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30/06/15

a austeridade na Grécia/em Portugal não “funcionou bem”?


no Público,
28/06/2015

por Mário Vieira de Carvalho *

A tecnocracia e a banalidade do mal

Franz Grassler, Doutor em Direito, foi destacado aos 28 anos para o cargo de adjunto de Heinz Auerswald, também jurista, membro das SS desde 1933, nomeado comissário para o “bairro judaico” (jüdischer Wohnbezirk) de Varsóvia a partir de 15 de Maio de 1941. 

Tratava-se duma zona da cidade previamente esvaziada dos seus habitantes não-judeus para servir como uma espécie de campo de concentração urbano de judeus de várias origens, sobretudo polacos e alemães. Um muro de três metros de altura e dezoito quilómetros de comprimento isolava o gueto do resto da cidade. Quem ousasse sair era punido com a pena de morte. 

De lugar de concentração, o gueto transformou-se a breve trecho em lugar de extermínio e, por fim, de trânsito para as câmaras de gás de Treblinka. No período em que Grassler exerceu as funções de adjunto ou “assessor”, a situação tornou-se extrema: os judeus morriam ao ritmo de cinco mil por mês, as ruas estavam pejadas de cadáveres e havia quem usasse os derradeiros haveres, não para matar a fome, mas sim para assegurar o supremo privilégio de morrer em casa. 

Vale a pena ver a entrevista de Grassler concedida ao jornalista Claude Lanzmann. Mais ainda do que Eichmann, captado por Hanna Arendt, Grassler parece um inofensivo homem comum, que entrou na idade da reforma sem ter feito mal a uma mosca. Em estado de negação do início ao fim da entrevista, não cede um milímetro quanto à aceitação frontal de culpas. Como se não houvesse qualquer trauma que lhe pesasse na consciência (a postura do inimputável), começa por tentar esconder-se atrás da falta de memória, afirmando que, felizmente, as más recordações são apagadas naturalmente pelas boas... E explica a racionalidade da construção do muro: era precisa uma barreira de proteção que evitasse a contaminação da população da cidade pelas epidemias (sobretudo de tifo) que grassavam no gueto. 
Confrontado com as responsabilidades do ocupante alemão na situação criada, alega que nada podia fazer, pois os abastecimentos disponíveis destinados ao gueto eram cada vez mais escassos. No entanto – e esse é o ponto culminante da entrevista! –, reconhece um extraordinário saldo positivo: é que, no gueto, “a autogestão funcionou bem, isso sei eu” (die Selbstverwaltung hat gut funktioniert, das weiss ich...). 
Fica-se estupefacto com este comentário – para mais, vindo de um Doutor em Direito por uma universidade alemã, com o peso de uma brilhante tradição jurídica de séculos! “A autogestão (judaica) funcionou bem...” Mas como? Funcionou bem a organizar a fome e o extermínio por doença e inanição? A desatravancar de cadáveres as ruas, atirando-os para valas comuns? A selecionar os homens, mulheres e crianças que deviam ser carregados em comboios, como gado, com destino a Treblinka? 

Perguntar-se-á quem fala pela voz de Grassler. Um nazi? Não. Isso seria demasiado simples: uma boa desculpa para tranquilidade de certas consciências... Mas não. Não há que demonizar o homem. Limitemo-nos a aceitar aquilo que ele realmente é: um vulgar tecnocrata. Ou melhor: um exemplo paradigmático da racionalidade tecnocrática. Meticuloso, decerto, em aplicar as regras. Por exemplo, as do racionamento: 2310 calorias por pessoa/dia para os alemães, muito menos para o Outro inferior: 634 para os polacos e apenas 184 para os habitantes do gueto. Tão meticuloso, enfim, quanto os tecnocratas que hoje impõem uma barreira de proteção à Grécia, encerrando-a também num gueto que sustenha a todo o custo o perigo de contaminação... 

O mesmo padrão reproduz-se sem cessar. Não está, afinal, “provado”, como já proclamou do alto da sua auctoritas outro abalizado jurista alemão, que a austeridade na Grécia “funcionou bem”?
* Professor catedrático jubilado (FCSH-UNL)

fascistas -- e terroristas!

Delacroix, A Liberdade guiando o Povo (acrescentado..)

29 de Junho de 2015



 – por José Goulão 

Uma primeira informação: o governo grego não decidiu encerrar os bancos durante uma semana porque lhe apeteceu e no âmbito de uma qualquer jogada maquiavélica: foi obrigado a isso devido ao facto de o Banco Central Europeu (BCE), entidade chave de um processo ditatorial instaurado pelos mercados financeiros, ter mantido o programa da troika mas secando a liquidez dos bancos gregos. 

O que o BCE fez, como grupo de assalto ao serviço das várias instituições europeias que mais não são do que paus-mandados dos credores extorsionistas, faz parte de um processo de sabotagem económica para aterrorizar o povo grego de modo a que vote “sim” à continuação da austeridade no referendo do próximo domingo. O que o BCE está a fazer, em nome da União Europeia, é terrorismo, bandidismo puro. 

O que o governo grego fez, em resposta, foi tentar salvaguardar os salários e poupanças dos cidadãos. 

Os portugueses que já têm mais anos e tiveram a sorte de viver o 25 de Abril recordam-se que a sabotagem económica foi um dos processos imediatos de resposta do fascismo para travar a revolução. Da sabotagem económica nasceu, por exemplo, a tentativa de golpe fascista da “maioria silenciosa”, uma maioria que os promotores julgavam aterrorizada, em 28 de Setembro de 1974. 

O BCE/UE/agiotas faz agora exactamente a mesma coisa: aplica uma estratégia fascista e terrorista – sem dúvida em clima de golpe de Estado – para procurar alcançar os objectivos de minorias à custa da miséria, da fome, do descalabro da vida do povo grego. Para os próceres com mentes fascistas que agem em nome da chamada “democracia europeia”, 27 por cento de quebra continuada do PIB grego, uma dívida que não para de crescer devido aos mecanismos impostos para a pagar, um desemprego que atinge mais de um terço da população activa e mais de 55% dos jovens, a razia absoluta nas pensões, nos salários, nos serviços públicos, nos acessos a bens essenciais como água e electricidade ainda não chegam. É preciso vergar mais e mais o povo grego, recorrendo para isso à manobra humilhante de tentar obrigá-lo a pedir de joelhos por favor continuem com a troika, queremos mais austeridade e obrigado por isso. 

É nesta Europa que vivemos hoje. Uma Europa onde as instituições que se proclamam “democráticas” atiçam um bando de tecnocratas não eleitos, o BCE, contra um povo indefeso encafuado num beco em que é obrigado a decidir por um problema entre dois: sair do euro ou pedir por amor de deus a continuação da austeridade. 

Em minha opinião, mas é a minha e não sou grego embora hoje me sinta como tal, a saída do euro seria a resposta digna, porque a Grécia retomaria instrumentos de decisão que agora não lhe pertencem. Mas é apenas uma opinião, cabe aos gregos decidir num contexto de medo e terror que lhes foi imposto em nome daquilo a que, com a cumplicidade de uma comunicação social que não pensa, apenas papagueia, chamam “ajuda”. 

O governo grego fez bem em convocar o referendo. É o recurso à democracia contra mentalidades fascistas. Num duelo desigual de David contra Golias, o mais fraco procura na força da união as energias indispensáveis para enfrentar as armas de terror e liquidação contra as quais é obrigado a combater. 

Aconteça o que acontecer, percebamos uma coisa: o que está a acontecer na Grécia tem tudo a ver connosco. Não tenhamos ilusões, a mafia terrorista que montou esta estratégia contra a Grécia aplicá-la-á contra Portugal, contra qualquer outro país que desafie as suas vontades absolutas. Ao tentarem trucidar a dignidade do povo grego, as instituições europeias, minadas por mentalidades fascistas, estão a enviar um recado sangrento em todas as direcções: se não querem que o mesmo vos aconteça portem-se bem, não deixem nunca de escolher o arco da governação e a troika, não pode haver outro caminho. Pelo que a estratégia de terror imposta aos gregos também nos atinge, e não é de raspão. A escolha não é fácil, mas existe: tempos difíceis e sem dignidade dentro do euro; tempos difíceis, mas com dignidade e capacidade de decisão (o mundo não se esgota, felizmente, na União Europeia) fora do euro.

fonte: Mundo Cão, blogue

je suis Grec

de Max Ernst, Antipope *
Sou grega e sou jovem reformada desempregada sem-abrigo. Sou velha. Sou uma assalariada sem horário de trabalho, mal paga e explorada-e-aguenta-que-tens-sorte!
Tenho vergonha do governo do meu país, do presidente desta república.
Por enquanto ainda há transportes públicos no meu país. Ainda há escolas públicas, hospitais. Por enquanto.
Oiço passar as camionetas do lixo lá em baixo e congratulo-me com esse ruído incómodo, há sítios no mundo em que os detritos se acumulam nos passeios e nas ruas e ninguém aparece para apanhá-los. Só cães que os revolvam, ou vacas. Por enquanto ainda há serviços públicos no meu país. Por enquanto ..
Sou grega, na ilusão que ainda tenho de que as pessoas, os povos todos desses mundo inteiro se levantarão um dia, indignados como só podemos estar todos. Mas quem lhes deu o direito, a esses emproados de merda, a decidir por nós? Quem lhes disse, a eles, que não há Alternativa? Que temos todos de aceitar e vergar e aguentar? Quem lhes disse a eles? E que mães falharam na sua educação? Neste desrespeito por tudo, por todos? Nesta desumanização? Um dia havemos de acordar, sou grega! Um dia havemos de dizer basta!, havemos!, sou grega!
Sou grega e torço pelos gregos que tiveram a ousadia de votar Syriza. Sou grega como já fui charlie. Sou grega naquilo que da esperança encontro em mim. Ainda ... E da dignidade.

29 de Junho, 2015

Krugman apela ao 'Não' no referendo grego

O Prémio Nobel da Economia manifesta o seu apoio ao governo grego e esclarece que votaria 'Não' no referendo de dia 5 de julho. Paul Krugman considera que os governos credores e as instituições europeias têm cometido “um ato de loucura monstruosa” ao empurrarem a Grécia até este ponto.

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O ataque da Europa à democracia grega

Devemos ser claros: quase nenhum do enorme manancial de dinheiro emprestado à Grécia foi verdadeiramente para lá. Foi canalizado para pagar aos credores do setor privado – incluindo bancos alemães e franceses. O que a Grécia obteve foi uma ninharia, mas pagou um elevado preço para preservar os sistemas bancários desses países. Artigo de Joseph Stiglitz, Prémio Nobel da Economia. 
(...) 

Claro, a política económica por detrás do programa que a troika (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional) tem impingido à Grécia há cinco anos tem sido abismal, resultando num declínio de 25% do PIB do país. Não consigo pensar em nenhuma depressão que alguma vez tenha sido tão deliberada e que tenha tido tais consequências catastróficas: a taxa de desemprego entre os jovens da Grécia, por exemplo, já ultrapassa os 60%. É surpreendente que a troika se tenha recusado a aceitar a responsabilidade por alguma coisa destas ou admitir o quão maus tenham sido as suas previsões e modelos. Mas, o que é ainda mais surpreendente é que os líderes europeus não tenham sequer aprendido. A troika ainda exige que a Grécia alcance um excedente orçamental primário (excluindo o pagamento de juros) de 3,5% do PIB em 2018. Economistas de todo o mundo condenaram essa meta como punitiva, porque exigi-la resultará inevitavelmente numa recessão mais profunda. Na verdade, mesmo que a dívida da Grécia seja reestruturada para além de qualquer coisa imaginável, o país permanecerá em depressão se os eleitores se comprometerem com a meta da troika no referendo, a ser realizado sob pressão este fim de semana.

artigo completo aqui

Antipope: a false claimant of the Holy See in opposition to a pontiff canonically elected
.

27/06/15

A Europa que nos envergonha

no Público,
27/06/2015

por José Pacheco Pereira 

Esta não é a Europa dos fundadores, é a Europa dos partidos mais conservadores, com os socialistas à arreata. Não terá um bom fim e, nessa altura, muita gente lembrará a Grécia. 

Bater nos gregos tornou-se uma espécie de desporto nacional. Tem várias versões, uma é bater no Syriza, outra é bater nos gregos propriamente ditos e na Grécia como país. As duas coisas estão relacionadas, bate-se na Grécia porque o Syriza resultou num incómodo e, mesmo que o Syriza morda o pó das suas propostas, – que é o objectivo disto tudo, – o mal-estar que existe na Europa é uma pedra no orgulhoso caminho imperial do Partido Popular Europeu, partido de Merkel, Passos e Rajoy e nos socialistas colaboracionistas que são quase todos que os acolitam. É isto a que hoje se chama “Europa”.

Se não fosse sinal de coisas mais profundas, e péssimas, seria um pouco ridículo que nós portugueses nos arrogássemos agora o direito moral de bater nos gregos. Somos mesmo um belo exemplo! Ah! Fizemos o “trabalho de casa” e isso dá-nos a autoridade moral, “sacrificamo-nos” para ter agora esta gloriosa “recuperação” e os gregos não, Passos Coelho dixit. Para além de estar certamente a falar para a Nova Democracia e para o Pasok e não para o Syriza, o balanço do “ajustamento” grego foi devastador para a economia e para a sociedade. Porquê? Nem uma palavra. Ninguém fala da “herança” do Syriza, recebida em princípios de 2015, das mãos de dois partidos da aliança dos “ajustadores”, a Nova Democracia irmã da CDU [alemã], do PP espanhol e do PSD e do CDS português, que governou a Grécia com a eficácia que conhecemos e pelo PASOK, irmão do PS, que a co-governou. Eram esses que a “Europa” queria que ganhassem as eleições.

Só que os gregos “não fizeram o trabalho de casa”… e por isso têm que ser punidos. Caia o Syriza na lama, e venha um qualquer outro governo dos amigos e ver-se-á como muita coisa que é negada ao Syriza será dada de bandeja ao senhor Samaras e os seus aliados. O problema não é o pagamento aos credores, não é a “violação das regras europeias” (quais?), não é uma esforçada dedicação pela “recuperação” da Grécia, é apenas e só político: não há alternativa, não pode haver alternativa, ninguém permitirá nesta “Europa” nenhuma alternativa que confronte o poder dos partidos do PPE e seus gnomos de serviço socialista, porque isso fragiliza aquilo que para eles é a Europa.

A ideia de que a Grécia não é um Estado ou que é um “país falhado” é um absurdo. A julgar por esses critérios muitos países da Europa não são Estados, a começar pelo “estado espanhol” aqui ao lado e a acabar nalgumas construções de engenharia política ficcional que a Europa ajudou a criar nos Balcãs, seja o Kosovo, seja mesmo a bizarra FYROM. É evidente que a Grécia não é a Alemanha, mas Portugal também não é. A Grécia não é a França, mas vá-se à Córsega perguntar pela França, ou mesmo às zonas dialectais do alemão na Alsácia. Ou então a esses territórios muito especiais da União Europeia, sim da União Europeia, que são por exemplo a Reunião e Guadalupe, “departamentos franceses do ultramar”.

A Grécia é a Grécia, muito mais parecida com Portugal naquilo que é negativo - que os que hoje lhe deitam pedras escondem, e bastante menos parecida com Portugal, numa consciência nacional da soberania, que perdemos de todo. No dia da vitória do Syriza, o que mais me alegrou, sim alegrou, como penso aconteceu a muita gente, à esquerda e à direita, não foi que muitos gregos tenham votado num “partido radical” ou num programa radical, ou o destino do Syriza, mas sim o facto de que votaram pela dignidade do seu pais, num desafio a esta “Europa” que agora os quer punir pelo arrojo e insolência. Escrevi na altura e reafirmo que mais importante do que a motivação de acabar com a austeridade, foi o sentimento de que a Grécia não podia ser governada por uma espécie de tecnocratas a actuar como “cobradores de fraque” em nome da Alemanha. Por isso, mais grave do que o esmagamento do Syriza, que a actual “Europa” pode fazer como se vê, é o sinal muito preocupante para todos os que querem viver num país livre e independente em que o voto para o parlamento ainda significa alguma coisa. Nisso, os gregos deram uma enorme lição aos nossos colaboracionistas de serviço, que andam de bandeirinha na lapela.

Voltemos ao não-país. A Grécia é um país muito mais consistente na sua história recente do que muitos países europeus, principalmente do Centro e Leste da Europa. Tem dois factores fortíssimos de identidade nacional, a religião ortodoxa e a recusa do “turco”. E foi “feita” por eles. Vão perguntar ao fantasma de Hitler o que ele disse da Grécia quando a invadiu e não disse de nenhum outro país e vão perguntar aos ingleses que apoiaram os resistentes gregos, duros, ferozes e muitos deles, como em Creta, “bandidos da montanha”. Sem Estado.

Esta identidade nacional dá para o mal e para o bem, como de costume, mas existe. Muitas aventuras militares e políticas resultaram dessa forte identidade e da relação mítica e simbólica com o passado, como seja a invasão da Anatólia numa Turquia em crise pós-otomana para reconstituir a Grande Grécia clássica e bizantina, ou as reivindicações sobre o Epiro albanês, ou mesmo a pressão contra a existência da Macedónia como estado. A aventura de Venizelos e a Megali Idea foi uma das grandes tragédias do século XX, apoiada irresponsavelmente pelos ingleses, mas mostram como é ligeiro apresentar a Grécia como um “não país”, quando nesses anos as poucas cidades “civilizadas” nessa parte do mundo não eram Atenas, mas Salónica e Esmirna. Esmirna, incendiada pelos turcos e Salónica purgada dos seus judeus por Hitler.

O argumento “geográfico” das ilhas para afirmar que a Grécia “não é um estado” então é particularmente absurdo. A Grécia tem centenas de ilhas e a Indonésia milhares. Então a Indonésia também não é um país? É-o certamente menos do que a Grécia, visto que a diversidade rácica, linguística e religiosa da Indonésia é muito maior e mais complicada do que as ilhas gregas cujo cimento, até mesmo a Rodes, que fica bem em frente da costa turca, é de novo, a religião e a história.

Os gregos, povo de comerciantes e marinheiros, são um alvo fácil, como os camponeses do Sul de Itália e os alentejanos, para os do Norte industrial e “trabalhador”. É um estereótipo conhecido: ladrões, vigaristas e, acima de tudo, preguiçosos. Por isso “enganaram a Europa” e querem viver à nossa custa. A Grécia enganou a Europa? Sim, with a little help from my friends. A Europa ajudou activamente a Grécia a falsificar os números, a Alemanha em particular, enquanto isso lhe interessou. E nós? Só para não ir aos inevitáveis exemplos socráticos, vamos para este governo e bem perto de nós. Com que então a TAP foi comprada por um português? O brasileiro-americano o que é, o consultor para a aviação? De onde veio o dinheiro, a pergunta que se faz sempre aos remediados, que já são vigiados por 1000 euros, e ninguém faz aos ricos e poderosos? Para que é esta cosmética? Para enganar a União Europeia dando a entender que a TAP foi comprada por um cidadão da União. O truque é tão evidente, que muito provavelmente, como aconteceu com os gregos, a União Europeia já assinou de cruz pelas aparências porque lhe convém. Atirem pois mais uma pedra aos gregos.

Os gregos não querem pagar impostos? Não, não querem, mas nós portugueses também não queremos. Há uma diferença, é que em Portugal se aceitou, nos últimos anos, um poder fiscal muito para além do que é aceitável numa democracia. Será que é isso a que se chama “fazer o trabalho de casa”, ter um Estado? Já agora, as estatísticas da economia informal na Europa são muito interessantes. Sabem que Estados têm uma economia informal muito superior à grega? A Noruega, a Suíça, o Luxemburgo, a Dinamarca, a Finlândia e… a Alemanha.

A questão mais importante e que merece ser analisada e discutida mais a fundo, não é a Grécia e muito menos o destino do Syriza. É a mudança de carácter da União Europeia, da “Europa”, nestes anos de crise. A hegemonia alemã é um facto, mas a principal mudança foi a substituição de um projecto europeu de paz e solidariedade, por um projecto de poder. A substância desse poder é a hegemonia política do Partido Popular Europeu que, apoiado pelo papel do governo alemão, mas indo para além dele, transformou o “não há alternativa” na legitimação de todos os governos conservadores, muitos dos quais viraram francamente à direita nestes anos. Esses governos recebem todas as complacências (como Portugal a quem se fechou os olhos nos falhanços na aplicação do memorando) e todos os apoios.

A “Europa” é hoje a principal aliada eleitoral e de governo de partidos como o PSD em Portugal e o PP em Espanha, interferindo qualitativamente nas eleições nacionais e transformando o reforço do poder comunitário num instrumento de poder “europeu”. Hoje qualquer passo que reforce a “Europa” reforça o PPE e o “não há alternativa”. Esta não é a Europa dos fundadores, é a Europa dos partidos mais conservadores, com os socialistas à arreata. Não terá um bom fim e, nessa altura, muita gente lembrará a Grécia.

25/06/15

a falência da zona euro


artigo em inglês no Guardian,
22/06/2015

por Aditya Chakrabortty *
tradução minha 

"A Grécia é um palco menor. A zona euro falhou, e os alemães também são vítimas disso."

Photograph: Matt Kenyon
«A moeda única afundou salários por todo o continente e atingiu sobremaneira os trabalhadores da sua economia número um.»
«Quase todas as discussões sobre o fiasco grego se baseiam num auto de moralidade, tipo a Malandra da Grécia versus a Nobre Europa. Aqueles arruaceiros dos gregos nunca deviam ter entrado para a zona euro, é o que diz esta estória. Uma vez lá dentro, meteram-se numa alhada de todo o tamanho - e agora a Europa é que tem de dar solução a isto.

São estas as questões base que agregam todos os Sabichões. Depois, os que estão mais à direita acrescentam que a inútil da Grécia ou aceita as condições da Europa, ou sai da moeda única. Os mais liberais empatam e tossem e pigarreiam antes de pedirem à Europa que mostre um pouco mais de caridade para com o endividado do sul . Seja qual for a solução que apresentem, os Sabichões estão todos de acordo sobre o problema: não é Bruxelas que está em falta, é Atenas. Oh, aqueles tontos dos gregos! É a atitude que se pressente quando Christine Lagarde do FMI entende criticar o governo grego por não ser suficientemente “adulto”. É essa atitude que legitima que a imprensa alemã se refira ao ministro grego das finanças, Yanis Varoufakis, como alguém que precisa de “ajuda psiquiátrica”.

Só há um problema com esta estória: como a maioria das moralidades, desfaz-se quando confrontada com a dura realidade. Atenas é, apenas, a pior manifestação de uma doença muito mais vasta no seio do projecto europeu. Porque a moeda única não está a funcionar para o europeu comum, do vale do Ruhr a Roma.

Isto dito, não fecho os olhos à corrupção endémica e à fuga de impostos na Grécia (nem, de resto, o faz o movimento dos  não-alinhados, Syriza, que chegou ao poder fazendo campanha precisamente contra estes vícios). Também não estou em vias de vestir uma camisola tipo a do Farage. Não, a minha acusação é muito mais simples: o projecto europeu está, não só, a falhar a concretização das promessas dos seus criadores, como a fazer o seu exacto oposto – destruindo os padrões de vida dos europeus comuns. E, como veremos, isto aplica-se inclusive àqueles que vivem na economia número um do continente, a Alemanha.

Comecemos por lembrar os nobres desafios a que se propôs o projecto europeu. Encarnemos o papel representado pelo alemão Helmut Schmidt e o francês Giscard d’Estaing, que lançaram as bases para o grandioso pólo unificador da Europa. Acima de tudo, lembremo-nos do que sentiam os verdadeiros crentes neste projecto. Vejamo-lo em Oskar Lafontaine, o ministro alemão das finanças, exactamente na véspera do lançamento do euro. Falava ele da “visão de uma Europa unida, que se alcançaria através da convergência gradual de padrões de vida, o aprofundamento da democracia, e o florescer de uma cultura verdadeiramente europeia”.

Podíamos citar mais um milhar de idênticas estrofes de euro-poesia, mas aquele único verso de Lafontaine mostra bem o quanto o projecto da moeda única falhou. Ao invés de elevar os níveis de vida por toda a Europa, a unidade monetária está a empurrá-los para baixo. Em vez de aprofundar a democracia, está a miná-la. Quanto a “uma cultura verdadeiramente europeia”, quando jornalistas alemães acusam ministros gregos de “psicose”, essa mítica ágora das nações está muito, mas muito distante.

Destas três acusações, a primeira é importantíssima, porquanto explica como toda a união está a ser minada. Para se ver o que aconteceu ao nível de vida do europeu comum, atente-se na extraordinária pesquisa publicada este ano por Heiner Flassbeck, antigo economista-chefe da Conferência sobre Comércio e Desenvolvimento, das Nações Unidas, e Costas Lapavitsas, um professor de economia da Soas University of London que agora é deputado do Syriza.

Em Contra a Troika, o alemão e o grego publicam um gráfico que desmascara a ideia de que o euro elevou os níveis de vida. O que analisam são custos laborais por unidade – de quanto se precisa para pagar aos trabalhadores para fabricar uma unidade de produção: uma aplicação informática, por exemplo, ou um qualquer elemento de software. Fazem um mapa de custos laborais na zona euro, de 1999 a 2013. O que concluem é que os trabalhadores alemães praticamente não viram os seus salários aumentar neste período de 14 anos. Na curta vida do euro, os trabalhadores alemães foram menos bafejados que os franceses, os austríacos, os italianos e muitos da Europa do sul.

Sim, estamos a falar da mesma Alemanha: a economia mais poderosa do continente, aquela que até David Cameron inveja. No entanto, as pessoas que trabalham lá e tornam o país mais próspero não viram praticamente nenhuma recompensa pelos seus esforços. E este é o modelo para um continente.

Talvez tenham da Alemanha a imagem de um país de operários altamente qualificados e altamente remunerados, a trabalharem em fábricas reluzentes. Essa mão-de-obra (e os seus sindicatos) ainda existe – mas está em vias de extinção. O que a está a substituir, segundo relato do maior especialista alemão em desigualdade, Gerhard Bosch, são empregos da treta. O número de trabalhadores que se vendem por baixos salários disparou e estará agora aos níveis dos Estados Unidos, diz.

E não é o euro que é responsável por esta situação, mas sim o declínio gradual dos sindicatos alemães, e o outsourcing por parte das empresas, que optam pela mais barata Europa de leste. O que a moeda única fez foi transformar os problemas da Alemanha com os baixos salários na ruína de todo um continente.
Os salários dos trabalhadores em França, Itália, Espanha e no resto da zona euro estão agora a ser afectados pelo épico congelamento de salários em vigor no gigantesco país do meio. Flassbeck e Lapavitsas chamam a isto a política da Alemanha de “empobrecer o vizinho” – “mas só depois de empobrecer o seu próprio povo”.

No último século, os outros países na zona euro podiam ter-se tornado mais competitivos, desvalorizando a sua moeda nacional – tal como fez o Reino Unido depois do colapso da banca. Mas agora que fazem todos parte do mesmo clube, a única solução foi pagar menos aos trabalhadores.

É isto, expressamente, que a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o FMI estão a dizer à Grécia: despeçam trabalhadores, paguem muito menos àqueles que ainda têm emprego, cortem nas reformas e pensões. Mas não é só na Grécia. De praticamente todas as reuniões dos Sabichões em Bruxelas e Estrasburgo sai o mesmo comunicado sobre a “reforma” do mercado de trabalho e dos benefícios da segurança social em todo o continente: uma mal disfarçada exigência para atacar os padrões de vida das pessoas comuns. É nisto que o nobre projecto europeu se está a tornar: uma marcha deprimente para o fundo. Não se trata de consolidar a democracia, mas de consolidar os mercados - e os dois são cada vez mais incompatíveis. A alemã Angela Merkel não teve nenhum prurido em se imiscuir nas questões democráticas de outros países europeus – advertindo tacitamente os gregos contra o voto no Syriza, por exemplo, ou forçando o primeiro ministro socialista espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero, a cortar nos gastos com que se tinha comprometido e com que tinha ganho as eleições.

As tareias diplomáticas administradas ao Syriza desde que subiu ao poder este ano podem ser vistas apenas como a Europa a tentar estabelecer um exemplo para quaisquer eleitores espanhóis que possam ter a veleidade de apoiar o seu movimento-irmão, Podemos. Vão demasiado à esquerda, e têm o mesmo tratamento, é a mensagem que passa.

Quaisquer que fossem os ideais fundadores da zona euro, não se coadunam com a triste realidade de 2015. Esta é a revolução de Thatcher ou de Regan – só que, agora, à escala de um continente. E, como então, vem acompanhada da ideia de que Não Há Alternativa, quer para gerir uma economia, quer mesmo para os eleitores escolherem que tipo de governo querem.

O facto de todo este espectáculo ser posto em cena por Sabichões com bom ar, que amiúde reclamam serem sociais-democratas, não torna o projecto mais simpático ou gentil. Só dá à coisa um sabor amargo a hipocrisia.»

traduzido por AL a partir de: The Guardian

* senior economics commentator for the Guardian. He tweets @chakrabortty 

NT: na Grécia Antiga, a ágora era o espaço público por excelência, da cultura, da política e da vida social

23/06/15

"Demasiado lampeiros para serem sérios"

no Público,
20/06/2015 

por José Pacheco Pereira 

de Leonora Carrington
Então como é? O país está mal ou não está? Está. Então deixem-se de salamaleques politicamente correctos. 

Depois há a Grécia. “Não queremos a Grécia fora do euro” significa, por esta ordem, “queremos derrubar o governo do Syriza”, “queremos o Syriza humilhado a morder o pó das suas promessas eleitorais”, “queremos os gregos a sofrerem mais porque votaram errado e têm que ter consequências”, “queremos a Grécia fora do euro”. O que é que disse pela voz do Presidente? Na Europa “não há excepções”. Há, e muitas. A França por exemplo, que violou o Pacto de Estabilidade. A Alemanha que fez o mesmo. 23 dos 27 países violaram as regras. Consequências? Nenhumas: foi-lhes dado mais tempo para controlar as suas finanças públicas. Mas ninguém tenha dúvidas: nunca nos passou pela cabeça empurrar a Grécia para fora do euro, até porque na Europa “não há excepções”. Lampeiros é o que eles são. Lampeiros.

Este tipo de campanha eleitoral é insuportável, e suspeito que vamos ver a coligação a “bombar” este tipo de invenções sem descanso até à boca das urnas. O PS ainda não percebeu em que filme é que está metido. Continuem com falinhas mansas, a fazer vénias para a Europa ver, a chamar “tontos” ao Syriza, a pedir quase por favor um atestado de respeitabilidade aos amigos do governo, a andar a ver fábricas “inovadoras”, feiras de ovelhas e de fumeiro, a pedir certificados de bom comportamento a Marcelo e Marques Mendes, a fazer cartazes sem conteúdo – não tem melhor em que gastar dinheiro? – e vão longe.

Será que não percebem o que se está a passar? Enquanto ninguém disser na cara do senhor Primeiro-ministro ou do homem “irrevogável” dos sete chapéus, ou das outras personagens menores, esta tão simples coisa: “o senhor está a mentir”, e aguentar-se à bronca, a oposição não vai a lado nenhum. Por uma razão muito simples, é que ele está mesmo a mentir e quem não se sente não é filho de boa gente. Mas para isso é preciso mandar pela borda fora os consultores de imagem e de marketing, os assessores, os conselheiros, a corte pomposa dos fiéis e deixar entrar uma lufada de ar fresco de indignação.

Então como é? O país está mal ou não está? Está. Então deixem-se de rituais estandardizados da política de salão e conferência de imprensa, deixem-se de salamaleques politicamente correctos, mostrem que não querem pactuar com o mal que dizem existir e experimentem esse franc parler que tanta falta faz à política portuguesa.

Mas, para isso é preciso aquilo que falta no PS (e não só), que é uma genuína indignação com o que se está a passar. Falta a zanga, a fúria de ver Portugal como está e como pode continuar a estar. Falta a indignação que não é de falsete nem de circunstância, mas que vem do fundo e que, essa sim, arrasta multidões e dá representação aos milhões de portugueses que não se sentem representados no sistema político. Eles são apáticos ou estão apáticos? Não é bem verdade, mas se o fosse, como poderia ser de outra maneira se eles olham para os salões onde se move a política da oposição, e vêm gente acomodada com o que se passa, com medo de parecer “radical”, a debitar frases de circunstância, e que não aprenderam nada e não mudaram nada, nem estão incomodados por dentro, como é que se espera que alguém se mobilize com as sombras das sombras das sombras?

Enquanto isto não for varrido pelo bom vento fresco do mar alto, os lampeiros vão sempre ganhar. As sondagens não me admiram, a dureza e o mal são sempre mais eficazes do que o bem e muito mais eficazes do que os moles e os bonzinhos.

"Atenas já está a arder?" (**)

no Público,
22/06/2015

por José Vítor Malheiros *

A Espanha e a França estão preocupadas? Draghi e Merkel estão preocupados? Obama está preocupado? Pedro Passos Coelho não. 

de Leonora Carrington
O presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi, considera que é impossível prever as consequências a médio e a longo prazo de um eventual incumprimento por parte da Grécia — que teria de levar inevitavelmente à sua saída do euro. E todos os comentadores são de um extremo cuidado ao tentar prever as consequências de uma saída da Grécia da zona euro. Depois de listar as eventuais vantagens para a Grécia ou para os países que ficassem no euro e as eventuais desvantagens para ambos, acabam por concluir que nada é certo já que, se essa hipótese se tornasse realidade, se entraria em águas nunca dantes navegadas.

A realidade é que tudo pode acontecer, desde um efeito dominó que destruiria o euro primeiro, desencadearia uma imensa crise de confiança na Europa e desagregaria a União Europeia depois, até uma estabilização relativamente rápida da UE-sem-Grécia sem desastres de maior. A verdade é que não se sabe porque nunca nada semelhante aconteceu, porque ninguém consegue prever o que farão os diferentes actores políticos e económicos caso a famosa Grexit se concretize e porque é provável que alguns desses actores não reajam da forma mais racional — tal como, neste preciso momento, a União Europeia não está a reagir de forma racional.

Todos os comentadores e todos os especialistas são prudentes, mas não o nosso primeiro-ministro que garante que uma eventual saída da Grécia não causará mossa a Portugal. A Espanha e a França estão preocupadas? Draghi e Merkel estão preocupados? Obama está preocupado? Pedro Passos Coelho não. Há algo que Passos Coelho ou a sua professora de Economia, Maria Luís Albuquerque, saibam ou estejam a ver que mais ninguém sabe ou vê? Não. Terão eles uma ideia mais precisa do que os muitos peritos que estudam isto todos os dias ou que os analistas que escrevem e reflectem sobre isto? Não. É apenas mais um exemplo do wishful thinking e da manipulação da realidade que tem dado as famosas previsões de recuperação económica e que hoje fazem um retrato radioso de Portugal, apesar da pobreza, do desemprego, da dívida crescente e da emigração. Eles acham que Portugal vai ficar bem ainda que a Grécia saia do euro. Ou melhor: secretamente, e apesar das suas profissões de fé, rezam para que a Grécia saia do euro, para que uma catástrofe inominável se abata sobre a Grécia e para que o país se enterre na fome e na miséria durante décadas, pária entre as nações, e que isso sirva de lição aos que contestam a austeridade, aos que contestam o seu governo, a todos os que se atrevem a votar à esquerda e a criticar a troika que eles amam acima de todas as coisas. O mundo receia que a UE caia, mas Passos Coelho diz que Portugal não cairá. Seria cómico se não fosse tão estúpido.

Os analistas acham que é possível que a Grécia, se sair de facto do euro, consiga usar em seu benefício o facto de voltar a usar um dracma muito desvalorizado, apostando em força nas exportações e no turismo. Outros acham pouco provável que a sua fragilizada economia pudesse aproveitar devidamente essa vantagem, nomeadamente no sector exportador. Uns estão convictos de que uma Grécia fora do euro, depois de um ou dois anos que todos são unânimes em prever como duríssimos, poderia começar a experimentar crescimentos da ordem dos 5% a 10%, levando outros países (como a Itália, a Bélgica e mesmo a França) a pensar se, afinal, não seria melhor saltar fora do euro, dando origem ao efeito dominó e ao fim do euro. Outros acham que a saída do euro e o fim da pressão dos parceiros da UE e dos credores da troika fará com que a Grécia abandone toda a disciplina orçamental e regresse a maus hábitos orçamentais e ao desgoverno total, caindo no caos.

Mas, como o prémio Nobel de Economia Paul Krugman escreveu, “o maior risco para o euro não é em caso de fracasso da Grécia mas em caso de êxito da Grécia. Imaginem que um novo dracma muito desvalorizado traga uma enchente de bebedores de cerveja britânicos para o mar Jónico e que a Grécia comece a recuperar. Isso iria encorajar grandemente aqueles que contestam a austeridade e a desvalorização interna noutros países”.

E é isto (que está longe de ser apenas a opinião de Krugman) que Passos Coelho não pode sequer sugerir. O conto moral da austeridade exige que os contestatários sejam castigados. Se ficarem no euro e se saírem do euro. Para que aprendam que as veleidades democráticas de eleger governos que não querem ser súbditos da Alemanha se pagam caras.

Esta displicência de Passos Coelho em relação à saída da Grécia é mais um sinal da falta de patriotismo demonstrada pelo Governo PSD-CDS já que, em caso de Grexit, todos sabem que a posição de Portugal ficaria particularmente fragilizada. Mas o PM não está preocupado com Portugal. Antes de mais, a Grécia deve ser castigada. Passos Coelho deitaria fogo à Grécia já se lho ordenassem. É esta a sua ideia de solidariedade europeia. Curiosamente, Krugman considera que é tão importante para a Alemanha que a Grécia fracasse se sair do euro que o economista põe mesmo a hipótese de um boicote alemão à economia grega. Passos Coelho gostaria imenso de ajudar, mas pode ser que as eleições o defenestrem antes.

*Jornalista, jvmalheiros@gmail.com

(**) alusão a um filme de 1966, Paris brûle-t-il? (= Paris já está a arder?), sobre as acções da Resistência francesa que, em 1944, levam à libertação de Paris. Hitler tinha ordenado à Wehrmacht (o exército ocupante nazi) que, antes de capitular, arrasasse Paris, fazendo explodir pontes e monumentos ...

21/06/15

flagrantes da vida real

de Leonora Carrington
Às vezes, numa atitude de puro masoquismo, dá-me para ver telejornais...

Ontem, no Jornal das 8, na SIC, a propósito da "marcha do orgulho gay":

1.º a Mariana Mortágua de megafone em punho a gritar, uma palavra-de-ordem pelo meio: "Eu sou uma bicha e o mundo vou mudar!". Achei que tinha ouvido mal. Pensei: mas esta gente não se enxerga? "Eu sou uma bicha"?! Mas é assim que se dá dignidade à coisa? Que se a reclama? "Bicha"?!!! Uma deputada -- e do BE!! a reclamar uma designação xenófoba assim, e homofóbica??!!!!!!

2.º e igualmente edificante, a entrevista a uma "popular" de bastante idade sentada numa paragem de autocarro:
- (a pergunta subentende-se..)
- «Acho que eles fazem bem. Estão a lutar pelos seus direitos. Porque estão prejudicados!» [Bom, aqui, o ouvinte pensaria, "mas que evoluídos que estão os portugueses!!! Que tolerantes!!", o que não condiz muito com a apreciação que se segue, mas enfim....]: «Mas também quem sofre somos nós que estamos à espera do autocarro há mais de uma hora!»
- «A senhora compreenderia que um filho ou um neto seu se assumisse como homossexual?», pergunta a jornalista.
- «Como?» , indaga a senhora, um quê de surdez a dificultar-lhe a compreensão ...
- a jornalista repete a pergunta ........
- «Não! Não ...! Não, não gostava disso!  Não, não, num gosto disso! Num gosto d' homossexuais!»

E assim vamos neste país da treta, que outros comentários não teço! É mais assim um "tomem e embrulhem"! E não me admiro que o coelho volte a ganhar as eleições! Oh Pátria! Oh gente!!!

17/06/15

As duas troikas e a comunicação social

no Público,
17 de Junho de 2015

por Santana Castilho *

1. A governação de Sócrates foi julgada nas últimas eleições. Nas próximas devemos julgar a governação de duas troikas: a estrangeira e a nacional, composta por Passos Coelho, Paulo Portas e Cavaco Silva. O rasto impressivo desta troika nacional não pode ser iludido pelo apaziguamento dos mercados e pelos elogios hipócritas dos credores, mas antes recordado pelas imagens degradantes dos últimos dias, quando vimos centenas de portugueses passarem noites inteiras numa fila, esperando uma senha para fazerem uma colonoscopia. Ao estado a que o Estado chegou! Literalmente destroçado por um Governo que procurou alistar jovens, trabalhadores privados e activos contra velhos, funcionários públicos e reformados. Que fez a dívida galgar 20 pontos percentuais, apesar de ter vendido toda a economia pública relevante (parte da banca, EDP, CTT, ANA, REN, PT, Tranquilidade, Espírito Santo Saúde e TAP). Que tenta dissimular, com as “Linhas de Orientação para Elaboração do Programa Eleitoral”, o PEC que enviou para Bruxelas: mais austeridade, mais despedimentos e mais extorsão de salários e pensões.


2. A informação produzida pela comunicação social deve visar o esclarecimento dos cidadãos. A diversidade e a pertinência das opiniões publicadas devem favorecer a reflexão dos leitores. Não sendo difícil, num plano ético, concordarmos com as premissas anteriores, assalta-nos a pergunta óbvia, ao passar para o plano prático: a comunicação social contribui sempre para reforçar o juízo crítico dos cidadãos ou, outrossim, confunde-os amiúde? Que responda cada leitor, cuja verdadeira liberdade cívica depende, cada vez mais, da sua própria capacidade para manter activa uma certa memória mediática e ler para além do que é escrito.

O impacto dos exames na vida de todos nós e a duração das actividades lectivas voltaram à actualidade. Contribuíram para a retoma destes temas uma entrevista concedida ao Público por Hélder de Sousa, presidente do Iave, uma proposta do Conselho de Escolas e a posição assumida pelo presidente de uma das confederações de associações de pais (Confap). Hélder de Sousa disse que os exames não estão a gerar melhorias nas aprendizagens e que o treino intensivo para os exames “é o maior erro que se comete em matéria de prática de sala de aula”, atribuindo, subliminarmente, a responsabilidade aos mesmos do costume: escolas e professores. O Conselho de Escolas propôs uma pausa de dois dias a meio do primeiro período escolar. O presidente da Confap defendeu onze meses de aulas e um mês de férias.

Em editorial de 14 passado, o Público emitiu opinião. Depois de apoiar o diagnóstico de Hélder de Sousa, clamou por tempo para ensinar o que não se aprende, escrevendo: “… E é por isso que não se entende a proposta agora feita pelo Conselho das Escolas ao Ministério da Educação, de fazer uma pausa no meio do primeiro período de aulas. Quando toda a gente se queixa, inclusivamente os professores, de falta de tempo para dar as matérias e quando já existem tantas férias escolares, esta é uma ideia ao arrepio de todas as exigências. E que não abona nada a favor da imagem das escolas.”

Estes diferentes contributos, coincidentes no apoio a uma forma de ver as coisas, justificam outro, o meu, claramente diferente. Hélder de Sousa é bem-vindo ao clube dos que sempre pensaram e disseram que os exames não melhoram, por si só, o desempenho das escolas, dos alunos e dos professores. Falta-lhe assumir agora que, tal como fazer uma análise ao sangue em jejum e outra ao deitar não combate o excesso de colesterol, também a paranóia classificativa que gere, com exames a mais, quantas vezes inadequados e mal feitos, tem que ser corrigida. E, sobretudo, não venha iludir a opinião pública (acompanhado pelo editorialista do Público) dizendo que a pressão e o treino intensivo podem ser rejeitados pelos professores e pelas escolas. Não podem. Não são eles que definem as políticas. É o ministro. Não foram eles que indexaram prémios e castigos, de escolas e professores, ao resultado dos exames. Foi o ministro. Não foram eles que alienaram os pais com a paranóia dos rankings. Foram ministros, este e outros, com a ajuda da comunicação social (e papel relevante para o Público, pioneiro na construção dos rankings).

Ao presidente da Confap permito-me sugerir que, em vez de ajudar a enterrar ainda mais a infância dos filhos, sequestrados na escola 11 horas por dia, 11 meses no ano, questione antes um modelo de sociedade que substitui pais naturais por pai adoptivos: os professores. Ao editorialista do Público peço que considere a hipótese de encontrar o tempo que reputa necessário para ensinar o que está mal aprendido na diminuição da bárbara extensão dos programas. E recordo-lhe que as crianças portuguesas do primeiro ano da escolaridade obrigatória têm uma carga lectiva anual de 936 horas, enquanto as finlandesas, universalmente celebradas pelos resultados que obtêm, se ficam por … 569.

* Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt)

15/06/15

admirável mundo-novo-português!

retirado do blogue da Anabela Magalhães


O caso do pai que abortou os filhos na escola 

12/06/2015
no Aventar 

por João José Cardoso

Os colégios internos sempre foram uma boa solução para pais que não estão para aturar os filhos. Mas há poucos, e são caros. 

Para democratizar o acesso ao sossego paterno e à tranquilidade materna, o presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais, Jorge Ascensão, teve uma ideia: aulas 11 meses por ano. É a chamada massificação da irresponsabilidade parental, ou da estupidez, como preferirem. 

Nesta fase os pais ainda fariam o sacrifício de manter os filhos em casa à noite e fim-de-semana, dadas as dificuldades económicas que o país atravessa, mas poderia iniciar-se a reivindicação seguinte, os dormitórios escolares, a que se seguiria um calendário escolar flexível, em que cada aluno gozasse de férias em data coincidente com as do agregado, porque há que manter algum contacto com as crianças, não vá alguém esquecer-se do nome das crias. 

Abortadas as criaturas nas escolas, em Portugal que já tem das maiores cargas lectivas e um sistema de férias absurdo onde dois períodos se dividem às ordens de um feriado móvel, o problema da natalidade resolvia-se num instante. Era tudo a fazer portugueses, o mais idiotizados possível.


14/06/15

da Justiça portuguesa ...

12 de Junho de 2015,

por Francisco Louçã 

fonte

Há alguém por aí para enfrentar a triste degradação da justiça? 


de Leonora Carrington
O caso Sócrates só podia despertar paixões épicas. Foi assim desde o início, será assim ou a invectivarem a atitude do ex-primeiro-ministro e outros a denunciarem a sua máxima culpa. Uns com prudência e outros com concupiscência.
elogiarem
até ao fim. O recente episódio da proposta de prisão domiciliária voltou a atiçar essa fogueira, com comentadores a

Sem prejuízo destas opiniões, não estou de acordo. Todas elas partem de uma posição irredutível e determinada: ou o homem é culpado (e então merece todo o castigo desde sempre) ou é inocente (e a recusa da prisão domiciliária é um assomo de dignidade). Decerto, será uma ou outra. Mas o meu ponto é que não temos meios para saber qual delas é a verdade. Só podemos supor, ou por solidariedade pessoal ou política, ou por um ódio de qualquer estirpe. E supor é insuficiente. Ora, não devemos basear a nossa atitude numa suposição, determinada unicamente por paixões, nem muito menos deixar que as suspeitas ou até convicções dos espectadores que somos todos se tornem o substituto da justiça.

Não podemos e não devemos, tanto mais que estamos a ser bombardeados pela mais longa fuga ao segredo de justiça de que me lembro. Se pensa que tudo se tornou possível, aperte o cinto de segurança que vai haver muito mais. Já tivemos a divulgação da gravação de um interrogatório umas horas depois da sua realização, usando o truque de entregar uma cópia à defesa para confundir o rastro do crime, e o que mais virá? Temos constantes e reiteradas antecipações em jornais de “provas” que não foram apresentadas à defesa e que nem podemos saber se figurarão sequer na acusação, e o que mais será? E nem sabemos quando será a acusação: um ano depois, um ano e meio depois, antes das eleições, depois das eleições?

Sugiro ao leitor que se mova então pela única certeza que podemos ter: este processo está a ser conduzido sem respeito pela justiça ou até pela decência. Não há acusação e passaram meses, não há acesso da defesa aos documentos e provas e isto ainda se pode prolongar mais uma eternidade, mas choveram milhões e casas e malas e ligações e viagens e Venezuela e Algarve e Suíça e tudo o mais.

É isto uma perseguição especial contra Sócrates? Pode ser mas também pode não ser. De facto, a justiça portuguesa procede rotineiramente desta forma, usando a lei e abusando das normas. E o caso Sócrates importa menos do que esta regra geral: esta justiça mete medo. 

Creio por isso que só podemos responder ao problema democrático, que nos diz respeito a todos e todas, e nunca podemos responder ao problema da culpa, porque esse é que não nos compete. O problema democrático é que há pessoas que ficam em prisão preventiva durante anos até ao final do julgamento. O problema democrático é que as escutas a Valentim Loureiro ou a Isaltino de Morais nunca deviam ter chegado aos jornais antes de o processo sair de segredo de justiça. O problema democrático é que Ricardo Salgado não devia ter sido detido para depor, porque a detenção não serve para o efeito de constituir arguido e ouvir o dito e toca a andar. O problema democrático é prender para depois investigar. E o problema democrático é que se tornou tão fácil transformar num show os processos de investigação a crimes hediondos como a corrupção, que está a ser criada uma oportunidade de mercado para corromper quem tenha acesso a informações em qualquer desses processos por corrupção – se for suficientemente mediático. Creio que uma das vítimas colaterais deste modo de proceder será a credibilidade das condenações, se as houver nestes casos.

Por tudo isto, devo dizer-vos que acho insuportáveis as frases de responsáveis políticos que se refugiam num timorato “deixar à justiça o que é da justiça”, para não terem que se meter no sarilho de enfrentar esta degradação da vida democrática que se espraia à nossa frente. Sim, acredito neles só se me disserem o que tencionam fazer a respeito do que a justiça não faz. Não para Sócrates, mas para todos. Não para agora nem para este caso, mas como regra para todos os casos, a começar pelo mais desconhecido ou insignificante.

Se aprendemos alguma coisa com o que se está a passar, então vejamos quem se adianta e propõe limitações estritas ao tempo de prisão preventiva, quem garante o acesso da defesa à informação relevante, quem garante meios para investigações capazes pelas autoridades policiais e judiciais, quem limita o abuso das escutas indevidas, quem está pronto para punir os atrasos nos processos judiciais, quem está disposto a abolir o segredo de justiça em consequência do aperto dos prazos da investigação, quem aceita impor que a acusação seja feita em tempo certo, quem esteja preparado para expulsar da profissão e punir os juízes, magistrados do ministério público, advogados ou funcionários que ilegalmente tornem públicas informações sob segredo.

É fácil demais manter a questão como o “caso Sócrates”. As paixões tudo abafarão e ficaremos como na conversa sobre a ida de Jorge Jesus para o Sporting: ama-a ou deixa-a. Esse ruído ocultará sempre o fundo mais fundo da questão, que é uma justiça que não acredita em si mesma. É preciso salvar a justiça dos seus protagonistas, dos seus costumes, das suas teias de cumplicidades, das suas facilidades.

E isso já é com os candidatos – os das legislativas e sobretudo os das presidenciais. Digam-nos o que querem fazer ou fiquem de lado, porque se estão calados então não têm solução para os problemas de Portugal. É uma questão de regime, é mesmo convosco, senhores candidatos e senhoras candidatas.

03/06/15

"A Educação perdeu o estatuto de um direito e ganhou o estatuto de uma mercadoria "

no Público,
3 de Junho de 2015

por Santana Castilho

Não conseguiremos, sós, à revelia da Europa em que nos integramos, particularmente sem cumplicidade política estabelecida com os países cujos problemas se assemelham aos nossos, mudar a maior parte das variáveis que condicionam a nossa vida futura. Mas podemos mudar a Educação. Se queremos mudar Portugal, temos que dar atenção à Educação e alterar-lhe o rumo. Cada vez instruímos mais (e em sentido errado) e educamos menos. Em nome de uma economia sem humanidade, construímos autómatos e roubamos a infância às nossas crianças. Em período de pré campanha, o que se vê (ou não se vê) é desolador.

1. A acusação é grave e não pode passar sem que o ministro da Educação e Ciência se pronuncie sobre a matéria. De forma clara e rápida. Um grupo de cidadãos, mães e pais, afirmam em documento, que tornaram público, que uma organização, a Associação Junior Achievement Portugal, sucursal de congénere norte-americana, anda a “doutrinar crianças desde o 1º ano de escolaridade a … ver a família como unidade de consumo e produção, naturalmente dependente de empresas privadas … inculcando a obsessão pelo sucesso assente na lógica da competição”. Tudo se passa em tempo normal de aulas, sob responsabilidade de voluntários estranhos às escolas mas com a conivência das autoridades, designadamente autarquias locais, e sem qualquer tipo de consulta aos pais e, muito menos, a sua autorização. No documento em análise, os pais referem haver uma recomendação expressa para que os formadores voluntários sejam recrutados no meio empresarial e as crianças se venham a identificar “com a figura do voluntário no final da formação”. O programa, afirmam, “está orientado de uma forma que, cremos, exerce uma violência simbólica sobre crianças e adolescentes, escondendo por detrás de uma ou outra informação ética superficial uma manipulação de consciências no sentido de identificar o ser humano da sociedade contemporânea como exclusivamente orientado para o mercado, o consumo e o lucro, sem que a interacção com outros seres humanos sirva outro fim que não esse. Competição, individualismo, afirmação individual, ambição pessoal e agressividade são os valores que se promovem”.

O ministro não se pode esconder atrás da falsa autonomia das escolas para nada dizer sobre esta acusação. Doutrinar crianças à revelia dos pais e dos programas vigentes, apresentando-lhes a dignidade humana como simples corolário do mercado, é um “empreendedorismo social” que não pode ser tolerado na escola pública.


2. O até agora inimputável José Alberto Duarte (são várias as trapalhadas por que tem passado incólume), director-geral dos Estabelecimentos Escolares, é visado e considerado responsável por uma irregularidade grave detectada numa auditoria do Tribunal de Contas. Trata-se de uma contratação de serviços de fornecimento de refeições a escolas, no valor de 3,5 milhões de euros, alegadamente operada sem cobertura legal. Segundo o Correio da Manhã, que denunciou a situação, o Tribunal de Contas remeteu as conclusões da auditoria para o Ministério Público, referindo que “a gravidade do incumprimento desaconselha a relevação da responsabilidade”. Quem sabe se este servidor público, antes de servir a grei, não terá sido voluntário da Associação Junior Achievement Portugal e a questão não se possa resolver, a bem do mercado, com a extensão da redentora pedagogia aos senhores juízes do Tribunal de Contas.


3. Num debate recente que travei no programa Política Mesmo, na TVI 24, com o presidente do IAVE, aludi a erros inaceitáveis em matéria de exames. Respondeu-me que esses erros representavam 0,01% dos 30.000 itens que o IAVE havia produzido. Não sei quantos itens inúteis o IAVE produziu. Sei que há mentiras piedosas, mentiras abjectas e … estatística. E sei que os estudantes surdos do 9º ano, obrigados a sujeitarem-se ao Preliminary English Test for Schools (PET), prova secreta de inglês (assim a classifico porque o conhecimento público do respectivo conteúdo está rigorosamente proibido), concebida por uma instituição estrangeira e financiada por processo que está a ser investigado pela Polícia Judiciária, foram impedidos de cumprir parte dela por erro, incompetência e desprezo do IAVE. O independente IAVE, servo da política numeralista do ministro, preparou um CD para que surdos profundos “ouvissem” o que, por razões óbvias, não podem ouvir. Esta lamentável circunstância não beliscará a expressão estatística que enche de orgulho o presidente do IAVE. Mas mais que um erro ridículo, absolutamente inaceitável, expõe a face desumana de uma política. Pela mão deste Governo e do seu ministro Nuno Crato, a Educação perdeu o estatuto de um direito e ganhou o estatuto de uma mercadoria. Cem estudantes surdos profundos não contam para estes desalmados, manipule o IAVE as estatísticas como lhe aprouver.

* Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt)

02/06/15

uma óPtima notícia!

na Visão,
1 de Junho de 2015

Médicos entusiasmados com avanço "espetacular" na luta contra o cancro 

A imunoterapia, que usa o sistema imunitário para atacar as células cancerígenas, representa uma "nova era" para o tratamento do cancro, acreditam os especialistas 

Os resultados dos ensaios clínicos de novos medicamentos contra o cancro estão a entusiasmar a comunidade médica, com um especialista a dizer que o novo tratamento tem mesmo potencial de cura para a doença.

A imunoterapia mostrou-se tão eficaz que num dos ensaios, liderado por investigadores britânicos, mais de metade dos pacientes com melanoma em estado considerado avançado viram os seus tumores diminuir ou ficarem controlados.

Na conferência anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica, em Chicago, o professor Roy Herbst, diretor de oncologia do Yale Cancer Centre, classificou os resultados como "espetaculares" e mostrou-se confiante na substituição da quimioterapia pela imunoterapia como tratamento mais comum para o cancro, dentro dos próximos cinco anos.

"Acho que estamos a assistir a uma mudança de paradigma na forma como a oncologia é tratada", afirmou, em declarações aos jornalistas. "O potencial para uma sobrevivência a longo prazo, para uma cura efetiva, está lá, sem dúvida". Também Peter Johnson, do Cancer Research UK, considera que "as provas sugerem que estamos no início de uma nova era para o tratamento do cancro".

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