou. Costa mostrou desconhecer o programa do seu próprio Governo, que nada diz sobre as provas que serão mantidas ou eliminadas, apenas referindo a intenção de reavaliar a sua realização. E, cereja no topo do desconcerto, na manhã desse mesmo dia, o ministro da Educação havia garantido que não seriam tomadas decisões sobre os exames sem ser ouvida a comunidade educativa.

Perante o apagamento do Ministério da Educação, com a AR a substituir o Governo, seguem-se mais duas iniciativas da Oposição, sobre as metas e o financiamento do ensino privado.

Enquanto isto, na Universidade de Coimbra contratam-se bolseiros como cobradores de propinas, há unidades de investigação sem dinheiro para funcionarem, a incompetente direcção da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, responsável pelo vergonhoso processo de avaliação das unidades de investigação e desenvolvimento continua em funções (como, aliás, substancial parte das chefias apostadas em se oporem a uma efectiva mudança política) e a primeira iniciativa do Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior foi pedir à OCDE que, daqui a 18 meses, faça o favor de nos comunicar o que decidiu sobre o nosso futuro! 

* Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt)

29/12/15

quando se atacam os médicos em vez das políticas de saúde

encontrado no facebook:

Para os ignorantes que falam sobre a Saúde e apontam o dedo aos Médicos e Enfermeiros mas nunca entraram num hospital público nem fazem ideia como funciona...
Um desabafo de uma pessoa real que por acaso é médica e que por acaso deu o corpo e a alma pelo hospital e pelos seus doentes e que por acaso não ganha assim tanto quanto os media fazem crer. Ah, e que por acaso também tem família e que por acaso trabalha durante a semana, fins-de-semana, feriados e épocas festivas...
"JÁ CHEGA !

Na "ressaca" de uma consoada que pela primeira vez em 6 anos consecutivos pude festejar junto da família, reservo uns momentos para maçar quem quiser ler estes desabafos.
A maior parte dos meus amigos do FB conhece-me bem, porque muitos são mais do que amigos virtuais. Conhecem o meu modo de estar por vezes truculento, o espirito não alinhado e rebelde, a intolerância para o disparate e a displicência, a falta de corporativismo. Costumam resumir tudo na designação "mau feitio" . Os mais contaminados pelos eufemismos em voga dirão que tenho um baixo quociente de inteligência emocional. Não discordo do veredicto , prefiro ter mau feitio a ter mau carácter e o meu QI (não emocional) avaliado, em tempos de juventude, em 138 e 140, parece afastar-me dos níveis de debilidade e embotamento de raciocínio.

Vem tudo isto a propósito de que, sendo médica, me sinto diariamente agredida, insultada e difamada pelos profissionais do "eu acho" e do "eles deviam".
Para quem me conheça menos eu apresento-me:
médica anestesista, 57 anos, 31 de profissão dedicada nos últimos 14 anos sobretudo à Neuro-anestesia, 10 dos quais no H. de S.José.

Para esclarecimento de muitos que transformam os honorários médicos em mistérios de sociedades secretas, a minha remuneração na categoria de assistente hospitalar graduada, com exclusividade na função publica, horário de 42 horas semanais (actualmente 39, pela redução anual de 1 hora após os 55 anos) é de 4107€ (preço hora ~ 22€) dos quais receberei no fim do mês ~ 2400 € (preço hora ~ 9€). A condição contratual de exclusividade obriga-me à prestação de mais 12 horas extra semanais se a instituição hospitalar o exigir ( e exige), resultando em 53 horas semanais, das quais 24 são um período continuo. Posso ser solicitada (e pressionada) a realizar mais horas semanais . Actualmente, face à carência de recursos na área de anestesiologia, perfaço em média 70 horas semanais (39 em actividade de bloco operatório programado, o resto em urgência) e tenho 1 fim de semana por mês sem urgência, (nos meses mais compridos posso chegar à loucura de ter 2 ). Por lei poderia não realizar trabalho nocturno a partir dos 50 anos e ter isenção total de trabalho de urgência a partir dos 55. Se eu e os meus colegas do H de Faro cumprirmos a lei do trabalho à risca, a urgência cirúrgica será encerrada porque restam 3 elementos para garantir o apoio anestésico 24/24h 7 dias por semana. Em resumo com o ordenado base e as horas acrescidas, recordo - 70 horas semanais- a minha remuneração fica em - 3800€. Acima da média dos ordenados em Portugal ? Sem dúvida ! Mas 70 horas representam a soma do horário de dois médicos sem exclusividade que é de 35 h.

Portanto, meus senhores, os malandros dos médicos trabalham ao fim de semana, mesmo quando a lei os isenta - e também trabalham nos feriados.


Perguntam alguns porque têm os médicos que ganhar mais do os maquinistas do metro, do que os policias, do que os licenciados em geral ;

Faço um pequeno desvio para falar das forças da ordem . Os que têm como dever zelar pela nossa segurança são talvez a única categoria profissional mais odiada do que os médicos. Desprestigiados, mal remunerados, sujeitos a julgamentos e em alguns casos penas de prisão quando cumprem a missão que lhes é profissionalmente exigida. Ridículo e afrontoso que um policia tenha que pagar o próprio equipamento, surreal que se responsabilize por danos em viaturas usadas em serviço. Não há salário demasiado alto para quem arrisca a vida para que a nossa esteja segura. Existem abusos, sabemos que sim, protestamos contra a caça à multa e algumas arbitrariedades de que somos vitimas. Mas imagino como será difícil ver uma e outra vez sair pela porta da frente o marginal que horas antes detiveram, não raramente arriscando a vida, e que um juiz, de interpretação mais liberal da lei, põe e liberdade.

Vivemos numa sociedade acéfala de faz de conta, de inversão de valores, do politicamente correcto, do fundamentalismo da tolerância, dos chavões momentâneos gritados em ondas emocionais bem orquestradas, em proveito próprio, pelos bonecreiros da política.
Somos formatados para pensar o que os media querem que pensemos, sem contraditório, sem interrogação, adormecidos e embalados em conceitos pre fabricados
De uma era em que as saídas profissionais se estruturavam na adolescência, em que ser "bom aluno" nos permitia antecipar um vasto leque de escolhas, passamos para a era do "todos licenciados mas poucos com emprego" A iniciativa privada rejubilou com a possibilidade de fazer crescer universidades como cogumelos que vomitam todos os anos ufanos jovens diplomados em áreas de denominação exótica e cuja utilidade social carece de ser provada. Orgulhosos progenitores, que gastaram "uma nota preta" em mensalidades, exibem orgulhosos os filhos doutores a quem está reservado o desemprego, a emigração , o prolongar da agonia (deles e dos pais) em mestrados tão úteis quanto as licenciaturas ou, injustiça das injustiças, aceitar um trabalho abaixo do que é devido a um "licenciado".
A questão agrava-se com as licenciaturas modelo expresso, em que plantar uma árvore no dia da dita ou assistir a 3 comícios, pode dar direito a equivalência numa cadeira e com o padrinho certo, chegar até ministro ou primeiro ministro. Nivela-se por baixo no esforço, mas pretende-se nivelar por alto nos direitos.
Em Medicina não se obtêm créditos por colar pensos rápidos ou assistir a todas as temporadas do Dr. House. Prescinde-se de muitas saídas com os amigos, de muitas horas de divertimento.
Num mundo governado pelos licenciados fast banaliza-se o trabalho acrescido que implica atingir os patamares cimeiros da elite universitária. Sim ELITE, sem falsas modéstias, sem sentimentos de culpa.
Sim, sabemos o que nos espera, as horas de estudo intenso que se prolongam após a licenciatura. Sim, adoptamos o juramento de Hipocrates, de que muitos falam e poucos fora da área médica conhecem. Mas saberá quem nos diaboliza, como é morrer por dentro cada vez que temos que anunciar um desfecho trágico, saberá quem nos acusa de sermos frios e distantes, como exorcizamos os nossos demónios e os nossos medos, porque ninguém como nós entende a fragilidade da vida e o pouco que é necessário para que tudo se desmorone ? Entenderá quem tanto nos critica, como é recomeçar uma e outra vez esta luta desigual contra o fatalismo "do destino", da "sua hora" ou da "vontade de Deus"?
Na ordem social das coisas considerava-se adequado remunerar de acordo com o contributo para o bem comum e a importância desse papel na sociedade. Hoje somos todos licenciados, mas um engraxador licenciado continuará a engraxar sapatos (e muita ciência é necessária na arte de engraxar), e um médico continuará a tratar doentes. Terão a mesma relevância social ? Terá a função de maquinista do metro, para usar uma comparação que li na imprensa, equiparação à actividade clinica ? Existe um facto muito simples que permite dar a resposta; qualquer médico em 6 meses, vá lá, um ano de treino, será um apto engraxador ou condutor de metro, o inverso é verdade?
O endeusamento de que alguns falam vem da relação amor/ódio que a sociedade sempre estabeleceu com a classe médica. Como disse no inicio sou pouco corporativa e tenho plena consciência de que na minha, como em todas as profissões, existe muita erva daninha. Cometo erros como todos. Só não os comete quem não se aproxima dos doentes. Entre erro e negligência há um diferença abissal ; cometemos um erro, quando escolhemos uma estratégia terapêutica que julgávamos a mais adequada e a evolução revelou que não era, cometemos um erro quando equacionamos mal um diagnostico ou o timing de uma intervenção. Somos negligentes quando nos estamos nas tintas para reflectir sobre uma solução diagnostica ou terapêutica e optamos pelo que nos dá menos trabalho ou melhor nos remunera. O erro não deverá ser repetido se as mesmas circunstâncias ocorrerem. Chama-se experiência e não envolve só os mais novos. A negligência deve ser severamente punida. Convém não confundir estes dois conceitos.
Neste tu cá tu lá da democracia porreiraça, temos um franja da população formada em Medicina na Anatomia de Grey, nos diagnósticos surreais do Dr. House e na pesquisa Googleniana frequente. Surgem assim os opinadores que restruturam uma e outra vez o SNS e que a darem-lhes poder acrescentariam ás leis que nos regem, uma alínea especial para a pena de morte a aplicar aos médicos.
Estranhamente não raro são elevados aos píncaros da fama, ao Olimpo dos deuses da medicina, clínicos a quem os pares não confiariam um panarício. São normalmente médicos de sorriso fácil, palmadinha nas costas, que gostam de introduzir uma nota de ansiedade acrescida antecipando diagnósticos catastróficos que "felizmente não se confirmam porque chegámos a tempo", que incutem no doente o sentimento de auto congratulação pela decisão tomada, pelo dinheiro investido, pelo acerto da escolha. São os médicos do "principio de enfarte" , do "principio de AVC"', do "principio de pneumonia", entidades patológicas desconhecias dos tratados universais de medicina mas que se perpetuam de boca em boca disseminando a fama e a simpatia do senhor doutor. São os médicos das longas prescrições e muito mais longas requisições de exames.
É diferente no SNS puro e duro, onde o sorriso se apaga ao fim de meia-hora de luta com o sistema informático que pretende modernizar hospitais com servidores que mal aguentam a instalação do Tetris. Surgem os médicos carrancudos de farda amarrotada, 2 números acima ou abaixo do normal, porque "é o que há", olharentos por privação de sono, resignados ás avarias e falta de equipamento numa gincana quotidiana para ultrapassar o "não há", não compraram" ou "já não vem mais". Que chatice ser neste antro para indigentes que são despejados os que optam pela saúde VIP dos hospitais privados, quando o plafond se esgota, as economias desapareceram e a casa já está à venda. O sorriso fácil esmorece e a palmadinha nas costas vira empurrãozinho firme. O enfarte já ultrapassou o principio e aproxima-se do fim.
Negam-nos até o podermos tratar doentes, agora tratamos "utentes" e até "clientes", nesta lógica de gestor que o hospital e o hipermercado se gerem do mesmo modo. Os resultados estão à vista.
Integrei como anestesista a equipa de neurocirurgia vascular de S.José, que só abandonei por ter mudado de hospital. Quem me conhece sabe que se necessário trabalharia de borla para salvar uma vida. Fi-lo muitas vezes noutros contextos. Tenho a certeza que todos os elementos que integravam a equipa o fariam também. O que o publico e os potenciais doentes têm que entender é que o que ficou destruído com os cortes cegos e surdos, foi a estrutura complexa que envolve o diagnostico e a terapêutica destes doentes e que não pode ser exigido a profissionais de saúde que literalmente paguem para trabalhar como acontecia com a equipa de enfermagem. Nenhuma disponibilidade e boa vontade isoladas, poderia remendar o assunto. A fatalidade que vitimou o jovem David era uma fatalidade anunciada. Em revolta, alguns de nós desejaram que tivesse atingido quem permaneceu cego e surdo aos avisos e às propostas, o Sr ministro ou o sociopata que o assessorava. Teria surgido mis cedo a solução.
Não, não somos bem pagos, pelo menos no SNS. e sim, somos uma profissão de elite. Com muito orgulho.
Um bom ano de 2016."
Dra Rosina Andrade

19/12/15

quando só os ricos respiram ..

Já há garrafas de ar puro à venda. China esgota “stock” 


foto Reuters
Empresa canadiana Vitality Air vende garrafas com ar puro das Montanhas Rochosas. Primeiro carregamento para a China, o país mais poluente do mundo, esgotou em quatro dias 
 (...)
Não se pense que é barato. De acordo com o site da empresa, uma garrafa de 7,7 litros de ar fresco ronda os 21 euros, enquanto que uma de três litros ronda os 12 euros (fora portes de envio). Percebe-se, por isso, por que é que são as mulheres chinesas com elevado poder económico as principais clientes, adquirindo estes produtos para as suas famílias ou para oferecerem como presentes. "Na China, o ar fresco é um luxo, algo muito precioso", conclui, ao "Telegraph", Harrison Wang, representante da empresa no país. 
O "Telegraph" lembra que esta não é a primeira vez que se vende ar puro no país. No ano passado, o artista Liang Kegang arrecadou cerca de 700 euros por um frasco de vidro com ar que recolheu em Provence, França. E, já em 2013, um multimilionário chinês começou a vender latas de ar oriundo supostamente de zonas menos industrializadas do país: em dez dias, foram compradas 8 milhões.
Texto de P3 • 17/12/2015

16/12/15

"Alô ministro, está cá? "

no Público
16 de Dezembro de 2015

por Santana Castilho *

Quem me tem lido sabe bem como considerava grave que a coligação PSD/CDS pudesse ter consolidado, em novo Governo, o desastre educacional que construiu no anterior. O caminho estava delineado a partir do famigerado “Guião para a Reforma do Estado”: criação de “escolas independentes”, instituição do cheque-ensino e reforço dos contratos de associação. A generalização do ensino vocacional para os marginalizados da vida, a aprovação (à revelia da Constituição) de um novo ordenamento jurídico para o ensino privado, a municipalização da educação (consagrando a predominância da gestão administrativa sobre a pedagógica) e a criação de cursos “inferiores” (sem atribuição de grau académico) no ensino superior politécnico, foram alguns dos instrumentos iniciais, que culminariam com a revisão (então em preparação) da Lei de Bases do Sistema Educativo. A reviravolta política que António Costa protagonizou barrou este caminho, que estava a construir uma escola pública pobre, mínima, para a maioria, e uma escola rica, privada (mas financiada pelos impostos de todos), para alguns. Mas dizer que a legislatura desfavorável a uma escola pública sólida ficou para trás e que se está a iniciar um novo tempo político não chega. Era preciso ter soluções e um plano de acção objectivo, corolário óbvio de problemas identificados e prioridades estabelecidas. E isso não existe. Basta ler o programa de Governo do PS para a Educação, um repositório de meras intenções e de banalidades que, entre outros tópicos vitais ausentes, nada diz sobre a revisão do estatuto do ensino particular e cooperativo, indicia que a municipalização é para continuar, deixa sem referências clarificadoras o financiamento, a gestão das escolas, os “curricula” escolares, os mega-agrupamentos, as metas, as condições de trabalho dos professores e o regime de concursos, designadamente a extinção das BCE. E basta interpretar os primeiros sinais que já foram dados, a saber:

1. O programa do Governo em funções refere a intenção de “reavaliar a realização de exames nos primeiros anos de escolaridade” e não a sua extinção imediata. Mas os exames nacionais de Matemática e Português do 1º ciclo do ensino básico foram abolidos no parlamento, na manhã seguinte à tomada de posse do Governo. O programa do Governo em funções estabelece a suspensão da PACC (Prova de Avaliação de Capacidades e Conhecimentos), “procedendo à reponderação dos seus fundamentos, objetivos e termos de referência”. Mas a dita foi liminarmente extinta por via de projectos de lei do BE e do PCP.

Quem me tem lido sabe bem que aprovo uma e outra medida. Mas não deviam ter esta forma de resolução. Outrossim, deveriam ter sido determinadas pelo Governo, como matérias que são, sem qualquer dúvida, de administração educativa. As medidas vão-se sucedendo de modo avulso e com um cunho de urgência desgarrada. Com prudência mínima, exigível, poderíamos ser poupados a este espectáculo. O tempo que o Presidente da República usou em demasia para permitir a entrada em funções de António Costa, podia e devia ter sido aproveitado para preparar um programa de Governo que, no mínimo, previsse o que já havia sido acordado entre PS, Bloco, PCP e Verdes.

2. O programa de Governo anuncia o fim do ensino vocacional. Recorde-se que esta modalidade de ensino procurava, supostamente, ensinar uma profissão a alunos com um passado de insucesso escolar. Recorde-se que sempre considerei um erro forçar uma orientação de cunho profissional numa idade precoce, quando todos deveriam cumprir um programa de formação básica, preliminar à prossecução de estudos secundários, esses sim, orientados para uma via profissionalizante ou de preparação para o superior. Mas esta constatação não resolve, por si, o problema sobejamente conhecido: há uma faixa considerável de alunos que nunca cumprirá o ensino obrigatório sem respostas específicas, que removam as dificuldades que têm. Que sucederá aos alunos que cumprem a sua escolaridade obrigatória nesta via? Terminam nela o plano de estudos até aqui previsto? Ou são imediatamente integrados no designado ensino regular? Se assim for, como fazer essa transição, sendo certo que em várias disciplinas as matérias ensinadas eram reduzidas no vocacional e muitos alunos tinham, repito, perfis de reprovações repetidas e dificuldades de vária ordem assumidas? Estão preparadas respostas adequadas? Está previsto dinheiro para as financiar?

Os problemas do ensino não se resolvem com mais ou menos exames. Precisam de medidas sociais promotoras de combate à pobreza, medidas pedagógicas de fundo, condições laborais dos professores humanizadas e valorizadas e envolvimento sério e exigente das respectivas instituições de formação inicial.

Sobre tudo isto, o que pensa o novo ministro da Educação? Está cá? Pensará algo? Ou tem o Bloco e o PCP para pensarem por ele?

* Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt)

15/12/15

Star Wars

«Lucas desejava fazer um filme que ensinasse às crianças a ética básica e central do certo e do errado, do bem e do mal. “Queria ver se conseguia influenciar as vidas deles numa altura muito particular, em que estão muito vulneráveis”, recorda, “e fornecer-lhes as coisas que sempre demos às crianças ao longo da História. A última vez que tínhamos feito isso tinha sido com os westerns. E assim que os westerns desapareceram, não havia qualquer veículo para dizer ‘Não se mata pessoas pelas costas” e coisas desse género.” »

"Nunca fui ver Guerra das Estrelas. Por isso desta vez vou ver

Por Hank Stuever
Público, 11/12/2015

O pai, o filme e o espírito santo 

Por Joana Amaral Cardoso
Público, 11/12/2015 
«Star Wars está de volta e no dia 17 ganha novos autores. O pai, George Lucas, paira sobre O Despertar da Força, de J.J. Abrams - um dos "filhos" da era Lucas e Spielberg, que comunga do espírito Star Wars, cristalizado em 1977. Os fãs, as histórias por contar e a pureza de 1977»

14/12/15

"A mentira dos rankings "

14 de Dezembro, 2015
por Álvaro Arranja

A disponibilização em bruto dos resultados dos exames e a possibilidade de construção de rankings a partir desses resultados prestam um mau serviço à Educação. 
«Deve ser política do Governo pôr termo a esta situação vergonhosa que contribui para o estigmatizar muitas escolas que, em contextos muito adversos, conseguem prestar um serviço público de inestimável importância.

Os rankings podem e devem ser substituídos por uma avaliação externa das escolas justa, eficaz e consequente, tendo em conta o contexto socioeconómico em que se situam, a partir da qual deverão ser estabelecidas as prioridades no apoio a prestar para conseguirem cumprir o seu papel na garantia do direito à educação, consagrado na Constituição da República.»

artigo completo aqui

13/12/15

a sombra da FN

Os franceses apanharam um susto e lá se dispuseram a ir votar na 2ª volta: a maior afluência às urnas desse 2002. Ainda assim, acho preocupantes os 30 e tal % de votos da FN.. e, segundo um analista francês que acabo de ouvir na SIC N, com maior expressão em regiões industriais/operárias, expectavelmente votantes de esquerda ... Dá que pensar ...

Quem são, hoje, os franceses? Que lhes falta, enquanto povo, enquanto classe política, para terem "escapado" a uma "renovação" assim do tipo da do Podemos espanhol, ou do Syriza grego ( apesar de tudo), ou do PT inglês de Corbyn, ou daquela a que assistimos em Portugal ?
O que é que, hoje, move os franceses?
Que cinzentismo hollandiano os representa?
Que 'direitismo' os tolhe assim? Os aproxima de Pétain?

do Público


a notícia do Público:

Le Pen derrotada nas regionais, mas com uma votação recorde 

13/12/2015

nota:
"Depois de ser humilhada pela Alemanha, a França é ridicularizada pelos aliados, que apenas a toleram como parceira. Vichy – o regime que executou as ordens de Hitler na França – é o símbolo desta humilhação, uma cicatriz na consciência nacional francesa, e Pétain é o representante de Vichy."- fonte

11/12/15

preconceito e ignorância

Dois Jovens 'disfarçaram' uma bíblia de Corão para verificar se as crenças da sociedade acerca do Islão estão baseadas em preconceitos e isto foi o que aconteceu.

Dos jóvenes 'disfrazaron' una Biblia de Corán para comprobar si las creencias de la sociedad acerca del Islam están basadas en prejuicios y esto fue lo que pasó. #Experimento #sociedad #religiónCortesía de Dit Is Normaal: http://youtube.com/DitIsNormaal Presentador: Sacha Harland http://instagram.com/SachaHarland Director: Alexander Spoor http://instagram.com/AlexanderSpoor
Publicado por RT Play en Español em Terça-feira, 8 de Dezembro de 2015

10/12/15

uma Declaração incumprida ...

 -- muito didáctico, este vídeo destinado aos jovens; a precisar de actualizações (a Declaração propriamente dita). A precisar de efectivação, em praticamente todos os artigos. Foi proclamada e adoptada em 1948, com 48 votos a favor, nenhum contra e oito abstenções. Faz hoje 67 anos. 

08/12/15

É o TTIP, pá! E ponham-se a pau!!


(*) Nos EUA é conhecido por TAFTA (Transatlantic Free-Trade Agreement)
e na Europa por TTIP (Transatlantic Trade and Investment Partnership)

O que é o TTIP (legendas em português)https://www.youtube.com/wat
ACTIVA AS LEGENDAS!Estar informado é importante! Tomar uma posição ainda é melhor! VAMOS TODOS RECOLHER ASSINATURAS PARA A ICE CONTRA O TTIP!.www.nao-ao-ttip.pt/assina-a-iniciativa-de-cidadania-europeia/
Publicado por O que esconde o TTIP? em Terça-feira, 5 de Maio de 2015
.................
no Público
9/12/2015

por Francisco Louçã

Pôr plutónio no pequeno almoço de uma criança

excertos:
«....a sua empresa punha o Canadá em tribunal, contestando uma medida ambiental que consistia em proibir um aditivo tóxico na gasolina. O Canadá perdeu o processo e teve que pagar treze milhões de dólares à empresa, por lucros cessantes, devido a essa norma.»

«Uma cláusula semelhante está em discussão no âmbito da Parceria Transatlântica,(*) o tratado que a União Europeia está a negociar em segredo com os Estados Unidos, mas que Cavaco Silva já anunciou que deve obrigar o próximo governo.

Tem-se chamado a isto direito de iniciativa. Ou libertar a sociedade. Ou emagrecer o Estado. Ou auto-regulação. Tem vários nomes, mas é sempre o mesmo: o direito empresarial de escolher pôr plutónio nos cereais do pequeno almoço dos nossos filhos.»

02/12/15

"Quando se confunde a obra-prima do mestre com a prima do mestre-de-obras "

no Público
2 de Dezembro de 2015

por Santana Castilho*

1. Enquanto se discutiu o problema da legitimidade constitucional e política para governar, o desemprego voltou a subir, a emigração não parou, o investimento não cresceu, o débil crescimento económico estagnou e os casos TAP e Novo Banco agigantaram-se (na TAP vendem-se terrenos e prédios para pagar a factura da compra e no banco há que injectar 1400 milhões até ao fim do ano).

Enquanto se discutiu o problema da legitimidade constitucional e política para governar, António Costa foi dizendo, cá, que havia chegado o novo tempo: o da recuperação de salários e pensões, da descida de impostos, do investimento na Saúde, na Educação, na Ciência e na Cultura, do fim da austeridade. E foi dizendo, lá, em Bruxelas, que cumpriria as regras orçamentais acordadas, baixando défice e dívida.

Subida a ladeira do poder, também aqui o tempo é novo: o de cumprir, fazendo.

2. Enquanto se discutiu o problema da legitimidade constitucional e política para governar, vieram a público dois importantes relatórios em que se analisa a Educação nacional. Refiro-me ao Estado da Educação 2015, do Conselho Nacional de Educação, e ao Education at a Glance 2015, da OCDE. Pelo primeiro, ficámos a saber que o insucesso escolar aumentou nos últimos três anos, em todos os anos da escolaridade, enquanto diminuiu, pela primeira vez em 41 anos de democracia, a taxa de cobertura do pré-escolar. Com o segundo, verificamos que a diferença entre gerações, no que a qualificações respeita, é a maior de todos os países que integram a OCDE e que o esforço das famílias para financiar os estudos superiores é o maior da União Europeia. A um e a outro registo não é alheia a natureza da ideologia que pontificou na última legislatura, durante a qual todas as políticas públicas foram marcadas por uma “economização” bruta, que as redefiniu e geriu como se de simples mercadorias se tratasse, propalando-se mesmo a ideia segundo a qual os direitos humanos fundamentais, as dimensões básicas da vida, em que a Educação se inclui, dependem da conjuntura económica por que se passa.

3. Se relativamente ao tópico 1 aguardo para ver, relativamente ao 2 já vi, de António Costa, que chegue.

Vi disparates de quem não sabe do que fala em matéria de concursos de professores e banalidades no mais, quando apresentou 55 propostas de intervenção, a que chamou “o primeiro capítulo do programa de Governo”. Referi-o nesta coluna em 6 de Maio transacto.

Vi generalidades, recuperação de tristes conceitos de Maria de Lurdes Rodrigues, propostas ocas e ideias implícitas de pouca consideração pelos professores portugueses, em sede de programa eleitoral. Tratei-o em artigos de 12 de Agosto e de 9 de Setembro.

E vi, por fim, o epílogo de um percurso, que desvaloriza a complexidade dos problemas do sistema de ensino, quando nomeia para a pasta um jovem cientista de 38 anos, de mérito reconhecido internacionalmente na sua área, mas que saiu do país aos 23, viveu os últimos 15 no estrangeiro e de quem não se conhece uma linha escrita sobre Educação, ou um pensamento expresso sobre o tema. A naturalidade e a candura com que Tiago Brandão Rodrigues fala das coisas que viveu geram empatia imediata e genuína. Isto, que é muito para uma primeira impressão, é pouco mais que nada para fazer rápido o que é urgente, em matéria de Educação.

Que se seguirá? O Parlamento a governar e Tiago Rodrigues na lapela de Costa, a ver?

O fim dos exames nacionais de Matemática e Português do 1º ciclo do ensino básico, que sempre defendi, merecia um processo diferente daquele que igualmente sempre critiquei: a mesma lógica impositiva que os criou foi usada para os abolir.

Estes exames, de que sempre discordei, repito, são um epifenómeno menor de uma questão maior, qual seja a de conferir coerência à avaliação educacional, dando instrumentos e meios para tornar eficaz a sua vertente mais nobre, a formativa, a única que pode resolver o insucesso e o abandono. Gostaria de ter visto serenidade onde se pode apontar ímpeto revanchista. Gostaria de ter visto um normativo global do Governo em vez de uma intervenção casuística da Assembleia. Gostaria de ter visto preocupação democrática para obter compromissos de prazo suficiente, que parassem o faz/desfaz em que vivemos há 41 anos, perdendo recursos e tempo, sem audição dos que estudam e investigam, sem respeito pelos alunos, pelos pais e pelos professores. Gostaria de ter visto uma Esquerda superior, preocupada com o que a Direita sempre desprezou.

Oxalá me engane e a breve trecho o jovem ministro da Educação me tenha aqui a retractar-me do que hoje escrevo. Mas a convicção de momento é que perdemos um cientista de gabarito sem ganharmos um ministro capaz, porque António Costa confundiu a obra-prima do mestre com a prima do mestre-de-obras.

* Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt)

01/12/15

"Um Governo sem tempo para errar "

no Público
01/12/2015

por José Vítor Malheiros 

Os últimos dias deram muitas razões de alegria aos democratas. Não, não digo às pessoas de esquerda. Digo aos democratas. Àquelas pessoas que acreditam que a soberania reside no povo e que todos os cidadãos, todos sem excepção, são iguais em direitos e devem ser livres para exercer esses direitos e para beneficiar dos seus frutos. Àquelas pessoas que acreditam que a liberdade é um valor universal e que pertence a todos por igual e não apenas aos que têm mais rendimentos, um nome de família mais ilustre, mais instrução ou mais qualquer outra coisa.

Depois de um Governo onde a desigualdade foi transformada em valor supremo, onde nos tentaram convencer de que a educação devia ser distribuída conforme a origem de classe dos estudantes, que a cultura apenas devia servir para benefício dos ricos, que o desenvolvimento do país exigia que se aumentassem as desigualdades salariais porque aí estava o segredo da competitividade, que a posição de Portugal na União Europeia devia ser a de um subalterno dos países mais poderosos, que a segurança no desemprego, na doença e na velhice dos cidadãos apenas podia ser garantida a quem tivesse um pé-de-meia considerável no banco, pôr um ponto final nessa iniquidade não pode ser visto senão como um sinal de esperança pelos democratas.

O grande motivo de alegria é pois o fim de um Governo de patriotas de lapela e colaboracionistas no coração que se dispunha a destruir alegremente o país, pilhando o património que pudessem, destruindo o Estado e humilhando os trabalhadores, aumentando a dívida pública e recusando-se a defender o país nos organismos internacionais para não indispor os poderes.

Outro motivo de alegria é o programa do Governo do Partido Socialista, onde o combate ao empobrecimento, ao desemprego, a defesa dos serviços públicos e a aposta na educação, na investigação e na inovação ocupam um papel central. É curioso que os senhores antiliberais que se chamam a si mesmo “liberais” para fingir que prezam a liberdade, mas que apenas defendem a liberdade dos poderosos explorarem os mais frágeis, nunca vieram a terreiro dizer que a pobreza e o desemprego eram intoleráveis porque reduziam a nada a liberdade de escolha dos cidadãos.

Outro motivo de alegria - aqui, principalmente para os cidadãos de esquerda - são os acordos de incidência parlamentar celebrados entre os PS e os partidos à sua esquerda para viabilizar o Governo, o programa e a governação socialista.

Estes acordos não deveriam ser apenas motivo de satisfação para as pessoas de esquerda porque eles significam algo que todos os democratas deveriam prezar: o fim do famigerado conceito antidemocrático de “arco da governação”, que defendia e pretendia incutir no espírito dos cidadãos a ideia segundo a qual alguns partidos possuíam um direito divino a exercer a governação e que outros deveriam para sempre ficar relegados à oposição, numa espécie de coro sem poder; e o fim de uma tradição de acção política por parte dos partidos à esquerda do PS baseada na crítica e no protesto mas que só raramente era submetida à prova da realidade. A entrada do BE, do PCP e do PEV para o clube dos partidos que podem participar na governação - como manda o direito, a democracia e a decência em relação a todos os partidos com assento parlamentar - significa que, pela primeira vez na história da democracia, a reserva de ideias onde mergulham as raízes da governação é mais rica do que antes e permite, por isso, encontrar melhores soluções.

Agora que o Governo está em funções e que tivemos uns dias para celebrar, entramos na fase mais séria da acção política. Sabemos todos que os riscos são imensos: a nossa economia está tão frágil como antes do XIX Governo de Passos Coelho; as nossas finanças estão ainda mais frágeis (apesar da propaganda); as reformas estruturais necessárias (justiça, administração pública, energia, inovação, formação profissional, etc.) não foram feitas e apenas se procedeu, com esse nome, à redução dos salários e à precarização do trabalho; a fragilidade dos bancos é maior; a situação económica e financeira da Europa está mais frágil; o ambiente internacional mais agitado. O que nos espera é difícil e será provavelmente duro. Como cidadãos, o que nos cabe é exercer o dever da maior exigência cívica que este país já viu em relação ao Governo de António Costa. A nossa responsabilidade é - ao contrário da deselegante descarga de fel de Cavaco Silva e da irresponsável oposição sistemática prometida pelo PSD e pelo CDS - garantir ao novo Governo toda a lealdade e toda a cooperação mas nenhuma condescendência, nenhuma complacência. Não temos tempo. Este Governo vai ter de governar bem em tempos difíceis e isso também depende de nós, da exigência que demonstrarmos, da vigilância que exercermos, das críticas que fizermos, dos debates que promovermos.

Uma das circunstâncias que me dão maior confiança neste Governo é, curiosamente, uma que preocupa alguns comentadores: a sua dependência parlamentar do BE e do PCP. A mim, essa vigilância dá-me confiança e espero que, com ela, o PS possa mostrar o melhor de si. 

 jvmalheiros@gmail.com

"Quando o imoral se torna banal "

no JN
01.12.2015 

por Mariana Mortágua 

Miguel Horta e Costa, administrador da ESCOM, empresa do Grupo Espírito Santo, esteve na Comissão de Inquérito ao BES para explicar o seu envolvimento na compra de dois submarinos pelo Estado Português. Lembro que, à data, tentávamos descobrir o circuito dos 16 milhões de euros pagos pelo consórcio alemão GSC a título de comissão à ESCOM. Já a meio da audição, Horta e Costa resolve explicar o porquê de o dinheiro ter circulado tanto, bem como o paradeiro de 6 milhões: não foi corrupção, era mesmo só para fugir ao Fisco, e o dinheiro em falta serviu para pagar aos advogados, bancos de investimento e assessorias que construíram a operação.

A declaração que supostamente tranquilizaria o país - afinal não houve corrupção - foi mais uma das provocações convenientemente ignoradas pela maioria dos deputados e governantes. Porquê? Porque se assim não fosse seriam obrigados a admitir que a trafulhice é generalizada e que usa e abusa de leis feitas para isso mesmo. Tornar-se-ia óbvio que estes esquemas não são exclusivo dos Horta e Costa deste país, e que só são possíveis com a colaboração ativa de muitos dos mais conceituados bancos e escritórios de advogados da praça.

Há muito que a Zona Franca da Madeira (ZFM) é um pilar para estes esquemas. Quem a defende diz que gera emprego e atividade económica. Os factos mostram o contrário. Veja-se o caso da Eloaliança, denunciado pelo "Expresso" esta semana. É a segunda empresa que mais lucra em Portugal, e também uma das que recebe maiores benefícios fiscais. Paga 5% de imposto, declara mais de 100 trabalhadores, mas só tem instalações para meia dúzia, além de apresentar uma conta anual de luz de 482euro, quase o mesmo que uma família.

Há poucas grandes empresas em Portugal que não façam uso da ZFM para esquemas de "planeamento fiscal". A Jerónimo Martins fê-lo, a partir de uma sociedade chamada Hermes, envolvida num complexo esquema com empresas na Holanda e nas Channel Islands. O processo por "planeamento fiscal agressivo" passou anos em tribunal, com sucessivas impugnações por parte do Grupo. De resto, já nada parece surpreender e até se acha normal que a Sonae, a Amorim, ou a Jerónimo Martins antecipem o pagamento de dividendos relativos a 2016 com medo de um possível aumento da taxa sobre este tipo de rendimentos.

A fuga ao Fisco, o "planeamento" ou "engenharia" fiscal não são exceções, são a regra na gestão diária das grandes empresas, e todos os anos significam milhares de milhões de euros de receita perdida para o Estado. São estas empresas, estes empresários, banqueiros e advogados que não hesitam um segundo em exigir mais austeridade enquanto clamam por novas descidas no IRC, cavando assim uma desigualdade - entre trabalho e capital - que ninguém parece querer encarar.