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31/10/13

para quem tenha veleidades de escrita..

daqui,

por Mário de Carvalho

DOZE NOTAS SOBRE LITERATURA EM TOM DE PRECEITO 


  1. Comece o escritor por ser um leitor curioso, variado e insaciável, capaz de ser «autor dos livros que lê», na expressão esclarecida de Óscar Lopes. 
  2. de G. Klimt
    Há coisas que não se escrevem, nem sob tortura. Frases como um «rapaz alto e espadaúdo», «lábios vermelhos como cerejas», ou incipits como «tudo começou quando», são admissíveis em clave de ironia ou de apelo à cumplicidade do leitor. Se não, revelam o autor ingénuo, em demanda de leitor apropriado. 
  3. Aprenda-se com os mestres. Ainda com aqueles de quem não se goste, ou com quem não existam afinidades de imaginário, prosa ou família literária. Quer para os rejeitar (ou exorcizar) ou para os incorporar, impõe-se não serem esquecidos. A literatura não se inventa a cada instante. Reinventa-se. 
  4. As neves de antanho são despachadas a derreter. Em menos de uma geração estalam e desfazem-se as gloríolas literárias. É sensato ser circunspecto, quer em relação ao sucesso próprio, quer ao dos outros. Têm vocação de fugazes e frágeis. 
  5. Nunca se deve lisonjear o leitor. Apostar na moda é condenar-se àquilo que já passou. 
  6. Guardar-se de palavras fortes sobre a matéria, tais como «fulgor», «assombro» e «sublime» e adjectivos derivados. A literatura e a arte situam-se nas zonas do indizível a que as palavras não chegam. Por isso elas descaem, quando são forçadas. 
  7. A literatura não é sagrada, nem precisa de altares, santinhos, beatos e beatas. Mesmo o texto mais solene e dorido tem um fio lúdico que bule com o entranhado instinto de jogo dos humanos. 
  8. Há que valorizar o ofício, a técnica, a velha techné dos antigos, o domínio cuidado e rigoroso sobre os materiais. Essa é a arte em que falavam os Gregos, emparelhada com o engenho, ou inventiva. 
  9. As teorizações e doutrinas vêm após o texto e exercem-se sobre ele. Quando se tenta o contrário, nem sempre dá bom resultado. Está para se saber se uma hiperconsciência do texto será ou não inibidora. 
  10. A língua com que trabalhamos apresenta variadíssimas panóplias de recursos. Nenhum deles está vedado ao autor que pode, até, escolher as soluções mais rudimentares. Mas que o texto resulte sempre de uma opção livre e não de uma ignorância limitadora. 
  11. Considerar que no jardim do Senhor há muitas tendas, como diz a Bíblia algures, ou, se não diz, podia dizer. Com os outros, aprende-se sempre alguma coisa. Pode ser que a criação de espaço e as demarcações impliquem algum alarido. Mas ponderadas em termos históricos, para já não dizer sub specie aeternitatis, soam um bocado a chocalho. Pode, aliás, ser um bom exercício formativo, o de encontrar qualidade naquilo de que se não gosta. 
  12. Todas as firmações peremptórias sobre literatura estão erradas. E, como no célebre paradoxo do cretense, se calhar, esta também está errada. Bem como as anteriores. Mas não deixa de ser curioso verificar que o gosto da frase bombástica e assertiva denuncia desde logo o outsider ou o parvenu. 

www.mariodecarvalho.com

 Ler Mais Ler Melhor - Mário de Carvalho - Quando o Diabo Reza

«O faz de conta»

publicado em 30 Out 2013
i online
por Carlos Moreno

O poder faz de conta que tem uma excelente estratégia para reduzir o défice e a dívida. A Europa apoia-o. As oposições protestam, mas inutilmente 

de Escher
Faz de conta significa fingimento, dissimulação, camuflagem. 

O poder diz que tem uma estratégia coerente e eficaz para consolidar as contas públicas. Mas limita-se a enormes aumentos de impostos e a cortes atrás de cortes, por si, e por imposição da troika quando esta cá vem e vê derrapagens nas metas irrealistas acordadas pelo poder para o défice.
Em 2014, a austeridade vai duplicar, à custa dos velhos, das viúvas, dos reformados e das classes médias baixas. Os mais ricos continuam a escapar nas PPP, nas rendas da energia, na redução futura do IRC, cujos grandes beneficiários serão os grupos económicos do PSI 20. O poder faz de conta que tem uma excelente estratégia para reduzir o défice e a dívida. A Europa apoia-o. As oposições protestam, mas inutilmente. 

O poder repete que, em Junho de 2014, a troika se vai e os portugueses recuperam a sua soberania, e que um mítico programa cautelar permitirá aceder aos mercados financeiros. Desde Maio passado, quando rebentou a crise na coligação, as taxas de juro da dívida soberana subiram para os 6% e nunca mais deram sinal de abrandar (na Irlanda estão na casa dos 3,6%). O poder faz de conta que irá aos mercados financeiros sem novos e pesados sacrifícios para os portugueses. A Europa fica muda. A oposição do arco do poder contesta, sem mostrar alternativa. Faz ainda de conta. 

O poder diz que fez a reforma do Estado. Nunca teve para isso plano suportado em estudos, com objectivos e medidas devidamente calendarizadas e quantificadas. O célebre guião tornou--se uma miragem. A apregoada reforma da justiça não chegou ao terreno. A reforma fiscal e a da administração fiscal estão no limbo. As reformas para desburocratizar a administração central e local, e as tornar eficientes e eficazes, bem como as reformas na saúde e na educação, para melhor servirem o povo, limitam-se a cortes orçamentais aleatórios. O poder faz de conta que concretizou uma profunda reforma do Estado. A Europa diz "nim". A oposição que quer governar não revelou proposta credível. Faz de conta. 

O poder exulta com o facto de a austeridade, sem mais e só por si, começar a dar frutos na recuperação da economia. O poder sabe que os ténues sinais de crescimento se devem às empresas exportadoras e, em parte relevante, à melhoria das expectativas e da esperança dos consumidores, abertas sobretudo pela reposição de subsídios ordenada pelo Tribunal Constitucional (TC). O poder sabe que a duplicação da austeridade para 2014 vai matar a esperança e voltar a assustar os consumidores, e assim a deprimir o consumo interno. As exportações não terão força para compensar este factor de diminuição do PIB e o investimento estrangeiro será residual. Mas o poder faz de conta que o "milagre" do crescimento está aí. A Europa cala--se. A principal oposição não acredita, mas não mostrou a sua aposta para o crescimento. Ainda faz de conta. 

O poder cria leis retroactivas, que destroem direitos fixados no passado por leis legítimas, límpidas e transparentes, sem se preocupar com a machadada que assim dá na confiança dos cidadãos na democracia, no Estado de direito, nos partidos e nos políticos. Conduz uma campanha de assédio ao TC para que este decida como ele pretende e não com independência. O poder faz de conta que respeita o Estado de direito e que os juízes do TC não foram chamados antipatriotas e acusados de conduzir o país a um segundo resgate, mesmo antes de decidirem seja o que for. As oposições e muitos cidadãos, aqui, indignaram-se violentamente. 

A discussão do OE/2014 corre o risco de levar a coligação e a maioria que a apoia a tentar transmitir à opinião pública que o OE/2014 é o purgatório inevitável que nos abrirá o céu, se o TC nada reprovar e a oposição lhe der o braço.     -- fonte

Juiz conselheiro jubilado do Tribunal de Contas

28/10/13

LOU REED

morreu este domingo (27/10/2013) aos 71 anos em Long Island, Nova Iorque
notícia aqui e aqui
in memoriam, pg oficial


Lou Reed no filme "Fumo azul"(Blue in the Face), de Paul Auster e Wayne Wang --1995: «I actually feel pretty comfortable in NY. (...) I get scared in Sweeden: it's kind of empty, they're all drunk, everything works!!»

*
2003 -- com Antony Hegarty, Perfect Day: 
.

*

 Lou Reed - Walk On The Wild Side -- (1972) -
um êxito maior da sua recém-iniciada carreira a solo
.

23/10/13

Os devoristas

de F. Goya

no Público
de 23 de Outubro de 2013,

por Santana Castilho *

 Os devoristas


O Governo de Portugal e o Governo da Europa perderam o contacto com os seus cidadãos. Para quem não desiste da sua cidadania, outrossim dela faz alimento da alma, a raiva e o desespero dominam. Só me contém a noção dos meus limites e da minha mortalidade. Mas sofro. Sofro com tantos que sofrem às mãos de devoristas. 

O pior de Portugal não é a dívida em si. É o que foi feito com a dívida contraída. Não edificámos com ela uma economia competitiva e produtiva. Não tornámos sustentável um débil Estado social, que agora soçobra às investidas dos devoristas. Instituímos, tão-só, um perene cartão de débito internacional, que alimenta a sofreguidão da “mercadotecnia” dominante. Até o presidente da República traveste, de modo repugnante, o juramento que fez em mercantilismo primário, anunciando que a constitucionalidade ou não do orçamento não é assunto de Direito, mas de custos. Para ele, o mais honesto entre os honestos, os compromissos de honra prescrevem se os custos forem altos. Os recursos do nosso país, o destino dos nossos filhos, estão hoje entregues a pessoas que nada fizeram para os merecer. Chefes que representassem verdadeiramente os portugueses só podiam seguir outras políticas e actuar com moral diferente. Malevolamente, dolosamente, o discurso oficial mistura o custo dos serviços que o Estado presta aos cidadãos (razão da sua existência) com os custos operacionais da máquina burocrática e política. Os primeiros diminuíram drasticamente. Os segundos cresceram exponencialmente. A análise das contas de 2012, única possível neste momento, mostra isso: a aquisição de bens e serviços cresceu 1.500 milhões de euros. 

O orçamento do Estado para 2014 é de uma desumanidade aviltante. A chamada consolidação orçamental proposta soma mais 3.900 milhões de euros aos 15.000 dos últimos dois anos. A simples papel molhado ficaram reduzidos os pronunciamentos de Paulo Portas, que garantiu não vir mais austeridade. Desta feita, a “revogação” vale 612 milhões de euros. Coisa pouca. Depois de ter pulverizado a classe média e aumentado exponencialmente o desemprego e a emigração dos mais preparados, Passos Coelho investe agora sobre os salários de 600 euros mensais. O Governo de Portugal e a “troika” que ele representa, que não o povo, que devia proteger, têm a mesma atitude perante os portugueses que os donos mantinham relativamente aos escravos: então, alimentavam-nos minimamente para que pudessem trabalhar; agora, permitem-lhes que vivam para pagar impostos. Não terminará bem esta negação da realidade. E já que terá de vir a explosão social, é duro dizê-lo, mas que não tarde. Basta! 

A proposta de orçamento para 2014 prevê uma redução de 969 milhões de euros com funcionários públicos. Metade desse corte (565 milhões) será feito com a redução da despesa do pessoal do ensino não superior (redução de salários e diminuição de efectivos). A verba consignada à educação pré-escolar sofre um corte de 67,5 milhões de euros. Significativamente, as transferências previstas para o ensino privado não só não sofrem qualquer corte como crescem dois milhões de euros, totalizando 240 milhões. Globalmente, estamos perante um corte de 8% face ao ano transacto, altura em que atingimos o menor esforço com a educação, em relação ao PIB, em 39 anos de democracia. Passos Coelho e Nuno Crato julgam-se predestinados como tiranos, sem noção do mal que semeiam. Em dois anos de subserviência ao estrangeiro, aproveitando um conformismo que se banalizou, traçaram uma linha de costa que divide o país em dois: um litoral, concentracionário, e outro interior, desertificado. Tal linha virtual permitiu a metáfora recorrente: quando o Governo invoca melhoria da eficiência e aproveitamento de recursos, sabemos que se refere ao encerramento de milhares de escolas e ao despedimento de 38.000 professores. E se já era problema grande a desigualdade que caracterizava o sistema, agora ganhou foros de escândalo. Com efeito, enquanto crescem as transferências do dinheiro público para o ensino privado, diminuem drasticamente as verbas para o ensino público. Enquanto aumenta a autonomia do ensino privado, diminui a autonomia das escolas públicas. A capacidade de decisão das escolas públicas para criarem cursos profissionais e os recursos inerentes foram fortemente cerceados, enquanto o sentido inverso nos estabelecimentos particulares se tornou diariamente patente na folha oficial da República. Os apoios, não importa de que índole, disponibilizados para combater o insucesso e o abandono precoce do ensino público desapareceram. As crianças com necessidades educativas especiais foram, sem qualquer réstia de pudor, consideradas meros apêndices administrativos e liminarmente segregadas das turmas do ensino regular. A falácia do ensino dual reconduziu-nos à escola do Estado Novo: curta e pobre para os pobres, rica e financiada pelos impostos de todos para as famílias privilegiadas. 

* Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt)

18/10/13

este governo ilegítimo ..

 
.. de um meu "Amigo" no facebook que é um incansável defensor dos direitos do povo português. Que denuncia sistematicamente as malfeitorias deste governo. Que deve ser lido e partilhado!

3 'posts',

por Carlos Manuel Moreno *


A política de austeridade sem economia não conduz a nada. Nem a economia mexe nem as contas são postas em ordem. Portanto a política que está a ser seguida só pode dar em destruição da economia e dos portugueses. E é uma mentira dizer que a austeridade a este nível insuportável é inevitável e que não há alternativas. Ou no mínimo incompetência.
Em 2014 vamos ter nova recessão e mais desemprego. As famílias portuguesas não têm mais confiança neste executivo, pois concluíram que com ele a todo o momento podem vir cortes atrás de cortes, ao sabor da impreparação.
E como não haverá mais estabilidade política, económica e social e o acesso aos mercados em meados de 2014 está seriamente comprometido, precisamos de ar fresco e, como acontece em democracia sempre que se está num beco sem saída, de dar a voz ao povo. Se isto não for compreendido, as consequências podem ser irreversíveis. Defendo, pois, legislativas em simultâneo com as europeias. 

 • • • – – – • • •

Caros amigos: isto ultrapassa tudo o que se pode fazer para ganhar eleições, sem consequências. Este executivo nem legitimidade formal tem, pois o seu chefe mentiu com dolo, culpa grave , sabendo que estava deliberadamente a mentir, na campanha eleitoral que o levou ao poder. Eu conto.

Ontem num debate na TVI 24, em que participaram João Cravinho, Nobre Guedes e Nogueira Leite, este último, que é professor universitário e foi conselheiro de PPC na campanha eleitoral de 2011, disse, preto no branco, que, durante a campanha eleitoral de 2011,tinha aconselhado PPC a não prometer que não iria cortar vencimentos nem pensões porque sabia perfeitamente que o não podia fazer, na situação em que o país se encontrava. Mas que PPC preferiu, então, mentir, apesar dos conselhos que nl lhe deu em contrário.

Ou o prof Nogueira Leite ontem mentiu ou, se disse a verdade, PPC em 2011 mentiu consciente e dolosamente aos portugueses, sabendo o que estava a fazer, só para com a mentira chegar ao poder e...ao pote!!! 

 Todos os portugueses deviam saber isto e saber que quem o contou foi, não um perigoso esquerdista, mas um académico do PSD E EX-CONSELHEIRO DE PPC.

A bem da honra, da dignidade, da defesa da ética democrática, e já que os media o não repetem, difunda e partilhe pelos seus amigos, o que aqui posto. Temos todos de defender a democracia.
As eleições de 2011 não foram livres, porque o povo votou enganado propositadamente

 • • • – – – • • •

É uma grande falácia dizer que não há alternativa a esta nova brutal e não inteligente austeridade que não atingirá o défice de 4% nem as metas da dívida, não porá o país a crescer, aumentará o desemprego e a pobreza. Tal como nos anos anteriores.

Não é verdade dizer-se que o OE é duro para nos libertarmos da troika em Junho. Por muitos e bons anos vamos ficar sob tutela estrangeira. Também não é verdade dizer que é uma inevitabilidade. Só é inevitável para esta ideologia neo liberal.

Temos de deixar o povo e a economia respirarem.
Temos de deixar a Sociedade respirar.
O Povo tem de ser chamado a pronunciar-se porque em 2011 votou numa mentira dolosa. 

Se os partidos e os poderes aprenderem com o que se passou darão voz ao povo, escolherão os melhores e mais competentes para os governar, com verdade e transparência, com autoridade perante uma troika que não pode deixar, nem muito menos quer falhar em Portugal.

A troika e este governo estão num beco sem saída. Mas enquanto os deixarem aplicarão a receita da austeridade e da destruição das pessoas e da economia temos de deixar o povo falar e, depois, com uma larga base de consenso político, com o apoio do povo e das forças sociais negociar um programa realista e progressista para pagarmos aos credores e podermos melhorar a vida dos pobres e dos desempregados e dos velhos em Portugal.

Assim e com doses de austeridade iguais ou piores em 2015, 2016 e provavelmente e de novo com novas medidas de austeridade ainda em 2014 não vamos a parte nenhuma. 
Disso tenho a certeza.

* Professor de Finanças Públicas,
 (penso que ex-) Juiz Conselheiro do Tribunal de Contas

16/10/13

triste fado .. povo amorfo ..


no Público,
27/09/2013

por Alberto Pinto Nogueira *

A História não esquece e não perdoa

Filipe II de Espanha foi I de Portugal. Mau vizinho, assaltou o extremo da Ibéria. Para acabar com dúvidas, decretou que o reino de cá lhe pertencia, que o herdara e conquistara. Comprara! Era o ano de 1580. 

de Júlio Pomar **
Teve o colaboracionismo dos traidores domésticos. O costume. Miguel de Vasconcelos foi expoente. Povo oprimido, escravizado. Impostos e mais impostos. 

Em 1640, o Povo revoltou-se, farto de rei e exploração estrangeiros. Sitiado de impostos. Miguel de Vasconcelos defenestrado. O jugo durou 60 anos. A Casa de Bragança legitimou o novo poder político. Regressou a gerência doméstica. 

Mais duzentos anos de História se passaram. 

Portugal titubeava entre a “velha aliada” (?!), a Inglaterra, e o império francês. Em 1801, Carlos IV de Espanha e a França tramam em Madrid a sua invasão. Napoleão, insaciável de império, cozinhava a conquista de Portugal. Em Outubro de 1807, a corte portuguesa, com centenas de embarcações e navios de guerra, fez-se ao Atlântico. Assentou praça no Brasil. 

Junot, general gaulês, desceu de França no dia seguinte, assaltou o reino até Lisboa. A bota cardada da França dominou uns quatro anos. Assassinatos, massacres, saques, roubos, pilhagens, violações. Um festim. Impostos. A mando do Imperador, Junot assina um decreto: 100 milhões de francos a cobrar. No regresso, o poder imperial leva tudo, santos das igrejas, seus olhos de pedras preciosas. Um sacrilégio. 

A Inglaterra, “velha aliada”, como tal, mandou Wellington afrontar os galos. Foi conde, marquês e duque. Tem direito a uma estátua, na entrada do Hospital de Santo António, no Porto. Sucedeu-lhe um facínora, o marechal-general William Beresford. Estiveram cá dez anos. Mais execuções sumárias, massacres, roubos, pilhagens. Impostos. Como aliados (?), não largavam o poder de Lisboa e arredores. A Ilha tomou o lugar da Gália na opressão. D. João VI, I do Brasil, regressa. Instaura-se um regime de monarquia constitucional. 

Duzentos anos depois, a História repete-se. É fado. 

O país é colónia da Europa que impõe leis, regras, procedimentos, previsões orçamentais. O Ministério das Finanças é de Berlim. O orgulho de ser português definha. Emigra-se a conselho do Governo. O Povo é tratado sem honra e dignidade. Como caloteiro relapso. 

O Terreiro do Paço faz de oficial de diligências. Assina de cruz a sentença condenatória do tribunal criminal de Berlim. Uma fatalidade a que é alheio. O anterior e os anteriores do anterior também. A responsabilidade criminal é do Povo. Cumpre a pena de austeridade. O Orçamento do Estado é um código penal de penas parcelares. Renega a irretroactividade da lei penal, consagra o cúmulo material das penas. Há sempre mais um corte no salário, pensão, emprego (pena), a adicionar a outro corte (mais pena). O plenário da troika decide, o Governo executa. Se fala ou espirra, sai imposto, corte, desemprego. 

Cumpre ordens do invasor. Faz de Miguel de Vasconcelos. 

Não fica sempre o traidor. A História não esquece. E não perdoa! 

 “Felizmente há luar

* Procurador-Geral-Adjunto .

** imagem:
"Fernando Pessoa encontra D. Sebastião num caixão sobre um burro ajaezado à andaluza", 
Júlio Pomar-1985

10/10/13

«Vou deitar a gramática na retrete»

A escritora Teolinda Gersão publicou (...) o texto abaixo no Facebook. (https://www.facebook.com/teolinda.gersao.50?fref=ts). Dá bem a ideia do desnorte em que andam as políticas educativas, começando pelos programas das disciplinas leccionadas no ensino não-superior.

Quando se fala em insucesso escolar, quantos se lembram de analisar as circunstâncias 'funcional-oficiais' em que são leccionados o Português, a Matemática, ...? Aquelas que são ditadas/impingidas pelo Ministério da Educação?

A quantos ocorre que, muito mais do que os bons ou maus professores, serão estas mudanças sistemáticas - e porque sim!!! - de tudo e mais alguma coisa (vide o novo acordo ortográfico, o novo programa de matemática, etc, etc..) que estão na génese das "dificuldades" de aprendizagem dos alunos?


de Marcel Duchamp
Quantos se darão conta de que o "mudar por mudar" mais não é do que a incapacidade de pensar as coisas a médio e longo prazo, de planificar educação?

Quantos suspeitarão, finalmente, que estes pobres "alternes" estarão na razão directa dos mestrados e doutoramentos "ad-hoc" - e carecendo visibilidade - dos filhos, sobrinhos e afilhados de ministros ou outros "inimputáveis", da intelectualite dos boys e das girls dos partidos que se vão substituindo no ministério da educação?
Atenção, pois, aos 'flutuamentos' da GRAMÁTICA PORTUGUESA, seja ela, presentemente, o que for.. E, confessem lá: quantos de vocês, pais, tios, avós.., responderiam satisfatoriamente às exigências destes dislates?
(recebido via e-mail):
«Tempo de exames no secundário, os meus netos pedem-me ajuda para estudar português. Divertimo-nos imenso, confesso. E eu acabei por escrever a redacção que eles gostariam de escrever. As palavras são minhas, mas as ideias são todas deles. Aqui ficam, e espero que vocês também se divirtam. E depois de rirmos espero que nós, adultos, façamos alguma coisa para libertar as crianças disto. 

Redacção 
Declaração de Amor à Língua Portuguesa 

Vou chumbar a Língua Portuguesa, quase toda a turma vai chumbar, mas a gente está tão farta que já nem se importa. As aulas de português são um massacre. A professora? Coitada, até é simpática, o que a mandam ensinar é que não se aguenta. Por exemplo, isto: No ano passado, quando se dizia “ele está em casa”, ”em casa” era o complemento circunstancial de lugar. Agora é o predicativo do sujeito.”O Quim está na retrete” : “na retrete” é o predicativo do sujeito, tal e qual como se disséssemos “ela é bonita”. Bonita é uma característica dela, mas “na retrete” é característica dele? Meu Deus, a setôra também acha que não, mas passou a predicativo do sujeito, e agora o Quim que se dane, com a retrete colada ao rabo. 

No ano passado havia complementos circunstanciais de tempo, modo, lugar etc., conforme se precisava. Mas agora desapareceram e só há o desgraçado de um “complemento oblíquo”. Julgávamos que era o simplex a funcionar: Pronto, é tudo “complemento oblíquo”, já está. Simples, não é? Mas qual, não há simplex nenhum,o que há é um complicómetro a complicar tudo de uma ponta a outra: há por exemplo verbos transitivos directos e indirectos, ou directos e indirectos ao mesmo tempo, há verbos de estado e verbos de evento,e os verbos de evento podem ser instantâneos ou prolongados, almoçar por exemplo é um verbo de evento prolongado (um bom almoço deve ter aperitivos, vários pratos e muitas sobremesas). E há verbos epistémicos, perceptivos, psicológicos e outros, há o tema e o rema, e deve haver coerência e relevância do tema com o rema; há o determinante e o modificador, o determinante possessivo pode ocorrer no modificador apositivo e as locuções coordenativas podem ocorrer em locuções contínuas correlativas. Estão a ver? E isto é só o princípio. Se eu disser: Algumas árvores secaram, ”algumas” é um quantificativo existencial, e a progressão temática de um texto pode ocorrer pela conversão do rema em tema do enunciado seguinte e assim sucessivamente. 

No ano passado se disséssemos “O Zé não foi ao Porto”, era uma frase declarativa negativa. Agora a predicação apresenta um elemento de polaridade, e o enunciado é de polaridade negativa. 

No ano passado, se disséssemos “A rapariga entrou em casa. Abriu a janela”, o sujeito de “abriu a janela” era ela,subentendido. Agora o sujeito é nulo. Porquê, se sabemos que continua a ser ela? Que aconteceu à pobre da rapariga? Evaporou-se no espaço? 

A professora também anda aflita. Pelo vistos no ano passado ensinou coisas erradas, mas não foi culpa dela se agora mudaram tudo, embora a autora da gramática deste ano seja a mesma que fez a gramática do ano passado. Mas quem faz as gramáticas pode dizer ou desdizer o que quiser, quem chumba nos exames somos nós. É uma chatice. Ainda só estou no sétimo ano, sou bom aluno em tudo excepto em português,que odeio, vou ser cientista e astronauta, e tenho de gramar até ao 12º estas coisas que me recuso a aprender, porque as acho demasiado parvas. Por exemplo,o que acham de adjectivalização deverbal e deadjectival, pronomes com valor anafórico, catafórico ou deítico, classes e subclasses do modificador, signo linguístico, hiperonímia, hiponímia, holonímia, meronímia, modalidade epistémica, apreciativa e deôntica, discurso e interdiscurso, texto, cotexto, intertexto, hipotexto, metatatexto, prototexto, macroestruturas e microestruturas textuais, implicação e implicaturas conversacionais? Pois vou ter de decorar um dicionário inteirinho de palavrões assim. Palavrões por palavrões, eu sei dos bons, dos que ajudam a cuspir a raiva. Mas estes palavrões só são para esquecer, dão um trabalhão e depois não servem para nada, é sempre a mesma tralha, para não dizer outra palavra (a começar por t, com 6 letras e a acabar em “ampa”, isso mesmo, claro.) 

Mas eu estou farto. Farto até de dar erros, porque me põem na frente frases cheias deles, excepto uma, para eu escolher a que está certa. Mesmo sem querer, às vezes memorizo com os olhos o que está errado, por exemplo: haviam duas flores no jardim. Ou : a gente vamos à rua. Puseram-me erros desses na frente tantas vezes que já quase me parecem certos. Deve ser por isso que os ministros também os dizem na televisão. E também já não suporto respostas de cruzinhas, parece o totoloto. Embora às vezes até se acerte ao calhas. Livros não se lê nenhum, só nos dão notícias de jornais e reportagens,ou pedaços de novelas. Estou careca de saber o que é o lead, parem de nos chatear. Nascemos curiosos e inteligentes, mas conseguem pôr-nos a detestar ler, detestar livros, detestar tudo. As redacções também são sempre sobre temas chatos, com um certo formato e um número certo de palavras. Só agora é que estou a escrever o que me apetece, porque já sei que de qualquer maneira vou ter zero. E pronto, que se lixe, acabei a redacção - agora parece que se escreve redação.O meu pai diz que é um disparate, e que o Brasil não tem culpa nenhuma, não nos quer impôr a sua norma nem tem sentimentos de superioridade em relação a nós, só porque é grande e nós somos pequenos. A culpa é toda nossa, diz o meu pai, somos muito burros e julgamos que se escrevermos ação e redação nos tornamos logo do tamanho do Brasil, como se nos puséssemos em cima de sapatos altos. Mas, como os sapatos não são nossos nem nos servem, andamos por aí aos trambolhões, a entortar os pés e a manquejar. E é bem feita, para não sermos burros. 

E agora é mesmo o fim. Vou deitar a gramática na retrete, e quando a setôra me perguntar: Ó João, onde está a tua gramática? Respondo: Está nula e subentendida na retrete, setôra, enfiei-a no predicativo do sujeito. 

João Abelhudo, 
8º ano, 
setôra, sem ofensa para si, que até é simpática. »

Passos, mentiras e RTP

Eu não vi, não vejo, não verei ..
Este gajo dá-me azia, não lhe suporto, nem a imagem, nem a voz. A dele mais a dos seus comparsas.

Retiradas do facebook, aqui vão as opiniões de quem ainda tem pachorra para o aturar, mais o boneco do Kaos:

«A RTP montou e pagou o cenário, recrutou umas tantas pessoas, que fizeram o papel de perguntadores. As perguntas apenas serviam para Passos Coelho fingir que estava a responder a alguém, quando, na verdade, estava a dizer o mesmo de sempre, a anunciar o mesmo de sempre, mais austeridade e mais austeridade. E foi neste quadro que anunciou mais um Orçamento rectificativo para este ano.»

«Fraquinho, fraquinho, fraquinho 

Passos Coelho é um primeiro-ministro apoucado pelos portugueses. Se aparece no espaço público logo surgem uns tantos a insultá-lo, a confrontá-lo com as desgraças da sua governação. Confesso que tinha curiosidade em ver»-- ler mais: incursoes.blogs.sapo.pt

Há quem baixe os olhos, com vergonha das respostas dele e quem aguente o olhar, entre o alucinado e o incrédulo. Experiência dolorosa para os representantes do país que pergunta.
BATE LEVE, LEVEMENTE, A DERRAPAGEM DAS CONTAS PÚBLICAS

No meio do talk show da RTP que decorreu esta noite, o alegado primeiro-ministro anuncia um novo Orçamento Rectificativo para este ano de 2013. (http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=cogdP5SmQmI).

Como escreve Pedro Marques (https://www.facebook.com/pedro.mj.marques/posts/531911633563742), “o Governo assume que precisa de receitas extraordinárias, não apenas por perder outras receitas, mas também porque há despesa ou dívida descontrolada.”

É o círculo vicioso da austeridade.
O que se está a passar no canal 1 com o 1º M é patético, para não dizer pindérico.
Como é que o canal público se permite dar 1h e meia de antena ao 1º M para exclusiva PROPAGANDA POLÍTICA E ANESTESIA SOCIAL, numa altura em que está em extrema dificuldade pelos erros e contradições que tem cometido.
Aquele ar preocupado do 1ºM com os mais pobres é confrangedor...
E DEPOIS O HOMEM FALA DE TUDO SOBRE TUDO E NADA DIZ...


Voltei ao canal 1 e a venda de banha de cobra e de ilusões continua. Não sei se aquela gente que faz perguntas as combinou ou não. Mas tenho a impressão que estão radiantes por aparecerem a televisão a fazer perguntas ao GRANDE APACHE!!!

09/10/13

O senhor 33 e outros 3


no Público 
de 9 de Setembro de 2013 

por Santana Castilho *

O senhor 33 e outros 3

1. Há declarações de políticos que me deixam perplexo. Verdadeiramente baralhado. Subestimam a inteligência alheia? Perderam a deles, a mínima? Escabrosa atrapalhação argumentativa para justificar o injustificável? Mentalidade monárquica onde devia reinar probidade republicana? Ou simples sinais da miséria moral em que a política parece mergulhada? Como é possível que pessoas de farta experiência profissional e política caiam no absurdo que resulta da comparação do que dizem com o que disseram ou fizeram? Exemplos? O senhor 33 (contei 33 cargos em órgãos sociais de empresas portuguesas, a maioria da alta finança, antes de ser ministro) não pode desconhecer, muito menos violá-la gravemente, a autonomia do Ministério Público. Porque é advogado. Porque foi professor de Direito. Porque é ministro de Estado. Em escassos dois meses, Rui Machete deu azo a demasiadas manchetes: a eufemística “incorrecção factual”, a trapalhada do preço das acções da SLN e, agora, o despudor de comentar um processo judicial e pedir desculpa pela sua existência, com que aviltou a dignidade do país e da sua magistratura. Foi demais. É inaceitável. 

de Max Ernst
Cavaco Silva disse na Suécia que é masoquismo afirmar que a nossa dívida pública não é sustentável. Mas, nas comemorações do 10 de Junho de 2010, sentenciou, referindo-se à divida: “… como avisei na altura devida, chegámos a uma situação insustentável …” No discurso da sua posse, em 9 de Março de 2011, insistiu, citando o Governador do Banco de Portugal: “… são insustentáveis … a trajectória da dívida pública …” Na mensagem de Ano Novo, a 1 de Janeiro de 2013, reincidiu: “… é essencial que todos compreendam que as dificuldades que Portugal atravessa derivam do nível insustentável da dívida do Estado …” Finalmente, em Março de 2013, escreveu, em prefácio de livro seu: “… a trajectória insustentável da dívida pública …”. Ou seja, Cavaco Silva começou a considerar insustentável a dívida, quando ela representava 94% do PIB. Mas considera masoquistas aqueles que assim a consideram, agora que ela se aproxima dos 130% do PIB. Mastigar de boca aberta é sempre deselegante. Seja bolo-rei, sejam declarações políticas recentes. 

Na quinta-feira passada vi um Portas exultante a dizer que não havia TSU de pensionistas nem austeridade acrescentada. Dois dias volvidos, a anunciada TSU dos sobrevivos mostrou, uma vez mais, como se dissolve no ar tudo o que diz. 

Surpreendente tudo isto? Não, se remexermos na memória incómoda e invocarmos o programa do XIX Governo constitucional. Sob a epígrafe “Confiança, Responsabilidade, Abertura”, garantia-nos Passos Coelho que “… nada se fará sem que se firme um pacto de confiança entre o Governo e os portugueses … “ Mas aonde poderíamos chegar se não a este pântano, que não pacto, de confiança institucional, se o homem que havia interrogado o país sobre a continuidade de um primeiro-ministro que mentia, referindo-se a Sócrates, rápido se revelaria muito mais mentiroso que o antecessor? 

2. Há dias foi tornado público um relatório de actividade das comissões de protecção de crianças e jovens em risco. Esse documento qualifica como muito significativo o aumento das situações que comprometem o direito à educação. E quantifica o fenómeno: 22,2 % dos casos registados no primeiro semestre de 2013 são violações dos direitos dos menores à educação. Foram registados sob esta epígrafe 3.147 novos casos. O absentismo e o abandono escolar já são a segunda maior ameaça a menores na tipologia adoptada pela Comissão Nacional de Protecção de Crianças e Jovens em Risco (CPCJR). 

Desde 2010, 135.000 carenciados deixaram de receber o Rendimento Social de Inserção (RSI). Este ano já foram excluídos 20.000 beneficiários. As continuadas alterações às regras de concessão multiplicaram pelo país fora bolsas de sofrimento atroz, onde os direitos humanos básicos não existem. Para milhares de crianças, a esperança que uma escola inclusiva as acolha vai de passo síncrono com a esperança dos pais em serem socialmente integrados. 

Se compulsarmos proclamações e discursos de economistas, sociólogos e políticos, se percorrermos os documentos de avaliação e prospectiva das instituições transnacionais, impõe-se a qualquer observador um denominador comum: a educação é fonte de riqueza e o melhor veículo de inclusão e promoção social. Este papel da educação, universalmente reconhecido, deveria, em tempos de crise, suscitar reforço de empenhamento do Estado. Porque há uma relação incontornável entre economia e educação. Porque o relaxamento do esforço com a educação torna a crise crónica. Pior que o empobrecimento da bolsa e das bolsas é o empobrecimento do conhecimento e do espírito. 

Há um país real, que reflecte o desastre social provocado pelas políticas sociais do Governo. Há um Governo em negação, que valsa de modo macabro entre uma austeridade assassina e o carnaval patético do regresso aos mercados. 

* Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt)

05/10/13

1ª República, essa desconhecida

O Homem da Carbonária 

de Carlos Ademar

Sinopse 

Um fascinante retrato da Lisboa dos primeiros anos da República. Lisboa, ano de 1926. 

Certa manhã, um ardina de O Século encontrou no Jardim da Estrela o corpo do chefe da segurança do Presidente do Conselho. Tal como o líder do Governo, também o seu guarda-costas era membro da sociedade secreta Carbonária Portuguesa. Afonso Pratas, o veterano chefe da Polícia de Investigação Criminal, tomou em mãos a resolução de um dos seus mais intrincados casos. O assunto era melindroso e as hipóteses demasiadas: um banal assalto com consequências inesperadas? Uma questão passional envolvendo a bela mulher do chefe de gabinete? Ambições pessoais de camaradas de armas? Vinganças políticas perpetradas pelos integralistas? Uma complexa questão de Estado? 

O Homem da Carbonária é um fascinante retrato de uma Lisboa de outros tempos, com os seus eléctricos ronceiros, praças e avenidas plenas de gente elegante, vendedores de castanhas ou floristas no Rossio, mas também da cidades dos tumultos e das greves operárias, da maldita cocaína e do Parque Mayer. 

Um livro de leitura obrigatória que recupera o ambiente ímpar dos primeiros anos da República. (fonte

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Carlos Ademar nasceu em Vinhais, em 1960.

Em 1987 entrou para a Polícia Judiciária, onde exerce a actividade de investigador criminal na Secção de Homicídios. Colaborou na investigação de alguns dos mais célebres crimes ocorridos na Grande Lisboa, como os que ficaram conhecidos pelos nomes de "Skinheads" e "O Estripador".

A licenciatura em História consuma uma paixão antiga. Resta ainda o sonho de uma viagem pelo Mediterrâneo para visitar as grandes cidades históricas por ele banhadas.

O gosto pela escrita acompanha-o desde sempre. É autor das obras "O Caso da Rua Direita" (2005), O Homem da Carbonária" (2006) e "Estranha Forma de Vida" (2007), editadas pela Oficina do Livro. "Memórias de um Assassino Romantico" é o seu quarto romance.

A República e a escola primária

no Público,
05/10/2013
-- fonte

por Alberto Pinto Nogueira*


A escola primária, como se dizia, assentava num morro sobre o Douro. Sobre a Afurada, onde o rio se afunda no mar. 

O Sr. Morais era o professor. Baixinho, gordinho e afável. Em quatro anos, tivemos uns bons meses de férias. Fora das férias. Dizia-se, à boca calada, que uns homens de fato e chapéu negros o tinham levado. Num carro negro. 

Regressava menos gordinho. Sempre de olhar firme nos olhinhos azuis, por detrás dos óculos. 

Nos aniversários da República, a lição e os “deveres de casa” eram sempre os mesmos. Contava que, nos primórdios do século, um lavrador abastado e literato, José Relvas, escalou os Paços do Concelho, em Lisboa, gritou, em nome dos revoltosos: “Viva a República!”. 

Ensinava coisas que não vinham nos livros. Acrescentava que o mais importante está na vida. “Esta matéria” não é para exame. Saber não ocupa lugar. Nem no corpo, nem no espírito. 

Adicionei e cotejei os ensinamentos do Sr. Professor (não, do “ prof”), com os recolhidos na Faculdade, no sentir da vida. Revisitei os caderninhos de duas linhas já bem amarelecidos, roídos aqui e ali, verifiquei quão grande era o saber do Sr. Morais! 

A monarquia e o rei tinham sido derrubados por muitas razões. O governo ditatorial de João Franco. Escândalos financeiros. O do tabaco. Dos dinheiros ilegais e a rodos cedidos à Coroa para gastanços. 

img. daqui
Falava palavrinhas simples para putos de rua. A República consagrara a liberdade e igualdade de cidadãos. Sem privilégios, títulos ou nobrezas. De nascimento. 

Da Faculdade, recebera que quem mandava era o Congresso da República, em duas câmaras, o Senado e os Deputados. Elegia o Presidente da República por quatro anos não renováveis. O primeiro foi Manuel de Arriaga. 

Para o Congresso, só votava quem tivesse mais de 21 anos, sabendo ler e escrever. Ou “chefes de família”. Votaram 400 mil, dos seis milhões de portugueses. Havia muito analfabeto. Povo rural. 

O Professor explicitava que a República instituíra o ensino primário, geral e obrigatório. Gratuito. Gerara uma formação específica dos professores primários. Asseverava que, depois da Liberdade e Igualdade, o Ensino fora a maior realização da República. 

Criara o divórcio. O Estado não tinha que impor a vigência de um contrato cujos pressupostos haviam falido. Considerava o casamento um contrato. 

Grande busílis da República foi o decreto de 20 de Abril de 1911. A Separação da Igreja do Estado estava certa. O decreto tinha excessos. Desagradou muito à Igreja e ao povo católico. Graves conflitos. 

Retive duas figuras contrastantes: Raul Brandão e Gomes da Costa. Aquele nasceu na Foz do Douro. Filho de pescadores. Escritor, jornalista. Um romântico e republicano. Preocupado, inquiria: “ Quem fez mal à República?”. 

A monarquia deixara a Nação falida. A República fez um enorme esforço de recuperação das contas públicas. Foi interrompido pela participação na I Guerra Mundial. Havia a oposição de muitos prelados. Do Altar. Muitas contradições e guerras fratricidas. Dirigentes que se serviam da República, sem a servirem. 

Gravemente enferma. 

Gomes da Costa, em Braga, polia as dragonas de general, engraxava as botas. Preparava as tropas para o assalto à República, à maneira de movimentos simultâneos em Itália e Espanha. Desceu a Sul, com tambores de “Às armas, Portugal”. Tomou o poder. O Presidente da República, Bernardino Machado, renunciou a 31 de Maio de 1926. 

 O Sr. Professor terminava a aula convicto “Viva a República!”. 

 “Dava-nos” mais um mês de férias! 

* Procurador-Geral-Adjunto

04/10/13

Santana Castilho na Lusófona

VI Seminário de Educação Inclusiva



Sábado, 05 de OUTUBRO de 2013 
Auditório Agostinho da Silva 
Universidade Lusófona (Lisboa)




Comissão Científica 
António Teodoro
Deodato Guerreiro
Isabel Rodrigues Sanches
Joaquim Colôa
Maria João Seabra
Óscar de Sousa
Santana Castilho 


Secretariado do Instituto de Educação Universidade Lusófona
Telf. 217 515 500 - ext. 2176 217 515 531 (direto)
Campo Grande, 376, 1749-024 Lisboa
sec.iceducacao@ulusofona.pt

02/10/13

isto há swaps e ..Swaps!

por Filipe Luís19 de Agosto de 2013 
na Visão
fonte

 Machete purificado

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Se o Presidente da República mantém o cargo, 
por que razão havia o MNE de se demitir? 
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A mentalidade monárquica e a lógica de casta que ainda domina a política, em Portugal, explica muito bem a pressa com que Marques Mendes e Marcelo Rebelo de Sousa arrasaram com um obscuro secretário de Estado e o cuidado que colocaram na defesa de Rui Machete. 

Para os barões do PSD, Machete é um "igual", "um dos nossos", enquanto Joaquim Pais Jorge é um arrivista. É bem provável que o caso Rui Machete/ BPN, mais por via do negócio das ações da SLN do que pelo cargo de presidente do Conselho Superior daquela sociedade, seja mais grave do que a venda falhada de swaps marados. 

Mas o preconceito conta. 

Machete, talvez o político que a mais conselhos de administração de empresas privadas ou organismos públicos pertenceu, é do clã. 

O outro, um reles bancário, representa... o Bloco Central de interesses! (Marques Mendes dixit). 

JPJ, img. daqui
Quando o caso Pais Jorge rebentou, os dois comentadores do PSD exigiram, e bem, a demissão do governante. 


Na mesma semana, porém, ficou a saber-se que Rui Machete comprou ações da SLN, por convite, tendo-as vendido com lucro de 150 por cento. Uma operação legal tal como a de Pais Jorge... mas que estava reservada, apenas, aos escolhidos do então presidente do BPN, Oliveira e Costa (as ações não estavam em bolsa). Neste ponto, ambos o

s comentadores defenderam o ministro, separando-o do caso Pais Jorge. O passado de Pais Jorge não o recomendava para um Governo que elegeu os swaps como um dos cancros da dívida pública.

RM, img. daqui
No entanto, aqueles swaps nunca foram comprados pelo Estado e os portugueses não estão a pagá-los. 

Já o dinheiro ganho por Rui Machete com as ações da SLN faz hoje muita falta aos contribuintes para pagarem o buraco do BPN, que se alargou, aliás, à conta de operações como esta. 

Nessa mesma semana, ouvi, com curiosidade, na SIC Notícias, António Capucho responder a uma pergunta de Ana Lourenço sobre Machete. Mais do que Marcelo e muito mais do que Marques Mendes, Capucho é da casta, da geração e da trincheira política do ministro. Mas o antigo presidente da Câmara de Cascais marcou a diferença. E, embora com amizade e visível mágoa pessoal, disse o que tinha a dizer. Chapeau. 

ESTA SEMANA, o Expresso revelou que, ao mesmo tempo que Rui Machete comprava, para si próprio, ações da SLN a 1 euro, a FLAD, instituição a que presidia, comprava-as a 2,2 euros. Uma discrepância tão difícil de explicar que, instado pelo jornal, o ministro não a explica. O que sabemos é que o então conhecido e correligionário partidário de Oliveira e Costa teve, se comparado com o investimento da FLAD, um "preço especial ". Nos comentários do fim de semana, Marques Mendes ignorou o tema. E Marcelo, em vez de o tratar como um dos assuntos a desenvolver, despachou-o no pacote das perguntas dos telespetadores, no início do seu programa, com um curto comentário de "advogado de defesa". 

Esta pequena história, que podia ter-se repetido em qualquer partido ou, até, entre membros de partidos diferentes, desde que pertencentes à mesma casta... pode ajudar-nos a perceber como funciona o debate político. Mas há um outro pequeno pormenor que convém recordar: é que, se esmiuçassem o caso Machete, os nossos apreciados comentadores teriam de recordar o caso Cavaco Silva/ações SLN. Ora, se o PR mantém o cargo, por que razão havia o MNE de se demitir?

01/10/13

de vencedores-mais-ou-menos

por Miguel Abrantes
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| 30.09.13

PARE, ESCUTE E OLHE: UM COMBOIO PODE ESCONDER OUTRO  


O PS venceu as eleições autárquicas, tendo conseguido a presidência de 149 câmaras municipais, fasquia que nenhum outro partido atingiu até agora. O PSD, cuja organização assenta no caciquismo local, sofreu uma derrota avassaladora. 

Apesar deste vendaval (como lhe chama hoje o Público), uma leitura mais atenta dos resultados globais (http://autarquicas2013.mj.pt/) sugere que se tenha alguma contenção nos festejos. Perante a violenta ofensiva da direita para destruir o Estado social e eliminar os direitos laborais, o PS não consegue superar os resultados que obteve em 2009, quando o país estava a ser varrido pela maior crise internacional dos últimos 80 anos. Veja-se: 
  • Em número de votos, o PS desce em relação a 2009 (menos 270 mil), valor só parcialmente explicável pela abstenção, que tenderá a manifestar-se mais entre os eleitores da direita, desmotivados com a política do actual governo; 
  • Em percentagem de votos, o PS alcança um resultado inferior para as câmaras municipais (36,25% contra 37,67% em 2009), para as assembleias municipais (34,94% contra 36,67% em 2009) e para as assembleias de freguesia (34,69% contra 36,28% em 2009); 
  • Embora tenha obtido mais presidências de câmara (132 em 2009), o número de câmaras em que o PS obteve maioria absoluta é igual em 2009 e 2013 (119); 
  • Relativamente a presidências de juntas de freguesia, o PS desceu (1.272 contra 1.577 em 2009); 
  • Quanto a mandatos, o PS atinge o mesmo número que alcançara para as câmaras em 2009 (921), mas obtém menos mandatos para as assembleias municipais (2.657 contra 2.855 em 2009) e para as assembleias de freguesia (10.790 contra 13.736). 

Mas o aspecto mais relevante destas eleições é a circunstância de a enorme erosão do PSD no eleitorado urbano não ter sido cabalmente capitalizada pelo PS. As importantes vitórias obtidas em Gaia, Sintra, Coimbra e Vila Real são ofuscadas pelas perdas infligidas pelo PSD em Braga e na Guarda e pela CDU em Beja, Évora e Loures. A ideia que fica é que os êxitos conseguidos pelo PS nos concelhos rurais (ou com menos população) não tiveram correspondência nos grandes centros urbanos.

Associada a isto, há uma desilusão não negligenciável com o sistema político, de que são sinais o aumento da abstenção (de 41% para 47%), a subida dos votos brancos e nulos (de 3% para 6,8%) e, num certo sentido, a própria votação de protesto na CDU (11,06% contra 9,75% em 2009).

Neste contexto, muito embora as eleições revelem que a coligação de direita já não tem condições para governar, mostrou também que os eleitores ainda hesitam em relação à capacidade do PS para ser alternativa, em resultado de uma oposição feita com falta de fervor.